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Revista de Publicação Acadêmica da Pós-Graduação do IESPES
INFLUÊNCIA DA ESCOLA ESCOLÁSTICA NO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO
Sara Freitas de Sousa1¹
Sabrina Barros Santiago2
Vanessa Pimentel Bernardes3
Taíse Severo Aozani4
Helender Ueno Seelig se Souza5
RESUMO
A escolástica é a filosofia de base cristã que se desenvolveu desde o século IX, com seu
apogeu no século XIII e declínio no começo do século XIV. Nesse período, observa-se a
busca pela união entre razão e a fé, acreditando que não há contradição entre elas, pois ambas
procediam da mesma fonte, ou seja, de Deus. Procuravam defender que a razão ajuda a aceitar
a fé, e a fé ajuda a inteligência a entender a verdade das coisas, refletindo assim, na
compreensão da realidade. Para isso, os escolásticos procuravam conciliar os ensinamentos da
doutrina cristã com o platonismo e o aristotelismo. Visando entender a escolástica, o objetivo
do trabalho é descrever sobre o desenvolvimento científico conforme a égide da escola de
pensamento escolástico no período da idade média. Nessa perspectiva, foi realizado um
levantamento bibliográfico, a fim de apresentar conceitos, definições, e caracterizar um
período marcante para configuração das escolas em universidades. Há controvérsias de que a
idade média foi apenas um período por ter como referência principal a igreja, porém nota-se
nessa fase grandes avanços, como a criação de universidades, de novas filosofias, novos
métodos, baseado na leitura, comentários e textos antigos, sagrados ou profanos, que períodos
depois embasaram outras escolas, como a Renascentista. A escolástica trouxe em seu interior,
importantes debates sobre temas como o método, a lógica e a linguagem, que, séculos depois,
continuou norteando a modernidade.
Palavras-chaves: período medieval, religião, razão
1
Mestranda em Ciências Florestais – Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).
[email protected]. Contato: (28) 99999-8918
2
Mestranda em Ciências Florestais – Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).
[email protected]. Contato: (28) 99935-6164
3
Mestranda em Ciências Florestais – Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).
[email protected]. Contato: (93) 991255276
4
Mestranda em Ciências Florestais – Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).
[email protected]. Contato: (89) 8115-6907
5
Engenheiro Florestal – Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA). [email protected].
Contato: (93) 991977444
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Revista de Publicação Acadêmica da Pós-Graduação do IESPES
ABSTRACT
The Scholastic is the philosophy of Christian base that has developed since the ninth century,
with its peak in the thirteenth century and decline at the beginning of the fourteenth century.
During this period, the search for unity between reason and faith, believing that there is no
contradiction between them because both were from the same source, namely God. Sought to
defend that reason helps to accept the faith, and faith help the intelligence to understand the
truth of things, reflecting thus the understanding of reality. For this, the Scholastics sought to
reconcile the teachings of Christian doctrine with Platonism and Aristotelianism. Aiming to
understand the scholastic, the goal of the work is to describe about the scientific development
as the aegis of the scholastic School of thought in the period of the middle ages. From this
perspective, a literature review was conducted in order to present concepts, definitions, and
featuring a remarkable period for configuration of the schools at universities. There are
controversies that the Middle Ages was only a period by have as the main reference to church,
however it should be noted major breakthroughs, such as the creation of universities, new
philosophies, new methods, based in reading, comments and ancient texts, sacred or profane,
which after based other schools such as the Renaissance. The scholastic brought inside
importants debates on topics such as the method, logic and language, which, centuries later,
continued guiding the modernity.
Keys-words: medieval period, religion, reason.
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Revista de Publicação Acadêmica da Pós-Graduação do IESPES
1.
Esse processo histórico que brota desta
INTRODUÇÃO
Nos séculos III e IV o império romano
vida cotidiana será pensado, como sistema
do Ocidente entra em crise e em 450, os
filosófico, por Santo Agostinho ou Aurélio
romanos têm a sua queda concretizada com a
Agostinho, bispo de Hipona (354-430), e por
invasão da Europa por povos bárbaros e a
São Tomás de Aquino (1225-1274) durante a
emergência do modo feudal de produção. Os
Idade Média, fundamentados na busca de uma
ganhos e a riqueza são reduzidos nesta fase do
compreensão racional para a fé (LIMA,
império, criando as condições econômicas,
2006).
Em
sociais e políticas que contribuíram para a
decorrência
do
processo
de
destruição do modo de produção escravista e
degeneração do mundo medieval feudal, as
a emergência histórica do método medieval
reestruturações econômicas, políticas, sociais,
ou escolástico, sob a égide do modo de
culturais e intelectuais rumo ao mundo
produção feudal (ROSA, 2012).
moderno
A elevação do sistema filosófico
medieval surge desse processo de decadência
da própria vida cotidiana no final do império
romano, que favoreceu a emergência de uma
nova concepção filosófica que considera
necessária esta situação e que associa a
decadência do império com a decadência do
próprio mundo (LIMA, 2006).
Este processo é fundamental para a
consolidação
do
método
escolástico
formulado a partir de uma sociedade onde o
homem não tem razão de viver e que é
explicada pelos desígnios de Deus que assim
quer, uma razão absoluta em uma concepção
teológica e, ao mesmo tempo, teleológica da
história com um início e um final prédeterminados (GUIMARÃES; OLIVEIRA,
2009).
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capitalista,
desencadearão
reestruturações educacionais e pedagógicas
para se atender às novas necessidades de
formação e de consolidação do novo modo de
produção que surgia, isto é, modo de
produção capitalista. Assim, surgem várias
universidades e corporações de ofício, que se
tornaram os grandes centros de formação
profissional, responsáveis por uma educação
que
ia
se
tornando
progressivamente
racionalizada,
paulatina,
cada
especializada
porém,
vez
mais
e
técnica
(BATISTA, 2005).
Dessa forma, a escolástica terá papel
decisivo em todo esse processo, já que
prepara uma releitura da educação que
envolverá de modo radical e inovador tanto os
processos
de
aprendizagem.
universidades
formação
A
deram
quanto
estes
uma
os
de
últimos,
as
contribuição
Revista de Publicação Acadêmica da Pós-Graduação do IESPES
fundamental com a sua organização de
estudos e com os mestres que elaboraram
técnicas de trabalho intelectual, mas os

Relatar os fatores que contribuíram
para o surgimento das universidades.

Estabelecer
um
paralelo
entre
a
modelos de formação que devem guiar o
influência do pensamento escolástico no
trabalho educativo foram enfrentados pelos
início da sua implantação até a atualidade.
grandes intelectuais da escolástica, com
metodologias derivadas da grande disputa
sobre razão e fé que atravessa o florescimento
está
Com a queda do Império Romano do
caracterizado, sob o enfoque da análise
Ocidente, houve a organização da sociedade a
imanente, por um conjunto de três elementos
partir da igreja. Esse fator é fundamental para
ou etapas: a fé, a razão e a interpretação.
entender e compreender a escolástica, uma
Sendo que a fé está acima da razão e as
escola que surgiu na idade média como
explicações dos fenômenos estão relacionadas
método
à existência de Deus e a doutrina cristã e não
OLIVEIRA, 2009).
buscam
método
conclusões
escolástico
REVISÃO DE LITERATURA
Escola escolástica
da filosofia escolástica (BATISTA, 2010).
O
3.
puramente
de
ensino
(GUIMARÃES;
racionais
(LIMA, 2006).
No meio das escolas na idade medieval,
surge a escolástica. Considerada como fruto
2.
OBJETIVOS
de conventos, das catedrais e posteriormente,
de universidades medievais (desenvolvimento
Geral:
de várias doutrinas, opiniões e métodos). Essa
Realizar abordagem bibliográfica sobre o
escola se propunha a responder as principais
desenvolvimento científico na égide da escola
questões da época, logo, foi uma forma
de pensamento escolástico.
encontrada pela sociedade medieval para
produzir o saber, tanto da divindade, como
Específicos:
das questões naturais e humanas (OLIVEIRA,
2008). Várias são as definições para a

Apresentar conceitos, definições e
escolásticas:
caracterizar o período escolástico.

Investigar a contribuição da igreja para
o ensino no período da idade média (séculos
XII a XV).
86
[...] a escolástica é a expressão pedagógica do saber
adquirido e completo. Ainda se dialoga, mas entre
mestre e discípulo, ou entre concorrentes e adversários.
Sua forma perfeita é o tratado, ou a suma, em que tudo
se explica a partir de princípios firmes. O diálogo, que
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está sempre aberto a perguntas, que não fecha a
continuidade do pensamento, e está numa relação de
insegurança permanente perante o saber, passa para
segundo plano, mas não desaparece (LUPI, 2013, p. 6).
elas, pois ambas eram provenientes de Deus.
A Escolástica vai além da idade média,
Média, seria pela primeira vez, defrontada por
formando-se em uma longo percurso da
uma filosofia racional e lógica, e sem apelo à
filosofia. Grabmann (1949) considera a
manifestação soberana e à fé. O pensamento
escolástica
pregado por Tomás não era aceito por muitos
como
pensamento
uma
confluência
greco-romano
e
do
patrística,
Assim, a doutrina cristã que era orientada pela
síntese agostiniana durante toda a Idade
teólogos
da
época,
que
embora esteja presente desde os primeiros
interessantes
momentos da idade medieval.
pensamentos aristotélicos (mortalidade da
Essa
escola
possui
um
caráter
discrepâncias
procuravam
entre
os
alma, mundo incriado) e o preceito da Igreja
doutrinário que, primordialmente, de forma
(ROSA, 2012).
inanimada
Base e evolução do pensamento escolástico
e
posterior
de
modo
mais
sistemático, foi elaborada em centros de
estudo, pela dedicação em escrever e ensinar,
A sociedade do século XII começava a se
principalmente homens criativos e favorecido
ressentir de uma justificativa para o controle
em
e
exercido pela Igreja. Afinal, já estavam
entendimento lógico (REALE; ANTISERI,
distantes os séculos subsequentes à queda do
2005).
Império
possuir
capacidade
de
crítica
Romano,
marcados
pela
O principal representante desta escola
desorganização social e a qual a igreja impôs
foi São Tomás, e sua filosofia era considerada
regras e ordem (GUIMARÃES; OLIVEIRA,
como preparação para a fé, e tem uma função
2009).
apologética, ou seja, defesa da fé, isso permite
Nesse
mesmo
século,
surgi
um
discutir com quem não segue nenhum credo.
progresso bastante notável não só na teologia,
Esse filósofo elaborou uma técnica de saber
mas também nas ciências e na filosofia.
único e de transparência lógica, possuindo
Floresceram
assim, um caráter mais aristotélico do que
notáveis escolas, pois a teologia especulativa
platônico-agostiniana (REALE; ANTISERI,
e mística adquiriu o seu caráter específico
2005).
(SANTOS, 2013).
os
estudos
científicos
em
A base de Tomás de Aquino para a
Dessa forma, a elevação do sistema
escola seria a conciliação da razão e fé, e
filosófico medieval surge de um processo de
acreditava que não havia contradição entre
decadência da própria vida cotidiana no final
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do império romano. Este processo vai ser
da escola da abadia de Saint - Victor em Paris
pensado como sistema filosófico por Santo
(JUNGES; CULLETON, 2010).
Agostinho ou Aurélio Agostinho, bispo de
O
séc.
XIV
caracteriza-se
pela
Hipona (354-430), e por São Tomás de
separação definitiva entre a filosofia e a
Aquino (1225-1274) durante a Idade Média,
teologia. A teologia mantém-se em vigor na
fundamentados na busca de uma compreensão
escola franciscana, representada por Duns
racional para a fé (LIMA, 2006).
Escoto e G. de Occam, e a filosofia instala-se
A Escolástica é geralmente dividida
no empírico, no particular e no sensível. A
em três períodos: escolástica medieval,
escolástica
segunda escolástica e
florescimento
a
neo-escolástica
(JUNGES; CULLETON, 2010).
período
um
Espanha
e
notável
Portugal,
Jesuítas, orientadas para a nova interpretação
que se fez da teoria de S. Tomás na Itália. O
Ocorre do século IX ao XV, trata-se
um
em
então
dinamizado pelas ordens dominicanas e dos
Escolástica medieval
de
conhece
de
formação
e
dominicano F. de Vitoria fundou a escola de
de
Salamanca em que se formaram notáveis
desenvolvimento dos grandes temas e teses da
teólogos tomistas, os quais, juntamente com
escolástica (SANTOS, 2013), e ainda, um
os jesuítas de Coimbra e F. Suárez, em
período marcado pela influência dominante
polémica com o escotismo e o nominalismo,
do Platonismo filosóficas ou Neoplatonismo,
defenderam
particularmente no que se refletiu na obra de
tradicional com as novas tendências de
Santo Agostinho (LIMA, 2006).
pensamento da época (LIMA, 2006).
uma
síntese
de
escolástica
Nesse período Agostinho formulou a
máxima "Entender de modo que você pode
acreditar, acreditar que você pode entender",
Segunda Escolástica
uma abordagem que está no coração da
Também conhecido como escolástica
escolástica, e pediu o uso da dialética em
moderna, escolástica barroca ou escolástica
examinar a doutrina cristã. Seus princípios
tardia, trata-se de um período entendido a
foram aplicados com rigor por tais precoce
partir do pensamento desenvolvido segundo a
escolásticos como João Escoto Erígena,
metodologia escolástica durante o século XVI
Anselmo Santos, Abelardo Pedro, Alan de
e início do século XVII, e nessa mesma época
Lille, e inúmeros professores em escolas da
esta forma de pensamento alcança um elevado
catedral de Laon, Chartres, Paris, Poitiers, e
nível intelectual (SANTOS, 2013).
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Revista de Publicação Acadêmica da Pós-Graduação do IESPES
A Reforma Protestante no século XVI
estimulou um reavivamento da teologia por
um retorno à linguagem da Bíblia, os Padres
da Igreja, e os grandes escolásticos do século
Kant e Hegel e pelo Iluminismo (SANTOS,
2013).
Neo-Escolástica
XIII. Esta segunda escolástica foi ajudada
Na segunda metade do século XIX
pela fundação (1540) da Companhia de Jesus
surgi a Neo-Escolástica na Itália, Espanha e
(Jesuítas) por Santo Inácio de Loyola, com a
França, restrita aos centros e instituições de
aprovação do Papa Paulo III. Os escolásticos
ensino
jesuítas deste período foram São Roberto
circunstância foi funesta para a Filosofia
Belarmino, Francisco Suarez, e Gabriel
Medieval, pois por necessidade de currículos
Vazquez (JUNGES; CULLETON, 2010).
e de método pedagógico a filosofia medieval
ligadas
à
Igreja
Católica,
essa
Devido em grande parte à revolução
foi reduzida à simplificação de alguns autores,
científica do século XVII (a começar com o
escondendo a riqueza da sua real produção e
Galileo), a busca da originalidade filosófica
criação, e dando razão efetiva aos seus
(começando com Rene Descartes), a ascensão
desafetos (LUPI, 2013).
Esse
do nacionalismo e da colonização, e o
período
se
consolida
pela
desmoronamento das religiões protestantes, a
publicação da encíclica Aeterni Patris, do
segunda
Papa Leão XIII, no dia 4 de agosto de 1879.
escolástica
diminuiu.
Algumas
formas de livro didático escolástica, no
Essa
entanto, permaneceram por um tempo em
quantidade de estudos sobre a escolástica e,
países católicos, em particular Espanha e
por consequência, a criação de universidades,
América Latina (JUNGES; CULLETON,
centros de estudos e de cultura voltados para
2010).
o conhecimento e pesquisas de temas
Por volta do século XVIII há uma
publicação
relacionados
a
trouxe
forma
uma
de
grande
pensamento
decadência da Escolástica, chegando a receber
escolástico. Dessa forma, a escolástica deve
críticas
ser compreendida como uma escola de
ou
hostilidade
mesmo
de
um
alguns
sentimento
pensadores.
de
Essa
pensamento
presente
na
sociedade
decadência esteve relacionada com o início do
contemporânea e não como uma escola presa
interesse por outros pensamentos filosóficos,
a Idade Média, pois até hoje notamos suas
destacando-se a filosofia de Descartes, os
contribuições
novos sistemas filosóficos desenvolvidos por
universidades, organização e divisão das
89
como
o
ensino
nas
Revista de Publicação Acadêmica da Pós-Graduação do IESPES
diferentes áreas de estudos (trivium e
o futuro de tudo. O homem não discute a sua
quadrivium) (JUNGES; CULLETON, 2010).
crença,
apenas
crê.
Essa
mentalidade,
considerada uma variante do pensamento
Características da escola escolástica
religioso, se caracteriza como aquela em que
O interesse da escolástica é, sobretudo,
a
presença
de
Deus
é
total
e
rege
especulativo, e a sua glória é a elaboração da
completamente todo o pensamento, que tudo
filosofia cristã. Entende-se por escolástica a
vem de Deus e tudo é causado pela vontade
filosofia e a teologia ensinada nas escolas
divina. Tudo que é mau é considerado como
medievais, buscando a relação entre estas e
obra do diabo (LUPI, 2013).
assim estimulando a discussão (REALE;
ANTISERI, 2005).
A
filosofia
escolástica
colocou
a
especulação filosófica de acordo com a fé, e
A escolástica dá fundamentação filosófica
nada que seja contra alguma doutrina imposta
à fé. Por meio da dialética que ela propõe é
pela igreja, seja ensinado como certo. A
possível refletir e compreender o assunto
doutrina
exposto, e as pessoas envolvidas ampliam seu
constituída pelas doutrinas que os filósofos
ponto de vista.
escolásticos
Ela sugere respostas, cria
da
filosofia
concordavam.
escolástica
Sua
ética
era
é
questionamentos e promove debates que
normativa e dependente da religião cristã e se
contribuem para o bem da sociedade, sendo
define
responsável pelo método de ensino que
(OLIVEIRA, 2008).
caracterizou
as
universidades
por
seu
conteúdo
doutrinal
medievais
Fatores
(GUIMARÃES; OLIVEIRA, 2009).
O pensamento desta época é norteado pela
que
contribuíram
para
o
desenvolvimento da escolástica
tradição religiosa, onde a igreja protege o
A sociedade medieval, de acordo com
pensamento contra os erros e tem autoridade
Le Goff (1995) entre os séculos V e XI, era
quanto a este princípio, inserindo também
monopolizada pelos chefes da igreja, por
uma doutrina filosófica que é instrumento
conseguinte, os notáveis da educação, dotados
desta investigação intelectual (OLIVEIRA,
de poderes, definiam os caminhos a serem
2008).
seguidos, os quais eram obedecidos pela
Este período é caracterizado por ter
pensamento
medieval,
onde
o
escolástico acredita que Deus
homem
criou o
Universo e é Ele quem controla e é a origem e
90
maioria, seja no âmbito político, econômico
ou espiritual.
Revista de Publicação Acadêmica da Pós-Graduação do IESPES
[...] a sociedade reduz-se ao confronto entre dois
grupos; os clérigos e os leigos numa perspectiva, os
poderosos e os fracos, ou os grandes e os pequenos, ou
ainda os ricos e os pobres quando apenas se considera a
sociedade laica, e os livres e os não livres quando se
está no plano jurídico. [...] Uma minoria monopoliza as
funções de direção – direção espiritual, direção
política, direção econômica; a massa, sujeita-se (LE
GOFF, 1995, p. 12).
seus desenvolvimentos, representa toda a era
medieval. O binômio fé e razão embasa essa
escola,
porém
predominantemente
a
razão
em
é
função
posta
da
fé
(OLIVEIRA, 2008). Assim, a base era não
apenas crer, mas seria também preciso
Nessa perspectiva, a ocupação da
igreja preenchera o espaço que outrora
compreender. Reale e Antiseri (2005) analisa
este período da seguinte forma:
pertencera ao estado romano, no qual as
escrituras se tornara padrão de conduta e
valores a serem adotados, ocorrendo desta
forma a expansão do seu modelo de comando
e organização existentes no ambiente clérigo
com
aplicação
no
âmbito
político
(GUIMARÃES; OLIVEIRA, 2009).
A escolástica no período medieval
proporcionou
importantes
debates
[...] mais do que um conjunto de doutrinas, entendemos
por escolástica a filosofia e a teologia que eram
ensinadas nas escolas medievais. Essa é urna
caracterização de certa forma extrínseca, mas
significativa e útil: útil, porque nos liberta da tarefa de
precisar logo o corpo doutrinário que se pode chamar
"escolástico", significativa, porque nos transporta para
o ambiente em que tais doutrinas foram elaboradas,
pensadas e aprofundadas a partir da primeira
reorganização medieval das escolas (REALE;
ANTISERI, 2005, p. 121).
sobre
Essa
temas que, séculos depois, orientaram a
modernidade,
dos
quais
destacam-se
a
linguagem, o método e a lógica. No que tange
ao desenvolvimento da história das ideias, a
escolástica trouxe grandes contribuições com
destaque de Tomás de Aquino como uns dos
principais pensadores (SANTOS, 2013).
escola
contribuiu
significativamente para a filosofia, em virtude
da sua considerável rigidez metodológica e
dialética. Os acadêmicos das universidades da
época
se
destacavam
por
possuir
boa
oralidade e argumentos, isso se deve ao uso
da lógica formal e intermediada por um
mestre. Porém, algumas dificuldades nessa
A escolástica como filosofia e método de
época foram encontradas:
ensino
Muitos estudiosos já se dedicaram a
entender as bases do pensamento da filosofia
escolástica, na qual as escolas medievais
edificaram seus princípios teóricos. Pode-se
dizer que a escolástica, na sua gênese e nos
91
[...] as autoridades eclesiásticas resistiriam à intrusão
de filósofos pagãos, temendo a violação da verdade
cristã, proibindo, de início, mas sem sucesso, o ensino
de algumas obras de Aristóteles (Física, em 1211,
Metafísica e Filosofia Natural em 1215) (ROSA, 2012,
p. 345).
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Nos textos escolásticos predominavam
inúmeras
citações
de
autores,
a
que
intelectuais (studium) que se apoiava nos
poderes
tradicionais
do
regnum
e
do
denominam de autoridades, com os quais
sacerdotium (camadas sociais muito definidas
concordam ou discordam, acompanhando
da idade média). Em plano secundário, foi
sempre a mesma técnica de argumentação, em
possível ajudar na superação das diferenças
busca da definição de várias verdades ou de
de classes sociais, ou seja, um novo tipo de
uma única verdade, o que hoje é denominado
nobreza que era dependente da cultura
de objetividade ou de ciência. O ensino
adquirida (ARANHA; MARTINS, 1986).
universitário escolástico era realizado por
O ensinamento do pensamento antigo
intermédio de disputas e questionamentos
nas
escolas,
nos
mosteiros
e
nas
(sistematizado em diálogos – forma oral e
universidades, foi transpassado pelos escritos
redigidos) (ALMEIDA, 2005).
sagrados por meio dos mestres escolásticos, e
As primeiras universidades nasceram
demonstravam o modo como os posteriores
em Bolonha e em Paris, entre os séculos XII-
monges, ou seja, os futuros líderes dos
XIII sob a forma de fusão corporativa de
poderes eclesiásticos e laicos precisavam
mestres e acadêmico. Porém, com o passar
proceder e pensar. Embora o conhecimento
dos anos novos acontecimentos e surgimentos
tenha alcançado também até os mais carentes
foram registrados.
por meio da religiosidade, esses poderes eram
concedidos
[...] A partir do século XI surgem as universidades (de
Paris, Bologna, Oxford etc.), que, espalhadas por toda a
Europa, tornam-se locais de fecunda reflexão
filosófica. Já no século XII, aparecem traduções de
obras de Arquimedes, Hero de Alexandria, Euclides,
Aristóteles e Ptolomeu. Muitas vezes o pensamento
desses autores chegava deformado à Europa, pois era
traduzido do grego para o sírio, do sírio para o árabe,
do árabe para o hebraico e do hebraico para o latim
medieval. Por isso, a Igreja condenou de início o
pensamento aristotélico, que na tradução árabe
adquirira contornos panteístas (ARANHA; MARTINS,
1986, p.151).
Esses surgimentos de universidades
refletiram na sociedade, trazendo também
contribuições
que
foram
notáveis.
Primeiramente, essa contribuição foi no
âmbito de formação de uma classe de
92
apenas
a
filhos
de
nobres
(OLIVEIRA, 2008).
[...] Em relação ao mundo material, não podemos
esquecer que as ações dos homens no medievo, em
geral, foram delineadas por suas crenças e estas
definiam os seus atos. Essa influência atingia, de forma
mais acentuada, àqueles que tinham acesso ao ensino
nas escolas, pois construíam uma interpretação do
mundo pautado na religiosidade, do mesmo modo que
os humildes, mas ao mesmo tempo, formavam-se no
conhecimento antigo sobre as ciências da natureza
(OLIVEIRA, 2008, p. 6)
Na idade média foi retomada a tradição
grega, sendo observado pela valorização do
conhecimento
teórico
em
função
das
atividades práticas. E assim, a ciência
continua voltada para a discussão racional e
Revista de Publicação Acadêmica da Pós-Graduação do IESPES
separada da técnica e da pesquisa empírica
responsáveis por essa organização, fundou
(ARANHA; MARTINS, 1986).
escolas e estruturou o sistema de ensino do
A lógica e a metodologia escolástica eram
bastante
suas
(1949, p. 32), Alcuíno distribuiu as disciplinas
deficiências. Sobretudo no aspecto dedutivo, a
que compunham o currículo em duas partes, o
lógica grego-medieval é muito valorizada
trivium e o quadrivium “[...] as artes liberais,
pelos historiadores da lógica. No entanto, no
das sete disciplinas livres do Trivium
tocante ao uso da intuição, como muitas vezes
(Gramática, Lógica ou Dialética e Retórica) e
foi demonstrado, é um tanto ingênua.
o
Inclusive, nesse período histórico, conhecia-
Astronomia e Música)”.
se
o
aceitáveis,
método
apesar
hipotético
de
império carolíngio. Conforme Grabmann
-
Quadrivium
(Geometria,
Aritmética,
dedutivo
No método escolástico debatiam-se
desenvolvido por Grosseteste, Rogerio Bacon
questões e opiniões, fundamentando-as com a
e São Alberto Magno, o mestre de São
razão. Os escolásticos procuravam conciliar
Tomás. Nesse mesmo período, também se fez
os ensinamentos da doutrina cristã com o
uso do aparato matemático, mesmo que de
platonismo e o aristotelismo. Esse termo não
forma incipiente, como é o caso dos
significa exclusivamente filosofia medieval
matemáticos de Oxford (BEUCHOT, 2010).
nem religiosa. É um método de produção de
conhecimento
A igreja e o ensino da alta idade média
O
surgimento
da
escolástica
fundado
na
disputa,
no
confronto de perspectivas visando respostas
foi
sustentadas na razão (SANTOS, 2013).
primordial para a igreja (ZILLES, 1996). Pois
A idade média é conhecida como um
com o declínio do império romano, tornou-se
período
intermédio
necessária a formação mais aperfeiçoada dos
somente
manteve
padres.
lentamente
filósofos antigos e a tradição dos primeiros
constituíram-se os seminários para preparação
padres da Igreja. Tratar-se-ia, portanto, de
do clero, com professores e alunos fixos e
uma recopilação do já visto e criado. Embora
cursos regulares, a fim de oferecer melhor
a Escolástica busque na antiguidade e nos
orientação aos fiéis (SANTOS, 2013).
padres da Igreja a fonte de informação,
Em
virtude
disto,
O ensino do período escolástico ocorria
nas escolas palatinas (nos palácios), abaciais
(nas abadias) e episcopais (junto às catedrais).
O monge beneditino de York, dentre os
93
porque
o
nada
criou,
conhecimento
dos
observa-se que sua base teórica de explicação
do mundo está baseada em uma instituição,
por
essência
Inicialmente,
medieval,
as
escolas
as
escolas.
monásticas,
Revista de Publicação Acadêmica da Pós-Graduação do IESPES
especialmente na alta idade média, depois nas
caracterizada por intensa religiosidade, onde a
escolas palacianas, nas citadinas e laicas do
igreja influenciava de forma significativa no
século XII e, por fim na universidade
pensar, na psicologia e no comportamento do
(OLIVEIRA, 2013).
homem medieval. E foi principalmente no
A escolástica buscava por meio da lógica
interior de conventos e catedrais que surgiu
aristotélica, conciliar a razão e a fé, com
uma filosofia (pensamento escolástico) que
intenção de que ambas não se contrariassem,
posteriormente, alcançou as universidades
pois procediam da mesma fonte. Neste
medievais,
sentido, se a razão ajuda a aceitar a fé, a fé
opiniões e métodos, e alcançou proporções de
ajuda a inteligência a entender a verdade das
vir a conduzir a sociedade à modernidade.
e influenciou
nas
doutrinas,
coisas. Isto implicaria na compreensão da
O período medieval contribuiu muito para
realidade por meio da razão, pois os sentidos
o desenvolvimento dos vários setores da
somente dão um conhecimento da aparência
sociedade humana e representou bem o seu
das coisas, e a razão pode, contudo, conduzir
papel de colaborar para o progresso. A maior
o raciocínio errado (ROSA, 2012).
parte desta contribuição foi devido a filosofia,
4.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
sobretudo a escolástica.
A escolástica trás, por meio do diálogo,
Com a queda do império romano a igreja
uma visão mais ampla sobre assuntos
assumiu o papel de organização da sociedade.
expostos, tendo a religião e a fé como sua
Neste contexto histórico, surge a escolástica
base de ensino. É, portanto, a filosofia cristã,
que foi fundamental para o aprimoramento do
na qual a igreja impõe a doutrina que é
saber. Dentre os temas mais polêmicos
ensinada, tendo ela grande soberania sobre a
abordados na época destacam-se a razão e a
educação.
fé, que nas escolas escolásticas buscavam a
compreensão racional, sem que houvesse
REFERÊNCIAS
contradição entre ambas. A escolástica foi
responsável pelo método de ensino, que
caracterizou as universidades medievais e
baseou-se substancialmente na leitura e nos
comentários dos textos antigos, sagrados ou
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profanos.
Verifica-se que a idade média foi um
período
94
complexo
de
ser
entendido,
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