A piometra é uma desordem uterina crônica de origem

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USO DE AGLEPRISTONE E CLOPROSTENOL NO TRATAMENTO DE
PIOMETRA EM CADELA – RELATO DE CASO
NATÁLIA GUILHERME DE OLIVEIRA1, MARCELL HIDEKI KOSHIYAMA1, SHEILA CRISTINA
SCANDURA1, MICHELE ANDRADE DE BARROS1, FERNANDA FOGAÇA LEME2, MARIA LÚCIA
MARCUCCI TORRES3, MARIA LÚCIA GOMES LOURENÇO3, PRISCILA CARVALHO DE OLIVEIRA4
Aprimorando da área de Clínica Médica de Pequenos Animais do HOVET – Unifeob, São João da Boa Vista – SP
Médica Veterinária autônoma, São João da Boa Vista - SP
Docentes da disciplina Clínica Médica de Pequenos Animais na Unifeob, São João da Boa Vista-SP
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Docente da disciplina de Reprodução na Unifeob, São João da Boa Vista - SP
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RESUMO: A piometra é uma desordem uterina crônica de origem hormonal causada por uma
infecção bacteriana e que pode resultar em severa bacteremia e toxemia. Ocorre mais comumente
em cadelas adultas e o aparecimento da enfermidade pode estar relacionado com a administração
de progesterona ou estrógeno exógenos. Os sinais clínicos e exames complementares são
essenciais no diagnóstico e o tratamento pode ser médico ou cirúrgico dependendo principalmente
do quadro clínico do animal. O presente relato descreve o uso de prostaglandina sintética,
cloprostenol (Ciosin®), e antiprogestágeno (Alizin®) como tratamento clínico de piometra em uma
cadela.
PALAVRAS-CHAVE: piometra, infecção reprodutiva, cadela, hormônio
INTRODUÇÃO
A piometra é uma desordem uterina crônica de origem hormonal que ocorre durante o
diestro nas cadelas. A doença é causada por uma infecção bacteriana uterina e pode resultar em
severa bacteremia e toxemia (FELDMAN e NELSON, 2004; WANKE e GOBELLO, 2006). De
acordo com JOHNSTON et al. (2001) a lesão patológica primária normalmente é a hiperplasia
endometrial cística (HEC).
A HEC é causada pela repetida exposição do endométrio a progesterona que é
responsável por estimular as atividades proliferativa e secretora das glândulas endometriais. O
estrógeno age promovendo crescimento, vascularização e edema do endométrio, relaxamento e
dilatação da cérvix, além de aumentar o número de receptores de progesterona no endométrio,
ampliando o efeito desse hormônio (JOHNSTON et al., 2001).
O diestro, particularmente longo na cadela, predispõem a piometra. Neste período a
hiperplasia uterina associada à diminuição das defesas celulares e imunitárias locais deixa o útero
em condições propícias para a multiplicação dos microorganismos que tem origem da própria flora
vaginal (WANKE e GOBELLO, 2006). A flora vaginal das cadelas difere significantemente da flora
vaginal da mulher. Lactobacillus e Cândida sp são comuns na flora humana, mas raras em
animais. Essa diferença pode ser explicada pela diferença de pH que é de quatro a cinco em
mulheres e seis a nove em cadelas (DUIJKEREN, 1992).
A Escherichia coli é a principal bactéria associada a piometra, sendo isolada em 59% a
96% dos casos. No entanto, Sthaphylococcus, Streptococcus, Klebsiella, Pseudomonas, Proteus e
Pasteurella também podem ser isoladas (FRANSSON e RAGLE, 2003). Uma piometra causada
por E. coli pode evoluir para insuficiência renal, conseqüência de uma glomerulonefrite de origem
imunológica, que é agravada pela azotemia pré-renal devido à desidratação associada ao choque
séptico. A inflamação renal modifica os fenômenos de reabsorção líquida por depressão da ação
do hormônio antidiurético, resultando em poliúria e polidipsia compensatória (JOHNSTON et al.,
2001; WANKE e GOBELLO, 2006).
A piometra ocorre mais comumente em cadelas adultas, de sete a oito anos. Após os nove
anos de idade, a prevalência da infecção pode chegar a mais de 60% em cadelas inteiras. Em
cadelas com idade inferior a seis anos, o aparecimento da enfermidade está relacionado com a
administração de progesterona ou estrógeno (JOHNSTON et al., 2001; WANKE e GOBELLO,
2006).
Fêmeas nulíparas apresentam um risco moderadamente maior de desenvolver a piometra
do que fêmes primíparas e multíparas (NISKANEN, 1998). Outros fatores predisponentes incluem
ciclos estrais irregulares e pseudociese (FALDYNA, 2001). De acordo com FELDMAN E NELSON
(2004), as raças Collie, Rottweiller, Golden Retriever, Bernese e Cocker Spaniel tem maior risco de
desenvolver a doença.
Os sinais clínicos variam de acordo com a patência da cérvix. O sintoma característico da
piometra de cérvix aberta é uma descarga vulvar inodora de consistência mucosa a purulenta e
coloração variável. Sinais de anorexia, vômito e diarréia também podem estar presentes
(JOHNSTON et al., 2001; WANKE e GOBELLO, 2006). As cadelas com piometra de cérvix fechada
tendem a apresentar um pior quadro clínico, caracterizado por abdômen abaulado, letargia,
depressão, inapetência, anorexia, poliúria, polidipsia, vômito e diarréia (FELDMAN e NELSON,
2004; FRANSSON e RAGLE, 2003; WANKE e GOBELLO, 2006). Hipertermia pode estar presente
normalmente associada a inflamação uterina e infecção bacteriana. Em caso de toxemia observase taquicardia, tempo de preenchimento capilar prolongado e pulso femoral fraco (FELDMAN e
NELSON, 2004).
O diagnóstico da patologia deve ser firmado com base na anamnese, exame físico e
exames complementares. O hemograma pode revelar uma anemia normocítica normocrômica e
leucocitose por neutrofilia (FELDMAN e NELSON, 2004; WANKE e GOBELLO, 2006). Também foi
relatado um aumento na concentração sérica de imunoglobulinas, aumento na circulação de
imunocomplexos e lisoenzimas além de supressão da atividade linfocitária (FALDYNA et al., 2001).
Hiperproteinemia e hiperglobulinemia podem estar presentes pela estimulação do sistema
imunitário associada à desidratação, além disso, a insuficiência renal leva ao aumento dos níveis
de uréia e creatinina. Ocasionalmente observa-se aumento na fosfatase alcalina e alaninoamino
transferase como resultado de dano hepatocelular devido à septicemia (FELDMAN e NELSON,
2004). Segundo JOHNSTON et al. (2001), a disfunção ácido-básica mais comum em cadelas com
HEC-piometra é acidose metabólica.
A radiografia abdominal tem valor limitado no diagnóstico por não conseguir diferenciar a
piometra de uma gestação antes do período fetal. A ultra-sonografia é o método de eleição no
diagnóstico visto que fornece informações sobre tamanho uterino, espessura da parede e presença
de fluido intraluminal (FELDMAN e NELSON, 2004).
O tratamento pode ser médico ou cirúrgico. A ovariohisterectomia (OSH) é o tratamento de eleição
para cadelas com mais de sete anos ou para aquelas que não serão destinadas a reprodução
(WANKE e GOBELLO, 2006) .
A drenagem cirúrgica do conteúdo uterino também tem sido relatada. O material purulento precisa
ser aspirado e deve ser injetada uma solução antisséptica em ambos os cornos uterinos por muitos
dias após a cirurgia (FELDMAN e NELSON, 2004).
Segundo JOHNSTON et al. (2001), a terapia médica deve ser realizada em cadelas com menos de
sete anos de idade, cadelas reprodutoras, cadelas que não apresentem sinais sistêmicos da
doença e que apresentem cérvix aberta.
Antibioticoterapia é essencial, porém por si só não reduz o diâmetro uterino. Devido à
imunossupressão ocasionada pela diminuição da atividade linfocitária, imunoestimulantes devem
ser utilizados como adjuvante no tratamento (FALDYNA et al., 2001). O fármaco de preferência no
tratamento médico é a prostaglandina F2ά que induz a luteólise, aumenta a contração do
miométrio, promove a expulsão do conteúdo uterino e relaxamento da cérvix (JOHNSTON et al.,
2001; FELDMAN e NELSON, 2004). A duração do tratamento varia de cinco a sete dias. As
cadelas devem ser avaliadas do décimo ao décimo quarto dia após o término do mesmo e em caso
de fracasso, um novo tratamento deve ser iniciado (WANKE e GOBELLO, 2006). A prostaglandina
sintética (Cloprostenol) é mais potente que a natural e tem sido usada na dose de 10 μg/kg duas
vezes ao dia por nove a quinze dias. Os efeitos colaterais incluem taquicardia, dor abdominal,
vômito, diarréia e hipersalivação (JOHNSTON et al., 2001). Segundo FELDMAN e NELSON
(2004), caminhar com as cadelas após a administração do fármaco parece minimizar esses efeitos.
Recentemente, estudos têm demonstrado sucesso no tratamento da piometra após a
administração intravaginal de prostaglandina, porém esse protocolo ainda não é aprovado para uso
em cadelas (FRANSSON e RAGLE, 2003). O uso de antiprogestágenos (aglepristone) também
tem sido descrito no tratamento de piometra em cadelas. Eles se fixam aos receptores uterinos
com uma afinidade três vezes maior que a progesterona, diminuindo a concentração desta no
útero, aumentando a contração do miométrio e promovendo dilatação da cérvix. São usados
principalmente associados a prostaglandina sintética. A dose utilizada é 10 mg/kg nos dias um,
dois, oito, quinze e trinta do tratamento (WANKE e GOBELLO, 2006).
Embora o tratamento clínico não seja indicado pela maioria dos autores nos casos de
piometra de cérvix fechada, FIENI (2004) em um estudo utilizando dezessete cadelas com essa
patologia, observou abertura da cérvix após a segunda aplicação do aglepristone na dose de 10
mg/kg em todas as cadelas sendo que o período para a abertura foi em média de vinte e cinco
horas, sugerindo que atualmente a cirurgia pode não ser o único tratamento nesses casos.
Em um estudo realizado por GOBELLO et al. (2002) quinze cadelas com idade entre dezesseis
meses e quinze anos receberam tratamento médico para piometra. Neste trabalho foram utilizados
dois protocolos distintos com aglepristone e cloprostenol associados e foi obeservada a cura de
todos os animais antes do décimo quinto dia de tratamento. Não foi observada alteração na
fertilidade das cadelas, no entanto o nível de recorrência da patologia foi de 20%.
CORRADA et al. (2006) relataram a eficiência do tratamento de HEC – Piometra utilizando
diariamente cabergolina, um potente agonista dopaminérgico, na dose de 5 μg/kg por via oral
associado ao cloprostenol na dose de 1 μg/kg por via subcutânea durante sete dias iniciais,
podendo aumentar esse período para 14 dias nos animais que não responderam ao tratamento
nesse período. Nesse estudo foram utilizadas vinte e nove cadelas com a patologia e foi observado
que entre o dia sete e quatorze do tratamento, vinte e quatro delas estavam curadas. O nível de
recorrência da piometra nesse estudo foi de 20, 7%.
RELATO DE CASO
Um animal da espécie canina, raça poodle, fêmea, dois anos e seis meses de idade, 1,3
Kg foi trazido ao atendimento Hospital Veterinário “Vicente Borelli”, do Centro Universitário da
Fundação de Ensino Octávio Bastos com histórico de hiporexia e corrimento vaginal há quatro
dias. Foi relatado ainda que o animal havia entrado em estro há quase dois meses atrás e havia
cruzado, pela primeira vez, com um macho da mesma raça. Ao exame físico os parâmetros
apresentavam-se normais e notou-se apenas uma sensibilidade abdominal e corrimento vaginal
muco-purulento. Os exames laboratoriais solicitados revelaram valores normais para a espécie. Ao
exame ultrassonográfico, notou-se cornos uterinos aumentados de tamanho, medindo
aproximadamente 0,89 x 0,87 cm de diâmetro e presença de conteúdo anecóico em seu lúmen,
caracterizando uma piometra.
Devido ao estado geral do animal, exames complementares e interesse da proprietária em
manter a atividade reprodutiva do animal, optou-se pelo tratamento clínico.
Desta forma, instituiu-se o tratamento com aglepristone (Alizin®) na dose de 10 mg/kg, por via
subcutânea nos dias um, três, oito e quinze do tratamento e cloprostenol (Ciosin®) na dose de 1
μg/kg, por via subcutânea nos dias três e oito do tratamento além de antibioticoterapia com
enrofloxacina, na dose de 5 mg/kg por via subcutânea por quatorze dias consecutivos.
Foi observado um aumento na quantidade de secreção vaginal vinte e quatro horas após a
primeira aplicação de aglepristone. No entanto, com cinco dias de tratamento houve diminuição
dessa secreção e alteração da sua consistência para mucosa.
Foram realizados exames ultrassonográficos rotineiros para controle do diâmetro uterino durante o
tratamento e um mês após o término do mesmo. Apesar da ausência de sinais clínicos, observouse que o diâmetro uterino retornou ao normal apenas no vigésimo dia.
Os efeitos colaterais apresentados pelo animal decorrentes do tratamento foram um episódio de
êmese após a primeira aplicação do aglepristone, discreto hematoma nos locais da aplicação de
ambos os fármacos e sinais de estro 12 dias após o término do tratamento, sendo iniciada então a
antibioticoterapia com amoxicilina na dose de 22 mg/kg.
Foi indicada a cobertura da cadela, porém embora o animal tenha aceitado a cruza não
houve gestação neste cio. Seis meses depois, o animal apresentou sinais de estro novamente e
neste cio, ocorreu a gestação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente relato mostrou um caso de piometra em um animal jovem, sem histórico de
aplicação de estrógeno ou progesterona exógenos, de cios irregulares ou pseudociese
contrariando os relatos descritos por FALDYNA (2001), JOHNSTON et al. (2001), WANKE e
GOBELLO (2006), visto que a piometra é primariamente uma afecção de fêmeas de meia idade ou
idosas, fêmeas que receberam hormônios reprodutivos ou que apresentem outros fatores
predisponentes.
A terapia médica foi instituída em função da idade do animal e interesse da proprietária
pela atividade reprodutiva do mesmo. O sucesso do tratamento se deve ao fato de o animal não
apresentar sinais sistêmicos severos e apresentar a cérvix aberta, o que corrobora com os
achados de JOHNSTON et al. (2001) que relata que o tratamento médico pode ser instituído em
cadelas jovens, reprodutoras, que não apresentem sinais sistêmicos da doença e que estejam com
a cérvix aberta.
Após o tratamento o animal apresentou sinais de estro, porém não ficou gestante
provavelmente por ter apresentado um cio anovulatório. O cio seguinte ocorreu seis meses depois
no qual houve a gestação, o que indica que provavelmente o tratamento não alterou a fertilidade
da cadela. No estudo realizado por GOBELLO (2002) não foi evidenciada alteração na fertilidade
das cadelas após o tratamento clínico de piometra, no entanto é necessário o acompanhamento
constante do animal para que se possa avaliar com maior precisão possíveis danos à função
reprodutiva.
Concluiu-se que o protocolo utilizado foi eficiente em reverter os sinais clínicos da piometra
e o diâmetro uterino alterado, apresentando poucos efeitos colaterais. No entanto deve-se ressaltar
que para que haja sucesso no tratamento, o animal deve estar em bom estado clínico geral, sem
comprometimento de outros sistemas orgânicos.
REFERENCIAS
CORRADA, Y., ARIAS, D.,RODRIGUES, R.,TORTORA, M.,GOBELLO, C. Combination dopamine
agonista and prostaglandin agonista treatment of cystic endometrial hyperplasia-pyometra
complex in the bicth. Theriogenology, 2006.
DUIJKEREN, E. Significance of the vaginal bacterial flora in the bith: a review. Veterinary Record,
n. 131, p. 367-369, 1992.
FALDYNA, M., LAZNICKA, A.,TOMAN,N. Immunosuppression in bitches with piometra. Journal of
Small Animal Practice, v.42, n.1, p. 5-10, 2001
FELDMAN, E.C., NELSON, R.W. Canine and Feline Endocrinology and Reproduction. 3a ed.
Philadelphia: W. B. Saunders, 2004, 1104p.
FIENI, F. Treatment of metritis/pyometras complex in the bich with antiprogestins associated or not
with prostaglandins. São Paulo, 5 International Symposium on Canine and Feline Reproduction.
Anais, São Paulo: 69-71, 2004.
FRANSSON, B.A., RAGLE, C.A. Canine Pyometra: An Update on Pathogenesis and treatment.
Compendium, v.25, n.8, p.602-612, 2003.
GOBELLO, C., CASTEX,G., KLIMA, L., RODRÍGUEZ, R., CORRADA, Y. A study of two protocols
combining aglepristone and cloprostenol to treat open cervix piometra in the
bitch.Theriogenology, n.8897, p. 1-8, 2003.
JOHNSTON, S.D., KUSTRITZ, M.V.R, OLSON, N.S. Canine and Feline Theriogenology.
Philadelphia: Elsevier Brasil, 2001, 592p.
NISKANEN, M. Associations between age, parity, hormonal therapy and breed, and piometra in
Finnish dogs. Veterinary Record, v. 18, n. 143, p. 493-498, 1998.
WANKE, M.M., GOBELLO, C. Reproduction en Caninos y Felinos Domesticos. 1ª ed. Buenos
Aires: Inter.-Medica editorial, 2006, 309p.
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