O CASO FIFAGATE Marcos Fabrício Lopes da Silva* No bom e

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O CASO FIFAGATE
Marcos Fabrício Lopes da Silva*
No bom e velho popular, ética tem a ver com vergonha na cara, com decência, com postura anticorrupção. A
lógica do resultado, da meta e do sucesso acaba se impondo de tal forma que os procedimentos e a maneira de atingir um
objetivo acabam sendo sucateados e colocados como uma questão menor. Quando isso acontece, o indivíduo e a
coletividade tendem a se corromper, entrando na armadilha do fantástico enriquecimento ou da enorme vantagem,
mediante um esforço mínimo. Essa “tecla de atalho” desafina todo o piano, pois o encurtamento ilegal do empenho
revela defeito de caráter grave.
Existe um lema pernicioso do marketing predatório e que acabou contaminando todo o conjunto social: “Fazemos
qualquer negócio”. Essa lógica significa que qualquer negócio é válido. De alguma maneira, essa filosofia reforça a ênfase
no resultado, isto é, a pulsão da vitória a qualquer custo. Porém, como adverte Mario Sergio Cortella, em Ética e vergonha
na cara! (2014): “Nem todo sucesso é decente, nem toda vitória é honrosa ou, no campo da empresa, nem todo lucro é
higiênico. Desse ponto de vista, há coisas que sujam o tipo de sucesso que se obteve”.
O futebol também entrou na roleta russa da ética dos resultados, a considerar a fama do seu famoso bordão: “o
importante é a bola na rede”. A maneira como o gol foi feito ganha, infelizmente, tratamento secundário. Com isso, temse a ilusão de que tudo pode acontecer dentro das “quatro linhas”. O escândalo de corrupção denominado pela imprensa
como “Fifagate” traz à tona a importante advertência ética de que os fins não justificam os meios. Informa o Correio
Braziliense, edição de 28/5/2015, em matéria de capa, que: “uma operação liderada pelo FBI abalou ontem o mundo do
futebol. Foram presos, na Suíça, o ex-presidente da CBF José Maria Marin e outros seis integrantes do alto escalão da
poderosa Federação Internacional de Futebol. [...] No total, 14 pessoas, entre dirigentes da organização futebolística e
empresários, são acusadas de crimes como fraude, extorsão, lavagem de dinheiro e propinas envolvendo competições
como a Copa América, que começa em junho no Chile, Copas do Mundo, acordos de marketing e de transmissão de
jogos pela televisão”.
O Correio Braziliense destaca, ainda, que “investigação do FBI, iniciada há três anos, constatou fraude generalizada
na Federação Internacional de Futebol (Fifa) nas últimas duas décadas. No período, foram transacionados US$ 150
milhões em pagamento de propina, extorsão, suborno e lavagem de dinheiro”. O ex-presidente da CBF, José Maria
Marin, é acusado de receber mais de R$ 60 milhões de suborno, noticia o periódico. Muito oportuna a opinião expressa
pelo jornal brasiliense, no editorial Corrupção em campo: “A ética e a honestidade, pilares das competições, devem,
igualmente, pautar a conduta das organizações que congregam modalidades esportivas. Em campo não valem falcatruas”.
O jornalismo teve atuação decisiva nas investigações feitas pela polícia americana que se apropriou, dentre outros
elementos, das informações apuradas pelo repórter Andrew Jennings. O jornalista britânico, em depoimento dado ao
Roda Viva, da TV Cultura, salientou que a corrupção toma conta da Fifa, desde a entrada de João Havelange no comando
da entidade. O dirigente foi presidente da Fifa, durante 24 anos (1974-1998). Mesmo considerando esta “bola dentro” do
jornalismo investigativo, o mesmo não se pode dizer da imprensa de entretenimento. Ela, ao dar “bola fora”, se colocou
imprudentemente como responsável direta pelos tenebrosos “acordos de marketing e de transmissão de jogos”. Regras
contratuais nebulosas costumam tomar conta da sociedade do espetáculo, promovida pelo futebol mercadologicamente
adulterado.
Convém lembrar que o futebol, no Brasil, se configura como o principal esporte em matéria de apelo público e,
por isso, colabora decisivamente para a indústria esportiva nacional. Segundo o Instituto Brasileiro de Marketing
Esportivo, as ações mercadológicas voltadas para o esporte movimentam em média R$ 31 bilhões por ano, o que equivale
a 3,3% do Produto Interno Bruto. Considerada a quarta indústria nacional, o setor esportivo registra um crescimento
médio de 12,3%, empregando diretamente mais de 300 mil pessoas, segundo o estudo de mercado realizado pela Rede
Bahia de Televisão. Os números da indústria esportiva no mundo movimentam em torno de um trilhão de dólares ao ano.
Estes dados ajudam a explicar a participação maciça de jogadores como celebridades publicitárias, uma vez que eles
simbolizam o exemplo de pessoas bem-sucedidas, como reza o narcisismo social galopante. O nome do atleta de futebol
não só o identifica, mas serve, principalmente, como marca pessoal a serviço do marketing esportivo predatório. Neste cenário
exibicionista, o gramado e o estúdio têm o mesmo peso de validação, se o assunto for promover o “craque da vez” e os
seus “quinze minutos de fama”.
O Fifagate demonstra com todas as letras que o futebol se transformou em um birô de negociatas em que cartolas
fazem fortunas pessoais. Aponta também para o óbvio ululante acerca do empobrecimento artístico do esporte bretão. A
respeito, o escritor Michel Yakini, em Crônicas de um peladeiro (2014), apresenta uma reflexão criativa importante:
“Começa o segundo tempo de mais uma rodada do Campeonato Paulista, o Paulistão CHULÉVROLET, com o
oferecimento de CASAS BACIA – PRESTAÇÃO QUEM PAGA É VOCÊ! E a Ponte Pequena toca a bola na
intermediária do Guaraná. Penteado, o craque TINTAS SEMVERGONHA da última rodada avança, ajeita pra
Canhotinha, bateu... De-fen-deu Moicano, que defesa espetacular, Repórter Sem-Sal: Grande defesa, NarradorDinossauro, salvando a equipe do Guaraná, essa defesa merece uma FAHMA – A GELADA DO FUTEBOL”.
* Professor da Faculdade JK, Distrito Federal. Jornalista, poeta e doutor em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da UFMG.
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