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ED
IÇ
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OÁSIS
O NOVO
TERRORISMO
Ele é sobretudo politico,
e não religioso
OS CÉUS
DO ARIZONA
Vídeo excepcional
em time-lapse
AS FOBIAS ESTÃO EM
TODA A PARTE. MAS
PODEM SER CURADAS
O MEDO
É DEMOCRÁTICO
MIGUEL
NICOLELIS
A comunicação entre
cérebros já chegou
POR
LUIS
A ORNITOFOBIA E A PATOFOBIA (MEDO DE CONTRAIR DOENÇAS
OU DE ESTAR DOENTE) ENCABEÇAM AS LISTAS DAS FOBIAS
CONTEMPORÂNEAS COM MAIOR NÚMERO DE ADEPTOS. MAS
ESTÃO INFINITAMENTE LONGE DE SEREM AS ÚNICAS
PELLEGRINI
EDITOR
H
á poucas semanas, em visita à residência de um amigo, nossa
conversa foi interrompida por uma gritaria desesperada que
vinha da sala ao lado. Era a esposa dele, totalmente aterrorizada
por um filhote de pardal que, sem saber voar direito, passou pela janela
aberta e foi parar em cima de uma estante. Logo começaram a gritar também a filha do meu amigo, e suas duas netas. E a casa até então tranquila
virou um asilo de doidos. Tudo por causa de um passarito menor que a
palma da minha mão.
“Elas não suportam nada que tenha asas e voe”, comentou meu amigo.
“Elas? Todas elas?” retruquei. “Começou com a avó, que passou esse
medo à filha, e agora as duas netas também estão assim. É uma fobia que
não tem remédio...”
Ele estava certo: tratava-se realmente de uma fobia, um medo injustificado de alguma coisa, no caso, um medo de pássaros. Mais precisamente,
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EDITORIAL
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POR
LUIS
PELLEGRINI
EDITOR
de uma ornitofobia, hoje, um dos terrores mais comuns entre mulheres
que vivem no meio urbano. Mas meu amigo também estava errado: essa,
como quase todas as outras fobias, tem cura sim.
A ornitofobia e a patofobia (medo de contrair doenças ou de estar doente) encabeçam as listas das fobias contemporâneas com maior número de
adeptos. Mas estão infinitamente longe de serem as únicas. Mais que nunca, o elenco das fobias parece não ter fim. Desde as mais comuns, como
o medo de aranhas, de serpentes, de ficar trancado em lugares fechados
(claustrofobia), até as mais insólitas. Existem, por exemplo, aqueles que
não suportam a visão de um joelho – nem sequer dos seus próprios joelhos – (genufobia), quem treme, e não apenas de frio, quando cai a neve
(quionofobia), e quem tem um tal pavor das sombras (erebofobia) que
acaba decidindo viver na escuridão mais absoluta. Outros temem os ângulos e os cantos das casas e dos edifícios (gonofobia), sentem pânico diante
de um prato de sopa de verduras (lachanofobia) ou quando chegam perto
de um computador (os ciberfóbicos, que dificilmente lerão este editorial
nesta revista digital). São distúrbios bastante insólitos, é verdade, mas existem, são sérios e podem bloquear o indivíduo. Além disso, podem atacar
qualquer pessoa, sem distinção.
As fobias, suas origens, causas, riscos e os métodos terapêuticos para acabar com elas, são o tema da nossa matéria e capa. Confira.
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EDITORIAL
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PSICO
PSICO
O MEDO É
DEMOCRÁTICO
As fobias estão em
toda a parte. Mas
podem ser curadas
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Aviões, aranhas, serpentes,
mas também telefones, belas
mulheres, palhaços, sogras.
As fobias mais estranhas e as
terapias que ajudam a superá-las
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PSICO
POR: EQUIPE OÁSIS
magine cruzar na rua com uma garota esplêndida: salto alto, curvas bem dosadas,
lábios sensuais... em resumo, uma gata de
parar o trânsito. Mas se você, em vez de
se voltar para admirá-la, começa a tremer
e a transpirar com suor frio, ao mesmo
tempo em que uma sensação de náusea e
de opressão lhe invade, então provavelmente
você sofre de caliginefobia, um terror pelas
belas mulheres. Talvez temperada com uma
pitada de filematofobia, um medo doido de
beijar e ser beijado. Mas se, em vez disso, o
que lhe dá medo são os beijos da sua sogra,
então talvez você sofra de penterafobia (uma
aversão injustificada pela mãe da sua esposa).
Uma lista sem fim
O elenco das fobias mais insólitas poderia
continuar ao infinito. Existem aqueles que
não suportam a visão de um joelho – nem
sequer dos seus próprios joelhos – (genufobia), quem treme, e não apenas de frio,
quando cai a neve (quionofobia), e quem tem
um tal pavor das sombras (erebofobia) que
acaba decidindo viver na escuridão mais absoluta. Outros temem os ângulos e os cantos
das casas e dos edifícios (gonofobia), sentem
pânico diante de um prato de sopa de verduras (lachanofobia) ou quando chegam perto
de um computador (os ciberfóbicos, que dificilmente lerão estas informações nesta revista digital). São distúrbios bastante insólitos,
é verdade, mas existem, são sérios e podem
bloquear o indivíduo. Além disso, podem
atacar qualquer pessoa, sem distinção.
Fobias para todos os gostos
“O medo é democrático”, afirma Giorgio
Nardone, psicólogo, psicoterapeuta e diretor
do Centro de Terapia Estratégica de Arezzo,
na Itália ( um instituto de pesquisa, treinamento e cura dessas patologias). “Em 20
anos de terapia cuidei de cerca 15 mil pacientes, dos quais 52% são mulheres e 48%
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Fobia: taquicardia; sensação de contrição no peito; temor de desmaio; temor de morrer; afastamento fóbico.
Em resumo, se para você fobia era uma coisa relacionada
a aranhas e serpentes, chegou a hora de atualizar o glossário. Alguns pesquisadores tentaram produzir catálogos
das fobias mais estranhas. Na Internet vários deles estão
disponíveis e o número de verbetes coletados supera a
casa dos mil. Infelizmente, mais que oferecer algum tipo
de ajuda terapêutica a quem sofre desses distúrbios, esses catálogos servem mais para satisfazer a curiosidade
dos leitores “sadios”.
homens). Não existe portanto uma diferença significativa
quanto ao sexo dos pacientes, e nem quanto à sua classe social. Nem mesmo médicos e psicólogos, que quase
diariamente cuidam de pessoas fóbicas, estão imunes e a
salvo da síndrome”.
Sintomas e características
Os graus crescentes do sentimento de pânico:
Simples desgosto: contração dos músculos faciais; náusea; desejo de se afastar.
Medo: elevada produção de adrenalina; aumento da
sudorese e do ritmo cardíaco; tremores; maior nível de
atenção.
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Fobias aceitáveis, e outras menos
Diante de um caso de fobia bizarra, alguns riem, outros
fazem piada, outros ainda se irritam. Mas a verdade é
que na maioria das vezes não existem motivos para risadas. As fobias são patologias que podem tornar muito
dura a vida das pessoas acometidas. Embora algumas
modalidades moderadas de fobia sejam aceitáveis e consideradas apenas “tiques” da pessoa, outras incomodam
e não são aceitas ou toleradas.
Tente pensar em permanecer bloqueado dentro de um
elevador, parado entre dois andares muito altos. É fácil
imaginar um ataque de claustrofobia nessas circunstâncias. Mas o que pensar de um colega que sente um medo
tremendo de escadas e degraus (batmofobia)? Ou se um
outro amigo, depois de várias tentativas inúteis e crises
de pânico, lhe implorasse para dar um telefonema em
seu lugar porque ele tem pavor só de pensar em discar o
número do telefone?
É difícil confessar a amigos e a conhecidos que se tem
medo de objetos e situações aparentemente tão “inócuos”. Arrisca-se a ser tomado por um doido. Ou de ser
considerado um débil ou uma pessoa cheia de caprichos.
Com efeito, como você reagiria se, num dia ventoso, soubesse que um parente faltou ao encontro e preferiu ficar
trancado em casa por sentir um medo irracional de rajadas de vento (anemofobia)? Ou um temor incontrolável
de sombras (esciofobia), que o obriga a trancar-se num
quarto escuro, evitando dessa forma todo contato com o
mundo exterior?
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• Rabdofobia: medo das varetas de radiestesia
• Hexakosioihexekontahexafobia: medo do número 666
• Panfobia: medo de tudo
Doença como qualquer outra
No entanto, quem sofre de um desse distúrbios bizarros
não padece menos de claustrofóbido “normal”, ou de um
ainda mais “popular” aracnofóbico (o que tem medo de
aranhas). Taquicardia, náusea, vertigem, tremores, medo
de desmaiar, morrer ou perder o controle de si mesmo,
E que dizer dos que sofrem de ciberfobia (medo de computadores), patologia que para eles reduz enormemente o
leque de possibilidades de trabalho e emprego?
Medo da própria sombra
AS DEZ FOBIAS MAIS ESTRANHAS
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Eufobia: medo das boas notícias
Itifalofobia: medo da ereção do pênis
Curlofobia: medo de palhaços
Estaurofobia: medo de cruzes
Autodisomofobia: medo de pessoas que cheiram mal
Levofobia: medo de coisas que se encontram à esquerda do corpo
• Ostraconofobia: medo de ostras e mariscos
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pânico e sentimento de aperto no peito são sintomas frequentes e comuns nos fóbicos, independentemente dos
medos que os atormentam. É comum a todos eles a tentativa de afastar de todas as maneiras possíveis os objetos e as situações que temem (aquilo que os terapeutas
chamam de “evitamento fóbico”).
É também comum à maior parte dos fóbicos uma certa
relutância para procurar um especialista, sobretudo no
caso de fóbicos atacados por distúrbios mais bizarros,
que procuram esconder seus temores pelo tempo mais
longo possível. A tal ponto que patologias desse tipo escapam inclusive às estatísticas médicas oficiais.
Como nascem as fobias?
Os especialistas divergem quanto a origem das fobias. Há
os que pensam que a responsabilidade é em grande parte
genética. Com efeito, examinando o DNA de um grupo de
pessoas que sofriam de ataques de pânico, fobias e outros
distúrbios de ansiedade, o cientista espanhol Xavier Estivill notou que 97% deles apresentava uma duplicação do
material genético presente em um cromossomo particular, o de número 15. É possível, portanto, hipnotiza Estivill, que os genes estejam de algum modo envolvidos na
origem desses medos incontroláveis.
Hipótese relacional - Uma hipótese mais relacional
diz que as fobias são “aprendidas”, com o passar dos
anos, através da relação com os pais e outros educadores.
“Quem vem de uma família híper protetora corre com
mais frequência apresentar, ao longo da vida, distúrbios
similares. Quando encontram obstáculos maiores do que
aqueles que estão acostumados a enfrentar, tais pessoas
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tativas inconscientes de se obter dos outros pequenas
“vantagens”. Por exemplo, se temos medo de dirigir um
carro, haverá quase sempre alguém disposto ou obrigado
a fazer isso por nós, livrando-nos do estresse das filas e
dos estacionamentos.
Armas de sobrevivência
Não importa qual seja a sua origem, o medo é um peso
que carregamos desde sempre. Nossos antepassados pré-históricos provavelmente sofriam de ceraunofobia, ou
seja, um medo incontrolável de relâmpagos. Foi exatamente esse instinto primitivo – quase um sistema de
não encontram instrumentos para superá-los”, explica
Nardone.
Hipótese psicoanalítica – Mais centrada no indivíduo, é baseada nas teorias de Sigmund Freud. Ao observar o caso do menino Hans, de 5 anos, aterrorizado pela
ideia de ser mordido ou pisado por um cavalo, o pai da
psicanálise lançou a hipótese de que as fobias são tentativas de “desviar” a atenção de alguma ansiedade interior
para algum objeto externo e mais facilmente controlável.
Para Freud, o que amedrontava Hans era, na verdade,
uma forte submissão à figura demasiado autoritária do
pai.
Oportunistas amedrontados – Por fim, para alguns
estudiosos as fobias poderiam ser entendidas como tenOÁSIS
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Evolução do medo
No topo da lista das zoofobias hoje mais difundidas, está
o medo aos pombos e a outros pássaros e animais que
voam: sinal de que as fobias mudam com o tempo, como
acontece com a moda. Muito difundidas também as patofobias, temores desmotivados de ser atingido por alguma doença incurável. Segundo recente pesquisa levada a
efeito em países europeus desenvolvidos, esses doentes
imaginários, que se submetem a exames diagnósticos
contínuos e invasivos, constituem entre 6 e 7% da população do Velho Continente. Só na Itália, são mais de 2
milhões de pessoas que, além de viver um forte descon
alarme que alerta os sentidos e prepara o corpo a reagir
– que ensinou aos antigos a se defender deles. “O medo é
a melhor arma de sobrevivência de que dispomos”, continua Nardone, “o problema é se a reatividade sobre além
de um certo nível, chegando a nos bloquear”. Nenhuma
surpresa, portanto, se entre os estímulos fóbicos mais
comuns estejam o sangue, a altitude e os animais (ou
seja, os mesmos medos que atormentavam nossos antepassados). Em particular, entre os animais mais temidos,
encontramos as serpentes. Fato bem estranho, visto que
atualmente é muito mais fácil morrer num acidente de
carro do que por picada de cobra. Tudo leva a crer que na
nossa memória evolutiva permaneçam traços dos perigos
que ameaçavam nossos antigos predecessores.
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se aproxima dela até chegar a vive-la por completo, mas
agora não mais em uma situação de pânico.
Uma outra possível estrada é a terapia breve estratégica de Giorgio Nardone, que combate as fobias através
de “rituais para espantar o medo” que têm se mostrado
eficazes. Eles são prescritos ao paciente com uma linguagem hipnótica. Exemplo: A um garoto aterrorizado
pela ideia de que poderia bater a cara contra os espelhos,
o terapeuta o aconselhou se proteger com um capacete
de motocross. Tomado por essa nova tarefa de manter a
cabeça protegida pelo capacete, o rapaz retomou, quase
sem o perceber, os hábitos de outrora que tinham sido
forto pessoal, agravam a balança dos serviços sanitários
estatais.
Claro, uma fobia do tipo da lutrafobia (medo de lontras)
não é particularmente séria para quem vive num meio
urbano: basta evitar rios e parques naturais e o problema
desaparece. Mas a questão é que atrás deste e de outros
medos tão específicos esconde-se com frequência um desconforto pessoal mais sério. Por que, então, não tentar
resolvê-lo? Abordagens terapêuticas não faltam.
A psicoterapia cognitivo-comportamental, por exemplo,
propõe uma progressiva “dessensibilização” do estímulo
fóbico que leva o paciente a progressivamente enfrentar o objeto do seu medo. Começa-se com a tomada de
consciência da situação temida e pouco a pouco a pessoa
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evitando o contato com os outros – o tratamento com
fármacos antidepressivos como a paroxetina.
Esses fármacos reduzem os sintomas externos do distúrbio, mas não combatem as suas causas na raiz. Além disso, apresentam risco de criar dependência.
10 fobias que você talvez não conheça
As fobias são medos que em geral provocam verdadeiros
sentimentos de angústia nos que sofrem delas. Mas elas
não dizem respeito apenas a insetos e doenças. Do amor
aos palitos chineses, são muitíssimas as causas que podem gerar um grande medo destituído de razão de ser.
Confira abaixo a lista de dez fobias surpreendentes:
1 Decidofobia. É o medo de tomar decisões. O primeiro
a fazer referência a ela foi o filósofo Walter Kaufmann,
em um livro de sua autoria publicado em 1973. Segundo
Kaufmann, os decidófobos sempre deixam as decisões
a cargo de uma autoridade externa, tal como um pai ou
mãe, um partido político, uma igreja.
abandonados por causa do seu distúrbio. Dentro de pouco tempo ele perdeu o terror de espelhos e abandonou o
uso do capacete. Nesse caso, a fobia foi vencida mudando
o foco da atenção da tentativa de controlar o medo para a
execução de uma tarefa que requer uma certa atenção.
Combater as fobias sociais – Diverso é o método psiquiátrico que prevê, para alguns tipos de fobias sociais – distúrbios que levam o paciente a se fechar em si mesmo
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PSICO
2 Nomofobia. Deriva do termo inglês no-mobile. É o
medo de permanecer desconectado da rede de telefonia
celular (“fora de campo”). Trata-se de uma fobia muito
recente, e é muito difusa. Segundo um estudo britânico,
em maior ou menor medida sofrem dessa fobia 58% dos
homens e 48% das mulheres!
3 Filofobia. É o medo de apaixonar-se e de amar. Os
psicólogos a interpretam como uma espécie de mecanismo dedefesa: não amo para não sofrer. O caso mais
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5 Deipnofobia. O medo sem motivo das conversas durante as refeições. Ele pode ser incluído no rol das fobias
sociais. Segundo especialistas da psicologia cognitiva,
cerca de 13% da população nos países mais desenvolvidos viveram algum episódio de fobia social em algum
momento da vida.
6 Bolsenofobia. O medo injustificado dos comunistas. Essa fobia foi particularmente difusa nos tempos da
Guerra fria, entre o final dos ano 1940 e a metade dos
anos 1950, sobretudo nos Estados Unidos, onde aconteceu uma verdadeira caça às bruxas na forma de ações
anti-comunistas decretadas por comissões parlamentares
famoso é o de Elizabeth I, rainha da Inglaterra, filha de
Henrique VIII e de Ana Bolena, que foi decapitada por
ordem do esposo. Segundo os historiadores, a sua recusa
de se casar e constituir uma família deve-se às várias tragédias ocorridas com seus antepassados.
4 Anuptafobia. O medo de permanecer solteiro. Não
são todos a gostar da liberdade amorosa: os anuptafóbicos têm medo dela. Para eles, a ideia de permanecer solteiro não agrada. Segundo estudo levado a cabo pela Universidade de Toronto, Canadá, “o medo de ficar solteiro”
está sempre associado às renúncias amorosas e leva quem
sofre dessa fobia a aceitar parceiros menos atraentes e a
manter relações pouco ou nada satisfatórias. Para eles,
qualquer ligação é melhor do que permanecer sozinho.
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10 Consecotaleofobia. Se existisse um prêmio para a
fobia mais estranha, esta aqui seria uma séria candidata:
é o medo dos palitos chineses, aqueles usadas como talheres durante as refeições. Sobretudo quando se descobre que ela é difusa sobretudo no... Extremo Oriente.
comandadas pelo senador Joseph McCarthy (origem do
termo mccartismo).
7 Barofobia. Medo da força de gravidade, com consequente temor de ser esmagado. Manifesta-se sobretudo
quando se usa um elevador.
8 Eufobia. É o medo de receber boas notícias. O prefixo
“eu” de origem grega significa bem (ou bom).
9 Siderodromofobia. Medo de viajar em trem. Pode
determinar ataques de pânico e manifestações de ansiedade análogas às da claustrofobia (medo de permanecer
em lugares fechados). É muito mais difusa do que se imagina e atacou inclusive o psicólogo Sigmund Freud.
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RUMOS
O NOVO TERRORISMO
Ele é sobretudo politico,
e não religioso
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RUMOS
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Os atentados de Paris
representam a emergência de
um novo tipo de terrorismo, não
contra grandes alvos simbólicos
como os da Al-Qaeda,
mas levado a cabo por indivíduos
isolados ou por pequenos grupos
de fanáticos dispostos a matar
e a morrer. Combatê-los não
pode passar por leis de exceção
nem por esquadrões da morte.
Porque se abdicarmos do estado
de direito e das liberdades
fundamentais estaremos dando
aos assassinos o que eles querem.
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RUMOS
POR: JOSÉ IGNÁCIO TORREBLANCA.
FONTE: JORNAL EL PAÍS, MADRI
Uma vez que se trata de política e não de religião, não podemos cair no
erro de alimentar ódios, quando o que é preciso é construir pontes.
Cada vez que ocorre um atentado de inspiração jihadista reaparece o coro de vozes que
pretendem responsabilizar a religião muçulmana e os seus praticantes pelos crimes
cometidos em seu nome. Em primeiro lugar,
atribui-se à religião uma natureza violenta e
sectária que a torna
incompatível com qualquer outro modo de
vida, regimes democráticos, direitos e liberdades individuais. Em segundo lugar, os
crentes islâmicos são responsabilizados pela
cumplicidade do seu silêncio, pela incapacidade de criticar os seus líderes religiosos,
pela resistência à modernização dos hábitos
culturais, e pela constante vitimização, o que
leva demasiadas vezes a que exijam que se
limitem direitos, ou que surjam micro-espaços nas sociedades ocidentais onde estes não
se apliquem.
Choque de civilizações
atentado contra o jornal Charlie
Hebdo em Paris obrigou a Europa a se confrontar com o terrorismo dentro de casa, e obriga-nos a refletir sobre as suas
origens.
Mas este raciocínio, que no extremo nos leva
a admitir a existência de um choque de civilizações entre o Ocidente e o Islão, naufraga
contra a evidência de que, para cada cidadão
ocidental assassinado por esses jihadistas,
morrem milhares de muçulmanos. Desde a
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religiosos, ricos e pobres.
Não à renúncia dos nossos direitos
Ignorar a profundidade e severidade dessas fraturas é
não ver os problemas dessas sociedades. Significa, também, não querermos reconhecer a contribuição que demos à sua criação desde os tempos do colonialismo. A
tentação recorrente que surge nestas ocasiões é declarar
que o terrorismo é simplesmente uma barbárie niilista sem sentido. Não, o terrorismo – o de Paris ou outro
qualquer - é politico e procura concretizar um domínio
politico. Portanto, para podermos neutralizá-lo de forma
eficaz, devemos entendê-lo em toda a sua complexidade.
Manifestação de protesto contra o atentado
ao jornal Charlie Hebdo, em rua de Paris
guerra civil na Argélia, onde morreram entre 150 mil a
200 mil pessoas nos anos 90, até ao conflito no Iraque,
onde o número de vítimas após a invasão de 2003 é semelhante. Ou ainda na Síria, na Líbia, na Tunísia, no Egito.
Tudo isto não é um apelo a renunciar a nada, nem a relativizar nada. Como não podia deixar de ser, o brutal massacre de Paris obriga-nos a reafirmar os nossos valores e
Mapa das 'zonas quentes' do
terrorismno global
Para cada cidadão ocidental assassinado por jihadistas,
morrem milhares de muçulmanos. Desde a guerra civil na
Argélia até ao conflito no Iraque e em outros lugares. Torna-se claro que o conflito dominante não é entre o Islão e
o Ocidente, mas dentro do próprio mundo islâmico. Esse
mundo é vítima de fraturas sobrepostas de caráter étnico,
geopolítico ou econômico, de choques entre sunitas e xiitas, curdos e turcos, autoritários e democráticos, laicos e
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RUMOS
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Membros do grupo terrorista
Al-Shabaab, na Somália
princípios e a não aceitar uma única renúncia que seja na
esfera dos nossos direitos. E que fique claro que isso se
aplica a sátiras ou irreverências que se pratiquem contra
os nossos símbolos, instituições, sejam estes políticos ou
religiosos.
Que um humorista armado com um lápis possa ser considerado por um fanático uma ameaça existencial pior que
a representada por um soldado prova quão longe se chegou e quantos anos-luz nos separam
dessa gente. É precisamente por isso que não podemos
cair no erro de construir trincheiras e ódios, quando aquilo que é preciso são pontes e políticas eficazes.
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RUMOS
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de Maomé mas de fundamentalistas que agiam em seu
nome. As reações da época são insuficientes para as considerarmos a única causa do que agora aconteceu. Não
nos deixemos levar por análises descontextualizadas. Os
jihadistas recorrerão a todos os meios violentos para obter publicidade e poder, como via para imporem um universo supostamente islâmico, mas sobretudo redutor.
Deixamos fugir muitas oportunidades para atacar as causas profundas deste terrorismo. As primaveras árabes
'O Islão dominará o mundo', dizem os cartazes
dos manifestantes, em pleno centro de Londres
O atentado às Torres Gêmeas marcou o
início de uma nova era terrorista
O CRIME NÃO ESQUECE
As redes criminosas, dos cartéis de droga ao terrorismo,
são globais e só podem ser combatidas de uma forma
integrada, defende o ex-juiz espanhol Baltasar Garzón.
Por: Baltazar Garzón e Dolores Delgado. Fonte:
Jornal El País, Madri (*)
Procurar a causa do atentado de 7 de janeiro em Paris
numa mera vingança é simplismo. Do que não há dúvida
é que se trata de um atentado à liberdade de expressão.
Em 2006, o Charlie Hebdo publicou caricaturas, não
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RUMOS
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exército invisível de homens e mulheres dispostos a sair
do mundo virtual para passar à ação. A resposta ao uso
dessa nova ferramenta deve ser multidisciplinar. Segurança policial, judicial e, claro, educação.
Absurdo da barbárie
Em Paris vimos consumado o absurdo da barbárie; o
terror não esquece e é covarde perante quem dissemina
ideias diferentes ou lhe faz frente. Por isso, a firmeza democrática perante ele deve ser total.
Será a Espanha um dos alvos do terror jihadista? Qual
Terrorista sendo preso nos Estados Unidos
Página da organização terrorista
Al Qaeda na internet
riados (laicos, democratas, radicais, terroristas, poderosos ou interessados) e não soubemos apoiar aqueles que
teriam preenchido o espaço que acabou por ser ocupado
pelo terrorismo. As zonas de conflito tornaram-se um
destino desejado pelos futuros combatentes. Longe de
promovermos localmente o desenvolvimento social, cultural e humano, demos prioridade às respostas militares.
Um novo desafio se apresenta na internet, nas redes sociais ou nos aplicativos para telefones celulares. Há um
novo terrorismo que se aproveita das novas tecnologias
para ganhar dimensão global e chegar a todos à velocidade que a web permite. Difunde ideias e propicia a sua
captação sem restrições, porque por detrás da web há um
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RUMOS
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Memória curta
Os seres humanos têm a memória curta e rapidamente
perdem a perspectiva do que lhes acontece. O terrorismo
global tanto pode atacar num sítio como noutro e só nos
surpreende quando nos afeta. Espalha- se como o crime
transnacional organizado e é difícil de “descobrir e combater se não se assumir que as inter-relações desses grupos terroristas não são aleatórias, mas respondem a uma
lógica de terror cujo fim é a consecução de objetivos tão
globais como aparentemente inatingíveis, o que favorece
Existe um novo terrorismo surgindo
também no norte da África
Jihadistas executam civis no Iraque
quer resposta meramente local seria um grave erro. A
globalidade deste terrorismo e o uso de ferramentas globais visam fins globais, concretizadas em múltiplas ações
locais. Por isso, as vítimas do atentado de Paris somos
todos nós. O contrário levar-nos-ia a ignorar o que dissemos em 20 de dezembro de 2009 num artigo no El País,
“Terrorismo de ida y Vuelta”: “Este tipo de terrorismo é
de ida e volta. Ao ser global, o teatro das operações é muito maior e por isso devemos percebê-lo como um crime
universal, qualquer que seja o lugar onde for cometido ou
a nacionalidade das vitimas”.
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RUMOS
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dãos cujo assassínio promova essa loucura. São redes que
se aproveitam da web, mas que não renunciam aos métodos sangrentos, porque desde o início (o momento da
doutrinação), os ideólogos ou emires têm prevista a atuação do grupo, aproveitando as contradições da nossa sociedade e o medo que nela existe de assumir a realidade
do problema, o que às vezes se traduz em opiniões publicadas, tão banais como imprudentes e perigosas, porque
serão aproveitadas para nos atingir como, quando e onde
lhes interessar.
De onde provêm os armamentos
usados pelos terroristas
Destacamento do Estado Islâmico
desfila em rua de cidade iraquena
a indiferença e a incredulidade ou mesmo o ceticismo dos
cidadãos e das instituições, e a convicção de que não existe risco algum, contribuindo involuntariamente para lhes
garantir impunidade na primeira e mais importante fase
de formação”.
Hoje sabemos que o Isis (“Estado Islâmico”) existe e estendeu as suas redes ao Norte da África e ao Sahel. Que
fez alianças com outras organizações, ou seja, que está se
instituindo como rede criminosa estável, cujos militantes
tanto podem atuar no Iraque ou na Síria como em Paris
ou Roma. Os motivos serão meras desculpas sempre que
haja vítimas, hoje jornalistas, amanhã policiais ou cidaOÁSIS
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RUMOS
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É necessário que no Estado de direito se faça uma reflexão profunda e se exija a cooperação entre os países
que trabalham em prol da segurança internacional. Mecanismos judiciais de assistência mútua, como o Grupo
Quadripartido, formado pelos ministérios públicos especializados na luta contra o terrorismo no Marrocos, França, Bélgica e Espanha, são indispensáveis na resposta ao
terrorismo global.
(*) Baltasar Garzón é advogado e presidente da
FIBGAR, Fundação Internacional Baltasar Garzón pro Direitos Humanos e Jurisdição Universal. Dolores Delgado é delegada antiterrorismo
do Ministério público Espanhol.
Antes e depois. O grande número de cidadãos
norte-americanos que ingressaram nas fileiras
jihadistas é preocupante
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RUMOS
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OÁSIS
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VIDEO
VIDEO
OS CÉUS DO ARIZONA
Vídeo excepcional
em time-lapse
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Viaje pelos céus do Arizona com
este vídeo cheio de imagens
belas e sugestivas. É um colírio
para a alma que vale por uma
boa meditação
O
VÍDEO: C. EDWARD BRICE
s fotógrafos norte-americanos
especializados em natureza consideram as paisagens do Estado do Arizona absolutamente
mágicas. C. Edward Brice é um
deles. Nos últimos 15 meses ele
explorou a região, reunindo as
imagens que lhe permitiram criar este vídeo
em time-lapse.
Veja o vídeo aqui
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VIDEO
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NEUROCIÊNCIA
MIGUEL NICOLELIS
A comunicação entre
cérebros já chegou
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Considerado um dos 20 maiores
cientistas do mundo no começo da
década passada, segundo a revista
“Scientific American”, o médico
e neurocientista brasileiro Miguel
Nicolelis trabalha atualmente na
comunicação de cérebro a cérebro.
No final desta conferência no TED
ele explica um experimento que diz
ir “ao limite da sua imaginação”
C
VÍDEO: TED – IDEAS WORTH SPREADING
TRADUÇÃO: RUY LOPES PEREIRA
REVISÃO: WANDERLEY DE JESUS
OÁSIS
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ientista de ponta, Miguel Nicolelis ficou
ainda mais famoso – no Brasil e no mundo - ao criar o primeiro exoesqueleto a
permitir que um paraplégico chutasse
uma bola em demonstração na abertura
da Copa do Mundo de 2014. Atualmen-
te, ele trabalha na construção de meios para
que duas mentes (de ratos e macacos, por
enquanto) enviem mensagens de um cérebro
para o outro. Com suas equipes de trabalho,
no Brasil (Rio Grande do Norte) e nos Estados Unidos, ele explora os limites da interface cérebro/máquina.
Seu trabalho de laboratório foi demonstrado
na abertura da Copa do Mundo 2014, quando um exoesqueleto por ele fabricado ajudou
o paraplégico Juliano Pinto a dar o primeiro
chute na bola.
Mas seu laboratório pensa ainda mais além.
Desenvolveu uma abordagem integrativa
para o estudo de doenças neurológicas, inclusive Parkinson e epilepsia. Essa abordagem, espera-se, possibilitará a integração
dos sistemas molecular e celular, além de
informações comportamentais num mesmo
animal, produzindo uma compreensão mais
completa da natureza das alterações neurofisiológicas associadas a essas desordens.
Ele é autor do livro Muito Além do Nosso Eu
(Beyond Boundaries), Editora Companhia
das Letras.
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Vídeo integral da palestra de Miguel Nicolelis
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Tradução integral da palestra de Miguel Nicolelis
Em 12 de junho de 2014, exatamente às 15H33 numa agradável tarde
de inverno em São Paulo, Brasil, uma tarde típica de inverno na América do Sul, este rapaz, este jovem que vocês veem aqui, comemorando,
como se tivesse feito um gol, Juliano Pinto, de 29 anos, realizou uma
façanha maravilhosa. Apesar de ser paralítico e não ter qualquer sensibilidade do meio do peito aos dedos dos pés, consequência de um acidente de carro, seis anos atrás, que matou seu irmão e provocou a lesão
completa da medula espinhal, que deixou Juliano em uma cadeira de
rodas, Juliano superou suas dificuldades e naquele dia fez algo que as
pessoas que o assistiam há seis anos julgavam ser impossível.
Juliano Pinto deu o chute inicial da Copa do Mundo de Futebol de
2014, aqui no Brasil usando apenas o pensamento. Ele não podia movimentar seu corpo, mas podia imaginar os movimentos necessários
para chutar uma bola. Ele era um atleta antes da lesão. Agora ele é um
para-atleta. Ele vai estar nos Jogos Paraolímpicos, espero, dentro de
dois anos. Mas o que a lesão da medula espinhal não roubou de Juliano foi a sua capacidade de sonhar. E naquela tarde ele sonhou, em um
estádio com cerca de 75 mil pessoas e uma audiência de perto de um
bilhão de espectadores de TV.
tância de seus corpos, apenas imaginando o que eles desejariam
fazer, nossos colegas nos disseram que precisávamos de ajuda
profissional, de natureza psiquiátrica. Apesar disso, um escocês
e um brasileiro perseveraram, porque foi assim que fomos educados em nossos respectivos países, e durante 12, 15 anos, fizemos demonstrações, uma atrás da outra, sugerindo que isto era
possível.
E uma interface cérebro-máquina não é nada excepcional, é só
pesquisa sobre o cérebro. Não passa do uso de sensores para ler
as descargas elétricas que um cérebro produz para gerar comandos motores que devem ser transportados medula espinhal
abaixo, por isso projetamos sensores capazes de ler centenas e
agora milhares desses sinais cerebrais, simultaneamente, e extraímos destes sinais elétricos o planejamento motor que o cérebro cria para nos movermos pelo espaço ao redor.
Assim fazendo, nós convertemos os sinais em comandos digitais
que qualquer dispositivo seja mecânico, seja eletrônico ou até
E aquele chute coroou, essencialmente, 30 anos de pesquisa básica
estudando como o cérebro, como este maravilhoso universo que temos
entre as orelhas e que é somente comparável ao universo situado nas
alturas porque ele tem cerca de 100 bilhões de elementos que se comunicam entre si por meio de descargas elétricas, aquilo que o Juliano
realizou consumiu 30 anos para ser imaginado em laboratórios e cerca
de 15 anos para planejar.
Quando John Chapin e eu, há 15 anos, propusemos em um trabalho
que construiríamos algo a que chamamos interface cérebro-máquina
isto é, a ligação entre um cérebro e dispositivos de modo que animais
e humanos pudessem movimentar estes dispositivos, a qualquer disOÁSIS
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mesmo virtual, possa compreender de modo que o sujeito pode imaginar o que ele ou ela quer mover e o dispositivo obedece ao comando do
cérebro.
Conectando a esses dispositivos muitos tipos diferentes de sensores,
como vocês verão logo a seguir, nós enviamos mensagens de volta ao
cérebro para confirmar que o desejo motor voluntário estava sendo
executado, não importa onde: próximo ao sujeito, na vizinhança, ou
do outro lado do planeta. E quando a mensagem dava um feedback ao
cérebro, a mente atingia seu objetivo: fazer-nos movimentar.
Este é apenas um experimento que nós publicamos há alguns anos, no
qual um macaco, sem mover seu corpo, aprendeu a controlar os movimentos de um braço avatar, um braço virtual que não existe. O que
vocês estão ouvindo é o som do cérebro deste macaco enquanto explora três esferas diferentes, visualmente idênticas em um espaço virtual.
O neurocientista
Miguel Nicolelis
Para receber uma recompensa, um pouco de suco de laranja
que os macacos adoram, o animal tem de detectar, selecionar
um dos objetos pelo tato, não pela visão, mas tocando-o, pois
toda vez que a mão virtual toca um dos objetos, um pulso elétrico retorna ao cérebro do animal descrevendo a textura fina da
superfície do objeto, e assim o animal pode decidir qual o objeto
correto que ele deve pegar, e se ele o fizer, ele ganha uma recompensa sem mover um músculo. O almoço brasileiro perfeito:
sem ter de mover um músculo e ganhar o suco de laranja.
Quando vimos isto acontecer, nós propusemos a ideia que publicamos há 15 anos. Nós republicamos o trabalho. Nós o tiramos da gaveta, e propusemos que talvez pudéssemos fazer um
ser humano que é paralítico usar a interface cérebro-máquina
para readquirir mobilidade. A ideia era que se vocês sofressem...
e isso pode acontecer com qualquer um de nós. Deixe-me contar-lhes, é muito repentino. É um milissegundo em uma colisão,
um acidente de automóvel que transforma sua vida completamente. Se vocês sofrerem uma lesão total da medula espinhal,
não poderão se mover porque as descargas elétricas não chegarão aos seus músculos. Porém, as descargas elétricas continuam
a ser geradas pela mente. Pacientes quadriplégicos, tetraplégicos
sempre sonham que estão se movendo. Eles têm isso em suas
mentes. O problema é como captar esse código e criar o movimento novamente.
O que nós propusemos foi: vamos criar um novo corpo. Vamos
criar uma vestimenta robótica. Exatamente graças a isso, é que o
Juliano pôde chutar aquela bola usando apenas o pensamento,
porque trajava a primeira vestimenta robótica controlada pelo
cérebro que pode ser usada por paraplégicos e tetraplégicos para
que possam se mover e recuperar o feedback.
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Essa era a ideia original, há 15 anos. O que vou mostrar a vocês é como
156 pessoas de 25 países dos cinco continentes desta linda Terra, mudaram suas vidas, deixaram suas patentes, deixaram os cães, esposas,
filhos, escola, empregos, e se juntaram para vir ao Brasil por 18 meses
para realmente realizar isto. Poucos anos depois de o Brasil ter sido
escolhido para realizar a Copa do Mundo, soubemos que o governo
brasileiro queria promover algo marcante na cerimônia de abertura no
país que reinventou e aperfeiçoou o futebol, até enfrentarmos os alemães, claro. (Risos) Mas isso é outra palestra, com outro neurocientista.
O que o Brasil desejava era mostrar um país completamente diferente,
um país que valoriza a ciência e a tecnologia, e pode presentear milhões, 25 milhões de pessoas em todo o mundo que não podem mais se
mover devido a uma lesão na medula espinhal. Bem, dirigimo-nos ao
governo brasileiro e à FIFA e propusemos, que o chute inicial da Copa
do Mundo de 2014 fosse dado por um paraplégico brasileiro usando
um exoesqueleto controlado pelo cérebro que o possibilitaria chutar
a bola e sentir o contato com ela. Eles nos olharam como se fôssemos
completamente loucos, e disseram: “Tudo bem, vamos tentar.”
leto, com 15 graus de liberdade, uma máquina hidráulica, que
pode ser comandada por sinais do cérebro registrados por uma
tecnologia não invasiva, chamada eletroencefalografia, que em
síntese permite ao paciente imaginar seus movimentos e mandar seus comandos para os controles, os motores, e consegue
realizá-los. O exoesqueleto foi recoberto com uma pele artificial
inventada por Gordon Cheng, um dos meus melhores amigos,
em Munique, para que as sensações do movimento das articulações e do pé ao tocar o chão pudessem ser enviadas de volta
ao paciente por meio da vestimenta, uma camisa. É uma camisa
inteligente dotada de elementos microvibrantes que basicamente levam o feedback e enganam o cérebro do paciente ao criar
uma sensação de que não é a máquina que o carrega, mas é ele
que está andando novamente.
O para-atleta Juliano Pinto, usando o exoesqueleto
criado por Miguel Nicolelis para o chute inaugural
da Copa do Mundo em 2014
Tínhamos 18 meses para fazer tudo, a partir do nada. Não tínhamos
o exoesqueleto, não tínhamos pacientes, e nada havia sido feito. Essas
pessoas se uniram e em 18 meses, conseguimos oito pacientes em uma
rotina de treinamento e basicamente, a partir do nada, construímos
este cara, a quem chamamos de Brasil-Santos Dumont 1. O primeiro
exoesqueleto controlado pelo cérebro foi batizado em homenagem ao
mais famoso cientista brasileiro, Alberto Santos Dumont, quem, em
19 de outubro de 1901, construiu e ele mesmo pilotou, em Paris, a primeira aeronave controlada, vista por milhões de pessoas. Desculpem,
meus amigos americanos, eu vivo na Carolina do Norte, mas isso aconteceu dois anos antes do voo dos Irmãos Wright na costa da Carolina
do Norte. (Aplausos) O controle de voo é brasileiro. (Risos)
Então, junto com esse pessoal basicamente montamos este exoesqueOÁSIS
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Então conseguimos fazer isto funcionar e o que veem aqui é um dos
nossos pacientes, Bruno, andando pela primeira vez. Ele demora alguns
segundos porque estamos ajustando tudo, e vocês verão uma luz azul
na frente do capacete porque Bruno vai imaginar o movimento que
deve ser executado, o computador irá analisá-lo Bruno vai autorizá-lo,
e quando autorizado, o dispositivo começa a movimentar-se sob o comando do cérebro do Bruno.
nova sensação na mente do Bruno.
O dispositivo entendeu bem, e agora ele começa a andar. Depois de
nove anos sem ser capaz de se mover, ele está andando sozinho. E mais
do que isso...(Aplausos) mais do que simplesmente andar, ele está sentindo o chão, e se a velocidade do exoesqueleto aumentar, ele nos diz
que está andando novamente nas areias de Santos, a praia que ele frequentava antes do acidente que sofreu. Isso é porque o cérebro cria uma
Isso é o que queríamos ter mostrado durante a Copa do Mundo e não conseguimos, porque, por alguma razão misteriosa,
a FIFA cortou sua transmissão na metade. O que vocês verão
muito rapidamente é Juliano Pinto, no exoesqueleto, dar o
chute poucos minutos antes do início da partida e o fez ao vivo,
diante de toda a multidão, e as luzes que vocês verão descrevem
a operação. Basicamente, as luzes azuis que pulsam indicam que
o exoesqueleto está pronto, que ele pode receber pensamentos
e enviar feedback, e quando Juliano tomar a decisão de chutar a
bola, vocês vão ver duas linhas de luz verde e amarela que descem do capacete e vão até às pernas, que representam os comandos mentais recebidos pelo exoesqueleto para fazer aquilo
acontecer.
O chute inicial da Copa do Mundo,
por Juliano Pinto
Então ele anda, e ao fim da caminhada… Eu já estou esgotando
meu tempo... ele diz: “Sabe, pessoal, preciso pedir isso emprestado a vocês quando me casar, porque eu queria andar até o
padre e ver minha noiva e estar ali por meus próprios meios.” É
claro que ele o terá, na hora que ele quiser.
E basicamente em 13 segundos, Juliano realmente o fez. Vocês
podem ver os comandos. Ele se prepara, a bola é colocada e ele
chuta. A coisa mais surpreendente é: 10 segundos depois que
o fez, olhou-nos do local de apresentação, e nos disse, comemorando como viram, “Eu senti a bola.” E isso não tem preço.
(Aplausos)
Então, aonde isto vai dar? Eu tenho dois minutos para lhes contar que vai nos levar aos limites da nossa imaginação. A tecnologia por ação do cérebro chegou. Esta é a mais recente: Nós a
publicamos há um ano, a primeira interface cérebro-cérebro
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que permite que dois animais troquem mensagens mentais de modo
que um animal que vê algo vindo do meio ambiente possa enviar um
SMS mental, um torpedo, um torpedo neurofisiológico, para o segundo animal, e o segundo animal executa o ato que ele precisava realizar
sem nunca saber qual era a mensagem enviada pelo meio ambiente,
porque a mensagem vinha do cérebro do primeiro animal.
Este é o primeiro demo. Serei bem rápido, pois desejo mostrar-lhes o
mais recente. O que veem aqui é o primeiro rato receber a informação
por uma luz que aparecerá à esquerda da gaiola que ele tem que pressionar o lado esquerdo da gaiola para receber a recompensa. Ele vai até
lá e o faz. Ao mesmo tempo, ele manda uma mensagem mental para o
segundo rato que não viu qualquer luz, e o segundo rato, em 70% das
vezes irá pressionar a alavanca esquerda e receber a recompensa sem
nunca ter experimentado a luz na retina.
Bem, isso foi levado a um limite mais elevado fazendo macacos colaborarem por meio de uma rede mental, basicamente para doar as
atividades cerebrais e combiná-las para mover o braço virtual que lhes
mostrei antes, e o que vocês veem aqui é a primeira vez que dois macacos combinam seus cérebros, sincronizam perfeitamente seus cérebros
para conseguir mover o braço virtual. Um macaco controla a dimensão
x, o outro macaco controla a dimensão y. Mas fica mais interessante
quando três macacos são colocados ali e pede-se que um macaco controle x e y, o outro macaco controle y e z, e o terceiro controle x e z, e
faz-se que todos juntos participem do jogo, movendo o braço em 3D
até um alvo para receber o famoso suco de laranja brasileiro. E eles realmente o fazem. O ponto preto é a média de todos esse trabalho mental em paralelo, em tempo real. Essa é a definição de um computador
biológico, que interage pela atividade cerebral e atinge um alvo motor.
Aonde isso vai dar? Não faço ideia. Somos apenas cientistas. (Risos)
Somos pagos para sermos crianças, para essencialmente irmos ao
limite e descobrir o que está ali. Mas sei de uma coisa: Um dia, dentro
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de poucas décadas, quando nossos netos surfarem a internet
apenas com o pensamento, ou quando uma mãe doar sua visão
a um filho autista que não pode enxergar, ou alguém falar devido a um atalho cérebro-cérebro, alguns de vocês lembrarão que
tudo começou numa tarde de inverno num campo de futebol
brasileiro com um chute impossível.
Obrigado.
Bruno Giussani: Miguel, obrigado por não ultrapassar o seu
tempo. Na verdade eu lhe daria mais alguns minutos, porque há
alguns pontos que eu gostaria de detalhar, parece claro que os
cérebros devem ser conectados para saber aonde vamos. Então
vamos todos nos conectar. Se eu entendi corretamente, um dos
macacos recebe um sinal e o outro macaco reage àquele sinal
porque o primeiro o recebe e transmite o impulso neurológico.
Miguel Nicolelis: Não, é um pouco diferente. Nenhum macaco
sabe da existência dos outros dois. Eles recebem um feedback
visual em 2D, mas eles devem realizar a tarefa em 3D. Eles têm
que movimentar um braço em três dimensões. Mas cada ma
Conexão entre cérebros de ratos
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caco recebe apenas as duas dimensões na tela do vídeo que os macacos
controlam. E para que isso seja feito, deve ter pelo menos dois macacos
que sincronizem seus cérebros, mas o ideal é três. Descobrimos que
quando um macaco começa a fazer corpo mole, os outros dois melhoram seus desempenhos para fazer o cara voltar a cooperar, de modo
que há um ajuste dinâmico, mas a sintonia global continua a mesma.
Agora, se não se informar aos macacos a dimensão que cada cérebro
Miguel Nicolelis posa ao lado do
exoesqueleto que inventou
deve controlar, como este cara que controla x e y, mas que deveria estar controlando y e z, imediatamente, o cérebro do animal
esquece as dimensões antigas e passa a se concentrar nas novas
dimensões. Preciso dizer que não existe uma máquina de Turing, nenhum computador pode prever o que uma rede cerebral
fará. Logo, absorveremos tecnologias como parte de nós. As tecnologias nunca irão nos absorver. É simplesmente impossível.
BG: Quantas vezes isso foi testado? E quantas vezes houve sucesso? Quantas vezes houve fracasso?
MN: Oh, dezenas de vezes. Com os três macacos? Oh, várias
vezes. Eu não falaria disso aqui a menos que eu o tivesse feito algumas vezes. E esqueci de mencionar, devido ao tempo, que há
apenas três semanas um grupo europeu demonstrou a primeira
conexão cérebro humano-cérebro humano.
BG: E como é isso?
MN: Era só um bit de informação, mas as grandes ideias começam de modo tímido...basicamente, a atividade cerebral de
um indivíduo foi transmitida a um segundo indivíduo, tudo por
tecnologias não invasivas. O primeiro sujeito recebeu uma mensagem, como os ratos, uma mensagem visual, e a transmitiu
ao segundo indivíduo. O segundo indivíduo recebeu um pulso
magnético em seu córtex visual, ou um pulso diferente, dois pulsos diferentes. Em um pulso, o indivíduo via algo. No outro pulso, ele via algo diferente. E ele era capaz de indicar verbalmente
qual era a mensagem que o primeiro sujeito mandara pela internet, entre continentes.
Moderador: Uau. Certo, é para onde estamos indo. Essa é a próxima Palestra TED na próxima conferência. Miguel Nicolelis,
obrigado.
MN: Obrigado, Bruno.
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