UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU” INSTITUTO A VEZ DO MESTRE Formação Docente, Caminhos Possíveis a Luz da Neurociência Por: Juliana de Jesus Monteiro Orientador Prof. ª Marta Relvas Rio de Janeiro , Janeiro de 2011 2 UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU” INSTITUTO A VEZ DO MESTRE Formação Docente, Caminhos Possíveis a Luz da Neurociência Apresentação Candido de Mendes monografia como à requisito Universidade parcial para obtenção do grau de especialista em Neurociência Pedagógica. Por: . Juliana de Jesus Monteiro 3 AGRADECIMENTOS Primeiramente, agradeço a Deus, minha fortaleza, que me concedeu um espírito que percebe a necessidade de viver a plenitude do “ser gente”. Por conta desse espírito, que reconhece a incompletude e imperfeição do ser, busco, a cada dia, o autoconhecimento, avaliando minha jornada e retomando alguns caminhos, num processo de reconstrução contínua, interminável. Aos meus pais. Eles são os grandes responsáveis pela minha autonomia e pela percepção que tenho de que na desordem, em meio ao inesperado, é possível fazer emergir forças e evoluir. Á Marcos, por toda paciência e companheirismo. À professora e orientadora Marta Relvas. Para sempre será lembrada, por seu estímulo inicial, por sua dedicação e brilhantismo intelectual. Aos meus amigos, Aline Zivianni, Michele Soares, Fabiana Carvalho, amigo e irmão Francisco Monteiro a os quais me estiveram sempre presentes pacientemente ouvindo-me ler os textos, capítulos idéias e descobertas em neurociências e contribuindo com suas criticas e elogios nesse processo de reconstrução do conhecimento. Às amizades que o Curso de Neurociência Pedagógica me presenteou: Beth, Patrícia e Rosa. Aos demais familiares, amigos e professores, que de alguma forma contribuíram para que eu realizasse essa jornada evolutiva. 4 DEDICATÓRIA Para todos aqueles que acreditam em práticas pedagógicas verdadeiramente comprometidas com os processos do ensino/aprendizagem, amam sua profissão e que por isso reconhecem seu importante papel na vida dos alunos que lhe são confiados. Sempre prontos a aprender e dispostos reaprender a ensinar. 5 RESUMO O presente estudo aborda a possibilidade de inserção dos significativos avanços da neurociência, como constituintes de saberes disciplinares, nos cursos de formação de professores. Na perspectiva adotada, esses saberes, que fundamentam um saber pedagógico, proporcionam subsídios teóricos para a ação docente, uma vez que a compreensão de como o cérebro funciona permite um melhor entendimento da aprendizagem e o conseqüente aprimoramento da transposição didática. Como resultado, destacase a necessidade de revisão das estruturas curriculares dos cursos de formação de professores, em especial das licenciaturas, indicando como alternativa a inserção de disciplinas, ou a reestruturação de disciplinas já existentes, com vistas a propiciar a interlocução entre neurociência, ensino e aprendizagem. 6 METODOLOGIA “A maneira de pensar complexa prolonga-se em maneira de agir complexa” (MORIN, 2002a, p. 339). Considerando que o objetivo principal do trabalho, que foi apresentar contribuições da neurociência para a formação docente, buscou conhecimentos sobre o tema observando a prática pedagógica de docentes em uma Escola da Rede Municipal em Petrópolis/RJ e abarcou-se em pesquisa bibliográfica de produção teórica de pesquisadores de ensino/aprendizagem tais como: Demo , Moraes, Morin , Pozo, Perrenoud, Relvas, Wallon, entre outros, também foi utilizado como fonte de pesquisa a Lei de Diretrizes e Bases; que trata da Formação de Professores, OCDE – Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômicos Compreendendo o cérebro: rumo a uma nova ciência do aprendizado, entre outros artigos e revistas científicas. 7 SUMÁRIO INTRODUÇÃO..................................................................................................08 CAPÍTULO I - Neurociências...........................................................................12 1.1 Neurociências e Educação........................................................................ 13 CAPÍTULO II - Formação Docente Repensando Práticas Pedagógicas..........15 CAPÍTULO III – A Arte de Ensinar a Luz da Neurociência ..............................21 CAPÍTULO IV – Ensino/Aprendizagem e Neurociências Caminhos Possíveis ..........................................................................................................................27 CAPÍTULO V – Cérebro e Aprendizagem....................................................... 40 5.1- Sinapses ..................................................................................................43 5.2- Córtex Pré-Frontal ....................................................................................45 5.3- Memória e Aprendizagem..........................................................................49 5.4-Plasticidade Cerebral..................................................................................52 5.5- Emoção, Motivação e Aprendizagem .......................................................54 CAPÍTULO VI – Conhecimentos Neurocientificos-Contribuições para Formação Docente............................................................................................................56 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................... 64 REFEÊNCIA BIBLIOGRÁFICA....................................................................... 67 8 1 INTRODUÇÃO “Ensinar é fundamentalmente Aprender.” (Marta Relvas, 2009) O tema abordado pelo presente estudo trata da “Formação Docente e Neurociência: uma articulação necessária, contribuições da neurociência para prática pedagógica”. Professores conhecem e entendem o processo ensino/aprendizagem? Compreendem a importância dos aspectos sociais, psicológicos, biológicos e ambientais? Para que os educadores entendam o processo cerebral da aprendizagem faz-se necessário aprender o que é cognição, o que é comportamento e a sua relação com o que é aprendizagem, o que é memória, o que é atenção, o que é percepção, o que é representação mental, o que é ação e a intima relação de cada um deles com o desenvolvimento do ser humano. Conhecendo assim como o cérebro organiza os conhecimentos e as estruturas cerebrais que sustentam esses conhecimentos e ressaltando as influências dos estados emocionais e motivacionais para aprendizagem. No presente estudo busca-se desenvolver questões que estão pautados em: como a neurociência pode contribuir na formação de docentes? Neurociência e a prática pedagógica: caminhos possíveis? O tema sugerido é relevante, pois, entre neurociência e formação há uma articulação necessária para que a educação possa avançar em direção a descobertas que contribuam para teorias e práticas educacionais. A neurociência vem oferecendo um grande potencial para nortear docentes em pesquisas e suas futuras aplicações educacionais. As estruturas 9 cerebrais envolvidas no processo ensino aprendizagem são primordiais no processo de ensino/aprendizagem. São, portanto, objetivos desta pesquisa apresentar contribuições da neurociência para a formação docente, apontando a importância da neurociência para prática pedagógica: ensino/aprendizagem e também Investigando a necessidade de incorporar estudos relacionados à Neurociência na formação de docentes. “Na verdade, continua-se, ainda, vivendo o modelo tradicional mecanicista, que separa o mundo da razão e o mundo da emoção, o sujeito do objeto, vida, razão, indivíduo, ambiente, fragmentando então conhecimentos e pensamentos humanos.” (Marta Relvas, 2009) Este estudo apresenta conhecimentos sobre o tema através de pesquisa bibliográfica abarcando observação de práticas pedagógicas, na educação básica. A partir destes dados, aliados a pesquisa bibliográfica apresentar contribuições da neurociência para formação de docentes enfocando o processo de ensino/aprendizagem. A pesquisa aborda a possibilidade de inserção dos significativos avanços da neurociência, como constituintes de saberes disciplinares, nos cursos de formação de professores. Na perspectiva adotada, esses saberes, que fundamentam-se em um saber pedagógico, proporcionando subsídios teóricos para a ação docente, uma vez que a compreensão de como o cérebro funciona permite um melhor entendimento da aprendizagem e o conseqüente aprimoramento da transposição didática. Como resultado, destaca-se a necessidade de revisão das estruturas curriculares dos cursos de formação de professores, em especial das licenciaturas, indicando como alternativa a inserção de 10 disciplinas, ou a reestruturação de disciplinas já existentes, com vistas a propiciar a interlocução entre neurociência, ensino e aprendizagem. Sabe-se da necessidade de repensar a formação docente, e a neurociência vem demonstrando sua importância em relação respaldar a ciência da educação. Desenvolver e aplicar metodologias educacionais, estratégias, teorias da aprendizagem, conteúdos atualizados, desconhece os didáticas mecanismos inovadoras neurais que quando se impulsionam a aprendizagem? Acreditando que a partir do momento em que o educador conhecer as relações entre o cérebro e cognição e a importância dessa relação para o ensino/aprendizagem ele adquire uma visão mais ampla na relação entre dimensões sociais e biológicas dos alunos. A educação foca-se no conhecimento a ser ensinado de maneira mecânica e igual a todos os alunos, sem a devida atenção à individualidade. “Não podemos fazer o que não sabemos nem comunicar algo que não conhecemos. O acervo de nossas memórias faz com que cada um de nós seja o que é, um indivíduo, um ser para o qual não existe outro idêntico.” (Roberto Lent,2008) Conhecendo o funcionamento do cérebro desde a formação de memórias até a formação de conhecimentos, as relações entre o cérebro, cognição, entendendo a importância da repetição para aprendizagem, autonomia, respeito interação à individualidade, social, a criatividade, desenvolvendo motricidade, musicalidade: são fundamentais para o desenvolvimento humano. A formação de docentes articulada a Neurociência, vem possibilitando ao docente entendimento dos processos de 11 percepção, memória e atenção, sinapses, plasticidade cerebral, imaginação, os sentidos, o humor, a emoção, o medo, o sono, temas abordados pela neurociência. O conhecimento pedagógico e suas relações neurocientíficas, trazendo valiosa contribuição para a formação docente, iluminando os caminhos da educação nos processos de ensino/aprendizagem. 12 Capítulo I “O homem deve saber que, de nenhum outro lugar, se não do cérebro vem à alegria, o prazer, o riso e a recreação, e a tristeza, melancolia, pessimismo e as lamentações. E então, de uma maneira especial, adquirimos sabedoria e conhecimento, e vemos e ouvimos para saber o que é justo e o que não é, o que é bom e o que é ruim, o que é doce e o que é sem sabor... E pelo mesmo órgão tornamo-nos loucos e delirantes, e sentimos medo e o terror nos assola... Todas essas coisas provêem do cérebro quando este não está sadio... Dessa maneira sou da opinião de que o cérebro exerce um grande poder sobreo homem.” (Hipocrates, Da Doença Sacra, IV A.C) 1. Neurociências A neurociência é o estudo da realização física do processo de informação no sistema nervoso animal e humano. O estudo da neurociência engloba três áreas principais: a neurofisiologia, a neuroanatomia e neuropsicologia. Neurofisiologia é o estudo das funções do sistema nervoso. Ela utiliza eletrodos para estimular e gravar a reação das células nervosas ou de área maiores do cérebro. Ocasionalmente, separaram as conexões nervosas para avaliar os resultados. Neuroanatomia é o estudo da estrutura do sistema nervoso, em nível microscópico e macroscópico. Os neuroanatomistas dissecam o cérebro, a coluna vertebral e os nervos periféricos fora dessa estrutura. Neuropsicologia é o estudo da relação entre as funções neurais e psicológicas. A principal pergunta da neuropsicologia é qual área específica do cérebro controla ou media as funções psicológicas. O principal método de estudo usado pelos 13 neuropsicólogos é o estudo do comportamento ou mudanças cognitivas que acompanham lesões em partes específicas do cérebro. Estudos experimentais com indivíduos normais também são comuns. A neurociência é um termo que reúne as disciplinas biológicas que estudam o sistema nervoso, normal e patológico, especialmente a anatomia e a fisiologia do cérebro interrelacionando-as com a teoria da informação, semiótica e linguística, e demais disciplinas que explicam o comportamento, o processo de aprendizagem e cognição humana bem como os mecanismos de regulação orgânica. 1.1 Neurociências e Educação As neurociências englobam as áreas que se dedicam a entender a estrutura e o funcionamento do sistema nervoso. Atualmente, é possível rastrear os circuitos neurais e determinar quais são responsáveis por determinada tarefa, como a leitura, por exemplo. “Não é possível, hoje, dissociar as ciências humanas das biológicas, nem conceber aprendizagem sem saber como os neurônios aprendem ou se reciclam. Estudos sobre o cérebro é mesmo a razão dos progressos consideráveis realizados nas duas últimas décadas, bem como das reconsiderações epistemológicas não menos espetaculares assim permitidas. Os fenômenos cognitivos são tão tributários dos mecanismos do cérebro, quanto o é a informação fornecida por um computador em relação aos circuitos eletrônicos que o formam. O objeto das neurociências mantém-se o de descrever, explicar os mecanismos neuronais elementares que sustentam qualquer ato cognitivo, perceptivo ou motor. A neurociência cognitiva tem como escopo, em especial, as capacidades mentais mais complexas, como a linguagem e a 14 memória, sendo que essa última tem sido indicada como um dos principais alicerces da aprendizagem humana (Izquierdo, 2002). Assim, é possível preconizar que achados resultantes de estudos nessa área colaboram para aprimorar o entendimento de como se dá a aprendizagem. Com base nesse ponto de vista, passou-se a promover uma interlocução entre neurociência e educação, defendendo um diálogo criativo entre ambas e apresentando uma visão da interferência positiva dos conhecimentos neurocientíficos na educação, em especial na formação docente. 15 Capítulo II 1 Formação Docente - Repensando Práticas Pedagógicas Há décadas discute-se em congressos, seminários, cursos outros eventos semelhantes, qual a formação ideal ou necessária do professor do ensino básico (fundamental e médio), numa demonstração ostensiva de insatisfação generalizada com relação aos modelos formativos vigentes, principalmente nos cursos de licenciatura. No entanto, dessa ampla e continuada discussão, não têm emergido propostas que ultrapassem o nível de recomendações abstratas sobre educadores", da a necessidade "integração de de "sólida teoria e formação dos prática", da "interdisciplinaridade" etc. É claro que sugestões dessa natureza são capazes de entreter colóquios e debates, mas a sua utilidade não vai além desses efeitos retóricos. Nessas discussões, quase sempre se parte de uma noção vaga e impressionista de "escola brasileira", caminha-se para a afirmação da necessidade de uma "política nacional de formação de professores" e, em seguida, desenha-se o "perfil profissional" desses professores por meio de um arrolamento de competências cognitivas e docentes que deveriam ser desenvolvidas pelos cursos formadores. Embora esse traçado das discussões seja um pouco simplificado, ele capta duas tendências sempre presentes no encaminhamento do tema da formação de professores: o vezo 16 centralizador das normas gerais e a fixação na figura individual do professor. A idéia de que ensino eficaz é basicamente a aplicação competente de um saber metodológico, epistemologicamente fundamentado em outros saberes, principalmente de natureza psicológica, é altamente discutível. O processo de aprendizagem humana é complexo e multidimensional. Envolve aspectos biológicos, sociais e psicológicos. Os cursos de formação de professores têm freqüentemente ressaltado essas dimensões, mas nem sempre priorizam a integração existente entre elas, quando o foco é o desenvolvimento humano. Para enfatizar o entrelaçamento irredutível entre esses aspectos; refutar qualquer reducionismo na constituição humana - seja biológico, social, ou psicológico - e ressaltar a educação como processo vital para o crescimento do sujeito Wallon contribuiu para que se olhe tanto o professor quanto o aluno como um ser biológico, ao mesmo tempo, biológico-socialcultural que vai se humanizando a realidade, que é constituída pela cultura, mas também a constrói. Sita também que aceitar o aluno do jeito que ele está significa compreendê-lo em sua etapa de formação e conhecer os diferentes meios e grupos sociais nos quais transita e se desenvolve; seguindo o ritmo de seu desenvolvimento; oferecendo novos meios e grupos para que ele possa exercitar suas possibilidades e desenvolver suas ações, conhecendo que o processo da educação deve tender para a autonomia. Para tanto é necessário que o professor seja um observador constante de seu aluno, lembrando que como 17 observador está em presença do real, sem outro instrumento a não ser a sagacidade de que dispõe. Os sete saberes necessários à educação do futuro, de Edgar Morin, são basicamente: as cegueiras do conhecimento – o erro e a ilusão; os princípios de um conhecimento pertinente; ensinar a condição humana; ensinar a identidade terrena; enfrentar as incertezas; ensinar a compreensão e a ética do gênero humano. A adequada formação do professor não pode ser imaginada como a simples e direta aplicação à situação de ensino de um saber teórico. “Não podemos ter apenas listas de competências; deve-se ter uma dimensão mais global, para os professores não serem apenas técnicos”. Ou seja, o importante seria uma dimensão reflexiva capaz de aprender constantemente com a experiência, construindo saberes durante os percursos profissionais individuais ou coletivos. Trata-se de dizer, em outras palavras, que o professor deve ter uma “formação permanente” (Philippe Perrenoud,2001) [...] é por isso que é preciso centrar a formação inicial na especificidade profissional do educador, nela introduzir sistematicamente estudos e pesquisas envolvendo as três dimensões do ato de aprender [...] a relação pedagógica, o caminho didático, as estratégias de aprendizagem. É preciso estimular os professores a formarem-se pessoalmente nessas matérias e a considerarem, para sua carreira, os diplomas que podem obter nas Ciências da Educação. É preciso que, sem abandonar as exigências legítimas aferentes ao saber a ser ensinado e ao domínio de seus conteúdos, a formação permita ao professor compreender onde e como ocorrem as aprendizagens..., e no fundo, isso é o mínimo para aquele cujo ofício é ensinar (1998, p. 164). 18 Nessa mesma linha de pensamento Meirieu defendeu que na formação dos professores encontrou-se a mola propulsora da transformação no campo educativo: Wallon argumentou que a formação de professores deve levar em conta: o conhecimento do conteúdo e de sua melhor forma de apresentação; o conhecimento das etapas de desenvolvimento e das diferenças individuais; a aquisição do sentido pedagógico, não por simples rotina, mas pela experiência, reduzindo esta a princípios ou a preceitos. Demo defende que o professor precisa se transformar num profissional da aprendizagem, pois, o não saber aprender, pode constituir-se num fator bastante comprometedor no sentido de coibir a aprendizagem do aluno, o qual terá sua melhor chance, se seu desenvolvimento ocorrer sob os olhos de um professor que sabe pensar e aprender. Ele destaca a necessidade de propiciar uma formação mais eficiente aos professores quanto à complexidade e à reconstrução presentes na aprendizagem, “[...]para o aluno aprender bem, mister se faz que o professor aprenda bem. Professor não é quem dá aula, mas quem sabe fazer o aluno aprender” (2002, p. 58). Em relação a essa necessidade, o autor destacou a importância do estudo sobre a aprendizagem na formação do professor, a partir de diferentes vertentes teóricas advindas de áreas variadas, não só adotando como referencial as ciências humanas e sociais, mas também reconhecendo o caráter interdisciplinar da aprendizagem. 19 “Os alunos não fazem perguntas e nós (professores) damos as respostas”. Para Perrenoud, essa inversão é uma revolução no currículo para a formação de professores. Segundo Claxton (POZO, 2002, p. 268) “se os professores não sabem em que consiste a aprendizagem e como ocorre, têm as mesmas possibilidades de favorecê-la que de atrapalhá-la”. Os professores devem se antecipar frente aos processos de aprendizagem do aluno, estar adiante em seu processo de reflexão sobre a aprendizagem para então gerar situações orientadas para que seus alunos possam aprender a ter consciência sobre a tarefa. Assim, o professor torna-se apto a ocupar uma posição de apoio nas tarefas que exigem um exercício de processos conscientes e auto-regulatórios da aprendizagem do aluno, permitindo uma transferência do controle desses processos, passando gradualmente de necessário a desnecessário, culminando na autonomia do aluno (POZO, 2002). Analisando a LDB constatou-se que a Lei que rege a educação brasileira prevê mudanças e por isso concede as instituições que oferecem a formação de educadores, entre outros, autonomia para repensar as necessidades educacionais, passando assim a responsabilidade de adequação, pesquisa e capacitação de docentes para suprir as atuais necessidades da formação de docentes para as instituições que formam todos os anos educadores os inserindo no mercado de trabalho. O presente estudo reflete nossa discussão sobre a importância da neurociência ser inserida a grades curriculares da formação de educadores/pedagogos, conhecer os caminhos biológicos da aprendizagem deve ser a chave geradora para todos os conhecimentos desta área de formação. 20 Segundo Demo (2005), no que diz respeito à formação de professores, as Faculdades de Educação não estão estruturadas para preparar o professor que se deseja. A formação dos professores deve adentrar os espaços do caráter complexo e alinear do conhecimento e da aprendizagem. O professor precisa estudar os modos de gerir e organizar o conhecimento para poder promover situações de aprendizagem autopoiética. Não tendo conhecimento suficiente acerca da aprendizagem, dos processos reconstrutivos presentes no aprender, da importância do avaliar e do orientar, não poderá cuidar da aprendizagem do aluno. De acordo com o autor, os cursos precisam exercitar o questionamento do conhecimento de modo crítico e autocrítico, utilizando para tal procedimentos reconstrutivos de aprendizagem, por meio de pesquisa e elaboração própria. Nesse sentido, a pesquisa torna-se instrumentação indispensável para a aprendizagem do professor, sendo que o professor ao não lidar com o conhecimento disruptivo, isto é, aquele conhecimento que é capaz de se confrontar, não é capaz de construir sua própria autonomia e, conseqüentemente, não será capaz de fomentá-la no aluno. Formar esse novo professor implica mudanças substanciais na sua formação, sendo que o foco transpõe o ser um bom ensinante de sua matéria ou área de conhecimento, desenvolvendo habilidades , pesquisando, entender como melhor ensinar. transformar-se em aprendiz para 21 Capitulo III 3. A Arte de Ensinar a Luz da Neurociência A realidade atual, tendo como uma de suas principais características a progressiva geração de conhecimentos e a conseqüente circulação quase instantânea de informações, demanda um sistema educacional democrático que explore e estimule o potencial de aprender de todos os cidadãos. Para tanto, é imprescindível abolir a visão seletiva que dá vantagens educacionais ou sociais para um determinado grupo – aqueles que presumivelmente são mais capazes – e propiciar situações de aprendizagem que possibilitem o atendimento ao desafio de criar uma educação que aceite a diversidade. Agregado aos avanços científicos e às transformações sociais, surge à consciência de um conhecimento relativo, instável e incompleto. Não é mais possível buscar compreender os eventos numa visão baseada na linearidade e na certeza. Há que se interconectar novos conhecimentos e uma gama significativa de informações de forma que possibilite ao indivíduo lidar com o conhecimento de forma complexa. Assim, é inegável que os indivíduos enfrentam novas exigências educativas, visto que necessitam, via construção do seu próprio conhecimento, ser participantes ativos de uma sociedade em permanente mudança. Dessa forma, a principal implicação para a educação passa a ser a otimização das capacidades cognitivas, afetivas e sociais de todos; atendendo à necessidade de uma cultura de aprendizado. Conforme Fonseca (1998), as escolas, como instituições de 22 educação privilegiadas, devem assegurar a otimização do potencial de aprendizagem dos estudantes. Com o desenvolvimento da sociedade da informação, em que se multiplicam as possibilidades de acesso a dados e a fatos, a educação deve permitir que todos possam recolher, selecionar, ordenar, gerir e utilizar as mesmas informações. A educação deve, pois, adaptar-se constantemente a estas transformações, sem deixar de transmitir as aquisições, os saberes básicos frutos da experiência humana (DELORS,2001, p. 20-1). Considerando as demandas educacionais da atualidade, torna-se inadequado e insuficiente utilizar-se de um trabalho docente embasado no mecanicismo, no qual a função do professor é transmitir de forma instrucional um conteúdo científico e aos alunos, como se estes homogenicamente se constituíssem em receptores passivos do dizer do outro, cabe a reprodução, desenvolvendo uma aprendizagem centrada na cópia. É importante dar-se conta então, de que a educação sempre buscou ensinar e o homem sempre buscou aprender, mas frente às emergências do conhecimento, num mundo marcado pela informação e flexibilidade, as aprendizagens não se esgotam na sala de aula. Faz-se urgente a reflexão sobre esse modelo de educação tradicional migrando para um ato pedagógico fundamentado na dialógica, que delegue ao professor a tarefa de auxiliar o aluno a “reaprender a aprender”1, reconstruindo seu conhecimento de forma autônoma. Aqui o prefixo RE é usado a partir da visão de Morin (2002; 2005) pois, de acordo com o autor, os indivíduos, como organizações vivas, aprendem através da reorganização permanente de si próprios frente à ordem/desordem existente na própria vida. Aquilo que aprenderam, experimentaram, 23 adquiriram, é processo/produto da recorrência existente na complexidade reorganizadora. Ao conhecer para viver, o indivíduo transpõe a estabilidade permanente e passa a demonstrar a aptidão para construir novas habilidades sob o efeito de acontecimentos organizadores/desorganizadores advindos de inúmeras interações necessárias com os diferentes elementos constituintes do ambiente em que vive, fundamentando-se no princípio da autonomia/dependência e sendo reconhecido como auto-ecoreorganizador. Assim como o conhecimento indispensável para a vida é reconstruído através da sua auto-organização, sendo caracterizado como processo cíclico regenerador, o ser humano, como entidade ligada a seu meio ambiente, desenvolve sua autonomia na dependência de sua cultura. Como o contexto ambiental se transforma, o homem também se transforma e transforma o meio, num processo de constante recursividade interrelacionada. Eis a idéia de recomeço, de renovação, de reforço presente na auto-organização dependente. Salienta-se que essa concepção não estabelece um novo conflito conceitual, mas apenas é acrescentada como um novo elemento a um conflito já existente. Monereo (2002) reconhece que, sem dúvida, “aprender a aprender”, “ensinar a aprender” e “ensinar a pensar” têm sido suporte de uma corrente de pensamento amplamente aceita no campo da educação, porém, os conteúdos envolvidos nessa corrente não são tão bem explicitados: 1 Devido a um conflito conceitual existente na literatura, as expressões “reaprender a aprender”,“aprender a aprender”, “ensinar a aprender” e “ ensinar a pensar” são usados permutavelmente. As distinções teóricas existentes na literatura em relação a 24 esses termos somente serão mencionadas quando essas diferenças estiverem em discussão. “O que significa ensinar a aprender a aprender? Que fatores estão implicados? Como podem os professores conseguir que os estudantes aprendam a prender e a pensar de maneira progressivamente mais autônoma? De que maneira se pode, desde um assessoramento psicopedagógico, favorecer essa meta?” (MONEREO, 2002, p. 15). Dessa forma, adotar esta nova visão de educação implica aceitar a complexidade do aprender, com implicações também nos conteúdos, na relação professor - aluno e, principalmente, no processo de ensinar. Uma importante conseqüência dessa nova postura é que professor não pode ficar indiferente à relevância de melhor atender essa complexidade existente na reconstrução do conhecimento pelo aluno. Deve-se interagir e receber informações provenientes das diferentes visões das ciências relevantes para compreender melhor as condições não só físicas, mas também emocionais, sociais e culturais que permeiam a aprendizagem a fim de promover uma melhora significativa no ensinar e no aprender, tornando-se, respectivamente, experiências produtivas para o professor e para o aluno. Contudo, os professores parecem estar desprovidos da compreensão aprofundada de como o aluno aprende, situação que pode ocasionar uma visão equivocada de diferentes momentos de ensino e aprendizagem; muitas vezes, os professores, na ausência de informações de como o cérebro faz e o que faz, delegam o insucesso no aprender à incapacidade de os alunos realizarem 25 determinados tipos de aprendizagem ou a problemas de motivação, esquivando-se de sua responsabilidade como mediador da construção de conhecimentos; sendo assim, mostram-se, freqüentemente, impacientes e rotuladores, ignorando a influência educativa que oferecem através de suas propostas pedagógicas ( DEMO, 2002) Comumente há reclamações sobre a ausência de motivação e de técnicas de estudos, além da carência de estratégias para lidar com as tarefas educativas propostas. Porém, não cabe ao aluno resolver essa situação na sua totalidade, pois é difícil que os alunos aprendam a aprender se essa questão não constitui um objetivo formativo e não há orientação por parte dos professores. Sabe-se que o professor, mesmo que dependente de um sistema educacional complexo que legitima saberes baseando-os na idéia de cultura, de conhecimentos sociais, de técnicas profissionais, organizando e regrando a sua transmissão por meio da educação formal, como agente das instituições que têm no saber sua base funcional e existencial, são os últimos mediadores entre a instituição escolar e suas clientelas (TARDIF, 2003). Diante dessa situação, em que o professor pode ser considerado um ponto proeminente no qual se dá a realização das transformações necessárias no campo educacional, pois ocupa posição estratégica nas instituições, e considerando, ainda, que o aluno é percebido como indivíduo que reconstrói conhecimento próprio através de processos de aprendizagens autônomas/dependentes, aquele que medeia esses processos enfrenta o desafio de aprimorar o ensinar. 26 Salienta-se ainda que a própria trajetória docente da pesquisadora tem gerado a necessidade de buscar a eficiência do ato pedagógico para lidar com a complexidade individual característica do aprender de cada um, otimizando o aprendizado autônomo/dependente e colaborando reconstrução do conhecimento. para proporcionar a 27 Capítulo IV 4. Ensino/ Aprendizagem e Neurociências – Caminhos Possíveis “O cérebro é mutante, e não estático! Responde aos estímulos ambientais não apenas com operações funcionais imediatas, mas também com alterações de longa duração, algumas das quais podem se tornar permanentes. Emergiu o conceito de neuroplasticidade, que sintetiza essa capacidade dinâmica, mutante, transformadora.” (Roberto Lent) É inegável que os pressupostos epistemológicos da complexidade, ao reger a organização do vivo, influenciam o entendimento que temos de processos de construção de conhecimento bem como das maneiras de viver/conviver entre os humanos, inclusive no âmbito da educação formal. É possível inferir que cada indivíduo, como sistema auto-organizador, possui uma dinâmica estrutural particular, tem um modo único de ser, de aprender, de conhecer e interagir no mundo, o que implica uma educação que tenha como objetivo promover e facilitar processos de auto-reorganização. Adotando o paradigma complexo, que reconhece a possibilidade de conformismos cognitivos e intelectuais derivados de um conhecimento sustentado pela linearidade de uma visão reducionista da realidade, são percebidas as articulações existentes no conhecimento multidimensional; nesse sentido, usando diálogo criativo com a insuficiência, a incerteza e a 28 autocrítica, é possível suplantar o conhecimento como fruto de teorias acabadas, as quais não comportam erros. (MORIN, 1999) Para melhor elucidação de alguns princípios básicos dessa visão complexa do conhecimento, a aprendizagem ocorre sob uma visão sistêmica, na qual o aprender é processo de construção dialógica entre o sujeito cognoscente (portador do já conhecido) e o meio cognoscível (o que é possível conhecer). Segundo Morin,1999), é um movimento em espiral que permite a evolução, na qual as competências inatas se desenvolvem paralelamente ao desenvolvimento das aptidões necessárias para adquirir, memorizar e tratar o conhecimento, transformando o desconhecido em conhecimento. O homem, ao possuir um aparelho neurocerebral, percebe o mundo através de seu aparelho perceptual, o que se constitui num processo interpretativo dos fenômenos que envolve seus sentidos e sua memória. Nas palavras de Izquierdo (2002, p. 9): “Memória é a aquisição, a formação, a conservação e a evocação de informação. A aquisição é também chamada de aprendizagem: só se ‘grava’ aquilo que foi aprendido. A evocação é também chamada de recordação, lembrança, recuperação Só lembramos aquilo que gravamos, aquilo que foi aprendido.” Complementando, Lent (2001, p. 557) preconiza que “percepção é a capacidade de associar as informações sensoriais à memória e à cognição de modo a formar conceitos sobre o mundo, sobre nós mesmos e orientar nosso comportamento”. De acordo a neurociência cognitiva, a qual foca-se na atenção e compreensão das atividades cerebrais e os processos 29 de cognição, a aprendizagem humana não flui de uma simples armazenagem de dados perceptuais, mas sim do processamento e elaboração das informações oriundas dessas percepções no cérebro, o qual, sendo um sistema dinâmico, não podendo ser interpretado como um depósito estático para a armazenagem de informação. Segundo Posner e Raichle (2001), sistemas cognitivos são aqueles sistemas mentais que regem as atividades diárias do ser humano, como ler, escrever, conversar, planejar, reconhecer rostos. Alguns sistemas comportam outros sistemas, agregando complexidade ao gerar um comportamento. O sistema cognitivo da linguagem, por exemplo, envolve falar, ler e escrever, ativando diferentes estruturas cerebrais. Esses diferentes sistemas cognitivos têm como base distintas operações mentais. Dessa forma, uma dada tarefa mental, como jogar xadrez, pode ativar diferentes operações mentais, as quais estão relacionadas a redes neurais de áreas cerebrais específicas. 30 Figura 1 - A tarefa e a ativação de distintas áreas cerebrais - Fonte: Posner e Raichle (2001, p. 125) O indivíduo, permanentemente em busca de respostas à suas percepções, pensamentos e ações, tem suas conexões neurais em constante reorganização, sendo que através de processos de fortalecimento ou enfraquecimento, tem seus padrões conectivos alterados a todo momento. Existem neurônios prontos para a estimulação, fazendo com que a atividade mental estimule a reconstrução de conjuntos neurais, processando experiências vivenciais e/ou lingüísticas num fluxo e refluxo de informação, captadas pelos sentidos e transformadas em estímulos elétricos que percorrem neurônios, sendo a informação catalogada e arquivada nas memórias. É essa capacidade de agregar dados novos a informações já armazenadas na memória, estabelecendo relações entre o novo e o já conhecido e reconstruindo aquilo que já foi aprendido, interpretações num advindas reprocessamento da percepção, plasticidade do cérebro (IZQUIERDO, 2002). que constante caracteriza das a 31 A aprendizagem, portanto, é o processo em virtude do qual se associam coisas ou eventos no mundo, graças à qual adquirimos novos conhecimentos.Denominamos memória o processo pelo qual conservamos esses conhecimentos ao longo do tempo. Os processos de aprendizagem e memória modificam o cérebro e a conduta do ser vivo que os experimentam (MORA, 2004, p. 94). Constata-se que a memória é responsável pelo armazenamento de informações, bem como pela evocação daquilo que está armazenado. Desse modo, a aprendizagem requer competências para lidar de forma organizada com as informações novas ou com aquelas já armazenadas no cérebro a fim de realizar novas ações. Envolve, assim, a execução de planos já formulados e resulta de ações mentais bem pensadas, ensaiadas mentalmente, influenciando o planejamento de atos futuros. O cérebro está preparado para funcionar com o feedback interno e externo; é auto-referente, isto é, “o que é recebido em qualquer nível cerebral depende de tudo o mais que acontecer nesse nível, e o que é enviado para o nível seguinte depende do que já estiver acontecendo nesse nível” Apesar da proximidade dos conceitos aprendizagem e memória, Lent, os distingue de forma bastante clara: “O processo de aquisição de novas informações que vão ser retidas na memória é chamado aprendizagem. Através dele nos tornamos capazes de orientar o comportamento e o pensamento. Memória, diferentemente, é o processo de arquivamento seletivo dessas informações, pelo qual podemos evocá-las sempre que desejarmos, consciente ou inconscientemente. De certo modo, a memória pode ser vista como o conjunto de processos neurobiológicos e neuropsicológicos que permitem a aprendizagem” (2001, p. 594). 32 Considerando a flexibilidade do cérebro para reagir às demandas do ambiente, explicada pela sinaptogênese (formação de novas conexões entre as células cerebrais - sinapses), e a idéia de que o conhecimento deve ser codificado nas ligações entre os neurônios, a aprendizagem, possibilitada pela plasticidade cerebral, modifica química, anatômica e fisiologicamente o cérebro porque requer alterações nas redes neuronais, uma vez que situações vivenciadas no ambiente inibem ou estimulam o surgimento de novas sinapses através da liberação de neurotransmissores (MORA, 2004). fundamentadas Oferecer em situações experiências de enriquecidas aprendizagem e estimular atividades intelectuais pode promover a ativação de novas sinapses. Retomando aqui Maturana e Varela (2001), para os quais a aprendizagem surge, então, de um acoplamento estrutural, uma vez que através das interações recíprocas entre o indivíduo e o meio surgem mudanças de estado na organização do ser vivo, ao aprender; ocorre que, perante as informações, o organismo opera com propriedades emergentes a fim de se adaptar às condições cambiantes presentes no processo de conhecer. As informações do meio, uma vez selecionadas, não são apenas armazenadas na memória, mas geram e integram um novo sistema funcional, caracterizando aí a complexificação da aprendizagem. Uma informação pode, pela desordem gerada, proporcionar a evolução do conhecimento do indivíduo, sendo que esse precisa desenvolver estratégias cognitivas para reorganizar e retomar o equilíbrio na construção do conhecimento, o que é obtido por meio de um processo dinâmico e recursivo presente na reconstrução do próprio ato de conhecer. 33 Conforme Assmann (2001), esse conceito implica uma visão nova do aprender, o qual passa a estar fundamentado no fato de que experiências de aprendizagem representam estados e propriedades emergentes em contextos pedagógicos. Adotando uma perspectiva de aprendizagem sustentada pelas relações entre os elementos constituintes da percepção sentidos e memórias - e pelo pensamento sistêmico, no qual essas relações acontecem inseridas na complexidade da reestruturação permanente do conhecimento no cérebro/ mente, a complexidade individual pode ser compreendida como fruto da interação entre os processos de computação (presente em todos os seres vivos) e cogitação (o ato de pensar). Segundo Morin (1999), as informações são processadas pelo computo e pelo cogito, sendo os processos cognitivos produtores e produtos dessas atividades cerebrais. Enquanto o computo apenas comporta a possibilidade de decisão em situações ambíguas, o cogito emerge das ações computantes, retroagindo sobre elas. O aparelho neurocerebral realiza uma série de computações, sejam elas entre neurônios ou entre regiões do cérebro e intercomputações, isto é, computações entre neurônios e regiões; como um computador, é capaz de associar e separar, ou melhor, sintetizar e analisar. A cogitação (pensamento), através da linguagem, utiliza e transforma as operações do computo em um novo modo de organização do conhecimento. Entretanto, as palavras e discursos podem ser reconsiderados e tratados pelo computo. A linguagem, que é primeiramente computada (fonemas e estruturas sintáticas), passa a ser objeto de cogitação (formação de palavras, sentido, idéias) e retorna ao computo, que fornece seu modo de organização, numa relação indissociável entre ambos. 34 Assim, os seres humanos, ainda que tenham o computo animal, são capazes de ir além, apresentando o cogito. Dotados de consciência, linguagem e de cultura, são capazes de decisão, escolha, estratégia, invenção. Esse caráter complexo da capacidade de lidar com a informação e organizá-la através do pensamento é fundamental para gerar competências requeridas para executar atos futuros. “Pensar é, com efeito, um processo, uma função biológica desempenhada pelo cérebro. O processamento do pensamento é o ato de receber, perceber e compreender, armazenar, manipular, monitorar, controlar e responder ao fluxo constante de dados. A capacidade para ligar de forma competente as informações oriundas das áreas de associação motora, sensorial e mnemônica é decisiva para o processamento do pensamento a para a consideração e planejamento de futuras ações.” (RATEY, 2002, p.198) [grifo nosso]. Considerando os estudos de Simon, Morin (1999, p. 48) salienta que o aparelho neurocerebral, como um general problems solvers, apresenta uma competência geral para aplicar-se a problemas diversos e particulares. As estratégias adotadas, a princípio, permitem um método de ação próprio com a finalidade de alcançar um dado objetivo, envolvendo automatismos cognitivos que agem na ausência de risco ou novidades, pode-se identificar como derivados de computações neuronais automáticas, mas ao lidar com as incertezas, com o acaso, passa a ser imprescindível encontrar soluções para situações novas. Assim, as estratégias cognitivas têm importância no processo de conhecer, na medida em que: captam informações do “ruído”, extraindo de um acontecimento desinteressante, uma informação relevante; realizam a representação correta de uma situação e avaliam as 35 eventualidades e elaboram cenários de ação. Isso significa que ocorre a adoção de decisões sucessivas mediante a evolução da ação, numa relação de dependência da aptidão estratégica da capacidade de decidir mediante a imaginação de cenários alternativos (MORIN, 1999). Uma pessoa, ao enfrentar tarefas e problemas geralmente tem um plano, ou seja, existe uma busca sistemática. Se escolher uma solução de forma aleatória, demonstrando a ausência de planejamento, provavelmente terá seus resultados ou produtos cognitivos com menor qualidade (FLAVELL, MILLER e MILLER, 1999). Nesse sentido, o processo de escolha de uma estratégia e a estratégia resultante são produtos de uma atividade mental. O indivíduo primeiramente preocupa-se em planejar, objetivando o desenvolvimento de um plano orientado por ações em torno do alcance de um dado objetivo. Nesse processo de planejamento, o aprendiz, em busca de conhecer, seleciona meios e recursos relevantes para o estabelecimento do plano. Finalizada a primeira etapa, isto é, o estabelecimento do plano, inicia a execução do mesmo. Caso o objetivo não seja atingido, o indivíduo pode retomar o processo. Em todos esses componentes, é possível a imediata correção de erros no planejamento e/ou na execução via feedback ou monitoramento. Veja-se ilustração abaixo: 36 Figura 2 - Planejamento e ação Fonte: o autor (2006). Sob esse enfoque, a dimensão cognitiva do ser humano é dependente da auto-reorganização do sujeito cognoscente. O indivíduo imagina suas ações em função das certezas (ordem), das incertezas (desordem, eventualidades) e das suas aptidões para organizar o pensamento (estratégias cognitivas, roteiro de ação). A própria realização da ação, eventualmente, faz com que seja necessária a retomada e a modificação de decisões ou caminhos a partir de função de informações que surgem durante o processo. A ação só é possível se houver ordem, desordem e organização (MORIN, 1999). A evolução da cognição vincula-se à capacidade do cérebro de reordenar as informações e idéias constantemente, podendo produzir pensamentos completamente novos. Os autores, reconhecendo a influência da aprendizagem sobre a estrutura do cérebro, afirmam que “O cérebro continua claramente a mudar sua organização, à medida que novas competências vão sendo aprendidas” (2001, p. 211). Na perspectiva Moriana, a estratégia não pode ser pensada como simples adaptação às perturbações do meio. Além de um 37 ajustamento ao inesperado, comporta o erro e promove a transformação, pois se traduz em invenção e ativa a inovação. Estratégia de ação e estratégia cognitiva estão em interação constante e constituem a aprendizagem (MORIN, 2005b). As estratégias cognitivas têm, portanto, o objetivo de aumentar e melhorar os produtos e resultados de nossa atividade cognitiva, favorecendo a codificação e armazenamento da informação, sua recuperação posterior e sua utilização na solução de problemas. Pozo (2002, p. 160) ressalta a importância do uso de “Uma boa aprendizagem [...] requerer que se disponha de recursos técnicos alternativos para enfrentar as emergências da aprendizagem”. Refletindo sobre a relação entre o uso de estratégias e a aprendizagem,Salvador ressalta que o aprender a aprender remete à “[...] importância que deve ser outorgada na aprendizagem escolar à aquisição de estratégias cognitivas de exploração e descobrimento, assim como de planejamento e de regulamentação da própria atividade” (1994, p. 129). Afirma-se assim uma prática pedagógica baseada no instrucionismo não é condizente fundamentando-se na reprodução de informação e realizando-se em uma aula comunicável, em que o professor fala e o aluno copia e repete, num mecanismo de memorização. Além disso, ignora-se as diferenças intelectuais entre os indivíduos, os quais apresentam habilidades cognitivas distintas, tais como: capacidade de abstração, de compreensão de conceitos, de manutenção de atenção, memória visual e verbal. 38 O sucesso no campo da educação não poderá ser alcançado enquanto o professor, mediador do processo de aprendizagem, através de sua ação pedagógica, não tomar consciência de que é sua tarefa otimizar o reaprender a aprender do aluno e de que só viabilizará esse processo se reconhecer a complexidade do conhecer. Nesse caso, ao professor cabe questionar a visão tradicional de ensino e aprendizagem, abandonando o papel de mero transmissor de conhecimento e assumindo a condição de mediador. “Sob o olhar ecossistêmico é recomendável a busca de novas formas de mediação pedagógica entre a ação docente e a aprendizagem do aluno” (MORAES, 2004, p. 47). Para Pozo (2002), um melhor conhecimento do funcionamento do processo de aprendizagem permitiria uma compreensão mais adequada do aprender e de ensinar, superando dificuldades tanto do aprendiz quanto daquele que ensina, isto é, daquele que ajuda os outros a aprender, uma vez que esse conhecimento poderia auxiliar os mestres a reestruturar o ensino e proporcionaria àquele que aprende um melhor desempenho na tarefa de aprender, conhecendo, a partir da reflexão, seus próprios processos de aprendizagem e exercendo controle sobre eles. Contudo, os professores carecem não só de conhecimentos científicos sobre como os alunos aprendem, mas também de conhecimentos sobre seu próprio processo de construção do conhecimento. Considerando ainda que só é possível ensinar aquilo que se sabe, é importante oportunizar aos professores a compreensão de como podem lidar com as características pessoais no processo de aprender, demonstrando a possibilidade de mudanças na capacidade de sua organização cognitiva na reconstrução do conhecimento. 39 Assim, um eco dessa visão sistêmica do aprender pode ser vislumbrado na Neurociência Pedagógica. Portanto, um dos caminhos é encontrar na neurociência um alicerce para o entendimento do reaprender a aprender, remetendo a estratégias de ação docentes embasadas na complexidade do ensinar e reaprender. 40 Capítulo V “A aprendizagem não é acumulação de informações, mas resultado de transformação, de mudanças estruturais a partir de ações e interações provocadas por perturbações a serem superadas. E a aprendizagem progride mediante fluxos dinâmicos de trocas, análises e sínteses autoreguladoras cada vez mais complexas. “(Moraes, 2004) 5. Cérebro e Aprendizagem Sabe-se que a mente e o cérebro saudáveis são, por natureza, ávidos por informações. Alguns menos, outros mais – é bem verdade. Sabe-se que a predisposição para aprender dependendo, entre outras coisas, da neuroquímica de cada um, dos estímulos, das motivações e dos lugares psíquicos que o aprender ocupa. Ainda que haja grandes diferenças de uma pessoa para outra, aprender o que há de novo é tão importante para a dinâmica psíquica, que temos um “detector de novidades”,que seleciona e “avisa” o cérebro sobre a iminência da chegada de informações até então desconhecidas. A curiosidade eu permeia – ou pelo menos- deveria permear o processo de aprender, muitas vezes se perde-se ou fica no segundo plano. E a necessidade de dominar novas tecnologias, atingir bons resultados eu provas escolares ou concursos e a urgência em introjetar informações, muitas vezes sem sequer saborear esse sabor, fazem com que a obrigação de aprender nuble a satisfação. Desde a primeira molécula, sobrevivemos graças à aprendizagem. Esse processo que implica desenvolvimento de conexões neurais, comunicação e aquisição de novas formas de nos relacionar conosco e com os outros. O curioso é que o cérebro, 41 na maioria das pessoas aparece, em grande parte do tempo, ansioso por captar informações e compreender o mundo. O hipocampo, estrutura neural localizada nos lobos temporais, funciona como um “detector de novidades”, compara informações com os registros já existentes e, caso haja algo novo, envia uma espécie de alerta para outras áreas cerebrais, que assim ficam alerta e aprendam o estimulo. Outras regiões do mesencéfalo, como a substância negra (SN) e a área tegmental ventral (ATV) também desempenham papel importante nessa atividade. As células neurais se comunicam entre si no cérebro por neurotransmissores, chamados de “substâncias mensageiras” e nesse caso principalmente a dopamina. 42 (Figuras 3 e 4, revista Mente & Cérebro, Ed nº 197 pag 40) 43 Sabe-se que o hipocampo contribui tanto para fixação de conteúdos na memória, quanto para sua reativação. Nesse processo o hipocampo compara as informações sensoriais que chegam com o conhecimento já memorizado. Quando o estimulo é novo, através de diversas estações intermediárias como o núcleo accubens e o pallidum ventral, área tegmentar e a substância negra (SN), delas saem fibras neurais de volta para o hipocampo, fazendo com que a dopamina seja liberada várias vezes, o que facilita a potencialização de longa duração, um fortalecimento duradouro da ligação entre as células neurais – ou seja das sinapses. 5.1 Sinapses Sinapses são as regiões de comunicação entre os neurônios, ou mesmo entre neurônios e células musculares e epiteliais glandulares.Sinapses nervosas são os pontos onde as extremidades de neurônios vizinhos se encontram e o estímulo passa de um neurônio para o seguinte por meio de mediadores físico-químicos, os neurotransmissores. As sinapses ocorrem no contato das terminações nervosas (axônios) com os dendritos. O contato físico não existe realmente, pois as estruturas estão próximas, mas há um espaço entre elas (fenda sináptica). Dos axônios são libertadas substâncias (neurotransmissores), que atravessam a fenda e estimulam receptores nos dendritos e assim transmitem o impulso nervoso de um neurônio para o outro. 44 a) Sinapse excitatória Sinapse excitatórias são aquelas onde a membrana póssináptica é despolarizada, como por exemplo as sinapses entre neurônios motores e músculos esqueléticos. b) Sinapse inibitórias Sinapses inibitórias causam a hiperpolarização da membrana pós-sináptica. Os neurotransmissores mais comuns em sinapses inibitórias de vertebrados são o ácido gama- aminobutírico(GABA) e glicina. As células pós-sinápticas das sinapses inibitórias apresentam canais de cloro ligante dependentes. Quando esses canais são ativados por um neurotransmissor, eles podem hiperpolarizar a membrana póssináptica. Assim há uma probabilidade menor de lançamento de um potencial de ação. Fenda sináptica é o local de comunicação entre o neurônio pré-sináptico (axônio) e o neurônio pós-sináptico (dendrito). (Figura 5, Fonte: Google Imagens) 45 5.2 Córtex Pré Frontal a) No cérebro há uma distinção visível entre a chamada massa cinzenta e a massa branca, constituída pelas fibras (axónios) que entreligam os neurónios. A substância cinzenta do cerebro, o córtex cerebral, é constituído corpos celulares de dois tipos de células: as células de Glia - também chamadas de neurôglias - e os neurônios. O córtex cerebral humano é um tecido fino (como uma membrana) que tem uma espessura entre 1 e 4 mm e uma estrutura laminar formada por 6 camadas distintas de diferentes tipos de Perpendicularmente corpos às celulares camadas, de existem neurônios. grandes neurônios chamados neurônios piramidais que ligam as várias camadas entre si e representam cerca de 85% dos neurônios no córtex. Os neurônios piramidais estão entreligados uns aos outros através de ligações excitatórias e pensa-se que a sua rede é o «esqueleto» da organização cortical. Pode receber entradas de milhares de outros neurônios e podem transmitir sinais a distâncias da ordem dos centímetros e atravessando várias camadas do córtex. Os estudos realizados indicam que cada célula piramidal está ligada a quase tantas outras células piramidais quantas as suas sinapses (cerca de 4 mil); o que implica que nenhum neurônio está a mais de um número pequeno de sinapses de distância de qualquer outro neurônio no córtex. Embora até há poucos anos se pensasse que a função das células de Glia é essencialmente a de nutrir, isolar e proteger os neurônios, estudos mais recentes sugerem que os astrócitos podem ser tão críticos para certas funções corticais quanto os neurônios. 46 As diferentes partes do córtex cerebral são divididas em quatro áreas chamadas de lobos cerebrais, tendo cada uma funções diferenciadas e especializadas. Os lobos cerebrais são designados pelos nomes dos ossos cranianos nas suas proximidades e que os recobrem. O lobo frontal fica localizado na região da testa; o lobo occipital, na região da nuca; o lobo parietal, na parte superior central da cabeça; e os lobos temporais, nas regiões laterais da cabeça, por cima das orelhas. Os lobos parietais, temporais e occipitais estão envolvidos na produção das percepções resultantes daquilo que os nossos órgãos sensoriais detectam no meio exterior e da informação que fornecem sobre a posição e relação com objetos exteriores das diferentes partes do nosso corpo. b) Lobo Frontal O lobo frontal, que inclui o córtex motor e pré-motor e o córtex pré-frontal, está envolvido no planejamento de ações e movimento, assim como no pensamento abstrato. A atividade no lobo frontal aumenta nas pessoas normais somente quando temos que executar uma tarefa difícil em que temos que descobrir uma sequência de ações que minimize o número de manipulações necessárias. A parte da frente do lobo frontal, o córtex pré-frontal, tem que ver com estratégia: decidir que sequências de movimento ativar e em que ordem e avaliar o seu resultado. As suas funções parecem incluir o pensamento abstrato e criativo, a fluência do pensamento e da linguagem, respostas afetivas e capacidade para ligações emocionais, julgamento social, 47 vontade e determinação para ação e atenção seletiva. Traumas no córtex pré-frontal fazem com que uma pessoa fique presa funcionam ou obstinadamente que não a estratégias consigam que não desenvolver uma sequência de ações correta. c)Lobos occipitais Os lobos occipitais estão localizados na parte inferior do cérebro. Coberta pelo córtex cerebral, esta área é também designada por córtex visual, porque processa os estímulos visuais. É constituida por varias subáreas que processam os dados visuais recebidos do exterior depois de terem passado pelo tálamo: há zonas especializadas em processar a visão da cor, do movimento, da profundidade, da distância, etc. Depois de percebidas por esta área - área visual primária- estes dados passam para a área visual secundária. É aqui que a informação recebida é comparada com os dados anteriores que permite, por exemplo, identificar um cão, um automóvel, uma caneta. A área visual comunica com outras areas do cérebro que dão significado ao que vemos tendo em conta a nossa experiencia passada, as nossas expetativas. Por isso é que o mesmo objeto nao é percepcionado da mesma forma por diferentes sujeitos. Para além disso, muitas vezes o cérebro é orientado para discriminar estímulos. Uma lesão nesta área provoca agnosia, que consiste na impossibilidade de reconhecer objetos, palavras e, em alguns casos, os rostos de pessoas conhecidas ou de familiares 48 d)Lobos temporais Os lobos temporais estão localizados na zona por cima das orelhas tendo como principal função processar os estímulos auditivos. Os sons produzem-se quando a área auditiva primária é estimulada. Tal como nos lobos occipitais, é uma área de associação - área auditiva secundária- que recebe os dados e que, em interação com outras zonas do cérebro, lhes atribui um significado permitindo ao Homem reconhecer o que ouve. e) Lobos Parietais Os lobos parietais, localizados na parte superior do cérebro, são constituidos por duas subdivisões - a anterior e a posterior. A zona anterior designa-se por córtex somatossensorial e tem por função possibilitar a recepção de sensações, como o tato, a dor, a temperatura do corpo. Nesta área primária, que é responsavel por receber os estimulos que têm origem no ambiente, estao representadas todas as áreas do corpo. São as zonas mais sensiveis que ocupam mais espaço nesta área, porque têm mais dados para interpretar. Os lábios, a língua e a garganta recebem um grande número de estímulos, precisando, por isso, de uma maior área. A área posterior dos lobos parietais é uma área secundária que analisa, interpreta e integra as informações recebidas pela área anterior ou primária, permitindo-nos a localização do nosso corpo no espaço, o reconhecimento dos objetos através do tato, etc. 49 5.3 – Memória e Aprendizagem O homem percebe o mundo por meio de seu aparelho perceptual, num processo interpretativo dos fenômenos que envolve seus sentidos e sua memória. Nas palavras de Izquierdo: “Memória é a aquisição, a formação, a conservação e a evocação de informação. A aquisição é também chamada de aprendizagem: só se ‘grava’ aquilo que foi aprendido. A evocação é também chamada de recordação, lembrança, recuperação. Só lembramos aquilo que gravamos, aquilo que foi aprendido.” (Izquierdo, 2002, p. 9). Complementando, Lent preconiza que “percepção é a capacidade de associar as informações sensoriais à memória e à cognição, de modo a formar conceitos sobre o mundo, sobre nós mesmos e orientar nosso comportamento” (Lent, 2001, p. 557). De acordo com a neurociência cognitiva, cujo foco de atenção é a compreensão das atividades cerebrais e dos processos de cognição, a aprendizagem humana não decorre de um simples armazenamento de dados perceptuais, e sim do processamento e elaboração das informações oriundas das percepções no cérebro. O indivíduo, permanentemente busca de respostas para as suas percepções, pensamentos e ações, tem suas conexões neurais em constante reorganização e seus padrões conectivos alterados a todo momento, mediante processos de fortalecimento ou enfraquecimento de sinapses. No cérebro, há neurônios prontos para a estimulação. A atividade mental estimula a reconstrução de conjuntos neurais, processando experiências vivenciais e/ou linguísticas, num fluxo e refluxo de informação. As informações, 50 captadas pelos sentidos e transformadas em estímulos elétricos que percorrem os neurônios, são catalogadas e arquivadas na memória. É essa capacidade de agregar dados novos a informações já armazenadas na memória, estabelecendo relações entre o novo e o já conhecido e reconstruindo aquilo que já foi aprendido, num reprocessamento constante das interpretações advindas da percepção, que caracteriza a plasticidade do cérebro (Izquierdo, 2002; Lent, 2001) Para Mora: A aprendizagem, portanto, é o processo em virtude do qual se associam coisas ou eventos no mundo, graças à qual adquirimos novos conhecimentos. Denominamos memória o processo pelo qual conservamos esses conhecimentos ao longo do tempo. Os processos de aprendizagem e memória modificam o cérebro e a conduta do ser vivo que os experimenta (Mora, 2004, p. 94). Assim, o cérebro pode ser visto como um sistema dinâmico que tem sua complexidade funcional subsidiada pela sua interação com outros sistemas nele presentes, não podendo ser interpretado como depósito estático para o armazenamento de informação. Os sistemas cognitivos são aqueles sistemas mentais que regem as atividades diárias do ser humano – como ler, escrever, conversar, planejar, reconhecer rostos. Alguns sistemas comportam outros sistemas, agregando complexidade na geração de um comportamento. O sistema cognitivo da linguagem, por exemplo, envolve falar, ler e escrever, ativando diferentes estruturas cerebrais. Esses diferentes sistemas cognitivos têm como base distintas operações mentais: uma dada tarefa mental, como jogar xadrez, pode ativar diferentes operações mentais, as quais estão relacionadas a redes neurais de áreas cerebrais específicas. Acrescenta-se a essas 51 proposições a visão de Moraes (2004), para quem a aprendizagem progride mediante fluxos dinâmicos de trocas, análises e sínteses autorreguladoras cada vez mais complexas, ultrapassando o acúmulo de informações e sendo reconstruída, via transformação, por meio de mudanças estruturais advindas de ações e interações provocadas por perturbações a serem superadas. A memória informações, bem é responsável como pela pelo evocação armazenamento daquilo que de está armazenado. E a aprendizagem requer competências para lidar de forma organizada com as informações novas, ou com aquelas já armazenadas no cérebro, a fim de realizar novas ações. Aprender envolve, assim, a execução de planos já formulados, resultando de ações mentais bem pensadas, ensaiadas mentalmente e que influenciam o planejamento de atos futuros. O cérebro está preparado para funcionar com o feedback interno e externo, pois é autorreferente, isto é, “o que é recebido em qualquer nível cerebral depende de tudo o mais que acontecer nesse nível, e o que é enviado para o nível seguinte depende do que já estiver acontecendo nesse nível” (Ratey, 2001, p. 202). Apesar da proximidade entre os conceitos de aprendizagem e memória, Lent (2001) os distingue de forma bastante clara: O processo de aquisição de novas informações que vão ser retidas na memória é chamado aprendizagem. Através dele nos tornamos capazes de orientar o comportamento e o pensamento. Memória, diferentemente, é o processo de arquivamento seletivo dessas informações, pelo qual podemos evocá-las sempre que desejarmos, consciente ou inconscientemente. De certo modo, a memória pode ser vista como o conjunto de processos 52 neurobiológicos e neuropsicológicos que permitem a aprendizagem (Lent, 2001, p. 594). 5.4- Plasticidade Cerebral Considerando a flexibilidade do cérebro para reagir às demandas do ambiente, explicada pela sinaptogênese – capacidade de formação de novas conexões, sinapses, entre as células cerebrais –, e o fato de que o conhecimento deve ser codificado nas ligações entre os neurônios, a aprendizagem, possibilitada pela plasticidade cerebral, modificando química, anatômicamente e fisiologicamente o cérebro, porque exige alterações nas redes neuronais, cada vez que as situações vivenciadas no ambiente inibem ou estimulam o surgimento de novas sinapses mediante a liberação de neurotransmissores (Mora, 2004). Oferecendo situações de aprendizagem fundamentadas em experiências ricas em estímulos e fomentando atividades intelectuais pode-se promover a ativação de novas sinapses. As informações do meio, uma vez selecionadas, não são apenas armazenadas na memória, mas geram e integram um novo sistema funcional, caracterizando com isso a complexificação da aprendizagem. Uma informação pode, pela desordem que gera, levar à evolução do conhecimento do indivíduo, pois ele precisará desenvolver estratégias cognitivas a fim de reorganizar e retomar o equilíbrio na construção do conhecimento. E isso é obtido por meio de um processo dinâmico e recursivo presente na reconstrução do próprio ato de conhecer. Segundo Demo, “a aprendizagem, embora dependa de substratos físicos estruturados caracteriza- se pelo processo de contínua inovação, maleável por natureza, flexível e dinâmico” (Demo, 2001, p. 50). 53 A aprendizagem surge de um acoplamento estrutural: as interações recíprocas entre o indivíduo e o meio fazem surgir mudanças estruturais na organização do ser vivo e do contexto em que está inserido; perante as informações, o organismo, num processo auto-organizador, opera com propriedades emergentes, a fim de se adaptar às condições cambiantes presentes no processo de conhecer. Transferindo para a educação, conforme o entendimento da aprendizagem, como acoplamento estrutural implica uma visão nova do aprender, a qual passa a estar fundamentada no fato de que experiências de aprendizagem em contextos pedagógicos geram alterações na estrutura do indivíduo. As experiências em sala de aula estimulam reflexões recursivas sobre os pensamentos, sentimentos e ações, permitindo que a aprendizagem seja concebida como processo reconstrutivo, envolvendo autorreorganização mental e emocional daqueles que interagem nesse contexto. Morin afirma: “Aprender não é somente reconhecer o que, virtualmente, já era conhecido; não é apenas transformar o desconhecido em conhecimento. É a conjunção do reconhecimento e da descoberta. Aprender comporta a união do conhecido e do desconhecido” (Morin, 1999, p. 70). A memória e a aprendizagem são fundamentais para a evolução do indivíduo como ser social, pois ultrapassam a simples apreensão das informações pelo sujeito aprendente, passando a fundamentar seu pensamento e suas ações. 54 Pensar é, com efeito, um processo, uma função biológica desempenhada pelo cérebro. O processamento do pensamento é o ato de receber, perceber e compreender, armazenar, manipular, monitorar, controlar e responder ao fluxo constante de dados. A capacidade para ligar de forma competente as informações oriundas das áreas de associação motora, sensorial e mnemônica é decisiva para o processamento do pensamento e para a consideração e planejamento de futuras ações (Ratey, 2001, p. 198). 5.5 – Emoção, Motivação e Aprendizagem Deve-se ressaltar que as emoções desempenham um papel decisivo na aprendizagem. O sistema límbico, formado por tálamo, amígdala, hipotálamo e hipocampo, avalia as informações, decidindo que estímulos devem ser mantidos ou descartados, dependendo a retenção da informação no cérebro da intensidade da impressão provocada nele. A consciência da experiência vivenciada é atingida quando, ao passar pelo córtex cerebral, compara-se a experiência com reflexões anteriores. Assim, quando se escabele uma ligação entre a informação nova e a memória preexistente, são liberadas substâncias neurotransmissoras – como a acetilcolina e a dopamina – que aumentam a concentração e geram satisfação. Compreende-se dessa maneira que a emoção e motivação influenciam a aprendizagem. Os sentimentos, intensificando a atividade das redes neuronais e fortalecendo suas conexões sinápticas, podem estimular a aquisição, a retenção, a evocação e a articulação das informações no cérebro. Diante desse quadro, os autores defendem a importância de contextos que ofereçam aos 55 indivíduos os pré-requisitos necessários a qualquer tipo de aprendizado: interesse, alegria e motivação. Conforme Lent, “a razão é fortemente relacionada com a emoção. De um modo ou de outro, nossos atos e pensamentos são sempre influenciados pelas emoções” (Lent, 2001, p. 671). Wallon ocupa um lugar estratégico na afetividade quando ressaltando que ela se junta aos domínios funcionais a motricidade e à inteligência. Para ele todos eles tem uma estreita vinculação entre si e que são construídos gradativamente. Dentro de uma perspectiva de aprendizagem sustentada nas relações entre os elementos constituintes da percepção – sentidos e memória – e no pensamento sistêmico, no qual essas relações acontecem inseridas na complexidade da reestruturação permanente do conhecimento no cérebro/mente, é imprescindível que o professor se reconheça como responsável pela configuração de um ambiente que propicie a auto reorganização dos indivíduos. Para Fonseca (1998), ainda que a inteligência do indivíduo dependa, pela interação entre as células neuronais, do desenvolvimento biológico, somente as mediações que o indivíduo sofre em suas interações com o meio ambiente onde está inserido é que permitirão expandir essa inteligência em todo seu potencial. À luz desses argumentos, entender como o aluno aprende permite ao professor, assim, buscar uma forma mais adequada de ‘didatizar’ os conhecimentos científicos, pois compreender a forma de cognição do aluno melhora a organização do ensino. 56 Capítulo VI “Se eu escuto... esqueço! Se eu vejo... entendo! Se eu faço ... aprendo!” (Provérbio Chinês) 6 Conhecimentos Neurocientíficos - Contribuições para formação Docente Evidencia-se que vivemos no século do estudo da mente e do cérebro. O interesse na área, ancorado no progresso tecnológico, tem garantido avanços científicos significativos para a neurociência, contribuindo intensamente para promover com maior eficácia o entendimento da mente humana. Há uma busca exaustiva no campo científico da neurociência em torno de como o cérebro age. São inúmeros os estudos que têm sido publicados, em revistas especializadas ou não, e vários os congressos realizados na área da neurociência. Usando de recursos tecnológicos sofisticados, como técnicas de mapeamento de imagens, hoje é possível não apenas analisar detalhadamente a anatomia do cérebro, mas também identificar que partes dele trabalham quando se realiza uma ação. Instaura-se aqui a possibilidade de aprender como as pessoas organizam seus processos cognitivos, bem como de reconhecer as diferenças entre essas organizações. Essa perspectiva permite que a evolução da ciência do cérebro se constitua numa das principais alternativas para compreender a complexidade cognitiva humana. 57 Para Pozo (2002), um conhecimento mais aproximado da forma de funcionamento do processo de aprendizagem permite uma compreensão mais adequada do aprender e do ensinar, superando-se dificuldades tanto do aprendiz quanto daquele que ensina – isto é, daquele que ajuda os outros a aprender. E esse conhecimento pode auxiliar os mestres a reestruturarem o ensino, proporcionando àquele que aprende um melhor desempenho na tarefa de aprender. Complementando essa idéia, Shore (2000) salienta que o conhecimento científico crescente produzido pela neurociência deve ser dirigido àqueles que, de algum modo, colaboram profundamente no desenvolvimento cognitivo das crianças – em especial, pais e professores, interventores reconhecidos na aprendizagem desses indivíduos. Entretanto, apesar de a mídia ter constantemente explorado, de forma bastante intensa, o tema mente/cérebro, colaborando para o aumento das informações sobre o assunto, esses conhecimentos têm sido apresentados de forma superficial e desconectada de seu vínculo com a educação. Além disso, a produção literária nacional com uma visão unificada das relações entre as ciências da mente/cérebro e a educação é escassa. Assim, aborda-se de forma mais densa o papel significativo da biologia da mente na educação. Os livros e materiais disponíveis no mercado pouco oferecem nesse sentido ou, quando apresentam informações científicas mais especializadas, destinam-se a um grupo seleto de profissionais e são direcionados a áreas como medicina e psicologia, afastando-se das atividades do professor. Tardif (2003) lembra que o objeto de trabalho do docente é o humano, e que isso tem consequências relevantes para a prática profissional dos professores, o que merece maior discussão. 58 Conforme o autor, num dado grupo de alunos, existem especificidades individuais, cabendo ao docente atingir cada um dos indivíduos: Essa tarefa docente envolve a disposição para compreender os alunos em suas particularidades individuais e situacionais, acompanhando sua evolução no contexto em sala de aula. (...) a disposição do professor para conhecer seus alunos como indivíduos deve estar impregnada de sensibilidade e de discernimento a fim de evitar as generalizações excessivas e de afogar a percepção que ele tem dos indivíduos num agregado indistinto e pouco fértil para a adaptação de suas ações. Essa predisposição para conhecer os alunos como indivíduos parece, aliás, muito pouco desenvolvida nos alunosprofessores (...). A aquisição de sensibilidade relativa às diferenças entre os alunos constitui uma das principais características do trabalho docente. Essa sensibilidade exige do professor um investimento contínuo e em longuíssimo prazo, assim como a disposição de estar constantemente revisando o repertório de saberes adquiridos por meio da experiência (Tardif, 2003, p. 267). Demo (2005) indica a necessidade de propiciar uma formação mais eficiente aos professores quanto à complexidade e à reconstrução presentes na aprendizagem. Em relação a essa necessidade, o autor destaca a importância, com base em diferentes vertentes teóricas advindas de áreas variadas, do estudo sobre a aprendizagem na formação do professor, não só adotando como referencial as ciências humanas e sociais, mas também reconhecendo o caráter interdisciplinar da aprendizagem. Segundo Claxton (2005), se os professores não sabem em que consiste a aprendizagem e como ela ocorre, tem as mesmas possibilidades 59 de favorecê-la ou de atrapalhá-la. Para Moraes e Torre (2004), a neurociência oferece conhecimentos que deveriam ser aproveitados pelos docentes. Os referidos autores lembram que a aprendizagem é proporcionada pela plasticidade do cérebro e sofre influência do ambiente. Nesse caso, o professor, por meio de sua ação profissional, transmite estímulos que podem vir a contribuir para a secreção de hormônios que provocam o entusiasmo e o desejo de aprender ou o extremo oposto, o desinteresse. Não considerar esses pressupostos pode ocasionar uma visão equivocada dos diferentes momentos de ensino e aprendizagem. Na ausência de informações de como nosso cérebro faz o que faz, muitas vezes os professores atribuem o insucesso no aprender à incapacidade de os alunos realizarem determinados tipos de aprendizagem. Com isso, os professores se esquivam de sua responsabilidade como mediadores da aos professores a construção do conhecimento. Em contrapartida, oportunizar compreensão de como o cérebro trabalha dá condições mais adequadas para que ele estimule a motivação em sala de aula e, de certa forma, assegura a possibilidade de sintonizar com os diversos tipos de alunos, os quais terão suas capacidades mais profundamente exploradas. Indubitavelmente, o ato pedagógico é extremamente relevante para a retenção e o processamento da informação trabalhada em sala de aula, uma vez que as explicações e a atuação docente não somente informam, como também oferecem dados os quais, colhidos nas interações quando realmente vivenciadas, não se restringem às percepções sensíveis e 60 aparentes. Nesse caso, gesto e fala fornecem mensagens significativas, pistas, a serem decodificadas. De acordo com Morin (1999), somos influenciados pelos pensamentos dos outros de tal modo que, apesar de independentes, dependemos das relações que construímos no ambiente em que nos encontramos. Na sala de aula, o que se fala e como se fala constituem elementos desencadeadores de pensamentos e raciocínios. Tomando como exemplo as informações visuais e auditivas veiculadas em um dado recurso didático, bem como o comportamento docente, eles criam circunstâncias capazes de configurar determinada identidade emocional, em virtude de pensamentos e memórias, que evocam lembranças e manipulam a interpretação na mente. Segundo Izquierdo (2002), as emoções e o estado de ânimo interferem na formação e na evocação de memórias e, como qualquer função cognitiva que envolve sinapses, quanto maior o número de estímulos condicionados dessa memória, tanto maior a retenção ou a evocação de uma dada informação. Quantos professores sabem que um simples trabalho de memorização de diferentes tipos de textos exige diferentes níveis de oxigenação do cérebro? Que quanto mais complexa a atividade proposta e à medida que se eleva o grau de raciocínio, o fluxo sanguíneo no cérebro é mais intenso? O professor tem noção de que sua ação pedagógica desencadeia no organismo do aluno reações neurológicas e hormonais que podem ter influência na motivação para aprender? Como pode o professor desconhecer a dinâmica mente/cérebro? Basta a análise dessas questões para que se compreenda a importância desse tipo de informação na adequação de metodologias de ensino. 61 Do reconhecimento de que a compreensão do cérebro é crucial para o ato pedagógico, surge à necessidade de refletir sobre um novo saber disciplinar baseado nos conhecimentos neurocientíficos, os quais poderiam ser vinculados às disciplinas direcionadas à aprendizagem humana. A articulação entre neurociências e educação pode ocorrer por meio da renovação de um componente já existente ou pelo acréscimo de um novo componente curricular nos cursos de formação de professores. Sua prioridade deve ser a de adicionar informações científicas e subsidiar futuras ações práticas, não se constituindo se constituindo apenas em mais um saber disciplinar, mas em um saber pertinente e útil para a prática profissional da docência. Como preconiza Willians: “A pesquisa sobre o cérebro manifesta o que muitos educadores sabem intuitivamente: que os alunos aprendem de diversas maneiras e quanto mais maneiras se apresentarem, tanto melhor aprendem a informação” (Willians apud Moraes e Torre, 2004, p. 88). Esse novo saber passaria a constituir um forte embasamento teórico para o saber-fazer docente, pois possibilitaria como consequência não só a revisão dos processos de aprendizagem, como também um melhor conhecimento do processo de ensinar, imprimindo uma reorientação da transposição didática. Trata-se de propor um saber disciplinar que embasa e se aprimora num saber profissional, pois ao descobrir o que a neurociência cognitiva pode oferecer à educação e vice-versa, na perspectiva de que esses saberes se complementam, se enriquecem científicas e com se a necessitam, prática podemos docente e, entrelaçar teorias consequentemente, fundamentar o saber pragmático dos professores. De acordo com a 62 Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (OCDE): “Nas próximas décadas, temos boas possibilidades de desvendar as complexidades do cérebro e compreender, pelo menos, a natureza da memória e da inteligência (por exemplo, e o que realmente acontece quando o aprendizado ocorre). Quando atingirmos esse objetivo, seremos capazes de reassentar nossa prática educativa sobre uma sólida teoria da aprendizagem” (Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômicos, 2003, p. 46). O professor, ainda que deva assumir a posição de especialista de sua disciplina, necessita assumir, concomitantemente, a posição de didata da disciplina, e isto acontecerá na medida em que sua formação permita compreender onde e como ocorrem as aprendizagens (Meirieu, 1998; Zabalza, 2004). Partindo desse pressuposto, ao professor cabe oferecer, através de sua prática, um ambiente que respeite as diferenças individuais permitindo que os aprendizes sintam-se estimulados do ponto de vista intelectual e emocional. Daí a necessidade do educador, consciente de seu papel de interventor responsável pela mediação da informação, buscar estruturar o ensino de modo que os alunos possam construir adequadamente os conhecimentos a partir de suas habilidades mentais. E para isso, é imprescindível que conheçam os significativos estudos da neurociência, uma vez que esses, sem dúvida, influenciam na compreensão dos processos de ensino e de aprendizagem Nesse caso, a interlocução entre neurociências e educação influenciaria a futura ação pedagógica dos acadêmicos. Os 63 conteúdos neurocientíficos podem vir a colaborar substancialmente no melhor desempenho docente, uma vez que professores que compreendem a aprendizagem como processo humano que tem raízes biológicas e condicionantes socioculturais do conhecimento adotam uma gestão mais eficaz tanto das emoções quanto da aprendizagem de seus estudantes. 64 Considerações Finais A necessidade de aproximar os achados na área da neurociência da educação sustenta a premissa de que instituições responsáveis pela formação de professores precisam examinar e discutir os componentes curriculares das licenciaturas, revendo a estrutura desses cursos, a fim de que os alunos, futuros profissionais da educação, possam buscar otimizar sua ação pedagógica. Destaco a necessidade de revisão das estruturas curriculares dos cursos de formação de professores, em especial das licenciaturas, indicando como alternativa a inserção de disciplinas, ou a reestruturação de disciplinas já existentes, com vistas a propiciar a interlocução entre neurociência, ensino e aprendizagem. Acredito que pelo reconhecimento que os componentes curriculares advindos das áreas de psicologia e didática dos cursos de formação de docentes podem abordar conhecimentos neurocientíficos, pois, em geral, contemplam em seus programas questões como memória, emoção, desenvolvimento do sistema nervoso, dificuldades de aprendizagem e comportamento humano. Com isso, é possível defender a verificação não só da inserção desses temas, mas também de como eles são explorados como conteúdos programáticos das áreas de psicologia e didática nos currículos atuais. Uma análise cuidadosa dos quadros curriculares dos cursos de formação de professores provavelmente poderá revelar a necessidade de renovação de alguns dos componentes 65 curriculares, para a sua adaptação às descobertas no campo da neurociência. Assim, considerando que esse pressuposto está em estágio inicial, postula- se como imprescindível a realização de pesquisas sobre o ensino superior a fim de atender diversos questionamentos pendentes, entre eles: Conhecimentos científicos da neurociência são abordados em alguma disciplina nos cursos de formação de professores? Se o são, estão relacionados aos processos de ensino e de aprendizagem? Qual a relevância atribuída pelos alunos desses cursos à existência ou não desses saberes disciplinares durante a formação acadêmica? De forma mais específica, no caso de serem percebidas lacunas curriculares, é possível recomendar a inserção de uma nova disciplina que aborde, de maneira mais profunda e intensa, a visão integrada da biologia do cérebro com aspectos mais pedagógicos do ensinar e do aprender. Um exemplo seria a criação de uma disciplina como ‘Neurociência e aprendizagem’, ‘Neurociência Educacional’ ou ‘Biologia da Aprendizagem’. Nessa disciplina, poderiam ser desenvolvidos os conteúdos neurocientíficos atrelados à pedagogia, numa visão transdisciplinar. A disciplina, seja ela advinda da inserção de um novo componente curricular ou resultado da adição de conteúdos científicos para a renovação de alguma disciplina já existente, deve não só reconhecer a importância dos achados neurocientíficos, mas também otimizar o seu uso, buscando oferecer ao aluno do curso de pedagogia ou normal superior material significativo para que ele aprimore a sua compreensão da relação entre cérebro e aprendizagem. 66 De um ponto de vista mais prático e tendo como apoio a percepção de que a visualização do funcionamento do substrato físico onde ocorrem os processos mentais pode tornar-se um elemento facilitador para o entendimento do cérebro como sistema complexo, plástico e reorganizável, sugere-se que o componente curricular faça uso de neuroimagens geradas nas pesquisas desenvolvidas na área da neurociência, as quais constituem recurso inestimável para uma abordagem ampla das relações entre cognição, emoção e aprendizagem. É interessante ressaltar que, embora a sugestão enfatize a relevância do entendimento da base biológica da cognição humana, não desconsidera que a manifestação comportamental é também fruto da interação do indivíduo com o meio em que vive. Como exposto, achados da própria neurociência têm evidenciado como os estímulos externos gerados no ambiente afetam as conexões cerebrais, influenciando o desenvolvimento e o funcionamento cerebral. Sem dúvida, um painel detalhado sobre o que existe de mais atual nas neurociências e que vincule esses dados às teorias pedagógicas deve ser oferecido não apenas para os alunos durante a formação acadêmica, mas também ser estendido aos profissionais em atuação, pois pode contribuir para a formulação de diretrizes pedagógicas que busquem otimizar a adoção de condutas de ensino e de aprendizagem. 67 Referência Bibliográfica CARVALHO, Fernanda Antoniolo Hammes de. Metacognição: a temática naprodução científica. 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