Português criou um Google Maps para o cérebro

Português criou um Google Maps
para o cérebro
SAMUEL SILVA 19/01/2016 ­ 08:32
Um novo software permite transformar as imagens de ressonâncias
magnéticas em modelos 3D do cérebro, para melhorar os diagnósticos
de doenças neurológicas. A inovação está a ser usada em centros de
investigação em Espanha e nos EUA.
E se a identificação de uma lesão cerebral tivesse coordenadas tão
exactas quanto as que podemos inserir num aparelho de GPS? Isso
permitiria aos médicos fazer diagnósticos mais rigorosos, criando
condições para terapias mais eficazes. É a isso que abre a porta um
software desenvolvido por Paulo Rodrigues, um informático português
de 34 anos. Esta espécie de “Google Maps do cérebro”, como lhe chama o
investigador radicado em Barcelona, gera um mapa 3D do cérebro
humano a partir das imagens produzidas durante exames de ressonância
magnética.
Apesar de todos os avanços que a tecnologia sofreu nos últimos anos, os
médicos não têm capacidade de analisar muita da informação gerada
numa ressonância magnética. As imagens obtidas são planas, a duas
dimensões. Quando chegam às mãos do neurologista será possível dizer
que “há uma lesão nesta ou naquela parte do cérebro”, mas não há uma
capacidade de identificação exaustiva do problema existente. Este é um
órgão “muito mais complexo do que isto, com centenas de milhares de
ligações”, explica Paulo Rodrigues.
Tendo isto em consideração, o que o seu software faz é, a partir das
várias imagens obtidas pela ressonância magnética, gerar um mapa a três
dimensões de todas as ligações nervosas do cérebro. Este modelo em 3D
do cérebro torna­o “mais tangível”. Em vez de uma identificação genérica
da área cerebral em que é detectada uma lesão, o médico pode receber
um diagnóstico mais preciso: “Há uma lesão com estas coordenadas, com
aquele tamanho e determinado volume. Essa lesão faz parte da conexão
do circuito motor, que está afectado a 10%”, exemplifica o engenheiro e
investigador. Ou seja, com esta inovação é possível localizar e quantificar
com exactidão as propriedades do que está errado no cérebro de cada
pessoa.
Foi com neste software que Paulo Rodrigues criou, em Abril de 2013,
uma empresa – a Mint Labs (abreviatura de Medical Inovation and
Technology Laboratories), que funciona em Barcelona, para onde se
tinha mudado para fazer o pós­doutoramento. Apesar de encarar o
serviço prestado como um negócio, o informático português diz, todavia,
que, nesta fase, “não está preocupado em gerar receitas”. A prioridade é
pôr este Google Maps do cérebro ao serviço da ciência.
Para isso, a empresa está a colaborar com vários hospitais em Espanha e
nos Estados Unidos que fazem investigação clínica, como são exemplos
os hospitais universitários Clínic e Bellvitge, na cidade catalã, ou a
Universidade da Califórnia São Francisco, nos EUA. “O que nos interessa
é tentar ajudar os clínicos a descobrir o que se passa com o cérebro
quando tem doenças como a esclerose múltipla, a Parkinson ou a
Alzheimer”, afiança Rodrigues.
Para poder ser usada facilmente por médicos e investigadores, a
plataforma informática da Mint Labs funciona de forma relativamente
simples. Desde logo, não precisa da instalação de qualquer programa
informático para que se torna acessível, servindo­se do browser de
acesso à Internet como interface. Para efectuar o carregamento das
imagens, bastará aos utilizadores arrastar os ficheiros respectivos para o
local indicado, num sistema (drag and drop) muito próximo daquele que
é usado para ferramentas de partilha de ficheiros como o Drop Box, por
exemplo.
A ideia é que fosse possível fazer o processamento das imagens “só com
um clique”, explica Paulo Rodrigues. Na prática, são três os passos
necessários: depois de feito o upload dos ficheiros, o clínico ou
investigador seleciona aquilo que quer saber a partir das imagens
digitalizadas que foram carregadas e, passados uns minutos, recebe um
relatório com a descrição do cérebro do doente.
Tudo funciona através de computação em nuvem. As imagens das
ressonâncias magnéticas carregadas pelos médicos dos centros de
investigação parceiros da empresa são guardadas em servidores da
Google, com quem a Mint Labs tem um acordo para o armazenamento.
Até ao momento, são cerca de 30.000 imagens digitalizadas, que
correspondem a 4000 pessoas que se encontram nestes arquivos. O
objectivo, ambiciona Paulo Rodrigues, é criar na Internet “a maior base
de dados do mundo de imagens cerebrais”.
Com essa informação na mão, será possível desenvolver com um grau de
exactidão cada vez maior um modelo em 3D do cérebro saudável, bem
como estabelecer comparações tendo em conta as alterações que este
órgão sofre quando é afectado por uma determinada doença. A detecção
das doenças neurológicas baseia­se hoje sobretudo em sintomas que
muitas vezes se manifestam num estádio já adiantado da patologia. Este
conhecimento mais rigoroso de todas as ligações que se estabelecem no
cérebro permitirão, por isso, um diagnóstico mais preciso, mas abre
também caminho a diagnósticos mais precoces. “Com isso podem
começar­se novos tratamentos que podem atrasar ou diminuir o avanço
da doença e eventualmente tentar preveni­la”, acredita.
Convencer a indústria
Paulo Rodrigues nasceu em Viana do Castelo e fez a licenciatura em
Engenharia de Sistemas e Informática na Universidade do Minho, em
Braga. Quando terminou o curso, começou a trabalhar como engenheiro
de software na MobiComp, a empresa que Carlos Oliveira, que foi
secretário de Estado do Empreendedorismo no governo anterior, vendeu
à Microsoft em 2008. Antes disso, já tinha saído para retomar os
estudos: foi para a Universidade Técnica de Eindhoven, na Holanda,
fazer o doutoramento sobre visualização e processamento de imagens
médicas. Foi aí que conheceu a macedónia Vesna Prchkovska, que estava
a fazer investigação na mesma área, e que viria a tornar­se a co­
fundadora da Mint Labs.
O projecto só arrancaria definitivamente em 2013, quando Paulo
Rodrigues já tinha mudado novamente de país, para fazer o pós­
doutoramento na Universidade de Barcelona – com um trabalho sobre
neuroimagens em ambiente de realidade virtual. Foi então que se abriu a
possibilidade de lançar a Mint Labs, que foi aceite na aceleradora de
empresas Wayra (ligada ao grupo espanhol Telefónica), dando as
condições para que a firma arrancasse na capital da Catalunha.
Desde então, a Mint Labs tem conseguido um conjunto de prémios em
iniciativas destinadas a start­ups e empresas tecnológicas, o que tem
ajudado a aumentar a sua visibilidade. Isso é, segundo Paulo Rodrigues,
“essencial” para conseguir captar investidores que apoiem esta fase de
consolidação da empresa.
Entre o capital angariado está o da primeira aceleradora de start­ups em
neurociências, Neurolaunch (com sede em Atlanta, nos Estados Unidos),
ou do projecto Grants4Apps, da alemã Bayer. Desde Novembro passado,
a empresa passou também a contar com um apoio que tem ajudado a
abrir muitas portas: Walter Gilbert, prémio Nobel da Química de 1980 e
co­fundador da empresa farmacêutica Biogen. Walter Gilbert tornou­se
um dos investidores da empresa e passou também a ter um lugar como
conselheiro da administração liderada por Paulo Rodrigues.
Por mais que a prioridade seja actualmente a colaboração com centros de
investigação, a Mint Labs – que tem neste momento dez trabalhadores,
mas planeia duplicar a sua dimensão ao longo deste ano – é um negócio,
cujo modelo de desenvolvimento está assente em dois tipos de clientes. O
primeiro é o que se chama software as a service, em que a empresa
cobra pelo armazenamento e processamento das imagens. Mas o grande
objectivo é passar a ter como cliente a indústria farmacêutica, sobretudo
no apoio a ensaios clínicos.
O grau de precisão com que o mapa 3D dos cérebros gerado pelo
software da Mint Labs permite conhecer aquele órgão humano pode ser
útil na caracterização dos doentes para ensaios clínicos, permitindo uma
categorização mais afinada dos participantes. Por outro, abre tornará
possível a avaliações mais objectivas das mudanças que os ensaios
clínicos provocam. Usando o software de Paulo Rodrigues, será possível
“quantificar se há mudanças cérebro, se o número de lesões diminuiu, se
a matéria cinzenta aumentou ou não, se houve degeneração ou se existem
ou não novas conexões”, antecipa Paulo Rodrigues. É com esta
ferramenta, que acredita permitirá perceber melhor se um ensaio clínico
está a ter o efeito pretendido, que o informático e investigador português
espera agora convencer a indústria.
COMENTÁRIOS

Joao
Fantástico. Parabéns. Isso também pode ajudar a seleccionar melhores
políticos? :)
19/01/2016 11:37

José Cid Adão
pobre de espírito espantosamente imaturo
Para isso era preciso um google maps que encontrasse
cérebros :)
19/01/2016 14:03

FFD
Estoril
Boa!
19/01/2016 11:33