A História como tribunal da Razão:

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Sérgio Ricardo da Mata, Helena Miranda Mollo e Flávia Florentino Varella (orgs.). Anais do 3º. Seminário
Nacional de História da Historiografia: aprender com a história? Ouro Preto: Edufop, 2009. ISBN: 978-85288-0061-6
A História como tribunal da Razão:
uma leitura de Gaston Bachelard e Georges Canguilhem
Tiago S. Almeida*
A constituição da História das Ciências como disciplina autônoma se deu num
período em que a história narrava os progressos do espírito. Os exemplos prototípicos dos
seus objetos, sobretudo a Astronomia, se pensarmos no triunfo do mecanicismo e nas
revoluções operadas nas ciências a partir do século XVII, sempre nos brindaram com um
grande número de heróis. E a substituição dos antigos preconceitos, a descoberta do secreto
do mundo, jamais deixou de dar seu testemunho para o exemplo enobrecedor do progresso
humano que se formava gradualmente a partir da ignorância, como pretendiam. Entretanto, o
século XX viu emergir, na França, uma nova compreensão da História das Ciências,
relacionada muito mais às mudanças no seu próprio estatuto que às rupturas ocorridas no
interior das ciências a que se dedicava. Da descrição das variações de teorias e termos e do
recenseamento das inovações tecnológicas associado à história do desenvolvimento das
nações, a História das Ciências passou a investigar o modo próprio a cada ciência para a
produção de “enunciados ou regras que possibilitam sua edificação: trata-se do estilo
epistemológico” (LEBRUN, 2006: 135).
Esse tipo de história foi apresentado por Gaston Bachelard e Georges
Canguilhem, figuras essenciais para a compreensão do pensamento historiográfico e filosófico
francês contemporâneos, mas obliterados pelo sucesso polêmico das investigações anglosaxãs, com destaque para o caso de Thomas Kuhn. É bastante conhecida e igualmente
sintomática a crítica feita por George Steiner a Michel Foucault por não ter citado Kuhn no
livro Les mots et les choses (1966). Foucault respondeu chamando a atenção para o fato de
que citou Georges Canguilhem e que, em relação a ele, Kuhn apresentava poucas novidades
significativas (GUTTING, 2003: 46). O livro The structure of scientific revolutions (KUHN,
2000) foi publicado pela primeira vez em 1962, mesmo ano em que Bachelard morre, após ter
escrito doze livros diretamente associados à história epistemológica das ciências, a exemplo
de Étude sur l’évolution d’un problème de physique (1927), Le nouvel esprit scientifique
(1934), La formation de l’esprit scientifique (1938), La philosophie du “non” (1940), Le
*
Aluno do Mestrado em História Social da USP. Esse texto é parte da pesquisa “Aventuras e estratégias da
razão: sobre a História Epistemológica das Ciências”, desenvolvida sob orientação da Profa. Dra. Sara Albieri.
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Sérgio Ricardo da Mata, Helena Miranda Mollo e Flávia Florentino Varella (orgs.). Anais do 3º. Seminário
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rationalisme appliqué (1949), L’activité rationaliste de la physique contemporaine (1951) e
Le matérialisme rationnel (1953). Também Canguilhem já havia publicado seus primeiros
trabalhos de grande relevância, como Essai sur quelques problèmes concernant le normal et
le pathologique (1943), La formation du concept de réflexe aux XVIIe et XVIIIe siècles (1955)
e Du développement à l’évolution au XIXe siècle (1962). A eloqüente – mas talvez injusta,
posto que negligente – introdução do livro de Thomas Kuhn (“se a História fosse vista como
um repositório para algo mais do que anedotas ou cronologias, poderia produzir uma
transformação decisiva na imagem de ciência que atualmente nos domina”) se justifica apenas
pela lenta recepção que Bachelard teve entre os leitores de língua inglesa. O conceito de
ruptura (que já rendeu a Bachelard o título de “santo patrono do estruturalismo” 1), por
exemplo, iniciou sua carreira fora da França diluído nos trabalhos de Louis Althusser, e Kuhn,
ao que se sabe, conheceu essa perspectiva francesa a partir dos trabalhos de Alexandre Koyré,
Émile Meyerson e Hélène Metzger.
Tal modelo, entretanto, não era unânime e encontrou forte resistência no ambiente
acadêmico francês. Num debate cuja repercussão ainda nos é familiar, Henri Guerlac acusou
de “idealistas” os defensores de uma história intelectual das ciências, alegando que
ignoravam a íntima relação entre ciência pura e aplicada, desconsiderando o papel da ciência
como fator histórico. Canguilhem sintetizou os termos do debate na diferença entre duas
formas de abordagem da história das ciências conhecidas entre os historiadores anglo-saxões
como externalismo e internalismo:
O externalita vê a história das ciências como uma explicação de um fenômeno cultural
através do condicionamento do meio cultural global, e assimila-a, por conseguinte, a
uma sociologia naturalista das instituições, desprezando completamente a
interpretação de um discurso com pretensão de verdade. O internalista vê nos fatos da
história das ciências, por exemplo os casos da descoberta simultânea (cálculo
infinitesimal, conservação da energia), fatos dos quais não se pode fazer história sem
teoria. Aqui, por conseguinte, o fato da história das ciências é tratado como um fato da
ciência, a partir de uma posição epistemológica que consiste em privilegiar a teoria
relativamente ao dado empírico (CANGUILHEM, 2002: 15).
1
MERQUIOR, De Praga a Paris, p. 60. “Sempre que a filosofia estruturalista, ou melhor, paraestruturalista, se
voltava para a história, num plano teórico (Althusser) ou no nível da obra historiográfica concreta (Foucault), em
vez de um esforço para captar a mudança histórica, tudo o que se conseguia era a sacralização das ‘rupturas’,
uma noção útil apresentada pelo epistemólogo Gaston Bachelard (1884-1962) mas muito enfatizada por
Althusser e seu discípulo Foucault.” Ibidem, p. 243.
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A ciência não pode ser rastreada a partir dos instrumentos, das técnicas ou a partir
do desenvolvimento das nações; ela possui uma história imanente “e é somente em função de
sua própria história que ela pode ser compreendida pelos seus historiadores” (KOYRÉ, 2003a:
398-399). Canguilhem percebeu que muito do que os discursos externalistas chamam de
ciência justifica-se muito mais por tradição, por questões ideológicas, de ordem econômica ou
política do que por uma avaliação crítica dos seus critérios de racionalidade, daí a atenção à
prática técnica. A relação entre ciência e sociedade no modelo internalista, por sua vez, é
percebida no processo de deslocamento das concepções fundamentais que a cada época
achamos necessárias para nossa atividade racional e nos processos de transformação da
estrutura de pensamento do homem (KOYRÉ, 2003b: 11). Em 1953, ano da primeira
publicação de Le matérialisme rationnel, passado pouco tempo desde a utilização das
primeiras armas atômicas, Bachelard anunciava que vivíamos num período da história em que
a Física e a Química nuclear marcavam definitivamente sua importância no futuro das
sociedades, “tão grande é a verdade do destino do homem estar ligado aos seus pensamentos”.
Após a ruptura einsteiniana, o crescimento dos conhecimentos sobre as possibilidades da
matéria dava aos homens meios de poder que ultrapassavam “todos os sonhos de poder do
filósofo”, configurando, assim, de forma bastante complexa a ligação entre a vontade de
poder e a vontade de saber. É somente em função de um marxismo empobrecido de sociedade
rica que se pode acusar essa história de idealista (CANGUILHEM, 2002b: 15).
Mas é preciso entender o que significa dizer “história epistemológica das
ciências”, pois não há obviedade alguma acerca do seu objeto. No triênio 1964-66,
principalmente, esses questionamentos guiaram os estudos, pesquisas e trabalhos no Institute
d’Histoire des Sciences et des Techniques, órgão da Universidade de Paris dirigido à época
por Georges Canguilhem e, antes dele, por Gaston Bachelard. Datam desse período La
connaissance de la vie (1965) e Le normal et le pathologique (1966), livros revolucionários
de Canguilhem, além de diversos artigos e textos de conferências reunidos em seu Études
d’histoire et de philosophie des sciences concernant les vivants et la vie (1968). Num desses
artigos, Canguilhem define o objeto da história das ciências como “a historicidade do discurso
científico, na medida em que essa historicidade representa a efetuação de um projeto
interiormente normatizado” (CANGUILHEM, 2002: 17).
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Esse projeto de caráter essencialmente não-linear, afirma Canguilhem, é
atravessado por descontinuidades e obstáculos epistemológicos, ou seja, é marcado por
momentos de julgamento e verdade. Tal compreensão é um desdobramento da admissão por
Bachelard já em seu primeiro livro, Essai sur la connaisance approchée (1927), da idéia de
que a própria ciência – e não um princípio externo a ela, seja ele metafísico ou sociológico –
produz suas normas e critérios de existência, eliminando e selecionando conceitos a partir de
um esforço de racionalização. Entretanto, o objeto da história das ciências não deixa de se
relacionar com a “não-ciência, com a ideologia, com a prática política e social”, mas de uma
forma bastante específica, como no exemplo dos estudos de Canguilhem sobre os conceitos
de “desenvolvimento” e “evolução” na biologia do século XIX, cujo interesse ele explicou
pelo uso prático que lhes era atribuído pela psicologia, pedagogia e política. A crítica de
Canguilhem aos internalistas consiste na assimilação que frequentemente propunham do
objeto da história das ciências ao objeto de uma ciência. Ao fazer isso, admitiam para a
história das ciências um objeto natural, um objeto científico, e não um objeto cultural
constituído pelo discurso metódico. O objeto da história das ciências, para Canguilhem, “não
deve ser procurado em outro lugar que não seja a própria história das ciências, pois é esta, e
só ela, que constitui o domínio específico onde têm o seu lugar as questões teóricas postas
pela prática científica no seu devir” (CANGUILHEM, 2002b: 18-19). De acordo com Gérard
Lebrun, essa nova concepção do objeto da história das ciências é uma das condições de
possibilidade da epistemologia, pois implica que as ciências não portam verdades imutáveis
que testemunhariam a glória da “ratio” e, segunda condição, permite que elas sejam
submetidas a um exame histórico e filológico:
a) histórico: as ciências são aventuras contingentes (da razão... se não podemos
dispensar uma personagem) e suas proposições podem ser tratadas enquanto
acontecimentos, como, ainda que de modo nebuloso, o elogio que Kant dispensa a
Tales e a Galileu deixa entrever; b) filológico: é possível conferir-lhes o estatuto de
um texto e considerar cada uma delas como um corpus de fórmulas (enunciados,
protocolos, indicações de pesquisa...) no qual se deposita um trabalho coletivo, cujas
articulações exprimem escolhas ou decisões. Essa segunda condição pode ser mais
bem enunciada da seguinte maneira: o fato de haver “história da ciência” implica que
a palavra epístasthai designa uma aventura; o fato de haver epistemologia implica que
designa uma estratégia. Nada mais que isso (LEBRUN, 2006: 137-138).
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A epistemologia não era possível enquanto não fosse permitido às ciências ter
uma história própria, ou seja, enquanto admitia-se que a Razão homogênea, a scientia
generalis, produzia todos os critérios de racionalidade dos quais as ciências particulares eram
apenas a objetivação. Não fosse pelas ciências particulares, a razão jamais tomaria
conhecimento de si, pois, nos diz Canguilhem, “ela não está fundada na verdade divina ou na
exigência de unidade das regras do entendimento”. E tanto Lebrun quanto Canguilhem citam
Bachelard em sua “mordacidade costumeira”: “A aritmética não está fundada na razão. É a
doutrina da razão que está fundada na aritmética elementar. Antes de saber contar, eu não
tinha a menor idéia do que era a razão”.2
Então, à pergunta feita por Dominique Lecourt (2002: 10), “quais elementos da
epistemologia bachelardiana dão lugar a um novo conceito de história das ciências?”,
podemos responder que não se trata de uma relação tão simples de progênie, mas “de uma
reflexão teórica indispensável que permite à história das ciências constituir-se de uma maneira
diferente da história em geral” e que, por sua vez, “a história das ciências abre o domínio da
análise indispensável para que a epistemologia seja outra coisa que a simples reprodução dos
esquemas internos de uma ciência em um dado momento” (FOUCAULT, 2000: 361).
Bachelard viveu o grande momento da teoria da Relatividade, quando alguns
conceitos que se acreditava afixados para sempre foram deformados ou abandonados. Não há
transposição entre os sistemas de Newton e Einstein (PARROCHIA, 2003: 153). Em suma,
Einstein não fez um avanço quantitativo em relação à Física anterior (como pretendeu, por
exemplo, Émile Meyerson), mas provocou uma mudança na forma de pensar – uma ruptura
epistemológica –, a tal ponto que, para Bachelard, o ano de 1905 marca o nascimento do novo
espírito científico e prova incontestavelmente a historicidade da razão. Da mesma forma, o
que antes aparecia ao historiador como uma mudança provocada pela irredutibilidade da
matéria a uma teoria aceita, em Bachelard é explicado pelo ato mesmo de conhecer, como
obstáculo epistemológico, um entrave à razão, causa de estagnação ou retrocesso. Explicando
a originalidade de Bachelard como historiador, Canguilhem afirmou que “se a história das
ciências consiste em tornar inteligível a edificação difícil, contrariada, retomada e retificada
do saber, então a epistemologia de Bachelard é uma história das ciências sempre em ato”
(CANGUILHEM, 2002b: 178).
2
BACHELARD, La philosophie du non, p. 144, apud CANGUILHEM, Dialetique et philosophie du non chez
Gaston Bachelard, p. 200. Lebrun (Op. cit., p. 136) cita Bachelard a partir desse artigo de Canguilhem.
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Com efeito, as crises de crescimento do pensamento implicam uma reorganização total
do sistema de saber. A cabeça bem feita precisa então ser refeita. Ela muda de espécie.
Opõe-se à espécie anterior por uma função decisiva. Pelas revoluções espirituais que a
invenção científica exige, o homem torna-se uma espécie mutante, ou, melhor
dizendo, uma espécie que tem necessidade de mudar, que sofre se não mudar
(BACHELARD, 1996: 20).
Então, dois problemas: um, a história epistemológica das ciências, tendo admitido
que apenas os discursos das ciências acerca do mundo empírico constituem seu objeto, seria
fundamentalmente positivista e, dois, se as ciências não testemunham mais o progresso do
espírito, se não há um princípio metafísico ou transcendental que garanta sua evolução, e se
existem obstáculos que podem denunciar a qualquer momento a insuficiência ou inadequação
de um sistema de pensamento, então seria possível uma recaída no irracionalismo.
O caráter positivista da história das ciências, como demonstramos, é resultado de
sua perspectiva epistemológica. E, de fato, o problema só existe se não tivermos em conta a
precisão do enunciado da heterogeneidade das ciências, segundo o qual “a razão pura deixa de
lançar sobre as ciências o olhar egoisticamente benévolo do genitor” (LEBRUN, 2006: 136).
Auguste Comte é indicado por Foucault como sendo um dos primeiros, na França, a se
dedicar a essa filosofia do saber, da racionalidade e do conceito que no século XX passou a
fazer parte da consciência historiográfica, numa filiação em que localizou Cavaillès,
Bachelard, Koyré e Canguilhem (FOUCAULT, 2000: 353). Porém, antes de Bachelard, era
bastante comum nas pesquisas em história das ciências atribuírem certas explicações
recorrentes sem relação com as possibilidades enunciativas, ou, melhor dizendo, para nos
mantermos mais próximos da linguagem bachelardiana, com as condições psicológicas da
época estudada (BACHELARD, 1999: 34). É o caso, por exemplo, de afirmar que Priestley é
o verdadeiro descobridor do oxigênio por ter sido o primeiro a produzi-lo em laboratório –
embora o interpretasse erroneamente como ar desflogisticado – ao contrário de Lavoisier, que
compreendeu o oxigênio como um elemento químico. Mas a história das ciências proposta e
empreendida por Bachelard trabalha na investigação dos conceitos enquanto categoria mais
fundamental que as teorias, termos ou fenômenos, distanciando-se fundamentalmente do
modelo positivista. Conforme Canguilhem, a história das ciências pode, sem dúvida, admitir
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“vários níveis de objetos no domínio teórico específico que ela constitui: documentos para
catalogar; instrumentos e técnicas para descrever; métodos e questões para interpretar;
conceitos para analisar e criticar. Só esta última tarefa confere às antecedentes a dignidade de
história das ciências” (CANGUILHEM, 2002b: 19).
Os conceitos são essencialmente históricos, seja por terem um passado que
apresenta diferentes formas de entendimento, seja por fazerem parte de um projeto histórico
inacabado e marcado pela sua constante objetivação quase sempre descontínua. Nestas
condições, “a difícil história das ciências não pertence ao reino dos fatos ou dos documentos,
mas ao mundo dos valores de coerência e de reconstrução” (DAGOGNET, 1980: 14). Sendo
assim, o retorno às origens de um pensamento, como se fosse possível encontrar a explicação
metafísica necessária e contínua a todo o seu desenvolvimento, cede lugar ao problema dos
novos fundamentos que legitimam a ciência após cada ruptura; é preciso considerar o
conhecimento “em seu fluxo, quando está intimamente ligado à reflexão e longe de sua
origem sensível. Só então ele tem um sentido pleno. A fonte é um mero ponto geográfico e
não contém a força viva do rio” (BACHELARD, 2004: 18). Em função disso, Bachelard
estabeleceu, a partir de uma crítica dos valores racionais, uma história que difere das demais
pelo seu caráter essencialmente normativo.
Em suma, a história das ciências é essencialmente uma história julgada, julgada no
pormenor da sua trama, com um sentido que deve ser permanentemente afinado com
valores de verdade. A história das ciências não pode ser simplesmente uma história de
registros. As atas das academias contêm naturalmente numerosos documentos para a
história das ciências. Mas estas atas não constituem verdadeiramente uma história das
ciências. É preciso que o historiador das ciências trace, a partir delas, linhas de
progresso (BACHELARD, 1991: 83).
O historiador que se dedica ao estudo das práticas alquímicas, à teoria do
flogístico ou à coerência do sistema de Ptolomeu, resigna-se em fazer uma “história
perimida”, psicologia de uma ciência que não encontra mais representantes na atualidade e
que ignora o processo descontínuo de formação do espírito científico contemporâneo
(BACHELARD, 1951: 25). Em oposição a essa história, Bachelard cita as investigações sobre
os trabalhos de Black, que apesar das várias revisões determinaram os calores específicos,
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noção cara à Física e à Química contemporânea. Daí a existência de “um interesse constante
em conhecê-los teoricamente, em elucidá-los epistemologicamente, em seguir sua
incorporação num conceito de elementos racionalizados” em imprimir-lhes, portanto, uma
“história sancionada” (BACHELARD, 1951: 24). É assim que chegamos à idéia de
recorrência histórica, fórmula de Bachelard para explicar a relação que os conceitos
científicos mantêm com a sua própria história sob a ótica de uma epistemologia da
descontinuidade do saber e, ao mesmo tempo, explicar como essa história age sobre a cultura
científica atual.
Em conferência no Palais de la Découverte, Bachelard anunciou que seu projeto
consistia em procurar quais as “condições e sob que forma a história das ciências pode ter
uma ação positiva sobre o pensamento científico de nosso tempo” (BACHELARD, 1991: 70).
Chegamos ao ethos da história epistemológica. É Foucault que, mais uma vez, resume essa
postura:
Trata-se de saber, por exemplo, como um conceito – carregado ainda de metáforas ou
de conteúdos imaginários – se purificou e pôde assumir status e função de conceito
científico; de saber como uma região de experiência, já demarcada, já parcialmente
articulada, mas ainda atravessada por utilizações práticas imediatas ou valorizações
efetivas, pôde constituir-se em um domínio científico; de saber, de modo mais geral,
como uma ciência se estabeleceu acima e contra um nível pré-científico que, ao
mesmo tempo, preparava e resistia ao seu avanço, e como pôde transpor os obstáculos
e as limitações que ainda se lhe impunham. G. Bachelard e G. Canguilhem apresentam
os modelos desta história (FOUCAULT, 1987: 215).
Para Bachelard a história assume a dupla função que a Filosofia carregou ao longo
da segunda metade do século XIX: diagnóstico e terapêutica. Para ele, o historiador das
ciências é como um psicólogo do espírito objetivo, que faz história “para ajudar a tomar
consciência da força de certas barragens que o passado de pensamento científico erigiu contra
o irracionalismo”. Embora essa definição do papel do historiador pareça supor o mesmo
princípio iluminista que afirmava o progresso do espírito, Bachelard, leitor de Nietzsche,
desloca a questão do progresso de uma filosofia da história para uma filosofia da cultura. É
verdade que para Bachelard a história das ciências descreve o aprimoramento da razão e a
impossibilidade de retorno nesse caminho exige que a cultura científica assuma caráter
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normativo, mas não porque uma força supra-histórica assim determina. O que garante o
progresso em Bachelard é der Wille zur Vernunft (grafado em alemão no texto original), isto
é, a vontade para a razão – numa clara referência a der Wille zur Macht, conceito
nietzschiano de a vontade para o poder –, a ruptura consciente com tudo que representa
entrave ao esclarecimento, tendo como condição de possibilidade o reconhecimento da
historicidade intrínseca à razão. “Vamos pois adotar como postulado da epistemologia o
caráter sempre inacabado do conhecimento”, disse Bachelard (2004: 17). Sua epistemologia,
portanto, diz respeito ao conjunto das relações práticas ou teóricas que definem nossa
modernidade.
Essa exigência de diagnósticos é fruto tanto da negação da concepção iluminista
de desenvolvimento progressivo e teleológico do espírito humano verificado empiricamente
através dos fatos e leis históricas, como da negação do processo histórico como realização do
que Hegel chamou de razão divina universal. Para Bachelard, toda cultura deve começar por
“uma catarse intelectual” e somente através do conhecimento da atualidade é que podemos
“oferecer à razão razões para evoluir” (BACHELARD, 1996: 24). As rupturas e os atos
epistemológicos são a concretização dessa tomada de consciência que garantem a
possibilidade de mudança, a postura filosófica de quem cansou de esperar inutilmente que o
mundo mudasse por si só, e não simplesmente a formulação epistemológica das antigas
teorias de progresso. É a nova perspectiva de progresso que exige do historiador a criação de
juízos de valor sobre o passado, o que só é possível graças à epistemologia. “A história que
ela conta é necessariamente escandida pela oposição verdade e erro, racional e irracional,
obstáculo e fecundidade, pureza e impureza, científico e não-científico” (FOUCAULT, 1987:
216). A história das ciências, sendo a história das ligações racionais do saber, a história das
normas que a ciência cria no seu processo de auto-regulação, tem, segundo Bachelard, a
função de nos mostrar que podemos pensar diferente e, mais importante, lembrar que já não
podemos pensar como antes.
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