Sexualidade e politica

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Sexualidade e política: maio de 68 e depois...
Alípio de Sousa Filho
Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
I.
Tratando-se de lembrar o Maio de 68, talvez fosse útil retratar ou descrever o
ambiente movimentado e complexo dos anos 60 como são capazes de fazê-lo os
historiadores, mas não me entregarei a essa tarefa. Não irei, por outro lado, fazer aqui o
que muitos chamam de “contextualização”, quando o que fazem é apenas usar certos
jargões sobre as “condições econômicas e políticas” nas quais os fatos se situariam.
Interessa-me mais apresentar as idéias sobre a sexualidade que circulavam no ambiente
dos anos 60 e relacioná-las às reflexões que fazemos hoje sobre o assunto: maio de 68 e
depois...
Maio de 68 começou com o sexo. Os estudantes da Universidade de ParisNanterre, (instituição que recebia aqueles que não conseguiam ingressar na Sorbonne, e,
por isso, universidade periférica e contestatária na crise criada pela massificação do
ensino), iniciaram sua revolta contra as “autoridades conservadoras da Universidade”.
Autoridades que já haviam proibido, em março de 1968, uma conferência sobre a obra
de Wilhelm Reich (morto em 1957), tido como defensor do livre prazer sexual entre os
jovens (embora, como se sabe, tenha formulado uma visão preconceituosa da
homossexualidade) –, os dirigentes não viam o pensamento de Reich como algo que
devesse ser discutido na Universidade –, sendo essas mesmas autoridades aquelas a
quem os estudantes reivindicavam o direito de dormirem juntos nos dormitórios do
campus.
Como assinalou Edgar Morin, como outros, o “denominador comum” de maio
de 68 “é uma revolta contra a autoridade do Estado e da família”. Tudo o mais nasceu
do combate à autoridade e aos valores sociais e morais estabelecidos. Opor-se, de
maneiras diferentes, à cultura vigente e oficializada pelas principais instituições das
sociedades ocidentais esse era o sentimento/espírito da época.
A visão contracultural não foi racionalmente concebida e articulada. Constrói-se
no curso dos movimentos, manifestações, criações intelectuais, artísticas, políticas.
Expressa uma ruptura com certos modelos e dogmas nos campos políticos, filosóficos,
científicos e artísticos.
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Mas é importante situar que não há maio sem o ambiente dos anos 60 e é
igualmente importante compreender que os anos 60 começaram antes: Reich (final dos
anos 30/início dos anos 40); S. Beauvoir publica o Segundo Sexo em 1949 (“para uma
mulher, a liberdade começa no útero” ou “não nascemos mulher, tornamo-nos”) ; LéviStrauss publica As formas elementares do parentesco em 1947; Marcuse publica O
homem unidimensional em 1954 e Eros e civilização em 1955. Nos Estados Unidos,
berço da contracultura, a chamada geração Beatnik, o rock, já eram fenômenos nos anos
50. Ambiente: movimento hippie, rock, movimento estudantil nas universidades,
viagens de mochilas, drogas, orientalismo.
Filosofia dos anos 60: “drop out” – cair fora do Sistema. O sistema estava doente
e adoece as pessoas. Crítica selvagem. Desencantamento com o presente e descrença no
futuro. Rejeitava-se não apenas os valores estabelecidos mas principalmente o modo de
pensar dominante nas sociedades ocidentais: a racionalização crescente dos espaços, a
separação do material e do espiritual etc. A crítica ao ocidentalismo (eurocentrismo)
nasce aqui. Defesa das formas sensoriais de percepção (que os adeptos da complexidade
reafirmam hoje - Edgar Morin, por exemplo, é amplamente citado por Marinele
Ferguson, autora de A era de Aquário). A idéia de uma nova consciência, a concepção
new age, Era de Aquário, Hair, tudo isso surge nos anos 60. Paulo Coelho é também
dessa época: escreve As sociedades alternativas. A experiência com as drogas: a
consciência racional é apenas um tipo especial de consciência, mas há outros tipos que
as drogas podem favorecer. Fez muito uso das drogas. Há ainda hoje os que continuam
tendo nas drogas experiências para outras percepções. Alguns terminam mal. Conta
Paul Veyne que Michel Foucault fazia uso de LSD e ópio, em experiências controladas
e separadas por vários meses, sempre que acabada um de seus cursos. (“Deixar-se
caotizar pela droga não é necessariamente inútil”; “o álcool mata, tome LSD”).
Novo estilo de mobilização e contestação, bastante diferente da prática política
da esquerda tradicional: radicalização do movimento estudantil e operário. O
movimento social que se manifesta nos anos 60 é de caráter fortemente libertário.
Enorme apelo junto aos jovens das classes médias urbanas e ideário de contestação de
valores da cultura ocidental oficial.
Crítica às concepções da esquerda marxista tradicional: a questão da mudança
social passava pela mudança individual e por uma mudança das relações interpessoais.
Ao lado da miséria econômica, era necessário colocar a miséria moral e a miséria
sexual.
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Marcuse, que vivia nos Estados Unidos, estava na vanguarda dos teóricos da
nova esquerda, que renegavam o papel do proletariado das sociedades industriais na
revolução, acusando-o, com muita justeza, de estar acomodado ao consumismo. Para ele
os agentes da transformação social deveriam ser os que estavam fora dos compromissos
sociais estabelecidos, os estudantes, as minorias étnicas, os intelectuais que
continuavam a ser livre pensadores. Esses grupos sociais partiram para a contestação ao
sistema capitalista e à ordem autoritária.
Os anos 60 tornam-se também um conflito de geração: um conflito político. A
revolta na mesa de jantar e na sala de visita. A família como um campo de luta política.
A luta de classes em outra configuração.
A episteme dessa época se funda no entendimento segundo o qual a realidade é
complexa e que seus fenômenos são multicausais. Ainda, que não há indivíduo sem
social e vice-versa. Assim, mudar a realidade exige pensar a mudança de diversos
fatores de uma vez. Crítica das idéias das mudanças graduais ou fragmentadas: mudar a
economia, depois a subjetividade. Que outras idéias são da mesma época? a) a crítica ao
sujeito transcendental: classe, Estado, razão ; b) a denúncia do universal como discurso
ideológico e de poder; c) a construção do sujeito humano e das realidade históricosociais; d) a idéia da diversidade.
II.
As idéias dos anos 60 vieram para ficar, nunca mais nos deixaram. Somos
herdeiros intelectuais dessa época, pensamos a realidade com essas idéias, talvez o
deixamos de ser politicamente.
Michel Foucault (1926-1984), por exemplo, que estava fora de Paris, em maio
de 68, somente chega à Paris no dia 27, estava em Tunis, nos anos 80 escreverá sobre
esses assuntos e é claramente tanto herdeiro dessa episteme da época como é um de seus
fundadores. O seu livro As palavras e as coisas foi publicado em 1966. Ele disse: “É
certo que, sem maio de 68, jamais eu teria feito o que eu fiz, a propósito da prisão, da
delinqüência, da sexualidade” (Ditos e escritos, tomo IV)
Gilles Deleuze (1925-1995): “uma espécie de passagem à política, eu a fiz por
minha conta, com maio de 68, à medida em que eu tomava contato com problemas
precisos”. Ou: “maio de 68 foi a manifestação, em estado puro, de um devir” (fluxo,
movimento permanente que cria e transforma todas as realidades).
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Félix Guattari (1930-1992): “às vésperas de 68, eu tinha o sentimento de estar
sobre uma vaga portentosa”. Ou: “ruptura com a via comunista, com o estilo militante
dogmático e atrasado...” “Eu pensava que se ia prosseguir uma elaboração coletiva, mas
se colocou a reinar uma espécie de interdição de pensar”
Muitos de nós pensamos a realidade hoje com as idéias desses autores.
III.
Maio deixou marcas culturais e introduziu novos interlocutores, isso é
inequívoco. Feminismo e movimento gay são os dois exemplos no âmbito da discussão
sobre a sexualidade. As idéias sobre a sexualidade dos anos 60: no corpo e na
sexualidade, reúnem-se todos os elementos sociais da sujeição e da dominação. A
revolta do corpo e a revolta sexual são políticas e revolucionárias.
As idéias sobre a sexualidade. A politização da sexualidade. Sexo como desejo.
Separação entre copulação e reprodução: o sexo por prazer. Liberação sexual das
mulheres: o sexo antes do casamento, parceiros múltiplos. Igualdade no seio da família
entre homens e mulheres. Questionamento à família patriarcal. Uso de métodos
contraceptivos, aborto. A pornografia como arte (comercialização e mercantilização da
sexualidade). Tratamento das doenças sexualmente transmissíveis. Mobilização dos
homossexuais: visibilidade e crítica do preconceito. A homossexualidade entre homens
e a liberação sexual das mulheres estavam postas na esfera pública como posições
contestatárias.
Não haveria movimento feminista e movimento lésbico-gay, com as abordagens
que passam a ter em seguida, sem maio de 68. O movimento feminista, que já existia
antes, não será o mesmo após os anos 60. O movimento homossexual começa aí e
começa já enfrentando os próprios limites ao movimento: nos anos 70, em Paris, um
grupo gay, através de um de seus ativistas, Guy Hocquenghem, bradava: “o buraco de
nosso cu é público e revolucionário”. Uma reação às próprias posições da esquerda nos
anos precedentes. Ele conta, em seu livro A contestação homossexual, que os líderes da
revolta de maio proibiram a presença de homossexuais, assim como de seus panfletos e
cartazes, na Sorbonne, porque suspeitavam das atitudes dos gays. A presença de gays
poderia desonrara o movimento. (ler trecho do livro, p. 30) Maio não foi tão
revolucionário assim. Olgário Mattos: o desejo revolucionário foi muito mais marcante
do que a situação revolucionária.
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IV.
Um evento-mito pleno de paradoxos. Nem somos também os herdeiros de maio
de 68 muitas vezes pretendidos.
Talvez possamos dizer que somos herdeiros intelectuais, mas não políticos. E
talvez pouco do ponto de vista existencial: no campo da sexualidade, ainda
permanecemos devendo uma verdadeira revolução sexual. A verdadeira revolução
sexual ainda está por acontecer, uma nova moral sexual está ainda por ser fundada.
Ainda permanecem os preconceitos ignorantes em torno da homossexualidade,
perguntando-nos a “causa da homossexualidade”, ainda se permanece prisioneiros da
ideologia do amor romântico, da idéia do casamento como um contrato de exclusividade
sexual, contrário aos aborto e preconceituosos com a prostituição, o sexo mercantil.
Não quero, com isso, dizer que maio de 68 fracassou como evento-mito. Claro
que não. As idéias de maio de 68 nunca mais nos deixaram e certamente durarão. Mas
há que termos a clara compreensão do que resta a fazer, até mesmo para não
permitirmos a domesticação daquele acontecimento. A própria idéia que somos seus
herdeiros não é uma forma de domesticar maio de 68 para melhor afastar as perigosas
idéias associadas aquele acontecimento? Quantos de nós pensamos e agimos com as
idéias do famoso maio parisiense?
Creio que podemos falar de duas domesticações possíveis, as duas
conservadoras: aquela dos conservadores corriqueiros mas, igualmente, de uma espécie
particular de conservadores, os marxistas. Os primeiros por descobrirem que as idéias
desse período são golpes de morte na moral conservadora (heteronormativa, patriarcal,
machista, religiosa etc.) os segundos, por atribuírem à alienação da juventude,
irremediavelmente perdida nos próprios valores da sociedade de consumo, as suas lutas
pontuais (de crítica aos costumes, à moral, ao controle sexual), consideradas lutas
“despolitizadas” porque não colocam o problema central da sociedade que seria a
exploração econômica e a luta de classes.
Para se contrapor a essas tentativas de domesticação, e para finalizar, gostaria de
trazer para nossa conversa às reflexões de Michel Maffesoli: hoje, o presenteísmo é a
tônica e o futuro não interessa mais – “guardar-se para o futuro” (político ou regioso)
soa o conto do vigário. Ninguém cai mais nessa. Nossa época é mais libertária, somos
mais livres. A dominância de um politeísmo de valores não deixa de ser o espírito dos
anos 60: diversidade, pluralidade, liberdade das escolhas, liberdade do desejo.
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