- O Meio-Ambiente como parte da Gestão Estratégica das Empresas:

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O Meio-Ambiente como Gestão Estratégica
Lean Production e Reutilização de Efluentes
Igor Serrante Zaninoto
Discente do Curso de MBA em Gestão Empresarial do Centro Universitário de Lins – Unilins,
Lins-SP, Brasil
[email protected]
Prof. Adm. Irso Tófoli
Docente do Curso de MBA em Gestão Empresarial do Centro Universitário de Lins – Unilins,
Lins-SP, Brasil
[email protected]
Resumo:
Buscou-se, com este artigo, apresentar
algumas alternativas de gerenciamento de
resíduos e matérias-primas básicas, como a
água, estritamente relacionadas às questões
ambientais. Não se encerra, neste trabalho,
as alternativas viáveis à processos
produtivos mais eficientes e gestão de
resíduos industriais. No entanto, procurouse, de maneira sucinta e prática, discorrer
sobre algumas propostas viáveis para
tornar um problema, que acaba se
traduzindo em custos indiretos à produção,
em soluções viáveis ou, no mínimo,
reduzir as despesas secundárias (que não
estão diretamente ligadas ao produto final)
com resíduos industriais, pautando-se pelos
princípios da produção mais limpa (P+L).
Além de se evitar sanções ambientais com
multas ou embargos à produção, pode-se,
utilizando métodos e equipamentos
específicos e ao mesmo tempo simples,
arrecadar ativos para o que antes era
considerado como lixo, resíduo ou
subproduto inútil. Artigo desenvolvido
como parte de trabalho de conclusão de
curso de MBA em Gestão Empresarial, da
UniLins – Centro universitário de Lins.
and basic raw materials, such as water,
closely related to environmental issues. It
do not ends, in this work, the viable
alternatives to more efficient production
processes and management of industrial
waste. However, concerned with this
article, succinctly and practice, noting
some workable proposals to make a
problem, which have translated into
indirect costs for the production, in viable
solutions or, at least, reduce the secondary
costs (which are not directly related to the
final product) with industrial waste, while
observing the principles of cleaner
production (CP). In addition to avoid
environmental penalties with fines and
bans the production, it can be, using
specific methods and equipment while
simple, raise assets for what was once
considered trash, waste or by-product
useless. This article was developed as part
of work on the completion of an MBA in
Business Management, the UniLins University Center of Lins.
Keywords:
Environment.
Strategic
Management. Cleaner Production
Palavras-Chave: Meio-ambiente. Gestão
Estratégica. Produção Mais Limpa
1 Introdução
Abstract:
It was intended with this article, present
some alternatives to waste management
A partir da revolução industrial, o
pensamento coorporativo voltou-se mais
intensamente à produção e ao lucro quase à
qualquer preço. No entanto, esta visão e
2
este modo de agir, em detrimento ao
conceito de sustentabilidade, têm um custo,
e alto, como se tem tido o desprazer de
saborear com o desequilíbrio físico e
climático do ecossistema mundial.
Não é novidade as alterações
climáticas e o desaparecimento de espécies
e culturas por conta da voracidade da
natureza em tentar se manter. Muito se
lastima sobre catástrofes naturais, mas
pouco se pensa que a natureza é bem maior
que nossos microsistemas produtivos e que
é a industrialização que está tomando conta
de um espaço que não é dela. E na lei do
mais forte, salve-se quem puder. O
desequilíbrio ambiental mundial é visível e
inegável, portanto, se o mercado financeiro
e corporativo não tratar deste assunto,
algum outro mecanismo será criado,
artificial ou naturalmente, para que isso
aconteça.
Considerando-se estas reflexões,
buscou-se, com este artigo, demonstrar que
as questões ambientais, de nível legislativo
e de produção, podem ter respostas e
soluções viáveis. Assim, procurou-se
delimitar e citar algumas alternativas à
estas questões ambientais no tocante à
gestão de resíduos e conceitos de produção
mais limpa.
Com isso, procurou-se responder à
problematização: as questões ambientais
podem ser vistas como soluções
economicamente viáveis? Ou ainda, o
aproveitamento dos resíduos de produção,
além de evitar sanções ambientais, traz
vantagens econômicas e para a imagem da
empresa?
A pesquisa sustenta-se em revisão
bibliográfica de livros, revistas, teses,
dissertações e outros artigos científicos.
2 Revisão Teórica
2.1 Gestão Estratégica Empresarial
Não é somente a conservação
ambiental que viabiliza a aplicação de
recursos e esforços na área de gestão
ambiental. O mais importante, visto pelo
prisma das empresas, é a redução de custos
por meio da cultura de produção mais
limpa, otimizando a utilização de matéria
prima, gerando menos resíduos e,
consequentemente, menos perdas.
2.2 Gestão Ambiental
Felizmente, a cultura corporativa
vem mudando mais intensamente nestes
últimos vinte anos, seja por pressão da
sociedade civil, seja por força de Lei. A
gestão de recursos naturais e do meioambiente, sempre foi visto como um
entrave às relações comerciais e produtivas,
onde se procurou ao máximo usufruir de
recursos
aparentemente
inesgotáveis,
tendo-se uma preocupação em preservá-los,
somente quando se perdia dinheiro com a
escassez de matéria-prima local – tendo-se
que pagar mais pelo frete de matéria-prima
– ou com altas multas aplicadas por
descumprimento da legislação ambiental.
2.3 Mudanças Comportamentais
Acordos Internacionais
e
Neste
ínterim,
a
legislação
ambiental brasileira tornou-se muito mais
restritiva e rigorosa, seguindo modelos
mundiais de preocupação com o meioambiente. Desta preocupação é que nasceu,
no final dos anos 90, o conhecido
protocolo de Kyoto, determinando que os
países signatários reduzissem suas
emissões de gases de efeito estufa (GEE)
em 5,2%, em média, relativas ao ano de
1990, entre 2008 e 2012. Esse período é
também conhecido como primeiro período
de compromisso. A partir da legislação
mais restritiva e de ações que dariam
incentivos à quem cooperasse com o
ecossistema é que a sustentabilidade
começou
a
ser
encarada
como
possibilidade de receita e não apenas como
custos.
Há casos, inclusive no Brasil, de
empresas que se especializaram na
preparação de outras empresas para, além
de cumprirem a legislação e não serem
3
penalizados com multas altíssimas,
também auditam os processos produtivos
buscando a diminuição ou extinção de
desperdícios e o reuso ou comercialização
de alguns resíduos, através de tratamentos
específicos. É o caso da Ecoaqua, empresa
100% brasileira que acumula renome e
crescimentos na árdua tarefa de preparar
outras empresas para a sustentabilidade
(OLIVEIRA, 2005).
Conforme Oliveira (2005), um dos
trabalhos que está sendo realizado pela
empresa em uma indústria do setor
alimentício é como os efluentes serão
tratados e transformados em água
novamente, podendo retornar ao processo
produtivo. O lodo gerado no tratamento do
esgoto industrial também será convertido
em fertilizante e os resíduos orgânicos da
produção de alimentos virarão biomassa
para a criação de energia.
Além disso, o gás metano, um
efluente geralmente descartado sem
tratamento, passará a alimentar caldeiras,
evitando a queima de óleo e outros
combustíveis como a lenha. Evitando essa
queima de óleo, segundo as leis ambientais,
a cliente ganhará créditos de carbono, os
quais poderão ser negociados no mercado
internacional. Ao fazer as contas, chegouse à conclusão que e a empresa poderá
ganhar US$ 40 mil por mês em créditos de
carbono.
2.4 Aplicações Estratégicas
2.4.1 Créditos de Carbono
O mercado de créditos de carbono
foi criado, a partir do Protocolo de Kyoto,
para não comprometer as economias dos
países signatários, estabelecendo que parte
da redução dos GEE poderia ser feita
através de negociação com nações através
dos mecanismos de flexibilização. Um dos
mecanismos de flexibilização é o
Mecanismo de Desenvolvimento Limpo
(MDL). O crédito de carbono do MDL é
denominado Redução Certificada de
Emissão (RCE) - ou em inglês, Certified
Emission Reductions (CERs). Uma RCE
corresponde a uma tonelada de dióxido de
carbono (CO2) equivalente. O CO2
equivalente é o resultado da multiplicação
das toneladas emitidas do GEE pelo seu
potencial
de
aquecimento
global
(WIKIPEDIA, 2009).
Ainda, conforme Wikipedia (2009)
o potencial de aquecimento global do CO2
foi estipulado como 1. O potencial de
aquecimento global do gás metano é 21
vezes maior do que o potencial do CO2,
portanto o CO2 equivalente do metano é
igual a 21. Portanto, uma tonelada de
metano reduzida corresponde a 21 créditos
de carbono.
A idéia inicial seria de que as
nações mais poluidoras reduzissem suas
emissões de GGE, o que acarretaria em
diminuição
da
produção
e
conseqüentemente prejuízos. No entanto,
os países poluidores podem financiar ações
ou empresas não poluidoras em outros
países, mais comumente nos países
subdesenvolvidos ou em desenvolvimento,
como o Brasil. Assim, aqueles países ou
indústrias que não conseguem atingir as
metas de reduções de emissões, tornam-se
compradores de créditos de carbono.
Por outro lado, aquelas indústrias
que conseguiram diminuir suas emissões
abaixo das cotas determinadas, podem
vender o excedente de "redução de
emissão" ou "permissão de emissão" no
mercado nacional ou internacional. Alguns
especialistas entendem que os créditos de
carbono acabam favorecendo mais ao
mercado do que ao ambiente, defendendo a
idéia de que os certificados conferem aos
países desenvolvidos o direito de poluir
(EL KHALILI, 2003).
No entanto, cada país tem uma cota
máxima de créditos de carbono que pode
comprar para cumprir as metas do
Protocolo de Kyoto; portanto, o assim
chamado "direito de poluir" é limitado.
Ainda assim, para que as tecnologias
reclamadas, pelas nações interessadas,
gerem créditos de carbono negociáveis,
estas devem passar por uma analise técnica
4
para que fique provado, matematicamente,
o que foi ou não lançado na atmosfera.
Há que se analisar, no entanto, a
diferença entre as RCE´s e as commodities
ambientais. Conforme Khalili (2003), as
trading emissions (compra e venda de
créditos de carbono) são títulos
comercializáveis em mercados de balcão,
os chamados “contratos de gaveta”, ou em
mercados organizados, como a Bolsa de
Valores. Já as commodities ambientais são
frutos de projetos que além de reduzir a
emissão de gases causadores do efeito
estufa, está também gerando uma
commodity como energia (biomassa),
madeira, biodiversidade, água, minério,
reciclagem.
Além disso, o modelo deverá
promover a geração de emprego e renda e
financiar educação, saúde, pesquisa e
preservação de áreas protegidas. Nesse
sentido, um projeto de reflorestamento
com pinus e eucalipto não pode invadir ou
substituir uma área como Amazônia, ainda
que a comunidade científica prove com
todos os meios que pinus e eucaliptos
captam mais carbono do que uma floresta
nativa.
Portanto, ao contrário do que se
pensava no início da conscientização
ambiental das empresas, a sustentabilidade
mais do que não perder dinheiro, seja com
multas ou desperdícios, está sendo visto
como angariar receita. Neste cenário, a
posição do Brasil é estratégica, pois existe
uma gama enorme de projetos ambientais e
operações de engenharia financeira que
podem ser desenvolvidos no Brasil,
proprietário das sete matrizes ambientais:
água, energia, biodiversidade, madeira,
minério, reciclagem e controle de emissão
de poluentes - água, solo e ar.
Conforme Matsuura; Paschoali
(2007), o Brasil está em quarto lugar entre
os países mais procurados para a instalação
de projetos de geração de créditos de
carbono. Mais de 220 projetos brasileiros
estão registrados no Conselho Executivo
da ONU para que sejam aprovados e
comecem a gerar os ativos, mesmo sem
regulamentação nacional.
Segundo
Matsuura
e
Paschoali,(2007), diretor da Evolve Gestão,
empresa especializada em prestação de
serviços
de
gestão
empresarial,
administradores
de
fundos
de
investimentos em Certificados de Crédito
Carbono estão desembarcando no Brasil,
desesperados, à procura de projetos nas
áreas de proteção ao meio ambiente tais
como eliminação de aterros sanitários, de
queimadas, tratamento de esgoto, de
resíduos químicos, recuperação de
mananciais aqüíferos, de florestas,
produção de energia limpa.
Matsuura e Paschoali (2007) ainda
ressaltam que não vai faltar dinheiro para a
implementação dos projetos. Para a
advogada Maria Cristina Corrêa de Toledo,
do Machado, Meyer, Sendacz e Opice
Advogados, o mercado já está bem
aquecido no país, com todos esses projetos
em andamento. Mas vai ficar melhor
quando houver legislação específica para
regulamentá-lo.
A comercialização de créditos de
carbono gera rendas extraordinárias, que o
diga é a prefeitura de São Paulo, que
arrecadou R$ 34 milhões com os
certificados que produziu com a
implementação de um mecanismo de
desenvolvimento limpo em um aterro,
dando destino adequado à um grande
volume de lixo gerado diariamente. Além
da destinação correta dos resíduos, a
Prefeitura Municipal de São Paulo, através
do Aterro Bandeirantes, em Perus, Zona
Norte da capital, conseguiu também a
extração do gás metano, um dos principais
gases do efeito estufa e o segundo mais
importante no processo de aquecimento
global, depois do dióxido de carbono (CO2)
(MATSUURA, 2007)
Ainda, conforme Matsuura e
Paschoali (2007), desde o início de 2004,
em parceria com a empresa Biogás Energia
Ambiental, a prefeitura passou a fazer a
captação, queima e aproveitamento do gás
para produção de energia. No Aterro
5
Bandeirantes (Anexo I), 80% do biogás é
queimado de forma a gerar energia. Os
20% restantes são queimados pelos
sistemas de flare, transformando-se
exclusivamente em gás carbônico. A
prefeitura tem direito a 50% de todo o
volume certificado pela ONU. A outra
metade fica com a Biogás, por ter investido
no projeto.
Em um leilão de créditos de
carbono em bolsa de valores regulada,
neste caso a Bolsa de Mercadorias e
Futuros (BM&F), mundialmente inédito
(pois até então, a comercialização era feita
por bancos no mercado de balcão, sem a
atuação de órgão regulador), conseguiu-se
comercializar todos os 800 mil certificados
somente para um comprador, o banco
holandês
Fortis.
(MATSUURA,;
PASCHOALI, 2007)
O leilão que aconteceu em 26 de
setembro de 2007, cada certificado foi
negociado a 16,20 euros, sendo que o lance
mínimo foi de 12 euros; um bom negócio
para todos pois, na época, cada certificado
era negociado a 19 euros. Ganha o
comprador, o vendedor – considerando que
o Brasil é um jovem participante nesse
mercado – e o meio-ambiente, pois o valor
arrecadado pela prefeitura será utilizado na
melhora ambiental na região do aterro,
além de já prever, pelo sucesso do projeto,
que o mesmo sistema está implantado no
Aterro Sanitário São João, na Zona Leste,
criando-se assim, um círculo virtuoso.
(MATSUURA, PASCHOALI, 2007)
O leilão foi um marco para o
mercado brasileiro e abre muitas
perspectivas para o setor. A partir dele, o
país será muito mais procurado para a
instalação de novos projetos e vende de
certificados.
Mas a comercialização de créditos
de carbono é somente uma das várias
facetas, muitas delas ainda inexploradas,
do mercado da sustentabilidade.
2.4.2 Reuso de água
A reutilização da água dos
processos industriais é outra forma de
ganhar, ou melhor, economizar dinheiro
com o que antes era jogado fora. Além de
elevar a conscientização para o não
desperdício, empresas por si só ou através
de consultorias especializadas, estão
tratando os efluentes gerados em seus
processos com o intuito de reutilizar a água
em outras atividades, por exemplo, em
descargas sanitárias, lavagem de pátios,
resfriamento de equipamentos, entre outros,
reduzindo em 40% o consumo de água
potável (VIALLI; FRASÃO, 2008)
Existem diversas formas de
reutilização de recursos hídricos, como o
tratamento dos efluentes ou até mesmo a
reutilização em cascata, que consiste em
reutilizar a água de um processo
diretamente em outro, sem qualquer
tratamento. No entanto deve-se fazer
análises químicas na efluente para se
determinar
a
possibilidade
desta
reutilização no processo seguinte.
O desperdício é tanto que em certas
empresas a água excedente do tratamento é
vendida para indústrias vizinhas, a um
preço menor que da concessionária oficial.
É importante enfatizar que as opções de
reuso só devem ser consideradas após a
implantação das opções de redução do
consumo de água.
Assim, a idéia de reuso de água, ou
recursos hídricos, está mais intimamente
ligada à economia ou não-desperdício, do
que obter receita com a comercialização da
água “reciclada”.
Apesar de existirem as sanções
financeiras para as empresas que
desobedecem à legislação têm valores
considerados pouco significativos pelos
especialistas,
principalmente
aquelas
estabelecidas por órgãos estaduais.
Portanto, a decisão das indústrias em
investir no reuso de recursos hídricos não
decorrem do temor das multas, mas da
pressão do mercado consumidor de seus
produtos e, principalmente, dos custos (ou
a redução deles) da água como insumo
industrial.
6
Esta prática de reuso traz benefícios
ambientais consideráveis, permitindo que
um volume maior de água permaneça
disponível
para
outros
processos,
reduzindo a poluição hídrica por meio da
minimização de descargas de efluentes nos
corpos hídricos (rios, córregos, etc.).
Consequentemente,
existem
benefícios econômicos, uma vez que a
indústria tem redução tanto de consumo da
matéria-prima “água” e seus custos
relativos à sua utilização, quanto do
processo de tratamento do efluente gerado
pela passagem desta água pelo processo
industrial.
Para melhor promover o uso
racional da água nas indústrias, pode ser
utilizada uma importante ferramenta de
gestão deste recurso, o chamado PLANO
DE CONSERVAÇÃO E REUSO DE
ÁGUA (PCRA), o qual considera aspectos
legais,
institucionais,
técnicos
e
econômicos.
As principais etapas para o
desenvolvimento deste plano estão
apresentadas no diagrama apresentado no
Anexo II. A metodologia utiliza ações para
caracterizar as atividades e processos que
têm um volume de consumo de água e
geração de efluentes mais significativos.
Os investimentos necessários para a
implantação dos sistemas de reuso
comercialmente
disponíveis
–
fotoeletroquímico,
desinfecção
por
radiação ultravioleta, anaeróbios, oxidação
química avançada – têm prazo de retorno
curto: menos de um ano. Pode-se ocorrer
deste prazo ser ainda menor, às vezes cair
até pela metade, visto que o custo da água
no Brasil tem um valor alto e que pode ser
ainda mais agravado pelo sistema de
cobrança
que
pune
os
grandes
consumidores, pagando mais pelo metro
cúbico de água, e também pela cobrança na
captação da água em corpos hídricos direto
pela indústria. A cobrança na captação
começou em 2002 e está se alastrando
rapidamente por todas as bacias
hidrográficas (BERTAZZOLI, et al., 2002).
Todos estes custos explicam o
rápido retorno do investimento e a grande
economia gerada pelo reuso. Todos os
custos dos sistemas de tratamento e reuso
de água podem variar dependendo do tipo
de indústria e da carga poluidora, no
entanto, estes valores giram em torno de
R$ 200 mil à R$ 1,5 milhão. Tendo-se o
custo médio da água em São Paulo, onde
se concentram a maioria das indústrias, que
é de R$ 10,00 o metro cúbico, pode-se
estimar que o custo cairá para menos de
R$ 1,00 por metro cúbico com a adoção
dos sistemas de reuso. Estes sistemas têm
uma vida útil média de vinte anos,
viabilizando plenamente o investimento. O
prazo para implantação dos sistemas
também podem variar dependendo da
complexidade do sistema, mas que pode
ser considerado em torno de dois meses,
desde que a indústria já tenha feito o
cadastramento e a caracterização dos
efluentes. Caso contrário, o prazo poderá
aumentar para quatro a seis meses.
(BERTAZZOLI, et al., 2002).
2.4.3
Utilização
Fertiirrigação
de
Lodo
na
Dificilmente um processo industrial
não terá nenhum resíduo a ser descartado
na sua produção. Isso seria o ideal de uma
indústria ou de qualquer outro processo,
onde se entre com 100% de matéria-prima
e se utilize tudo no processo e na produção
do produto, gerando 0% de resíduo.
Portanto, as indústrias e prefeituras (sob o
ponto de vista do tratamento sanitário)
devem buscar alternativas para diminuir ao
máximo o volume de resíduo – princípio
da consciência PML (produção mais limpa)
– e ao mesmo tempo, procurar destinos
legais e, se possível, rentáveis para os
resíduos gerados. Uma destes destinos é a
utilização do lodo dos tratamentos de
efluentes na fertiirrigação, ou seja,
fertilização de áreas rurais (ZAPAROLLI,
2007).
Recentes publicações de resoluções
do CONAMA (Resolução 375/06) e do
7
Ministério da Agricultura (Instruções
Normativas números 23, 27 e 35),
estabelecem critérios para a destinação na
agricultura do lodo resultante de
tratamentos de efluentes. Hoje, a maioria
do lodo gerado pelos tratamentos é
destinada a poucos aterros sanitários
habilitados para receber este resíduo. Além
de serem poucos aterros, eles começam a
ficar saturados.
Outro problema é que não existem
mais áreas próximas aos grandes centros
que comportem esta atividade, pois, para
se tornar viável, os aterros sanitários não
podem estar muito afastados da fonte
geradora de resíduos. Um exemplo ocorre
na cidade de São Paulo, onde os dois
aterros públicos, o Bandeirantes e o São
João, se encontram saturados e a prefeitura
enfrenta dificuldade de obter novos
terrenos para suprir a gigantesca demanda,
(ZAPAROLLI, 2007).
Geralmente no Brasil, o processo
de tratamento é interrompido logo após o
deságue, realizado principalmente por
centrífugas e filtros-prensa. Desta etapa, a
torta de lodo sai com uma quantidade de
sólidos secos que varia entre 15% e 30%, o
restante é líquido (ZAPAROLLI, 2007). É
um resíduo que gera muito chorume e é
muito volumoso que, também por falta de
espaço, estão sendo recusados pelos
administradores dos aterros públicos. Já os
aterros privados – classificados como
Classe II A – que podem receber produtos
não perigosos e não inertes, são poucos,
apenas 36 em todo o país.
A destinação de lodo para aterros
sanitários é uma alternativa cara.
Conforme Zaparolli (2007) estima-se que
em grandes centros, a tonelada do resíduo
depositado em aterros custe em média
R$ 80,00 a R$ 120,00. Já em cidades
menores, como a cidade de Franca, no
interior de São Paulo, a tonelada custa um
pouco mais barata, cerca de R$ 60,00.
Assim, a disposição do lodo pode
representar até 60% dos custos de uma
estação de tratamento de efluentes. Para se
ter uma idéia, há casos em que, mesmo que
a destinação do lodo esteja a 100 km de
distância, ainda compensa deposita-lo em
fertilização, do que pagar pelo aterro
sanitário.
A somatória de custos altos e de
pouca disponibilidade de aterros sanitários
que possam receber o lodo forçou a busca
por alternativas mais baratas para a
destinação dos resíduos, sendo que a mais
comum e a aplicação do lodo como
fertilizante
agrícola
ou
como
condicionador do solo. É claro que, no
caso de resíduos industriais, o lodo dever
ser analisado antes da destinação para
fertilização, mas habitualmente o resíduo
pode ser utilizado por esta alternativa sem
maiores problemas. Nos Estados Unidos,
Europa e Canadá, esta técnica já é utilizada
há
mais
de
sessenta
anos.
Predominantemente o lodo é rico
nitrogênio, fósforo, carbono e potássio,
sendo a utilização na agricultura, uma
interessante alternativa de disposição pois
pode promover melhorias nos atributos
químicos, físicos e biológicos do solo,
aumentando a produtividade agrícola. Esta
utilização geralmente representa cerca de
80% do volume de lodo gerado em
estações de tratamento de efluentes
(ZAPAROLLI, 2007).
No entanto, a má notícia é que a
resolução do CONAMA classifica o lodo
em tipo A e B, dependendo dos índices
bacteriológicos e patogênicos. Assim,
somente os resíduos classificados com tipo
A, com índices de contaminantes mais
baixos, podem ser amplamente empregado
no plantio. Esta notícia não foi bem
recebida pelos gestores, pois, a maioria das
estações de tratamento de efluentes no
Brasil, produz o lodo classificado como
tipo B, tendo que melhorar a qualidade do
resíduo se quiser aplicá-lo como
fertilizante agrícola. A resolução, mais
restritiva, exigente e complexa que a norteamericana, pode inviabilizar o processo.
Para que continue sendo viável, deverá ser
reduzido o volume do lodo, secando-o, e
aumentar o grau de esterilização. Para isto,
será necessário implantar mais uma etapa
8
ao processo, a qual tem custos bastante
variáveis.
Uma boa alternativa é a
compostagem. É um processo biológico no
qual o lodo é misturado com materiais
ricos em ligninas e celuloses, como palhas,
bagaços e podas de árvore. A massa passa
por revolvimento mecânico e, por meio da
atividade dos microrganismos, atinge a
temperatura de até 70ºC, promovendo a
higienização do material, com a eliminação
dos patógenos, em um prazo de até 60 dias.
No fim, o material humidificado apresenta
um teor de água de 40%. A grande
vantagem é que o material final é passível
de
comercialização.
Exige
um
investimento de R$ 1 milhão e apresenta
um custo equivalente (investimento + custo
mensal) próximo de R$ 60,00 a tonelada
de lodo. (ZAPAROLLI, 2007)
Alternativas também podem ser
viáveis, ainda que mais caras. No entanto,
os gestores de estações de tratamento
devem encarar o lodo não mais como um
resíduo, mas sim como um subproduto,
rico em nutrientes que, processado
adequadamente, pode até ser vendido para
os agricultores, como acontece na Europa.
3 Considerações Finais
A consciência de se preservar o meioambiente, dos recursos naturais e do
planeta é bastante louvável e merece
especial atenção e dedicação de
instituições públicas e privadas. No entanto,
existem estudiosos que afirmam que este
não é um problema tão grande como se
pensa. Em recente entrevista à Revista
Época, o zoólogo alemão Joseph Reichholf
(2009) diz que a preocupação com as
mudanças climáticas não faz sentido, pois
os humanos vieram dos trópicos africanos
e que, de qualquer forma o mundo estará
diferente até 2100. Ele se baseia na idéia
de que o mundo vem mudando desde a era
do Gelo e que, foi durante a era glacial que
a floresta amazônica se fragmentou. Nos
períodos interglaciais, mais quentes e
úmidos é que ela se expandiu, tendo o
calor, seu lado positivo. Prova disso é que,
neste inverno, a chuva aumentou no
Deserto da Namíbia, deixando algumas
dunas verdes. Nos últimos dez anos, o
deserto do Saara está encolhendo, e a
Caatinga brasileira ficou mais seca nas eras
de clima frio (MANSUR; REICHHOLF,
2009). Portanto, o aquecimento global
pode aumentar o regime de chuvas nestas
regiões.
Em termos de Gestão Estratégica,
com um cenário de leis ambientais cada
vez mais restritivas, competição por
matéria-prima e mercado, exigências para
exportações e zelo pela imagem ambiental
da empresa, o que vale mesmo é a
consciência de uma produção mais limpa.
Com a aplicação de estratégias
ambientais preventivas e integradas à
logística de produção, aplicada à processos,
produtos e serviços, aumenta-se a
eficiência dos processos, para que se tente
utilizar, senão toda, pelo menos a maioria
da matéria-prima que entra nas indústrias
para gerar os produtos, com o mínimo de
resíduos possíveis pois, resíduo é tudo
sobra do processo que não vai para o
produto, ou seja, desperdício ou
procedimentos ineficientes.
Esta consciência é simples e
consiste em pensar que se paga pela
matéria-prima e ainda se paga para destinar
o que o processo ineficiente não mandou
para o produto, ou seja, se paga duas vezes
pela matéria-prima. Além disso, a
produção mais limpa e as ações ambientais
como gestão estratégia podem refletir em
áreas cada vez mais distintas, como até a
diminuição dos valores dos prêmios de
seguros industriais e a facilitação na
aquisição de créditos e financiamentos,
além de evitar mais desperdícios com o
pagamento de multas por danos ambientais.
Da questão apresentada, infere-se
uma questão de maior interesse aos
investidores e empresários, do que somente
contribuir para conter a degradação do
planeta e salvaguardar os recursos naturais.
Esta questão de maior interesse atinge o
ponto mais sensível dos empresários e
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investidores: o bolso. Utilizar-se técnicas e
manobras para conter o desperdício de
recursos e primar por processos industriais
mais limpos e eficientes, influenciará, de
uma forma ou de outra, nas atividades
industriais,
sejam
por
sanções
administrativas dos órgãos ambientais
(multas), seja por diminuição da utilização
de matérias-primas básicas, como a água,
nos processos. Ou seja, diminuir resíduos
com o melhoramento dos processos é jogar
menos matéria-prima fora. Também,
reaproveitar ou transformar resíduos
aliviará os custos com a disposição destes
in natura.
Portanto, conclui-se que existem
diversas
alternativas
aos
passivos
ambientais e que se pode reverter as
questões ambientais, como em muitos
casos apresentados neste artigo, de
problema ou débito à solução ou receita.
Assim, as questões ambientais podem
serem
vistas
como
soluções
economicamente viáveis.
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custos e poluição ambiental. Site Nei.
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Disponível em:
<http://pt.wikipedia.org/wiki/
Créditos_de_carbono>. Acesso em: Junho
2009.
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ANEXO I: Aterro Bandeirantes – São Paulo / SP
Fonte: www.canalbioenergia.com.br
ANEXO II: Diagrama para desenvolvimento do PCRA
Fonte: Manual de Conservação e Reúso de água na Indústria. – FIRJAN (2006)
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