RESENHA - REQUIEM PARA UM SONHO

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RESENHA - Requiem para um Sonho
Mariana Lange – estagiária da Clínica de Psicologia
O filme Requiem para um sonho (2000), dirigido por Darren Aronofsky, trata do entrelace de
pessoas envolvidas com seus sonhos e expectativas. São histórias marcadas por idealizações, fantasias
e esperança, trajetórias diferentes, mas com algo em comum: a tentativa de alcançar a tão sonhada
felicidade.
Sara, uma viúva com cerca de 60 anos, vive sozinha. Sua vida social se restringe às conversas
com as vizinhas, senhoras em situação não muito diferente. Sara tem um único filho, Harry, no qual
deposita suas maiores expectativas: gostaria que ele casasse com uma boa moça e que com ela tivesse
filhos. Sonha em ver seu filho bem-sucedido (que mãe não sonharia?), em ver seus esforços
recompensados. Gostaria que seu falecido esposo se orgulhasse da família que construíra.
Enquanto Harry inicia-se no mundo do tráfico de drogas para conseguir dinheiro fácil, sua mãe
orgulha-se do filho “empresário” que acredita ter. Sara contenta-se com as raras visitas do filho e
segue sua vida sem muito entusiasmo, pois, para uma senhora sozinha, todos os dias parecem iguais.
A vida de Sara ganhou novo ânimo quando um telefonema trouxe a chance de poder participar
de seu programa de televisão favorito, um conhecido programa de auditório. Sua vida, daí em diante, é
aguardar a tão sonhada oportunidade de ir ao programa e apresentar sua bela família.
Sara espera ansiosamente por esta data, na qual pretende usar o mesmo vestido que usou na
formatura de Harry. Percebendo que o tempo passou e que a rotina dos últimos anos deixou marcas
evidentes, Sara resolve perder peso para ficar mais bonita e poder usar o vestido vermelho que seu
marido tanto admirava.
Cabe aqui perguntar: quanto vale a pena investir em um sonho? Como medir o preço quando é
a felicidade que está em jogo? Estas são questões suscitadas pelo filme Requiem para um sonho,
questões estas que concernem a cada um de nós, de uma maneira ou de outra.
Sara recorre a dietas para perder peso e fracassa. Encontra, então, a solução ideal: pílulas para
emagrecer. Tomando alguns comprimidos ao dia, um de cada cor e em horários determinados, o
resultado é fantástico. No entanto, algumas complicações aparecem e, sem que Sara possa perceber,
sua vida está regulada por drogas de alto poder de dependência.
O filme mostra a negligência de um profissional de saúde no que se refere à atenção
individualizada que cada paciente merece. Sara faz uma consulta que dura segundos e sai com a
prescrição médica. Meses depois volta ao consultório e reclama que algo não está bem, pois seu peso
está ok, mas ela não está. Volta para casa com mais uma prescrição médica. Simples, porém, perigoso.
A vida de Sara, assim como a dos demais personagens do filme, é movida por um sonho. Sua
trajetória vai do tédio e da solidão à busca desenfreada pela realização de um ideal. É uma história
como tantas outras, afinal, quem não quer ser feliz? Investir em um sonho é o primeiro passo para
concretizá-lo, no entanto, muitas vezes, não há limites quando um ideal é a única razão de viver de
uma pessoa.
Freud (1930) já dizia que todo ser humano quer ser feliz ou, ao menos, ter momentos de
felicidade. Sabemos que hoje as sensações físicas de bem-estar estão disponíveis, em cápsulas, na
farmácia mais próxima. É fundamental alertar para as implicações, muitas vezes desconsideradas, de
se resolver o mal-estar pela via rápida que as substâncias químicas oferecem, pois o que pode começar
como um simples recurso paliativo contra a dor pode colocar a perder toda a dimensão desejante de
um sujeito.
O homem é mais que um organismo, ou seja, não se restringe a um ser biológico. Elisabeth
Roudinesco (2000) adverte sobre o poder da ideologia medicamentosa em nossa sociedade e coloca
que a ilusão de cura oferecida pelas substâncias químicas transmite a idéia de que é possível descartar
a dimensão subjetiva e resumir tudo ao biológico.
Sara começa a ver coisas que não existem, objetos ameaçadores aproximando-se dela,
sensações delirantes que transformam sua vida num verdadeiro inferno. Não é fácil perceber o ponto
exato, a linha divisória entre o momento em que Sara ainda tinha controle sobre si e o momento em
que deixou de viver a própria vida em função de sua dependência. Em outras palavras, assistimos ao
gradual apagamento do sujeito do desejo.
Até que ponto é seguro embarcar em uma proposta em que o sujeito fica alienado ao que lhe
acontece, como no caso da medicação cujos componentes o paciente desconhece e mesmo assim
ingere sem controle? Até que ponto vale a pena fechar os olhos e idealizar uma perfeição distante da
realidade?
Sara, dominada pelos efeitos do excesso de medicação, não controla mais seu corpo nem sua
fala. Tida como demente, a senhora de aspecto descuidado e frases insensatas é imobilizada e sedada.
Ninguém lhe dá ouvidos, pois suas palavras já não fazem sentido. Sara é tratada com eletrochoques e
passa o resto da vida em um hospício sonhando com o dia em que mostraria sua bela família em seu
programa de auditório favorito.
Referências Bibliográficas:
FREUD, Sigmund. Mal-estar na civilização. In: Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de
Janeiro: Imago, 1930, v XXI.
ROUDINESCO, Elisabeth. Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
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