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POPULARIZANDO A NEUROCIÊNCIA EM ESCOLAS PÚBLICAS ATRAVÉS DA EXIBIÇÃO DE
FILMES SEGUIDA POR RODAS DE CONVERSA
POPULARIZANDO A NEUROCIÊNCIA EM ESCOLAS PÚBLICAS
ATRAVÉS DA EXIBIÇÃO DE FILMES SEGUIDA POR RODAS DE
CONVERSA
FILIPIN, Geórgia Elisa1; NUNES, Lucas¹; CRESPO, Bruna Tarasuk Trein²; NUNES,
Angélica²; MELLO-CARPES, Pâmela Billig³
RESUMO
A neurociência é caracterizada pelo estudo do Sistema Nervoso. Ela procura
conhecer as diferentes partes do cérebro e compreender os processos mentais
pelos quais aprendemos, agimos e lembramos. Neste sentido, fica clara sua
importância, especialmente para educação. Neste artigo serão relatadas ações de
popularização da neurociência na escola, baseadas em uma proposta de ação
através da exposição de filmes e posterior discussão em rodas de conversa. As
ações foram realizadas em duas escolas da rede pública de ensino do município de
Uruguaiana/RS/Brasil e contaram com a participação de 127 alunos, sendo 60
alunos do ensino fundamental (9 – 13 anos) e 67 alunos do ensino médio (15 – 17
anos) e 3 professores. Após cada encontro foi pedido para que os participantes
respondessem a um questionário, no qual se pode perceber que a maioria (88,9%)
considerou as ações importantes e acredita que elas trouxeram conhecimentos
relevantes para o seu futuro. Em uma escala de 0 a 10 os participantes atribuíram
nota 8,2 ao projeto. Estes resultados demonstram a importância e a aceitação de
atividades que trabalhem conceitos da neurociência em escolas, através de métodos
alternativos, que despertem o interesse dos alunos pela ciência e
consequentemente promovam a popularização de saberes científicos.
Palavras-chave: Neurociências. Aprendizagem. Mídia Audiovisual. Popularização
da ciência.
ABSTRACT
1
Acadêmico/a do Curso de Fisioterapia da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), campus
Uruguaiana. Bolsista do Programa POPNEURO.
² Acadêmica do Curso de FisioterapiEnfermagem da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA),
campus Uruguaiana. Bolsista do Programa POPNEURO.
³ Professora adjunta da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), campus Uruguaiana. Doutora
em Ciências Biológicas: Fisiologia. Coordenadora do Programa POPNEURO.
CATAVENTOS ISSN: 2176-4867 – ANO 8, N. 01, 2016.
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Neuroscience is characterized by the study of the nervous system. neuroscience
seeks to know the different parts of the brain and understand the mental processes
by which we learn, act, and remember, in this sense, is clear its importance,
especially for education. In this article will be reported neuroscience popularization
actions realized at schools, based on a proposal of action by movies exhibition and
subsequent discussion. The actions were carried out in two public schools in the city
of Uruguaiana/RS/Brazil, with 127 students, 60 elementary school students (9-13
years-old) and 67 high school students (15 – 17 years-old) and 3 teachers. After
each meeting was asked to participants to answer a questionnaire, which can be
seen that the majority (88.9%) considered the actions important and believe that they
brought knowledge relevant to their future. On a scale of 0 to 10, participants
attributed a score of 8.2 to the project. These results demonstrate the importance
and acceptance of activities working neuroscience concepts in schools, through
alternative methods, to arouse students' interest in science and thus promote the
dissemination of scientific knowledge.
Key-words: Neuroscience. Learning. Audiovisual media. Science popularization.
INTRODUÇÃO
A neurociência é caracterizada pelo estudo do Sistema Nervoso,
especialmente do cérebro. Ela procura conhecer os diferentes espaços cerebrais,
compreendendo os processos mentais pelos quais aprendemos, agimos e
lembramos. Reúne as disciplinas que estudam o sistema nervoso normal e
patológico, conhecendo a anatomia e a fisiologia do cérebro. Assim, trata-se de um
conjunto interdisciplinar de ciências do funcionamento do cerebro, denominado no
plural de “neurociências”. Esse conjunto interdisciplinar tem sido um dos campos de
investigação científica que mais cresce e se desenvolve em todo o mundo e em
particular no Brasil (CARVALHO; FLOR, 2012). A cada dia a percepção sobre o
cérebro tem se disseminado e ido além de conceitos anatômicos e fisiológicos.
Um dos aspectos que a neurociência tem evidenciado é que o aprendizado é
um processo dinâmico e que incentivos externos amplificam a capacidade cognitiva
do ser humano. Este processo aparenta a neuroplasticidade, que se dá pela
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capacidade de adaptação dos neurônios às influências do ambiente que ocorrem
diariamente na vida dos indivíduos, seja por lesões traumáticas ou em respostas a
alterações dos processos de aprendizagem e memória (BORELLA; SACCHELLI,
2008). Conforme Rato e Caldas (2010), neuroplasticidade pode ser caracterizada
como um processo no qual o Sistema Nervoso Central (SNC) reorganiza suas vias
de processamento e representação de informações.
Para Rachid (2010), nosso cérebro dispõe de um sistema capacitado em
conceder valores em ações que desempenhamos, classificando-as em níveis bons
ou ruins. O suporte para esta classificação se dá pela emoção. É a forma de o corpo
reagir a determinado resultado processado pelo cérebro e de como ele avalia essa
informação. Quando atribui um resultado positivo, o cérebro ativa um sistema o qual
é chamado de recompensa e motivação. Segundo Herculano Houzel (2002), é o
conjunto de estruturas que indica para o cérebro quando alguma ação dá certo, algo
que se conseguiu realizar. Ainda para Rachid (2010), este sistema libera
substâncias no cérebro que promovem mecanismos moleculares do aprendizado.
Assim, fica claro que a motivação facilita o processo de aprendizagem no cérebro.
Corroborando com isto, Guerra (2010) explica que no cérebro, os neurônios
responsáveis pelas áreas de regulação das emoções relacionados ao medo,
ansiedade, raiva, prazer, etc., fazem sinapses com neurônios importantes na
formação de memórias, e assim, aprendemos melhor aquilo que nos emociona.
Existem diversas ferramentas que podem ser utilizadas para ajudar no aprendizado.
Podemos usar a tecnologia que está à nossa disposição, como por exemplo, os
recursos audiovisuais que encontramos em filmes e vídeos educativos. Este é um
meio pelo qual o aprendizado do aluno se torna mais interessante e dinâmico
(SOUSA; MOITA; CARVALHO, 2011).
O período na sala de aula, tido como fatigante por muitos estudantes pode
ser convertido em um momento de prazer com a mudança na forma pela qual o
conteúdo é apresentado, motivando o aluno a concentrar-se e interagir com o lúdico.
Para a maioria dos alunos, quando se associa o momento de aprendizagem com
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lazer, isso modifica a postura e expectativa em relação à temática trabalhada
(MORÁN, 1995). A linguagem audiovisual desenvolve múltiplas atitudes perceptivas:
solicita constantemente a imaginação e reinveste a afetividade com um papel de
mediação primordial no mundo (MORÁN, 1995). Assim, torna-se uma importante
ferramenta de ajuda para o professor, que se aproveita do interesse do aluno para
relacionar a linguagem cotidiana com a linguagem científica abordada, como o
conhecimento da ciência.
Podemos compreender, desta forma, que o uso de determinadas tecnologias
adequadas em um processo de ensino dinâmico e prazeroso poderá provocar,
consequentemente, alterações na quantidade e qualidade das conexões sinápticas,
afetando assim o funcionamento cerebral de forma positiva e permanente, com
resultados extremamente satisfatórios.
Neste sentido, por entendermos que: (i) a neurociência traz consigo
conceitos importantes para a vida da população em geral, sendo necessário, por
isso, promover sua popularização; e, (ii) o uso de filmes pode ser um recurso
didático interessante para envolver os alunos de forma ativa no aprendizado,
considerando também a emoção que muitas vezes acompanha o momento de
assistir um filme; propomos realizar ações de popularização da neurociência em
escolas públicas através do uso da mídia, neste caso filmes, cuja exibição foi
seguida de uma roda de conversa acerca da temática. Ao final das ações
procuramos verificar a opinião dos estudantes participantes.
A popularização da ciência como um todo assume um caráter fundamental,
pois permite uma aproximação das pessoas com o discurso da ciência (GERMANO,
2015). Além disso, é importante a exposição de filmes que contenham assuntos
relacionados à neurociência, seguidos de discussões orientadas, para que assim,
sejam popularizados conceitos desta área da ciência de forma adequada.
Considerando o exposto, neste artigo objetivamos relatar o desenvolvimento destas
ações, bem como a opinião dos estudantes participantes sobre elas.
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METODOLOGIA
Para realização das ações foram selecionados 4 (quatro) acadêmicos do
curso de Fisioterapia da Universidade Federal do Pampa, que foram treinados e
atuaram como monitores do projeto. Esse grupo visitou duas escolas, apresentou a
proposta e explicou o intuito das ações, e então foi firmado um acordo entre as
escolas públicas do município de Uruguaiana – RS/Brasil e a Universidade Federal
do Pampa. Participaram do projeto duas turmas do ensino médio (2º ano) e quatro
turmas do ensino fundamental (5º ano).
A equipe de acadêmicos, em conjunto com a orientadora, realizou uma
busca por filmes que abordavam temas básicos da neurociência, como memória,
cérebro, doenças neurodegenarativas, entre outros. Após análise de conteúdo foram
pré-selecionados os filmes: “Em busca da memória – A neurociência de Erick
Kandel”, filme aborda a vida do ganhador do prêmio Nobel de medicina em 2000,
Erick Kandel; “Como se fosse a primeira vez”, filme que tem como tema a memória e
conta a história de uma mulher que não consegue gravar as memórias recentes,
forçando seu namorado a conquistá-la todos os dias; “Adam”, filme que conta a vida
de um rapaz com Síndrome de Aspérger, que é considerada uma forma mais branda
de autismo, na qual a pessoa possui dificuldades na interação social e comunicação;
“Memento”, filme que traz os dilemas de um homem que perde as suas memórias de
curta duração e usa anotações e tatuagens para ajudá-lo a resgatar certas
lembranças; “Rain Man”, filme que aborda a temática do Autismo e da autonomia
dos portadores desta síndrome;
“Ao mestre com carinho”,
filme que conta a
história de um professor que enfrenta problemas com alunos indisciplinados e com
dificuldade de aprendizagem; e, “Entre os muros da escola” que também traz como
temática principal a educação, contando a história de um professor que tem como
desafio ensinar uma turma de baderneiros e conseguir que eles gostem e participem
de suas aulas. Além disso, foram pré-selecionados, e posteriormente selecionados
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para exibição nas escolas os filmes: “Procurando Nemo” e “Brilho eterno de uma
mente sem lembranças”.
A escolha do filme “Procurando Nemo” se deu porque o filme aborda o tema
memória, que atrai muito a atenção das crianças. Trata-se de um desenho animado
que conta a história de Dóri, uma amiga do peixinho Nemo que tem perda da
memória de curto prazo. Considerando a temática, foi proposta uma explanação
sobre os conceitos e tipos de memória antes da exibição do filme e uma roda de
discussão sobre o filme e sobre o tema memória após a exibição. A escolha desse
filme se deu para a turma de ensino fundamental (Figura 1).
Figura 1. Fotos da exibição do filme “Procurando Nemo” para alunos do ensino fundamental da rede
pública de ensino do município de Uruguaiana – RS. A imagem A e B documentam a exibição em
duas diferentes turmas/escolas.
Já a escolha do filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” teve o
mesmo intuito, de trabalhar a memória, porém, com uma visão mais madura, com a
história de um casal de namorados, já que este filme foi utilizado para trabalhar o
tema com as turmas de ensino médio. Na trama Joel e Clementine aparentemente
iniciam sua relação em um trem, eles são imediatamente atraídos um pelo outro,
apesar de suas personalidades radicalmente diferentes. Embora eles não percebam
isso no momento, Joel e Clementine já se conhecem, pois são, de fato, exnamorados, agora separados, depois de terem passado dois anos juntos. Depois de
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uma briga, Clementine contrata uma empresa para apagar todas as suas
lembranças de seu relacionamento. Ao descobrir isso, o namorado decide se
submeter ao mesmo procedimento. A exibição deste filme também foi precedida por
uma explanação simples sobre o conceito de memória e seus tipos antes da
exibição do filme e uma discussão logo após, sendo incluídos nas discussões
aspectos relacionados ao realismo vs. ficção, visto que este filme trabalha o tema
utilizando a ideia de que é possível apagar as memórias com uso de um
equipamento específico (o que na realidade não existe) (Figura 2).
Figura 2. Fotos da exibição do filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” para alunos do
ensino médio da rede pública de ensino do município de Uruguaiana – RS. A imagem A e B
documentam a exibição em duas diferentes turmas.
As atividades com as turmas duraram cerca de três horas, envolvendo a
explanação inicial, a exibição do filme e a roda de conversa e discussão sobre o
filme e a temática abordada. Foram explicados conceitos como: O que é memória?
Quais os tipos de memória? Quais os tipos de memória que o filme abordou? O que
fazer para melhorar a memória? Existem recursos milagrosos para melhorar ou
apagar as memórias?
Após cada atividade foi proposta uma avaliação das ações. Cada aluno
expressou sua opinião acerca da ação e, anonimamente, atribuiu uma nota para a
mesma.
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RESULTADOS
Percebemos que as ações propostas promoveram discussão acerca das
temáticas propostas entre os estudantes participantes, contribuindo para a
popularização de conceitos da neurociência. A exibição do filme “Procurando Nemo”
contou com a participação de 54 alunos do Ensino Fundamental, com idades entre 9
e 13 anos. Os alunos citaram não ter conhecimento prévio sobre o tema memória,
além disso, relataram ter gostado de ver o filme e de discutir sobre o assunto.
Afirmaram a importância do conhecimento acerca da memória para eles, como
alunos, e julgaram a ideia de aprender um conteúdo com esta metodologia muito
atraente. A nota média atribuída pelos alunos à atividade, considerando uma escala
de 0 a 10, foi 8,2. Estes resultados demonstram a importância de atividades que
trabalhem conceitos de neurociência nas escolas, de forma a despertar o interesse
dos alunos pela ciência, bem como promover a popularização de saberes científicos.
Além disso, destacam que a metodologia proposta foi bem aceita pelo público-alvo.
Os professores das turmas do Ensino Fundamental também citaram
acreditar que essa seja uma forma interessante de repassar conhecimentos
científicos para alunos de ensino fundamental, pois desperta a curiosidade dos
mesmos sobre esses assuntos, que não são vistos em sala de aula.
Na exibição do filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”
participaram 67 alunos do 2º ano do Ensino Médio, com idade entre 15 e 17 anos.
Os alunos afirmaram gostar da metodologia da ação de uma forma geral,
acreditaram ser essencial esse conhecimento (acerca da memória e aprendizagem)
para o uso de metodologias mais efetivas para estudar para o vestibular/Enem. Além
disso, afirmaram que o uso de mídias, como a exibição de filmes, pode ser uma
forma fácil de fixar conhecimentos. Os alunos atribuíram uma nota média de 8,6 à
atividade, considerano uma escala de 0 a 10. Os professores do Ensino Médio
acreditaram ser um tema de muita importância para o conhecimento dos alunos, e
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disseram que mais ações como essas devem ser realizadas. O debate sobre a
temática, proposto após o filme, foi um quesito abordado pelos participantes, pois
trouxe novas informações e estimulou discussões educacionais, além de promover o
interesse do aluno a participar ativamente do assunto.
DISCUSSÃO
Ao longo do desenvolvimento das ações, pudemos perceber a importância
de levar temas da neurociência com ligação direta com o processo ensinoaprendizagem para o âmbito escolar. Percebemos que as discussões geradas a
partir das temáticas trabalhadas nos filmes colaboraram com a melhoria da
percepção e entendimento dos alunos acerca da memória, especificamente.
Viana (2010) lembra que, por muito tempo, a escola privilegiou o uso da
língua escrita, já a atualidade requer imagens, pois hoje “o mundo é da imagem”. A
invasão da imagem faz com que o estímulo visual se sobreponha no processo de
ensino/aprendizagem, pois a cultura contemporânea é visual. Assim, o aluno é
estimulado pelas histórias em quadrinhos, videogames, videoclips, telenovelas,
cinema, jogos variados, inclusive do computador, todos com apelos às imagens
(VIANA, 2010), e foi isso que podemos perceber no decorrer das ações, o
envolvimento e o interesse pelo tema, principalmente, ao levar em considerações
situações dos filmes.
O período da infância e adolescência é caracterizado por um período
receptivo do cérebro, com um desenvolvimento intenso e conexões neurais
sensíveis às mudanças, preparando o cérebro para novas aprendizagens. A
estimulação às novas experiências e oportunidades de exposição sensorial modifica
as sinapses e leva à formação de outras novas, assim criando novos
comportamentos. Portanto, fica evidente a importância dos estímulos variados nesta
fase da vida, para que se desenvolvam redes neurais e possam se desenvolver um
potencial de realizar atividades mais complexas (GUERRA, 2010).
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Os filmes, muitas vezes, lidam com os temas científicos sob a perspectiva de
muitas
disciplinas.
Consequentemente,
o
estudante
vivencia
um
contexto
interdisciplinar. Isso é valioso porque, no “mundo real”, as situações raramente são
restritas a uma única disciplina (DUBCEK, 2007). Os filmes escolhidos neste estudo
utilizam histórias fictícias para trabalhar temáticas relevantes. Este exercício de
identificar e diferenciar o possível/real e a ficção também é importante para os
estudantes, especialmente na temática trabalhada. Atualmente muitas terapias,
remédios, entre outros são divulgados como verdadeiros salvadores e/ou
prolongadores da memória, quando, se sabe, muito pouco disso tudo é realmente
efetivo.
Memória representa a aquisição, formação, conservação e evocação de
informações. A aquisição é também chamada de aprendizado ou aprendizagem: só
se grava aquilo que foi aprendido; a evocação é também chamada de recordação,
lembrança, recuperação (IZQUIERDO, 2011). É então, de fundamental importância
que o aluno, autor principal de sua aprendizagem, reconheça conceitos como esses,
para que possa assim melhorar seus métodos de aprendizagem e estudo. A
popularização da ciência, conforme Germano e Kuleska (2007), ato ou ação de
popularizar, tornar popular, difundir algo entre o povo, contribui para que a
população de aproprie de conceitos tão importantes como este. Nas ações
desenvolvidas pôde-se perceber que a facilidade de se trabalhar esses temas com o
público se deu principalmente pela exposição dos filmes. As crianças, por exemplo,
mergulharam na temática proposta através do filme “Procurando Nemo”, uma
história de animação muito bonita, a qual permeia o drama da dificuldade em formar
memórias de curta duração da personagem Dóri. Já no filme “Brilho eterno de uma
mente sem lembranças”, é abordada a memória declarativa, responsável pelo
registro de fatos, eventos e conhecimentos. Além deste aspecto principal, junto aos
adolescentes também foi abordado, durante a discussão, aspectos relacionados a
amnésias, “brancos” e perdas de memória, em função do direcionamento da
discussão a partir das curiosidades dos estudantes.
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Assim, como expressa Almeida (1994), a utilização do filme não deverá ser
uma opção meramente ilustrativa e nem uma metodologia que vise a substituição do
professor, mas sim um momento crítico e reflexivo de aprofundamento sobre os
conceitos expostos. A escolha do filme deve, ao mesmo tempo que interessar os
estudantes, tratar de uma temática relevante, a qual o professor, monitor ou
mediador tenha conhecimentos relevantes a ponto de sanar as dúvidas dos
estudantes e complementar as informações. Em nossas ações os monitores
realizaram este papel, o que propiciou aprendizagens significativas, que levaram à
popularização de conceitos importantes da neurociência através da exibição de
filmes seguida por rodas de conversa, uma metodologia que se revelou bem aceita
pelo público-alvo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nossos resultados permitem verificar que a utilização de filmes que abordem
temas relacionados à neurociência pode ser uma estratégia interessante para
popularização desta ciência dentro do contexto escolar, potencializando o
aprendizado de assuntos relacionados ao cérebro. Além de a discussão ser um
momento de esclarecimento de conceitos e mitos acerca da temática trabalhada,
esta é uma forma mais prazerosa e divertida de disseminar novas e coerentes
informações sobre o cérebro, despertando a atenção do aluno para curiosidades
acerca de temas da neurociência.
Agradecimentos
Os autores agradecem o apoio financeiro recebido do Ministério da
Educação (Edital PROEXT/MEC), da CAPES (Edital Novos Talentos) e do
PROEXT/Unipampa (Edital PROFEXT), que possibilitaram a realização destas
ações. Agradecem também a parceria das escolas de Uruguaiana e todos os
estudantes de graduação que contribuíram para execução das ações.
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