Massa Equatorial Continental (MEC) está ligada ao cinturão das

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RELATÓRIO TÉCNICO CONSOLIDADO DE CLIMA PARA O
ESTADO DE MATO GROSSO VOL.1/2
Parte 2: Sistematização das Informações Temáticas
NÍVEL COMPILATÓRIO
DSEE-CL-RT-002
RELATÓRIO TÉCNICO CONSOLIDADO DE CLIMA PARA O
ESTADO DE MATO GROSSO VOL. 2/2
Parte 2: Sistematização das Informações Temáticas
NÍVEL COMPILATÓRIO
DSEE-CL-RT-002
PLANO DA OBRA
PROJETO DE DESENVOLVIMENTO AGROAMBIENTAL DO ESTADO DE MATO GROSSO - PRODEAGRO
ZONEAMENTO
SÓCIO-ECONÔMICO-ECOLÓGICO:
DIAGNÓSTICO
SÓCIO-ECONÔMICO-ECOLÓGICO DO ESTADO DE MATO GROSSO E
ASSISTÊNCIA TÉCNICA NA FORMULAÇÃO DA 2ª APROXIMAÇÃO
Parte 1: Consolidação de Dados Secundários
Parte 2: Sistematização das Informações Temáticas
Parte 3: Integração Temática
Parte 4: Consolidação das Unidades
Governo do Estado de Mato Grosso
Secretaria de Estado de Planejamento e Coordenação Geral (SEPLAN)
Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD)
PROJETO DE DESENVOLVIMENTO AGROAMBIENTAL DO ESTADO DE MATO GROSSO - PRODEAGRO
ZONEAMENTO
SÓCIO-ECONÔMICO-ECOLÓGICO:
DIAGNÓSTICO
SÓCIO-ECONÔMICO-ECOLÓGICO DO ESTADO DE MATO GROSSO E
ASSISTÊNCIA TÉCNICA NA FORMULAÇÃO DA 2ª APROXIMAÇÃO
RELATÓRIO TÉCNICO CONSOLIDADO DE CLIMA PARA O ESTADO DE
MATO GROSSO VOL. 2/2
Parte 2: Sistematização das Informações Temáticas
NÍVEL COMPILATÓRIO
MÁRIO VITAL DOS SANTOS
CUIABÁ
JULHO, 2000
CNEC - Engenharia S.A.
GOVERNADOR DO ESTADO DE MATO GROSSO
Dante Martins de Oliveira
VICE-GOVERNADOR
José Rogério Salles
SECRETÁRIO DE ESTADO DE PLANEJAMENTO E COORDENAÇÃO GERAL
Guilherme Frederico de Moura Müller
SUB SECRETÁRIO
João José de Amorim
GERENTE ESTADUAL DO PRODEAGRO
Mário Ney de Oliveira Teixeira
COORDENADORA DO ZONEAMENTO SÓCIO-ECONÔMICO-ECOLÓGICO
Márcia Silva Pereira Rivera
MONITOR TÉCNICO DO ZONEAMENTO SÓCIO-ECONÔMICO-ECOLÓGICO
Wagner de Oliveira Filippetti
ADMINISTRADOR TÉCNICO DO PNUD
Arnaldo Alves Souza Neto
EQUIPE TÉCNICA DE ACOMPANHAMENTO E SUPERVISÃO DA SEPLAN
Coordenadora do Módulo Físico
MARIA LUCIDALVA COSTA MOREIRA
(Engª Agrônoma)
LUIZ GONZAGA TOLEDO
(Engº Civil)
Coordenação e Supervisão Cartográfica
LIGIA CAMARGO MADRUGA
(Engª Cartógrafa)
Supervisão do Banco de Dados
GIOVANNI LEÃO ORMOND
(Administrador de Banco de Dados)
VICENTE DIAS FILHO
(Analista de Sistema)
Supervisor do Mapeamento/Campo dos Aspectos Climatológicos
CARLOS ALBERTO LOPES
(Engº Agrônomo)
EQUIPE TÉCNICA DE EXECUÇÃO
CNEC – Engenharia S.A.
LUIZ MÁRIO TORTORELLO
(Gerente do Projeto)
KALIL A. A. FARRAN
(Coordenador Técnico)
MÁRIO VITAL DOS SANTOS
(Coordenador Técnico do Meio Físico – Biótico)
TÉCNICA
JOSÉ ROBERTO TARIFA
(Geógrafo)
SUMÁRIO
VOLUME I
1.
2.
INTRODUÇÃO
001
1.1.
002
REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
FUNDAMENTOS DINÂMICOS DO CLIMA DO ESTADO DE MATO
GROSSO
005
2.1.
INTRODUÇÃO
005
2.2.
A CIRCULAÇÃO DE SUPERFÍCIE (1.000 mb)
005
2.3.
A CIRCULAÇÃO GERAL DE LARGA ESCALA
012
2.3.1.
El Niño - Oscilação Sul
012
2.3.2.
Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS)
013
2.3.3.
Zona de Convergência Intertropical (ZCIT)
013
2.4.
2.5.
A Circulação Superior (200 a 300 hpa)
014
2.4.1.
A Alta da Bolívia
014
2.4.2.
A Corrente do Jato
014
OS SISTEMAS CONVECTIVOS EM MATO GROSSO
016
2.5.1.
A Convecção na Amazônia
016
2.5.2.
Os Complexos Convectivos de Mesoescala
017
2.5.2.1.
Do Mato Grosso Setentrional
017
2.5.2.2.
Do Mato Grosso Centro Meridional
017
2.5.3.
3.
As Linhas de Instabilidade
018
A VARIAÇÃO ESPACIAL DA TEMPERATURA
018
4.
3.1.
MÉDIA COMPENSADA ANUAL
019
3.2.
MÉDIA DAS MÁXIMAS
020
3.3.
MÉDIA DAS MÍNIMAS
021
A VARIAÇÃO ESPACIAL DA PLUVIOSIDADE
022
4.1.
O TOTAL ANUAL MÉDIO
022
4.2.
A DISTRIBUIÇÃO SAZONAL MÉDIA
023
4.3.
O RITMO E A VARIAÇÃO DA PLUVIOSIDADE NO
ANO-PADRÃO CHUVOSO (1992)
024
O RÍTMO E A VARIAÇÃO DA PLUVIOSIDADE NO
ANO-PADRÃO SECO (1993)
024
A
DISTRIBUIÇÃO
ESPACIAL
PLUVIOMÉTRICOS EM 24 HORAS
025
4.4.
4.5.
5.
6.
DOS
MÁXIMOS
A VARIAÇÃO ESPACIAL DO BALANÇO HÍDRICO
025
5.1.
A EVAPOTRANSPIRAÇÃO POTENCIAL
026
5.2.
A EVAPOTRANSPIRAÇÃO REAL (mm)
027
5.3.
A DEFICIÊNCIA HÍDRICA ANUAL
027
5.4.
OS EXCEDENTES HÍDRICOS ANUAIS
028
AS UNIDADES CLIMÁTICAS DE MATO GROSSO
6.1.
6.2.
029
CLIMA EQUATORIAL CONTINENTAL ÚMIDO COM
ESTAÇÃO SECA DEFINIDA (I) DA DEPRESSÃO SUL
AMAZÔNICA.
029
CLIMA SUB-EQUATORIAL CONTINENTAL ÚMIDO COM
ESTAÇÃO SECA DEFINIDA (II) DO PLANALTO DOS
PARECIS.
036
6.3.
CLIMA
TROPICAL
CONTINENTAL
(III)
ALTERNADAMENTE ÚMIDO E SECO DAS CHAPADAS,
PLANALTOS E DEPRESSÕES DE MATO GROSSO
6.3.1.
O Clima Tropical Mesotérmico Úmido dos Topos
de Cimeira dos Chapadões (IIIA)
038
039
6.3.2.
O Clima Tropical Mesotérmico-Quente e Úmido dos
Parecis, Alto Xingu e Alto Araguaia (IIIB)
041
6.3.3.
O Clima Tropical de Altitude Mesotérmico
Quente da Fachada Meridional das Chapadas e
Planaltos (IIIC)
044
O Clima Tropical Megatérmico Úmido dos
Baixos Planaltos e Depressões de Mato Grosso
(IIID)
047
O Clima Tropical Megatérmico Sub-Úmido das
Depressões e Pantanais de Mato Grosso (IIIE)
053
O Clima Tropical Continental Úmido de Altitude
das Serras e Maciços Isolados (IIIF)
055
6.3.4.
6.3.5.
6.3.6.
7.
CONCLUSÕES
056
8.
BIBLIOGRAFIA
061
ANEXOS
ANEXO I – MAPAS
A001
REDE PLÚVIOMÉTRICA E METEOROLÓGICA
A002
DISTRIBUIÇÃO DA TEMPERATURA MÉDIA ANUAL
A003
DISTRIBUIÇÃO DA TEMPERATURA MÉDIA DAS MÁXIMAS ANUAIS
A004
DISTRIBUIÇÃO DA TEMPERATURA MÉDIA DAS MÍNIMAS ANUAIS
A005
DISTRIBUIÇÃO DA PLUVIOSIDADE ANUAL MÉDIA (1983-1994)
A006
DISTRIBUIÇÃO DA PLUVIOSIDADE MÉDIA (1983 1994) NO TRIMESTRE MAIS
CHUVOSO
A007
DISTRIBUIÇÃO DA PLUVIOSIDADE MÉDIA,
TRIMESTRE MAIS CHUVOSO (1983 – 1994)
A008
DISTRIBUIÇÃO DA PLUVIOSIDADE MÉDIA (1983-1994) NO TRIMESTRE MAIS
SECO
A009
DISTRIBUIÇÃO DA PLUVIOSIDADE
TRIMESTRE MAIS SECO (1983 – 1994)
A010
DISTRIBUIÇÃO DA PLUVIOSIDADE NO ANO PADRÃO CHUVOSO (1992)
MÉDIA,
EM
EM
PORCENTAGEM,
PORCENTAGEM,
NO
NO
VOLUME II
A011
DISTRIBUIÇÃO DA PLUVIOSIDADE NO TRIMESTRE MAIS CHUVOSO DO ANO
PADRÃO CHUVOSO (1992)
A012
DISTRIBUIÇÃO DA PLUVIOSIDADE NO TRIMESTRE MAIS SECO DO ANO
PADRÃO CHUVOSO (1992)
A013
DISTRIBUIÇÃO DA PLUVIOSIDADE NO ANO PADRÃO SECO (1993)
A014
DISTRIBUIÇÃO DA PLUVIOSIDADE NO TRIMESTRE MAIS CHUVOSO DO ANO
PADRÃO SECO (1993)
A015
DISTRIBUIÇÃO DA PLUVIOSIDADE NO TRIMESTRE MAIS SECO DO ANO
PADRÃO SECO (1993)
A016
DISTRIBUIÇÃO DOS MÁXIMOS PLUVIOMÉTRICOS EM 24 HORAS
A017
DISTRIBUIÇÃO DA EVAPOTRANSPIRAÇÃO POTENCIAL MÉDIA (1983 – 1994)
A018
DISTRIBUIÇÃO DA EVAPOTRANSPIRAÇÃO REAL MÉDIA ANUAL (1983 – 1994)
A019
DISTRIBUIÇÃO DA DEFICIÊNCIA HÍDRICA ANUAL (1983-1994)
A020
DISTRIBUIÇÃO DO EXCEDENTE HÍDRICO MÉDIO ANUAL (1983 – 1994)
A021
UNIDADES CLIMÁTICAS DO ESTADO DE MATO GROSSO
A022
POTÊNCIAL AGROCLIMÁTICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
LISTA DE QUADROS
001
GRAUS DE INTENSIDADE DA SECA E DO EXCESSO DE ÁGUA EM
MATO GROSSO, SEGUNDO O BALANÇO HÍDRICO (CC – 75mm)
030
LISTA DE GRÁFICOS
001
VARIAÇÃO MENSAL DA NEBULOSIDADE - JANEIRO/JUNHO
010
002
VARIAÇÃO MENSAL DA NEBULOSIDADE – JULHO/DEZEMBRO
011
003
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA SINOP
032
004
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO MATUPÁ
033
005
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA VERA
033
006
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA SÃO FÉLIX DO ARAGUAIA
034
007
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA VILA RICA
035
008
BALANÇO HÍDRICO PARA SÃO JOSÉ DO RIO CLARO
037
009
BALANÇO HÍDRICO PARA ALÔ BRASIL
037
010
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA ALCOOMAT
040
011
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA CHAPADA DOS GUIMARÃES
041
012
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA NOVA MUTUM
043
013
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA PARANATINGA
043
014
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA PARECIS
047
015
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO V. B. DA SANTÍSSIMA TRINDADE
049
016
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA CUIABÁ
051
017
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA RONDONÓPOLIS
052
018
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA PORTO CERCADO
054
1
1.
INTRODUÇÃO
O principal objetivo deste relatório técnico é caracterizar e descrever as Unidades
Climáticas do Estado de Mato Grosso. No entanto, é preciso considerar de que maneira foram
feitos a apreensão, o entendimento e a representação da realidade climática. A evolução do
conhecimento passou por várias fases e níveis, permeado sempre por uma dialética permanente
entre teoria – prática e realidade.
A primeira fase (dados secundários nível compilatório) foi constituída por um
levantamento bibliográfico e de dados e estudos realizados. A análise e avaliação críticas deste
levantamento permitiram compor um conjunto de informações capazes de propiciar uma
avaliação sobre o estado atual do conhecimento climatológico do Estado de Mato Grosso.
Uma das principais conclusões resultantes dessa revisão bibliográfica foi ter ficado
evidente o caráter pontual e extremamente genérico dos estudos climatológicos (feitos em sua
maioria para escalas muito pequenas de análise, entre 1:5.000.000 a 1:20.000.000), abrangendo
todo o território brasileiro ou mesmo toda a América do Sul. Portanto, mesmo os estudos que
abrangem todo o seu território não foram metodologicamente construídos a partir do
conhecimento das realidades climáticas do seu espaço biogeofísico, mas sim como projeções
dos mapeamentos realizados em nível de Brasil e ou para a América do Sul. Por outro lado, os
trabalhos pontuais (na escala local) não analisaram as variações mensais e sazonais dos
atributos climáticos de forma a permitir aplicabilidade no planejamento das atividades
sócio-econômicas.
Um segundo produto, ainda dentro desta fase compilatória, foi um mapa na escala de
1:1.500.000 denominado “As Unidades Climáticas do Estado de Mato Grosso – 1a Aproximação”,
SEPLAN, 1997. Tendo em vista que os dados e informações secundárias utilizados naquela
compartimentação climática eram muito genéricos e descontínuos (no tempo e no espaço); as
unidades climáticas apresentadas foram encaradas como “hipóteses de trabalho” a serem
decompostas, avaliadas e reconstruídas ao longo de todo o desenvolvimento do Diagnóstico
Sócio – Econômico - Ecológico de Mato Grosso” (SEPLAN, 1997).
Esta primeira compartimentação foi extremamente útil e necessária na resolução de
vários problemas teóricos e práticos da investigação. O primeiro deles foi ter mostrado onde
estavam as áreas com diferentes graus de deficiência a cerca do conhecimento climatológico,
tanto de cada realidade especificamente, como do tipo de informação e dado meteorológico
existente. Desta maneira, todo o programa de análise crítica e substituição das falhas procurou
respeitar (sempre que possível) os macro limites regionais das Unidades Climatologicamente
Homogêneas. Por outro lado, todo o roteiro do trabalho de campo (05 expedições), 03 na
estação chuvosa e 02 na estação seca, foi estabelecido com o propósito de percorrer e cortar as
principais unidades climáticas zonais, regionais e locais do Estado de Mato Grosso. Este
procedimento ajudou a sanar várias dúvidas sobre limites zonais (entre os climas Equatoriais e
Tropicais), bem como melhorar a sistematização e generalização das coletas e observações de
campo.
A fase do mapeamento dos atributos (temperatura, chuva e balanço hídrico) procurou
sempre manter viva a relação entre a representação cartográfica do fenômeno e o conhecimento
da realidade. Assim sendo, por exemplo, o mapeamento da pluviosidade foi feito por
aproximações sucessivas e interativas entre a técnica de interpolação linear (através do
Programa Surfer) e o conhecimento obtido através das observações de campo (altitude, forma e
orientação do relevo, drenagem, uso do solo, vento, nebulosidade). Todos os 19 mapas
2
(temperatura, chuva e balanço hídrico) foram analisados e criticados buscando a melhor
explicação com os controles climáticos. Este procedimento procurou respeitar e identificar
qualidades e processos, mesmo nas áreas onde não se contava com nenhuma estação
meteorológica, mas cujas evidências na paisagem deixava claro diferenças e variações na
distribuição espacial do atributo climático.
A distribuição espacial da rede meteorológica e pluviométrica utilizada encontra-se
representada no Mapa A001 Rede Pluviométrica e Meteorológica. Neste cartograma pode-se
observar a distribuição irregular, existindo áreas e espaços climáticos onde a rede é escassa ou
praticamente inexistente.
A fase de síntese (mapeamento das Unidades Climáticas do Estado de Mato Grosso)
foi construída a partir de uma análise integrada entre atributos e controles climáticos de
superfície. A distribuição da pluviosidade no tempo (variação anual média, sazonal e mensal) e
no espaço forneceu a base interpretativa para suas relações com a variação qualitativa e
quantitativa da temperatura. Estes dois atributos foram sempre relacionados aos controles
climáticos, tanto em suas variações sazonais, como nos gradientes associados à latitude,
longitude, altitude, forma e orientação do relevo e da própria gênese ligada à circulação
atmosférica regional. No entanto, os resultados obtidos através do balanço hídrico, pelo fato de
ser uma técnica que permite avaliar a oferta pluvial e cotejá-la com a perda através da
evapotranspiração, forneceu através da estimativa das deficiências e excedentes hídricos as
propriedades básicas de cada Unidade Climática. Portanto, o primeiro critério que se mostrou
mais consistente para a delimitação das Unidades foi o da variação da deficiência hídrica. O
segundo critério, em termos de ordem de importância foi o excedente hídrico combinado com a
intensidade da pluviosidade anual e sazonal. O terceiro critério é relacionado com a
disponibilidade de energia, avaliado através da variação da temperatura do ar. Este elemento foi
sempre deduzido através de suas correlações e gradientes associados à altitude, latitude e
longitude. Esta seqüência de critérios é uma explicação necessária do ponto de vista técnico, no
entanto, o conceito de Unidade Climática está sempre ligado à totalidade da realidade, ou seja, a
delimitação no mapa busca criar uma identidade que nasce de um conjunto de relações
indissociáveis do clima dentro da paisagem biogeofísica.
1.1.
REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
Na fase preliminar deste projeto foi realizada uma análise da bibliografia publicada e
disponível para consulta. Naquele momento (Caderno de Climatologia – SEPLAN, 1997) foi
redigido um item denominado “O Estado Atual do Conhecimento Climatológico do Estado de
Mato Grosso” cujo teor julga-se oportuno transcrever neste relatório técnico, pois permitirá uma
avaliação crítica e efetiva da contribuição alcançada neste diagnóstico climatológico.
Os Estudos publicados sobre o clima de Mato Grosso refletem, em geral, a
precariedade dos dados climatológicos disponíveis, concentrando-se na área sul do Estado,
especialmente na região do Pantanal, na qual a rede de estações meteorológicas é mais densa.
O pouco conhecimento do norte do Estado deve ser procurado nos estudos sobre a Amazônia e
o referente ao restante do Estado, nos estudos sobre a região centro-oeste brasileira.
Num dos primeiros trabalhos sobre o clima do Centro-Oeste, com uma abordagem
explicativa e de integração geográfica, MONTEIRO (1951), enfoca o estudo da região na faixa
situada abaixo do Paralelo 14°S. Justifica tal procedimento pela distribuição das estações
meteorológicas, concentradas nessa área. Analisa a temperatura, ressaltando sua dependência
do fator altitude e o papel da circulação geral no decorrer do ano influenciando as variações
térmicas estacionais. Estuda ainda a chuva e sua distribuição anual e aplica o “índice de
umidade” de E. de Martonne. Apresenta gráficos climáticos contendo a distribuição mensal
média da chuva, temperatura média compensada e temperaturas máxima e mínima
3
compensada e absoluta e aplica a classificação de Köeppen que, na época do trabalho, era tida
como satisfatória para estudos de âmbito geral. Dedica ainda um tópico especial para as
relações entre os aspectos climáticos e os traços naturais e culturais da região, analisando as
três unidades topográficas que se identificam no Centro-Oeste: a baixada, a borda ocidental do
planalto e o planalto.
A OEA (1969), em trabalho sobre a Bacia do Rio da Prata, apresenta no tópico
denominado Atmosfera, os Centros de Ação, a Circulação Geral da Atmosfera, as massas de ar
e as frentes que definem o tempo na bacia. Das informações levantadas que abarcam a área do
Pantanal mato-grossense constam basicamente: a precipitação, a temperatura, a evaporação e
a evapotranspiração. O estudo apresenta a classificação do clima da bacia aplicando a
classificação de Thornthwaite e a de Troll. Pela primeira, a bacia Superior do Paraguai se
caracteriza por um clima do tipo sub-úmido (tipo C) e pela de Troll, por um clima do tipo tropical
com chuvas de verão (7 a 9 ½ meses) (zona V-2).
BASTOS (1972), procura mostrar, numa visão bastante ampla, o modo de ocorrência
dos fenômenos meteorológicos que mais afetam o ambiente climático e as condições da
agricultura na Amazônia Brasileira. Seu trabalho define e mapeia os tipos climáticos da região
em função das classificações de Köeppen e de Thornthwaite, “a primeira por ser mais usual e a
segunda por ser mais racional dada a introdução da evapotranspiração potencial como elemento
de classificação (op. cit. pág.71). Calculou o Balanço Hídrico para Cáceres, Cuiabá e Presidente
Murtinho, segundo o método de THORNTHWAITE,1955.
O DNOS (1974) nos Estudos Hidrológicos da Bacia do Alto Paraguai (Região do
Pantanal, Estado de Mato Grosso), instalou duas estações meteorológicas para fornecerem
elementos adicionais aos da rede existente na região: Fazenda São João (16°57’ S e 56°38’W)
no Estado de Mato Grosso e Fazenda Rio Negro (19°35’S e 56°12’W) no atual Estado de Mato
Grosso do Sul. O trabalho faz um estudo de precipitação voltado para as necessidades
hidrológicas, analisando o total anual médio, as variações ao longo da série temporal disponível
para seis estações meteorológicas, a distribuição mensal da precipitação, o número anual de
dias de chuva, a ocorrência máxima de precipitação com duração de um a dois dias, a
intensidade de precipitação e sua distribuição horária. Apresenta ainda informações sobre
radiação solar, evaporação de tanque classe A, capacidade evaporativa do ar (tipo Piche) e
temperatura do ar para as duas estações mencionadas, no período 1970-1972.
NIMER (1977 e 1989), em estudo sobre o clima região Centro-Oeste, preocupa-se em
definir os sistemas de Correntes Perturbadas que afetam o tempo na região. Analisa a
temperatura e a pluviosidade e propõe diferenciações climáticas baseadas no regime térmico e
no das chuvas.
O Projeto RADAMBRASIL, estudando as Folhas Tocantins (SC-22), Juruena (SC-21) e
Guaporé (SD-20), enfoca as áreas em relação à classificação de Köeppen, apresentada em
vários trabalhos, e àquela proposta por Nimer. Apresenta em linhas gerais, o comportamento da
precipitação e da temperatura baseando-se nas informações das cartas do Atlas Climatológico
do Brasil (1969), escala aproximada de 1:16.000.000. Tendo por objetivo fornecer subsídios à
avaliação do Potencial Agroclimático, procura definir o tipo de clima regional baseando-se no
índice de umidade de Thornthwaite, na precipitação total média anual, no excedente hídrico total
médio anual, na deficiência hídrica total média anual e no número médio de meses por ano, com
deficiência hídrica e com excedente hídrico. Os climas assim definidos seguem uma terminologia
que os classifica em função da umidade (forte, média ou fraca) uma vez que do ponto de vista
térmico são todos tidos como quentes. Os trabalhos, entretanto, não apresentam os resultados
mensais dos estudos desenvolvidos para se obter o Balanço Hídrico.
A Folha Tocantins abarca o setor nordeste do Estado de Mato Grosso entre os
paralelos de 10 e 12° S e os meridianos de 51°15’ e 54°W; a Folha Juruena, o setor nordeste do
4
Estado, entre 8 e 12°S e 54 e 60°W; e a Folha Guaporé, só abarca estreita faixa a sudoeste do
Estado de Mato Grosso, entre 60 e 60°30’W e os 12 e 16°S.
Nas folhas Goiás (SD-22), Cuiabá (SD-21), Corumbá (SE-21), Goiânia (SE-22) e Porto
Velho (SC-20) é apresentado um esboço genérico da circulação atmosférica, temperatura e
pluviosidade. O Balanço Hídrico de THORNTHWAITE,1948, é utilizado como elemento de
definição da capacidade de uso do solo. Os resultados obtidos para esse Balanço Hídrico
também não são apresentados claramente.
O PRODIAT (1982) estudou o clima da Bacia Araguaia-Tocantins analisando a
temperatura, a precipitação, os ventos, umidade relativa, insolação, evaporação,
evapotranspiração, balanço hídrico e nebulosidade. O trabalho apresenta um zoneamento
climático baseado em Thornthwaite e Mather e ainda a classificação de Köeppen. A área desse
estudo que interessa ao Estado de Mato Grosso é uma estreita faixa a E-NE do Estado entre os
paralelos 6° e 17°S, envolvendo a Bacia do Rio Araguaia.
TARIFA (1986), analisa o sistema climático do Pantanal salientando a importância da
localização geográfica da região dentro do território sul-americano, bem como sua situação
topográfica e segundo o conceito de “ritmo” da climatologia geográfica. Foram analisados os
sistemas atmosféricos, o balanço de radiação e os atributos climáticos (Temperatura, umidade
do ar e pluviosidade). A situação média da circulação da América do Sul é analisada a partir da
cobertura de nuvens, adaptada de trabalho de MILLER & FEDDES (1971). Observa o
predomínio de céu limpo de maio a junho e um máximo de nebulosidade de novembro a
fevereiro, ligando tais fatos às atuações de um anticiclone tropical (“formado pelo ramo
descendente da circulação de Hadley”, op. cit. pág.11) e à massa Equatorial Continental.
Ressalta ainda, a importância da atuação da Frente Polar Atlântica nos resfriamento de inverno e
na produção de chuva nas outras estações. Representa graficamente a variação mensal do
Balanço de Radiação e variação Temporo-Espacial da Radiação Solar Global e conclui que ao
nordeste dos 15°S, esta última não diminui no período de outono-inverno, enquanto que na faixa
central (entre 17°S e 20°S), neste período, cai abaixo de 300 cal/cm-²/dia-1, e o máximo ocorre
entre outubro e fevereiro (entre 450 e 500 cal/cm-²/dia-1). Para a análise dos atributos climáticos
foram construídos gráficos da variação temporo-espacial das temperaturas médias anuais, das
mínimas absolutas, máximas absolutas, umidade relativa do ar e da pluviosidade mensal e
também Perfis Pluviométricos anuais.
SANT’ANNA et al. (1989, estudando a região de Rondonópolis, analisa o clima a partir
do cálculo do Balanço Hídrico, segundo o método de THORWTHWAITE E MATHER (1955,
1957), com capacidade de campo de 100 mm, para 10 estações meteorológicas. Trata-se de um
estudo cuidadoso que, tendo por finalidade proporcionar informações para análise do
escoamento superficial (runoff), fornece os resultados obtidos nos cálculos efetuados, bem como
a representação gráfica do Balanço Hídrico.
SANCHEZ (1992), enfoca o clima entre os Recursos Naturais do Estado de Mato
Grosso reportando-se a TARIFA (1986), para lembrar o problema de carência de dados de
superfície e em especial de altitude. Ainda, baseando-se nesse autor: associa as faixas de
nebulosidade e a distribuição das chuvas durante o ano; ressalta a elevação dos índices de
radiação solar de S para N do Estado. Mostra, de outro lado, as linhas gerais do comportamento
das chuvas, da temperatura e da umidade do ar e também, a conveniência de se estudar a
variabilidade mensal e anual das chuvas, atentando para os desvios em relação às médias.
Destaca o trabalho de CAMPELO JR. (1989), que analisa as deficiências hídricas para estações
meteorológicas de Mato Grosso, utilizando estimativas de precipitação mínima esperada ao nível
de 75% de probabilidade a cada quatro anos.
5
2.
FUNDAMENTOS DINÂMICOS DO CLIMA DO ESTADO DE MATO GROSSO
2.1.
INTRODUÇÃO
A circulação atmosférica do Estado de Mato Grosso ainda não é bem conhecida. A
enorme extensão territorial de 906.806,9 km2 aliada à quase ausência de estações com
radiosondagem prejudicou o desenvolvimento do conhecimento meteorológico. No entanto, nos
últimos dez anos, graças à utilização das imagens de satélites meteorológicos, bem como
análises realizadas através dos modelos de previsão do tempo, houve um avanço considerável
dos padrões de larga escala.
No levantamento bibliográfico realizado, procurou-se selecionar os principais trabalhos
executados com base nos campos de pressão atmosférica, cartas sinóticas de superfície e de
altitude, referentes ao conhecimento básico produzido até meados da década de 1980. A partir
da publicação mensal da CLIMANÁLISE (CPTEC-INPE – São José dos Campos) em outubro de
1986, foi possível ordenar uma evolução e sistematização do conhecimento da circulação
atmosférica regional sobre o Estado de Mato Grosso. Assim sendo, a base dos últimos dez anos
está assentada numa revisão da contribuição desta publicação. A melhor forma de apresentar e
comunicar os resultados nos pareceu, estruturando o conhecimento a partir dos resultados
referentes a cada escala de análise. Portanto, a abordagem aqui adotada seguirá uma estrutura
da superfície para os níveis superiores da troposfera.
2.2.
A CIRCULAÇÃO DE SUPERFÍCIE (1.000 MB)
A extensão territorial do Estado de Mato Grosso (MT), localizado na porção central da
América do Sul, entre as latitudes de 8º a 19º LS e de 51º a 62º LW, lhe impõe certas
características específicas dos Climas Continentais das latitudes intertropicais da América do
Sul. Uma das principais propriedades climatológicas desta realidade é estar situado numa área
de transição entre os Climas Tropicais Continentais, revestidos com Cerrado e os Climas
Equatoriais Continentais recobertos com Floresta Amazônica. Da mesma maneira, a localização
continental, distante entre 1.400 a 2.000 km do Oceano Atlântico, lhe confere padrões climáticos
sazonais com alternância numa estação úmida, (de novembro a abril) e uma estação seca (de
maio a setembro). A grande extensão latitudinal, (8º a 9º LS) altera esta distribuição sazonal,
fazendo com que a estação chuvosa no extremo meridional geralmente se inicie com 1 a 2
meses de antecedência (setembro-outubro) enquanto no extremo norte ocorre um atraso
(novembro e dezembro). Por outro lado, o início da estação seca é da mesma maneira
antecipado no sul (março-abril) enquanto no extremo norte, o verão amazônico1 só se inicia em
maio-junho.
Estas características territoriais, fazem com que de modo geral, persista na estação
chuvosa um esquema de circulação atmosférica de superfície associado às baixas pressões do
Continente Sul Americano. Por outro lado, na estação seca ocorre o avanço dos centros de alta
pressão sobre as áreas centrais da América do Sul.
Um dos pioneiros a descrever a circulação de superfície para o Estado de Mato Grosso
(MT e MS) foi SERRA (1948), procuramos transcrever abaixo a descrição dos movimentos
sinóticos para as quatro estações do ano:
1
Inverno (junho, julho e agosto)
Na Amazônia (ou no norte do Mato Grosso) a estação chuvosa é chamada de inverno ou estação das águas,
enquanto que a estação seca é conhecida por verão
6
“A queda do barômetro, conseqüente à frontogênese na Frente Polar Atlântica, produz elevação da
temperatura, e arrasta para SE a Instabilidade Tropical, de base na baixa central, bem como as
respectivas chuvas e trovoadas. Apresentam eles correntes N até 3 km, contra NW-W mais acima, e se
deslocam numa média de 300 km/dia. Tais formações persistem, e se reforçam, quando a Frente Polar
Atlântica caminha para norte. A nebulosidade aumenta, então, o mesmo sucedendo à temperatura.
Se a frente se dirige para Mato Grosso, a pressão cai no sul do Estado, onde o termômetro sobe perto de
4º, coincidindo tal fato com o giro de todos os ventos superiores para N, e desaparecimento das várias
componentes de S. O céu limpa, então, rapidamente. Depois, já na própria massa polar, nota-se aumento
bárico, queda de temperatura, e um teto 10 de Cu, Sc, sob ventos S, que alcançam em média 2 km.
Ocorrem chuvas frontais, de trovoadas, mas a estrutura se assemelha, em regra, a uma frente quente,
com 10 de Ns e As. Em seguida, a pequena taxa de vapor d’água, no ar Polar continental, e limpeza do
céu, produzem as acentuadas mínimas de friagem, acompanhadas, entretanto, por máximas elevadas, e
nevoeiro pela manhã.
Se, agora, nova frontogênese ocorrer na Frente Polar Atlântica, no Prata, a pressão cai na massa Polar
continental, e a nebulosidade se reduz a St e Sc, o céu ficando limpo, com giro dos ventos para N.
Gradualmente, voltam as condições normais, e o intenso aquecimento, no solo, resulta em poderosas
formações de Cu.
Quando o avanço da Frente Polar se produz apenas no litoral a queda do barômetro coloca o Estado sob
a baixa central, com elevação da temperatura. Depois, verificada a frontólise no trópico, o centro de ação
volta para o interior e, ao passo que na costa leste ele intensifica as chuvas, em Mato Grosso causa
somente um declínio na temperatura.”
-
Primavera (setembro, outubro e novembro)
“Com a agravação da frontogênese na Frente Polar Atlântica, a pressão cai, e o Estado fica dominado pela
baixa central. Os ventos, a princípio de SW, tornam-se logo de N-NW, secos, acarretando forte
aquecimento; a cobertura, antes de Sc, evolve, gradualmente, para 4-2 de Cu, na formação da massa
Tropical continental”.
Sob o avanço frontal ao Rio Grande do Sul, a pressão se eleva em Mato Grosso, e as instabilidades
tropicais logo produzem rápida transformação para Equatorial continental: a nebulosidade aumenta, e a
temperatura declina, observando chuvas e trovoadas, de Sc, Cb, Ns. Forma-se uma alta destacada, a qual
origina ventos de Sul (a leste), e de Nordeste (a oeste); a seguir, vai surgindo, aos poucos, a nova baixa a
norte, no Xingu, as instabilidades tropicais se encaminhando, de modo lento, para Goiás.
Enquanto persiste o aumento da pressão, não pode entrar a massa Polar continental, cujo avanço ulterior
para norte é sempre indicado por uma queda do barômetro no sul do Mato Grosso, acompanhada de
aquecimento.
Finalmente, na chegada do ar polar, as chuvas cessam, e as direções giram para Sul, enquanto a pressão
aumenta, decrescendo a temperatura. O céu, a princípio de Sc St, fica rapidamente limpo, permitindo
mínimas acentuadas.”
-
Verão (dezembro, janeiro e fevereiro)
“Tendo início a frontogênese na Frente Polar Atlântica, a pressão se eleva e a temperatura declina,
registrando-se maior nebulosidade de Ns-Sc, nas dorsais de massa Equatorial continental, deslocadas
para o Chaco”.
Avançando a frente para o Rio Grande do Sul, a pressão atinge o máximo em Mato Grosso. Se, contudo,
aquela prosseguir mais para o norte, o barômetro desce, e os ventos se tornam de NW, com forte
aquecimento, tanto mais intenso, quanto mais próxima a baixa central. A massa Tropical continental vem
assim a dominar, e suas nuvens se reduzem a 3-6 de Cu, com forte seca no sul, e gradual diminuição das
precipitações a norte.
É quase impossível no verão, o próprio ar Polar continental penetrar em Mato Grosso. Contudo, parte do
Estado é freqüentemente dominada pela Frente Polar Reflexa, aí ocorrendo ventos de S, chuvas,
trovoadas e resfriamento acentuado.”
-
Outono (março, abril e maio)
“Na fase do estio a pressão se mantém elevada, ocorrendo aguaceiros nas zonas setentrionais do Estado,
sob 10 Ns, e ventos N. Contudo, um declínio barométrico se regista com a intensificação da Frente Polar
Reflexa no sul de Mato Grosso. Esta acarreta direções de SE, resfriamento e 0-2 de Cu, na região limítrofe
7
do Paraguai, contra NE e aquecimento, na Serra do Roncador, onde a nebulosidade logo se reduz a 4-6
Sc”.
Intensa frontogênese no Prata redunda em aumento da temperatura, correntes NW e redução da
cobertura para 0-2 Ac. Já o avanço frontal do Rio Grande do Sul permite subida do barômetro, ventos de N
e novo resfriamento. Tais fenômenos são substituídos, na formação dos ciclones naquela região por um
declínio da pressão em Mato Grosso, sob correntes de NE, aquecimento e nebulosidade 4-6 de Cu, Sc,
salvo nas instabilidades tropicais, onde esta se agrava para 8-10 Cu, Sc.
Finalmente, a penetração do próprio ar polar resulta em chuvas frontais e acentuada baixa termométrica,
acompanhada por direções de S, 10 de Ns e Sc, e grande subida de pressão.”
Após esta contribuição de Adalberto Serra, e apoiando-se em outros clássicos da fase
inicial da meteorologia (anterior aos anos 60) como Massas de Ar na América do Sul (SERRA &
RATTSBONNA, 1942), o professor Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro, propôs um esquema
didático para a interpretação e análise dos sistemas atmosféricos na América do Sul
(MONTEIRO, 1969, 1973).
Neste esquema os principais sistemas atmosféricos que afetam a região central do
Brasil são:
-
Massa Tropical Continental (MTC) – está associada às várias “fácies” da
depressão continental do Chaco, trata-se de uma depressão barométrica com
maior atuação durante a primavera-verão, parcialmente associada ao
aquecimento das terras baixas do continente sul americano;
-
Massa Equatorial Continental (MEC) está ligada ao cinturão das baixas pressões
equatoriais continentais da América do Sul. Sua máxima expansão ocorre no
verão austral (dezembro a janeiro);
-
Massa Tropical Atlântica (MTA), sua fonte de origem está ligada ao Atlântico Sul
(23 a 30º LS), sendo o ramo descendente da circulação de Hadley; no
outono-inverno avança sobre o continente sul americano;
-
Massa Equatorial Atlântica (MEa) é o campo de abertura do anticiclone subtropical
do Atlântico Sul, sendo na realidade o campo de divergência dos alíseos de
Sudeste e leste do Hemisfério Meridional. Tornam-se dinamicamente instáveis, a
medida que avançam para latitudes mais baixas (inferiores à latitude de 10 a 12º
LS) em função do forte aquecimento pela base proporcionado pelo aquecimento
do solo;
-
Massa Equatorial do Atlântico Norte (MEn) – Trata-se do campo de divergência
dos ventos provenientes da célula de alta pressão do Atlântico Setentrional, cuja
penetração na Amazônia equatorial, se dá com componentes de nordeste e
eventualmente norte. Quando a trajetória sobre o continente é muito longa em
direção à baixa do Chaco, se tornam instáveis penetrando com direção de
noroeste;
-
Massa Polar Atlântica (MPa), este sistema acompanha a evolução e o
deslocamento da frente polar no continente sul americano. Em função de sua
trajetória pode ser classificado como de origem oceânica ou continental (MPc),
sendo esta última mais freqüente durante o inverno quando provoca o fenômeno
da “friagem” nas regiões centrais do Continente Sul Americano;
-
Frente Polar Atlântica (FPA) – A influência do eixo principal da FPA em Mato
Grosso, depende do tipo de ciclogênese e do deslocamento do sistema frontal.
Mesmo em situações sinóticas de atuação indireta ela intensifica e organiza a
convecção no Brasil Central;
8
-
ZCIT – A zona de Convergência Intertropical, é um dos sistemas mais importantes
da faixa equatorial. Sua atuação no extremo Norte e Nordeste do Estado de Mato
Grosso, é discutível. É provável que ela tenha apenas uma atuação indireta
reforçando ou aprofundando as células de convecção. A freqüência e maior
atividade deste sistema deve ocorrer no final do verão e início do outono
(fevereiro-março até março-abril).
Estudos mais recentes Têm utilizado imagens de satélites meteorológicos para
complementar as análises de campos de vento e nebulosidade (VIRJIH, 1981; MOLION &
KOUSKY, 1981).
Com base no estudo de MILLER e FEDDES (1971), adaptado por TARIFA, (1986)
(Gráficos 001 e 002) pode-se caracterizar o que se aproxima da situação média da circulação
para a região Centro-Ocidental da América do Sul: a primeira constatação que pode ser
observada na seqüência apresentada nos Gráficos 001 e 002 são as áreas totalmente brancas
(cobertura em octas de 0 a 1) e as áreas totalmente escuras (cobertura em octas de 5 a 8),
dominando, respectivamente, na região central do Brasil, de maio a junho (céu limpo) e de
novembro a fevereiro (céu com o máximo de nebulosidade). Estas duas situações contrastantes
representam os trimestres mais secos e mais chuvosos para a região do Estado de Mato Grosso.
Esta área de céu totalmente limpo, de forma ligeiramente circular, representa a permanência de
um anticiclone, formado pelo ramo descendentes da circulação de Hadley: conforme pode ser
observado no Gráfico 001, atinge seu ponto de máxima descida latitudinal em maio,
deslocando-se para norte-nordeste em junho e julho, respectivamente. A extensa banda de
nebulosidade que corta a Amazônia e o Brasil Central de noroeste para sudeste (máxima
concentração em novembro-dezembro), que aumenta em intensidade progressivamente a partir
da primavera-verão (setembro-outubro), oriunda da Amazônia Central e Oriental, e que se
desloca para Sul-Sudeste, é responsável pela produção da maior parte das chuvas de
primavera-verão, principalmente do setor norte da Bacia do Alto Paraguai.
Em que pese a ausência de estudos específicos sobre os deslocamentos destes
sistemas da Amazônia para o Centro-Oeste, o fato é que durante a estação das chuvas no Brasil
Central é muito freqüente o deslocamento destas perturbações vindas do noroeste em direção à
Depressão Continental do Chaco. Este tipo de fluxo foi denominado por SERRA (1942), de
Massa Equatorial Continental. Portanto, a maior parte das precipitações do Estado de Mato
Grosso depende deste tipo de fluxo. Em termos de macro-escala, este tipo de transporte de
umidade parece também depender de transferência de vapor d’água, trazido do Atlântico Norte.
Esse fluxo equatorial e oceânico carrega, para a Amazônia adentro, grande parte da umidade em
baixos níveis, sendo que o anfiteatro formado pelos Andes e a Depressão Continental do Chaco
afunilam para latitudes mais altas, no interior do Brasil Central.
Não podemos, entretanto, nos esquecer da atuação da Frente Polar Atlântica, sendo
ela o sistema atmosférico com maior mobilidade e grau de penetração em território brasileiro.
Quando precedida de forte ciclogênese acima ou em torno do paralelo de 30º, próximo da costa
do Rio Grande do Sul (TARIFA & HAMILTON, 1978), indica que vai penetrar fundo no Planalto
Central e, eventualmente, atingir o sul da Amazônia.
Se no inverno ela produz graus diferenciados de resfriamentos episódicos, nas outras
estações é parcialmente responsável pela produção de chuvas.
Pode-se observar, nos Gráficos 001 e 002 que a partir do mês de maio ocorre um
aumento de nebulosidade (3 a 4 octas), de sudoeste para nordeste, que atinge o Mato Grosso
em junho e permanece até agosto com a mesma orientação. Esta faixa de nebulosidade é ligada
aos deslocamentos frontais da Frente Polar, em território brasileiro. Existem resultados que
demonstram que esse elevado grau de penetração da Frente Polar estaria relacionado a um
trough estacionário, ligado à Cordilheira dos Andes (SATYAMURTI et al 1980), e orientado no
9
mesmo sentido da banda de nuvens presentes nos Gráficos 001 e 002 nos meses de novembro
a dezembro”. (TARIFA , 1986).
Recentemente, TARIFA (1994), demonstra preocupação de que a área do Brasil
Central (principalmente o Clima Equatorial Continental do Estado de Mato Grosso), possa sofrer
uma diminuição das chuvas (a longo prazo) em função das mudanças climáticas que venham a
ocorrer na Amazônia. A análise de imagens de satélites meteorológicos, bem como o estudo do
escoamento troposférico em baixos níveis (850 mb) demonstram haver um deslocamento
constante (de noroeste para sudeste) de nuvens e vapor d’água da Amazônia Ocidental para o
Centro-Oeste. Assim sendo, conclui o autor, apesar de ainda não existirem simulações capazes
de relacionar o desflorestamento da floresta equatorial com a diminuição das chuvas no Estado
de Mato Grosso, as evidências observacionais demonstram que uma parte considerável da
umidade atmosférica do Brasil Central é geneticamente formada na Amazônia Centro-Ocidental.
10
ENTRA GRÁFICO 001
11
ENTRA GRÁFICO 002
12
2.3.
A CIRCULAÇÃO GERAL DE LARGA ESCALA
O Estado de Mato Grosso, devido à sua grande extensão latitudinal, caracteriza-se por
ser uma região de transição entre os climas quentes de latitudes baixas e os climas Tropicais do
Brasil Central. O extremo meridional do Estado é afetado pela maioria dos sistemas sinóticos que
atingem o sul do Brasil, com características modificadas, mas de origem extratropical (frentes,
anticiclones e cavados de altitude). Por outro lado, o extremo norte e a porção central do Estado,
são muito influenciados pelos padrões de larga escala associados às mudanças na circulação de
Hadley. Desta maneira, os principais sistemas a serem tratados, cuja importância é fundamental
para a compreensão da distribuição temporo-espacial dos atributos climáticos de superfície são
o fenômeno “ENSO” (El-Niño – Oscilação Sul); a Zona de convergência do Atlântico Sul (ZCAS)
e a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT).
2.3.1
El Niño - Oscilação Sul
As anomalias meteorológicas que ocorrem a América do Sul estão associadas,
principalmente, ao deslocamento da célula de Walker, do fortalecimento do jato subtropical e de
um possível trem de ondas que se estende do Pacífico até o sul da América do Sul. O
deslocamento da célula de Walker, para leste, tem influência sobre o nordeste do Brasil e parte
da Amazônia , regiões que ficam sob a ação do ramo descendente dessa célula, (KOUSKY et al,
1984, APUD por CAVALCANTI, 1996), O fortalecimento do jato subtropical ocorre devido ao forte
aquecimento na região do Pacífico Equatorial, que provoca um aumento do gradiente de
temperatura norte - sul e também um transporte de momentum em altos níveis, da região de
liberação de calor latente tropical, para os ventos de oeste.
Um dos mais fortes eventos de ENSO, foi aquele ocorrido durante os anos de 1982/83.
No caso da Amazônia Central (o que inclui a parte setentrional do Mato Grosso) provocou uma
diminuição considerável da pluviosidade na estação chuvosa (janeiro e fevereiro). Este
comportamento ocorreu em razão do ramo descendente da célula de Walker deslocar-se para a
região sobre a Amazônia, inibindo a formação de atividades convectivas (NOBRE & RENNÓ,
1985), Este período (Janeiro/Fevereiro 82/83) caracterizou-se por possuir o menor índice
pluviométrico nos últimos 50 anos. No entanto, a repercussão do fenômeno ENSO no território
do Mato Grosso, necessita de maior detalhamento na distribuição espacial da pluviosidade. Os
dados das séries pluviométricas referentes ao período de 1983 a 1994 demonstram que em anos
de El Niño muito forte como os de 1982/83, e de 1990 a 1994 (El Niño estendido) o extremo norte
e noroeste sofre diminuição da pluviosidade, enquanto no extremo sul as chuvas acompanham o
padrão normal ou sofrem desvios positivos.
Estudos observacionais realizados por MARENGO E HASTENRATH (1993), e que
foram comprovados por estudos de modelagem do clima de MARENGO et alli. (1993), mostram
que, durante anos de grande aquecimento das águas do Pacifico equatorial central (fenômeno
do El-Niño), a ZCIT situa-se anômalamente mais ao norte do que sua posição normal sobre o
Atlântico tropical. Consequentemente, os ventos alísios de NE são mais fracos, reduzindo a
umidade que penetra no interior da região Amazônica. Sobre o lado oeste dos Andes, a
convecção que produz chuvas abundantes ao norte do Peru, provoca, por sua vez, movimentos
de ar de subsidência compensatória no lado este, contribuindo para uma menor quantidade de
chuva na parte oeste da Amazônia (FISCH et all, 1996).
13
2.3.2.
Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS)
Principalmente durante a primavera-verão do hemisfério sul, forma-se uma extensa e
larga Zona de Convergência na América do Sul; sua orientação é de noroeste para sudeste
estendendo-se desde o sul da Amazônia até o Brasil de Sudeste. Trata-se de um fenômeno
meteorológico de macroescala, sendo geralmente acompanhado por intensos impactos
pluviométricos.
Climatológicamente a ZCAS pode ser identificada, na composição de imagens de
satélite, como uma banda de nebulosidade de orientação NW/SE, estendendo-se desde o sul da
região Amazônica até a região central do Atlântico Sul (KOUSKY, 1988), ou ainda em padrões de
distribuição de radiação de onda longa (CARVALHO et alli, 1989). O estudo observacional feito
por KODAMA (1992), mostrou diversas características comuns entre a ZCAS, a Zona de
Convergência do Pacífico Sul (ZCPS). Essas características comuns seriam: estendem-se para
leste, nos subtrópicos, a partir de regiões tropicais específicas de intensa atividade convectiva;
formam-se ao longo de jatos subtropicais em altos níveis e a leste de cavados
semi-estacionários; são zonas de convergência em uma camada inferior úmida, espessa e
baroclínica; estão localizadas na fronteira de massas de ar tropical úmida, em regiões de forte
gradiente de umidade em baixos níveis, com geração de instabilidade convectiva por processo
de advecção diferencial.
A origem do fenômeno ZCAS, e quais os processos meteorológicos de larga escala,
que as mantém ainda não estão totalmente equacionados. Estudos realizados por CASARIM E
KOUSKY (1986), mostraram uma relação entre a convecção na região Centro-Oeste do Pacífico
(ZCPS) e uma posterior intensificação da ZCAS, sugerindo um trem ondulatório de 30 a 60 dias.
Dentre os fatores locais, que exercem influência no mecanismo de manutenção das
ZCAS, talvez o mais importante seja o papel desempenhado pela convecção na região
amazônica. O estabelecimento desse padrão de circulação está claramente associado à
atividade convectiva na Amazônia e Brasil Central, que intensifica o jato subtropical em altos
níveis, em um processo de conversão de energia cinética divergente em energia cinética
rotacional (HURREL & VINCENT, 1991). Em baixos níveis a convecção também contribui na
intensificação da Baixa na região do Chaco, que fortalece a convergência de ar úmido sobre a
região. Outro aspecto importante parece ser também o papel do anfiteatro formado pela
Cordilheira dos Andes, no sentido de intensificar o escoamento em baixos níveis, auxiliando
assim a alimentação da convergência com o ar úmido da região amazônica.
2.3.3.
Zona de Convergência Intertropical (ZCIT)
A extensa faixa de baixas pressões equatoriais (entre os dois hemisférios) é
considerada o Equador meteorológico do planeta. Historicamente conhecida como convergência
dos alíseos, ela é muito importante para a climatologia das áreas tropicais e equatoriais, pois seu
deslocamento entre as latitudes 08ºN e 05ºS, modula grande parte da convecção na faixa
intertropical. Portanto, o conceito meteorológico de ZCIT, pressupõe características físicas tais
como:
-
zona de confluência dos alíseos de ambos os hemisférios;
-
zona de cavado equatorial ou doldrum;
-
zona de máxima temperatura da superfície do mar;
14
-
zona de máxima convergência de massa;
-
zona de banda de máxima nebulosidade convectiva.
No caso, especificamente do Estado de Mato Grosso, cuja localização está
praticamente fora da faixa de deslocamento norte-sul da ZCIT, a sua atuação deve se dar de
forma indireta, e mesmo assim restrita ao extremo norte do Estado.
2.4.
A CIRCULAÇÃO SUPERIOR (200 A 300 hpa)
A análise da circulação superior (entre 200 a 300 hpa) para a região central da América
do Sul envolve pelo menos o reconhecimento de dois padrões de circulação atmosférica. O
primeiro deles associado à permanência de um anticiclone, conhecido como Alta da Bolívia, cuja
atuação é semi-estacionária no período de outubro a março. Na passagem do verão para o
outono, ocorre o desaparecimento deste centro de alta, sendo gradativamente substituído pelos
ventos e cavados da circulação de oeste, sendo este esquema médio, o padrão predominante
durante o outono-inverno.
2.4.1.
A Alta da Bolívia
Na região central do Brasil, durante a primavera-verão, predomina na troposfera
superior, um anticiclone, cuja origem está associada ao forte aquecimento do solo, bem como à
liberação de calor latente (VIRJI, 1981).
Este sistema de alta é importante para a Climatologia do Centro-Oeste do Brasil por
várias razões entre as quais destacamos:
-
pode ocorrer interações entre a posição da alta superior e as penetrações frontais.
Ela pode intensificar a convecção na região frontal e a divergência em altitude
pode ajudar nesse processo.
-
em anos de forte El Niño ou menos chuvosos, existem resultados que mostram um
deslocamento do centro da alta para oeste de sua posição climatológica.
-
a alta interage com os cavados de oeste e com o jato subtropical, intensificando a
circulação (CARVALHO, 1989).
Em síntese, a alta pode intensificar a convecção e as chuvas na região frontal e a
divergência em altitude pode ajudar nesse processo. No entanto, isso depende muito das
características dos dois sistemas na penetração da frente sobre o continente. É possível que a
divergência em altitude, associada à região da alta, entre em fase com a convergência úmida em
baixos níveis, associada à região frontal, e estabeleça-se assim um mecanismo de feedback,
que estimule a convecção na banda frontal, e esta por sua vez aumente a divergência em
altitude. Entretanto, o posicionamento adequado da divergência associada à Alta da Bolívia
depende de uma série de fatores de grande escala, dentre eles a posição do jato subtropical e a
distribuição da convecção ao longo do cinturão tropical.
2.4.2.
A Corrente do Jato
Na troposfera superior, próximo da descontinuidade da Tropopausa, existe uma área
de ventos de oeste muito fortes, muitas vezes com intensidades superiores a 300 km por hora.
Este fluxo de oeste recebe o nome de corrente de jato ou simplesmente jato. Sua importância
15
climatológica está associada à evolução dos ciclones extratropicais, bem como à formação e
intensificação dos movimentos ondulatórios da frente polar no continente sul americano. Na
realidade, existem duas correntes de jato distintas. Uma delas é o jato polar e está associada ao
forte gradiente horizontal de temperatura que ocorre nas estreitas zonas frontais, localizando-se
no lado equatorial destas. Este jato encontra-se geralmente entre as latitudes de 35ºS a 70ºS. A
sua posição é mais próxima ao equador durante o inverno do que no verão. A outra corrente, Jato
Subtropical, está associada à circulação da Célula de Hadley e geralmente fica localizada no
limite polar dessa célula, entre as latitudes de 20ºS a 35ºS. Esta corrente é mais regular e sua
posição média muda em direção ao equador no período de inverno e em direção aos polos no
verão (PEZZI et alli, 1996).
A importância da Corrente de Jato é ressaltada em BROWING (1985), que associa
casos de precipitação intensa com a Corrente de Jato. KOUSKY & CAVALCANTI (1984)
relacionaram o padrão do escoamento em altos níveis a um bloqueio ocorrido na América do Sul
durante o evento ENOS de 1983, ressaltando o papel do Jato Subtropical nas intensas
precipitações sobre a região Sul (PEZZI et alli, 1996).
Existem pouquíssimos estudos sobre a climatologia sazonal da Corrente de Jato na
América do Sul, talvez o mais completo trabalho seja o de PEZZI et alli, (1996), cujo período
analisado foi o de 1985 a 1996, sendo que os resultados principais que interessam para o Estado
de Mato Grosso são:

Durante os meses de verão (dezembro, janeiro e fevereiro) pode-se observar que
em apenas dois anos (1985 e 1991) há um núcleo mais intenso sobre a América do
Sul – Subtropical (principalmente 1991) com ventos relativamente fortes.

Nos anos de 1992, 1993 e 1994 o jato esteve bem forte; no ano de 1989 e início de
1990, este sistema apresentou-se fraco.
De forma geral nos anos em que ocorreu El Niño estendido, principalmente de 1991 a
1994 a corrente do jato, no Atlântico próximo da América do Sul foi mais forte do que no período
de 1985 a 1989.

No outono o jato subtropical apresenta-se bem definido e em processo de
intensificação.

Durante o inverno há uma intensificação do jato subtropical e do jato polar. Nos
anos de 1987, 1988, 1993 e 1994, o jato apresentou-se mais intenso.

Durante os meses da primavera o jato começa a perder força em resposta ao
aparecimento da Alta da Bolívia. Durante os anos de 1987, 1990, 1993 e 1994, o
jato esteve bem forte. Por outro lado nos anos 1985, 1989 e 1991, o jato
apresentou-se mais enfraquecido. Nesta estação, devido ao transporte de ar
quente e umidade, provenientes da Região Amazônica, pelo Jato em Baixos
Níveis (JBN) para a região do Paraguai e norte da Argentina, e à presença do jato
em altos níveis sobre as Regiões Centro-Oeste e Sul do Brasil, há a formação dos
chamados Complexos Convectivos de Mesoescala (CCM) nesta área. A presença
do jato em altos níveis executa o papel de aumentar a instabilidade.
16
2.5.
OS SISTEMAS CONVECTIVOS EM MATO GROSSO
Os processos convectivos sazonais no Estado de Mato Grosso dependem da
circulação de larga escala e de controles meteorológicos locais para o seu desenvolvimento
dentro do ciclo diurno-noturno. Para facilitar a compreensão e a caracterização dos mecanismos
e o desenvolvimento temporal dos sistemas de mesoescala, dividiremos em três níveis de
abordagem: A Convecção na Amazônia; Os Complexos Convectivos de Mesoescala; e as linhas
de Instabilidade. No caso da Amazônia o tratamento será mais genérico, mostrando as
condições regionais, enquanto que os complexos convectivos de mesoescala (CCM) e as linhas
de Instabilidade (LI) os resultados obtidos pelo INPE-CPTEC permitem uma análise no ciclo
sazonal e diurno-noturno.
2.5.1.
A Convecção na Amazônia
Segundo MOLION (1987, 1993), os mecanismos que provocam chuva na Amazônia
podem ser agrupados em 3 tipos:

convecção diurna resultante do aquecimento da superfície e condições de
larga-escala favoráveis;

linhas de instabilidade originadas na costa N-NE do litoral do Atlântico;

aglomerados convectivos de meso e larga escala, associados com a penetração
de sistemas frontais na região S/SE do Brasil e interagindo com a região
Amazônica;
Segundo FISCH et alli, (1996), o máximo da chuva na região central da Amazônia
(próximo de 5º S), pode estar associada á penetração de sistemas frontais da região sul,
interagindo e organizando a convecção local. O período de chuvas ou forte atividade convectiva
na região Amazônica é compreendido entre novembro e março, sendo que o período de seca
(sem grande atividade convectiva) é entre os meses de maio e setembro. Os meses de abril e
outubro são meses de transição entre um regime e outro. A distribuição de chuva no trimestre
dezembro-janeiro-fevereiro (DJF) apresenta uma região de precipitação alta (superior a 900 mm)
situada na parte oeste e central da Amazônia, em conexão com a posição geográfica da Alta da
Bolívia. Por outro lado, no trimestre junho-julho-agosto (JJA), o centro de máxima precipitação
deslocou-se para o norte e situa-se sobre a América Central. A região Amazônica,
principalmente na parte central, está sobre o domínio do ramo descendente da Célula de Hadley,
induzindo um período de seca bem característico (FISCH et alii, 1996). Este comportamento está
completamente de acordo com o ciclo anual da atividade convectiva na região, conforme
demonstrado por HOREL et alli., (1989).
OLIVEIRA (1986), realizou um estudo climatológico sobre a interação desta convecção
tropical e a penetração de sistemas frontais na região SE do Brasil, utilizando de 5 anos
(1977/1981) de imagens de satélites meteorológicos. Estes sistemas frontais provocam a
organização e formação de uma banda de nuvens orientada no sentido NW/SE identificada como
Zona de Convergência do Atlântico Sul, ZCAS, que possui sua máxima intensidade nos meses
de verão, aumentando o regime de precipitação da região (época chuvosa). Este aumento de
convecção está relacionado com a intensificação do cavado em altos níveis, que é gerado pela
penetração da frente (FISCH et alli, 1996).
17
2.5.2.
Os Complexos Convectivos de Mesoescala
2.5.2.1.
Do Mato Grosso Setentrional
O extremo norte (noroeste e nordeste do Estado) sofre muita influência dos
movimentos para oeste e noroeste dos sistemas convectivos da Amazônia centro meridional
para o Brasil Central. De forma geral, pode-se afirmar que na região tropical, as áreas
convectivas, acompanham de certa forma o movimento sazonal da zona de convergência
intertropical (ZCIT) bem como o deslocamento e as trajetórias dos sistemas extratropicais,
principalmente a propagação das frentes polares no continente sul americano.
Um dos trabalhos mais importantes para a compreensão dos movimentos destes
sistemas é o de MACHADO et al, (1996), este autor relata que:
2.5.2.2.

A trajetória dos sistemas no verão na região Amazônica, mostra a propagação de
sistemas de leste para oeste com tempo de vida de aproximadamente 10 horas.
Observa-se também, uma propagação de sistemas da Região Amazônica para a
Região Sul do Brasil, mostrando uma interação com a ZCAS. Além disso, nota-se a
presença de convecção associada à Alta da Bolívia;

Os fatores marcantes no verão são os núcleos no oeste da América do Sul. Esses
núcleos correspondem às regiões de convecção da Alta da Bolívia e ZCAS. O
período predominante na Região Norte é de 3,5-4 dias. Na região ao Sul (próximo
de Resistência-Argentina), o período de oscilação não é muito estável de um setor
a outro, e a energia espectral é concentrada em períodos de 3-4 dias e 7-10 dias. A
oscilação na Região Norte, no Verão, em torno do período de 3,5-4 dias, em fase
com o ciclo diurno, extremamente forte nesta região, pode resultar em uma
oscilação de 7 dias. O período entre 7-10 dias é típico das penetrações de frentes
frias no sul da América do Sul. Esse conjunto de atuações simultâneas de
diferentes períodos sugere que a ZCAS seja forçada pelo ciclo diurno, pelas
penetrações de frentes frias e pela oscilação de 3,5-4 dias.
Do Mato Grosso Centro Meridional
Os complexos convectivos aqui considerados, são aqueles cuja origem está associada
ao intenso aquecimento da depressão continental do Chaco, ou o conjunto de “Pantanais” ou
“Chacos” entre o Paraguai, a Depressão do Guaporé e o Pantanal de Mato Grosso. São
considerados aglomerados convectivos, como já citava os trabalhos pioneiros de CAVALCANTI
(1982) e GUEDES (1985).
Como indicam os diversos estudos de casos de CCM, eles estão freqüentemente
associados a eventos de precipitações intensas, fortes rajadas de vento e até tornados,
motivando seu estudo com base nas aplicações em previsão do tempo.
Conforme relatado em VELASCO & FRITSCH (1987), o ciclo de vida do Complexos
Convectivos de Mesoescala (CCM) é tal que o horário de máxima extensão ocorre de
madrugada, na grande maioria dos casos observados. O hábito noturno é uma das
características mais marcantes do CCM tanto subtropical, nos dois hemisférios como aqueles
observados na região tropical. As primeiras células convectivas que ainda precedem a definição
do início do CCM podem ocorrer tanto no início da tarde como no início da noite, numa curva
18
bimodal. O fim do CCM ocorre em sua grande maioria por volta do meio-dia subsequente.
Pode-se notar que o tempo de vida mais freqüente está entre 10 e 20 horas. MACHADO et alli.
(1994) examinaram o ciclo de vida de sistemas convectivos sobre a América do Sul e
encontraram para sistemas com raio de 240 km um tempo de vida médio de 15 horas para
latitudes médias no verão. No entanto, alguns sistemas inicialmente classificados como CCM
podem evoluir para vórtices como aquele descrito em BONATTI & RAO (1987),: durante as
primeiras 6 horas o sistema se apresenta como um CCM e a seguir começa a adquirir a forma de
vírgula invertida característica de vórtices e persiste por mais 48 horas.
A ocorrência dos CCM a sotavento de cadeias de montanhas como os Andes e seu
hábito noturno podem ser explicados por uma associação de uma condição sinótica favorável
com as circulações locais termicamente induzidas.
2.5.3.
As Linhas de Instabilidade
O uso de imagens de satélites geoestacionários, bem como estudos observacionais,
tem permitido descrever dois tipos de linhas de instabilidade (LI); aqueles que se formam
próximo da costa litorânea do Pará e Amapá e se deslocam ou não para dentro do continente,
atingindo a Amazônia Central e o extremo sul do Pará em certas situações sinóticas. Estas linhas
são caracterizadas por possuir grandes conglomerados de nuvens cúmulo nimbus e são
formadas devido à circulação da brisa marítima. CAVALCANTI (1982), realizou um estudo
climatológico e observou que a formação destas linhas posiciona-se ao sul da Zona de
Convergência Inter-Tropical (ZCIT), sendo o período de maior freqüência na época em que a
ZCIT está mais organizada. MOLION (1987, FISCH et alii, 1996), descreve a influência destas
LIs na distribuição de chuva da Amazônia Central, observando que, durante à noite e devido à
diminuição do contraste térmico oceano-continente, estas LIs praticamente se dissipam, para
revigorarem-se no dia seguinte, com o aquecimento da superfície.
3.
A VARIAÇÃO ESPACIAL DA TEMPERATURA
O território do Estado de Mato Grosso, localizado entre as latitudes de 8º a 18ºLS,
encontra-se dentro da faixa intertropical da porção central do Continente Sul americano. O
primeiro fato que se pode deduzir desta posição são elevados totais de radiação solar global,
incidentes na superfície do solo, praticamente o ano todo. O comprimento do dia, através da
insolação, indica pequenas variações entre os solstícios de inverno e verão. Resultam assim, o
domínio de climas Equatoriais e Tropicais Quentes com pequena variação térmica sazonal e
anual. Na realidade, as maiores variações térmicas são aquelas associadas com o ciclo dia –
noite. Este ritmo é fortemente marcado pelo movimento do sol fica claramente evidenciado na
amplitude térmica diária, onde encontramos valores muito superiores às amplitudes anuais. Em
termos médios, a amplitude diária varia entre 10 a 14ºC, e em termos absolutos pode se
aproximar com muita freqüência de valores entre 16 a 20ºC, enquanto que a amplitude térmica
anual varia entre 1,5 e 4,0ºC.
Outro aspecto desse tipo de localização é a influência da própria estrutura da
nebulosidade e da chuva no aquecimento da camada próxima da superfície, influenciando
decisivamente a sensação de conforto térmico. Desta maneira, é muito comum o homem
amazônico chamar de inverno a estação das águas ou das chuvas, e de verão a estação seca.
Esta percepção mostra a importância do ciclo diurno se sobrepondo ao ciclo anual ou sazonal
ligado às estações definidas por datas astronômicas.
19
O ritmo torna-se assim a combinação ou superposição orgânica entre calor e chuva
(água) e calor e seca (com muito sol e menor umidade).
Este fato, ou esta realidade, não elimina a possibilidade de arritmias, como as fortes,
curtas e intensas ondas de frio (friagens amazônicas) que podem ocorrer de maio – junho à
agosto – setembro. E, neste caso, o resfriamento pode resultar em temperaturas mínimas de até
4,1ºC, como ocorreu em Vera durante o inverno de 19812.
Do ponto de vista do mapeamento das temperaturas foram utilizados os gradientes
térmicos associados à latitude, à altitude e à longitude. No caso do mapa de temperaturas
médias das mínimas optou-se por trabalhar apenas com a latitude e altitude. Este procedimento
mostrou um ajuste melhor entre os dados reais medidos nas estações meteorológicas e aqueles
estimados pela regressão.
3.1.
MÉDIA COMPENSADA ANUAL
O campo de variação da temperatura média anual no Estado de Mato Grosso é de 21,0
a 26,0ºC como ilustra o Mapa A002 – Distribuição da Temperatura Média Anual. As regiões mais
frias do Estado correspondem às faixas de latitudes entre 16 a 18ºLS, onde as altitudes são
superiores a aproximadamente 900 metros. Na realidade são pequenas áreas dos topos dos
chapadões do Alto Taquarí, Alto Araguaia, Campo Verde (Alto Rio das Mortes), Chapada dos
Guimarães e em algumas serras isoladas como Ricardo Franco, Santa Bárbara e Serra da
Estrela. Nestes sítios e no seu entorno se agregam climas mesotérmicos ou Tropicais de
Altitude, com temperaturas médias anuais entre 22 a 23ºC e em faixas altitudinais entre 600 a
800 metros. Pode –se tomar como exemplo destes tipos de realidades climáticas os topos
elevados da Chapada dos Parecis, Chapada dos Guimarães, Planalto dos Guimarães, Planalto
do Alto Araguaia e Taquari.
A Província Serrana mostra variações térmicas entre 23 a 24ºC, dependendo da
altitude e da faixa de latitude onde se encontra. A maior parte dos reversos setentrionais da
Chapada dos Parecis, onde as altitudes começam a cair para uma faixa entre 400 a 500 metros
e as latitudes vão se tornando menores a temperatura média anual fica entre 23 e 24ºC.
A fachada meridional das chapadas e planaltos (altitudes entre 300 a 600 metros)
mostra um gradiente de aumento das temperaturas entre 23 e 24ºC. O contato com as
depressões, pantanais e baixos planaltos do Mato Grosso meridional (onde as altitudes oscilam
entre 200 a 300 metros) mostram temperaturas médias anuais entre 24 e 25ºC.
As áreas mais baixas (altitudes menores que 200 metros) do Vale do Guaporé,
Depressão do Alto Paraguai e da Depressão Cuiabana, incluindo o pantanal indicam valores
entre 25 e 26ºC de temperatura média anual.
O Planalto dos Parecis e grande parte da Depressão Sul Amazônica (altitudes entre
300 e 400 metros) mostra um grau de homogeneidade térmica, com valores entre anuais entre
24 a 25ºC.
O extremo noroeste e a Depressão do Médio Araguaia apresentam temperaturas
médias anuais entre 25,0 e 26ºC.
A variação mensal das temperaturas médias compensadas mostra um ritmo de
máximo aquecimento no equinócio de primavera (outubro – novembro). Esta característica é
comum a todas as unidades climáticas, pois é um fato que se repetiu em todas as 24 estações
2
Conforme relato pessoal do observador da Estação Meteorológica de Vera – INMET.
20
meteorológicas utilizadas. Apenas em Juína e Vilhena ocorreu uma antecipação deste máximo
para o mês de setembro. O mês mais frio ou com os menores valores médios da temperatura do
ar é julho, em pleno inverno seco do hemisfério meridional.
Em Alta Floresta e Matupá o mês mais quente é outubro com 26,1ºC e 25,3º, enquanto
que o mês mais frio é julho, com 23,8ºC e 23,4ºC. Portanto, a amplitude térmica anual é de
apenas 2,3ºC e 1,9ºC. Cotriguaçú, Juína e Vilhena apresentam amplitudes térmicas também
muito parecidas, com valores entre 1,9º a 2,5ºC, enquanto em Vera, localizada um pouco mais a
leste e ao sul, a amplitude térmica aumenta para 3,1ºC, sendo a temperatura do mês mais
quente, outubro, com 25,5ºC e julho, o mês mais frio, com 22,4ºC. De modo geral, na faixa
tropical (latitudes entre 13 a 18ºLS) as amplitudes térmica anuais ficam entre 3 e 4ºC. As únicas
exceções parecem ser as estações localizadas na Depressão do Alto Paraguai (Cáceres e
Quatro Marcos) e na Depressão Cuiabana (Cuiabá, Remetter e Rosário), aonde as amplitudes
aumentam as para valores entre 4,8ºC a 5,4ºC. Este fato talvez tenha explicação na proximidade
desta áreas com as serras e áreas elevadas, fornecendo drenagem noturna de ar frio durante os
meses de inverno seco (junho, julho e agosto). Este tipo de resfriamento foi observado nos
trabalhos de campo em Cuiabá, Rondonópolis, Poxoréu, confirmando, portanto, o que os dados
das estações demonstram.
3.2.
MÉDIA DAS MÁXIMAS
A distribuição espacial das isotermas médias anuais das temperaturas máximas para o
Estado de Mato Grosso (Mapa A003) demonstra elevado grau de aquecimento do ar próximo do
solo no período da tarde. Considerando-se o Estado como um todo, a temperatura média anual
das máximas varia entre um mínimo de 28,0ºC a 34,0ºC. O principal controle climático deste
elemento é a altitude. Por outro lado, a variação latitudinal age da forma combinada com o relevo
e a topografia, estruturando faixas e processos genéticos diferenciados. Por exemplo, podemos
citar a faixa setentrional do Estado (latitudes entre 12º a 8º Sul) onde não se nota abaixamento ou
resfriamento das máximas no solstício de inverno (junho, julho e agosto); elas caem ou ficam um
pouco mais baixas durante o pico da estação chuvosa; este processo ou ritmo genético
diferenciado é evidente nos dados das temperaturas máximas de Vera, Matupá, Alta Floresta,
Cotriguaçú, Juína e Vilhena. Enquanto isso, ao sul do paralelo 13º, o resfriamento está sempre
associado à estação seca de inverno. Talvez por uma nova dupla de ação genética, ou seja, a
combinação da diminuição da radiação solar global no ápice do solstício de inverno com a
atuação do anticiclone polar Continental; não apenas pelo resfriamento através da advecção de
ar frio, mas também pela baixa umidade do ar. O terceiro fator, em termos de ordem de
importância é a longitude, ou a sua combinação com o fator continentalidade. A própria trajetória
e faixa de deslocamento das baixas pressões continentais definem “campos térmicos”
associados às características da superfície do continente, com o outro fator já mencionado, ou
seja, a altitude. Portanto, as baixas térmicas estão muito ligadas com o forte aquecimento das
superfícies planas e relativamente baixas da região central do Continente da América do Sul.
De modo geral, na faixa equatorial do Estado, incluindo parte da Depressão do Norte
do Mato Grosso e os vales dos rios Juruena, Arinos e do Xingu, as temperaturas médias das
máximas oscilam entre 32º a 33ºC. A Depressão do Araguaia (entre 10 e 15º de Latitude Sul)
também é fortemente aquecida no período da tarde, e a média anual fica entre 32 e 33ºC.
O Planalto dos Parecis, mostra no geral valores de aquecimento intermediário entre 31
e 32ºC. A passagem para a Chapada dos Parecis e os Planaltos, Chapadas e serras do sudeste
do Estado de Mato Grosso é feita em largas faixas onde os máximos vão caindo para valores
entre 30 a 31ºC. Nos topos mais elevados (altitudes entre 700 a 900 metros) das serras,
Chapadas e Altos Planaltos a média anual das temperaturas máximas fica entre 28 a 30ºC.
21
As depressões do Guaporé, Alto Paraguai e do Rio Cuiabá mostram aquecimento
muito forte com as médias anuais entre 32 e 33ºC. O Pantanal, à medida que as altitudes vão
diminuindo (entre 80 a 100 metros), tem média anual entre 33 e 34ºC.
A análise da variação mensal das temperaturas médias das máximas também
demonstra (à exemplo das médias compensadas) pequena amplitude térmica entre o mês mais
quente e o mês mais frio, ou seja, um campo de variação entre 2,6ºC a 4ºC aproximadamente.
Este fato significa forte aquecimento no período da tarde para todas as estações do ano. Na
realidade a mudança mais significativa não é de quantidades, mas sim do processo genético, ou
seja, de qualidade entre a zona equatorial setentrional do Estado e a faixa tropical
(centro-meridional). Explicando melhor ,os dados meteorológico das estação meteorológicas de
Vera, Matupá, Alta Floresta, Cotriguaçú Juína e Vilhena demonstram uma antecipação na
ocorrência do período de máximo aquecimento para julho – agosto até setembro – outubro,
enquanto que todas as outras estações ao sul do paralelo 12ºLS o máximo de aquecimento é em
setembro-outubro-novembro. Na zona setentrional (equatorial ou subequatorial) o mês mais
quente é agosto, em pleno inverno austral; e o mês mais frio oscila entre janeiro – fevereiro,
associado com o máximo pluvial do verão. Torna-se claro a percepção do homem amazônico em
chamar a estação das águas de “inverno” ou “invernada” e a estação seca de “verão”. Em todas
as outras regiões do Estado (ao sul do paralelo 12º ou da localização da estação meteorológica
de Vera) mês mais quente e outubro e o mais frio é Tomando-se como exemplo a estação
meteorológica de Cuiabá, o mês de máximos mais elevados é outubro, com 34,4ºC e o mês de
menores máximas é junho, com 30,7ºC, dando, portanto, uma amplitude térmica de 3,7ºC.
3.3.
MÉDIA DAS MÍNIMAS
Os valores observados das temperaturas mínimas absolutas são muito influenciados
pela localização topoclimática da estação meteorológica. Este fato, aliado a uma série de erros
instrumentais e à falta de uma uniformidade das séries utilizadas, dificultam muito o mapeamento
deste elemento. Desta forma, o mapa produzido deve ser visto como uma tendência associada à
dois controles climáticos: a latitude e a altitude, e à uma escala cartográfica na resolução
1:1.500.000. Portanto, o mapeamento em outras escalas maiores (1:250.000 até 1:10.000)
deverá adotar procedimentos técnicos vinculados também à forma, orientação e declividade das
unidades de relevo e da própria topografia e não serem produzidos como simples ampliação do
mapeamento aqui elaborado.
A variação da temperatura média anual das mínimas no Estado de Mato Grosso é de
16,0 a 22,0ºC como ilustra o Mapa A004 – Distribuição da Temperatura Média dos Mínimos
Anuais. O extremo noroeste do Estado de Mato Grosso (Mapa A004) é a região que apresenta o
menor grau de resfriamento noturno, com a temperatura média anual das mínimas entre 21 a
22ºC. Na realidade, são áreas baixas (altitudes entre 100 a 200 metros) e onde se concentram
tetos baixos de nuvens quase o ano todo. As elevadas condições de alta umidade e
nebulosidade devem atenuar o resfriamento noturno.
No Planalto dos Parecis a temperatura média anual das mínimas deve variar entre 19 a
20ºC, enquanto que na Depressão do Araguaia (entre 160 a 300 metros) elas deve variar entre
20 a 22ºC.
Os planaltos e chapadas (com altitudes entre 600 a 900 metros) de Mato Grosso
Centro – Meridional indicam valores entre 17 a 19ºC. As depressões do Guaporé, Alto Paraguai e
Alto Cuiabá mostram valores crescentes, mas com um gradiente altitudinal relativamente
pequeno, ou seja, os valores médios das temperaturas mínimas variam entre 20 a 21ºC. No
entanto, os dados observados de Cuiabá e Ricardo Remetter em estações meteorológicas
localizadas em áreas relativamente baixas, ou seja, entre 171 a 140 metros respectivamente,
indicam valores médios anuais de 21,7ºC e 21,3ºC. Talvez a estação meteorológica da cidade de
22
Cuiabá possa estar sendo influenciada pela área urbana, enquanto a estação de Ricardo
Remetter não tenha este tipo de influência.
O ritmo mensal e sazonal da variação espacial do ciclo de resfriamento no Estado de
Mato Grosso mostrou um padrão único para todo o Estado. Os três meses com máximo
resfriamento matinal são rigorosamente iguais para todas as estações meteorológicas, junho,
julho e agosto. Este mesmo tipo de padrão com maior resfriamento noturno ligado ao solstício de
inverno se repete com o sol alto do verão austral. Os maiores valores observados das mínimas
acontecem em dezembro, janeiro e fevereiro, sendo que para a grande maioria das estações, as
mínimas absolutas são mais elevadas em dezembro, ou seja, ponto máximo de radiação solar
incidente, com o máximo de vapor de água e nebulosidade.
Resta lembrar que apesar destes valores mínimos de temperatura serem
relativamente elevados, o inverno austral (junho, julho e agosto) reserva uma freqüência
esporádica, mas intensa de ondulações anticiclônicas polares continentais, de cuja atuação
resultam mínimas entre 0 a 4ºC na parte meridional e entre 4 a 9ºC na parte Centro –
Setentrional. Estes fenômenos, apesar de esporádicos podem provocar danos à atividade
agropecuária e agrícola do Estado.
4.
A VARIAÇÃO ESPACIAL DA PLUVIOSIDADE
O mapeamento da pluviosidade foi efetuado para o total anual médio (1983-1994),
para o ano-padrão seco (1993) e o ano-padrão chuvoso (1992).
O regime sazonal foi analisado através do mapeamento dos totais correspondentes
aos três meses mais chuvosos e mais secos do segmento temporal (1983-1994). Este estudo
compreendeu também a análise do grau de concentração relativa (porcentagem) da pluviosidade
em relação ao total anual médio.
4.1.
O TOTAL ANUAL MÉDIO
De forma geral a Distribuição da Pluviosidade Anual Média – Mapa A005 segue três
padrões. O primeiro deles mostra uma larga faixa (ao norte do paralelo 12ºLS e à oeste do
meridiano de 52ºWGr) com valores superiores a 2.000mm. A orientação desse padrão é de um
aumento progressivo de leste-sudeste para oeste-noroeste. Dessa forma, as áreas de maior
pluviosidade correspondem ao extremo norte e noroeste do Estado, abrangendo parte
substancial do médio e baixo curso dos rios Roosevelt-Aripuanã e Juruena-Teles Pires. Nestas
áreas os totais médios anuais variam entre 2.100 a 2.500mm. O segundo padrão está associado
a uma diminuição progressiva da pluviosidade no sentido oeste-leste, na região centro-oriental
do Estado; de forma geral esta tendência tem como transição a passagem da bacia do
Juruena-Teles Pires para a bacia do Rio Xingu, dentro do Planalto dos Parecis. Os totais anuais
caem abaixo de 1.900mm, com manchas entre 1.700 a 1.800mm, principalmente entre a Bacia
do Xingu e do Rio Araguaia. O terceiro padrão está ligado ao “efeito da altitude e do relevo” no
aumento ou diminuição da pluviosidade. Assim sendo, as chapadas (Parecis e Guimarães) e
planaltos elevados (entre 600 a 800 metros de altitude) são, de forma geral, responsáveis pelo
aumento dos totais anuais. Por outro lado, as depressões (Guaporé, Araguaia e Pantanal) são os
territórios onde encontram-se os menores valores de pluviosidade.
Desta maneira, os totais anuais na Chapada dos Parecis oscilam entre 1.300 a
2.100mm. Nas áreas elevadas dos espigões divisores entre a Bacia do Xingu-Rio das Mortes
23
(Alto Coluene) voltadas para N-NW também fica evidente o efeito do relevo no aumento da
pluviosidade, com totais variando entre1.900 a 2.100mm.
A fachada meridional da Chapada dos Parecis, principalmente no rebordo escarpado
da Serra de Tapirapuã, entre Arenápolis, Nortelândia, Tangará da Serra e Parecis, acusa totais
médios entre 1.900 a um máximo de 2.347mm. Da mesma forma, na face sudoeste da Chapada
dos Guimarães, os totais também são superiores a 2.000mm.
As áreas rebaixadas (Vale do Guaporé, Depressão Cuiabana, Depressão do Paraguai,
Pantanal e a Depressão do Araguaia) onde as altitudes variam entre 80 a 300 metros se
constituem nas regiões onde o efeito de ressecamento, associado à descida do vento
(compressão adiabática), provoca considerável diminuição nos totais pluviométricos. Assim
sendo, nas partes mais baixas do Vale do Guaporé os totais variam entre 1.400 a 1.600mm;
enquanto que na Depressão Cuiabana e do Alto Paraguai os totais variam entre 1300 a
1.700mm. As áreas deprimidas da Depressão do Araguaia, à montante da Serra da Estrela,
mostram valores de chuva anual entre 1.400 a 1.500mm. Os menores valores observados em
todo o Estado correspondem ao Pantanal (grosso modo áreas onde as altitudes são inferiores a
100 metros); nesta região os totais variam entre 1.100 a 1.300mm (Mapa A005).
4.2.
A DISTRIBUIÇÃO SAZONAL MÉDIA
A distribuição das chuvas no decorrer do ano evidencia o caráter tropical da área com
duas estações bem definidas, uma seca e outra chuvosa. A medida do grau de concentração
sazonal da pluviosidade pode ser observado pela análise comparativa dos Mapas A006 e A007
(Distribuição da Pluviosidade Média Total e Porcentagem no Trimestre mais Chuvoso – DJF),
onde se nota que:

Elevado grau de concentração do total anual ocorre durante os três meses mais
chuvosos, variando entre um máximo de 1.100/1.200mm à um mínimo de
500/600mm (Mapa A006). Estes valores significam de maneira geral, um grau de
concentração entre 45 a 50% do total anual (Mapa A007). O trimestre mais
chuvoso, para todo o território de Mato Grosso é dezembro, janeiro e fevereiro. Na
realidade poder-se-ia enquadrar também o mês de março como um dos mais
chuvosos, já que seus totais são para a maioria das estações muito próximos dos
valores registrados durante o mês de dezembro. Não se notou na série estudada
(1983-1994) mudança de regime, apenas uma tendência de que os três meses
mais chuvosos, eventualmente, possam ser janeiro, fevereiro e março;

O trimestre mais seco (junho, julho e agosto) concentra totais (Mapas A008 e
A009) muito baixos, entre 20 e 80mm de pluviosidade. No entanto, a distribuição
espacial mostra evidências sobre a gênese das chuvas na estação seca. O Vale do
Araguaia é o que apresenta os menores totais (10 a 20mm), o Planalto dos Parecis
mostra valores entre 20 a 40mm e apenas o extremo noroeste acusa valores
observados de intensidade crescente das chuvas, para até um máximo de 100mm.
Este fato e esta orientação se devem à entrada da Alta Sub-tropical (a partir do
mês de abril) com uma orientação de ESE para WNW; assim sendo quanto mais
próximo do seu núcleo de alta pressão, maior a estabilidade atmosférica e menor a
possibilidade de ocorrência de chuvas. Observa-se ainda um aumento (entre 60 a
80mm) na região meridional do Estado. Este aumento se deve provavelmente à
atuação do escoamento de sul-sudeste, associado às frentes polares; neste caso
nota-se que mesmo nas áreas planas das depressões e pantanais fica
caracterizado este efeito. A observação do Mapa A009 mostra que apenas 1 a 4%
do total anual das chuvas é precipitado durante o trimestre mais seco.
24
4.3.
O RITMO E A VARIAÇÃO DA PLUVIOSIDADE NO ANO-PADRÃO CHUVOSO (1992)
O padrão de distribuição do total anual demonstra que para a maior parte do Estado os
valores da pluviosidade ficaram entre 2.000 a 2.200mm. As chapadas e os planaltos elevados
intensificaram os totais, alcançando valores entre 2200 a 2800mm (Mapa A010 – Distribuição da
Pluviosidade no Ano Padrão Chuvoso (1992). Uma das regiões que apresentou maior
incremento em relação aos valores médios foi o médio Araguaia, onde os totais variaram entre
1.800 a 2.000mm. No entanto, as áreas rebaixadas do Vale do Guaporé, Pantanal e a Depressão
do Alto Paraguai acusaram valores baixos entre 1.200 a 1.400mm. Um dos fatos interessantes a
registrar é a pequena oscilação dos totais médios em relação ao ano chuvoso na área abrangida
pelo médio Xingu (Planalto do Parecis).
O mapeamento dos totais acumulados no trimestre mais chuvoso (dezembro, janeiro e
fevereiro) mostrou um padrão semelhante aqueles dos valores médios. No entanto, o total de
1.000mm, praticamente abrange todo o Estado; as áreas com valores entre 800 a 1.000mm
ficaram localizadas no vale do Araguaia, na região ocidental do Estado (incluindo parte da
Chapada dos Parecis) e os Planaltos do Sudeste. Este tipo de distribuição com a intensidade
pluvial, crescendo para a faixa setentrional, reforça a hipótese da importância dos fluxos (de
umidade) equatoriais e amazônicos para o Clima do Brasil Central (Mapa A011 – Distribuição da
Pluviosidade no Trimestre mais Chuvoso do Ano Padrão Chuvoso (1992).
A análise da distribuição da pluviosidade no trimestre mais seco (junho, julho e agosto)
demonstrou pequenas variações em relação à média. De forma geral os maiores totais (entre 50
a 80mm) ficaram concentrados no sudoeste, oeste e extremo Noroeste do Estado. Os Planaltos
e Chapadões do sudeste também apresentaram valores entre 40 e 60mm, enquanto que toda a
faixa centro-oriental ficou muito seca, com totais acumulados entre 0 e 10mm (Mapa A012 Distribuição da Pluviosidade no Trimestre mais Seco do Ano Padrão Chuvoso (1992).
4.4.
O RÍTMO E A VARIAÇÃO DA PLUVIOSIDADE NO ANO-PADRÃO SECO (1993)
Durante o ano-padrão seco a maior parte do Estado acusou valores entre 1.600 a
2.000mm. Apenas o extremo setentrional (acima do paralelo de 10ºLS) registrou áreas
significativas com totais anuais entre 2000 a 2.400mm (Mapa A013 – Distribuição da
Pluviosidade no Ano Padrão Seco (1993).
A área centro-oriental (no Planalto dos Parecis) apresenta uma diminuição de oeste
para leste, ou seja, na Bacia do Xingu os totais oscilam entre 1.600 a 1.800mm, enquanto que
para oeste os valores ficam entre 1.800 a 2.000mm.
As regiões que receberam os menores valores de pluviosidade é a faixa meridional
(abaixo do paralelo 14ºLS), bem como o vale do Araguaia. Nestas áreas a pluviosidade
decresceu para valores entre 1.000 a 1.400mm, tendo ocorrido uma extensa área sobre o
Pantanal, onde os totais ficaram entre 900 a 1.000mm. No vale do Araguaia também foram
registradas manchas com altura anual entre1.000 a 1.200mm. No entanto, mesmo dentro de um
padrão de ano seco, a fachada sudoeste da Chapada dos Guimarães e do Planalto de Itiquira, os
totais anuais ficaram entre 2.000 a 2.050mm.
O mapeamento dos totais acumulados (no trimestre mais chuvoso) no ano de 1993,
demonstrou uma grande variabilidade (Mapa A014). Os maiores valores registrados ficaram
agrupados em faixas orientadas no sentido norte-sul (1.100 a 1.300mm), no entanto, a tendência
geral obedecia um gradiente entre 900 a 1.000mm. Dentro deste padrão geral incidiram manchas
no baixo Araguaia e no médio Teles Pires com valores entre 600 a 800mm. A região meridional
do Estado, incluindo grande parte das bacias do Guaporé, Alto Cuiabá-Paraguai e Alto Araguaia,
25
os valores registrados ficaram entre 500 a 800mm. As chapadas (Parecis e Guimarães), bem
como os planaltos elevados, variando entre 800 a 1100mm.
No trimestre mais seco (junho, julho e agosto) a maior parte do Estado teve totais
acumulados entre 20 a 40mm de chuva. Na Bacia do Araguaia, no médio Xingu e no média o
Arinos-Juruena, incidiram manchas significativas com totais entre 0 a 10mm (Mapa A015).
Apenas no extremo Noroeste os valores foram mais elevados, oscilando entre 40 a 80mm,
demonstrando maior instabilidade, mesmo durante a estação seca.
4.5.
A DISTRIBUIÇÃO ESPACIAL DOS MÁXIMOS PLUVIOMÉTRICOS EM 24 HORAS
O máximo de chuvas em 24 horas (Mapa A016) é uma importante variável no
entendimento dos processos erosivos locais e regionais. Cada lugar, dentro de um determinado
espaço, mostra um potencial de água precipitável num dado intervalo de tempo e este potencial
é parcialmente responsável pelos processos denudacionais da superfície do solo. Assim sendo,
a construção do mapa A016 – Distribuição dos Máximos Pluviométricos em 24 Horas teve o
objetivo de contribuir para este tipo de compreensão. A distribuição dos máximos indica para a
maior parte do Estado, valores entre 140 a 180mm. As manchas ou isoietas com valores entre
180 a 220mm ou mais não mostraram correlação significativa com as chapadas e planaltos mais
elevados. Parece que os temporais convectivos, onde se inserem os máximos de água
precipitável, dependem de outros controles; tais como o padrão de circulação atmosférica e as
interações entre as características do aquecimento da superfície, com as condições dinâmicas
da baixa, média e alta troposfera. É interessante notar que em certas áreas os máximos crescem
muito para valores não esperados, como no Pantanal, no extremo meridional, onde ocorreram
máximos de 243,389 e 460mm em 24 horas. Em Mirassol do Oeste também ocorreu um máximo
de 330mm; no posto P116 (Faz. Santa Emília) na Rodovia entre São José do Xingu e Matupá
ocorreu um máximo de 310mm. Não podemos descartar a possibilidade de erros de leitura, mas
como é impossível este tipo de verificação, é conveniente adotar uma postura conservadora e
aceitar estes valores como verdadeiros, sendo possíveis de serem explicados pela dinâmica da
própria atmosfera tropical continental.
5.
A VARIAÇÃO ESPACIAL DO BALANÇO HÍDRICO
Considerando-se que não se pode classificar um clima como sendo úmido ou seco
apenas através dos valores pluviométricos, torna-se necessário, para se saber se a chuva caída
é suficiente para atender às necessidades das plantas, isto é, manter o solo úmido, considerar o
consumo de água através dos processos de evaporação, o qual é tanto mais intenso quanto mais
quente ou rica de energia solar é a região (TARIFA, 1970). A técnica do Balanço Hídrico de
Thornthwaite, que trata a água do solo como uma grandeza contabilizável, permite estimar a
umidade disponível, cotejando dois atributos climatológicos opostos: a chuva, que representa o
ganho de umidade do solo e a evapotranspiração potencial, que representa a perda potencial da
umidade do solo. Thornthwaite introduziu o conceito de evapotranspiração potencial para
exprimir a evapotranspiração que normalmente se verifica num terreno inteiramente vegetado,
livremente exposto à atmosfera e onde nunca falte umidade no solo para uso das plantas
(THORNTHWAITE & MATHER, 1955). A evapotranspiração potencial é, pois, o elemento que
indica a necessidade de água, por unidade de área do terreno, ou melhor, a chuva teoricamente
necessária para manter a vegetação verde e turgescente o ano inteiro corresponde a chuva ideal
para uma área. Confrontando-se a evapotranspiração potencial com a chuva ocorrida pode-se
estimar as disponibilidades hídricas, as deficiências, os excessos, a retirada e a reposição de
água no solo em determinado sítio. Existem vários métodos e técnicas para a estimativa da
evapotranspiração potencial. Os mais precisos são aqueles baseados nas fórmulas empíricas de
26
PENMAN (1948), cujas determinações são baseadas no balanço de radiação solar e nos efeitos
provocados pela ação do vento e do déficit de saturação (termo aerodinâmico). No entanto, dada
a inexistência de dados de radiação solar, bem como das dificuldades para o mapeamento (na
escala 1:1.500.000) de todo o Estado de Mato Grosso, tornou-se necessário recorrer ao método
proposto por THORNTHWAITE & MATHER (1955); este método utiliza o comprimento do dia
(estimado pela latitude do lugar) bem como as temperaturas médias mensais. Experimentos de
campo e os resultados obtidos por PAES DE CAMARGO (1961) indicam que para os climas
tropicais e Equatoriais Úmidos a Sub-úmidos, como o são aqueles do Estado de Mato Grosso, as
estimativas médias mensais são boas para a caracterização climatológica na escala local e
regional.
O conceito “balanço hídrico” pode ter vários significados, dependendo do uso, da
finalidade e da própria espessura do reservatório onde se acumula a disponibilidade hídrica. No
caso do presente estudo, deve ser considerado como um processo contábil, onde o solo
funciona como caixa (reservatório de água), a chuva funciona como entrada ou depósito de água
no mesmo e a evapotranspiração potencial a saída ou perda superficial de água. Portanto, não
se trata de um “balanço hidrológico”, mas de uma estimativa areolar das disponibilidades hídricas
superficiais. No caso específico do Estado de Mato Grosso foi adotada uma capacidade de
campo de 75mm; este limite foi baseado em determinações para os principais grupos de solo
realizado pela equipe de solos do projeto. Deve-se considerar, portanto, uma estimativa média
do armazenamento hídrico máximo e não um valor absoluto. O valor é climatológico e, portanto,
imprescindível (para uma análise comparativa dos vários espaços e unidades climáticas), que
fosse um único limite para a capacidade de campo (75mm). O balanço hídrico, quando o solo não
se encontra em capacidade de campo (cc)3 a evapotranspiração potencial será menor em virtude
da falta de água para as plantas, ocorrendo a evapotranspiração denominada real (ER).
A deficiência hídrica (DEF) indica a falta de água no solo, em milímetros. É sempre
representada pela diferença algébrica entre a evapotranspiração potencial (EP) e a
evapotranspiração real (ER), ou seja,
DEF = EP – ER
O excedente hídrico (EXC) mostra o escoamento total em milímetros (runoff) após a
saturação do solo, ele pode variar de acordo com o limite de capacidade de campo adotado. No
balanço hídrico sempre que a curva da pluviosidade (mm) cai abaixo da curva da
evapotranspiração potencial, há a utilização da água do solo (água retirada do solo). Uma vez
que a curva da chuva sobrepasse a da evapotranspiração potencial começará a reposição
hídrica, até que se complete o limite da capacidade de campo, sendo então considerada como
água excedente ou excesso hídrico.
5.1.
A EVAPOTRANSPIRAÇÃO POTENCIAL
A estimativa das perdas máximas superficiais de umidade indica valores anuais
elevados para quase todo o Estado de Mato Grosso (Mapa A017). O extremo noroeste do Estado
(na confluência do Teles Pires-Juruena e o médio e baixo Roosevelt-Aripuanã) é a área que
registra os mais elevados valores anuais, variando entre 1.400 a 1.450mm. Este fato se deve à
combinação das altitudes e latitudes mais baixas do Estado, aumentando consequentemente a
disponibilidade de energia disponível para a evaporação e transpiração. Outras áreas com
valores elevados de EP (mm) são a da Depressão do Araguaia e o Pantanal, onde os totais
anuais oscilam entre 1.400 a 1.450mm. De forma geral o Planalto dos Parecis mostra uma perda
inferior, entre 1.250 a 1.300mm, variando para valores mais elevados ou mais baixos em função
da combinação do controle climático, altitude e a latitude.
3
Capacidade de campo (cc)
27
A Depressão do Norte de Mato Grosso é marcada também por valores elevados de
EP(mm), girando entre 1.300 a 1.400mm. O Vale do Guaporé (altitudes inferiores a 300 metros) e
as depressões do alto Paraguai e a Depressão Cuiabana também indicam valores elevados de
EP (mm), entre 1.300 a 1.400mm.
Os menores valores estimados de EP são aqueles registrados para os planaltos e
chapadas, onde o efeito da altitude e da latitude diminui a faixa de perda, para os totais entre
1.000 a 1.200mm (Mapa A018).
5.2.
A EVAPOTRANSPIRAÇÃO REAL (mm)
O conceito de evapotranspiração real (mm) pode significar em termos fitogeográficos,
como um indicador da capacidade vegetativa de um lugar, pois integra a disponibilidade de
energia (através do balanço de radiação solar) com a variação dos insumos hídricos, fornecidos
pela pluviosidade. A observação do Mapa A018 evidencia claramente que todo o território do
Estado de Mato Grosso mostra valores elevados de evapotranspiração real; existe mesmo uma
relativa homogeneidade na distribuição no espaço; isto se deve à uma relativa concentração dos
valores mais elevados das chuvas em praticamente um único período, ou seja, de
outubro-novembro a março-abril. Isto significa que existe uma longa estação chuvosa, entre 6 a 7
meses, onde as perdas superficiais de umidade são geralmente repostas pelas chuvas. Desta
maneira, o gradiente de variação vai de um mínimo de 850mm (nos chapadões do Alto Taquari,
por exemplo) à um máximo de 1.100 a 1.200mm no extremo noroeste do Estado.
De forma geral, a Depressão Sul-Amazônica (ao norte dos Paralelos 11 e 12ºLS)
também apresenta valores relativamente altos de evapotranspiração real, entre 1.000 a
1.100mm. O Planalto dos Parecis, a Chapada dos Parecis, e os Planaltos do Sudeste mostram
totais entre 950 a 1.000mm. O Vale do Guaporé e as depressões (do Pantanal, do alto Paraguai,
Cuiabana e do Rio Vermelho em Rondonópolis) ficam com totais entre 1.000 a 1.150mm (Mapas
A018).
5.3.
A DEFICIÊNCIA HÍDRICA ANUAL
A variação da intensidade anual média da seca no Estado de Mato Grosso indica
padrões bem definidos. O primeiro deles é associado ao caráter tropical alternadamente úmido e
seco do seu clima zonal e regional. Nota-se, portanto, em todo o seu território um período “seco
definido”, muito embora a duração (meses) e a intensidade mostrem variações significativas ao
sabor dos processos genéticos zonais (circulação atmosférica) e regionais-locais (altitude, forma
e orientação do relevo). Desta maneira, de forma geral as deficiências hídricas anuais variam
entre 100 a 450mm (Mapa A019).
O extremo-Noroeste (ao norte do paralelo 10ºLS e a oeste do meridiano de 56ºWGr)
indica uma diminuição da seca, nesta área os totais anuais da deficiência hídrica ficam entre 150
a 250mm.
O Planalto dos Parecis e grande parte da Depressão do Norte de Mato Grosso (nas
bacias dos rios Arinos, Juruena e Médio Teles Pires) mostram valores da deficiência hídrica entre
250 e 300mm. No entanto, à medida que se desloca para a Bacia do Xingu (à leste do espigão
divisor entre as bacias do Arinos e Teles Pires) ocorre um aumento progressivo da seca,
indicando a incidência de valores entre 300 a 350mm para grande parte das bacias dos médios
Teles Pires e Xingu, avançando até o espigão divisor entre o Xingu e o Araguaia.
A descida para a Depressão do Araguaia corresponde à um novo aumento no grau de
intensidade da seca, passando para valores entre 350 a 470mm (Mapa A019). As chapadas e
28
planaltos elevados revertem esta tendência, mostrando valores entre 100 a 250mm. Os topos
elevados (>600m) da Chapada dos Parecis, Guimarães e Planaltos e Chapadões do Sudeste
mostram deficiência hídrica anual entre 150 a 200mm. Em determinados sítios, como a fachada
sudoeste da Chapada dos Guimarães, os valores registrados mostram deficiência hídrica anual
entre 75 a 100mm.
O Planalto Jauru-Rio Branco, bem como as fachadas meridionais da Chapada dos
Parecis acusam deficiências hídricas entre 200 a 250mm. No entanto, as depressões (do
Paraguai e Alto Cuiabá) os valores aumentam à medida que as altitudes diminuem e o efeito
orográfico de proximidade das áreas serranas também diminui. Neste passamos para valores
entre 250 a 350mm. O Vale do Guaporé é ligeiramente mais úmido com valores entre 250 a
300mm. Uma vez que se inicia a descida para as áreas rebaixadas dos vales do Paraguai e
Cuiabá, os totais anuais de déficit hídrico ficam entre 350 a 444mm (Mapa A019).
5.4.
OS EXCEDENTES HÍDRICOS ANUAIS
Do ponto de vista regional a área com o máximo de excedente hídrico abrange a região
setentrional do Estado, ao norte do paralelo 12º e à oeste do meridiano de 52ºWGr.
O escoamento total (EXC) nesta área varia no geral entre 1.000 a 1.200mm, muito
embora possam ocorrer valores inferiores a 1000 em decorrência de serem áreas baixas, como
nos vales do Juruena e do Teles Pires (Mapa A020). O Planalto dos Parecis apresenta valores de
excedente hídrico, entre 800 a 1.000mm, com uma tendência de decréscimo de oeste para leste,
principalmente na Bacia do Médio Xingu, onde os totais oscilam entre 750 a 850mm. À medida
que vamos em direção aos limites entre a Bacia do Xingu e do Araguaia, os excedentes são
ainda menores, entre 700 a 800mm.
Nas áreas mais baixas da Bacia do Araguaia, com altitudes entre 160 a 300 metros, os
excedentes variam entre 500 a 600mm.
A Depressão do Guaporé acusa valores de excesso hídrico entre 350 a 550mm;
nota-se ainda no Mapa A020 que a Depressão do Alto Paraguai na região de Nortelândia,
Arenápolis e Denise, apresenta excedentes bem mais elevados (entre 600 a 1.000mm) do que a
área de Mirassol D’Oeste, Porto Esperidião onde os valores caem para apenas 200 a 400mm. As
áreas rebaixadas do Alto Cuiabá também mostram valores relativamente baixos de excessos,
entre 400 e 600mm. No entanto, uma vez que as altitudes vão ficando menores (inferiores a 300
metros) e que se distancia da influência serrana (cinturão orográfico da Bacia Paraguai Uruguai), ocorrem os menores valores de todo o Estado, ou seja, entre 100 a 400mm. Dentro
desta área se inclui o Pantanal (onde as altitudes são inferiores a 100m) e onde em muitos anos
o excedente hídrico local se aproxima de zero, enquanto que na média os valores oscilam entre
75 a 200mm.
29
6.
AS UNIDADES CLIMÁTICAS DE MATO GROSSO
As unidades climáticas do Estado de Mato Grosso encontram-se sintetizadas no Mapa
Síntese A021 – Unidades Climáticas do Estado de Mato Grosso.
6.1.
CLIMA EQUATORIAL CONTINENTAL ÚMIDO COM ESTAÇÃO SECA DEFINIDA (I)
DA DEPRESSÃO SUL AMAZÔNICA
A área ocupada por esta Unidade Climática (I) abrange a faixa de latitude entre
aproximadamente 7º30’ a 11º/12º LS e a longitude entre 51º a 61º WGr. Dentro desta
macrounidade (clima regional) ocorrem subunidades (representadas na Legenda do Mapa A021,
por letras maiúsculas (A, B, C, D), números (1, 2, 3, ...n) e letras minúsculas (a, b, c). Na
realidade são níveis de organização hierárquica dos espaços climáticos, uns embutidos dentro
dos outros, e de cuja “homogeneidade relativa” a um dado espaço integra na sua totalidade a
dimensão do tempo. Por outro lado, a própria “unidade” contém diferenças em relação
principalmente através dos controles climáticos intra-regionais e locais se constitui em novas
identidades.
Um dos aspectos fundamentais desta unidade é que mesmo se tratando de climas
Equatoriais Continentais quentes e úmidos existe a definição da estação seca. Trata-se no geral
de uma “seca moderada” (deficiência), existente em quase todas as subunidades. A segunda
propriedade extensiva é a existência de um elevado excedente hídrico (superior a 1.000mm); o
próprio mapeamento desta unidade revelou coincidência entre o total anual médio de chuva
superior a 2.000mm, com a isolinha de 1.000mm de excesso. Constata-se também uma faixa
relativamente extensa de unidades climáticas de transição para os climas tropicais continentais
alternadamente úmido e seco. Na realidade existe marca das transições para o baixo Vale do
Araguaia (Unidade ID) para o médio Xingu (Planalto dos Parecis) (Unidades IC e IB) e para o
médio Arinos para o Rio do Sangue (Unidade IA). Estas transições são marcadas ou por
aumento na intensidade da seca (de 200 a 300 para 250 a 350mm/ano) ou diminuição do
excedente hídrico, ficando este entre 800 a 1.000mm. Dentro deste conjunto de terras baixas
com predomínio de altitudes entre 200 a 300 metros se destacam na paisagem serras e maciços
residuais, onde o fator altitude se incumbe de atenuar o aquecimento a nível local. Assim sendo,
foram delimitadas (mesmo sem dados medidos de estações meteorológicas) subunidades
climáticas, correspondentes às áreas abrangidas pelas serras do Apiacás (IA2), Caiabis (IB3b)),
Serra Formosa-Cachimbo (IB3b), Dardanelos-Serra Morena (IB1b) e Serra do Urubu Branco
(ID3b) (Mapa A021).
Nestas unidades de clima local deve ocorrer uma diminuição da evapotranspiração
potencial e consequentemente aumentando o excedente e diminuindo a deficiência hídrica.
Na legenda do Mapa A021, pode-se identificar a variação dos controles climáticos
(latitude, longitude, altitude, relevo) e suas correlações com os atributos climáticos, temperatura,
pluviosidade e balanço hídrico. Além da discriminação quantitativa dos elementos climáticos,
classificou-se através da variação mensal da disponibilidade hídrica, a duração e a intensidade
da seca e do excedente de água no solo. Considerando-se que a falta ou excesso de água no
solo seja insumos importantes para o bom desempenho da vida e da sociedade, criou-se uma
hierarquia de graus de intensidade como ilustra o Quadro 001 a seguir.
30
QUADRO 001
GRAUS DE INTENSIDADE DA SECA E DO EXCESSO DE ÁGUA EM MATO GROSSO,
SEGUNDO O BALANÇO HÍDRICO (CC – 75mm)
Seca (mm)
0 – 100 = muito pequena (pp)
101 – 200 = pequena (peq.)
201 – 250 = peq. a moderada (peq/mod)
251 – 300 = moderada (mod)
301 – 350 = mod.a severa (mod/sev)
351 – 400 = severa (sev)
> 400 = muito severa (ss)
cc = capacidade de campo
FONTE:
CNEC, 2000
Excesso (mm)
<200 muito pequeno (pp)
201 – 400 pequeno (peq.)
401 – 600 peq. a moderado (peq/mod)
601 – 800 moderado (mod)
801 – 1000 mod. a elevado (mod/elev)
1000 – 1200 elevado (elev.)
> 1200 muito elevado (ee)
Essa hierarquia apresentada no Quadro 001 permitiu estabelecer a combinação dos
dois indicadores (seca e excesso de água), como uma propriedade fundamental das Unidades
Climáticas (Mapa A021).
A subunidade IA1 e IA2 (Mapa A021) corresponde ao extremo noroeste do Estado de
Mato Grosso, compreendendo o médio curso das bacias dos rios Roosevelt, Guarita, Aripuanã e
a confluência entre o Juruena-Teles Pires. A baixa latitude (8 a 9º LS) com altitudes entre 100 a
300 metros define uma condição megatérmica, onde as temperaturas médias anuais oscilam
entre 25,7 a 24,7ºC, e as máximas entre aproximadamente 32,0 a 33,0ºC e as mínimas entre
19,5 a 21,0ºC. Na realidade as maiores diferenças térmicas (amplitude) estão associadas ao
ciclo dia e noite e não são ciclo estacional, ou seja, a amplitude térmica diária desta unidade varia
entre 10º a 12º, enquanto que a amplitude anual fica entre 1º a 2ºC. O total pluviométrico médio
varia entre 2.000 a 2.500mm. A estação seca ocorre de junho a setembro (4 meses) com uma
intensidade de 200 a 250m de deficiência hídrica. O excedente hídrico é elevado, variando entre
100 a 1.200mm, tendo uma duração de 8 meses (outubro a abril). A Serra dos Apiacás
constitui-se em uma subunidade (IA2), com uma pequena atenuação térmica, mas suficiente
para reduzir um pouco os déficits na estação seca e aumentar os excessos na estação chuvosa
(Mapa A021).
A região das nascentes e do alto curso das bacias dos rios Aripuanã e Roosevelt se
constituem na unidade climática IB1. A oferta pluvial é elevada, variando entre 2.000 a 2.100mm,
com temperaturas elevadas (25,1 a 24,1ºC de média anual). O período seco é bem definido, de
maio a setembro com deficiências moderadas (200 a 300mm) e excedentes de moderados a
elevados (900 a 1.300mm) cuja duração vai geralmente de outubro a abril. Os espigões divisores
e serras com altitudes superiores a 400 metros foram identificados como uma subunidade, IB1b
(Mapa A021), onde o efeito do relevo em relação aos fluxos atmosféricos deve acentuar a
instabilidade, aumentando a pluviosidade.
O médio Juruena-Teles Pires se constitui em um espaço climático diferenciado
(unidade IB2 no mapa A021). A variação média mensal do balanço hídrico (Gráfico 003) para a
localidade de Sinop mostra que:

no final do inverno (ago/set) quando as temperaturas já passaram pelo mínimo de
22,3ºC (julho) é que se constata o período mais grave de falta da água no solo;

setembro (início ou passagem para a primavera) é o mês com o maior valor
acumulado de deficiência hídrica (236,8mm) e o aquecimento já é muito forte,
dando máximas absolutas superiores a 32,0ºC;

outubro marca o início da reposição hídrica da água no solo, proporcionando um
armazenamento de 61,9mm, sem no entanto atingir a saturação ou a capacidade
de campo (75mm).
31

A partir de novembro a estimativa do balanço hídrico (Gráfico 003) já indica um
excesso de 149,1mm; configura-se, portanto, a estação chuvosa, ou “inverno
amazônico”. O elevado escoamento superficial (run off) permanece até o mês de
março (187,6mm). O excedente de água diminui para 65,2mm em abril e em maio
começa um novo período seco, com uma falta de água no solo de 14,8mm. Os
meses com maior intensidade de seca são junho (52,8mm), julho (65,8mm) e
agosto (68,8mm). Setembro marca o aumento da quantidade de chuva (76,0mm),
valores, entretanto, insuficientes para cobrir a demanda de 111,4mm da perda de
água superficial através da evapotranspiração potencial (Gráfico 003).
Nesta mesma unidade climática nota-se algumas diferenciações locais, por exemplo, o
balanço hídrico estimado para o posto M154, para Juína (344m) mostra um excedente hídrico
mais elevado , ou seja, de 1.306,3mm. Provavelmente em função da altitude e de estar
localizada próximo dos maciços residuais e espigões entre as bacias do Juruena e do Aripuanã.
Outra variação foi aquela constatada no posto P125, no vale do Juruena à uma altitude de 225m,
indica um excedente de 952,8mm, portanto uma redução provavelmente associada ao maior
aquecimento e estabilidade atmosférica.
A região do baixo Teles Pires (incluindo a Bacia do Peixoto de Azevedo) no arco
interno envolvido pelos Caiabis, Serra Formosa e a Chapada do Cachimbo se constitui na
Unidade Climática IB3, que foi subdividida nas subunidades IB3a (vales, depressões e colinas
baixas da Depressão Sul Amazônica) e IB3b (maciços e chapadas residuais do Norte de Mato
Grosso). O balanço hídrico de Matupá (Gráfico 004) pode ser utilizado como representativo das
condições da Unidade Climática IB3a. Neste gráfico se percebe um elevado volume de
excedente hídrico, com um total anual de 1197,8. A distribuição mensal deste excedente é
máxima durante os meses de dezembro (207,2mm), janeiro (266,3mm), fevereiro (299,3mm) e
março (197,7mm). No entanto, em novembro e abril o excedente é ainda considerável, 129,3 e
90mm respectivamente. A deficiência hídrica anual é de 244,2mm, iniciando em maio e se
prolongando até setembro.
Dentro desta unidade (I) de Clima Equatorial Úmido com estação definida, existem
duas áreas como transições progressivas para os climas tropicais continentais. Uma delas vai
em direção leste, nos limites entre a Bacia do Xingu e do Araguaia. Ela foi denominada ID e a
outra envolve as bacias dos rios Arraes e Mauricauá-Miçú (afluentes da margem esquerda do
Rio Xingu, já dentro do Planalto dos Parecis). A principal característica da Unidade IC (Mapa
A021) é um aumento da deficiência hídrica para valores entre 300 a 350mm, enquanto o
excedente hídrico se mantém elevado (1.000 a 1.200mm).
O balanço hídrico médio mensal de Vera (Gráfico 005) indica armazenamento máximo
de água no solo de novembro a abril, com um excedente total de 1.033,3mm. A estação seca tem
início em maio e se prolonga até setembro, com uma deficiência moderada de 268,9mm. Esta
unidade tem também como tendência, uma diminuição da pluviosidade anual em direção ao
médio vale da Bacia do Xingu.
A outra Unidade Climática de transição é aquela que abrange a região de Vila Rica,
Confresa, Luciara, Santa Terezinha até aproximadamente São Félix do Araguaia. A maior
atuação dos Sistemas de Alta Pressão associados ao anticiclone subtropical aumentam a
estabilidade atmosférica e reduzem as chuvas na faixa centro oriental do Estado. Este feito
associado à forma e orientação do Vale do Araguaia contribuem para um maior ressecamento.
Tratando-se de uma área com altitudes (200 – 300 metros) e latitudes baixas (10 a 11ºLS), os
valores de perda de água superficial são muito elevados, aumentando as deficiências e
32
reduzindo o excedente hídrico. Este fato pode ser observado no Gráficos 006 e 007 das
localidades de S. Félix do Araguaia4 e Vila Rica.
A seca estacional é mais prolongada, durando 5 a 6 meses (na média de maio a
outubro), variando entre 350 a 450mm (de moderada a severa) e os excedentes hídricos sofrem
uma razoável redução (500 a 800mm), cuja duração com valores mensais acima de 50mm inicia
em dezembro se prolongando até março. Quando comparamos os balanços hídricos de São
Félix com aqueles de Luciara e Santa Terezinha, notamos quantidades muito parecidas, ou seja,
390,2mm de deficiência em Luciara e 369,3mm em Santa Terezinha. No entanto, saindo do Vale
do Araguaia, em direção aos baixos planaltos, os morros e serras residuais com altitudes entre
300 a 600 metros se constituem em unidades diferenciadas ID2, ID3 e ID3b. O controle climático
altitude atenua o aquecimento, reduz a evapotranspiração potencial e aumenta as deficiências e
diminui o excedente hídrico (Mapa A021).
GRÁFICO 003
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA SINOP
mm
400
Precipitação
Evaporação Potencial
Evaporação Real
Excedente Hídrico
Total - 1010,6
300
Reposição de Água
Água Retirada
Deficiência Hídrica
Total - 236,8
200
100
0
jan
FONTE:
4
fev
mar
abr
mai
jun
jul
ago
set
out
nov
dez
Dados meteorológicos INEMET (1983-1994)
Lat. 11º 52’
Long. 56º 32’ Alt. 380m
Esta estação está localizada no limite entre as Unidades 1D1 e IIIE4b, podendo representar ambas as condições
hídricas.
33
GRÁFICO 004
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA MATUPÁ
mm
500
Precipitação
Evaporação Potencial
Evaporação Real
400
Excedente Hídrico - Total - 1197,8
Reposição de Água
Água Retirada
300
Deficiência Hídrica - Total - 244,2
200
100
0
jan
fev
mar
abr
mai
jun
jul
ago
set
out
nov
dez
FONTE : Dados meteorológicos INEMET ( 1983-1994 )
Lat. 10o 15'
Long. 54o 55'
Alt. 285 m
GRÁFICO 005
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA VERA
mm
400
Precipitação
Evaporação Potencial
Evaporação Real
Excedente Hídrico
Total - 1033,3
300
Reposição de Água
Água Retirada
Deficiência Hídrica
200
100
0
jan
fev
mar
abr
mai
jun
jul
FONTE : Dados meteorológicos INEMET ( 1983-1994 )
Lat. 12o 17'
Long. 55o 17'
Alt. 400 m
ago
set
out
nov
dez
Total - 268,9
34
GRÁFICO 006
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA S. FÉLIX DO ARAGUAIA
mm
400
Precipitação
Evaporação Potencial
Evaporação Real
Excedente Hídrico
Total - 681,0
300
Reposição de Água
Água Retirada
Deficiência Hídrica
200
100
0
jan
fev
mar
abr
mai
jun
jul
FONTE : Dados meteorológicos INEMET ( 1983-1994 )
Lat. 11o 50'
Long. 50o 40'
Alt. 200 m
ago
set
out
nov
dez
Total - 376,7
35
GRÁFICO 007
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA VILA RICA
mm
300
Precipitação
Evaporação Potencial
Evaporação Real
Excedente Hídrico - Total - 697,3
Reposição de Água
200
Água Retirada
Deficiência Hídrica - Total - 353,8
100
0
jan
fev
mar
abr
mai
jun
jul
FONTE : Dados meteorológicos INEMET ( 1983-1994 )
Lat. 9o 58'
Long. 51o 10'
Alt. 280 m
ago
set
out
nov
dez
36
6.2.
CLIMA SUB-EQUATORIAL CONTINENTAL
DEFINIDA (II) DO PLANALTO DOS PARECIS.
ÚMIDO
COM ESTAÇÃO
SECA
O aumento da intensidade da seca estacional (entre 300 a 350mm) combinado com
excedentes entre 800 a 1.000mm cria uma extensa faixa de transição climática dentro do
Planalto dos Parecis. O aumento da altitude média (300 a 400 metros) e da latitude diminui o
aquecimento, baixando a variação das temperaturas médias anuais entre 24,8º a 24,0ºC. No
entanto, os totais anuais médios ficam entre 1.600 a 2.000mm. Esta transição climática é
constituída também de duas subunidades (IIA do médio Arinos e Rio do Sangue e IIB1, IIB2 no
médio Xingu).
Apesar da diminuição dos totais anuais de pluviosidade a área do médio Arinos e Rio
do Sangue (IIA) não apresenta aumento da deficiência hídrica sazonal, ficando com valores entre
250 a 300mm, o que fica como uma moderada seca de final de outono e de maior intensidade
durante o inverno austral (junho, julho, agosto). A duração do período seco é, portanto, de 5
meses, ou seja, de maio a setembro. A redução do excedente hídrico (entre 800 a 900mm)
ocorre principalmente em função da diminuição dos totais pluviométricos dentro da estação
chuvosa. O balanço hídrico (Gráfico 008) da estação meteorológica de São José do Rio Claro
representa bem esta mudança do padrão de intensidade e distribuição da pluviosidade nesta
realidade climática. O total anual da falta de água no solo é de 252,4mm, enquanto que o
excedente anual é de 622,3mm. A moderada seca sazonal ocorre de maio a setembro, sendo o
período de excesso de novembro a abril; considera-se, no entanto, que os meses de novembro e
abril, com excedentes de apenas 23,4 e 15,1mm, estejam sempre sujeitos às variações do ritmo
climático, o que pode antecipar ou prolongar a estação seca. A evapotranspiração potencial
nesta unidade ainda se mantém elevada, com o total mensal variando entre um mínimo de
73,2mm (julho) à um máximo de 127,9mm em novembro. A soma do total anual médio é de
1.317,1mm (Gráfico 008).
As condições climáticas associadas à mudança na instabilidade atmosférica
relacionadas aos anticiclones tropicais continentais (alta subtropical), cuja trajetória é do ESE
para WNW, cria no médio Xingu, propiciam realidades climáticas um pouco mais secas, e
provavelmente com um ritmo mais irregular do que o extremo noroeste. A intensidade da falta de
água no período de maio a setembro sobe para 300 a 350mm (considerada como de moderada a
severa). No entanto, dentro desta área, pode-se identificar duas subunidades. A primeira delas
(IIB1) abrange a bacia do médio Curisevo e do Rio V. D. Steinen. Neste caso os totais anuais de
excedente hídrico ainda se mantêm entre 800 a 1000mm. A duração deste período com excesso
vai de novembro a abril. A segunda subunidade climática (IIB2) sobre a bacia do Coluene e do
Suiá Miçu (ver Mapa A021). Os totais anuais de chuva caem para valores entre 1.600 a
1.800mm; a deficiência hídrica é de moderada a severa (média de 300 a 350mm) e o excedente
cai para uma faixa maior de oscilação entre 650 a 800mm. A análise do balanço hídrico de
Alô-Brasil (Gráfico 009) localizada na transição entre o sub-equatorial úmido do médio Xingu e o
Tropical Úmido do Araguaia (Unidade III4) pode ajudar a entender as alterações do espaço
climático de transição Equatorial-Tropical. O total anual médio da pluviosidade é de 1.839,5mm
(período 1983-1994), no entanto no ano seco (1993) a chuva total do ano alcançou apenas
1.258,3mm; este limite dentro de uma série temporal de 11 anos é demonstrativo de variações
significativas no ritmo climático. Pode-se considerar ainda, como anos de pluviosidade abaixo da
média, 1984 (1568,3mm) e 1990 (1557,5); o balanço hídrico médio (gráfico 006) indica um
excesso de água no solo de 815,6mm (duração entre novembro a abril) e uma falta de água
estacional de 271,0mm, compreendendo os meses de maio a setembro. O total real anual médio
de perda de água superficial por evapotranspiração é de 1.023,4m.
37
GRÁFICO 008
BALANÇO HÍDRICO PARA S. JOSÉ DO RIO CLARO
mm
300
Precipitação
Evaporação Potencial
Evaporação Real
Excedente Hídrico- Total - 622,3
Reposição de Água
200
Água Retirada
Deficiência Hídrica- Total - 252,4
100
0
jan
fev
mar
abr
mai
jun
jul
ago
set
out
nov
dez
FONTE : Dados meteorológicos INEMET ( 1983-1994 )
Lat. 13o 26'
Long. 56o 43'
Alt. 350 m
GRÁFICO 009
BALANÇO HÍDRICO PARA ALÔ BRASIL
mm
400
Precipitação
Evaporação Potencial
Evaporação Real
Excedente Hídrico - Total - 815,6
300
Reposição de Água
Água Retirada
Deficiência Hídrica -Total - 271,0
200
100
0
jan
fev
mar
abr
mai
jun
jul
FONTE : Dados meteorológicos INEMET ( 1983-1994 )
Lat. 12o 11'
Long. 51o 45'
Alt. 370 m
ago
set
out
nov
dez
38
6.3.
CLIMA TROPICAL CONTINENTAL (III) ALTERNADAMENTE ÚMIDO E SECO DAS
CHAPADAS, PLANALTOS E DEPRESSÕES DE MATO GROSSO.
Os Climas Tropicais de Mato Grosso são muito variados em função da enorme
extensão territorial (tanto em termos de latitude, quanto de longitude) e do controle modificador
exercido pela forma e orientação do relevo. Ao lado destes dois estruturadores básicos, junta-se
o fator altitude, qualificando conjuntos e realidades diferenciadas pelo aquecimento do solo e
consequentemente também modificando o balanço de radiação de ondas longas (ROL). Dentro
desta perspectiva a interpretação dos processos associativos entre os recursos climáticos
(disponibilidades de água, ar e energia de boa qualidade) e aqueles exercidos pela demanda
sócio-econômica e humana devem ser feitos em termos do ritmo climático e do ritmo
historicamente contido em cada unidade climática do território. Assim sendo, já existe nos climas
tropicais do Brasil Central, onde se incluem vastas regiões do Estado de Mato Grosso, ritmos
humanos e econômicos de intensidade temporal e espacial muito diferenciadas do cotejo, desta
combinação podemos encontrar um ou vários “limites” ou “transições” no tempo e no espaço.
Essas transições são importantes para o planejamento ambiental da paisagem, pois podem
identificar potencialidades ou problemas na forma da ocupação e organização humana dos
recursos climáticos. Por exemplo, um clima tropical de altitude, úmido e mesotérmico, plano à
sub-plano, apropriado para a produção de grãos tem uma relação com o recurso climático, muito
diferente daquela “produção para subsistência encontrada em quase todas as unidades
climáticas do Estado. O suporte tecnológico torna a produção muito menos susceptível às
variações climáticas do que aquelas áreas onde a relação agropecuária é baseada ainda numa
forte dependência do andamento da disponibilidade de água através da chuva.
A chamada “agricultura de precisão” exemplifica bem o uso de estratégias tecnológicas
para superar a oscilação e o ritmo climático. Assim sendo, o uso de um calendário com uma
extensa faixa de datas e épocas de plantio, associada à uma grande combinação de variedades
de ciclo curto, médio e longo prazo em uma mesma fazenda ou muitas vezes em um mesmo
talhão, tenta compensar através da repetição no tempo cronológico um maior acerto dentro das
variações impostas pelo tempo meteorológico. No entanto, o custo dessa atividade e deste nível
tecnológico precisa ser avaliado, bem como a sua dependência (cada vez maior de insumos,
sementes, variedades e controle de pragas) dos fornecedores internacionais. Contudo, existem
formas e procedimentos associados ao planejamento da atividade agropecuária, respeitando
minimamente a vocação ou potencialidade de cada espaço, onde o custo é muito inferior. No
entanto, o uso de “tecnologias simples” ajustadas às condições de oferta do meio esbarram
quase sempre na estrutura fundiária. Por isto pensar o recurso climático isoladamente não faz
sentido, é necessário inseri-lo dentro dos tipos de lógica da apropriação e produção do espaço
sócio-econômico. Assim sendo, procurou-se detalhar as unidades climáticas à um nível de
decomposição que permita sua posterior análise com o uso e a ocupação histórica e atual do
solo. Muitas vezes as diferenças entre as unidades climáticas não são dadas apenas pela
existência ou não de diferenças nos elementos meteorológicos, mas também pelas próprias
características do relevo e do lugar no território que a unidade climática ocupa. Desta forma,
mesmo as serras e maciços isolados onde não existe nenhuma estação meteorológica ou
pluviométrica buscou-se uma identidade indicada pela semelhança dos processos e ritmos do
seu entorno. A delimitação destes “polígonos” e “sub-polígonos” deve facilitar também a
estrutura e a organização do banco de dados, não apenas dos dados coletados e trabalhados
neste projeto, mas principalmente deverá facilitar atualizações futuras, dentro do conceito
organizacional de Unidades e Subunidades Climáticas do Estado de Mato Grosso.
Portanto, o Clima Regional Tropical Continental alternadamente úmido e seco (III) do
Estado de Mato Grosso foi decomposto em 06 unidades intraregionais, identificados pelas letras
A, B, C, D, E, F. Este conjunto foi novamente subdividido em 45 subunidades climáticas, nível
local e quando necessário até o nível topoclimático. Para estas representações cartográficas
39
foram adicionados números (1, 2, 3, ...n) ou ainda letras minúscula (a, b, c) que indicam feições
climáticas diferenciadas dentro de uma mesma unidade. De forma geral a primeira e talvez a
mais importante característica do Clima Tropical alternadamente úmido e seco é a sua
regularidade. A repetição e a alternância quase cíclica do movimento estacional quente e úmido
confere a esta realidade climática um grande espectro de uso e exploração dos recursos
climáticos. Existem diferenças e mudanças de ritmo, mas em se tratando de climas tropicais, as
alterações tem segmentos temporais de médios a longos ciclos, ou seja, apenas quando
ocorrem mudanças nos padrões de circulação atmosférica de larga escala e que são produzidas
mudanças quantitativas consideráveis, como aquelas que ocorreram durante o El Niño de 1983 e
no último evento de 1997/1998. Assim sendo, os ciclos estacionais, quase regulares, com 6 a 7
meses de predomínio da estação chuvosa (geralmente de outubro-novembro a março-abril) e 4 a
5 meses com estação seca definida (geralmente de maio a setembro), permite um planejamento
razoavelmente confiável no desenvolvimento e desempenho da atividade agropecuária.
O segundo aspecto em termos de importância é a existência de um conjunto
substancial de terras elevadas (chapadas e planaltos com altitudes entre 400 a 800 metros) o
que significa diferentes tipos de graus de alteração térmica, possibilitando reagrupar conjuntos e
realidades climáticas distintas. A atenuação térmica conduz implicitamente a um aumento da
disponibilidade hídrica, diminuindo o rigor das altas perdas de água superficial. Além deste
aspecto, a orientação, a forma e a altitude agem dinamicamente nos fluxos de vento,
aumentando os valores da precipitação pluviométrica. Estes fatos ficaram evidentes em todos os
mapeamentos e trabalhos de campo realizados e naturalmente representam também um
aumento regional dos insumos atmosféricos através da água da chuva.
Resta lembrar que os grandes sistemas coletores de água dos planaltos (Depressão
do Guaporé, Pantanal e Depressão do Araguaia) têm os seus valores quantitativos de chuva
reduzidos pelo “efeito orográfico”. Neste aspecto, merecem atenção especial, por se
encontrarem mais próximos dos limites inferiores ou superiores das oscilações rítmicas, tanto no
caso de anos “extremos de seca”, pois vão ser afetados na produção local da pluviosidade, como
vão receber menores volumes do escoamento fluvial, superficial e subterrâneo das chapadas e
planaltos elevados. Por outro lado, em anos ou seqüências de anos com “ciclos de águas altas” o
aumento local da pluviosidade se soma àquele do escoamento, resultando em cheias e
ultrapassando os limites superiores.
6.3.1.
O Clima Tropical Mesotérmico Úmido dos Topos de Cimeira dos Chapadões (IIIA)
O fator altitude e as extensas superfícies planas à sub-planas dos topos de cimeira
(altitudes entre 600 a 900 metros) das Chapadas e Planaltos se constituem em uma Unidade
Climática Intraregional. O resfriamento provocado pela altitude dá origem aos climas mais frios
do Estado, com as temperaturas médias anuais entre 21,4 a 23,0ºC. Os valores médios da
pluviosidade são relativamente elevados, oscilando entre 1.700 a 2.100mm. A duração e
intensidade da seca estacional são atenuadas; encontra-se, pois, os menores valores regionais
de deficiência hídrica, entre 75 a 200mm. Os excedentes hídricos são de moderados a elevados,
variando entre 800 a 1.000mm (Mapa A021). Dentro deste extenso conjunto de terras altas, com
clima mesotérmico úmido foram separados três macrounidades. A primeira delas constituída
pela Chapada dos Parecis (Unidade IIIA1); a segunda por toda a área ocupada pela Chapada e
Planalto dos Guimarães (Unidade IIIA2) e a terceira cobrindo os altos elevados do Planalto
Taquari-Alto Araguaia (Unidade IIIA3). Estas macrounidades foram subdivididas em duas
feições. A primeira, cuja nomenclatura foi adicionada a letra minúscula (a), significa um nível
altitudinal entre 600 a 700 metros; e a segunda, cuja variação topográfica está entre 700 e 900
metros, foi adicionada a letra (b), ou seja, a feição (b) representa uma realidade climática um
pouco mais fria e mais úmida daquela representada pela letra (a).
40
O balanço hídrico (Gráfico 010) da estação meteorológica de Alcoomat (localizada no
Município de Campo Novo dos Parecis) à uma altitude de 690 metros representa bem esta
condição de topo da Chapada dos Parecis. O primeiro aspecto a salientar é a diminuição da
evapotranspiração potencial, com uma perda de 1.102,4mm (anual). A deficiência hídrica anual é
de apenas 1.12,6mm, iniciando o período seco somente em junho (10,4 mm, portanto, com um
grau de intensidade pequeno) e se estendendo por 4 meses, até o mês de setembro. Por outro
lado, o excedente de água no solo começa um pouco mais cedo e já em outubro temos 14,6mm.
O período com excesso vai até o mês de abril, totalizando um valor anual de 933,2mm.
O balanço hídrico representado no Gráfico 011, para o posto da Chapada dos
Guimarães (lat 15º26’, long 55º46’ e altitude de 700 metros) mostra a variação mensal do
armazenamento da água no solo, válidos para as unidades dos topos elevados e dos Planaltos e
Chapadões do Sudeste (ver localização no Mapa A021). A variação mensal da
evapotranspiração potencial oscila entre um mínimo de 59,2mm em julho à um máximo de
110,3mm em dezembro. O total anual médio é de 1.081,4mm. A ocorrência de seca (em termos
médios) é muito pequena, com um total anual de 53,8mm, distribuídos em apenas três meses,
junho (7,4mm), julho (14,8mm) e agosto (31,5mm). O excesso de água no solo começa em
outubro (27,6mm) se prolongando até o mês de maio (30,4mm); este período de 8 meses com
excedente totaliza um valor anual de 1.065,4mm (Gráfico 011).
GRÁFICO 010
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA ALCOOMAT
mm
400
Precipitação
Evaporação Potencial
Evaporação Real
Excedente Hídrico - Total - 933,2
300
Reposição de Água
Água Retirada
Deficiência Hídrica - Total - 112,6
200
100
0
jan
FONTE:
fev
mar
abr
mai
jun
jul
ago
Dados meteorológicos INEMET (1983-1994)
Lat. 14º 16’
Long. 59º 14’ Alt. 690m
set
out
nov
dez
41
GRÁFICO 011
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA CHAPADA DOS GUIMARÃES
mm
400
Precipitação
Evaporação Potencial
Evaporação Real
Excedente Hídrico- Total - 1065,4
300
Reposição de Água
Água Retirada
Deficiência Hídrica- Total - 53,8
200
100
0
jan
fev
mar
abr
mai
jun
jul
ago
set
out
nov
dez
FONTE:
Dados meteorológicos INEMET (1983-1994)
Lat. 15º 16’
Long. 55º 46’ Alt. 700m
6.3.2.
O Clima Tropical Mesotérmico-Quente e Úmido dos Parecis, Alto Xingu e Alto Araguaia
(IIIB)
O reverso setentrional de todos os planaltos e chapadas nos altos cursos dos
principais rios que drenam para a bacia Amazônica se constituem nesta unidade Climática
Regional. O fator altitude (faixa topográfica entre 400 a 600 metros) ainda se constitui no controle
climático básico. No entanto, a extensa faixa constituída pelas cabeceiras e nascentes dos
principais rios (Juruena, Teles Pires, Arinos, Xingu, Coluene, Couto, Araguaia, Rio das Mortes e
Rio das Garças) cobre um espectro variado de orientação em relação à circulação atmosférica.
Principalmente em relação aos fluxos úmidos e instáveis de norte e de noroeste, cuja freqüência
máxima ocorre no período chuvoso (entre novembro a março).
Portanto, aparecem subunidades mais expostas e outras mais protegidas, de cuja
combinação resultam diferenças na intensidade da pluviosidade. Desta forma, percebe-se aqui
uma maior variabilidade nos totais pluviométricos anuais, variando entre 1.400 a 2.000mm.
Portanto, dentro desta macrounidade (regional) foram classificados e reconhecidos os atributos
de nove subunidades (IIIB1 a IIIB9), cujas principais características podem ser observadas na
Legenda do Mapa A021.
O reverso da Chapada dos Parecis (incluindo os vales e transições para o Planalto dos
Parecis) se constitui na Unidade IIIB1 (altitudes entre 400 a 600 metros). Estando voltada para
NNW ela exerce um “efeito instabilizador” nos fluxos da circulação atmosférica predominante,
que é de NNW e NE, forçando seu levantamento e aumentando gradativamente a pluviosidade,
com valores anuais entre 1.900 a 2.000mm. O período seco é geralmente de maio-junho até
setembro, com déficit hídrico variando entre 200 a 250mm (pequeno a moderada seca). O
excedente hídrico ocorre de outubro a abril, com um total anual de 900 a 1.000mm.
A Unidade Climática IIIB2 abrange a bacia do Alto Curso do Rio Arinos (incluindo a
fachada NNW do divisor com o alto Cuiabá e Alto Paraguai). Os totais anuais de chuva variam
entre 1.800 a 1.900mm, com cinco meses de duração do período seco (maio a setembro). A
42
deficiência hídrica anual varia entre 250 a 300mm, e o excedente é moderado (700 a 900mm),
ocorrendo no período de outubro a abril. O balanço hídrico para Nova Mutum (lat 13º18’, long.
56º10’e alt. de 420 metros) constante do Gráfico 012 ilustra bem a variação mensal média de
armazenamento de água no solo. A evapotranspiração potencial anual é de 1235,8mm, variando
entre 68,0 mm (julho) a 90,4mm (agosto) na estação seca e entre 124,3mm (dezembro) a
113,3mm (março) na estação chuvosa. A falta de água no solo começa geralmente em maio
(11,5mm) e se prolonga até o mês de setembro (66,5mm), proporcionando um total acumulado
de 220,0mm. O período de excesso vai de outubro (8,8mm) até o mês de abril (88,2mm),
acumulando um total de 817,2mm.
A Bacia do Alto Teles Pires (Unidade IIIB3), incluindo parte da Depressão de
Paranatinga, indica uma variação mais acentuada nos totais pluviométricos, entre 1.800 a
2.100mm. Esta variação se deve provavelmente à existência de áreas serranas com fortes
declives voltados para NNW, bem como as áreas rebaixadas da Depressão de Paranatinga. A
seca estacional é moderada (250 a 300mm) e abrange o período de maio a setembro. Os
excessos são de moderados a elevados (800 a 1.100mm), predominando durante 6 meses
(novembro a abril).
O balaço hídrico de Paranatinga (Gráfico 013) pode ser tomado como representativo
desta unidade climática. O total anual de evapotranspiração potencial é de 1210,6mm, sendo
que a seca estacional tem início em maio (9,3mm) e se prolonga até setembro (37,7mm). A
estação chuvosa vai de novembro (82,2 mm de excesso) e se prolongando até abril (18,9mm),
sendo o total anual de 200,5mm (Gráfico 013).
As unidades climáticas IIIB4 (Alto Coluene e Curisevo) e IIIB5 (Bacia do Couto e 7 de
Setembro), mostram uma redução dos totais anuais de pluviosidade (entre 1.600 a 1.850mm).
Isto se deve à mudança de orientação e posição das áreas abrangidas por estas unidades em
relação aos fluxos atmosféricos instáveis de Noroeste. Por outro lado, à medida que se desloca
para leste (área centro-oriental do Estado) existe uma freqüência maior dos tipos de tempo
estáveis, associados à alta sub-tropical. Esta redução dos valores pluviais, apesar de pequena é
suficiente para aumentar a intensidade estacional da seca, ficando entre 250 a 300mm (seca
moderada), ocorrendo também uma diminuição na quantidade do excesso de água, ficando
entre 550 a 1.000mm (novembro a abril).
O Planalto do Alto Rio das Mortes (Unidade IIIB6) (altitudes entre 500 a 600 metros) e
do Alto Graça (Unidade IIIB7) apresentam características climáticas muito semelhantes.
A seca estacional nesta duas unidades (IIIB6 e IIIB7) varia entre 200 a 250mm de falta
de água (no período de maio a setembro-outubro) e com um excedente hídrico moderado e 800
a 1.000mm.
A bacia do Alto Vale do Rio Araguaia (altitudes entre 400 a 600 metros) se constituem
na unidade IIIB8. A posição rebaixada em relação aos planaltos mais elevados do seu entorno
reduz os totais pluviométricos anuais para valores entre 1.600 a 1.700mm. A extensão do
período seco passa de 5 para 6 meses de seca, apesar de não ocorrer mudança nos valores
quantitativos (200 a 250mm). Desta maneira o período seco se estende de maio a outubro.
Ocorre também uma diminuição nos excedentes hídricos, ficando os totais anuais entre 700 a
800mm.
A área abrangida pelas bacias do médio Rio das Mortes e médio Rio das Garças
(altitudes entre 300 a 500 metros) encontram-se rebaixadas (em relação ao entorno) e voltadas
para ENE. Estas condições são responsáveis pela diminuição dos totais pluviométricos para
valores entre 1.400 a 1.600mm, com seca definida de maio a outubro. O grau de intensidade da
seca é de moderada a severa (250 a 350mm) com excedente hídrico de pequeno a moderado
(500 a 650mm), durante os meses de novembro a março (Mapa A021).
43
GRÁFICO 012
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA NOVA MUTUM
mm
300
Precipitação
Evaporação Potencial
Evaporação Real
Excedente Hídrico
Total - 817,2
Reposição de Água
200
Água Retirada
Deficiência Hídrica
Total - 220,0
100
0
jan
FONTE:
fev
mar
abr
mai
jun
jul
ago
set
out
nov
dez
Dados meteorológicos INEMET (1983-1994)
Lat. 13º 48’
Long. 56º 10’ Alt. 420m
GRÁFICO 013
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA PARANATINGA
mm
400
Precipitação
Evaporação Potencial
Evaporação Real
Excedente Hídrico
Total - 838,8
300
Reposição de Água
Água Retirada
Deficiência Hídrica
200
100
0
jan
fev
mar
abr
mai
jun
jul
ago
set
FONTE:
Dados meteorológicos INEMET (1983-1994)
Lat. 14º 23’ Long. 54º 13’ Alt. 470m
out
nov
dez
Total - 200,5
44
6.3.3.
O Clima Tropical de Altitude Mesotérmico Quente da Fachada Meridional das
Chapadas e Planaltos (IIIC)
Os rebordos escarpados e as fachadas meridionais das bacias dos altos cursos do
Guaporé, alto Paraguai, alto Cuiabá, alto São Lourenço e alto Itiquira-Taquari se constituem em
uma macrounidade (regional) climática, denominada como Tropical Continental de Altitude,
Meso-Térmico Quente e Úmido da Fachada Meridional das Chapadas e Planaltos (IIIC) atém do
fator estruturador altitude (entre 300 a 700 metros) este conjunto de realidades climáticas tem um
segundo fator constituído pela forte declividade e desnível altimétrico forçando o escoamento de
sul – sudeste – sudoeste a terem uma ascensão forçada, gerando aumento da instabilidade
atmosférica. Por outro lado, de forma geral, o perfil longitudinal do sistema de drenagem é de
pequena extensão e forte escoamento e energia potencial. Este aspecto é fundamental
hidroclimatologicamente para se compreender o alto impacto pluvial nos rebordos escarpados,
bem como sua influência na formação e flutuação do escoamento hídrico nas depressões e
pantanais.
Este clima regional foi subdividido em onze subunidades (IIIC1 a IIIC11), cuja
localização e descrição dos atributos pode ser visto no Mapa A021.
O rebordo escarpado da fachada sudoeste da Chapada dos Parecis voltado para
Bacia do Guaporé se constitui na Unidade IIIC1. Esta unidade com altitudes entre 300 a 600
metros mostra variações entre 1.600 a 2.000mm de pluviosidade anual média. Tratando-se,
portanto, de terras relativamente elevadas e onde as latitudes já não são tão baixas, as
deficiências hídricas são de pequenas a moderadas (200 a 250mm). Nesta unidade o período
seco sazonal costuma, em média, começar um pouco atrasado, ou seja, a partir de junho e se
prolongando até setembro. O excesso de água no solo é de moderado a elevado, com valores
entre 800 a 900mm. Um dos aspectos a ser lembrado nestas unidades do extremo sudoeste do
Estado é o efeito dos sistemas de baixa pressão continental, que permanecem semi-fixos sobre
estas regiões quase o ano todo. Este fato deve tornar estas escarpas relativamente instáveis e
mais úmidas mesmo durante o inverno austral.
O alto divisor entre as bacias do Guaporé e Jauru, com orientação geral Norte – Sul,
revela faces para leste e oeste (Unidade IIIC2). Neste caso, a localização já não favorece o
aumento local da pluviosidade, e portanto, os valores ficam um pouco mais baixos, entre 1.400 a
1.600mm, com uma seca um pouco mais intensa (250 a 300mm) e cuja duração vai de junho a
outubro (5 meses). Os excedentes são mais baixos, variando entre 600 a 700mm (Mapa A021).
O rebordo sudeste da Chapada dos Parecis, cuja área engloba a bacia do alto
Jauru-Rio Branco, se constitui na Unidade IIIC3. Os valores da pluviosidade anual média estão
entre 1.600 a 1.700mm, com 5 meses de duração do período seco (maio-junho a
setembro-outubro) e uma deficiência entre 200 a 250mm e um excedente hídrico entre 600 a
800mm. O período de duração do excedente hídrico é relativamente reduzido, iniciando-se em
dezembro-janeiro e se prolongando até abril. Estes trechos voltados para sudeste da Bacia do
Rio Branco e Jauru acusam fortes gradientes de diminuição pluvial em direção aos vales e
Depressões. Desta forma, é necessário compreender que como um dos fluxos genéticos mais
importantes vem de noroeste esta área está relativamente abrigada, pois os sistemas frontais do
escoamento meridional costumam ter uma trajetória mais para leste.
Um dos exemplos desta variação acentuada no espaço dos valores pluviais é o baixo
excedente hídrico, de apenas 282,0mm encontrado para o posto P239 (Alto Jauru – Cáceres).
No entanto, as deficiências dentro da estação seca não são elevadas, pois como já
mencionamos, existe uma regularidade um pouco maior na incidência das chuvas de inverno.
45
Parte desta explicação pode ser encontrado na trajetória mais continental dos Sistemas Frontais
de Sudoeste.
A área abrangida pela bacia do Alto Rio Sepotuba, incluindo o degrau estrutural da
Serra do Tapirapuã se constitui em uma outra Unidade Climática (IIIC4). Em virtude exatamente
da frente escarpada (subida da Serra para Tangará) foi necessário subdividir esta unidade em
duas feições IIIC4a (bacia do Alto Sepotuba) e IIIC4b (Serra do Tapirapuã).
A diferença entre estas duas feições climáticas está associada ao relevo e ao efeito
da altitude no aumento local da pluviosidade. Na bacia do Alto Sepotuba (subunidade IIIC4a) as
altitudes variam entre 300 a 600 metros e os totais pluviais de 1.900 a 2.100mm. A duração e
intensidade da seca é reduzida para 4 meses (junho a agosto), sendo de pequena a moderada
(200 a 250mm/ano).
Os excedentes hídricos são de moderados a elevados (800 a 1.000mm) no período
de outubro a abril. A Serra do Tapirapuã (subunidade IIIC4b) apresenta-se topoclimaticamente
na subida da serra, com declividades muito altas (quase uma ruptura de declive ou um paredão
quase retilíneo com desnível de 200 a 250 metros) e no topo da Serra (altitudes entre 400 a 450
metros) uma topografia suave, quase plana. Este conjunto de associações, onde temos uma
depressão (do Alto Paraguai) à jusante, com forte aquecimento diurno provoca elevada
freqüência de temporais convectivos, aumentando a pluviosidade média para valores entre 2.200
a 2.300mm. A falta de água no solo (junho a agosto) é de apenas 150 a 200mm e o excesso é
muito elevado (1.000 a 1.300mm), com duração de outubro a abril.
O rebordo sul da Chapada dos Parecis no alto Paraguai – Diamantino (Unidade IIIC5)
com altitudes entre 300 a 500 metros apresenta uma altura anual das chuvas entre 1.700 a
1.900mm. A seca estacional é relativamente curta (4 meses) durando de junho a setembro,
sendo o excedente anual moderado (600 a 900mm).
O balanço hídrico do Posto P260 (Parecis – Arenápolis) localizado próximo da
transição entre as unidades IIIC5 e IIIA1a (topos da Chapada dos Parecis) exemplifica bem as
variações mensais da disponibilidade hídrica (Gráfico 014). A reposição hídrica começa em
outubro, quando a pluviosidade mensal é superior (201,0mm) às perdas por evapotranspiração
potencial (119,9mm) mas o excedente é muito pequeno, ou seja, de apenas 8,3mm. Nos meses
de novembro o solo já está saturado e o excesso é de 117,6mm; esta condição de excesso
permanece até o mês de abril, quando então, a partir de maio se instala o processo inverso de
retirada hídrica, com uma pequena deficiência hídrica de 6,2mm. Esta situação de seca
permanece até o mês de setembro, indicando um total de 192,0mm de falta de água anual. O
excedente é elevado, com 1.069,7mm.
A Província Serrana, localizada entre as latitudes de 14 a 17ºLS e meridianos de 56 a
58ºWGr, tem na sua variação altitudinal (entre 300 a 700 metros) o controle climático mais
importante. Outro aspecto básico para o entendimento desta unidade climática é a sua
orientação (grosso modo NNE – SSW) e altas declividades. Este tipo de orientação (NNE –
SSW) deve acentuar tanto as instabilidades de noroeste (fluxos continentais) bem como forçar
levantamentos nos escoamentos de SSE (frentes e calhas associadas aos sistemas
extra-tropicais). No entanto, este tipo de evidência não pode ser constatada através dos dados
pluviométricos, já que tanto na face WNW como na SSE não existe nenhum posto com medidas.
As observações de campo, entretanto, dão suporte a este tipo de dedução, pois observamos
várias formações de nebulosidade associadas ao relevo e às faces ocidentais e sul da Província
Serrana. No entanto, as áreas mais baixas (300 – 400 metros) e localizadas na extremidade
meridional da Província Serrana devem ser mais secas do que as cristas e serras mais elevadas
(400 – 700 metros). De modo geral, através das inferências produzidas pelo mapeamento,
pode-se deduzir que: a pluviosidade anual deve variar entre 1.400 a 1.600mm, com 4 a 5 meses
46
de seca estacional (junho a setembro – outubro) e um excedente hídrico de pequeno a
moderado, entre 400 a 800mm, com duração entre outubro a abril (Mapa A021).
As serras e nascentes da bacia do Alto Rio Cuiabá (Rio Manso, Diamantino), com
altitudes variando entre 300 a 550 metros (Unidade Climática IIIC7) mostra uma variação
pluviométrica média entre 1.600 a 1.700mm, com um período de seca de inverno de 4 meses, de
junho a setembro. A deficiência hídrica varia entre 200 a 250mm por ano e o excedente é de
moderado a elevado 600 a 900mm. O contato da área Serrana e a Depressão Cuiabana é muito
abrupto e portanto, na prática, é muito difícil a delimitação das áreas mais chuvosas e mais
secas. Principalmente porque as áreas de menor pluviosidade têm também maiores perdas por
evapotranspiração potencial. Por outro lado, a baixa densidade de postos e estações não
permite uma boa amostragem de todas as realidades climáticas.
A fachada sudoeste da Chapada dos Guimarães é um imenso paredão abrupto e com
fortes rupturas de declive. Em distâncias relativamente curtas, de 4 a 10 km, temos desníveis
altimétricos de 300 a 600 metros. Este fato força uma condição climática diferenciada, com
amplitudes termo – pluviométricas muito fortes. Ao mesmo tempo, dá nascimento a um tipo de
ritmo diferenciado, no escoamento e na intensidade dos fluxos pluviais e atmosféricos.
O total médio da pluviosidade varia entre 1.700 a 2.200mm, enquanto que a
deficiência hídrica anual fica entre 200 a 250mm. A extensão do período seco estacional vai de
junho a setembro, e com um excedente hídrico de moderado a elevado, onde o total anual varia
entre 600 a 900mm.
A bacia do Alto São Lourenço e os seus afluentes principais (Rio Vermelho, Poxoréu)
se constitui em um enorme anfiteatro de terras relativamente altas (altitudes entre 300 a 700
metros) com grande variedade de formas do relevo (Unidade Climática IIIC9). Na realidade,
existe um escalonamento em níveis altimétricos bem definidos, onde as serras, os topos e
espigões divisores (com a bacia do Alto Rio das Mortes, no Chapadão de Primavera do Leste)
estão entre 500 a 700 metros, enquanto os planaltos e rampas intermediárias (chapadas, serras
e cristas) estão entre 300 a 500 metros. As altitudes abaixo de 300 metros (Depressão do Rio
Vermelho, São Lourenço na região de Rondonópolis) foram classificadas como outra unidade
(IIID4) em função do aquecimento e da maior estabilidade atmosférica.
A pluviosidade anual média varia entre 1.600 a 1.800mm, com 4 meses secos (junho
a setembro) e deficiências hídricas variando entre 150 a 250mm. O excedente hídrico médio é de
700 a 800mm, ocorrendo de novembro a abril. As áreas dos planaltos e serras do sudeste de
Mato Grosso tem como um dos controles climáticos mais importantes a posição e o
deslocamento da frente polar. É de se supor, portanto, uma irregularidade um pouco maior no
ritmo anual e sazonal da pluviosidade do que o Planalto e a Chapada dos Parecis, onde a chuva
tem um controle maior dos Sistemas Equatoriais Continentais de Norte e Noroeste.
A fachada leste do Planalto do Alto Itiquira – Taquari (altitudes entre 300 a 500
metros) se constitui num rebordo escarpado com fortes rupturas de declive e bruscas mudanças
térmicas e pluviométricas. Esta faixa de contato entre os topos e a Depressão Cuiabana
(incluindo a área abrangida pelo Pantanal Mato-grossense) se constitui em uma Unidade
Climática distinta, aqui denominada IIIC10. A principal característica desta realidade climática é
de instabilizar as colunas de ar quente e relativamente mais secos provenientes de oeste e
sudoeste. Desta forma, os totais pluviométricos variam entre 1.600 a 1.700mm (média 1983 –
1994), o período seco é geralmente concentrado de junho a setembro e os excedentes hídricos
devem acompanhar o gradiente altitudinal da escarpa. Nas áreas mais elevadas deve oscilar
entre 800 a 900mm, enquanto nas áreas mais baixas e próximas das baixadas e depressões
deve cair para valores entre 500 a 600mm por ano (Mapa A021).
47
A fachada sudoeste do Planalto do Alto Taquari (altitudes entre 300 a 600 metros)
indica ser uma das áreas com menor deficiência hídrica anual, com valores entre 150 a 150mm,
se constituindo portanto em uma outra unidade climática (IIIC11). As descontinuidades de SSE
associadas ao escoamento troposférico extra-tropical deve agir com maior intensidade e
freqüência nesta realidade climática, principalmente por se tratar também da área com a latitude
mais alta do Estado (17 a 18ºLS). A seca estacional é de 4 meses, com duração entre junho a
setembro e o período com excesso de água no solo é de novembro a abril, proporcionando um
total de 800 a 900mm (Mapa A021).
GRÁFICO 014
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA PARECIS
mm
400
Precipitação
Evaporação Potencial
Evaporação Real
Excedente Hídrico - Total - 1069,7
300
Reposição de Água
Água Retirada
Deficiência Hídrica - Total - 192,0
200
100
0
jan
fev
mar
abr
mai
jun
jul
ago
set
out
nov
dez
FONTE:
Dados meteorológicos INEMET (1983-1994)
Lat. 14º 09’
Long. 56º 56’ Alt. 448m
6.3.4.
O Clima Tropical Megatérmico Úmido dos Baixos Planaltos e Depressões de Mato
Grosso (IIID)
Os baixos planaltos (Jauru – Rio Branco, e da Bacia do Rio Vermelho – São Lourenço)
e as Depressões do Guaporé, alto Paraguai e alto Cuiabá se constitui numa área onde o “efeito
de descida” da coluna de ar provoca uma diminuição considerável nos totais de chuva. Por outro
lado, tratando-se de superfícies com altitude baixa (150 a 300 metros) e quase sempre planas ou
com o relevo suave de colinas amplas, dá origem a uma condição de elevado aquecimento do
solo, e por conseqüência dos fortíssimos aquecimentos da camada de ar próxima da superfície.
Por esta razão, estas realidades climáticas foram denominadas de megatérmicas. De forma
geral, a temperatura média anual é superior a 25,0ºC, enquanto que as máximas estão quase
sempre entre 31,5 a 32,5ºC (média anual). Os totais pluviométricos caem para valores entre
1.400 a 1.600mm e as deficiências hídricas se tornam de moderadas a severas. Ocorre também
de forma generalizada nestas unidades (IIID) uma diminuição nos excedentes hídricos, variando
entre 200 a 600mm, de pequeno a moderado excesso.
A Depressão do Guaporé, localizada no extremo sudoeste do Estado de Mato Grosso,
guarda certas características climáticas específicas deste espaço climático. Uma delas é estar
48
quase sempre sob a atuação dos Sistema Depressionários Continentais. Este fato atenua de
certa forma a redução da pluviosidade, que seria de se esperar em função da posição topográfica
muito deprimida (rebaixada em relação ao entorno). As baixas pressões continentais favorecem
o levantamento e provocam temporais, principalmente quando são dinamizados pela
aproximação da frente polar. Outro aspecto interessante é um ligeiro aumento das chuvas de
outono – inverno, o que faz com que a seca estacional não seja tão intensa quanto em outras
áreas rebaixadas, como por exemplo o Pantanal. Na realidade, o maior redutor de
disponibilidade hídrica ocorre na própria estação chuvosa.
Esta Unidade Climática (IIID) foi subdividida em duas feições, a primeira delas com
altitudes entre 200 a 300 metros (IIIDa) e a outra correspondente aos Pantanais do Guaporé,
onde as altitudes variam entre 150 a 200 metros.
Na feição IIIDa o total pluviométrico anual varia entre 1.400 a 1.600 metros, com uma
duração de 5 meses do período seco, entre junho e outubro. O excedente hídrico anual varia
entre 400 a 600 mm, iniciando-se com um atraso em relação às outras realidades climáticas do
Estado; em termos médios ele começa em dezembro – janeiro e se prolonga até o mês de abril.
A feição IIID1b (Planície do Guaporé) tem totais pluviométricos entre 1.400 a 1.500 mm, no
entanto, a deficiência hídrica anual é mais elevada e tem uma duração do período seco de 6
meses, ou seja, entre maio a outubro, muito embora a intensidade não seja tão elevada (250 a
300mm) que na Unidade anterior, variando entre 250 a 300 mm; o excesso de água no solo é
reduzido a apenas um total anual de 300 a 400mm, durando 4 meses. O balanço hídrico da Vila
Bela da Santíssima Trindade (antiga Mato Grosso) – (Gráfico 015), a uma altitude de 240 metros)
demonstra a variação mensal dos principais atributos climáticos nesta unidade. A perda máxima
por evapotranspiração é de 1.339,5mm enquanto que o total anual da pluviosidade é de
1.436,0mm. A redução dos totais pluviométricos é de maio (51,0mm) até outubro (94,0mm), ou
seja, um longo período de meses com retirada hídrica, no entanto em todos os meses de outono
– inverno (maio – outubro) existe reposição. Este fato atenua a intensidade local da seca que é
de 223,8mm. Na realidade a diminuição mais atenuada ocorre nos totais pluviométricos dentro
do período chuvoso, quando as perdas por evapotranspiração são quase equivalentes aos totais
pluviais, reduzindo consequentemente os valores de excesso hídrico anual, que é de apenas
300 a 400mm. (Gráfico 015).
49
GRÁFICO 015
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA V. B. DA SANTÍSSIMA TRINDADE
mm
300
Precipitação
Evaporação Potencial
Evaporação Real
Excedente Hídrico -Total - 320,3
Reposição de Água
200
Água Retirada
Deficiência Hídrica -Total - 223,8
100
0
jan
FONTE:
fev
mar
abr
mai
jun
jul
ago
set
out
nov
dez
Dados meteorológicos INEMET (1983-1994)
Lat. 15º 00’
Long. 59º 58’ Alt. 240m
Os baixos Planaltos do Médio Jauru – Rio Branco e a parte Norte da Depressão do Alto
Paraguai (altitudes entre 200 a 300 metros) formam uma Unidade Climática denominada IIID2a e
IIID2b (respectivamente). Estas duas feições climáticas tem no forte aquecimento (temperaturas
médias anuais entre 24,4 a 25,0º) uma propriedade muito importante. A diferença entre as duas
feições climáticas é que o trecho norte da bacia do Alto Paraguai tem uma intensidade
pluviométrica um pouco superior, variando a média anual entre1.600 a 1.800mm, enquanto nos
baixos planaltos do médio Jauru os valores médio caem para 1.400 a 1.600mm. No entanto, em
termos de falta de água na estação seca, ambas possuem praticamente a mesma condição, ou
seja, com a deficiência hídrica anual entre 200 a 300mm. A região do Alto Paraguai (Unidade
IIID2a) tem um excedente hídrico de pequeno a moderado, com valores entre 400 a 600mm,
enquanto que na Unidade IIID2b (baixos Planaltos do Médio Jauru – Rio Branco) já ocorre uma
redução um pouco maior, entre 300 a 500mm.
As áreas baixas (altitudes entre 160 a 300 metros) da Depressão do alto Cuiabá,
formada por colinas, vales e superfícies planas a sub-planas formam um conjunto quase
uniforme do ponto de vista climático. Na realidade, as principais ocorre (grosso modo) no sentido
Norte – Sul ou de montante para jusante na bacia./ As áreas a montante da cidade de Cuiabá, e
portanto mais próximas das áreas serranas, parecem ser ou sofrer maior instabilidade, sendo os
totais anuais um pouco mais elevados, entre 1.400 até 1.600mm de total anual médio (Unidade
IIID3a). A medida que descemos topograficamente para o vale do Rio Cuiabá (altitude entre 160
a 200 metros) e portanto dentro de uma outra feição climática (Unidade IIID3b), ocorre um
aquecimento maior e através dos processos de compressão adiabática, um maior ressecamento
e neste caso os totais pluviométricos ficam entre 1.400 a 1.500. A incidência de seca dura 6
meses, de maio a outubro, e com uma intensidade de moderada a severa (300 a 350 mm). Os
excedentes hídricos diminuem em volume (200 a 400mm) e já podem ser considerados
relativamente pequenos dentro da realidade do Estado como um todo. Ao sul de Cuiabá se
constitui uma faixa de transição climática para a nova realidade que é o Pantanal. Esta Unidade
50
(IIID3c) tem algumas áreas um pouco mais elevadas nas proximidades da faixa central do lado
oriental da Província Serrana. Este conjunto, um pouco mais elevado é formado pelas nascentes
dos rios formadores do Rio Cuiabá. Nesta unidade (IIID3c) o total anual médio de chuva oscila
entre 1.300 a 1.400mm, com seis meses de seca, e deficiências hídricas de moderadas a
severas (300 a 350mm). O período de excesso de água no solo é bastante curto, ou seja, de
janeiro a março, com um total de 200 a 400mm.
O balanço hídrico do posto meteorológico de Cuiabá (altitude de 151 metros)
representado no Gráfico 016 indica que:

As perdas por evapotranspiração real são de 1.277,3mm;

O período com os solos saturados e de máximo armazenamento vai de janeiro a
abril;

A retirada hídrica (EP>P) dura seis meses, se estendendo de maio a outubro;

O acúmulo anual de excedente hídrico é de apenas 224,7mm.
Quando comparamos o excedente do posto de Cuiabá com aquele de Rosário do
Oeste, localizado na mesma unidade climática, percebe-se que o excesso neste último é ainda
menor ou seja, de apenas 146,4mm.
Nas regiões baixas e deprimidas dos vales dos rios Vermelho e São Lourenço com um
relevo de colinas amplas e largos espigões, insere-se a Unidade Climática IIID4. Esta região,
onde está localizada a cidade de Rondonópolis (altitude entre 180 a 300 metros) possui uma
condição climática tropical megatérmica úmida, com seca definida de 5 meses, de maio a
setembro. A deficiência hídrica é moderada (250 a 300mm) e o excedente anual é de pequeno a
moderado (400 a 600mm).
A estimativa das perdas de água superficial na região de Rondonópolis (Posto
Meteorológico da UFMT) indicam um máximo mensal de 137,7mm (dezembro) e um mínimo de
63,5 em julho. O período com retirada hídrica começa em abril, quando a evapotranspiração
supera o total mensal de chuva em 22,3mm. Este período com armazenamento hídrico baixo, e
com deficiência hídrica se prolonga até o mês de outubro. No entanto, abril e outubro têm
deficiências muito pequenas, de apenas 3,0 e 5,9mm respectivamente; muito embora em anos
com distribuição irregular ou com tendência à seca, o período seco possa se prolongar por 6 ou
até 7 meses. O excedente hídrico desta unidade climática (IIID4) é de pequeno ao moderado,
com um total de 402,1mm (Gráfico 017).
51
GRÁFICO 016
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA CUIABÁ
mm
300
Precipitação
Evaporação Potencial
Evaporação Real
Excedente Hídrico-Total - 224,7
Reposição de Água
200
Água Retirada
Deficiência Hídrica-Total - 266,1
100
0
jan
FONTE:
fev
mar
abr
mai
jun
jul
ago
set
Dados meteorológicos INEMET (1983-1994)
Lat. 15º 36’
Long. 56º 06’ Alt. 151m
out
nov
dez
52
GRÁFICO 017
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA RONDONÓPOLIS
mm
300
Precipitação
Evaporação Potencial
Evaporação Real
Excedente Hídrico-Total - 402,1
Reposição de Água
200
Água Retirada
Deficiência Hídrica-Total-218,2
100
0
jan
fev
mar
abr
mai
jun
jul
ago
set
out
FONTE: Dados meteorológicos INEMET (1983-1994)
Lat. 16º 27’ Long. 54º 34’ Alt. 280m
nov
dez
53
6.3.5.
O Clima Tropical Megatérmico Sub-Úmido das Depressões e Pantanais de Mato
Grosso (IIIE)
Existe no território do Estado de Mato Grosso um conjunto de terras baixas (entre 80 a
300 metros) fortemente circundadas por relevos e topografias mais elevadas (entre 300 a 600
metros). Este caráter de descida forçada das principais correntes e descontinuidades
atmosféricas dá origem a Unidades Climáticas Sub-Úmidas, aqui denominadas IIIE. Estas
realidades climáticas são áreas fortemente aquecidas em função das altitudes muito baixas (a
maioria delas com altitudes inferiores a 200 metros) e também por serem muito planas, ou seja,
depressões ou planícies sazonalmente inundáveis.
Do forte aquecimento superficial resulta em elevadas perdas por evapotranspiração,
aumentando a deficiência hídrica sazonal e diminuindo também o volume de água excedente na
estação chuvosa. Desta forma, as Unidades Megatérmicas Sub-úmidas foram assim
consideradas por possuírem seca severa e excedente pequeno a moderado.
O setor centro meridional da Depressão do Alto Paraguai (altitudes entre 100 a 200
metros) com totais anuais de 1.300 a 1.400mm, e com praticamente 8 meses de seca (Unidade
IIIE1) e uma deficiência hídrica de 300 a 350mm (abril a novembro) e com um excedente de 300
a 400mm, ocorrendo nos meses de janeiro a março, se constitui em um clima local diferenciado.
É importante salientar que qualquer oscilação climática de meso e macroescala será suficiente
para provocar ou atingir os limites das necessidades para abastecer o solo e a demanda de água
para as atividades sócio-econômicas em geral, dada a pequena diferença entre a condição
habitual, tendendo a falta e a demanda de água que quase sempre é crescente para os múltiplos
usos que a sociedade dela faz.
A Depressão do médio Rio Cuiabá (ao Sul do paralelo 16ºLS) com altitudes inferiores a
200 metros, mostra um gradiente de diminuição da pluviosidade de norte para sul, em direção
aos limites meridionais do Estado. Esta unidade que abrange a área dos Pantanais, da
confluência dos Rios São Lourenço, Taquari, Cuiabá e Paraguai, se constitui na unidade
climática mais seca do Estado. Nesta condição, o período com deficiência hídrica (7 a 8 meses),
com início em abril e se prolongando até outubro – novembro. As principais diferenças entre as
Unidades IIIE2 e IIIE3 é com relação ao total anual da chuva, sendo a segunda mais seca (1.100
a 1.300mm), enquanto que na primeira os valores ficam um pouco mais elevados, entre 1.300 a
1.400mm. Esta diferença, aliada à situação topográfica mais baixa da Unidade IIIE3, faz com que
as perdas de água sejam maiores, reduzindo ainda mais os excedentes hídricos, cuja
disponibilidade, portanto, a nível local do Pantanal Mato-grossense é de apenas 100 a 200mm.
O balanço hídrico de Porto Cercado, no Município de Poconé e (Gráfico 018), com um
total anual de 1.352,0mm de chuva e com uma perda máxima anual de evapotranspiração (EP)
de 1.451,4mm, indica um longo período de 7 meses com retirada hídrica (abril a outubro). Neste
período o déficit acumulado é de 305,7mm; o excedente hídrico é pequeno (206,3mm) e tem uma
duração de apenas 4 meses, sendo que em dezembro o excedente é de apenas 14,0mm e em
março é de 32,4mm.
Esta condição de pequeno excedente de água a nível local se repete em vários outros
pontos de amostragem do Pantanal. Por exemplo em Córrego Grande (Sto. Antônio do Leveger)
o excedente médio é de apenas 171,4mm, e em Orion (Posto P398 – no município de Cáceres) o
excesso é de apenas 54,2mm, com reposição hídrica suficiente para saturar os solos durante
apenas os meses de janeiro e fevereiro. Esta característica do balanço de água, com excesso
muito reduzido, aumenta sobremaneira a importância da água que chega (nas depressões e
pantanais) através do escoamento superficial (fluvial principalmente) e do escoamento
54
subterrâneo, como uma fonte alternativa de recurso hídrico nos anos com desvios negativos da
pluviosidade.
A localização da Depressão do Rio Araguaia (incluindo toda a confluência com o
Pantanal do Rio das Mortes) na faixa oriental do Estado (maior freqüência dos sistemas
atmosféricos estáveis associado à alta subtropical) e em posição de relevo rebaixada provoca
uma forte redução dos totais pluviométricos (1.400 a 1.600mm). Esta realidade climática
(Unidade IIIe4a, IIIE4b e IIIE4c) apesar de pequenas diferenças locais, têm como propriedade
básica uma seca muito severa de outono – inverno (350 a 450mm de total anual) e um excedente
hídrico moderado (500 a 800mm) na estação chuvosa de novembro a abril. Esta macrounidade
climática tem diferenças locais introduzidas pela grande variação latitudinal (11 a 16ºLS) e pela
altitude. Assim sendo, hierarquizou-se três níveis de organização climática, o primeiro deles
corresponde a uma faixa intermediária de altitude, entre 200 a 300 metros, que denominamos
Unidade III4a (Depressão do Alto e Médio Araguaia). A segunda subunidade ficou envolvendo
toda a planície inundável entre o Rio das Mortes e Planície do Bananal até a altura da cidade de
São Félix do Araguaia. Nesta unidade as altitudes variam entre 160 a 200 metros. A terceira
subunidade (IIIE4c) está localizada na transição para a bacia do Rio Xingu, ou seja, abrange os
baixos planaltos e alongados espigões e serras baixas onde a variação altitudinal é de 300 a 350
metros.
A Unidade IIIEa (Depressão do alto e médio Araguaia) é a que indica menor valor da
pluviosidade média anual, com valores entre 1.400 a 1.600mm.
GRÁFICO 018
BALANÇO HÍDRICO MÉDIO PARA PORTO CERCADO
mm
300
Precipitação
Evaporação Potencial
Evaporação Real
Excedente Hídrico-Total - 206,3
Reposição de Água
200
Água Retirada
Deficiência Hídrica-Total - 305,7
100
0
jan
FONTE:
fev
mar
abr
mai
jun
jul
ago
set
Dados meteorológicos INEMET (1983-1994)
Lat. 18º 31’
Long. 56º 23’ Alt. 119m
out
nov
dez
55
6.3.6.
O Clima Tropical Continental Úmido de Altitude das Serras e Maciços Isolados (IIIF)
Na bacia drenada pelo Rio Guaporé existe três unidades de relevo que se destacam na
paisagem. Eles se constituem em maciços residuais, com sistemas de vertentes de alta
declividade e altitude elevada, entre 300 a 900 metros. Apesar de não se contar com estações
meteorológicas localizadas nestes sítios, é evidente que estes espaços se constituem em
unidade climáticas diferenciadas em função da altitude. Este conjunto de terras altas e serranas
foram designadas de Climas Tropicais Continentais Úmidos de Altitude (Unidades IIIF1, F2, F3).
A subunidade IIIF1 (Serra Ricardo Franco) deve receber um total médio anual de
pluviosidade entre 1.600 a 1.900mm. Os topos do maciço são áreas relativamente frias (altitudes
superiores a 700 metros) onde as temperaturas médias anuais ficam entre 22,0 e 21,0ºC; este
fato ressalta portanto a ocorrência de Climas Tropicais Continentais Mesotérmicos de altitude.
Nestas condições o período seco deve ficar reduzido a 3 a 4 meses, ou seja, de junho. O total
anual de deficiência hídrica deve variar entre 100 a 300mm, e o excedente hídrico deve ser de
moderado a elevado (600 a 800mm), com duração de novembro a abril.
A serra de São Vicente, localizada próximo da fachada sudoeste da Chapada dos
Parecis, dentro da Bacia do Rio Guaporé se constitui em outra unidade climática (IIIF2). A
orientação deste rebordo escarpado é de noroeste – sudeste, com altitudes entre 300 a 700
metros. Este tipo de orientação deve favorecer e intensificar as instabilidades associadas às
baixas continentais. A pluviosidade média anual, estimada através do mapeamento, indica uma
variação entre 1.700 a 1.800mm, com 4 a 5 meses de seca estacional, entre junho – outubro. O
período de máximo armazenamento de água no solo ocorre de dezembro a abril, totalizando 600
a 800mm.
A extremidade sul do divisor principal entre a Bacia do Guaporé e do Rio Paraguai
envolve um maciço com altitudes elevadas (300 a 900 metros) localmente denominado como
Serra de Santa Bárbara. Esta área possui uma identidade diferenciada dentro dos climas
regionais, o fator altitude, as encostas escarpadas e a localização no extremo sudoeste do
Estado de Mato Grosso são os traços essenciais deste clima local Tropical Continental Úmido de
altitude (Unidade IIIF3). O total pluviométrico médio anual deve variar entre 1.600 a 1.900mm,
com um período de seca estacional de 4 a 5 meses, e onde a intensidade das deficiências
hídricas deve variar entre 100 a 300 metros. A intensidade da seca deve ser mais acentuada de
junho a setembro. O excesso de água no solo deve ser máximo no período de novembro a abril,
oscilando entre 600 a 800mm (excesso moderado).
A última unidade climática (IIIF4) identificada como um maciço isolado é o da Serra da
Estrela. Esta unidade topoclimática fica localizada no trecho meridional da Depressão do Médio
Araguaia. Destaca-se sobretudo na paisagem pela diferenciação altitudinal (300 a 800 metros) já
que o nível de base geral da Depressão do Araguaia neste local varia entre 300 a 350 metros.
Torna-se portanto, um clima Tropical Continental Úmido de Altitude, intensificando nas suas
encostas com alta declividade, os processos de descompressão adiabática e aumentando os
valores de pluviosidade. Desta maneira, os totais anuais devem girar entre 1.500 a 1.800mm. O
período seco é de junho a setembro, com uma intensidade de 100 a 300mm de deficiência
hídrica. O armazenamento hídrico é máximo no período de outubro a abril, com um excedente de
600 a 800mm por ano.
56
7.
CONCLUSÕES
A metodologia empregada, cruzando e criticando o acervo de informações
climatológicas com as observações de campo se mostraram satisfatórias, produzindo
mapeamentos e representações cartográficas ajustadas à realidade cartográfica.
O trabalho de campo realizado incorporou e ajudou no entendimento das relações
entre os atributos e os controles climáticos, e sobretudo na síntese e delimitação espacial das 60
Unidades e Subunidades Climáticas do Estado de Mato Grosso (Mapa A0021).
A crítica e a uniformização da série mensal dos dados pluviométricos utilizados com
consistência, substituição das falhas e homogeinização da série temporal (1983-1994) se
revelou um procedimento essencial nos mapeamentos dos atributos na escala 1:1.500.000.
A análise de regressão múltipla, empregada para estimar as temperaturas médias, e
máximas, em função da latitude e altitude, mostrou correlação significativa, permitindo estimar o
balanço hídrico para todos os postos pluviométricos do Estado de Mato Grosso e do seu entorno
(limites com os Estados do Amazonas, Pará, Goiás, Rondônia e Mato Grosso do Sul).
Os resultados obtidos com a estimativa do balanço hídrico (com capacidade de campo
de 75mm) indicou uma distribuição espacial das deficiências e excedentes hídricos, com elevada
correlação com a estrutura genética do Clima associada aos padrões de circulação atmosférica,
tanto na estação seca quanto na chuvosa.
A análise de regressão múltipla, entre os controles climáticos latitude e altitude e a
variação da temperatura média das mínimas mostrou valores estatisticamente válidos para as
médias anuais; mas face à forte influência da localização das estações meteorológicas, os
desvios entre os valores observados e aqueles estimados são elevados. Do ponto de vista
regional a estimativa da temperatura média das mínimas (para o mapeamento na escala
1:1.500.000) é perfeitamente válida, no entanto para estimativas à nível local podem aparecer
desvios muito elevados, sendo preferível aplicar fatores de correção baseados nos dados
observados.
Comparando-se os resultados deste Diagnóstico (mapeamentos e síntese na escala
1:1.500.000) com o estado de conhecimento no início deste projeto (conforme análise crítica
constante do relatório de Climatologia – SEPLAN, 1997), fica evidente um significativo avanço.
Principalmente quanto à resolução temporal e espacial dos mapeamentos. Por outro lado, a
representatividade cartográfica, aliada a uma descrição/delimitação e delimitação dos atributos e
controles climáticos amarrados às principais bacias e sub-bacias hidrográficas, bem como às
principais unidades do relevo, criou um conjunto de 60 polígonos, com enorme facilidade de
integração dentro de um Sistema de Informação Geográfica. É de se supor que este conjunto de
unidades, subunidades e feições climáticas sejam a base para um sistema permanente de
arquivo, gerenciamento e disponibilização de informações sobre os recursos climáticos do
Estado de Mato Grosso. A sua revisão e atualização permanente facilitará enormemente a
tomada de decisões pelo poder público, sobre questões essenciais do planejamento agrícola e
urbano do território, dentro do tema recursos hídricos e climáticos do Estado.
Em termos de uma síntese referente ao conhecimento específico das realidades
climáticas do Estado alcançadas por este diagnóstico pode-se concluir que:
57
A larga extensão territorial do Estado de Mato Grosso lhe confere uma grande
diversidade de tipos climáticos associados às latitudes equatoriais continentais e tropicais na
porção central do continente Sul Americano. Apesar do forte aquecimento pela posição latitudinal
ocupada pelo seu território, a oferta pluvial é relativamente elevada. Os valores médios
encontrados para a série 1983-1994 revelam totais quase sempre superiores a 1.500mm anuais;
apenas em áreas deprimidas e rebaixadas topograficamente encontram-se valores entre 1.300 a
1.400mm. Portanto o suprimento hídrico através da pluviosidade supera na maior parte do seu
espaço geográfico as perdas por evapotranspiração potencial. Um dos fatos que reforça a
potencialidade hídrica do Estado é o ritmo sazonal com acentuada regularidade. Explicando
melhor, a seqüência de períodos secos e chuvosos de forma alternada mostra a nível anual um
ritmo relativamente regular, onde a intensidade da deficiência hídrica quase sempre ocorre de
maio a setembro e onde o esperado período chuvoso tem uma duração média de novembro a
março. Portanto, existe uma estação de crescimento vegetativo com ótimo suprimento de luz,
calor e água para a maioria do território de Mato Grosso. No entanto, algumas macrounidades
climáticas regionais necessitam de cuidados especiais no manejo e na utilização dos recursos
climáticos.
A primeira delas é o conjunto de Unidades Climáticas Equatoriais Continentais Úmidas
com estação seca definida (Unidades I e II do Mapa A0021). O processo genético de formação
das chuvas nesta realidade climática está ligado aos processos convectivos de larga escala, mas
regionalmente encontram-se intimamente associados às propriedades da superfície, ou seja, às
áreas originalmente revestidas com diferentes fisionomias de Floresta Amazônica. Portanto, a
retirada da Floresta implica em alterações micro, topo e do clima local, principalmente em termos
de armazenamento e disponibilidade hídrica. Portanto, a cobertura vegetal (principalmente em
áreas de solos pobres) implica necessariamente numa mudança radical no processo de
recepção e velocidade do fluxo de águas junto ao solo, podendo erodir rapidamente a camada
que retém a maior parte dos nutrientes do solo (TARIFA, 1994).
Outro indício de alteração climática em curso é o aumento das áreas ocupadas e
invadidas pelo Babaçu no Estado de Mato Grosso. Na realidade, o babaçu representa um
“ecótono” que convive naturalmente com a Floresta Equatorial. A retirada da floresta
(principalmente através de queimadas) implica num aumento de luminosidade, que por sua vez
acarreta um ótimo de condições ambientais para a proliferação do babaçu, principalmente nos
solos pobres. Não seria este fato um indício de alteração climática em curso? Provavelmente
sim, principalmente se se considerar que estes fatos vem de há muito extrapolando os limites de
ocorrências locais ou isoladas; praticamente em toda a borda leste, meridional e ocidental da
Amazônia o avanço das formações abertas da Amazônia é um fato. Extensas áreas nas
Unidades Climáticas Equatoriais de Mato Grosso mostram esse tipo de alteração na paisagem.
As pastagens ou formações abertas (mata de cocais ou palmeiras) implicam numa mudança
radical no ritmo climático, aumenta a velocidade do escoamento, o impacto erosivo e diminui o
tempo de residência da água nos vários compartimentos na interface solo-planta-atmosfera.
Resta considerar que a disponibilidade de energia para o aquecimento do solo e para as perdas
por evapotranspiração são muito elevadas o ano todo. Deste balanço deve resultar um
progressivo ressecamento dos recursos hídricos superficiais, diminuindo o armazenamento e os
excedentes e aumentando e prolongando a duração da seca.
A macrounidade climática regional denominada “Clima Tropical Continental
Alternadamente Úmido e Seco das Chapadas, Planaltos e Depressões” (Unidade III – Mapa
A021) comporta uma extensa variedade de tipo climáticos associados basicamente à forma e
orientação do relevo. Do ponto de vista da vegetação, é o domínio de diversas fisionomias de
cerrado, enquanto o ritmo climático é caracterizado por uma marcante sazonalidade. A extensão
e duração (tanto da estação seca como da chuvosa) está muito ligado ao fator altitude e à forma
do relevo.
58
Os topos de cimeira dos extensos chapadões (altitudes entre 600 a 900 metros) são os
que apresentam as menores deficiências hídricas, enquanto que as baixadas e depressões são
as unidades com os menores excedentes e as maiores deficiências hídricas. Torna-se, portanto,
importante mostrar as conexões entre estas unidades climáticas, ou seja, uma interação entre o
que ocorre nos topos e espigões elevados e o escoamento hídrico resultante nas baixadas e
depressões. As depressões (Alto Paraguai, Alto Cuiabá, Guaporé e Médio Araguaia) e o
Pantanal de Mato Grosso são unidades climáticas com tendência a moderada e severa seca. Por
outro lado, é evidente na análise dos excedentes hídricos uma diminuição substancial nos totais
anuais. As áreas mais críticas são as unidades climáticas consideradas sub-úmidas (IIIE1 a
IIIE4), não apenas por apresentarem valores mais elevados de deficiência hídrica e possuírem
uma redução nos volumes de excesso de água, mas também por possuírem um ritmo mais
próximo do limite determinado pelo uso através das atividades agronômicas e sócio-econômicas,
ou seja, a diferença entre a demanda do recurso hídrico e a oferta através dos insumos pluviais é
muito pequena, e qualquer variabilidade ou mudança de ritmo estacional (por exemplo o
prolongamento da estação seca até novembro ou início de dezembro) será capaz de produzir
danos e prejuízos de magnitude elevada. Desta forma, como nestas situações, as baixadas e
depressões dependem do escoamento superficial e fluvial, é fundamental preservar e controlar o
ritmo do escoamento pluvial nas nascentes e altos cursos dos rios que nascem nos rebordos
escarpados dos Planaltos e Chapadas. As observações de campo demonstram para a grande
maioria das Unidades Climáticas ocupadas nos altos chapadões com produção de grãos (soja,
milho, algodão) não preservou as nascentes com a vegetação natural. Considerando que estes
rebordos e faces escarpadas recebem altos totais pluviais (entre 1.800 a 2.400mm) os processos
erosivos e a velocidade do escoamento devem ter sido substancialmente alterados. Desta forma
estas alterações devem também se produzir nos pantanais e depressões.
A elaboração do Mapa A022 - Potencial Agroclimático, resultou da aplicação de
critérios de ponderação às unidades climáticas. O cruzamento entre as características
individuais de cada unidade, com uma composição (somatória) encontrada pelo grau de risco
climático, a que a atividade agrícola está submetida, permitiu classificar regionalmente o
potencial agroclimático. Torna-se, entretanto, importante esclarecer que se trata de uma
potencialidade baseada apenas na oferta atmosférica do clima, em termos de grau de
aquecimento (temperatura e evapotranspiração potencial), disponibilidade hídrica (intensidade
da seca e do excedente hídrico) e duração média da estação chuvosa ou de crescimento
vegetativo para os cultivos.
Os parâmetros utilizados (temperatura média, deficiência hídrica, excedente hídrico e
duração em dias da estação de crescimento) são aqueles disponíveis e que mantém maior poder
de explicação em relação ao desenvolvimento e produtividade agrícola tropical e equatorial.
Assim sendo, as variáveis agroclimáticas, foram classificadas em três níveis ou graus (ranking)
de ponderação. Ao primeiro grau foi atribuído o peso 1., ou seja uma potencialidade baixa, ou
restrita, havendo limitações ao conjunto de todos os cultivos ou um risco por falta ou excesso do
fator térmico ou hídrico. O segundo grau, considerado como um potencial individual médio, foi
atribuído a ponderação (2), em relação aos mesmos fatores (térmicos, hídricos e duração do
período chuvoso). O terceiro grau, é aquele que define a máxima potencialidade, tendo sido
atribuído o valor (3). Após a análise detalhada sobre o conhecimento de cada unidade climática,
os pesos individuais foram somados, alcançando-se assim, o potencial agroclimático agregado,
cujos valores (resultantes da somatória) oscilaram entre 4 a 12.
Finalmente, foi organizada uma nova classificação, ou seja, as unidades com total
igual ou superior a 10 foram consideradas como tendo um ótimo potencial agroclimático; com
valores entre 7 a 9 o potencial foi considerado bom, na faixa de valores 5 e 6 o potencial
agroclimático é médio e igual ou inferior a 4 o potencial é baixo. Na legenda do Mapa A022,
encontra-se um quadro com as unidades climáticas, bem como os pesos individuais atribuídos a
cada variável, e a classificação final resultante.
59
As unidades climáticas I (A, B, C, D) Clima Equatorial Continental Úmido com estação
seca definida, indica como propriedade fundamental, o elevado excedente hídrico (>1.000mm),
associado à temperaturas elevadas (entre 24,4 a 26,0°C) quase o ano todo. Nestas condições
climáticas regionais, a maior potencialidade agrícola, está associada à exploração e uso
sustentado da floresta. O emergente biomercado e as ofertas do conhecimento cultural da
biodiversidade surgem como possibilidade para novos materiais, medicamentos, princípios
ativos, alimentos, perfumes, conservantes, adoçantes, sal vegetal, variedades de plantas,
sementes, pesticidas orgânicos e frutas (NOVAES,1999 - citado por LEONEL M., 2000).
Estas são algumas das razões para não se derrubar a floresta Amazônica, além de
outras associadas às possibilidades de mudanças no clima local e regional (já discutidas no
relatório técnico). Além de preservar incondicionalmente as florestas desta Unidade Climática, é
urgente recuperar as áreas microclimaticamente degradadas, por queimadas e uso agrícola em
solos pobres e sem manejo capaz de manter a produtividade, estão abandonadas, ou com
rentabilidade econômica, biológica e social muito baixa.
A Unidade Climática II (clima Subequatorial Úmido Continental do Planalto dos
Parecis) indica uma potencialidade agroclimática boa. Os excedentes hídricos variam entre 800
a 1.000mm, muito embora as deficiências sejam mais elevadas, oscilando entre 250 a 350mm. O
período da estação de crescimento é de 200 a 220 dias, o que demonstra condições plenas de
umidade disponível. Considerando-se ainda, tratar-se de uma unidade climática, com extensas
superfícies cobertas com mata, é importante manter o mesmo tipo de preocupação em não
permitir novas derrubadas ou queimadas, usando neste caso os mesmos argumentos já
ressaltados para a Unidade I.
Em termos de regularidade climática as subunidades localizadas na Bacia do Rio
Xingu (IIB1 e IIB2 do Mapa A021), indicam um ritmo menos constante do que aquelas localizadas
no extremo oeste (IIA) no médio Arinos e Rio do Sangue. Isto leva a uma conclusão de que
mesmo esta unidade, pode apresentar em poucos anos de uso agrícola sob manejo inadequado,
uma rápida degradação na retenção e na disponibilidade hídrica.
A macrounidade regional III (tropical Continental alternadamente úmido e seco das
Chapadas, Planaltos e Depressões) é aquela que resultou nos maiores valores agregados do
Potencial Agroclimático. No entanto, foi necessário subdividir a realidade em unidades
fundamentalmente controladas pelo relevo (orientação e forma) e pela altitude. Assim sendo, o
maior valor alcançado foi obtido pela subunidade IIIA (mesotérmico dos topos de cimeira dos
chapadões); correspondendo às altitudes planas à subplanas entre 600 a 900 metros da
Chapada dos Parecis, Chapada dos Guimarães e dos Chapadões do Planalto do Taquari e Alto
Araguaia. Estas áreas, apresentam a maior potencialidade agroclimática por permitirem maior
abrangência ou diversificação da atividade agrícola. São nestes chapadões, que se concentra
hoje a maior parte da produção de grãos do Estado de Mato Grosso. No entanto, as observações
de campo, mostraram que é possível uma ampliação grande do espectro de cultivos, por
exemplo a produção comercial de frutas (uva, maracujá) usando irrigação nos municípios de
Primavera do Leste e Campo Verde. Esse fato, pode resultar num arranjo agrário com maior
sincronicidade com o mercado interno, e não dependente apenas do mercado externo como a
soja.
Além da fruticultura estes chapadões teriam também, segundo experimentos em áreas
tropicais, condições para usando parcialmente a irrigação, em meses de inverno, produzir trigo
ou outros cultivos mais exigentes em termos de temperaturas mais amenas.
Os climas mesotérmicos quentes e úmidos da fachada meridional dos planaltos
(unidade IIIC) também apresentam quase a mesma potencialidade dos topos elevados dos
Chapadões; a grande diferença está na declividade e na forma mais escarpadas destas bordas
meridionais. Pelo fato de constituírem um conjunto de altas nascentes das bacias do Guaporé,
60
Paraguai, Cuiabá, Taquari e Itiquira, recebem fortes impactos pluviométricos, e em função do
elevado declive, tem seus processos erosivos muito acelerados. Existe também a necessidade
de cuidados especiais neste processo, pois grande parte das águas e nutrientes do Pantanal
dependem em última instância deste tipo de escoamento pluviofluvial.
A macrounidade III.B (mesotérmico quente e úmido dos Parecis e Alto Xingu –
Araguaia) indicou uma boa potencialidade agroclimática. Esta área corresponde ao reverso das
chapadas e planaltos voltados para o norte com os rios, correndo em direção à Bacia Amazônica.
Grosso modo, é o grande domínio dos cerrados e matas ciliares, onde a ocupação predominante
hoje é a pecuária associada à manchas adensadas de uso agrícola comercial e industrial.
As depressões do Estado de Mato Grosso, (unidades IIID e IIIE4) cujas áreas
correspondem as Bacias do Guaporé, Alto Paraguai, Alto Cuiabá e Médio Araguaia – Rio das
Mortes, tem como propriedade fundamental serem áreas com elevadas temperaturas, alta perda
de águas superficiais através da evapotranspiração potencial e excedente hídrico de médio à
reduzido. Nestas condições a produtividade e o rendimento agroclimático, indica maior risco de
variabilidade, bem como inibe parcialmente o uso da diversificação de cultivos e de tecnologia. O
fator decisivo nestas unidades, é a forma correta do manejo e do entendimento de como a oferta
meteorológica, no nível da atmosfera será retrabalhada à nível do solo, da topografia, e de
técnicas adequadas à cada realidade local. Por exemplo, dentro do Vale do Guaporé e do Vale
do Araguaia, existem áreas que são tipicamente “pantanais”, onde é claro que a maior força
produtiva da natureza, não está no clima (que tende sazonalmente e ciclicamente ao sub-úmido
ou quase semi-árido) mas no transporte (escoamento fluvial) e no processo de sedimentação,
que traz e renova a cada cheia os nutrientes para a “vida”; aqui compreendida como maior
potencialidade de sua preservação; o uso adequado para estes “pantanais” nos parece, não ser
a atividade agrícola, mas um amplo quadro relacionado à exploração auto sustentada destes
ecossistemas.
O Pantanal do Estado de Mato Grosso, em termos climatológicos, é o que apresenta a
menor potencialidade agroclimática, as chuvas em média, são quase sempre rapidamente
evapotranspiradas pelo forte calor e aquecimento existente. Em anos de ciclo de águas baixas
ou com anomalias meteorológicas de macroescala, a relação da oferta de água atmosférica e a
perda, indica ser o Pantanal uma área com forte tendência à semiaridez. Ora a riqueza maior
está também no escoamento fluvial e subterrâneo que vem das altas nascentes, e neste caso
qualquer alteração por mínima que seja no nível deste escoamento, pode causar sérios prejuízos
à preservação e a manutenção da biosociodiversidade nas novas realidades locais do Pantanal.
Finalmente, as áreas serranas (Província Serrana) e Maciços isolados (unidade III.F.)
apesar de possuírem um bom potencial para uso agropecuário, são áreas de relevo e formações
escarpadas e com fortes rupturas de declive, o que recomenda o uso destas áreas como
unidades de preservação (Parques e Estações Ecológicas)
61
8.
BIBLIOGRAFIA
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