A PARADA CARDÍACA NA ELA Há alguns dias, recebemos a

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A PARADA CARDÍACA NA ELA
Dr.
Vanderlei Lima
Há alguns dias, recebemos a noticia que um “amigo”, paciente com
ELA, havia falecido. Como era uma pessoa ativa e com tempo e estágio de
doença semelhante aos meus, atraiu minha atenção, atrás de informação
da causa daquele óbito.
Rapidamente, consegui a informação, por um profissional da área
da saúde, que o acompanhava, que ele sofrera uma parada cardíaca.
Para quem não está familiarizado com termos técnicos, informo que
parada cardíaca não é causa de morte, afinal, seja qual for a causa da
morte, resultará em parada do coração. O que precisamos definir é, qual
foi a causa que levou a parada do coração ou a morte súbita, termo mais
apropriado, a meu ver. A morte súbita é a morte que ocorre de forma
inesperada, não acidental e em paciente normal ou adoecido com todas as
funções equilibradas e no máximo, 1 hora após o inicio dos sintomas.
Assim, passemos a discorrer sobre as causas de morte súbita na
ELA, no intuito de preveni-las, evitando assim, mortes e perdas, que
surgem como verdadeiro arrancamento das pessoas que amamos de
nossas vidas.
Causas ligadas ao respirador: A desconexão do respirador da cânula da
traqueostomia, que leva a falta de oxigênio no sangue e levará em 2 a3
minutos a parada cardíaca e consequentemente à morte. Geralmente
ocorre na madrugada, quando o cuidador é tomado por um sono
profundo e o alarme do respirador não é suficiente para acorda-lo. Por
outro lado, a falta de oxigenação nas células desperta o paciente que só
pode contar com o movimento dos olhos, afim de, despertar seu cuidador.
A prevenção consiste na verificação de todas as conexões, apertando-as,
de forma, que minimize esse risco. Já tenho um contato com um
especialista em comunicação assistiva, para desenvolver um óculos com

Vanderlei Corradini Lima, médico cirurgião e profº no curso de residência em Cirurgia Geral, na
Santa Casa de Misericórdia de São Sebastião do Paraíso. Vanderlei é portador de esclerose lateral
amiotrófica (ELA) ah 5 anos.
sensores infravermelhos que captem os movimentos dos olhos e acionem
uma buzina, afim de, dar mais segurança nessa situação.
O desligamento súbito do respirador seja por qualquer causa (falta
de energia, problema no nobreak, funcionamento inadequado), pode se
não for devidamente socorrido levar a parada cardíaca e morte. Para
evitarmos, tal situação, é necessária, que o cuidador esteja atento a todo
instante ao som do alarme e do suspiro e ao mínimo sinal que o respirador
não está funcionando, corra e ambuze o paciente, para não deixar que
ocorra uma parada cardíaca pela falta de oxigênio no sangue. Por favor,
não tente resolver o problema do aparelho, esquecendo que o paciente
esta sem ventilação.
Causa ligada a cânula de traqueostomia: É a chamada ROLHA, que
ocorre quando há um entupimento da cânula de traqueostomia por
secreções que vão endurecendo no interior da sua luz. Frequentemente,
ocorre após mudança de decúbito e é acompanhada de cianose (coloração
azulada de pele e mucosas), baixa da saturação, se o paciente estiver
conectado ao oximetro, indicando que é baixa a presença de oxigênio no
sangue. Esse quadro necessita de rápida identificação e ação, como
ambuzar o paciente, com o ambu ligado ao oxigênio, aspirar a traqueia,
com soro várias vezes. Se paciente melhora com uso do ambu e volta a
piorar quando usa o respirador, pode-se usar o cough assist, na tentativa
de remover a rolha. Se nada melhorar, continue ambuzando e chame uma
equipe treinada para trocar a cânula de emergência.
As formas usadas para evitar as formações de rolhas são a
hidratação do paciente com no mínimo dois litros de água, além da dieta,
uso de mucoliticos (Ambroxol, N Acetilcisteina), aspirações bem feitas de
modo a remover secreções impregnadas na parede da cânula.
Causa ligada ao imobilismo: O paciente acamado tem sua
circulação sanguínea de retorno ao coração, através das veias das pernas,
prejudicada, por não contar com os movimentos dos músculos,
principalmente os da panturrilha, que funcionam como bombas, que
impulsionam o sangue das pernas de volta para o coração, contra a lei da
gravidade. Com isso, o sangue vai represando no interior dessas veias e vai
formando coágulos chamado de trombos, que nos membros inferiores,
leva o nome de Trombose Venosa Profunda(TVP), que causa edema e dor
nos membros inferiores. Quando os trombos se desprendem e caminham
no interior dos vasos, dizemos que ocorreu uma embolia. Quando esses
trombos se alojam nas artérias pulmonares e seus ramos, entupindo a
circulação, justo no local onde o pulmão faz a troca do gás carbônico pelo
oxigênio, dizemos que ocorreu a EMBOLIA PULMONAR. Se ocorrer em
vasos calibrosos, grande parte do pulmão fica comprometida na sua
função de troca dos gases do sangue e leva a parada cardíaca.
Os sintomas da embolia pulmonar, quando grave, será agonia
respiratória, mesmo com uso do respirador, pele fria, cianose, sudorese,
rapidamente leva a parada cardíaca. O tratamento, quando for grave, é
muito difícil obter êxito, principalmente em domicilio, mas, deve-se
realizar massagem cardíaca e ventilação com ambu, com máscara, para o
não traqueostomizado e direto na cânula, para os traqueostomizados, até
que o socorro de emergência chegue. A prevenção consiste em massagear
as panturrilhas e coxas a cada hora, mudança de decúbito, principalmente
para a posição com as pernas elevadas, chamada de posição de
Trendelenguber, exercícios de flexão e extensão das pernas e uso de
meias de compressão. Em pacientes de alto risco para desenvolver
quadros tromboembólicos, após avaliação médica, pode ser indicado o
uso de medicação como prevenção. Prestem atenção nessas prevenções,
pois a embolia pulmonar grave tem mortalidade muito próxima de 100%.
Causas cardíacas: Nesse item estão o Infarto Agudo do Miocárdio
Fulminante (IAMF) e as Arritmias.
O IAMF pode ocorrer, mas, as próprias condições do paciente com
ELA, sobretudo, naqueles com doença avançada, não favorece tal
ocorrência. O imobilismo, ausência do tabagismo e dieta adequada
servem como proteção. Os sintomas são devastadores e rapidamente
ocorre a parada cardíaca. A dor precordial (no peito) é de início súbito,
seguido de perda da consciência e ausência de pulso, demonstrando que
ocorrera uma parada cardíaca. Em sua prevenção, incluem dieta
apropriada e medicação adequada, nos pacientes de risco para doenças
coronarianas.
As arritmias cardíacas como causa de morte súbita, são mais
frequentes em relação ao IAMF. Em ambos, geralmente, os pacientes têm
historicamente ligação prévia com essas doenças. As arritmias podem
gerar sintomas de palpitação, pulso irregular ou ausência de pulso e
consequentemente parada cardíaca. Na prevenção lembro a importância
do acompanhamento com cardiologista e o uso de medicação quando
necessário. Tal como na embolia, nas causas cardiológicas, o tratamento
domiciliar visa manter o paciente vivo, até que o socorro de emergência
chegue.
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