O normal - Cognitivo Comportamental - Dienesaraiva

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O normal, o patológico e a Análise do Comportamento.
POR: LIVIA RECH DE CASTRO
Em nosso dia-a-dia é cada vez mais comum deparar-nos com notícias e discussões
acerca de psicopatologias e transtornos mentais. Há uma curva crescente em relação ao
contingente de pessoas que sofre com isso e normalmente encontramos uma visão bem
diferente
da
Análise
do
Comportamento
sobre
esta
questão.
A psicopatologia tem parte de suas origens no modelo médico, o que propiciou, nos
últimos dois séculos, a observação prolongada e cuidadosa de um considerável
contingente de doentes mentais. O campo da psicopatologia engloba um grande número
de fenômenos relativos ao que se denominou historicamente de doença mental:
vivências, estados mentais e padrões comportamentais que apresentam especificidades
psicológicas
(Dalgalarrondo,
2008).
Neste sentido, quando se estudam os sintomas psicopatológicos, dois aspectos básicos
costumam ser enfocados: a forma com que os sintomas se manifestam como uma
estrutura básica que assemelha-se em diversos pacientes e o conteúdo destes sintomas,
que preenchem esta alteração estrutural. (Dalgalarrondo, 2008) Esta visão, engloba os
conceitos de saúde e normalidade em psicopatologia, questão de grande controvérsia.
Em casos limítrofes, em que este tipo de delimitação é bastante difícil, o conceito de
normalidade em saúde mental ganha especial relevância. Há vários critérios de
normalidade e anormalidade que variam em função dos fenômenos específicos com os
quais se trabalha e de acordo com as opções filosóficas de cada profissional, como por
exemplo: normalidade como ausência de doença (ausência de sintomas); normalidade
estatística (fenômenos quantitativos com determinada distribuição estatística na
população); normalidade funcional (fenômeno é considerado patológico a partir do
momento
que
é
disfuncional
e
produz
sofrimento),
etc.
No modelo médico de psicopatologia, há o pressuposto de que a doença ou transtorno
é manifestação de uma patologia subjacente. Assim, identificando-se e definindo-se uma
doença, deve-se buscar uma terapêutica específica. Esta terapêutica é geralmente
farmacológica e sua eficácia é baseada em estudos de comparação entre grupos, o que
fornece uma medida estatística de sua eficácia. No modelo médico, são também
estatísticos os critérios para a definição do comportamento patológico, sendo
considerados desta forma em geral, aqueles padrões que diferem significativamente da
média
da
população
(Banaco,
Zamignani
&
Meyer,
2010).
A perspectiva médica sobre psicopatologias certamente difere do modelo analítico
comportamental de análise, cujos critérios de avaliação são essencialmente funcionais.
A proposta de compreensão de fenômenos clínicos oferecida pela análise do
comportamento oferece inovação, se comparado ao cenário das abordagens da
psicologia que desenvolviam atividades clínicas com o modelo de psicopatologia e de
diagnóstico psicológico pautados em explicações intrapsíquicas. Com base em uma
perspectiva científica e “externalista”, ela rejeita qualquer explicação metafísica sobre o
comportamento. Além disso, tem como referência o modelo de pesquisa de sujeito único
ao invés de métodos de produção de conhecimento com base em pesquisas estatísticas
(Banaco,
Zamignani
e
Meyer,
2010).
A classificação de padrões comportamentais como transtornos mentais é determinada
por práticas que estabelecem os padrões socialmente aceitos ou não, originadas na
cultura. Assim, padrões que violam expectativas sociais são tratados como “anormais”
ou “psicopatológicos”. Estas práticas culturais são resquícios do dualismo metafísico da
Idade Média, que atribuía estes padrões comportamentais à faltas ou déficits mentais.
Além disso, outra prática cultural que classifica os organismos entre “normais” e
“anormais” é o modelo estatístico de normalidade, como apontam os manuais
diagnósticos tais como a Classificação Internacional de Doenças (CID) e o Manual
Diagnóstico Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) (Vilas Boas, Banaco & Borges,
2012).
Assim, por acreditar que os padrões de comportamento do indivíduo são fruto de um
entrelaçamento de processos de variação e seleção nos três níveis (filogenético,
ontogenético e cultural), a Análise do Comportamento não compreende nenhuma forma
de comportamento “psicopatológico”, “desadaptativo” ou “anormal”, visto que decorrem
de variação e seleção como qualquer outro, e são selecionados por suas consequências.
(Vilas Boas, Banaco & Borges, 2012). Em outras palavras, tendo em vista que a Análise
do Comportamento compreende que os produtos comportamentais são resultado de
histórias de variação e seleção, nos níveis biológico, individual e cultural, se os
comportamentos ditos “patológicos” se mantém é porque de alguma forma produzem
reforço significativo, logo, estão adaptados em algum grau (Sidman, 1966).
De acordo com uma notícia veiculada pelo Estadão em fevereiro de 2012, quase 30%
dos habitantes da Região Metropolitana de São Paulo apresentam transtornos mentais.
A prevalência de transtornos mentais na metrópole paulista foi a mais alta registrada em
todas as áreas pesquisadas. O trabalho que gerou o artigo “"Estudos epidemiológicos
dos transtornos psiquiátricos na região metropolitana de São Paulo: prevalências, fatores
de risco e sobrecarga social e econômica" faz parte da Pesquisa Mundial sobre Saúde
Mental, iniciativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) que integra e analisa
pesquisas epidemiológicas sobre abuso de substâncias e distúrbios mentais e
comportamentais. O estudo é coordenado globalmente por Ronald Kessler, da
Universidade Harvard (Estados Unidos). Aqui no Brasil, entre os autores do artigo estão
Laura Helena Andrade, professora do Departamento e Instituto de Psiquiatria da
Faculdade de Medicina (FM) da Universidade de São Paulo (USP), e Maria Carmen
Viana, professora do Departamento de Medicina Social da Universidade Federal do
Espírito
Santo
(Ufes).
O estudo avaliou uma amostra representativa de residentes da região metropolitana de
São Paulo, com 5.037 pessoas avaliadas em seus domicílios, a partir de entrevistas
feitas com base no instrumento diagnóstico, e os questionários incluíram dados sociais.
Segundo o estudo, 29,6% dos indivíduos na Região Metropolitana de São Paulo
apresentaram transtornos mentais nos 12 meses anteriores à entrevista. Os transtornos
de ansiedade foram os mais comuns, afetando 19,9% dos entrevistados. Em seguida,
aparecem transtornos de comportamento (11%), transtornos de controle de impulso
(4,3%)
e
abuso
de
substâncias
(3,6%).
A prevalência dos transtornos mentais, de quase 30%, é a mais alta entre os países
pesquisados. Os Estados Unidos aparecem em segundo lugar, com pouco menos de
25%. A razão da alta prevalência, de acordo com a pesquisadora, pode ser explicada
pelo cruzamento de duas variáveis incluídas no estudo: a alta urbanização e a privação
social.
Diante disso é interessante fazer uma relação com o aumento dos índices das
psicopatologias, mais especificamente após a II Guerra Mundial: as mudanças políticas,
econômicas e sociais em nossa cultura teriam provocado esta “adaptação” do
comportamento? Talvez não tenhamos “provas” ou embasamento suficiente para uma
resposta totalmente afirmativa. Porém, diante da diferença destas variáveis culturais e
tendo a cultura um papel fundamental na seleção deste tipo de padrão comportamental
(definido como psicopatológico), alguma relação entre estes dois aspectos fica evidente.
Portanto, enquanto analistas do comportamento, temos também um papel de promover
mudanças sociais (de contingências), como mais uma ferramenta de nosso trabalho.
Referências
Banaco, R. A., Zamignani D. R. & Meyer, S. B. (2010). Função do Comportamento e do
DSM: Terapeutas Analítico Comportamentais Discutem a Psicopatologia. Em E. Z.
Tourinho & S. V. Luna (Orgs), Análise do Comportamento: Investigações Históricas,
Conceituais
e
Aplicadas.
(pp.
175-191).
São
Paulo:
Roca.
Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,grande-sao-paulo-tem-altaprevalencia-de-transtornos-mentais,841047,0.htm
Sidman, M. (1966). Normal sources of pathological behavior. Em R. Ulrich, T. Stachnik &
J. Mabry (Orgs.). Control of human behavior (pp. 42-53). Glenview: Scott, Foresman and
Co.
Vilas Boas, D. L. O., Banaco, R. A. & Borges, N. B. (2012). Discussões da análise do
comportamento acerca dos transtornos psiquiátricos. Em N. B. Borges & F. A. Cassas
(Orgs.), Clínica Analítico Comportamental: aspectos teóricos e práticos. (pp. 95-101).
Porto Alegre: Artmed.
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