ISSN 1517-1256

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Rev. eletrônica Mestr. Educ. Ambient. ISSN 1517-1256, v. 21, julho a dezembro de 2008
Universidade Federal do Rio Grande - FURG
Revista Eletrônica do Mestrado em Educação Ambiental
Revista do PPGEA/FURG-RS
ISSN 1517-1256
Programa de Pós-Graduação em Educação Ambiental
GODDESS OF FERTILITY: UMA ANÁLISE SOBRE O SIGNO FEMININO
ORIENTAL E SUA RELAÇÃO COM A ERÓTICA – PERCEPÇÕES ACERCA DO
ECOMUNITARISMO
André Luiz Portanova Laborde1
Cíntia Pereira Barenho2
Maicon Dourado Bravo3
RESUMO
O presente artigo tem a finalidade de discutir acerca do signo feminino e sua representação simbólica no
ecomunitarismo e no imaginário mitológico oriental, em uma tentativa de compreender como se estabelecem
seus papéis junto ao entendimento de erótica. Nesse sentido, buscamos um diálogo com Jung, através dos
conceitos de animus-anima, para tentar abarcar o feminino e masculino, não como sinônimos de homem e
mulher, mas envolvendo suas realidades às experiências heteroeróticas e homoeróticas sem segregação de
atributo e sexo, percebendo a relevância do feminino nessas mediações.
Palavras-Chave: Ecomunitarismo; Erótica; Feminino.
ABSTRACT
The present article has the purpose to discuss around the female sign and their symbolical representation in the
echomunitarism and in the oriental mythological imaginary, in a try to comprehend how them establishes their
own characters next to the understanding of erotic. In this way, we search by a dialogue with Jung, across the
concepts of animus-anima, to try to approach the female and male, not like a synonymous of man and woman,
but involving their realities to experiences heteroerotic and homoerotic without segregation of attribute and sex,
perceiving the relevance of female in these mediations.
Keywords: Echomunitarism; Erotic; Female.
1
Professor substituto do Instituto de Ciências Humanas e da Informação ICHI/FURG; Licenciado e Bacharel em
História; Mestre em Educação Ambiental pelo Programa de Pós-Graduação em Educação Ambiental da
Universidade Federal do Rio Grande; [email protected]
2
Mestre em Educação Ambiental pelo Programa de Pós-Graduação em Educação Ambiental da Universidade
Federal do Rio Grande; Licenciada e bacharel em Biologia pela Universidade Federal de Pelotas; Coordenadora
do Centro de Estudos Ambientais – CEA.
3
Licenciado e Bacharel em História; Especialista em História do Rio Grande do Sul; pela Universidade Federal
do Rio Grande; [email protected]
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Considerações Iniciais
As relações entre o universo feminino e a esfera sagrada guardam uma ligação muito
peculiar, ou seja, a mulher e conseqüentemente o transcendental estão vinculados,
intimamente, à magia, aos mistérios da fertilidade e principalmente ao oculto. Essa conexão
foi à premissa que justifica, no passado, a perseguição às mulheres, como também o seu lugar
na sociedade perante o sistema exclusivista patriarcal.
Além disso, o signo feminino era reverenciado, nos primórdios da civilização, como o
grande útero que faz germinar o alimento, com o intuito de prover o ser humano. Assim, a
mulher assumia um papel de caráter religioso bastante significativo, pois, estava vinculada
com a terra. Daí se percebe a relação do feminino com o universo, dessa forma unindo a
mulher à fecundidade, à fertilidade e fundamentalmente ao sagrado. 4
Percebemos que a gênese do princípio feminino, tanto no ocidente como no oriente, se
calca sob a égide da fé. Mas para a estrutura hierárquica das sociedades ocidentais, a
igualdade preconizada pelo elemento “salvador”, cedeu diante dos obstáculos nascidos do
contexto cultural no qual o cristianismo se difundiu. Depois de muitos conclaves, a Igreja
começou a venerar a Mãe de deus, a virgem Maria, instituindo-a como modelo de mulher para
o sexo feminino, porém continuou vendo a mulher como causa de todos os pecados do mundo
e fonte de perdição (FONTANEL, 1998:16).
Dessa forma, tencionamos realizar um diálogo entre a Erótica – presente da ordem
social utópica pós-capitalista: Ecomunitarismo – e o imaginário oriental5, e uma tentativa de
vislumbrar com se dão suas relações de gênero e suas contribuições para com a manipulação
de suas sexualidades, enquanto mecanismos balizadores de ética.
Reflexões em torno do Hinduísmo
O Hinduísmo se situa entre as grandes mitologias arianas, lembrando muito a
mitologia grega. No entanto se observa no hinduísmo a presença de um princípio supremo,
4
Sagrado: Em sentido amplo, o sagrado é o que é protegido, pela religião ou não, de violação, intrusão e
profanação. [...] não é sinônimo de santo. [...] sagrado tem o significado de respeitado, venerado e inviolável. [...]
uma grande variedade de objetos, práticas, lugares, costumes e idéias religiosas ou não religiosas pode adquirir
um caráter sagrado. EBERSOLE, Luke. “Sobre o Sagrado” In: SILVA, Benedicto (coord.) Dicionário de
Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1986. p 1095.
5
Na experiência da mitologia Indiana.
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absoluto e infinito que podemos identificar por Brahman6,este revela toda a essência da
religião. Mesmo sendo o Brahman o princípio absoluto, percebemos uma bipolaridade de
potencias em relação à figura do Atman, que é a manifestação desse Brahman dentro do ser
humano (essência/alma). “Por sua vez o Atman é o princípio universal que ilumina todo o
indivíduo empírico, o sopro de eternidade contido em toda forma da existência que se
transforma” 7. Ocorre na experiência hinduísta uma sucessão infinita de manifestações (vidas)
em um ciclo de renascimentos que são regidos pelo Karma8, a lei que da retribuição dos atos,
porém o Atman permanece e se envolve nesse ciclo. O objetivo da existência é a busca
interior que permita o ser humano compreender que o infinito em nós (Atman) e o absoluto
(Brahman) são a mesma realidade.
A ótica hinduísta perpassa todas as esferas da vida, reverenciado-as com leis de pureza
e os rituais, na convicção de que o significado da existência e a harmonia do mundo estão
regrados por uma lei verdadeira e eterna: eis o Dharma. Aliás, a ordem do cosmos se percebe
na ordem social, ou seja, na vida do indivíduo, se reflete os preceitos do vedas uma vez que
estes regulam a vida e auxiliam a manutenção da relação Dharma/karma.
Todo pensamento hinduísta é atravessado pelo sentido do conflito e, ao
mesmo tempo, da união última entre bondade da regra sagrada e o valor
criativo da desordem, entre a beleza da vida e ao sentido de seu caráter
ilusório, entre desejo e renúncia9.
Dessa maneira, o pensamento hindu encarna alguns preceitos morais como: ética,
estética, virtude/fé. Assim entende-se essa organização entre conflito e união, como um
espelho da relação sagrado/profano, deus/homem, céu/terra. Enfim, a particularidade
6
O núcleo da experiência espiritual hinduísta é a fé em um absoluto, o Brahman, a única realidade verdadeira,
incriada, fonte primeira e fim último de toda forma do cosmo, concebido também como um deus supremo
pessoal (Trimurti: Brahma/ Vishnu/ Shiva) Brahman é o Uno e também o Tudo. Na realidade o Hinduísmo se
apresenta panteísta na forma, mas monoteísta na essência, pois, todas as representações (Deidades/ Deuses)
acabam sendo manifestações do supremo que é o Brahman. Então podemos dizer que o Hinduísmo é monoético
porque visa o alcance e a ligação do eu/alma (Atman) com o eu superior Brahman.
7
MASSIMO, 2005:25.
8
Da raiz Kr: fazer, obra, ação, rito execução. É a lei da ação e divide-se em três momentos ou etapas, a saber:
Sanchita-Karma (Sanchita: acumulado, amontoado) é o resultado de todas as nossas ações passadas, mas que
ainda não começaram a germinar, amadurecer e transformar-se na colheita de uma vida; Prarabda Karma (da raiz
Prakk: antecipado; e arabda: começando) é o Karma escolhido e acumulado no passado, mas que já começou a
produzir frutos na forma de acontecimentos presentes. É a parte do Sanchita que vai ser vivida no momento
atual. Agami-Karma (Agami: vindouro) é o destino que ainda não temos assumido aquele que, sendo efetuado
(semeado) agora, será incluído em Sanchita. Sintetizando, Karma é a lei de ação e reação, de causa e efeito.
ROHDEN, Huberto. Bhagavad-Gita. 1. ed. São Paulo: Martin Claret, 2005.
9
MASSIMO, 2005:26.
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metafísica indiana representa esse movimento nas suas inter-relações com a sociedade e
substancialmente com a realidade oriental.
O hinduísmo vai nos revelar uma visão bramânica do mundo, mesmo tendo várias
fases o hinduismo se centrou desde seus primórdios nos preceitos védicos de explicação da
vida. Portanto, iremos elencar aqui, o processo de construção desse pensamento e investigar
também qual a sua importância para o nosso estudo. Entretanto, já adiantamos que a religião
hindu mesmo em sua diversidade de enfoques está presente e faz parte do processo de
construção da mentalidade indiana e substancialmente da oriental. Dessa forma, a presença
do Kama Sutra10, em sua dimensão erótica, se revela enquanto literatura nesse cenário
permeado pelo hinduísmo, vai ser colocada de lado de forma providencial, pois o hinduísmo
sendo basicamente liderado pelo princípio bramânico, em sua essência não vai querer dar
vazão a uma literatura que possa dividir a atenção da sociedade encorajando outro tipo de
busca.
Mesmo assim, dentro do hinduísmo se menciona o papel do Kama Sutra através da
sua atribuição a figura de Shiva. Existe nesta religião a representação da figura do Brahman
associada à Trimurti11, que é uma espécie de tríade que tem o caráter de sustentáculo
simbólico para os hindus. Essa trimurti é percebida através das figuras de Brahma, o criador,
Vishnu, o preservador e Shiva, o destruidor e transformador. A Shiva é relegado o domínio do
sexo como forma de yoga12, ou seja, como mecanismo de alcance ao sagrado, uma vez que se
apresenta como chave à transcendência do espírito.
Portanto, os cultos a Shiva estão ligados diretamente a alguns preceitos do Kama Sutra
e em especial ao papel da mulher nesse processo. A presença da figura das Shaktis13 que junto
ao cortejo de Shiva são reconhecidas por: Umâ, Durgâ e Kali14vão acentuar e, de certa forma,
revelar a grande diferença da visualização da mulher nesse contexto oriental.
10
O Kama Sutra ou Aforismo sobre o amor é a obra mais importante, a mais célebre da literatura Hindu. Seu
autor Vatzyayana viveu o I e o IV século da era cristã. O Kama Sutra é composto por cerca de duzentos e
cinqüenta versetos que versam sobre um tratado de moral sexual, precedido de um curso de filosofia para uso de
ambos os sexos numa busca incessante pelo amor universal. Kama – deus do amor- e Sutra – lições- Lêem-se
então: Lições de amor. A recomendação do texto é associar o Dharma ao prazer sensual como forma de unir-se
ao sagrado. As lições do Kama Sutra no que tange yoga e os mudras são os mecanismos de se atingirem a
realidade divina. VATZYAYANA. Kama Sutra: O livro sagrado dos brâmanes da Índia. Trad. Isidoro Liseux. 4.
ed. São Paulo: Edições e publicações do Brasil editora S.A, 1930.
11
Trimurti: Brahma/ Vishnu/ Shiva. Sachchidânanda (Sat- Chit- Ananda) - ser, consciência, felicidade –
Representação da realidade ultima, transcendência. Trindade Hindu. STODDART, William. O Hinduísmo. 1. ed.
São Paulo: Ibrasa, 2004. p 32.
12
Yoga: Da raiz Yuj: Unir. União, conexão, Harmonia, relação. É a perfeita união do homem com a divindade.
Patanjali define Yôga como a arte de suspender ou deter as funções da mente. ROHDEN, Op. Cit. p 141.
13
Shakti: Elemento feminino que compõem o princípio do universo (masculino/feminino) na trimurti hindu.
Consortes. CAPRA, Fritjof. O Tao da Física. 5. ed. São Paulo: Cultrix, 1998. p 74.
14
Shakti de Shiva: Parvati (Umâ, Durgâ e Kali) são suas representações. STODDART, Op. Cit. p 35.
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Outro conceito a respeito da composição do pensamento em torno do hinduísmo que
vale a pena realçar é a constituição do significado de realidade. Sob a ótica do hinduísmo o
mundo em sua plena configuração se apresenta falso (Maya), uma percepção15 ilusória, dessa
maneira Brahman é o verdadeiro princípio das coisas (real).
O termo maya (o relativo) é geralmente usado com o significado de ‘o falso’
(ou ilusório). Maya, contudo, pode também ser considerado positivamente
como Krishna – Lîlâ: ‘jogo divino’, ‘arte divina’, ‘magia divina’ ou
‘aparência’. No processo que leva à manifestação, o Ser (Îshvara) polariza-se
em um princípio ativo ou masculino, Purusha, e em um princípio passivo ou
feminino, Prakriti. Da interação desses dois princípios parentais nasce à
existência ou manifestação (samsâra ou Jagat) 16.
Em suma, a Contribuição do hinduísmo nesse estudo tange a esse caráter
representativo que acabamos de apresentar. No entanto, sabemos que ainda se revelam
inúmeras lacunas acerca da religião. Entretanto, não se pretende esgotar aqui essa discussão,
ao longo da análise ainda iremos recorrer a essa abordagem, porém cabe lembrar que o
referido sistema religioso denota uma infinidade complexa de nuances a respeito do tema, o
qual se tentará elucidar de acordo com a necessidade da nossa investigação.
O Tantra e sua dimensão erótica
A realidade do tantra17 hinduísta baseia-se em uma face distinta, em parte, por aquela
ilustrada no Veda. Suas raízes são um tanto quanto envoltas por brumas. Sabe-se que teve
forte influência de ascetas errantes de origem drávida que cultuavam seu desenvolvimento
pleno, mais associado ao que podemos identificar de hinduísmo védico18. É postulado por
antigas práticas de povos autóctones (drávidicos) que possuíam uma cultura ancestral aos dos
15
O poder cósmico que faz possível a existência fenomênica e as percepções da mesma. De acordo com a
filosofia Hindu, somente aquilo que é imutável e eterno merece o nome de realidade; tudo o que está sujeito à
mudança e que, portanto, tem por princípio e fim é considerado Maya. Às vezes é tida por ilusão. ROHDEN, Op.
Cit. p 135.
16
STODDART, 2004:29.
17
A disciplina física e mental para a libertação utiliza no início as técnicas de Hathayoga, que combinam
posições do corpo, controle da respiração e exercícios de contemplação. [...] Os caminhos que trazem em si o
poder divino são os mantras (sons sagrados), os mandãla (diagramas do universo) e os mudras (gestos de mãos e
posições do corpo que simbolizam gestos metafísicos). Tantra (Sânscrito: tratado sobre ritual, meditação e
disciplina), yoga tântrico ou tantrismo é uma filosofia essencialmente prática que tem por objectivo o
desenvolvimento integral do ser humano nos seus aspectos físico, mental e espiritual. É muito mais antigo que as
várias tradições esotéricas com raízes na filosofia hinduísta e budista, remontando a sua origem a pelo menos
5000 AC. Id. Ibid. p 76.
18
Pode-se dizer que o hinduísmo védico se reporta a era de conhecimento drávidico (pré-brâmane).
STODDART, Op. Cit. p 33.
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invasores arianos. Além disso, era regido por visões místicas, propiciadas por xamãs centroasiáticos através de yogas.
Essa doutrina religiosa encontrou repouso em alguns princípios dos Vedas, como no
Atharva e Yajur veda. O Tantra se difundiu em regiões de fronteira, no Kasmir, a Bengala, o
Assam que eram áreas onde a influência bramânica não obteve muito respaldo. Após as
primeiras eras da era cristã o tantrismo ocupou espaço e se configurou como religião
autônoma. “Entre os séculos VI e VIII aparece bem radicado na tradição indiana, e difunde-se
também nos centros de cultura e de saber tradicional do hinduísmo, que testemunharam o
florescer da literatura tântrica culta” 19.
Sobretudo, temos a respeito dessa literatura a presença da cultura shivaísta (Shivagama) bem como as Vaisnava Samhitã vishnuístas, que são textos que revelam um altíssimo
teor a respeito da revelação espiritual profunda (Sruti védica). Onde o tantrismo encontra um
caráter filosófico e ritual passados de mestre a iniciado. A finalidade mais acentuada da
doutrina tântrica conseguiu, atingir em um dado momento, sua presença por toda Índia onde
manifestou, ou melhor, dizendo, exerceu influência em todas as tradições religiosas.
A resposta do tantrismo constitui-se numa nova perspectiva: o mundo era a
realidade, a existência estava ligada ao desejo e o fim último do desejo era
um retorno ao Absoluto. A visão tântrica não contrapunha desejo e salvação;
não negava os sentidos e os sentimentos, mas propunha controla-los segundo
uma ascese gradual e valoriza-los numa perspectiva de conhecimento e
libertação que poderia ser atingida já aqui na terra, nesse corpo20.
A relevância do tantrismo para o estudo ao redor da erótica é o de justamente
significar o valor de uma tradição que através da fé, da mística e da iluminação consegue
convergir essa experiência em verdade absoluta. A busca da verdade espiritual e do amor
transcendental estão intimamente ligados a esse ideal tântrico de ver/ perceber o universo. Por
isso o Kama Sutra ilustra tão bem essa realidade, pois conota uma visão sistemática muito
próxima da filosofia proposta no tantra.
Para Jung, os arquétipos da alteridade Animus-Anima21 regulam toda relação
polarizada, pois, são regidos por uma complacência de um encontro igualitário de potências.
No tantra identificamos, em certa medida, exemplos dessa mediação. No esplendor da
19
MASSIMO, 2005:74.
Id. Ibid.p 74.
21
Animus: Contraparte masculina dentro do feminino. Sentido da razão, essência masculina na relação
arquetípica com o cosmos. Anima: contraparte feminina dentro do masculino. Sentido da sensibilidade, essência
feminina na relação arquetípica com o cosmos. SILVEIRA, Nise da. Jung – Vida e obra. 2. ed. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1975. p 97.
263
20
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realidade tântrica existe um aspecto masculino e um outro feminino e seu simbolismo é
representado através da união sexual, dessa forma nos aproximamos da realidade do
ecomunitarismo. Portanto, percebendo esse movimento de ‘evolução’ cósmica percebemos
que essa interação proporciona o equilíbrio entre o espaço do sagrado e sua cosmovisão. “O
princípio masculino do absoluto (Visnu e Siva, dependendo da seita) permanece imóvel e
recolhido. A Sãkti, princípio feminino ativo, é a energia do início e do fim do universo, que
produz e extingue o universo”. 22
Assim, percebemos no tantrismo elementos que darão suporte também a discussão
acerca das questões de gênero que serão enfocadas também nessa análise. Nossa premissa
teórica é explicar como seu deu o processo histórico-cultural ao redor da realidade oriental no
que tange sua relação com a erótica.
Em uma tentativa de poder reconhecer o cenário que se construiu essa associação, isto
é, identificar quais foram às premissas (religiosas) que serviram de sustentáculo, tanto da
experiência indiana, como da possibilidade de verificar a manifestação de tal filosofia. Enfim,
o tantra nos indicou a direção a percorrer e, ainda mais, nos revelou que é possível visualizar
na erótica uma verdadeira ilustração da sintonia entre masculino e feminino (oriental) e
substancialmente a reconhecer o papel da sexualidade nesse processo de investigação.
O feminino sobre o prisma oriental
Debruçar-nos-emos ao redor das Shaktis para refletir melhor sobre a mulher e seu
papel no universo simbólico oriental. As Shaktis, elementos femininos, vão balizar os
fundamentos da metafísica indiana, perpassando do hinduísmo ao tantra.
Dos achados arqueológicos de Harappã e de Morenjo-Daro pode-se deduzir
que já no II milênio antes de cristo as populações autóctones de agricultores
veneravam aquela que tipologicamente pode-se considerar uma Deusa Mãe
terra [...] A lenta transformação da civilização védica fez reemergir, de
maneira indireta, algumas crenças antigas. Dentre elas, o culto da Deusa
Mãe23.
Essa deusa era chamada de Gauri (amarela), ou Sãkambhari (a que traz os vegetais), e
às vezes é tida por Vindhyavãsini (a que habita os montes). O culto a essa Deusa-mãe provém
22
23
MASSIMO, 2005:75.
MASSIMO, 2005:78.
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da cultura drávida anterior à invasão ária no território indiano. É fruto de cultos domésticos e
sua adoração servia para a explicação ao manejo da agricultura e da vida pastoril.
O aspecto feminino devotado à criação do universo ajuda também a entender sua
relação com o sentido de imanência que a Índia nos encaminha. A Mãe-Terra (JUNG,
1991:32) representa uma divindade que garantia poder, pois legitimava a manipulação da vida
nessa atmosfera galgada pela fusão com o espírito religioso.
As especulações do tantrismo e do movimento da bhakti encontraram uma
fonte de inspiração na idéia tradicional da Deusa portadora de fecundidade,
de vida e protetora do Dharma. A antiga ‘mãe’ divina assumiu as conotações
religiosas de ‘esposa’ de deus e o tema da fecundidade transformou-se no
simbolismo da união sexual, com formas de intenso erotismo24.
As interpretações do tantra a respeito das relações com a erótica insinuam essa
identificação que está disposta na citação, a respeito da mulher e fecundidade. Pois, parte da
especulação filosófica que transpõe em uma dimensão metafísica o ato amoroso para exprimir
a união do efêmero com o absoluto, do ser humano à idéia de transcendental, do múltiplo ao
uno, em um movimento de cumplicidade entre as potências. As Shaktis de certa forma vão
simbolizar também o princípio feminino como sendo as consortes25 dos deuses que compõem
a trimurti hindu26.
A presença das shaktis na trimurti hindu exerce exponencial importância. A potência
geradora está imbricada profundamente na natureza dinâmica e feminina do sagrado, sem o
aspecto feminino a idéia de deus é inerte. A shakti é que acorda o masculino (elemento) do
êxtase profundo, libertando as formas da existência gerando a vida do universo.
No panteão dos deuses hindus ainda podemos citar: Aditi, infinito ou mãe dos deuses;
Chandra, a lua; Devi ou Mahãlãsa, grande ativa; Mohini, aquela que se envaidece;
Mahamaya, grande ilusão, Yogesvari, senhora da yoga; entre outras.
24
Id. Ibid. p 79.
Sarasvati princípio criador (shakti de Brahma); Lakshmi princípio preservador (shakti de Vishnu); Parvati
princípio destruidor ou transformador (shakti de Shiva), Parvati também é representada por Umâ, Durgâ e Kali.
STODDART, Op. Cit. p 35.
26
Trimurti é a trindade divina do Hinduísmo, é composta pelos três principais deuses: Brahma, Vishnu e Shiva.
Sendo Brahma a força criadora, Vishnu a força preservadora e Shiva a força destruidora ou transformadora. O
conceito de Trimurti tomou maturidade, na compreensão dos textos védicos, na época do chamado período
Purânico. A Trimurti significa o caminho cíclico do tempo Hindu. Embora Vishnu e Shiva atraiam fortes cultos e
adorações, o Senhor Brahma tende a arrastar-se para um plano secundário, como um deus criador .
Freqüentemente, a Trimurti é retratada como uma figura de três cabeças, devido a uma encarnação dela em
Datattreya. Na Trindade do hinduismo são três deuses formando um só., Brahma é o Criador, assim como o
"Pai". Vishnu é o protetor que encarna na Terra, assim como o "Filho". A diferença é que ele vem a Terra em
várias encarnações, sendo as três últimas como Rama, Krishna e Buddha. Shiva, como o Espírito Santo, é quem
destrói as coisas ruins para renovar o Universo. . MASSIMO, Raveri. Índia e extremo Oriente: via de libertação
e da imortalidade. 1. ed. São Paulo: Hedra, 2005. p 87.
265
25
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Temos que levar em consideração que o panteão hindu é bastante vasto e que existem
mais de dois mil deuses dependendo da região e da devoção. O importante é grifar que tanto
as shaktis como as deusas estão associadas à Prakriti (substância) o princípio feminino.
Dessa forma, vislumbramos as tenras distinções entre as representações femininas no
oriente, em uma tentativa de salvaguardar o teor dessas relações. A intenção agora é
concentrar os valores relegados à mulher e aproximar ao ecomunitarismo essa possível
vinculação, apoiando-se nos princípios de Prakriti e shakti, já somos capazes de estabelecer
estas inter-relações com o feminino e o universo permeado pelo cenário oriental que está
contido na erótica.
A Erótica no Ecomunitarismo
O Ecomunitarismo é uma ordem social utópica pós-capitalista que tem por
sustentáculo três normas éticas27 que a fundamentam enquanto realidade. Segundo Sírio
Lopez Velasco, a ética argumentativa se debruça no questionamento: Que devo/devemos
fazer? Nesse sentido, podemos aproximar a realidade fantástico-mitológica do imaginário
oriental a essa perspectiva, que percebe no ser humano uma complacência de potências ao
redor da erótica.
A primeira norma diz que devemos zelar pela nossa liberdade individual de decisão; a
segunda fala que devemos viver consensualmente essa liberdade; e a terceira nos remete que
devemos zelar pela preservação-regeneração da natureza. (LOPEZ VELASCO, 2002: 41).
Em torno da erótica percebemos uma preocupação em situar o sujeito vivente no
ecomunitarismo em localizar-se nesse contexto. Nesse sentido, reconhecemos que a dimensão
erótica compreende e calca a relação do indivíduo na sua relação com o outro, permeando o
universo da afetividade, da interconexão sexual e da consensualidade (FOUCAULT,
1993:47).
Para tanto, ao invés de dialogarmos com Freud, acerca do problema da sexualidade,
optamos em realizar essa discussão com Jung, pois percebemos que a vinculação à atmosfera
que compreende a mística oriental, participa da visualização das experiências heteroeróticas e
27
A primeira norma obriga-nos a lutar contra toda instância de repressão e/ou auto-repressão alienada de nossas
vidas; a segunda obriga-nos a lutar contra qualquer relação de dominação nos relacionamentos intersubjetivos; e
a terceira obriga-nos a lutar contra qualquer devastação e poluição irreversível da natureza. LOPEZ VELASCO,
Sírio. “Querer-poder e os desafios socioambientais do século XXI”. In: RUSCHEINKI, Aloísio (Org.).
Educação Ambiental: abordagens múltiplas. 1. ed. Porto Alegre: Artmed. 2002. p 37-46.
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homoeróticas presentes nesse contexto. Assim, será através do conceito de Animus-Anima que
poderemos enfocar o papel do feminino em direção à erótica.
A erótica trata das relações que se estabelecem entre os partícipes de uma relação
polarizada, envolvendo a libido como teor primordial dessa ligação. De acordo com Sírio
Lopez Velasco: “Ao me referir à erótica, limito-me a pulsão libidinal existente nos seres
humanos, mais especificamente na porção daquela que vincula indivíduos humanos entre e
cada um deles consigo mesmo” 28.
Nossa insinuação acerca de Jung se verifica porque percebemos que a sexualidade
pode ser compreendida sob o prisma de igualdade que polariza ambos os sexos. Nesse
sentido, identificamos nos arquétipos sua ligação às relações que versam discutir sobre o
gênero. Vemos que no ecomunitarismo o indivíduo, seja ele homem ou mulher, deve se ater
ao respeito das normas éticas, não existindo uma relação determinada de gênero. Portanto,
mencionamos Jung, pois por se tratar de erótica, acreditamos que por haver relações
heteroeróticas e homoeróticas, os indivíduos não precisam necessariamente estarem atrelados
ao seu respectivo sexo, podendo, homem ou mulher, exercerem seu estado de anima ou
animus dentro de si, sendo com o sexo oposto ou semelhante.
Dentro da abordagem erótica presente no ecomunitarismo podemos perceber: o
autoerotismo, o heteroerotismo, o homoerotismo e a distinção do erótico com o pornográfico.
O autoerotismo se remete a relação erótica do indivíduo consigo mesmo, o momento de
sociabilidade libidinal do ser com o próprio ser, tem-se isso como o momento da
masturbação.
[...] à luz da primeira norma da ética, para o auto-erotismo, desde que vivido
em situação provisória, de alternância equilibrada com o heteroerotismo
(sem descartar por enquanto a variante homossexual deste), pode
reivindicar-se o lugar de um complemento episódico não-nocivo da
sexualidade; em particular quando o indivíduo passa por experiências
questionadoras do seu ‘eu’ ou quando não aceita nenhum ‘parceiro’ com
quem julgue digno de partilhar sua sexualidade ou não encontra
correspondência num possível partner29.
Para tanto, vislumbra-se no autoerotismo a possibilidade do conhecimento do próprio
corpo, no tocante que aufere a este a dimensão erótica que comunga da sexualidade consigo
mesmo. Portanto, o autoerotismo não viola a primeira nem a segunda norma da ética
28
LOPEZ VELASCO, 2003:201.
29
Id. Ibid. p 202.
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argumentativa, pois estabelecem um relacionamento que atende as necessidades dos
indivíduos que compactuam com si próprios dessa vivência sob a égide da erótica.
O Heteroerotismo e o Homoerotismo estão condicionados a segunda norma, porque
auferem na relação com o outro, o trato da liberdade consensual tecida em conjunto para viver
a liberdade de ambos partícipes do envolvimento estabelecido.
A segunda norma estabelece, pois, uma limitação muito clara na objetivação
sexual do outro. Ela não legitima fazer do outro um objeto sexual, na medida
em que eu mesmo me disponho a vir a ser objeto sexual para ele. De fato,
contra a mercantilização do corpo como ‘objeto sexual’, o que ela estabelece
implica uma mútua subjetivação sexual, na medida em que o vínculo
heteroerótico (ou homoerótico) se apóia numa decisão livre e consensual que
pode a cada instante ser questionada, modificada ou ainda revogada
argumentativamente30.
No vínculo que se estabelece na relação eu-outro percebemos a mediação que se
entrecruza entre sexo e procriação. A esse respeito, denota-se na erótica uma intensa ligação
com a criação, metaforicamente neste instante poderíamos aproximar a dimensão sagrada
oriental ao mote investigado, porque a geração de vida também partilha de um signo sagrado
que envolve o masculino e o feminino enquanto potências geradoras da vida. Sem esquecer
que no ecomunitarismo a decisão da procriação tem que necessariamente atender a segunda
norma. Frente ao aborto e a chamada ‘barriga de aluguel’ (no caso homossexual), estas
situações violam a norma, pois implicam na decisão de terceiros que estão envolvidos nesse
processo de tomada de decisão.
Ao que diz respeito à distinção entre erótica e pornografia, grifamos que essa se dá no
campo da conceituação, sobretudo quando se refere à manipulação da sexualidade. A erótica
se preocupa em dar conta do relacionamento do indivíduo em sua esfera libidinal que está
presente na sua formação, enquanto ser que se relaciona com si próprio, com o outro e com o
mundo, sendo essa atitude vivida em torno do sexo. A pornografia seria uma atividade sexual
que visa propor o prazer acerca da promoção libidinal, no tocante da venda do sexo como
forma de entretenimento.
Em relação aos praticantes de pornografia, essas normas estabelecem limites
censuráveis quando não se verifica a livre decisão consensualmente
estabelecida. Assim acontece quando os praticantes são crianças ou animais
incapazes de avaliar com pleno conhecimento de causa os atos dos quais
participam31.
30
31
Id. Ibid. p 203-204.
Id. Ibid. p 2003: 207.
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Dessa maneira, ilustramos a erótica dentro dessa ordem social utópica pós-capitalista
que é o ecomunitarismo proposto por Sírio Lopes Velasco, realizando alguns destaques acerca
da sua importância no interior dessa abordagem. É necessário agora entrecruzar a erótica
ecomunitarista ao universo simbólico oriental, envolvendo o feminino enquanto esteio de
comunicação entre essas duas perspectivas que visam discutir acerca das relações de gênero.
O signo da mulher
Fertilidade e fecundidade são dois conceitos que vem sempre associados às ações das
mulheres enquanto potências femininas frente às religiões. Portanto, esse será o suporte para
nossa aproximação aos encaminhamentos da erótica em torno do signo feminino.
O ato sexual na narrativa do Kama Sutra nos remete, a todo o momento, a idéia de
manutenção do amor com a vida e com o outro revelando uma forma sublime de libertação da
alma. Assim, percorremos através da literatura esses elementos que outorgam a mulher como
senhora da vida, uma vez que, é através da penetração no Yoni32 que se dá essa aproximação
ao divino.
Nos conjuntos míticos e rituais que revimos a terra é valorizada em primeiro
lugar porque tem uma capacidade infinita de produzir frutos. È por isso, com
o tempo, a Terra-Mãe se transforma insensivelmente numa mãe das
sementes33.
Segundo Mircea Eliade, essa é a representação da mulher com o sagrado, a gestação e
o cuidado é que vão fazer do elemento feminino o grande pilar da mitologia, no nosso caso a
mitologia que envolve a universalidade oriental. As mulheres sob prisma oriental vão se
revelar através de formas arredondadas destacando a sensualidade como forma de
representação.
As deusas como também as mulheres hindus vão revelar essa associação do belo ao
místico como forma de sublimarem a esfera sagrada. Temos que entender que a metafísica das
religiões credita no dualismo simbólico, um significado cultural, mas não no sentido de
superior e inferior e sim por forças complementares de positivo e negativo.
Não estamos querendo dizer aqui, que não existiu divisão de gênero na Índia. Nosso
olhar é a respeito da visualização feminina na narrativa simbólica que compreende o território
32
33
Órgão sexual feminino. Limgam é o masculino, segundo a mitologia hindu.
ELIADE, 1993:211.
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das mitologias, e o elemento feminino enquanto potência simbólica da esfera sagrada sempre
persistiu.
O Sãktismo forma esotérica e extrema do culto, vê na Deusa o momento
eterno de autoconsciência e de liberdade do Absoluto, o aspecto ‘dinâmico’
em oposição ao impassível fulgurar da consciência irrefletida de Siva,
cadáver branco com quem a deusa, nua e negra, é empenhada em copular.
Os Sãktatantra exaltam a sãkti no seu papel de Senhora suprema ao vértice
do panteão indiano, objeto de culto nas suas várias manifestações, das quais
se destaca Kali e Tripurasundari34.
A realidade ocupada pela mulher nesse universo, descrito por Raveri Massimo, nos
indica o caminho a percorrer. A simbologia da Shakti é na verdade a essência do feminino que
vamos perceber em direção ao ecomunitarismo.
Tanto no ecomunitarismo como na premissa simbólica da mitologia oriental, a mulher
faz parte do contexto, ela é peça fundamental no processo. E, a erótica, verifica sua presença
como partícipe dessa relação, que não exclui o masculino em nenhum dos cenários abordados.
A cosmologia hindu irá nos redimensionar a todo o momento que, entrando em contato com o
Brahman, sem olhares preconceituosos, a fusão entre masculino e feminino no âmbito
simbólico, conferem uma ação consensual entre os indivíduos que estabelecem vínculo. A
erótica apóia-se no feminino e no masculino como manifestação da (re) ligação entre caos e
cosmos.
Em suma, a partir desse entendimento acerca das forças que regem e manipulam o
universo oriental é que poderemos conhecer verdadeiramente a essência do feminino em sua
face simbólica e arquetípica que está disposta na mitologia e no ecomunitarismo. Pois,
percebe no feminino um ser sem distinção. Na mitologia ela é a representação da Shakti; no
ecomunitarismo ela faz parte da liberdade consensual, onde não está submetida aos princípios
patriarcais. E chamamos Jung para o diálogo, para conferir o signo feminino (relação animusanima) dentro do individuo que dele primar, sendo ele homem ou mulher, entendendo que
feminino não é sinônimo de mulher, abarcando a experiência homoerótica que abarca o
ecomunitarismo.
Considerações finais
34
MASSIMO, 2005:80.
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São potencialidades outorgadas às mulheres a representação simbólica ao redor da
fertilidade. As nuanças deliberadas pela análise nos autorizam fazer essas relações.
A mulher enquanto portadora do signo da fertilidade – tanto no território das deidades
quanto no cotidiano – faz emergir a sensualidade, proposta pela mitologia oriental, da sua
gênese ancestral. Estabelecendo essas associações fica mais compreensível refletir em torno
das lições que estão justapostas nas entrelinhas da erótica dentro também do contexto
ecomunitarista.
Desde o início estamos enfatizando a importância das representações simbólicas, que
nos impulsionam a crer que o estabelecimento do signo feminino atrelado à fusão dos corpos
entrelaçados promove a sublimação do ser à idéia de erótica pertencente a si mesmo. Assim, a
essência da pulsão libidinal, que compreende essa atmosfera, nos revela sua primordial lição:
“o amor à vida e a consensualidade entre os sexos”.
O ato de transmigração da alma a patamares elevados cuja atividade yoguica se
fundamenta através do ato sexual nos remete ao princípio da vida. A samsãra35 somente
acontece do fruto de Purusha36 e Prakriti, sendo assim os arquétipos feminino e masculino
constituintes do ser (Ishvara37), segundo a mitologia hindu.
A dança cósmica das Shaktis nos ensina muito a compreender o verdadeiro sentido do
envolvimento erótico entre ambos os sexos e, revelou também o papel da mulher nessa esfera.
Porque nos fez refletir acerca do signo que se dá de várias formas, por diversas
representações. Às vezes são sonhadas outras vezes são físicas, no caso da Índia são
metafísicas, e no ecomunitarismo são utópicas. O importante é destacar que estas
representações simbólicas denotam o sentido da samsãra impingindo na erótica esse caráter
universal.
Aprendemos com a abordagem do Ecomunitarismo e do misticismo oriental que
erótica e sexo não são opostos que se repudiam, mas sim, sinônimos que se completam.
Verificamos que, no oriente vislumbra-se uma totalidade cósmica que imprime na relação
homem/mulher, masculino/feminino uma igualdade de potências (RUETHER, 1993: 65). E
nas normas da ética argumentativa uma liberdade consensual que preserva o conjunto, sem
distinções entre sexos. E percebendo essas interfaces da cultura que poderemos realizar um
35
Existência.
Princípio masculino.
37
Soberana existência. É o espírito divino no homem, o aspecto de total compreensão da força vital em sua
evolução e penetração do cosmos. É comparável a um bosque ou um oceano que tudo contém. Também se dá o
nome de Ishvara à mônada vital, porque é uma faísca de pura luz divina transcendente, e participa da onipotência
da divina essência.
36
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estudo de gênero que realmente tenha o compromisso de não segregar nenhum sexo, e sim
tecer em conjunto a sua participação na produção de vida saudável no planeta.
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