ENVELHECIMENTO HUMANO E ANCIANISMO: revisão

Resenha
O melhor cérebro da sua vida.
Segredos e talentos da maturidade
Por Vera Brandão
Bárbara Strauch, jornalista experiente e editora de Ciência
do jornal New York Times, é a autora do livro O melhor
cérebro da sua vida. Segredos e talentos da maturidade,
lançado pela editora Zahar em 2011, que aqui buscamos
resenhar.
Tomamos contato com este lançamento por meio de um
artigo, publicado na revista Época, em julho de 2011, com o
título - Como a idade faz nosso cérebro florescer – dos
jornalistas Marcela Buscato, e colaboração de Bruno
Segadilha e Teresa Perosa.
Sendo as questões relativas à memória – sua aquisição, consolidação, resgate
e resignificação – eixos fortes de nosso trabalho, desde 1992, nossa atenção
foi de imediato despertada pelo tema. Nos trabalhos seja com idosos, seja com
profissionais – com faixas etárias e características sócio-educacionais muito
variáveis - as questões relativas às “perdas” de memória e / ou esquecimentos
sempre surgem.
È intrigante observar que mesmo em adultos jovens aparecem questões
semelhantes aos dos mais idosos – onde pusemos as chaves; os óculos;
aquele livro ou apostila para a aula de hoje; o trabalho a ser entregue; o
compromisso com os amigos; o horário do dentista; e, o pior, o “branco” nas
provas, mesmo tendo estudado a matéria. Para os mais “maduros” o problema
também se apresenta e, com ele, o incipiente medo do declínio da memória
como prenuncio de um futuro aterrador para todos – a demência.
Nos mais jovens esta capacidade de realizar muitas tarefas, simultaneamente,
nos faz parecer que eles são mais distraídos e menos responsáveis, fatores
que se ampliam com o constante acesso e adesão às novidades do mundo da
tecnologia, especialmente, as redes sociais.
A tecnologia tem duas faces: por um lado estimula o cérebro à sempre novas
tarefas, por outro, quando utilizada em excesso pode trazer danos à saúde em
geral e ao convívio social, e atualmente já existem grupos terapêuticos dirigidos
a um publico “viciado” em Internet. O apelo muito forte destes “estímulos”,
associados também ao consumo precoce de álcool, e outras drogas são
indicativos de fatores geradores destes ‘lapsos’ de memória nas idades jovens
e maduras.
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O estresse causado pela competitividade - na escola e no trabalho -, o barulho,
o excessivo número de informações, a necessidade de estar sempre em
evidência, também características do mundo juvenil, se amplia na maturidade
com suas novas, e poderosas, demandas – carreira, necessidade de
atualização constante, compromissos familiares crescentes, problemas
econômicos, etc. - tanto para homens como para mulheres.
Este caminho irregular e repleto de armadilhas nos levaria ao um beco sem
saída – no envelhecimento estes esquecimentos, justificados por estresse e
excesso de demandas nas idades mais jovens, seriam justificados pelas
crescentes perdas – as biológicas naturais pelo passar dos anos; do trabalho;
do lugar social; de pessoas próximas; dos sentidos atribuídos a muitas coisas e
pessoas, um processo no qual a tristeza e a depressão apareceriam como os
primeiros sinais que, para alguns autores, levariam à ante-sala da demência.
A afirmação que o com a idade nosso cérebro pode florescer nos pareceu
interessante e promissora, confirmada pela leitura do artigo e, posteriormente,
do livro. O artigo da revisa Época nos apresenta as idéias principais do livro e
foi o ponto de partida e estímulo para sua posterior leitura.
Neste artigo os autores apresentam a autora e obra:
“Editora de saúde do jornal The New York Times, um dos mais influentes dos
Estados Unidos, Bárbara resolveu investigar o que estava acontecendo com
seu cérebro. Aos 56 anos, estava cansada de passar pela vergonha de
encontrar um conhecido, lembrar o que haviam comido na última vez em que
jantaram juntos, mas não ter a mínima idéia de como se chamava o cidadão.
Queria entender por que se pegava parada em frente a um armário sem saber
o que tinha ido buscar. Bárbara não entendia como o mesmo cérebro que lhe
causava lapsos de memória tão evidentes decidira, nos últimos tempos,
presenteá-la com habilidades de raciocínio igualmente surpreendentes. Ela
sentia que, simplesmente, “sabia das coisas”, mas, ao mesmo tempo, se
exasperava com a quantidade imensa de nomes e referências que pareciam
estar sumindo na neblina da memória. Como pode ser? ”
No artigo encontra-se uma afirmação que todos queremos escutar, nas
palavras da autora: “Conforme envelhecemos, o cérebro se reorganiza e passa
a agir e pensar de maneira diferente. Essa reestruturação nos torna mais
inteligentes, calmos e felizes”.
Podemos, incrédulos, indagar: - Será?
Mas, as pesquisas realizadas em importantes centros de estudo, referências
para o livro, são a comprovação de que a sofisticação dos exames de
ressonância magnética tornou possível observar o cérebro em ação. Assim, os
estudiosos descobriram que existe um desgaste natural das células nervosas,
mas ele está localizado e circunscrito, causando um dano menor do se
imaginava.
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Baseada em inúmeras pesquisas bem documentadas ao longo do livro, a
autora nos indica uma série de questões, entre as quais se destacam:
Por que alguns cérebros envelhecem bem e outros não?
É possível definirmos com mais exatidão o envelhecimento normal, em
contraste com a verdadeira patologia, como o mal de Alzheimer?
Poderemos descobrir o que responde pela diferença?
Será que se trata de algo inato, ou as estratégias adaptativas podem
funcionar?
È evidente que não existem ainda respostas para todas elas, mas há indícios
positivos para a continuidade destes estudos, e uma visão renovada sobre o
envelhecimento cerebral e suas consequências. A autora nos leva, então, pelos
caminhos das descobertas já realizadas, e seus possíveis desdobramentos,
que indicam que o cérebro da meia idade – situada, flexivelmente, entre 40 e
68 anos - “passa por cima da confusão e vai direto ao encontro das soluções
[...] mantém a serenidade; adapta-se”.
Segundo ela os estudos também mostram que o cérebro da meia idade é
usado de um modo diferente, utilizando as experiências vividas como base
para a resolução de problemas, denominada pelas cientistas de “expertise
cognitiva”. O cérebro apresenta sim perdas, e seu funcionamento é mais lento,
mas em estudo comparativo, entre grupos mais jovens e idosos, ficou claro que
a rapidez das respostas nos jovens ficou equilibrada e, às vezes, suplantada
pela amplitude das respostas dos idosos. Mais lentos, porém com uma
privilegiada visão do panorama geral, o que forneceu melhores soluções.
É possível verificar que o desenvolvimento cerebral não é apenas biológico, e
recebe grande influência dos fatores externos – o contexto social e as
emoções.
Segundo Milkels, da Universidade Cornell, existe uma visão mais positiva da
vida no envelhecimento, e que é uma função do cérebro, pois “a capacidade de
regular emoções aumenta com a idade”. A força das emoções na constituição
das memórias, e suas habilidades de modulação, também são destacadas nos
estudos realizados pelo neurobiólogo brasileiro Ivan Izquierdo, acessíveis em
suas muitas publicações.
Os estudos apresentados ao longo do livro indicam resultados promissores por
terem sido realizados com grupos grandes de indivíduos de ambos os sexos e
acompanhados por décadas.
Esta “sabedoria” demonstrada pelos mais idosos, considerada por muitos como
de senso comum, tem hoje uma base sólida trazida pela descobertas
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científicas, que indicam existir “origens biológicas da sabedoria trazida pela
maturidade”.
De modo acessível e claro a reportagem da revista Época, indica que:
“Os cientistas descobriram que a facilidade para raciocínios complexos pode
ser explicada por mudanças físicas no cérebro. A camada de mielina, um tipo
de gordura que reveste as células nervosas, faz com que as informações
viagem mais rápido, aumenta progressivamente com o passar dos anos e
atinge seu pico por volta dos 50 anos.
“No começo da vida, os circuitos motores e os encarregados pela fala recebem
a maior parte da mielina”, diz o neurologista George Bartzokis, pesquisador da
Universidade da Califórnia, responsável pela descoberta. “À medida que
envelhecemos, os circuitos que permitem analisar contextos, e que nos fazem
ficar mais espertos, são os que recebem mais mielina.”
Existem também pesquisas que indicam que os mais maduros utilizam os dois
hemisférios cerebrais para realizar algumas atividades, em comparação com os
mais jovens, mas não existem ainda comprovações científicas a este respeito.
Os pesquisadores levantam duas hipóteses:
“A primeira, menos agradável, é que o cérebro esteja ficando velho a ponto de
não reconhecer mais as áreas encarregadas de cada atividade. A segunda
hipótese é mais reconfortante: o cérebro pode, sim, estar ficando velho. Mas,
ao redirecionar funções para áreas diferentes e para mais regiões, dá mostras
de que é capaz de se adaptar e manter seu bom funcionamento”.
A autora do livro aborda também alguns “mitos” relativos ao sofrimento, solidão
e perdas na denominada “crise da meia idade” – que é recorrente uma crise
psicológica grave; que a consciência da mortalidade leva o indivíduo aos
sentimentos de medo e depressão; que a perda da potência e beleza é sempre
vista com profundo desgosto, além da famosa crise do “ninho vazio”.
Estes fatos acontecem? Sabemos que sim, para alguns indivíduos, mas não se
pode generalizar e transformar estes “mitos” em verdades, já que segundo
Carstensen, pesquisadora da Universidade de Stanford, “não há nenhuma,
absolutamente nenhuma comprovação empírica de uma crise da meia idade”.
Nas suas entrevistas a autora obteve respostas que mostravam que nesta fase
da vida havia espaço para novas atividades e descobertas – um “novo” tempo.
Finalizando esta resenha trazemos ainda um interessante trecho, baseado no
livro, e extraído da reportagem da revista Época:
“O cérebro de meia-idade pode ganhar habilidades surpreendentes conforme
envelhecemos, mas isso não acontece com todos. Os cientistas perceberam
que só os adultos que sempre tiveram hábitos saudáveis, e vida intelectual
ativa, apresentaram a superativação. Há indícios de que a prática frequente de
exercícios físicos promove o nascimento de novos neurônios em uma região do
cérebro associada à memória”.
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E atividades que desafiam o cérebro, como aprender uma nova língua ou até
mesmo exercícios de memória, evitam que áreas do cérebro “enferrugem”. É
como se essas atividades criassem uma reserva de neurônios que pode ser
usada pelo cérebro quando ele entra em declínio. “Se a pessoa conseguiu criar
uma boa reserva, é provável que tenha mais mecanismos para suprir
deficiências causadas pelo envelhecimento”, diz o neurologista Ivan Okamoto,
pesquisador do Instituto da Memória da Universidade Federal de São Paulo”.
Bárbara Strauch afirma que não pretende, neste livro, apontar para um tempo
sem problemas e “cor-de-rosa” para o cérebro, que comanda nossas vidas,
mas busca apresentar as novas indicações trazidas pelas pesquisas científicas
sobre o “cérebro da meia idade”, respaldada também pelos depoimentos de
seus inúmeros entrevistados.
As reflexões trazidas pelas leituras indicam que existem perdas, mas que o
envelhecimento cerebral não se dá de modo uniforme – e assim, como sempre
afirmamos, não podemos realizar generalizações á respeito desta fase da vida
marcada pela individualidade e subjetividades pessoais. Existem, no entanto,
indícios positivos para um longeviver física e emocionalmente mais saudáveis,
com indicações interessantes de como construir e conservar “uma reserva
cognitiva” na qual possamos encontrar as soluções mais adequadas ante os
desafios cotidianos da “meia idade” e, também, nas idades mais avançadas.
Saiba mais
Como a idade faz nosso cérebro florescer. Marcela Buscato, Bruno Segadilha e
Teresa Perosa. Revista Época de 01/07/2011. Disponível em:
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI245598-15257,00COMO+A+IDADE+FAZ+NOSSO+CEREBRO+FLORESCER.html.
Acessado
em 07/10/2011.
Os hábitos que fazem bem ao cérebro. O que você pode fazer para manter a
habilidade de raciocínio em alta durante a vida toda. Teresa Perosa. Revista
Época de 01/07/2011. Disponível em:
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI245672-15257,00OS+HABITOS+QUE+FAZEM+BEM+AO+CEREBRO.html. Acessado em 07/09/
2011
Médicos dão dicas para melhorar a Memória. Jornal Hoje (Globo) g1.com.br/jornalhoje. Disponível em:
http://www.youtube.com/watch?v=E-T1Yt7A30o&feature=relatedeja. Acessado
em 05/09/2011
Espaço Aberto Ciência e Tecnologia. A jornalista Sandra Coutinho entrevista
Bárbara Strauch, autora do livro O Melhor Cérebro de Sua Vida. Exibido em
29/08/2011.
http://g1.globo.com/platb/globo-news-espaco-aberto-ciencia-etecnologia/2011/08/29/o-melhor-cerebro-da-sua-vida/.
Acessado
em
12/10/2011.
Houzel- Herculano, S. Fique de bem com seu cérebro. Rio de Janeiro:
Sextante, 2007.
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Izquierdo, I. Questões sobre memória. São Leopoldo. RS: Unisinos, 2004.
__________A arte de esquecer. Cérebro, memória e esquecimento. Rio de
Janeiro: Vieira&Lent, 2004.
Katz, L.C; Rubin, M. Mantenha seu cérebro vivo. Rio de Janeiro: Sextante,
2000.
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Vera Brandão - Pedagoga (USP). Mestre e Doutora em Ciências Sociais Antropologia pela PUC/SP. Pesquisadora do Núcleo de Estudo e Pesquisa do
Envelhecimento (NEPE) do Programa de Estudos Pós-Graduados em
Gerontologia da PUC/SP. Docente do Cogeae - PUC/SP. Pesquisadora do
Grupo de Estudos e Pesquisas Interdisciplinares (GEPI) do Programa de
Estudos Pós-Graduados em Educação/Currículo (PUC/SP). Idealizadora e
docente da Oficina: Memória Autobiográfica – Teoria e Prática. Editora
assistente da Revista Kairós. Pesquisadora mentora do Portal do
Envelhecimento.
Editora
da
Revista
Portal
de
Divulgação.
www.portaldoenvelhecimento.org.br . Membro da Equipe fundadora do OLHE –
Observatório
da
Longevidade
Humana
e
Envelhecimento.
http://www.olhe.org.br . Membro da Equipe fundadora do Ger.Ações - Pesquisa
e
Ações
em
Gerontologia.
www.gerações.org.br.E-mail:
[email protected].
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