610 - SEPARATA_-_A_Brum_Ferreira

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Boletim da Sociedade Geológica de Portugal
Lisboa
Volume XXV,
Nova Série
pp. 39-44, 2 figs.
2009
ORLANDO RIBEIRO E O DESENVOLVIMENTO
DA GEOMORFOLOGIA EM PORTUGAL
por
António de Brum Ferreira
Professor Catedrático Aposentado da Universidade de Lisboa; [email protected]
I – O geógrafo Orlando Ribeiro
Não me é possível falar de uma das facetas da
actividade científica de Orlando Ribeiro sem antes
lembrar o Eminente Geógrafo que ele foi e que nos
ilumina ainda com os seus ensinamentos e exemplo.
Para Orlando Ribeiro, a Geografia, «encruzilhada de
ciências», só se realiza verdadeiramente nas obras de
síntese, tomando em consideração, em conjunto, os aspectos
naturais e humanos da paisagem. Daí o seu desgosto em
ver os jovens discípulos dos anos setenta encaminharem
as suas teses para campos mais especializados, quer da
Geografia física quer da Geografia humana. Apesar disso
nunca lhes tentou impor os seus pontos de vista, deixando
a cada um a liberdade de trilhar o seu próprio caminho,
mas sempre atento ao rigor da análise e do método.
E, a meu ver, foi sobretudo nas obras de síntese,
aligeiradas de pesadas pesquisas bibliográficas, que
Orlando Ribeiro mostrou todo seu génio. São exemplos
as suas obras-primas Portugal, o Mediterrâneo e o
Atlântico e Mediterrâneo, Ambiente e Tradição. A
primeira destas obras, publicada pela primeira vez em
1945, quando tinha a pouca idade de 34 anos, traça os
fundamentos da Geografia de Portugal, na encruzilhada
de influências dos mundos mediterrâneo e atlântico. O
segundo livro retrata com grande finura o ambiente que
era o da sua predilecção, como se vislumbra na dedicatória a Juvenal Esteves: ... em lembrança da amizade nunca
desmentida, do convívio espiritual que nos enriqueceu
e da nossa antiga e persistente fascinação do Mediterrâneo.
Orlando Ribeiro percorreu todas as teclas da
Geografia clássica, trabalhou em vários continentes,
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deixou uma obra científica muito vasta que se
disseminou em vários países e em várias línguas. Mas é
justo também salientar a sua capacidade de
organização. Lembrarei apenas dois exemplos. Ainda
muito jovem, e com grande escassez de recursos
materiais e humanos, abalançou-se a organizar o XVI
Congresso Internacional de Geografia, o primeiro
depois da Segunda Guerra Mundial, e que decorreu, em
1949, com grande sucesso e agrado dos participantes.
No Congresso seguinte, em Nova Iorque, Orlando
Ribeiro seria eleito Primeiro Vice-Presidente da União
Geográfica Internacional, em reconhecimento pelo
trabalho feito, com tão escassos meios. O segundo
exemplo que desejaria salientar é o da criação do
Centro de Estudos Geográficos, fundado em 1943, uma
vez mais, com recursos muito limitados. Apesar de
contingências de vária ordem, o Centro de Estudos
Geográficos foi-se consolidando e é hoje a principal
referência, reconhecida no estrangeiro, da Geografia
que se pratica em Portugal.
Professor brilhante, de comunicação fácil e dotado
de uma grande erudição, foi convidado a leccionar em
várias universidades estrangeiras, nomeadamente do
Brasil, Canadá e França. E, em consequência do
reconhecimento nacional e internacional dos seus méritos
de investigador e professor, Orlando Ribeiro foi distinguido com o Doutoramento Honoris Causa, sucessivamente pelas universidades de Bordéus, Complutense de
Madrid, Coimbra, Rio de Janeiro e Sorbonne.
II – A formação naturalista
A formação de Orlando Ribeiro ficou muito a
dever, segundo o próprio afirma, à sua frequentação da
Sorbonne, entre 1937 e 1940, para onde tinha sido
nomeado leitor. Aí pôde estudar ou contactar com
grandes mestres da Geografia francesa. De entre todos,
aquele que mais parece tê-lo influenciado, e que
contribuiu decisivamente para a sua preparação e gosto
pela Geografia física, foi Emmanuel de Martonne, de
quem, aliás, se considera discípulo.
De Martonne foi, seguramente, um dos mais
ilustres geógrafos do século XX. Autor de um famoso
Tratado de Geografia Física, lido em todo o mundo,
com sucessivas edições durante a primeira metade do
século, pode dizer-se que De Martonne se tornou, por
via dessa obra, um mestre universal. Curiosamente, o
primeiro contacto de Orlando Ribeiro com De
Martonne foi justamente esse Tratado, que começou a
ler durante as férias liceais, na biblioteca pública de
Viseu, com a idade de 15 anos. Dez anos mais tarde
pôde seguir no Instituto de Geografia da Universidade
de Paris as aulas do Mestre, de que recorda
especialmente os ....famosos trabalhos práticos de
leitura e interpretação de mapas, que reservava a um
grupo restrito de estudantes. As aulas seduziam ....pelo
que nelas havia de rigor, de exigência e, ao mesmo
tempo de virtuosismo, chegando, de uma maneira
rítmica, a interpretações luminosas (Ribeiro, 1973, pp.
163-164). Às aulas seguiram-se contactos pessoais
frequentes, nomeadamente a discussão anual dos
resultados das pesquisas que Orlando Ribeiro ia
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prosseguindo, durante as férias, sobre a evolução do
relevo de Portugal Central.
No campo da Geomorfologia, Orlando Ribeiro
distinguia também Henri Baulig, que considerava
“talvez o maior geomorfólogo de todos os tempos,
através dum rigor de observação e na interpretação, que
não recorria ao cálculo mas ao mais fino e exacto
encadeamento lógico” (Ribeiro, 2003, p. 196). Baulig
foi o mais ilustre discípulo de William Morris Davis
em França, mas aplicou o modelo davisiano com
grande abertura de espírito. No plano teórico, Orlando
Ribeiro sentia também uma certa atracção pelo modelo
davisiano, simples e, aparentemente, de aplicação
universal. Mas os seus trabalhos estão bem longe deste
esquema. Pela visão mobilista e pelo atento estudo dos
depósitos correlativos, parece bem mais próximo dos
conceitos de Walter Penck ou das orientações de
Hermann Lautensach e de Pierre Birot.
O ensino da Geografia que Orlando Ribeiro havia
recebido em Portugal, ....mesmo o de Silva Telles, era
exclusivamente verbal, embora atraente, e pouco se
tirava dele para a observação pessoal. Por isso
decidira seguir as aulas de Geologia que Ernest Fleury
ministrava no Instituto Superior Técnico de Lisboa,
....com excursões semanais onde, postos perante um
corte, o professor nos obrigava a descrevê-lo e
desenhá-lo com minúcia e rigor (Ribeiro, 2003, p.
186). Foi com estas “sérias bases de observação e um
razoável conhecimento da estratigrafia do Secundário e
do Terciário” (Ribeiro, 1973, pp. 164-165) que Orlando
Ribeiro se fez notar na primeira saída de campo à bacia
de Paris conduzida por De Martonne, revelando uma
preparação geológica superior à dos seus colegas
parisienses. O treino na observação e interpretação de
campo, de que pôde beneficiar durante as numerosas
excursões em que participou, foi, aliás, uma das bases
fundamentais da formação que Orlando Ribeiro
recebeu nos seus contactos com a Geografia francesa.
Orlando Ribeiro, a par de uma sólida formação
humanista, possuía assim uma forte propensão
naturalista e baseava o seu método científico na
observação dos factos concretos, para, a partir deles,
chegar às interpretações possíveis. É ele mesmo quem
o diz: …eu próprio me considero um naturalista e nas
Ciências Naturais adquiri a base da minha formação
de geógrafo (Ribeiro, 2003, p. 168); ou ainda: ....a base
da minha educação científica é a observação (Ribeiro,
2003, p. 171). A defesa do método indutivo, em
contraponto ao “espírito de sistema”, é bem realçada
numa homenagem ao seu amigo e colega de trabalho
Pierre Birot, em que afirma: Il se complaisait, en effet,
au raisonnement abstrait, qui s’accorde mal avec
l’observation rigoureuse et objective qui charpente le
grandiose exercice des Sciences Naturelles, auxquelles
appartient la Géographie (…) (Ribeiro, 1985, p. 184).
III – O convívio interdisciplinar:
encontros com a Geologia
Orlando Ribeiro conviveu com grandes vultos da
cultura em Portugal, estimulado pela sua avidez pelas
ciências e as artes. Ele próprio teve oportunidade de
traçar o seu percurso no ambiente que então se vivia
nas universidades de Lisboa e de Coimbra, e de
recordar a influência que recebeu de mestres e colegas
de então. Acerca do convívio interdisciplinar que
sempre procurara, escreveu Orlando Ribeiro: Sempre
pensei que o geógrafo, com a variedade e convergência
de matérias que utiliza, tem de ser uma pessoa
cientificamente «bem relacionada». Por isso procurei
apoio em disciplinas próximas das duas faces da
Geografia (Ribeiro, 2003, p. 124).
Uma dessas disciplinas foi a Geologia, tendo mesmo
trabalhado com eminentes geólogos do nosso país,
entre outros, Carlos Teixeira, Georges Zbyszewski e
Cotelo Neiva. O primeiro encontro com Carlos Teixeira
deu-se, curiosamente, no Instituto de Estudos
Portugueses da Faculdade de Letras de Paris, onde
Orlando Ribeiro fazia o seu leitorado. Carlos Teixeira
regressava de um estágio na Universidade de Lille,
onde se aperfeiçoara no estudo da flora do Carbónico.
Conduziu-o ao Laboratório de Geografia física da
Faculdade de Ciências e apresentou-o a G. Zbyszewski
e ao orientador deste, o geólogo Jacques Bourcart, os
quais haviam já trabalhado em Portugal.
De volta ao nosso país, e desiludido com a falta de
convívio científico que então se vivia na Faculdade de
Letras de Coimbra, para onde tinha sido convidado
como Professor extraordinário, resolveu contactar
Carlos Teixeira e Cotelo Neiva, que trabalhavam na
Faculdade de Ciências do Porto. Recorda Orlando
Ribeiro: Convenci-os a arejarem, e empreendemos
juntos trabalhos de campo de que, à noite, no café, eu
ditava os resultados depois do acerto, por vezes em
linguagem veemente e crua, das nossas discordâncias.
Trabalhámos nos arredores do Porto, no Cávado, no
Luso e publicámos as primeiras notas. Homens de
laboratório, que nunca fui, creio que ganharam com a
observação de campo, feita sempre na melhor
disposição e alegria (Ribeiro, 2003, pp. 192-193).
Orlando Ribeiro, Carlos Teixeira e Cotelo Neiva
viriam a ser contratados, em 1945, “colaboradores
benévolos” da prestigiosa instituição Serviços Geológicos
de Portugal, recebendo “ajudas de custo e de deslocação”,
benefício que a Faculdade não assegurava. Na qualidade
de colaborador dos Serviços Geológicos de Portugal,
Orlando Ribeiro estudou durante vários anos os depósitos
discordantes das superfícies de aplanamento da Beira Baixa,
contribuindo assim para o levantamento da Carta Geológica de Portugal, na escala de 1:50 000, nomeadamente
das folhas de Nisa (1965) e de Castelo Branco (1967).
No domínio da Geologia, convém lembrar também
o convívio que estabeleceu com os ilustres cientistas
espanhóis Eduardo e Francisco Hernández-Pacheco e
Solé Sabarís, a quem os progressos da Geomorfologia
da Península Ibérica tanto ficaram a dever. Orlando
Ribeiro procurou sempre no conjunto do espaço peninsular o enquadramento necessário para o seu estudo e
interpretação do território português, e isso é muito
claro nos trabalhos sobre o maciço antigo de Portugal,
o tema fundamental das suas pesquisas geomorfológicas.
É porventura no estudo do Quaternário que
geólogos e geomorfólogos encontram o melhor campo
de colaboração. Apesar dos importantes progressos
recentes, pode dizer-se que a verdadeira idade de ouro
dos estudos do Quaternário em Portugal se situa nos
anos quarenta do último século, graças a uma
colaboração interdisciplinar, em que avultam os
trabalhos conjuntos do geólogo Georges Zbyszewski e
do pré-historiador Henri Breuil (o conhecido Abbé
Breuil). Estes dois cientistas reuniram os resultados das
suas pesquisas em dois importantes volumes dos
Serviços Geológicos de Portugal, um datado de 1942 e
outro de 1945. Baseados essencialmente no estudo das
indústrias paleolíticas e na geologia das praias e
terraços da parte vestibular do Tejo, propuseram um
modelo de cronologia do Quaternário em Portugal que,
em vários aspectos, se pode considerar ainda válido.
Foi neste contexto de renovação dos estudos do
Quaternário em Portugal que surgiram os trabalhos de
campo conjuntos de Orlando Ribeiro, Carlos Teixeira e
Cotelo Neiva sobre o litoral português, cujos resultados
foram resumidos em dois pequenos artigos publicados,
em 1943, no Boletim da Sociedade Geológica de
Portugal. Num deles, “Depósitos detríticos da Bacia do
Cávado”, é identificado um antigo estuário do Cávado,
que se ligaria a uma praia tirreniana, situada a Sul do
curso actual do rio. No outro, intitulado “Depósitos e
níveis pliocénicos e quaternários dos arredores do
Porto. Nota preliminar.”, é descrita uma sucessão de
praias e terraços na área vestibular do Douro. Outra
observação interessante consignada nesse trabalho foi a
identificação do depósito grosseiro de Medas, que se
espraia no sopé da crista quartzítica de Valongo, e que
é mais antigo do que a formação dos terraços, ou seja,
anterior ao encaixe quaternário daquele grande rio.
Cotelo Neiva, Orlando Ribeiro e Carlos Teixeira
em trabalho de campo, em 1943.
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IV – Estudos sobre o maciço antigo: uma visão mobilista
e a análise de depósitos correlativos
A principal contribuição de Orlando Ribeiro para a
geomorfologia de Portugal diz respeito aos seus
estudos sobre a evolução do relevo do maciço antigo,
nomeadamente na Beira Baixa e na Cordilheira Central.
Nesses estudos revela uma visão mobilista da evolução
de uma unidade estrutural muitas vezes considerada
estável no ciclo alpino e numa altura em que em França
se privilegiava ainda a análise cíclica do relevo, de
inspiração davisiana. A sua base de trabalho era
essencialmente a observação de campo, com o apoio de
uma cartografia topográfica e geológica muitas vezes
insuficiente. A observação minuciosa das formas e a
análise dos depósitos superficiais constituíram os
fundamentos das suas interpretações sobre a natureza
dos acidentes do relevo e sobre as principais etapas da
evolução geomorfológica.
Pode-se distinguir três fases na publicação dos
resultados: a mais antiga, que é também a mais
produtiva, vai de 1939 a 1943, e insere-se na
preparação de uma tese de doutoramento de Estado a
defender na Sorbonne, projecto que foi abandonado
devido sobretudo às contingências da guerra; a segunda
fase inicia-se em 1949, o ano do Congresso, e termina
em 1955, altura em que Orlando Ribeiro apresenta uma
síntese da geomorfologia do território português,
inserida na sua Geografia de Portugal, publicada em
Espanha. A terceira fase, da qual não trataremos, é
essencialmente fruto de um trabalho de colaboração, e
que culmina em 1986 com a publicação de uma
importante memória sobre as Bacias da Lousã e de
Arganil, da autoria de Suzanne Daveau, Pierre Birot e
Orlando Ribeiro, e que reúne os resultados de
diferentes fases de pesquisa, ao longo de meio século.
Depois de alguns estudos ainda preliminares
publicados em revistas francesas da especialidade, o
primeiro trabalho de vulto de Orlando Ribeiro sobre o
maciço antigo português surge em 1942, no Boletim da
Sociedade Geológica de Portugal, sob o título “Notas
sobre a evolução geomorfológica da orla meridional da
Cordilheira Central entre Sobreira Formosa e a
fronteira”. É, porventura, o estudo mais sólido do
conjunto de publicações do primeiro ciclo referido.
Nele identificou uma escadaria tectónica na vertente
meridional da Cordilheira Central, com confirmação
geológica das falhas, quer por deslocações das cristas
quartzíticas quer pelos contactos anormais com os
depósitos arcósicos terciários, e sobre os quais se
derramou um manto de depósitos grosseiros de sopé.
Estabeleceu a comparação entre estes depósitos e
acumulações semelhantes que ocorrem a Sul da
Cordilheira Central espanhola, sobretudo nos Montes
de Toledo, onde constituem vastas superfícies
cascalhentas, de fraco declive, conhecidas pelo nome
regional de rañas. A ilustração do trabalho é muito
rica, com cortes geológicos e blocos-diagramas, e
inclui ainda um esboço geomorfológico onde figuram
superfícies de aplanamento, cristas quartzíticas e outros
relevos residuais, a distribuição dos depósitos arcósicos
e de sopé, e as escarpas de falha.
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No ano seguinte surgem mais dois artigos com
muito interesse. Um deles, publicado nas Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal, refere-se à
evolução da falha do Ponsul, importante acidente
tectónico e topográfico que faz a transição entre a
plataforma de Castelo Branco e a superfície do Alto
Alentejo. A falha deslocou os depósitos arcósicos, e as
escarpas resultantes foram fossilizadas por depósitos
grosseiros de sopé correlativos do levantamento da
Cordilheira Central, os quais chegam a atingir, na
região, espessura de 250 metros. A fossilização das
escarpas permitiu a epigenia do rio Ponsul, que tanto
percorre em garganta o compartimento superior da
falha, como, ao rés do solo, o bloco abatido. O outro
estudo, incluído nas Publicações do Museu e
Laboratório Mineralógico e Geológico da Faculdade de
Ciências do Porto, incide sobre uma área de grande
variedade geológica e geomorfológica, nos arredores de
Vila Velha de Ródão, onde se situa a impressionante
garganta epigénica do Tejo, conhecida por Portas de
Ródão. Novamente são identificadas e comprovadas do
ponto vista geológico numerosas falhas. Estas têm
geralmente direcção bética, mas outras, facilitadas
pelas diferenças de resistência entre as cristas
quartzíticas e os xistos, tomam o rumo das deformações
hercínicas. Discriminam-se três tipos de depósitos:
arcoses, rañas e terraços fluviais. O estudo inclui um
mapa geológico a cores, na escala de 1:50 000, ainda
esquemático e provisório, mas que tem por objectivo
mostrar as relações entre a natureza das rochas, as
deslocações tectónicas e as formas do relevo.
Dos estudos da segunda fase, fazem parte uma
importante síntese sobre as rañas, publicada em
colaboração com Mariano Feio, e uma série de artigos
em que se nota a grande finura da interpretação
puramente morfológica do relevo. O trabalho sobre as
rañas foi o objecto de uma comunicação ao Congresso
Internacional de Geografia, realizado em Lisboa. É,
efectivamente, a síntese clássica sobre as rañas em
Portugal, incidindo sobre vários aspectos: constituição,
morfologia, condições de génese, posição estratigráfica.
Os depósitos de sopé das vertentes montanhosas, tal
como acontece na Cordilheira Central, estão sobretudo
ligados às deslocações tectónicas, enquanto os
depósitos de planície, alimentados sobretudo pelas
cristas quartzíticas, têm origem essencialmente
climática. Coroando o enchimento sedimentar das
bacias pliocénicas e sendo anteriores aos mais antigos
terraços quaternários, os depósitos de raña foram
atribuídos ao Vilafranquiano, e têm constituído, à falta
de outros elementos de datação, um marco cronológico
de importância na evolução geomorfológica do
maciço antigo.
Datam de 1949 dois artigos publicados nas
Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal.
Um deles, “A Cova da Beira. Controvérsia de
Geomorfologia”, é um confronto de opiniões entre
Orlando Ribeiro e Pierre Birot sobre a importância
relativa da erosão e da tectónica na origem e evolução
deste importante acidente geomorfológico, discussão
suscitada e alimentada pela ausência de depósitos
correlativos. O outro, “O Fosso Médio do Zêzere”, é a
interpretação morfológica de um graben entre os dois
horsts principais da Cordilheira Central, e por onde se
insinuou aquele rio. Dois anos mais tarde, num outro
artigo publicado também nas Comunicações dos
Serviços Geológicos de Portugal, e intitulado “Três
notas de Geomorfologia da Beira Baixa”, é bem
evidente a renovação da análise geomorfológica
permitida pelos mapas topográficos na escala de 1:25
000, de que são reproduzidos alguns trechos muito
sugestivos. Particularmente interessante é o estudo da
origem e evolução dos montes-ilhas, relevos frequentes
na zona tropical, e que se encontram também na Cova
da Beira e na superfície de Castelo Branco. Em
“Estrutura e Relevo da Serra da Estrela”, artigo
publicado em 1954, no Boletim da Real Sociedade
Espanhola de História Natural, individualizam-se os
vários patamares e escarpas, assim como os
alinhamentos tectónicos denunciados pelos cursos de
água, e conclui-se que a serra da Estrela é um horst
complexo, uma verdadeira montanha de blocos.
A Geografia de Portugal da autoria de Orlando
Ribeiro, publicada em 1955, constitui o tomo V de uma
grande obra colectiva, dirigida por Manuel de Terán,
dedicada à geografia da Península Ibérica. A síntese
geomorfológica incluída nesse volume não se confina,
obviamente, ao maciço antigo, embora este ocupe um
lugar relevante, que se justifica por se tratar da mais
extensa unidade estrutural do território português.
Comparando essa síntese com igual tentativa de
Hermann Lautensach, datada de 1932, diz Suzanne
Daveau (in Ribeiro et al., 1987, pp. 201-202): O
correspondente capítulo I de O. Ribeiro, publicado em
1955, consegue já ser uma interpretação genética do
conjunto do relevo de Portugal. É de estilo sintético;
em vez de apoiar-se, a cada passo, na citação
sistemática dos trabalhos utilizados, enumera simplesmente os mais importantes na bibliografia final. Além
das contribuições de Lautensach e do próprio autor
são aqui aproveitadas as de outros geomorfólogos,
principalmente P. Birot, A. Fernandes Martins e
Mariano Feio, e as de vários geólogos, entre outros, C.
Teixeira, Cotelo Neiva e G. Zbyszewski. A apresentação evolutiva do relevo, a distinção de fases
sucessivas da sua elaboração levaram O. Ribeiro a
adoptar uma articulação espacial de base geológica e
não morfográfica como Lautensach (…)”. Trata-se,
efectivamente, de uma síntese luminosa do conhecimento geomorfológico de Portugal à data em que foi
escrita. Esta síntese fecha um ciclo de ouro da
investigação geomorfológica em Portugal, ao qual se
segue um longo hiato, que será apenas interrompido no
final dos anos sessenta, agora sob o impulso de
Suzanne Daveau.
V – Uma experiência invulgar: o estudo das erupções
vulcânicas do Fogo e dos Capelinhos
Vale a pena lembrar aqui esta faceta da investigação científica de Orlando Ribeiro, a observação e
descrição de duas erupções vulcânicas, uma em Cabo
Verde e outra nos Açores. É o próprio Orlando Ribeiro
quem o afirma: O naturalista conta entre os mais
felizes episódios da sua vida científica as duas
erupções vulcânicas que estudou (Ribeiro, 2003, p.
208). Se o contacto com a erupção do Fogo foi fugaz,
ela viria a ser o pretexto para a elaboração de uma das
obras mais admiráveis do autor, “A Ilha do Fogo e as
suas erupções”, justamente considerada por Suzanne
Daveau ....uma das obras-primas da «Escola
geográfica de Lisboa».
No caso da erupção dos Capelinhos, na ilha do
Faial, Orlando Ribeiro e Raquel Soeiro de Brito, que o
acompanhou, realizaram duas campanhas, uma em
Outubro de 1957, logo no início da erupção, e outra em
Janeiro do ano seguinte. As descrições e a ilustração
que nos deixaram da erupção (Ribeiro & Brito, 1958)
têm o maior interesse, mas, ao contrário do que havia
sucedido com a do Fogo, a erupção dos Capelinhos
seria amplamente estudada por cientistas portugueses e
estrangeiros. Um papel importante desempenhado pelos
dois geógrafos na ocasião foi o aconselhamento das
autoridades locais no socorro às populações: embora
sem provocar vítimas mortais, a erupção implicou o
realojamento de 680 pessoas.
A erupção do Fogo, iniciada em Junho de 1951,
prolongou-se por dois meses. Devido a problemas
práticos de vária ordem, a permanência de Orlando
Ribeiro junto do foco eruptivo durou apenas uma
semana. Mas foi possível ainda filmar a emissão de
lavas, que se haviam de imobilizar pouco tempo depois.
Desses dias de observação do fenómeno eruptivo, o
autor deixou-nos descrições muito vivas, por vezes
cheias de emoção: O espectáculo, que a escuridão da
noite revelava em toda a grandeza (…), é dos mais
belos e impressionantes que olhos humanos possam
contemplar. O cinema não o reproduz exactamente
(…) (Ribeiro, 1960, p. 287). Orlando Ribeiro voltaria
ao Fogo, desta vez acompanhado por Torre de Assunção e
outros cientistas, a fim de poderem documentar com
mais rigor as consequências da erupção.
As duas estadas no Fogo permitiram a Orlando
Ribeiro fazer observações em toda a ilha e inquéritos
junto da população. Disso e da análise da
documentação escrita disponível resultou uma
monografia, que é um modelo de geografia insular,
onde as gentes e a vida rural ocupam lugar de
relevância. Uma das realidades da vida da ilha que mais
atenção e mais emoção suscitaram a Orlando Ribeiro
foi o das crises climáticas, com o seu cortejo de
miséria, fome e morte, consequências afinal evitáveis,
que ele denunciou, corajosamente, perante as
autoridades de então. Recorda mais tarde Orlando
Ribeiro: Quando a curiosidade sempre desperta para
os fenómenos naturais me levou a estudar a erupção da
Ilha do Fogo, em 1951, vi que ela não trazia qualquer
risco, embora causasse prejuízos, à população. Mas a
fome e a miséria, fatalidade climática dum arquipélago
flagelado por seis anos secos em cada decénio,
tocaram fundo o meu espírito e o meu sentido de que
alguma coisa se deve fazer pelos «humilhados e
ofendidos», e descrevi sem rebuços a mortandade com
que a fome reduz a população de cerca de um terço,
acompanhada de misérias e sofrimentos que Baltazar
Lopes, escritor local, no mais belo romance da infância
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da nossa língua (Chiquinho) descreveu com trágico
vigor (…). O que é certo é que, graças à sinceridade
do meu livro, à independência política que sempre
tomei sem me preocupar até onde era bem vista ou
consentida, as fomes acabaram em Cabo Verde por
uma medida da mais elementar simplicidade: acudir
com alimentos aos famintos antes que morram
(Ribeiro, 2003, pp. 207-208).
Bibliografia
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------ (1985) – La personnalité scientifique et humaine de Pierre Birot. Finisterra, Rev. Port. Geogr., Lisboa, 40, 183-194.
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------ (2003) – Memórias de um Geógrafo (apresentação de João Carlos Garcia). Col. Humanismo e Ciência, Ed. João Sá da
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RIBEIRO, O. & BRITO, R. S. (1958) – Primeira Notícia da Erupção dos Capelinhos na Ilha do Faial. Naturalia, Lisboa, VII, 33 p.
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RIBEIRO, O. & FEIO, M. (1950) – Les dépôts de type raña au Portugal. C. R. Congr. Int. Géogr. Lisbonne II, 152-159.
RIBEIRO, O., LAUTENSACH, H. & DAVEAU, S. (1987) – Geografia de Portugal, I. A Posição Geográfica e o Território. Ed. João Sá
da Costa, Lisboa, 334 p.
Comentário de António Ribeiro
Desejo agradecer a intervenção do Professor António de Brum Ferreira em homenagem a Orlando Ribeiro. Na qualidade de
Presidente da Direcção da Sociedade Geológica de Portugal devemos-lhe o testemunho de um discípulo sobre a obra de Orlando
Ribeiro na sua interacção com os geólogos seus contemporâneos. Como filho de Orlando Ribeiro, devo um agradecimento
pessoal, e em nome dos familiares mais próximos, em especial de meu irmão Fernando aqui presente.
Relembro também, que Orlando Ribeiro, recém licenciado nos anos 30, soube buscar inspiração nas aulas e excursões de
Ernest Fleury, professor de geologia do Instituto Superior Técnico; aliás, o papel deste na actualização da geologia em Portugal,
elevando-a a um nível europeu de excelência, foi também recordado por outros homenageados e oradores.
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