a era dos sonhos frustrados

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UMA
HISTORIA
ILUSTRADA
DO CRISTIANISMO
VOL. 5
A ERA DOS
SONHOS FRUSTRADOS
JUSTO L. GONZALEZ
E até aos confins da terra:
uma história ilustrado do
cristianismo
A era dos
sonhos frustrados
volume 5
Justo L. González
E até aos confins
da Terra:
Uma história ilustrada
do Cristianismo
VOLUME 5
A era dos
sonhos frustrados
c 1994 de Justo L. González
Título do original: Y hasta lo último de la tierra:
Una Historia Ilustrada del Cristianismo
Tomo 5 - La Era de los Sueiios Frustrados
1~edição: 1981
Reimpressões: 1986, 1989, 1993, 1997,
1999,2000, 2001
Publicado no Brasil com a devida autorização
e com todos os direitos reservados por
SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA,
Caixa Postal 21486, São Paulo-SP
04602-970
Proibida a reprodução por quaisquer
meios (mecânicos, eletrônicos, xerográficos,
fotográficos, gravação, estocagem em banco de
dados, etc.), a não ser em citações breves
com indicação de fonte.
Capa: O triunfo da morte, quadro de Brughel,
cortesia do Museu do Prado, Madri, Espanha
Printed in Brazil / Impresso no Brasil
Dados internacionais de catalogação na publicação
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
(CIP)
González, Justo L.
E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do
Cristianismo / Justo L. González; I Hans Udo Fuchs]. São Paulo: Vida Nova, 1995.
Título original: Y hasta lo último de la tierra: una
história ilustrada dei cristianismo.
Conteúdo: v. I. A era dos mártires - v. 2. A era dos
gigantes - v. 3. A era das trevas - v. 4. A era dos altos
ideais - v. 5. A era dos sonhos frustrados - v. 6. A era dos
reformadores - v. 7. A era dos conquistadores - v. 8. A era
dos dogmas e das dúvidas - v. 9. A era dos novos horizontesv. lO. A era inconclusa.
tSBN85-275-0215-1
(obra completa)
I. Igreja - História 1. Título
95-2793
CDD-270
Índices para catálogo sistemático
I. Cristianismo:
História da Igreja
270
Dedicatória
Ao meu tio José Maria González,
incansável caçador dos
crimes contra o bom falar,
em gratidão por
ter feito dos meus manuscritos
o seu campo de caça.
-Indice
I.
II.
III.
VI.
V.
Lista de ilustrações. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. IX
Prefácio
1
Cronologia .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 3
As novas cond ições . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
A peste e suas conseqüências
11
A aliança entre a burguesia e a coroa
18
O nacionalismo
19
A guerra dos cem anos .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 20
O papado sob a sombra da França
35
Bonifácio VIII e Filipe, o Belo
35
O papado em Avignon
44
Santa Catarina de Siena
50
A vida eclesiástica. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 54
O Grande Cisma do Ocidente
57
A reforma conciliar
65
A teoria conciliar
66
O concflio de Pisa
68
Os três papas
71
O concflio de Constança
74
O triunfo do papado. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 76
João Wycliff
81
Vida e obra de Wycliff
82
Suas doutrinas
85
Os lolardos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 89
VIII / A era dos sonhos frustrados
VI.
João Huss
93
Vida e obra de João Huss
95
Huss diante do concílio
99
Os hussitas ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 102
VII. Os movimentos populares
" 109
Beguinas e begardos " . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 114
Os flagelantes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 116
Os taboritas
118
Hans Bõhrn
" 119
VIII. A alternativa m (stica
123
IX. A teologia acadêmica
129
X. O renascimento e o humanismo
135
A Itália nos séculos XIV e XV
136
O despertar das letras clássicas .. . . . . . . . . . . . .. 138
A nova visão da realidade. . . . . . . . . . . . . . . . . .. 144
Os papas do renascimento
147
A reforma humanista: Erasmo de Roterdã
152
XI. Jerônimo Savonarola
157
XII. O fim do Império Bizantino
167
Lista de ilustracões
.
1-2.
3.
4.
5.
6.
7.
8.
9.
10.
11.
12.
13.
14.
15.
16.
17.
18.
19.
20.
21.
22.
23.
24.
Peregrinos
13-14
Relicário do século XV . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 15
Dança macabra
',' . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 16
No leito de morte . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 16
Os dois caminhos da vida . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 17
Jesus Cristo, juiz supremo
18
Quadro: A sucessãoao trono da França
21
Mapa: A França durante a guerra dos cem anos
22
Joana d' Arc
29
A coroação de Reims
31
O papado de Avignon
49
Santa Catarina de Siena
51
Bodas m (sticas de Santa Catarina . . . . . . . . . . . . .. 52
O concflio de João XXIII em Roma
,
73
A cidade de Constança . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 75
João Wycliff
, 82
A igreja paroquial de Lutterworth
84
Wycliff envia os lolardos
88
A perseguição dos lolardos
,.. 90
Praga no século XV
94
A morte de João Huss
103
A comunidade do Monte Tabor
104
A devolução do cálice aos leigos
106
x / A era dos sonhos frustrados.
25.
26.
27.
28.
29.
30.
31.
32.
33.
34.
35.
36.
37.
38.
39.
40.
41.
42.
43.
João Am6s Come no
, 107
A fortaleza da fé . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 112
Beguinage de Bruxelas
115
Flagelantes
117
O anticristo
119
Manuscrito grego do evangelho de Lucas
138
A imprensa
139
Bfblia de Gutenberg
, 140
Biblioteca da universidade de Leyden
, 141
Encadernadores
143
"Davi", de Miguelângelo
" 145
Leonardo da Vinci
147
Basflica de São Pedro. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 152
Erasmo de Roterdã. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 154
Savonarola em seu escritório
159
Savonarola pregando
161
Visão de Savonarola
, 163
Guerreiro otomano
, 169
Maomé II entra em Constantinopla
171
Prefácio
Este livro conta sua própria história, e por isto há pouco
a dizer à guisa de apresentação. Basta assinalar que o período
narrado aqui inclui os anos imediatamente anteriores à Reforma
protestante, e que por isto seu conhecimento é importante
para compreender completamente esta reforma.
Além disto gostar(amos de advertir o leitor que, por razões
de ordem lógica, nem sempre apresentamos os acontecimentos
em sua ordem estritamente cronológica. Por exemplo: no primeiro capftulo, quando falamos da guerra dos cem anos, cobrimos quase todo o per(odo, para logo depois voltar atrás e narrar
outros acontecimentos. Da mesma forma a discussão da reforma
conciliar que seguiu ao Grande Cisma nos obrigou a estudar
Wycliff e Huss depois de terminar a história dos concflios. Por
isto convidamos o leitor a fazer uso constante da cronologia
que aparece no infcio deste volume. Desta maneira ele poderá
ver a relação e a ordem no tempo de diversos acontecimentos
que no texto são narrados separadamente.
Por último convidamo-lo a que, ao ler as páginas que seguem, o faça no mesmo esp írito com que foram escritas: com
2 / A era dos sonhos frustrados
a prece de que o Senhor da história nos fale através dela, e nos
chame a ocupar nosso lugar nela.
J. L. G.
15 de agosto de 1978
Cronologia
Advertências preliminares:
1. Como assinalamos no Prefácio, neste volume nos vimos
obrigados a deixar de lado a ordem cronológica mais que nos
anteriores. Por isto sugerimos ao leitor que, no processo de sua
leitura, acuda repetidamente à presente cronologia.
2. Na lista de papas pusemos, sem outro comentário, os
que os papas posteriores consideraram legítimos. Os "antipapas" de Avignon estão assinalados com a abreviatura Av., e os
de Pisa com P.
3. Dadas as novas circunstâncias pol íticas, em vez de oferecer listas dos imperadores do Oriente e do Ocidente, como
nos volumes anteriores, preferimos dar uma relação dos reis da
França e da Inglaterra.
4 / A era dos sonhos frustrados
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As novas
condições
E melhor evitar os pecados que fugir
da morte. Se hoje não estás pronto,
como estarás amanhã? O amanhã é
incerto; como sabes que viverás
até lá? De que serve viver muitos
dias, se nossa vida não melhora?
Kempis
No século XIII, como vimos no volume anterior, pareciam
estar se cumprindo
os mais elevados ideais da cristandade
medieval. Na pessoa de Inocêncio"
I o papado chegou à plenituce do seu poder, enquanto
as ordens mendicantes
se empenhavam em conquistar
o resto do mundo para Cristo, e nas
universidades eram construídas
grandes catedrais do pensamento teológico. Pelo menos em teoria, a Europa estava unida sob
um cabeça espiritual,
o papa, e outro temporal,
o imperador.
Durante boa parte deste século, enquanto os cruzados ocidentais reinaram
em Constantinopla,
aparentemente
as igrejas
latina e grega finalmente se tinham reunificado.
rv!as em meio a todos estes elementos de unidade, à primeira vista inquebrantáveis,
existiam tensões e pontos fracos, que
mais tarde derrubariam
o grande edifício que a cristandade
medieval tinha constru íco com seus ideais elevados. /\ união
com a igreja greya era somente aparente, pois sol; a superfície
fervia o ressentimento
de um povo que se sentia oprimido
por invasores estrangeiros.
Por isto assim que os bizantinos
cunseguiram
reconquistar
sua capital eles cancelaram
todos
10 / A era dos sonhos frustrados
os acordos que os patriarcas latinos de Constantinopla tinham
feito com a igreja ocidental. A unidade pol (tica da Europa era
mais fictfcia que real, pois os imperadores fora da Alemanha
tinham uma autoridade somente nominal, e mesmo em seu
próprio pafs se viam obrigados a lutar quase constantemente
contra os nobres rebeldes. Os grandes sistemas escolásticos do
século XIII também traziam dentro de si os germes da sua
própria destruição, como veremos mais adiante no presente
volume. A arquitetura gótica, feito supremo da civilização
medieval, logo se dedicou à ornamentação excessiva que é
caracterfstica de qualquer arte em decadência.
O papado não estava isento das mesmas forças de destruição. Através de toda a "era dos ideais elevados" tinha existido
uma tensão quase constante entre o papado e o império, pois
os limites da autoridade de cada um dos poderes não podiam
ser fixados com exatidão. Na própria cidade de Roma, onde
os papas supostamente reinavam como soberanos, o papado
foi joguete freqüente das ambições dos poderosos, ou dos
caprichos do povo. O esp(rito republicano, que se fortalecera
no norte da Itália, se fizera sentir em Roma. Dadas todas estas
circunstâncias, foram muitas as ocasiões em que os papas se
viram obrigados a ir ao ex ílio, ou a se refugiar em algum dos
castelos fora da cidade, ou a apelar para o imperador contra
os republicanos, ou ao povo contra os nobres, ou para os
normandos para contrabalançar as ameaças do Império.
Mas apesar de tudo isto, durante o século XIII o papado
teve o respeito da Europa. Quando cara em circunstâncias
tristes a cristandade ficava comovida, e por isto os que o oprimiam se viam obrigados a agir com moderação. Como aprenderam por experiência própria os nobres italianos, os imperadores
e os republicanos romanos, um papa cativo ainda era um inimigo tem (vel.
No per(odo que estudamos agora estas circunstâncias
mudaram. A triste história da decadência do papado, que
ocupa boa parte do presente volume, teve por conseqüência
que a cristandade ocidental perdeu o respeito pelo papa. O
grande sonho de Inocêncio III de um povo cristão unido sob
um só pastor tinha sido frustrado muitos anos antes de Lutero
começar a reforma protestante.
As novas condições / 11
Contra a corrupção
do papado e da igreja em geral surgiram diversos movimentos de reforma. Alguns deles se ocupavam
quase que exclusivamente
da prática da vida cristã, enquanto
outros
atacavam
as doutrinas
que se tinham desenvolvido
durante os séculos anteriores. Alguns eram dirigidos por eruditos e pregadores,
outros tinham raízes mais populares.
Estes
movimentos
de reforma também ocuparão boa parte da nossa
atenção.
Mas antes de passar a narrar toda esta história convém que
nos detenhamos
para descrever um pouco o pano de fundo de
todos estes acontecimentos.
A peste e suas conseqüências
A economia
européia, que antes estivera em expansão,
estancou
em princfpios
do século XIV, e em meados deste
século começou a declinar. Isto era causado pela instabilidade
pol ítica, o fim das cruzadas e a decadência
da agricultura.
IVlas a causa principal foi a epidemia de peste bubónica
que
açoitou repeticamente
a Europa ocidental
a partir de 1347.
t....
peste bubónica é propagada principalmente
por pulgas
que, depois de picar ratos infeccionados,
a transmitem
aos
seres humanos. Perto do fim do século XIII, quando os genoveses conseguiram
derrotar
os marroquinos
e abrir o estreito
de Gibraltar à navegação, o contato entre o norte da Europa
e as costas do Mediterrâneo
foi se estreitando
cada vez mais.
A navegação tinha sido muito melhorada neste mesmo século,
e por isto, mesmo no inverno, constantemente
havia barcos
procedentes
do Mediterrâneo
nos portos do Atlântico.
Isto
contribuiu
para difundir
a população
de ratos negros, que
são os por.tadores da terrível enfermidade.
Além disto a prosperidade econômica
do século XIII tinha levado a um grande
aumento da população,
de modo que restavam poucos lugares
isolados na Europa ocidental.
Quando a praga apareceu nas
costas do Mar Negro e no sul da Itália, encontrou
condições
ótimas para sua propagação.
Em três anos ela varreu o continente europeu, e calcula-se que uma terça parte da população
morreu.
Depois desta terrível mortandade
a epidemia amainou, embora voltando
repetidamente,
com menos virulência,
12 / A era dos sonhos frustrados
a cada dez ou doze anos. Em cada uma destas novas irrupções
e enfermidade
atacava principalmente
a geração mais jovem,
que não ficara imunizada
pela epidemia anterior,
e por isto
a Europa levou dois séculos para voltar a estabelecer um equiIíbrio demográfico.
As conseqüências
da praga foram enormes, tanto no aspecto econômico
quanto
no aspecto religioso. No econômico
a
epidemia
afetou diversas regiões de diferentes
maneiras. Em
alguns lugares a falta de mão de obra aumentou
o preço dos
produtos
manufaturados.
Em outros a falta de compradores
produziu
um excesso de produção,
com desemprego
como
conseqüência.
Mas no final das contas o que surgiu foi um
desequil (brio econômico
que se manifestou
numa instabilidade pol ítica nunca vista. Nos arredores de Paris, na Inglaterra
e em Flandres houve revoltas populares.
Em alguns casos,
como em Flandres,
estas revoltas conseguiram
firmar pé, e
foi necessário a intervenção de todo o poderio Ga coroa francesa
para sufocá-Ias, depois de civersos anos de lutas. Nas principais
cidades manufatoras,
por causa da retração do mercado, os
mestres artesãos tentaram evitar que os aprendizes chegassem
a ser mestres, e competissem
com eles. O resultado foi uma
tensão cada vez maior entre mestres e aprendizes
ou jornaleiros, que levou os dois grupos a se organizarem
para proteger
seus interesses.
As greves ficaram cada vez mais freqüentes.
Em termos
gerais a produção
diminuiu,
e aumentaram
os
preços e as exigências feitas aos trabalhadores.
No aspecto
religioso a peste também
teve profundas
conseqüências.
Por causa do caráter da enfermidade,
que freqüentemente
parecia atacar de repente pessoas perfeitamente
sãs e matá-Ias em poucas horas, começou-se a duvidar do universo racional e ordenado
que os escolásticos
tinham concebido. Entre os intelectuais
alastrou-se
a opinião que no fim
das contas o universo não é racional, e eles começaram a duvidar
cada vez mais da capacidade
da mente humana de penetrar
nos mistérios da existência. Entre o povo menos culto aumentou a superstição,
que sempre tinha existido. Como dissemos
anteriormente,
vários "gigantes" do século IV se tinham oposto
ao auge que as peregrinações
alcançaram em sua época. Agora,
mil anos mais tarde, estas peregrinações
eram uma das mani-
As novas condições
Os ricos partiam
para lUf}ares tradicionais
de peregrinação:
/ 13
Terra Santa,
Roma e Compostela.
festações religiosas mais populares. Os ricos partiam para os
lugares tradicionais de peregrinação: Terra Santa, Roma e Compostela. Os pobres acudiam a santuários mais próximos, cuja
eficácia era considerada grande, mesmo que não igual à dos
três lu~ares mencionados. Da mesma forma aumentou o culto
às rei íquias, que fora abrindo caminho através de toda a Idade
Média. Logo, as superstições contra as quais protestaram os
reformadores do século XVI, se bem que tinham raízes que em
muitos casos remontavam a mais de mil anos atrás, tinham se
tornado exageradas e especialmente comuns a partir de meados
do século XIV.
Outra conseqüência da praga foi uma grande preocupação
com o tema da morte. Como até mesmo os mais jovens - e
particularmente eles nas epidemias posteriores - podiam morrer
14 / A era dos sonhos frustrados
Os qU6 possutern menos meios acorriam a santUlÍrios mais próximos,
cuja
eficácia, mesmo nio sendo igUBI li de Jerusalém ou Compostela, era conslaerea« grande.
inesperadamente, toda a vida era vista à luz desta possibilidade.
A morte era o acompanhante secreto e constante de todo ser
humano, disposta a reclamá-lo a qualquer momento e a levá-lo,
ou à pátria celestial, ou ao castigo eterno. Quando um enfermo
agonizava, anjos e demônios disputavam a alma do moribundo,
e a função da igreja e dos seus ministros consistia em facilitar
a vitória dos anjos. A morte, pois, e seu triunfo aparentemente
universal, passaram a ser temas constantes na literatura e na arte, onde freqüentemente era representada festejando sua vitória.
Pelas mesmas razões, e estreitamente
unida com este
interesse na morte, começou a surgir a idéia de que Jesus Cristo
era mais juiz do que redentor. A ira de Deus, aparentemente
As novas condições / 15
Em luxuosos relicários como este, do século XV, erem conser .•• dBs e .•• neredes as rel'-quias dos santos, 8utlnticos ou nêo.
16 / A era dos sonhos frustrados
A dança meceor«, um dos temas mais comuns na arte da époCtl, nio era
somente ume referêncie li inevitebilídede de morte, mes tsmbem a ume
Enquanto o moribundo jaz em seu leito e a morte bate na porta, os demônios tentam arrebatar sua alma e estorvar os ministros da igreja, e os
anjos velam também pela alma do moribundo.
As novas condições / 17
A morte
é o mestre implsClÍV81 qUB mostre eo jOV8m os dois caminhos que
ele pode trither
ne vids.
presente nesta vida na epidemia e na fome, seria manifestada
de maneira especial no ju ízo final, quando Jesus Cristo, sentado
sobre o arco-íris, julgaria toda a humanidade.
E neste ju ízo
não haveria nenhuma palavra de perdão, a não ser para os que
nesta vida o mereceram por causa das suas boas obras e de seu
uso dos meios da graça.
Por último convém assinalar que a peste contribuiu
para
aumentar a inimizade entre cristãos e judeus. Entre os cristãos
pensava-se que as bruxas eram em parte culpadas pela peste,
enfermando
seus inimigos com suas maldades. Com este argumento perseguiram
mulheres
inocentes,
a quem davam este
tftulo. Perseguiram
também os gatos, que diziam ser amigos
das bruxas. Por causa disto aumentou
a população dos ratos.
Já que tudo isto não acontecia entre os judeus, os casos de peste
18 / A era dos sonhos frustrados
Começou-se a pensar em Jesus Cristo mais como juiz que corno redentor.
eram menos freqüentes entre eles. A conseqüência
foi que eles
foram acusados de envenenar os poços onde os cristãos bebiam,
e em represália a isto houve terríveis matanças.
A aliança entre a burguesia e a coroa
Além da peste bubónica
outros
fatores
contribu (rarn
para as condições sociais e pol íticas dos séculos que estamos
estudando,
o XIV e o XV. O principal destes provavelmente
foi a aliança entre a alta burguesia e a coroa. Nos dois séculos
anteriores
a economia
manufatureira
e mercantil
apresentara
um progresso
considerável.
Para mantê-lo
difundiram-se
os
sistemas de crédito, e como conseqüência
as casas bancárias
se enriqueceram.
Como a indústria manufatureira,
o comércio
e os bancos estavam em mãos da alta burguesia, esta nova
classe, que surgira com o desenvolvimento
das cidades, era a
mais beneficiada
com estas atividades. Seus interesses se opunham aos dos grandes senhores do sistema feudal. As pequenas
As novas condições / 19
guerras entre senhores vizinhos, os impostos que cada nobre
impunha sobre os produtos
que passavam por seus territórios, e o sonho dos grandes barões de criar unidades autosuficientes,
atuavam em preju (zo do comércio.
Do ponto de
vista da alta burguesia um governo centralizado
e forte, que
protegesse
o comércio,
erradicasse
o banditismo,
regulamentasse a moeda e evitasse as constantes
guerras entre pequenos
vizinhos era altamente desejável. Por isto esta classe deu apoio
decidido aos esforços por parte dos reis de limitar o poder da
nobreza.
Os reis também
recebiam
benefícios
com esta aliança.
O único meio eficaz de fazer valer a sua autoridade
era ter
um exército permanente,
sob as ordens da coroa, que pudesse
agir de maneira
rápida e eficiente contra qualquer
rebelde.
Isto custava dinheiro.
A maior parte das terras estava nas
mãos dos nobres, que usavam este recurso para levantar exércitos próprios,
de acordo com a necessidade
do momento.
Mas a coroa não podia exigir destes nobres que mantivessem
um exército permanente.
Pelo menos não podia fazê-lo enquanto a autoridade
da coroa sobre a nobreza não estivesse firmemente estabelecida.
Nestas circunstâncias,
os reis tinham de
recorrer
à burguesia,
cujo apoio econômico
lhes permitia
manter os exércitos de que precisassem.
o nacionalismo
Este processo deu origem aos estados modernos. A França
e a Inglaterra,
junto com os países escandinavos,
foram os
primeiros que se uniram sob monarquias
relativamente
fortes.
A Espanha só chegou a este ponto no fim do período que
estamos estudando,
pois a unidade nacional só foi alcançada
com o casamento
de Isabel e Fernando.
Portugal era uma
monarquia
no início deste período,
mas através de todo ele
a coroa foi aumentando
seu poder em relação aos nobres.
A Alemanha
e a Itália chegaram à unidade nacional somente
muito tempo depois.
Isto, por sua vez, deu origem a um crescente sentimento
nacionalista.
Nos séculos anteriores
a maior parte do povo
europeu se sentia cidadã de algum pequeno condado ou burgo.
20 / A era dos sonhos frustrados
IVias agora começava-se
a falar de uma nação francesa, por
exemplo, e os habitantes
desta nação começaram a evidenciar
que estavam pcssu ídos de certo espírito nacional. Isto sucedeu
também em países que não se encontravam
unidos sob uma
monarquia
florescente.
Em fins do século XIII várias municipalicades
alpinas se rebelaram
e fundaram
a Confederação
Helvética, que foi crescendo
através de todo o século XIV,
derrotandc
repetidamente
os exércitos
que os imperadores
alemães enviavam para sufocar a rebelião. Por fim, em 1499,
o imperador
Maximiliano
I se viu obrigado a reconhecer
a
independência
da Suíça. Na Alemanha,
mesmo não havendo
um movimento
de insurreição semelhante
ao da Suíça, houve
todo tipo de indícios de que os habitantes dos diversos eleitorados, ducados,
cidades livres, etc., começavam
a se sentir
alemães, e a invejar a ingerência de outros países nos assuntos
nacionais cuja unidade lhes dava maior poder.
Estes sentimentos
nacional istas, cada vez mais comuns
na Europa nos séculos XIV e XV, militavam contra a relativa
unidade conseguida em épocas anteriores. Se o papado aparentemente se inclinava para os interesses franceses, como o fez
durante sua residência em Avignon, os ingleses não vacilavam
em se opor a ele. Se, no entanto, ele se negava a ser um instrumento dócil nas mãos da coroa francesa, esta apoiava o outro
papa, como aconteceu
durante
o Grande Cisma. Mesmo se
nos séculos anteriores houve situações semelhantes,
neste período do fim da Idade lvlédia estas situações passaram a ser a regra,
e não mais a excessão. O mesmo aconteceu
com respeito ao
Império,
principalmente
nas regiões fronteiriças
da Su íça
e da Boêmia. À rebelião su íça fizemos referência mais acima.
O sentimento
nacionalista
boêrnio
nos interessará
quando
falarmos de João Huss e dos seus.
A guerra dos cem anos
O surgimento das grandes nações modernas, e o uso da artilharia no campo de batalha, deram lugar a guerras muito mais
sangrentas e longas que as dos séculos anteriores.
Destas a de
mais destaque foi a guerra dos cem anos, que envolveu de tal
maneira não só a França e a Inglaterra, mas também o restante
As novas condições /21
Filipe III (+ 1285)
Filipe IV (+ 1314)
Carlos de Valois
I
Luís X
(+ 1316)
Filipe V
(+ 1323)
Carlos IV
(+ 1328)
Isabel
I
Filipe VI
Eduardo III da
Inglaterra
A sucsssíio ao trono da França
ela Europa, que alguns historiadores
têm dito
ser chamada de "primeira guerra européia".
que ela deveria
p\ causa inicial das hostilidades foi a questão da sucessão
C rei da França, Filipe I V, o Belo, tinha
deixado três filhos homens; mas um após outro reinaram e
morreram, sem deixar descendência masculina. Quando o último, Carlos IV, morreu, surgiu a questão da sucessão. Na França,
Filipe de Valois, sobrinho de Filipe IV, foi coroado rei. ~.~asna
Inglaterra o parlamento inglês declarou que seu rei, Eduardo III,
era o legítimo
herdeiro da coroa, e enviou uma delegação
à França para reclamá-Ia. A alegação inglesa se baseava no fato
de Eduardo ser filho da irmã dos três últimos reis, e neto do
pai deles, Filipe IV. O novo rei da França, Filipe VI de Valeis.
respondeu dizendo que, assim como as mulheres não podiam
herdar o trono, dever-sé-ia preferir a descendência por linha
rnasculina à por linha feminina.
Como rei da França Filipe VI era senhor, entre outros
territórios,
do ducado de Guyenne. Como Eduardo III era
duque de Guyenne, cabia-lhe prestar homenagem ao novo rei
da França. Depois de vacilar por algum tempo Eduardo consentiu com esta cerimônia,
se bem que se retratou depois dela,
dizendo que tinha participado ainda menor de idade, e seguindo
os conselhos de conselheiros incapazes.
Tudo isto contribuiu
para aumentar a inimizade entre os
dois monarcas, até que os assuntos da Escócia os levaram à
guerra. Durante várias gerações a França tinha sido o principal
à coroa francesa.
22 / A era dos sonhos frustrados
A França durante a guerra dos cem anos.
aliado da Escócia contra as intensões de conquista que os
ingleses abrigavam em relação a este território ao norte do seu
país. Quando, por causa da política imperialista da Inglaterra,
o rei Davi da Escócia se viu obrigado a abandonar o país, a
França o asilou, e apoiou seus partidários que continuavam
lutando contra as tropas de Eduardo III. Este protestou, e se
preparou para atacar a França.
As novas condições /23
Mas Eduardo, envolvido em uma guerra com a Escócia,
não podia querer derrotar
Filipe sozinho, e por isso passou
a tecer uma extensa rede de alianças contra seu inimigo. Seu
principal aliado era o imperador
Lu ís da Baviera, que lhe deu
o título de "vicário imperial".
Além disto ele contava com o
apoio de diversos duques e outros nobres de menor categoria,
e com o das cidades de Flandres, que se rebelaram contra
seus senhores.
O Iíder da rebelião, o cervejeiro Jacobo Von
Artaveldt,
temia com razão que os nobres que os rebeldes
tinham expulso buscassem ajuda na coroa francesa, e por isto
ele buscou a de Eduardo.
Filipe, por sua vez, organizou
outra rede de alianças,
da qual faziam parte os reis de Navarra e Boêmia, bem como os
duques de Bretanha, Áustria e Lorena, e vários nobres alemães
que se opunham à pol [tica do imperador.
As primeiras
campanhas
da guerra forarn desvantajosas
para os ingleses. Em 1338 Eduardo se apresentou
diante das
fronteiras da França, e começou a devastar a região. Mas Filipe
sabia que seu rival estava esgotando
o tesouro da Inglaterra,
e que não podia manter seu exército em pé de guerra durante
muito tempo. Por isto se negou a enfrentá-lo
numa batalha,
e mais tarde Eduardo teve de voltar para a Inglaterra, empobrecido e decepcionado.
Em 1340 os franceses, junto com os
normandos
e os genoveses, reuniram uma frota enorme para
apertar os ingleses, mas estes, com a ajuda dos flamengos,
os derrotaram
decisivamente.
Quase toda a esquadra francesa
foi destru ída, e milhares de soldados morreram afogados depois
de se lançarem ao mar, fugindo do inimigo. Conta-se que ninguém
se atrevia a dar a Filipe a notícia da terrível derrota, até que
seu bobo-da-corte
lhe disse que parecia que os franceses eram
mais valentes que os ingleses, porque se atreviam a saltar no
mar. Mas também desta vez Eduardo não pôde tirar vantagem
dos seus triunfos
iniciais, pois seu grande exército se desfez
quando os fundos começaram
a escassear. Exasperado,
o rei
da Inglaterra
convidou
o da França para um encontro
no
campo da honra. Mas Filipe sabia que o tempo agia a seu
favor, e por fim Eduardo se viu obrigado a aceitar um armistício
e voltar para a Inglaterra, onde tinha de enfrentar as enormes
dívidas que tinha contraído
para financiar
sua campanha.
24 / A era dos sonhos frustrados
A próxima expedição
inglesa, em 1346, teve resultados
melhores.
Eduardo
surpreendeu
os franceses desembarcando
inesperadamente
na l\Jormandia,
onde passou a devastar a
região. Depois de uma longa e complicada
série de marchas
e contramarchas
os dois exércitos
se chocaram
finalmente
na batalha de Crécy, onde os arqueiros
ingleses derrotaram
decisivamente
o exército
francês. Eduardo aproveitou
então
a vitória para sitiar Calais, que se rendeu no ano seguinte e
desde então foi uma das mais importantes
possessões inglesas
no continente.
Pouco depois da capitulação
de Calais a peste bubônica
varreu toda a Europa, forçando os dois contendentes
a abandonar as hostilidades.
Quando estas foram reiniciadas vários anos
mais tarde, Filipe VI tinha morrido, e foi seu filho e sucessor
João II quem enfrentou
os invasores ingleses, que marchavam
sob o comando de Eduardo, príncipe de Gales e filho de Eduardo III. Por causa da cor da sua armadura este grande príncipe
recebeu o nome de "Prfncipe Negro", pelo qual a posteridade
o conhece.
Sua estratégia
consistiu
em desolar os campos
da França, destruindo
assim a base econômica do seu oponente.
João respondeu reunindo um grande exército que surpreendeu
os ingleses perto de Poitiers. Mas uma vez mais a disciplina
melhor do exército inglês, e a destreza dos seus arqueiros, se
impuseram no campo de batalha. Contra todas as previsões
o
Príncipe Negro e suas tropas derrotaram em Poitiers um exercíto
muitíssimo mais poderoso,
e coroaram seu triunfo capturando
o rei João. Este foi levado prisioneiro
para a Inglaterra, onde
permaneceu
até que o tratado de Bretigny, em 1360, lhe devolveu a liberdade. Neste tratado Eduarrlo III renunciava a todas
as pretensões à coroa da França, enquanto João se comprometia
a lhe pagar uma indenização
de três milhões de escudos, e a
reconhecer
sua soberania sobre Calais e sobre boa parte da
Aquitânia.
Mas a guerra, que se tornara endêmica, agora se passou
para a Espanha. Em diversas regiões da França havia bandos
de mercenários,
as chamadas
"companhias
brancas",
que
ficaram desempregadas
com o acordo de paz, e não tinham
outro meio de subsistência
que o roubo e a violência. Para
livrar-se deles Carlos V, sucessor de João II, decidiu enviá-los
As novas condições /25
a Castela, onde Pedro, o Cruel, tinha matado ou mandado
matar diversos nobres, e enviado ao exílio outros tantos. Entre
estes últimos estava seu irmão bastardo Henrique de Trastâmara, cuja mãe tinha sido assassinada por ordem de Pedro. Os
desmandos do cruel rei de Castela enraiveceram os franceses
quando receberam a notícia de que sua esposa Blanca de Bourbon, princesa francesa que Pedro tinha humilhado repetidamente, tinha morrido em circunstâncias misteriosas. Logo surgiu o
boato de que ela tinha sido envenenada, e não faltaram cavaleiros franceses que se dispusessem a vingar a morte da sua princesa. Sob o comando de Henrique de Trastâmara, e com dinheiro
proveniente da coroa francesa e do papa, um grande exército
de cavaleiros franceses e de "companhias brancas" cruzou
os Pirineus, atravessou Aragão e penetrou em Castela. Quando
seus nobres se negaram a defendê-lo, Pedro, o Cruel, fugiu para
Portugal, e depois para Bayonne.
O território onde Pedro, o Cruel, se tinha refugiado, estava
sob o governo do Príncipe Negro, que lhe ofereceu seu apoio
contra o "usurpador"
Henrique. Ao que parece, uma das
principais razões que levaram o chefe inglês a seguir esta pol (tica
foi o desejo de se opor às intenções do rei da França, sem
romper abertamente com o que o tratado de Bretigny estipulara. À frente do seu exército o Príncipe Negro cruzou os
Pirineus em Roncesvales, conseguiu que o rei de Navarra alimentasse suas tropas em Pamplona, e penetrou em Castela. Ali
ele derrotou decisivamente Henrique de Trastâmara, e recolocou
Pedro no trono. Este tinha o propósito de matar os dois mil
prisioneiros feitos no campo de batalha, mas seu aliado inglês
o impediu, persuadindo-o a perdoar-lhes a vida e aceitá-los como
súditos. Pouco depois, quando o restaurado rei de Castela
começou a fechar os ouvidos para os pedidos do seu aliado,
que precisava de provisões para o seu exército, este voltou para
a Aquitânia, e entregou Pedro à sua própria sorte. Enquanto
isto Henrique de Trastâmara voltou a apelar à França, e com
a ajuda que dela recebeu se apresentou novamente em Castela,
onde derrotou seu rival. Pouco depois, em circunstâncias que
a história não conseguiu esclarecer, os dois irmãos rivais se
encontraram frente a frente perto de Montiel, onde Pedro
pereceu no combate mortal. A partir de então Henrique reinou
26 / A era dos sonhos frustrados
em Castela, e a França pôde contar ccm um aliado além dos
Pirineus. Esta aliança provou sua firmeza quando um irmão
do Pr íncipe Negro, o duque de Lancaster, reclamou para si a
coroa de Castela por ter se casado com a herdeira de Pedro.
A aliança entre Castela e França mudou o curso que a guerra vinha tomando. Com a ajuda da esquadra castelhana os franceses tomaram a ofensiva. Em 1372 os castelhanos destru frarn
toda a frota inglesa na batalha de La Rochelle. Dois anos mais
tarde os ingleses não tinham mais nenhuma possessão no continente além de Calais, Bordeaux,
Bayonne e outros lugares
de menos importância.
Por fim, em 1375, Eduardo se viu
obrigado a aceitar uma trégua, que durou até 1415.
Eduardo morreu em 1377. Como pouco antes falecera o
Príncipe Negro, o novo rei foi o filho deste, Ricardo II. Durante
todo o seu reinado e o do seu sucessor, Henrique IV, a Inglaterra esteve em guerra com a Escócia, e enfrentando
rebel iões e
movimentos
populares
que a impediram
de continuar
com a
pol (tica belicosa em relação à F rança. Um destes movimentos
foi o de Wycliff e dos "Iolardos".
Foi o filho de Henrique IV, o quinto rei com o mesmo
nome, que, depois de destruir a rebelião dos lolardos, se dispôs
a empreender
novamente
as hostilidades
contra
a França.
Assim que se sentiu seguro em seu trono ele reclamou a coroa
francesa. Pouco depois ele desembarcou
na foz do Sena, tomou
a fortaleza
de Harfleur,
e adentrou
a França. Esta invasão
foi facilitada pelas lutas internas do país, por causa da loucura
de Carlos VI. Dois partidos, o dos "borgonhões"
e o dos "armagnacs", disputavam
a regência. Por isto as tropas francesas evitaram o combate
por algum tempo, mas por fim, confiadas
em sua superioridade
numérica,
tentaram
deter o invasor,
sendo vencidas na batalha de Agincourt (1415). Mais uma vez,
no entanto,
os ingleses se viram impossibilitados
de continuar
a campanha,
pois as reservas financeiras estavam no fim e o
exército
tinha sofrido pesadas baixas
durante
a sua estadia
na França. Henrique,
então, se contentou
em declarar que a
vitória de Agincourt mostrava que Deus favorecia a sua causa,
e que aos olhos de Deus a coroa francesa lhe pertencia. Depois
desta declaração
ele regressou à Inglaterra, onde foi recebido
em triunfo.
As novas condições /27
Ali o VISitou O imperador Sigismundo, que anteriormente
estivera na corte francesa, tentando mediar entre as duas partes.
Henrique se mostrou disposto a renunciar ao trono da França,
desde que o tratado de Bretigny fosse cumprido.
Como este
tratado concedia ao rei da Inglaterra boa parte do território
francês, as esperanças de chegar a uma reconciliação
por este
caminho
eram escassas, e os ingleses' continuaram
se preparando para a guerra. Quando os franceses tentaram reconquistar
Harfleur, Henrique estava preparado, e um contingente enviado
da Inglaterra pôs fim ao sftio desta fortaleza.
Em Paris, estava no poder o partido dos armagnacs. Por
isto o I(der dos borgonhões,
Carlos, o duque de Borgonha,
se negou a enviar tropas contra os ingleses, e corriam rumores
de que ele tinha feito um pacto secreto com Henrique. Seja
isto verdade ou não, quando o rei da Inglaterra desembarcou
novamente
em território
francês, na região da Normandia,
os franceses não pucieram lhe oferecer grande resistência, pois
os exércitos
borgonhões
se encontravam
diante de Paris. Enquanto os borgonhões
tomavam a capital e matavam os principais lfderes dos armagnacs, os ingleses se apossaram de boa
parte da Normandia.
Fugindo dos borgonhões
o delfim Carlos, herdeiro
da
coroa francesa, escapou de Paris e estabeleceu seu governo em
Poitiers, declarando-se
regente de seu pai débil mental. Havia,
portanto,
um rei louco, e dois partidos
que disputavam
a
regência; os borgonhões
em Paris e os armagnacs em Pcitiers.
Diante da ameaça inglesa estes dois partidos
começaram
a
negociar a paz entre si. Mas quando o duque da Borgonha
foi assassinado
durante uma entrevista
com o delfim, e em
presença deste, os borgonhões
decidiram que não lhes restava
outra alternativa que se aliar a Henrique, e com este propósito
lhe prometeram
a mão da princesa Catarina, filha do rei demente, a regência do reino, e a sucessão ao trono depois da morte
do rei. Em troca disto Henrique respeitaria os antigos privilégios da nobreza francesa diante da coroa, devolveria ao reino
os territórios
que tinha tomado na Normandia, e conquistaria
as terras que estavam sob o dorn ínio do delfim. A esta empresa
o rei inglês estava entregue quando adoeceu e morreu, deixando
como herdeiro do trono inglês o pequeno filho que tivera de
28 / A era dos sonhos frustrados
Catarina pouco tempo antes. O novo rei da Inglaterra, Henrique
VI (1422-1471), tinha somente alguns meses de idade quando
morreu também Carlos VI, que assim o deixara de posse das
coroas da Inglaterra e da França.
Mas o delfim ainda tinha seguidores e territórios no centro
e no sudeste do país, e se fez proclamar herdeiro do seu falecido
pai, com o trtulo de Carlos VII. Além disto, quando o rei louco
morreu, muitos franceses começaram a se inclinar para o delfim,
que no fim das contas era o herdeiro legítimo. p, guerra, pois,
continuou, já não entre franceses e ingleses, mas entre os
partidos na França, um apoiado pelos ingleses, e o outro pelos
escoceses. Durante cinco anos a guerra seguiu sem maiores
acontecimentos.
Mas perto do fim deste período os ingleses
e seus aliados ganharam importantes batalhas, cruzaram o rio
Loire e sitiaram Orleans.
A situação do delfim era cada dia mais desesperadora,
quando vieram notícias de uma donzela, natural da pequena
aldeia de Domremi, que dizia ter tido visões em que as santas
Catarina e Margarida, além do arcanjo Miguel, lhe tinham ordenado que dirigisse as tropas do delfim para romper o cerco
de Orleans. e que em seguida o conduzisse para ser coroado
em Reims, tradicional lugar de coroação dos reis da França,
e para onde Carlos ainda não pudera ir porque esta cidade
estava em território inimigo.
Conta-se que Carlos VII mandou buscar a jovem Joana
d' Arc (este era o nome da donzela) e que, pouco antes de
ela lhe ser apresentada, se disfarçou e se misturou com seus
nobres, colocando outro em seu lugar. Não está claro se ele
fez isto para zombar dela ou para prová-Ia. Mas a jovem, ao
entrar no salão onde estava o rei, se dirigiu diretamente para
ele, sem prestar a mínima atenção ao que se fazia passar por
rei. Surpreendido, Carlos foi com ela para um lugar separado,
e ao voltar para a reunião declarou comovido que Joana sabia
segredos de sua vida que mortal algum poderia conhecer.
Pouco depois
donzela", como seus contemporâneos a
chamavam, estava entre as tropas vestida de armadura, e se mostrou hábil no manejo da sua cavalgadura e da lança. À medida
que sua fama se espalhava, o entusiasmo entre os soldados do
delfim aumentava, bem como o temor entre seus inimigos.
lia
As novas condições /29
Carlos reunira em 810is provisões que esperava poder
levar para os que estavam sitiados em Orleans, e Joana se
A humilde
aldeã de Domremi
chegou a ser a hera/n« nacional da FranÇ/l.
30 I A era dos sonhos frustrados
ofereceu para comandar a expedição. Graças a uma sene de
circunstâncias ao que parece inexplicáveis tanto a donzela como
as provisões conseguiram atravessar o cerco, sem encontrar
os sitiantes. Na cidade ela foi recebida com aclamações, e
imediatamente começou a dirigir ataques contra as posições
dos ingleses. Cada dia saía uma coluna de Orleans, comandada
por Joana d' Arc, e cada dia caía um bastião inimigo. Mais
tarde os ingleses decidiram levantar 'J sítio, e a heroína, desde
então conhecida cemo "a donzela de Orleans", proibiu que
fossem perseguidos, lembrando que era domingo, dia de orações
e não de batalhas.
Depois disto as vitórias seguiram uma à outra, e Carlos
pôde invadir o território inimigo e marchar para Reims, para
ser coroado: Em sua passagem as cidades que durante anos
estiveram dominadas por ingleses e borgonhões o recebiam com
entusiasmo, ou pelo menos lhe enviavam provisões, quando
não se atreviam a se declarar publicamente a seu favor. A cidade
de Reims, ao receber notícias de que o rei e a donzela estavam
a caminho, expulsou a guarnição dos borgenhões, e recebeu
Carlos com festejos. Na catedral o delfim foi coroado, enquanto Joana, de pé diante do altar, via seus sonhos se tornarem
realidade.
Depois de cumprir sua missão dupla de romper o cerco
de Orleans e fazer com que o rei fosse coroado em Reims,
a jovem visionária estava disposta a regressar à sua vida anterior,
como aldeã de Domremi, repetidamente solicitando de Carlos
permissão para isto. Mas o monarca não atendeu aos seus
pedidos, e Joana continuou lutando até que foi capturada em
uma escaramuça, e vendida aos ingleses.
Seus antigos aliados, ocupados em aproveitar as vantagens
obtidas nos últimos meses, não se preocuparam mais com ela.
Pelo que sabemos, o rei nem sequer se ofereceu para pagar seu
resgate, como era costume naquela época fazer com os prisioneiros de vulto.
muito provável que seus conselheiros lhe tenham dito que não permanecesse à sombra de uma mulher plebéia. Os ingleses, por sua vez, a venderam por dez mil francos ao
bispo de Beauvais, que queria julgá-Ia como herege e feiticeira.
O juízo teve lugar em Rouen, e Joana foi acusada como
herege, entre outras coisas, por ter dito que recebera ordens
t:
As novas condições /31
o delfim
foi coroado na catedral de Reims, enquanto Joana d'Arc, em pé
diante do altar, via seus sonhos se tornerem realidade.
diretamente
do céu sem intervenção
da igreja, por dizer que
seus santos falavam com ela em francês, e por se vestir de homem. Quando, depois de vários meses na prisão, seus ju ízes
lhe declararam
que ela seria entregue ao "braço secular" para
32 / A era dos sonhos frustrados
ser executada,
ela concordou
em assinar um documento
abjurando, "sempre que agrade a Nosso Senhor".
Em troca disto
em vez de ser queimada viva ela foi condenada à prisão perpétua. r/ias poucos dias depois ela declarou que as santas Catarina
e Margarida novamente
se tinham apresentado
a ela, repreendendo-a por causa da sua traição. Então ela foi levada à praça
do I\:]ercado Velho, em Rouen, e queimada.
Suas últimas instruções,
dadas ao sacerdote
que a acompanhou
até a pira,
foram no sentido de que ele levantasse o crucifixo bem alto,
e repetisse com voz bem alta as palavras da salvação, para que
ela as pudesse ouvir acima do rugir das chamas. Era o dia
30 de maio de 1431. Quase vinte anos mais tarde, ao entrar
vitorioso em Rouen, Carlos VII ordenou uma nova investigação
que, como era de se esperar, a exonerou.
Em 1920 o papa
Benedito
XV a declarou
santa. ~,1as já séculos antes ela se
transformara
na heroína nacional da França.
A partir do episódio de Joana d'Arc as vitórias de Carlos
VII se seguiram quase sem interrupção.
Em 1435 ele conseguiu
separar o duque de Borgonha (filho do que tinha sido assassinado) do partido inglês, assinando com ele a paz de Arras.
Dois anos mais tarde suas tropas ocuparam
Paris. Quando,
em 1449, os reis da Inglaterra e da França acordaram
uma
trégua, os ingleses tinham sido expulsos de toda a França,
a não ser de Calais e de alguns territórios
na Guyenne e na
Normandia.
Carlos VII aproveitou
os cinco anos de trégua
para consolidar seu poder e organizar sua administração
e seu
exército.
Isto teve resultados tão bons que quando as hostilidades foram reiniciadas os ingleses foram expulsos do território francês em somente quatro anos. I'Jo fim deste período
restava-lhes na França somente Calais, que continuou
sob seu
domínio até 1558. Por isto, a partir de 1453 a guerra dos cem
anos se limitou a pequenas escaramuças,
até que por fim foi
firmada a paz de Picquigny, em 1475.
Esta longa guerra teve conseqüências
importantes
para
a vida da igreja, como veremos em diversos capítulos
deste
volume. O fato de que durante boa parte dela o papado esteve
em Avignon, onde existia à sombra do trono francês, contribuiu
para aumentar a inimizade entre os ingleses e o papado. Mais
tarde, durante o grande cisma em que a Europa se dividiu em
As novas condições /33
sua obediência a dois papas, as alianças estabelecidas durante
a guerra dos cem anos foram um dos fatores que decidiam
por qual papa cada país se decidia. Além disto a própria guerra
dificultou a tarefa de sanar o cisma. Por último, tanto na
França como na Inglaterra, Escócia e outros estados bel igerantes, a guerra fortaleceu o crescente sentimento nacionalista,
e assim contribuiu para debilitar qualquer pretensão que o
papado pudesse ter em termos de uma autoridade universal.
II
O papado
sob a sombra
da Franca
•
É absolutamente
necessário para
a salvação que todas as criaturas
humanas estejam sob o pontífice
romano.
Bonifácio
VIII
Durante a "era dos altos ideais", como já vimos, houve
conflitos constantes entre papas e imperadores. Os dois reclamavam para si uma autoridade
universal e, mesmo existindo
uma distinção teórica entre o poder temporal e o espiritual,
o choque era inevitável.
No perfodo que estamos narrando conflitos semelhantes
continuaram
existindo.
A principal
diferença era que estes
não envolviam tanto os imperadores, mas alguns dos monarcas
cujo crescente poder eclipsava o do I mpério. Particularmente
as relações entre o papado e a monarquia francesa foram um
dos principais
fatores na história da igreja nos séculos XIV
e XV.
Bonifácio VIII e Filipe, o Belo
No fim do volume anterior dissemos que o papa Celestino
V, um homem de profundas convicções franciscanas, renunciou
ao seu posto, sendo eleito em seu lugar Bonifácio VIII. Benedetto Gaetani - era este o nome original do novo papa - era
36 / A era dos sonhos frustrados
um homem de caráter oposto ao de Celestino. Enquanto este
mostrara ser um fracasso por causa da sua extrema simplicidade,
que não lhe permitia reconhecer as motivações obscuras que o
coração humano abriga, Gaetani tinha vasta experiência diplomática como legado pontifício,
e tinha tratado com reis e
poderosos
em diversos países da Europa. Nesta atividade ele
tinha desenvolvido
um conhecimento
profundo das intrigas que
eram tramadas nas cortes européias.
E, enquanto a humildade
extrema
levou Celestino a renunciar à tiara, a origem aristocrática de Bonifácio, e as idéias ambiciosas
que tinha sobre
as prerrogativas
papais, fizeram dele um dos papas mais altivos
que a história conheceu.
A sua eleição já é um exemplo da sua maneira de proceder.
O conclave cardinal ício tinha se reunido em Nápolest à sombra
do rei Carlos, e não conseguia chegar a um acordo sobre quem
seria o novo papa. As poderosas fam (Iias dos Colonna e dos
Orsini disputavam
o papado; nenhuma estava disposta e eleger
um membro do grupo oposto. Durante os dez dias que durou
o conclave Bonifácio foi trabalhando
para ser eleito, e conta-se
que ele o conseguiu persuadindo os dois grupos que o deixassem
apresentar
um candidato
imparcial.
Depois de conseguir de
ambos a promessa de que aceitariam o seu candidato, Bonifácio
apresentou
a si mesmo.
Restava ainda a questão se Carlos
aceitaria este novo papa, pois o rei tinha dado mostras de
querer um instrumento
dócil ocupando
a Santa Sé, e todos
sabiam que Benedetto
Gaetani tinha um temperamento
altaneiro e independente.
Bonifácio,
todavia,
como diplomata
hábil, convenceu
Carlos que não lhe convinha ter em Roma
um títere, mas um papa poderoso que fosse seu aliado. Além
disto parece que Bonifácio ofereceu apoio a Carlos na sua luta
para se apossar da Sidlia, que estava nas mãos da casa de
Aragão.
A eleição de Bonifácio
não agradou a todos. O ideal
franciscano,
com seus profundos
elementos
bíblicos, exercia
uma forte atração sobre os corações da época. Entre as classes
pobres a eleição de Celestino V parecera ser a promessa de
que por fim a igreja deixaria de servir aos interesses dos poderosos e ricos. Entre os monges mais entusiastas
chegou-se
a pensar que com aquela eleição começara a " Era do Espírito"
o papado sob a sombra da França /37
profetizada por Joaquim de Fiore. Mesmo se, ao que tudo
indica, a renúncia de Celestino foi totalmente voluntária,
provocada por sua profunda humildade e simplicidade franciscanas, logo surgiram rumores de que Bonifácio o obrigara a
renunciar, para poder tomar posse do trono papal. Além disto,
mesmo que sua renúncia tivesse sido voluntária, alguns dos seus
partidários argumentavam que abdicar não fazia parte das prerrogativas papais - a atitude não tivera precedentes em toda
a história da igreja - e por isto a renúncia de Celestino não
era válida, e o monge franciscano, mesmo contra a sua vontade,
continuava sendo o papa legítimo. Este movimento "celestinista" logo se misturou com o dos franciscanos extremistas,
ou "fraticelli",
e convenceu a muitos de que Bonifácio era
um usurpador, um homem indigno de ocupar o trono de São
Pedro. Quando, pouco tempo depois, Celestino morreu, a
oposição perdeu o argumento de que havia outro papa legítimo, mas não deixou de fazer circular notícias, provavelmente
falsas ou pelo menos exageradas, no sentido de que a morte
de Celestino fora causada pelos maus tratos que sofrera por
ordem de Bonifácio.
Apesar desta oposição, os primeiros anos do pontificado de
Bonifácio contribu fram para reforçar seu conceito de autoridade do papa. O novo pontffice cria firmemente que o papa era superior a todos os soberanos da terra, e entre as suastarefas estava a de estabelecer a paz entre estessoberanos. Ele mesmo disse
mais tarde ao rei da França que se o imperador Teodósio se hu
milhou diante de Ambrósio, o arcebispo de Milão, quanto mais
um rei qualquer, que é menos que um imperador, deve se humilhar diante do papa, que é muito mais que um arcebispo.
Por estas razões Bonifácio achava que cabia a ele pacificar
a Itália, constantemente sacudida por guerras internas. Sua
pol Itica ital iana fracassou somente no seu intento de cumpri r
a promessa de colocar o rei de Nápoles sobre o trono da Sicília.
No demais, os principais inimigos do novo papa na Itália foram
afastados. Os Colonna, inimigos irreconciliáveis de Bonifácio
desde a sua eleição, perderam quase todas as suas possessões,e
se viram obrigados a partir para o exílio. Bonifácio conseguiu
isto convocando uma cruzada que, com os recursos dos Orsini,
tomou todos os castelos e lugares fortificados dos Colonna.
38 / A era dos sonhos frustrados
Apesar dos ressentimentos
que isto provocou em muitos, quase
toda a Itália parecia acatar as instruções do papa.
Também no Império, Bonifácio fez valer sua autoridade,
quando o inepto imperador Adolfo de Nassau foi deposto por
um grupo de nobres, que elegeram em seu lugar Alberto da
Áustria. Pouco depois, perto de Worms, os dois rivais se encontraram no campo de batalha, e Adolfo de Nassau foi morto.
Bonifácio considerou todos estes acontecimentos
um crime duplo de rebelião e regicfdio, e se negou a ratificar a eleição
de .A.lberto, ou a coroá-lo imperador.
Durante os primeiros
anos do pontificado
de Bonifácio, Alberto pôde fazer pouco
contra ele, e se viu obrigado a procurar a reconciliação
com
um inimigo aparentemente
poderosíssimo.
!'v:as Bonifácio se
mostrava inflexível no que dizia ser a causa da justiça.
A principal
preocupação
pol ítica do novo papa foi a
reconcil iação entre França e Inglaterra.
Seus esforços neste
sentido se viram a princípio coroados com seu maior triunfo;
mas mais tarde foram a causa da sua queda.
Quando Bonifácio foi eleito em 1294 (bem antes da guerra
dos cem anos que narramos no cap ítulo anterior),
França e
Inglaterra estavam a ponto de mutuamente
se declararem guerra. Através de um subterfúgio o rei da França, Filipe IV, o Belo,
tinha se apoderado
da Guyenne,
propriedade
hereditária
de
Eduardo I da Inglaterra. Em resposta este último, que em suas
possessões francesas era vassalo de Filipe, se declarou em rebeldia e apoiou economicamente
Adolfo de Nassau e o conde de
Flandres, inimigos de Filipe. O rei da França por, seu lado, prestou ajuda à resistência que os escoceses opunham a Eduardo.
Nestas circunstâncias
Bonifácio
enviou seus legados à
corte da Inglaterra, objetivando
obrigar Eduardo a abrir negociações com Filipe. Quando Eduardo opôs objeções, o papa
simplesmente
ordenou
aos dois soberanos
que fizessem uma
trégua, primeiro de um ano, e depois de mais três. A Adolfo
de Nassau, que ainda reinava e era aliado de Eduardo, Bonifácio
enviou ordens semelhantes.
I'v':as tanto Eduardo como Filipe
continuaram
seus preparativos
para a guerra, sem dar muita
atenção ao mandado papal.
Vendo o pouco caso que os monarcas faziam dele, Bonifácio decidiu levantar obstáculos aos seus intentos. Tanto Edu-
o papado
sob a sombra da França /39
ardo como Filipe necessitavam
de muito dinheiro para cobrir
seus gastos militares,
e para comprar
o apoio dos aliados.
Nos dois reinos existia a regra de que as propriedades
eclesiásticas estavam isentas de impostos.
Mas tanto na Inglaterra
como na França a coroa tinha descoberto
meios de burlar
esta norma, geralmente
exigindo contribuições
"voluntárias"
do clero. Estas contribuições
eram ainda mais necessárias
diante da ameaça da guerra. E ao mesmo tempo provocavam a
ira do clero, que se via despojado de um dos seus privilégios
mais apreciados.
Portanto,
na tentativa de proteger as propriedades da igreja, ganhar a simpatia do clero, e opor obstáculos
à política bélica de Eduardo e Filipe, Bonifácio promulgou em
1296 a bula Clericis laicos, que transcrevemos
a seguir:
Os tempos antigos mostram que os leigos foram sempre
inimigos do clero; e a experiência
dos tempos presentes
o confirma,
pois os leigos, insatisfeitos
com suas limitações, querem conseguir o que lhes está proibido, e abertamente procuram obter o que ilicitamente cobiçam.
Prudentemente
eles não admitem que qualquer domínio
sobre o clero lhes é negado, bem como sobre qualquer
pessoa eclesiástica e suas propriedades,
impondo pesadas
cargas aos prelados, às igrejas, e às pessoas eclesiásticas ...
E, dói-nos dizê-lo, certos prelados e pessoas eclesiásticas, ... temendo
mais a soberania temporal que a eclesiástica, ... admitem estes abusos
Por isto, para pôr
um fim nestas práticas in íquas
declaramos
que qualquer prelado ou pessoa ecfesiástica
...
que pague ou
prometa pagar qualquer quantia ... a qualquer imperador,
rei, príncipe
'"
ou alguma outra pessoa, não importa
sua posiçao,
que o exija, requeira ou receba este
pagamento
está automaticamente,
por sua própria
ação, sob a sentença de excomunhão.
A resposta dos reis não se fez por esperar. Eduardo declarou que, já que o clero estava isento de toda contribuição
ao estado, estava fora do alcance protetor da lei, e sem direito
LI acesso
aos tribunais de justiça. Em seguida ordenou que fossem tirados dos clérigos seus melhores
cavalos, e que suas
queixas
não fossem
aceitas
pelos tribunais.
Naturalmente
40 / A era dos sonhos frustrados
isto nada mais era que um indício da situação diffcil em que
o clero se encontrava, e estava claro que Eduardo tomaria
medidas extremas se não obtivesse os fundos de que necessitava.
Sem demora todo o clero, com a exceção notável do arcebispo
de Canterbury, decidiu transferir para o rei a quantia exigida,
recorrendo ao subterfúgio de não entregá-Ia diretamente, mas
de colocá-Ia em um fundo que ficava à disposição da coroa
"para casos de emergência", e estipulando que o rei tinha
autoridade para determinar quando uma situação qualquer
se caracterizava como emergência.
A resposta de Filipe foi mais direta e extrema. Um edito
real proibiu qualquer transferência de dinheiro para o exterior,
bem como de metais preciosos, cavalos, armas ou qualquer
outro objeto de valor, sem a autorização expressa do rei. Outro
proibiu que bancos e instituições de crédito exportassem qualquer riqueza.
A intenção clara destes dois editos era privar o papa de
toda receita procedente da França. Mas o rei tomou o cuidado de ditar medidas aparentemente
gerais, que colocavam
em suas mãos a decisão a respeito de qualquer exportação, e
que portanto podiam ser aplicadas ou não, de acordo com a
conveniência do momento. Nisto ele seguia os conselhos de dois
de seus conselheiros, que estavam entre os juristas mais famosos
da época, Pedro Flotte e Guilherme de Nogaret. O resultado
foi uma longa e complexa correspondência entre as duas partes,
em que tanto o rei como o papa, enquanto se ameaçavam mutuamente em termos gerais, em termos concretos se expressavam de maneira ambfgua. Os dois sabiam que tinham inimigos
poderosos, e não queriam chegar a uma ruptura aberta e definitiva.
Enquanto isto a guerra prosseguia, sem vantagens decisivas
para qualquer dos lados, e tanto Eduardo como Filipe estavam
com poucos recursos para continuá-Ia. Foi esta realidade que
mais tarde os levou a aceitarem a mediação de Bonifácio, cuja
trégua ambos tinham violado. Então, Filipe mesmo insistiu
em aceitar a mediação particular de Benedetto Gaetani, e não
do papa. Apesar disto Bonifácio obteve um grande triunfo
quando os dois reis, obrigados pelas circunstâncias, concordararn com as condições de paz ditadas por ele, e os oficiais
o papado
do papa ficaram provisoriamente
que continuavam em disputa.
sob a sombra da França /41
de posse dos territórios
Enquanto tudo isto acontecia Bonifácio ainda teve satisfação de ver a Escócia se declarar feudo seu. Por causa da invasão dos ingleses os escoceses não tiveram outro recurso que apelar às suas próprias armas e à proteção do papado. Como base
para solicitar esta proteção eles declararam que a Escócia
desde tempos antiqu (ssimos sempre fora feudatária da Santa
Sé. Bonifácio respondeu ordenando a Eduardo que desistisse
do seu intento de se apoderar da Escócia, pois este pafs pertencia ao papado. Apesar de Eduardo não dar muita atenção à
ordem pontiffcia, Bonifácio viu na atitude dos escoceses mais
uma prova da elevada dignidade do papado.
Aproximava-se o ano 1300, e Bonifácio proclamou um
grande jubileu eclesiástico, prometendo indulgência plenária
aos que visitassem o sepulcro de São Pedro. Roma se viu inundada por peregrinos que acorriam para render homenagem
não s6 a São Pedro, mas também a seu sucessor, e parecia
ser a pessoa mais poderosa da Europa.
Mas o entusiasmo do jubileu não durou muito tempo,
e o grande papa logo viu seu poder se desvanecer. Suas relações
com Filipe, o Belo, ficavam cada vez mais tensas. O rei da
França tomou posse de diversos territórios eclesiásticos, deixou
Sciarra Colonna, o mais temível membro desta farnflia inimiga
do papa, se refugiar em sua corte, e ofereceu a mão de Suo
irmã ao imperador Alberto da Austria, que Bonifácio tinha
declarado usurpador e regicida. Pedro Flotte, enviado como
embaixador francês a Roma, pareceu ofensivo ao papa. A
mésma impressão Filipe teve do legado papal, que mais tarde
mandou prender através de uma manobra legal. As cartas e
bulas dos dois poderosos ficaram cada vez mais ácidas, até
que, em prindpios de 1302, uma bula papal foi queimada na
presença do rei. No mesmo ano Filipe convocou os estados
gerais - o parlamento francês - onde pela primeira vez esteve
representado, ao lado dos "estados", tradicionais que eram
cI nobreza
e o clero, o "terceiro estado", a burguesia. Estes
estados gerais enviaram diversos comunicados para Roma, em
defesa do rei. A resposta de Bonifácio foi a famosa bula Unam
42 / A era dos sonhos frustrados
sanctam, que citamos
brevemente
no fim do volume anterior,
em que ele expunha a autoridade
papal em termos sem precedentes.
Bonifácio pôs em ação seu conceito elevado de autoridade
pontlffcia ordenando a todos os prelados franceses que viessem
a Roma em prindpios
de novembro, para tratar ali do caso de
Filipe. Este retribuiu proibindo que qualquer bispo ou abade
abandonasse
o reino, sob pena de confisco de todos os seus
bens. Além disto se apressou em fazer as pazes com Eduardo.
O papa, por seu lado, se esqueceu de que, na sua opinião, Alberto da Austria era um rebelde regicida, e fez um acordo com
ele, enquanto ordenava a todos os príncipes alemães que aceitassem o senhorio de Alberto. Em mais uma sessão dos estados
gerais franceses,
Nogaret acusou Bonifácio de ser um papa
falso, herege, sodomita e criminoso,
e a assembléia pediu a
Filipe que ele, como guardião da fé, convocasse um concílio
universal para julgar o papa usurpador.
Para cobrir sua retaguarda e assegurar o apoio do clero Filipe promulgou as "ordenanças da reforma",
em que confirmava os antigos privilégios
do clero francês.
Ao papa só restava a última arma que seus predecessores
tinham utilizado
contra os monarcas
recalcitrantes,
a excomunhão.
Reunido com seus conselheiros
em sua cidade natal
de Anagni, ele redigiu a bula de excomunhão,
que deveria ser
promulgada
no dia 8 de setembro. Sciarra Colonna e Guilherme de I'Jogaret, porém, sabendo que a confrontação
estava
chegando
ao seu ponto culminante,
viajaram para a Itália,
com a autorização de Filipe de obter crédito ilimitado dos banqueiros italianos. Com este dinheiro,
e o apoio dos muitos
inimigos que Bonifácio fizera durante sua carreira, eles organizaram um pequeno grupo armado.
No dia 7 de setembro de 1303, um dia antes da planejada excomunhão
de Filipe, .Sciarra Colonna e Guilherme de
Nogaret invadiram Anagni, e não tiveram problemas
para se
apossar da pessoa do papa, enquanto o povo saqueava sua casa
e as dos seus parentes. O propósito dos franceses era obrigar
o papa a abdicar. Mas o velho papa ficou firme, respondendo
simplesmente
que não abdicaria e que, se quisessem matá-lo,
"aqui está meu pescoço; aqui minha cabeça". Nogaret o esbo-
o papado
feteou, e depois o humilharam
tas em um cavalo não muito
sob a sombra da França /43
obrigando-o
a montar de cosmanso, conduzindo-o
pela ci-
dade.
Somente dois cardeais, Pedro da Espanha e Nícolau Boccasini, ficaram firmes no meio do tumulto.
I\/,ais tarde Boccasini
conseguiu comover o povo, que se sublevou, libertou o papa
e expulsou os franceses e seus partidários.
Mas o mal estava feito. Voltando
para Roma, Bonifácio não conseguiu inspirar mais nem uma sombra do respeito
que tivera antes. Mais ou menos um mês depois ele morreu.
E ainda depois da sua morte seus inimigos o perserguiram,
espalhando boatos de que ele tinha se suicidado, quando tudo
indica que ele morreu serenamente, rodeado dos seus seguidores
mais fiéis.
O momento era difícil para o papado, e os cardeais elegeram sem demora Boccasini papa, o mesmo que conseguira libertar Bonifácio.
Este papa, que tomou o nome de Benedito XI,
era um homem de origem humilde e hábitos irrepreensíveis,
membro da ordem dos empregadores de São Domingos. Tendo
em vista o poder de Filipe, o Belo, o mais sábio parecia ser seguir uma pol ítica de reconciliação, e foi isto que o novo papa
tentou fazer. Restituiu as Colonna as terras que Bonifácio VIII
tirara deles, começou a tentar fazer as pazes com Filipe, o Belo,
e perdoou a todos os inimigos de Bonifácio, menos Sciarra Colonna e Nogaret. I'vias suas gestões não tiveram bom êxito. Os
partidários
de Bonifácio se queixavam do que aos seus olho
eram concessões excessivas aos que tinham cometido
crimes
graves contra o papado. O grupo contrário não se considerava
satisfeito com as medidas conciliatórias
do pontífice.
lrnpelico
por Nogaret e outros, Filipe, o Belo, insistia em que fosse convocado um concílio para julgar o papa falecido. Benedito não
queria dar este passo, que seria um rude golpe para a autoridade
e o prestígio dos papas. O sucessor de Bonifácio,
portanto,
estava em dificuldades
sérias, acossado por membros dos dois
partidos, quando morreu. Logo se espalhou o boato de que ele
tinha sido envenenado com uns figos que alguém lhe enviou,
e cada grupo acusava seus opositores de ter cometido a ação
nefanda. Mas nunca foi provado se Benedito XI foi mesmo
envenenado.
44 / A era dos sonhos frustrados
o papado
em Avignon
Cs cardeais
não conseguiram
logo chegar a um acordo
sobre quem seria o sucessor de Benedito. Por um lado os partidários da boa memória de Bonifácio, sob a direção do cardeal
I\lateo Rosso Orsini, insistiam em que fosse eleito alguém que
seguisse a política do pontífice
ultrajado.
Contra estes, outro
grupo encabeçado
por Napoleão Orsini, sobrinho do anterior,
dócil aos manejos do rei da França, procurava um meio de eleger um papa também dócil. Depois de muitos meses de discussões os cardeais conseguiram chegar a uma conclusão, graças a
uma artimanha
de Napoleão Orsini e dos seus. Um dos candidatos que o partido dos outros Orsini tinha sugerido, no princfpio das negociações,
era Bertrand de Got, arcebispo de Bordeaux. Ele tinha sido nomeado por Bonifácio, e além disto
Bordeaux pertencia
naquela época à coroa inglesa. Por estas
razões o tio Orsini supunha que Bertrand se oporia aos des(gnios do rei da França. Mas durante o conclave o sobrinho enviou
agentes para Bordeaux,
e conseguiu
a adesão do candidato
originalmente
proposto por seu tio. Então, enquanto os defensores da memória de Bonifácio acreditavam
que seus opositores, vencidos pela resistência,
concordavam
com a eleição
de um dos seus candidatos,
o que na verdade estava sucedendo
era que este candidato secretamente
mudara de lado.
Um papa eleito nestas circunstâncias
não podia ser um
modelo de firmeza e retidão. De fato, o pontificado de Clemente V - assim Bertrand de Got se chamou depois de aceitar a
tiara papal - foi funesto para a igreja romana. Durante todo o
seu reinado este papa não esteve em Roma nem uma vez. Parece
que isto não foi causado por alguma decisão sua, mas simplesmente por seu caráter indeciso. Como interessava ao rei da
França ter o papa perto de si, seus agentes faziam todo o possfvel para adiar a partida do pont(fice para a Itália. Mês após mês,
ano após ano, Clemente viajou pela França e regiões vizinhas,
sem dar ouvidos às petições que os romanos lhe faziam, rogando-lhe que fosse à sua cidade. Um dos lugares em que ele
passou boa parte do seu pontificado
foi Avignon, cidade perto
da fronteira com a França que era propriedade
papal, e onde
seus sucessores fixaram
residência depois por muitos anos.
o papado
sob a sombra da França /45
A política de Clemente ficou clara na primeira nomeação
de cardeais, porque nove dos dez nomeados
eram franceses.
Em seu pontificado ele nomeou ao todo vinte e quatro cardeais,
e vinte e três eram franceses. Além disto vários eram seus sobrinhos ou parentes, e com isto Clemente fez chegar ao auge
o nepotismo,
que seria uma das grandes manchas da igreja
até o século XVI.
Mas foi principalmente
no que refere à memória de Bonifácio e à supressão dos templários
que Clemente se mostrou
instrumento
dócil aos des(gnios franceses. A questão da memória de Bonifácio era uma arma poderosa nas mãos dos franceses,
que sabiam que o novo papa não poderia permitir que fosse
convocado
um condlio
para julgar seu antecessor.
Por isto,
sempre ameaçando
Clemente com a possível convocação deste
condlio,
os franceses obtiveram
dele tudo o que desejavam
em termos de anulação das decisões de Bonifácio. As bulas
C/ericis laicos e Unam- sanctam foram revogadas, ou pelo menos
reinterpretadas
de modo que não dissessem o que Bonifácio
intentara. Os Colonna tiveram toda a sua dignidade restaurada.
Nogaret foi perdoado,
sob a condição de que em futuro não
determinado
fosse em
peregrinação
até a Terra Santa. Por
fim, em uma bula de 1311, Clemente declarava que, no que
referia às ações contra Bonifácio, Filipe tinha agido com um
"zelo
elogiável".
Todas estas concessões.
foram arrancadas
do papa que tinha sido feito arcebispo pelo próprio Bonifácio. E lhe foram arrancadas de' uma maneira tal, que sempre
parecia que os franceses,
mesmo tendo o direito de pedir
mais, estavam dispostos a ceder em alguma das suas exigências
mais extremas, e que por isto o papa deveria estar agradecido.
O caso dos templários
foi ainda mais vergonhoso.
No
fim das cruzadas a antiga ordem tinha perdido a razão da sua
existência.
Mas, pelo menos em teoria, os papas continuaram
pregando o ideal da cruzada para reconquistar
a Terra Santa.
Portanto,
mesmo se em certo sentido a ordem sem dúvida
estava destinada
a desaparecer,
também não restam dúvidas
de que o momento
e a maneira com que desapareceu
eram
devidos à avareza de Filipe, o Belo, e à debilidade de Clemente.
Através dos séculos os templários
tinham acumulado
grandes
riquezas e extensões de terra. Para uma monarquia pujante co-
46 / A era dos sonhos frustrados
mo a francesa, os bens e o poder dos templários eram um obstáculo para sua pol [tlca centralizadora. Em outras regiões da Europa outros monarcas davam mostras de sentimentos semelhantes. Pouco a pouco, em parte graças ao apoio da burguesia, os
reis iam enfraquecendo o poder de que os grandes senhores feudais tinham gozado até então. Mas o caso dos templários era diferente, pois, por ser uma ordem monástica, não podia ser submetida diretamente ao poder temporal. Por isto recorreu-se ao
subterfúgio de acusá-lo de heresia e imoralidade, e forçar o
débil Clemente V a suprimir a ordem e a dispor dos seus bens
em proveito da monarquia.
De repente, e de maneira totalmente ilegal, os templários
que se encontravam na França foram presos. Através de torturas eles foram obrigados a confessar os crimes mais vergonhosos. Se bem que muitos se negaram a trair seus companheiros
e suportaram valentemente os tormentos mais cruéis, mais
tarde foram reunidas declarações suficientes para justificar
o ato ilegal do rei. Alguns confessaram que a ordem dos templários na verdade era uma fraternidade oposta à fé cristã. Os
neófitos eram obrigados a praticar a idolatria, cuspir na cruz
e maldizer a Cristo. Outros declararam sob torturas que havia
a prática da sodomia na ordem, que era incentivada de diversas
maneiras. Entre os que se renderam diante dos suplfcios estava
Jacques de Molay, o grão-mestre da ordem, que até enviou
uma carta aos seus companheiros, pedindo-lhes que confessassem o que soubessem. Alguns pensam que Molay fez isto
porque estava certo de que as acusações eram tão absurdas
que ninguém lhes daria crédito, e que o escândalo seria tamanho
que o rei se veria obrigado a pôr em liberdade os cativos. Outros
acham que ele o fez simplesmente porque fraquejou sob as
torturas.
Quando o papa recebeu not(cias do acontecido, e de como
as confissões tinham sido arrancadas aos torturados, era de
se esperar que ele acorresse em defesa dos membros de uma
ordem que estava sob sua proteção, e cujos direitos o rei tinha
violado. Mas aconteceu algo muito diferente. Clemente ordenou que em todos os países os templários fossem presos, impedindo desta maneira qualquer atitude que o restante da ordem
pudesse tomar contra Filipe. Quando ficou sabendo que muitas
o papado sob a sombra da França /47
confissões tinham sido obtidas à força, tentou evitar estes
abusos declarando que, por causa da importância do caso,
ele mesmo serviria de juiz, e que por isto as autoridades locais
não tinham jurisdição para continuar as torturas. I'vlasisto foi
tudo que o débil papa fez em defesa dos que lhe tinham jurado obediência e confiavam em sua proteção. Enquanto
esperavam o dia do julgamento os templários continuaram
encarcerados.
No ano seguinte o rei e o papa deveriam se reunir em
Poitiers. Chegando nesta cidade, Clemente constatou que ele
era acusado de instigar as supostas práticas dos templários.
Nas sessões públicas, a instâncias de Nogaret, ele foi insultado
e ameaçado. Além disto, para acalmar sua consciência, foram
apresentados a ele alguns dos templários mais dóceis, que
repetiram em sua presença as confissões que o medo da dor
lhes tinha arrancado anteriormente. Por fim o papa concordou
em deixar o assunto nas mãos de um concflio que se reuniria
na cidade francesa de Viena.
No dia primeiro de outubro de 1311, quase quatro anos
depois do encarceramento dos templários, reuniu-se o concflio.
As esperanças de Filipe, de que a assembléia, dominada por
franceses, chegasse logo à condenação da ordem, mostraram
ser infundadas. A comissão que o concílio nomeou para analisar o assunto dos templários insistia em que era preciso ouvir
a defesa dos acusados. O rei trovejou e ameaçou; mas os prelados, talvez envergonhados com a fraqueza do seu I(der, permaneceram firmes. Por fim, enquanto a assembléia se demorava
com assuntos de menos importância, o rei e o papa chegaram
a um acordo. A ordem dos templários seria suprimida, não
através do julgamento, mas por decisão administrativa do papa.
Ao concflio não restou outra alternativa que concordar. Depois de outra série de negociações decidiu-se cumprir os desejos do rei da França, e transferir os bens dos templários
para os hospitalários. Esta transferência, entretanto, foi inexpressiva, pois demorou diversos anos, durante os quais o rei
fez chegar ao papa uma conta dos gastos do julgamento dos
templários, a ser cobrada dos bens da ordem suprimida antes
da transferência para os hospitalários, conta esta que quase
alcançava a totalidade destes bens.
48 / A era dos sonhos frustrados
Quanto aos acusados, muitos foram condenados à prisão
perpétua. Quando Jacques de Molay e um dos seus principais
assessores foram levados para a catedral de Nossa Senhora de
Paris para confessar publicamente os seus crimes, se retrataram.
Foram queimados vivos no mesmo dia.
Clemente V morreu em 1314. Seu pontificado foi um
sinal das condições sob as quais o papado existiria durante
diversas décadas. ~ verdade que nem todos os papas deste
perfodo quiseram transformar a igreja em um instrumento
da pol ftica francesa. Mas é verdade também que, às vezes
com pesar, se viram obrigados a apoiar esta pol ítica.
Não podemos narrar aqui os detalhes dos pontificados
que sucederam a Clemente. Basta assinalar alguns dos acontecimentos mais importantes, e por último destacar as principais
caracterfsticas do papado naqueles dias aziagos.
João XXII foi eleito passados mais de dois anos da morte
de Clemente, pois os cardeais não conseguiram chegar a um
acordo. Já que o novo papa tinha setenta e dois anos de idade
ao ser eleito, é de se supor que o conclave decidiu nomeá-lo
na esperança de que durante seu breve pontificado surgisse
outro candidato. Mas o papa ancião foi inesperadamente longevo e ativo. Sua preocupação principal durante seu longo
pontificado
(1316-1334) foi tentar restaurar a autoridade
papal na Itália. Sua polftica neste sentido consistiu em intervir
em uma série de guerras que dividiram a região, em que os
interesses papais se confundiam cada vez mais com os da França. Para poder sustentar esta pol ítica, que foi um fracasso
total, João XXII se viu obrigado a procurar aumentar as receitas do papado. Deve-se a ele em grande parte o complexo
sistema de impostos eclesiásticos cujo propósito era fazer
fluir para as arcas pontifícias os recursos necessários para
os desígnios políticos e os sonhos arquitetônicos do papado.
Como era de se esperar, em muitos casos este sistema de impostos eclesiásticos redundou em prejuízo da vida religiosa.
Benedito XII (1334-1342), ao mesmo tempo que prometia aos romanos regressar em breve à sede de São Pedro,
começou a construção de um grande palácio em Aviqnon,
que a partir de então seria a residência papal. Além disto, dando
a entender com isto que Roma não era a residência habitual
o papado
sob a sombra da França
/49
dos papas, ele fez buscar de lá os arquivos papais. Mesmo
usando os distúrbios
que havia na Itália como desculpa para
não ir a Roma, a verdade era que muitos destes distúrbios
eram causados pela pol ítica do papa, e que sua ausência contribu (a para aumentá-los.
Durante seu pontificado
ficou claro
que o papado estava nas mãos da coroa francesa, pois era
a época da guerra dos cem anos, e tanto os recursos econômicos
como a rede de informações
dos pontífices
foram colocados
à disposição dos franceses. Tudo isto alienou cada vez mais o
papado da Inglaterra e do seu principal ai iado, o Império.
O próx imo papa, C lemente V I (1342-1352), continuou
apoiando o esforço bélico francês. r,,'lesmo servindo às vezes
cie mediador entre os adversários, ele sempre o foi em beneHcio
e conveniência
da França. Além disto foi ele quem levou ao seu
ponto culminante
duas das piores características
do papado
de Avignon: o nepotismo
e o excessivo desperd (cio da sua
corte, que não podia ser diferenciada
da de qualquer outro
senhor poderoso.
Quando a peste bubônica irrompeu durante
o
grande palácio de Avignon, que Benedito XII
u partir de então 8 residlncia dos papas.
começou
(I
construir,
foi
50 / A era dos sonhos frustrados
o seu pontificado, não faltaram os que viram nela um castigo
do céu por causa do nível a que descera a vida eclesiástica.
Inocêncio IV foi um papa relativamente bom, principalmente se comparado com seu predecessor imediato. Ele sempre
sonhou em voltar para Roma, e com este propósito enviou
para Itália como legado o cardeal Gil Alvarez de Albornoz.
Este conseguiu restaurar em grande parte o poder e o prestígio
do papa na Itália. Mas tanto o papa como seu legado morreram
antes de conseguir levar o papado de volta para a cidade eterna.
Urbano V (1362-1370) era um homem de profundas
convicções e rígida disciplina monástica. Sua principal tarefa
foi simplificar a vida da cúria. Vários cortesãos papais de gostos
mais ostentosos foram despedidos. O próprio papa deu o exemplo, negando-se a deixar seu hábito monástico e usar as roupas
vistosas dos seus antecessores. Ele também incentivou o estudo
e tentou reformar a vida eclesiástica. Por fim, em 1365, graças
à obra tenaz e sábia que o cardeal Albornoz realizara, Urbano V
pôde se transferir para Roma, que o recebeu com grande júbilo. Mas o santo papa não tinha a sabedoria necessária para
enfrentar as complicações pol íticas da época. Por razões desconhecidas, e com certeza escusas, ele desfez a pol ítica de Albornoz e se lançou em novos empreendimentos fracassados. O
resultado foi tal que em 1370 ele decidiu abandonar Roma e
regressar para Avignon.
Gregório XI (1370-1378) fora nomeado cardeal por seu
tio Clemente VI com somente dezessete anos de idade. Mesmo
sentindo a necessidade de voltar para Roma, o fracasso de
Urbano V o assustava. Foi então que ocorreu a intervenção
de Santa Catarina de Siena.
Santa Catarina de Siena
Em 1347 nasceu em uma famflia numerosa no bairro
dos curtidores em Siena a que depois seria chamada de "Santa
Catarina de Siena". Já muito jovem ela demonstrou uma inclinação singular para a vida religiosa, e com dezessete anos de idade
se juntou às "irmãs da penitência de São Domingos". Esta
organização era muito flexível, e seus membros continuavam
vivendo em suas próprias casas, dedicando-se ali à penitência
o papado sob a sombra da França /57
Santa Catar/na da sten«, quadro anónimo aspsnhol, do
tas/a do MBSdows Musaum, DaI/as, Taxas.
SBCU/O
XVII.
Cor-
e à contemplação. Para que a jovem Catarina pudesse levar este
tipo de vida seu pai separou para ela um pequeno quarto, onde
passou diversos anos da sua vida contemplativa.
Esta contemplação ia além de exerdcios mentais e pensamentos piedosos. As visões e experiências de êxtase foram
sendo cada vez mais freqüentes na vida da jovem m(stica.
Finalmente, em 1366, com dezenove anos de idade, ela teve
a principal visão deste primeiro perfodo da sua vida. Nesta
52 / A
era dos
sonhos frustrados
visão lhe apareceu Jesus Cristo, contraindo com ela núpcias
m(sticas.
Depois desta experiência das "bodas místicas com Jesus"
o teor da vida religiosa de Catarina mudou. Até então ela
tinha se ocupado quase exclusivamente da sua própria vida
espiritual. Mas agora, seguindo o exemplo do seu esposo rnfstico, ela iniciou um ministério em prol da humanidade. Parte
deste ministério consistiu em servir aos pobres e enfermos.
Muitos diziam ter sido curados por sua intercessão, e quase
Bodas mtstices de Santa Catar/no. 6180 de Francisco
tesia do MeBdows Museum, DIlI/os, Toxss.
de Zurbaram.
Cor-
o papado
sob
8
sombra da França
/53
lodos afirmavam que somente a sua presença já trazia consigo
uma profunda paz espiritual.
A outra parte notável do seu ministério
foi o ensino.
Ao redor dela se formou um círculo de mulheres e homens
que escutavam avidamente seus ensinos sobre a vida espiritual.
Muitos destes discípulos
eram sacerdotes,
monges e nobres
que a excediam tanto em idade como em posição social. Ao
mesmo tempo de alguns destes discípulos
- principalmente
os dominicanos
- Catarina
aprendeu
boa parte da teologia
da igreja, evitando assim o perigo de tantos outros m ísticos,
de desconhecer
o pensamento
religioso do restante da igreja,
e em conseqüência
serem acusados de hereges.
Sua tama já era grande quando em 1370 ela teve outra
experiência,
que iniciou a terceira e última etapa da sua vida
religiosa. Durante quatro horas seu corpo esteve tão imóvel
que os que estavam junto dela pensavam que ela tinha morrido.
Ao despertar declarou que na verdade estivera com o Senhor,
e que lhe rogara que lhe permitisse ficar com ele. r·llas Jesus
tinha retrucado:
"Muitas
almas, para serem salvas, exigem
que tu voltes ....
A partir de agora, e para o bem das almas,
sairás da tua cidade. Eu sempre estarei contigo, e te guiarei,
e te trarei de volta."
Daquele momento em diante Catarina se dedicou à árdua
tarefa de levar o papado de volta para Roma. Para isto era
necessário restaurar a paz na Itália, e convencer o papa de que
era necessário voltar. Com este propósito ela viajou de cidade
em cidade.
Onde ela chegava as multidões
acorriam
para
vê-Ia. Dizia-se que aconteciam
milagres em sua passagem.
Ao papa ela escreveu diversas vezes dizendo-lhe que o Senhor
lhe tinha revelado que era da sua vontade que o papado voltasse
à sede romana. Estas cartas mostram ao mesmo tempo um
profundo
amor e respeito,
e uma firmeza inquebrantável.
Enquanto
o estado da igreja a entristece,
ela chama o papa
de "nosso doce pai". E em suas missivas mais respeitosas ela
se queixa, sem com isto se deixar levar pelo ódio ou pela amargura, de "ver Deus assim ultrajado".
Não é possível saber até que ponto tudo isto teve influência sobre Gregório XI. 1\1as é fato que por fim, no dia 17 de
janeiro de 1377, somente três anos antes da morte de Catarina
54 / A era dos sonhos frustrados
aos trinta anos de idade, Gregório XI entrou em Roma, em
meio ao júbilo generalizado.
Tinha terminado
o perfodo do
papado em Avignon, que foi chamado,
com certa razão, de
"cativeiro babilônico da igreja".
Catarina, como temos dito, morreu três anos depois de
ver realizado o seu anseio. Pouco menos de um século mais
tarde ela foi declarada santa pela igreja romana. E em 1970
Paulo VI lhe conferiu o título de "doutor ela igreja". Ela e
Santa Teresa de Jesus são as únicas mulheres que receberam
este honroso título do papado, até então reservado para uns
poucos teólogos homens.
A vida eclesiástica
As conseqüências
do papado em Avignon foram funestas
para o cristianismo
de fala latina - ou seja, de toda a cristandade ocidental.
As guerras constantes
na Itália, e o luxo das
suas cortes requeriam
dos papas de Avignon amplos recursos
econômicos.
Como as diversas facções na Itália se apossaram
dos territórios
que antes tinham constitu ído o "patrimônio
de São Pedro", o único recurso que restava aos papas era obter
fundos provenientes
dos demais países da Europa ocidental.
Os fiéis nestas regiões não estavam dispostos
a contribuir
voluntariamente
para tuco o que o papado queria gastar, e
por isto os pontífices de Avignon, particularmente
João XXII,
elaboraram todo um sistema de impostos eclesiásticos.
Estes impostos resultavam em prejuízo para a vida religiosa. Assim, por exemplo,
quando
um prelado era nomeado
para ocupar uma nova sede, as receitas recolhidas ali durante
o primeiro
ano, chamadas de "anata",
pertenciam
ao papa.
Por isto o papado tinha interesse em freqüentes transferências
de prelados.
Se uma diocese rica ficava vaga o papa podia
demorar para preencher
o cargo vacante, recolhendo
para si
as receitas da sede em questão. Estes hábitos, que pelo menos
tinham aparência
legal, faziam companhia
à simonia - nome
derivado do episódio em que Simão, o mágico, foi o primeiro
a querer praticá-Ia - que consistia em comprar e vender cargos
eclesiásticos.
O que o papa fazia com os prelados estes faziam com
seus subordinados.
Se tinham
comprado
sua diocese,
eles
o papado
sob a sombra da França
/55
precisavam se ressarcir dos gastos vendendo cargos inferiores,
e exigindo que as contribuições do povo, que tinham força de
lei, fossem cada vez mais elevadas. Portanto boa parte da
vida eclesiástica nada mais era que um sistema de exploração
dos escassos recursos do povo, arqueado debaixo de encargos
cada vez mais onerosos.
À simonia e à exploração se juntaram males relacionados,
como o nepotismo, o absentismo e o pluralismo. Como cargos
eclesiásticos eram ricas prendas, os papas de Avignon deram
rédeas soltas ao nepotismo, que consiste em nomear pessoas
para ocupar cargos não com base em sua habilidade, mas em
seu parentesco com quem é responsável pela nomeação. E o que
os papas faziam os bispos e arcebispos imitavam. O absentismo,
isto é, ocupar um cargo e residir em outro lugar, era cada vez
mais comum entre pessoas que não tinham nenhuma vocação.
E muitos ocupavam ao mesmo tempo diversos cargos eclesiásticos, sem cumprir as obrigações de nenhum deles - pluralismo.
A aliança estreita entre o papado e os interesses franceses,
unida a um crescente sentimento nacionalista, contribuiu
para aumentar a inimizade que boa parte da Europa tinha pelos
papas. Estava em andamento a guerra dos cem anos, e a I nglaterra e os imperadores alemães se separaram cada vez mais
do papado, que parecia servir aos interesses de seus inimigos,
França e Escócia. Em conseqüência obtinha cada vez mais
adeptos a teoria de que o estado tinha uma autoridade independente da do papa. Na Alemanha, por exemplo, o imperador
Lu Is da Baviera tentou fortalecer 'sua posição contra João
XXII apoiando Nlardlio de Pádua e Guilherme de Occam,
dois pensadores que se dedicavam a defender esta teoria. Assim como Dante poucos anos antes, eles diziam que a autoridade secular vinha diretamente de Deus, e não através do
papa.
Mardlio ensinava, além disto, que assim como Cristo e os
apóstolos foram pobres e se submeteram à autoridade secular,
assim também os prelados deveriam ser pobres, sem receber
mais que o estado decidia lhes dar, e deveriam se submeter
ao estado. Occam, por sua vez, declarava que o papado não
era necessário para a igreja, que consistia no conjunto dos
fiéis, e por isto poderia ser dirigida de outra maneira.
56 / A era dos sonhos frustrados
Tudo isto, bem como o modo com que foi acolhida a
pregação de Catarina de Siena e de muitos outros iguais a ela,
nos dá a entender que havia um profundo sentimento de insatisfação com a igreja e seus I(deres. Através de todo o período
que estudamos veremos que, enquanto a estrutura eclesiástica
parece fundir-se cada vez mais, surgem numerosos movimentos
reformadores. Uns tentavam reformar a igreja a partir do
papado. Outros tinham interesses mais locais. Alguns concentravam sua atenção na vida privada e na experiência mística.
Uns queriam reformar tanto os costumes como a teologia
da época, enquanto outros se contentavam com conclamar
as pessoas para uma dedicação nova. Foi uma época em que
a triste realidade deu lugar a muitos e muito nobres sonhos.
Mas também foi uma época em que quase todos estes sonhos
acabaram frustrados.
III
O Grande
Cisma do Ocidente
Por causa do perigo e das
ameaças do povo ele foi
entronizado e coroado, e
chamado papa e apostólico.
Mas de acordo com os santos
pais e a lei eclesiástica
deveria ser chamado apóstata,
anátema, anticristo, e
perversor e destruidor da fé.
Conclave rebelde contra Urbano VI
o sonho de Catarina de Siena parecia ter se cumprido
quando Gregório XI levou o papado de volta para Roma. Mas
as condições pol íticas que tinham causado o "cativeiro babilônico da igreja" não tinham desaparecido. Em pouco tempo
as dificuldades eram tão grandes que Gregório chegou a considerar a possibilidade de regressar a Avignon, e provavelmente
o teria feito se a morte não o tivesse surpreendido. E então o
sonho de Catarina se transformou em um pesadelo ainda pior
que o papado de Avignon.
Com a sede pontiffcia vaga, o povo romano receou que o
novo papa quisesse voltar para Avignon, ou ao menos fosse
um joguete nas mãos dos interesses franceses, como tantos
dos seus predecessores mais recentes o tinham sido. Estes
receios não eram infundados, pois os cardeais franceses eram
mais numerosos que os italianos, e vários deles tinham dado
58 / A era dos sonhos frustrados
mostras que preferiam Avignon a Roma. O que o povo temia
era que os cardeais fugissem, e, uma vez a salvo, se reunissem
em outro lugar, possivelmente
dominados
pela ala simpática
ao rei da França, e elegessem um papa francês que decidisse
residir em Avignon. Por esta razão o povo romano se amotinou
e impediu a fuga dos cardeais. O lugar onde o conclave deveria
se reunir foi invadido por multidões
armadas, que somente
concordaram
em sair depois de receberem permissão para vigiar
o ediffcio, para ter certeza de que os cardeais não escapariam.
Enquanto
tudo isto acontecia
o povo gritava, exigindo que
fosse nomeado
um papa romano,
ou pelo menos italiano.
Nestas circunstâncias
o conclave teve muitas dificuldades
para deliberar. Os cardeais franceses, que de outro modo teriam
podido dominar a eleição, estavam divididos, pois o nepotismo
dos papas anteriores
resultara na nomeação
de um bom número de cardeais procedentes
da diocese de Limoges. Estes
estavam decididos a fazer eleger um dentre eles, e o restante dos
franceses estava decidido a evitá-lo. Entre os italianos o mais
poderoso era Jacobo Orsini, que ambicionava
a tiara papal, e
possivelmente
instigava o levantamento
do povo.
I\;ais tarde, enquanto
o povo gritava no primeiro andar
do ediffcio, os cardeais, reunidos no andar de cima, decidiram
eleger Bartolomeu
Prignano,
arcebispo
de Bari. Mesmo não
sendo romano, ele pelo menos era italiano, e com isto o povo
se acalmou. No domingo da ressurreição Prignano foi coroado
com a participação
de todos os cardeais que o tinham eleito,
com grande pompa, e tomou o título de Urbano VI.
Em meio àquela- igreja corrupta
a eleição de Prignano
pareceu ser um ato da providência.
De origem humilde e hábitos austeros, não havia dúvidas de que o novo papa se dedicaria à reforma que a igreja tanto precisava. Nisto era inevitável
que ele se chocasse com os cardeais, que estavam acostumados
a levar uma vida ostentosa,
sendo que muitos consideravam
seu cargo como uma maneira de enriquecer a si e seus familiares.
Por isso, mesmo que Urbano fosse um homem cuidadoso e prudente, sua posição sempre seria difícil.
Mas Urbano não era nem cuidadoso
nem prudente.
seu afã de erradicar o absentismo,
ele chamou os bispos
No
que
o grande Cisma do Ocidente
/59
formavam sua corte, e que por causa disto não estavam em
sua diocese, de traidores e perjuros. Do púlpito ele trovejou
contra o luxo dos cardeais, e depois declarou que qualquer
prelado que recebesse qualquer privilégio com isto já era culpado de simonia, e merecia ser excomungado. Em seus esforços
para livrar o papado da sombra da França, ele decidiu nomear
um número tão grande de cardeais italianos que os franceses
acabaram perdendo seu poder. Só que antes de dar este passo
ele cometeu a indiscrição de anunciar seus projetos aos franceses.
Tudo isto constitu ía a tão ansiada reforma por que anelavam os fiéis de toda a cristandade. Mas, provocando a inimizade dos cardeais, Urbano em pouco tempo começou a ser
chamado de louco por eles. E suas atitudes em reação a estes
rumores até pareciam confirmá-los. Além disto, ao mesmo
tempo em que se proclamava I[der da reforma de toda a igreja,
ele começou a colocar seus parentes em posições de destaque,
tanto eclesiásticas como temporais. Com isto seus opositores
podiam dizer que o que o motivava não era o zelo reformador,
mas a sede pelo poder.
Com o tempo os cardeais o foram abandonando. Primeiro
os franceses, depois os italianos, fugiram para Anagni, e ali
declararam, no manifesto que citamos no começo deste cap ftulo, que Urbano tinha sido eleito sem que o conclave tivesse
liberdade de ação, e que esta eleição sob pressão n5 tinhu
validade. Os que fizeram esta declaração estavam se esquecendo
de que quase todos eles tinham estado presentes não só na eloi
cão, mas também na proclamação e coroação de Urbano,
sem que sequer um levantasse sua voz em protesto. E também
esqueciam que durante diversos meses eles tinham formado
a corte de Urbano, considerando-o papa verdadeiro, sem pôr
em dúvida a validade da eleição.
A resposta de Urbano foi simplesmente nomear vinte
e seis novos cardeais de entre os seus adeptos. Se os outros
cardeais não o aceitassem como o papa legftimo, eles perderiam
seu poder. Por isto não lhes restava outra alternativa que declarar que, já que a eleição de Urbano não era válida, a nomeação
dos novos cardeais também não o era, e proceder à eleição
de um novo papa.
60 / A era dos sonhos frustrados
Reunidos em conclave, os mesmos cardeais - exceto um que tinham eleito Urbano, e que por algum tempo tinham
servido a ele, elegeram um novo pondfice. Os cardeais italianos
que estavam presentes se abstiveram de votar, mas não protestaram.
Surgiu assim um fenômeno sem precedentes na história
do cristianismo. Diversas vezes houvera pessoas que declaravam
que o papa era ileg(timo. Mas pela primeira vez havia dois papas
eleitos pelo mesmo colégio de cardeais. Um deles, Urbano VI,
fora repudiado pelos que o tinham eleito, e criara seu próprio
colégio de cardeais. O outro, que tomou o tftulo de Clemente
VII, tinha o apoio dos cardeais que representavam a continuidade com o passado. E toda a cristandade ocidental se viu
obrigada a se decidir por um ou outro pretendente.
A decisão não era fácil. Urbano VI tinha sido eleito legitimamente, apesar dos protestos atrasados dos que o tinham
eleito. Seu rival, só pelo fato de tomar o nome de Clemente,
se mostrava disposto a seguir a tradição do papado de Avignon.
Mas também era verdade que Urbano apresentava cada vez
mais evidências de estar louco, ou pelo menos embriagado
com seu poder, e que Clemente era um diplomata hábil e
moderado - se bem que a diplomacia não bastava para recomendar este pretendente ao papado, pois anteriormente ele estivera envolvido em episódios sangrentos, e nem mesmo seus partidários defendiam sua piedade e devoção.
Assim que se viu eleito, Clemente tentou se apoderar de
Roma, onde se entrincheirou no castelo de Santo Angelo.
Mais tarde, porém, ele foi derrotado pelas tropas de Urbano,
e se viu obrigado a sair da Itália e estabelecer sua residência
em Aviqnon. O resultado foi que a partir de então houve dois
papas, um em Roma e outro em Avignon. Os dois imediatamente enviaram legados por toda a Europa, tentando garantir
para si o apoio dos soberanos.
Como era de se esperar a França optou pelo papa de
Avignon, sendo acompanhada nesta decisão pela Escócia, sua
antiga aliada na guerra contra a Inglaterra. Este último país
seguiu o caminho oposto, pois o papado de Avignon era contrário aos seus interesses nacionais. Também a Escandinávia,
Flandres, Hungria e Polônia se declararam a favor de Urbano.
o grande Cisma do Ocidente /61
Na Alemanha
o imperador
fez o mesmo, pois era aliado da
Inglaterra contra a França. Muitos dos seus nobres e bispos
independentes,
no entanto,
se opuseram
a esta decisão, ou
estavam indecisos entre os dois pretendentes.
Na península
ibérica, Portugal mudou de parecer diversas vezes; Castela e
Aragão, que a princfpio se inclinavam para o lado de Urbano,
mais tarde optaram
pelo grupo de Avignon, graças à hábil
pol ítica do cardeal Pedro de Luna. t\a Itália cada príncipe
ou cidade seguiu seu próprio caminho, e o reino de Nápoles
mudou de partido diversas vezes.
Catarina de Siena dedicou os poucos anos de vida que lhe
restavam para defender a causa de Urbano. Mas esta causa era
diffcil de ser defêndida,
pois o papa de Roma decidiu colocar
seu sobrinho
Butillo Prignano sobre o principado
de Cápua,
especialmente
criado para ele. Esta atitude o levou a guerras
injustificáveis,
que fizeram com que ele perdesse parte do
apoio que tinha na Itália. E quando alguns dos seus próprios
cardeais tentaram aconselhá-lo
a seguir uma pol ítica diferente
Urbano os mandou
encarcerar
e torturar.
Até hoje não se
sabe como morreram diversos deles.
Clemente
VII, por seu lado, adotou uma pol ítica bem
mais cautelosa,
e, mesmo não conseguindo
fazer valer sua
autoridade
no resto da Europa, pelo menos se fez respeitar
nos países que o reconheciam
como papa, dando assim certo
prestígio ao papado avinhonês.
Como o cisma não se baseava somente na existência de
dois papas, mas também
na de dois partidos
formados
ao
redor deles, a morte de um deles não seria suficiente
para
subsaná-lo. Assim que Urbano faleceu, em 1389, seus cardeais
nomearam
Bonifácio IX. Mais uma vez o nome adotado pelo
novo papa indicava que ele seguiria a política de Bonifácio
VIII, cujo grande inimigo tinha sido a coroa francesa. Este
novo Bonifácio
se esqueceu
totalmente
da reforma,
e seu
governo foi caracterizado
pelo auge a que chegou a simonia.
O cisma em si estimulava a simonia. Os dois rivais tentavam
vencer seu adversário, e para isto precisavam de dinheiro. Por
esta razão a igreja se transformou
em um sistema de impostos
e exploração,
mais terrível que os piores tempos do "cativeiro
babilõnico".
62 / A era dos sonhos frustrados
Em meio a estas circunstâncias
os teólogos da universidade
de Paris começaram
a pensar em um meio de unir novamente
a cristandade
ocidental.
Em 1394 eles apresentaram
ao rei
três alternativas para acabar com o cisma: a primeira era que os
dois pretendentes
renunciassem,
e fosse eleito um novo papa;
a segunda previa a negociação entre os dois partidos, sujeita a
arbitragem;
e a terceira,
um condlio
universal.
Destas três
alternativas
a universidade
preferia a primeira, pois para poder
aplicar as outras duas era necessário resolver as difíceis questões
de quem seriam os árbitros, ou quem convocaria o concílio.
O rei seguiu os conselhos da universidade,
e por isto, assim
que soube da morte de Clemente VII, pediu aos cardeais de
Avignon que não elegessem outro papa, na esperança de poder
obrigar o pretendente
romano a abdicar.
Mas os cardeais temiam que se ficassem sem papa sua
causa perderia sua força, e por isto se apressaram em eleger
o cardeal Pedro de Luna, que tomou o título de Benedito
XIII. Se depois disto o rei quisesse insistir na recomendação
da universidade,
teria de enfrentar os dois partidos, cada um
com seu próprio papa, e não um partido acéfalo.
Carlos VI, o rei da França, insistiu no caminho que tinha
traçado.
Seus embaixadores
tentaram
persuadir
Benedito
a
renunciar,
enquanto
outros se empenhavam
em conseguir o
apoio da Inglaterra e do Império, para que estas duas potências
obrigassem o papa romano a fazer o mesmo. O papa avinhonês,
todavia, que agora era o espanhol Pedro de Luna, se negou a
abdicar. Então a igreja da França, reunida em concílio solene,
lhe retirou a obediência, e pouco depois as tropas de Carlos VI
sitiaram Avignon, no propósito de fazê-lo renunciar pela força.
Pedro de Luna, entretanto,
ficou firme. I\.lesmo abandonado
pelos seus cardeais, ele reforçou a defesa de .L\vignon e resistiu
ao cerco francês, até que conseguiu fugir disfarçado. Sua obstinação rendeu frutos, pois pouco tempo depois as circunstâncias
pol (ticas mudaram, e a F rança voltou a se declarar a seu favor.
Todos estes acontecimentos,
porém,
mostravam
claramente que a cristandade
estava cansada do cisma, e que se os
dois papas não dessem sinal de estarem dispostos
a resolver
a questão,
haveria outras pessoas que a resolveriam em seu
lugar. Isto levou Benedito XIII a iniciar conversações com seu
o grande
Cisma do Ocidente /63
rival de Roma. Seu propósito não era nem ceder nem renunciar,
mas ganhar tempo enquanto se preparava para vencer seu
adversário, e então obrigar a Europa a aceitar um fato consumado. Seus embaixadores se entrevistaram com Bonifácio IX,
e depois com o sucessor deste, Inocêncio VII.
Com a morte de Inocêncio, entretanto, o partido romano
tomou a iniciativa. O novo papa, Gregório XII, declarou ao ser
eleito que estava disposto a abdicar se Benedito fizesse o mesmo. Isto forçou o papa avinhonês a agir, pois se não o fizesse
ele seria culpado por continuar o cisma, perdendo assim o
apoio da França e de outros países. Os dois papas marcaram
um encontro em Savona, para setembro de 1407. Mas logo
surgiram dificuldades, e Gregório não foi ao encontro. Graças
a uma longa série de negociações encetadas por cardeais dos
dois partidos os dois rivais foram se aproximando até restarem
poucos quilômetros de distância entre eles. Mas em maio
de 1408 a entrevista ainda não tivera lugar, e Gregório se
negava a ir até onde Benedito o esperava.
Diante desta negativa categórica os cardeais do partido
romano abandonaram seu I (der, e iniciaram por conta própria
conversações com o partido avinhonês. Ao mesmo tempo
a França retirou seu apoio a Benedito, e assim os dois papas
estavam desamparados, enquanto o restante da cristandade
procurava por seus próprios meios resolver o cisma. O movi
mento conciliar, que estivera em formação já há muito tcmp ,
via chegar a sua hora.
IV
A reforma
conciliar
Um concílio pode retirar os
privilégios dos papas, e não há
apelação possível contra ele. Pode
também eleger, rebaixar ou depor
o papa. Pode fazer novas leis, e
anular as antigas.
Dietrich de Niem
Durante a "era dos gigantes", quando a igreja ameaçava
se dividir por causa da controvérsia ariana, Constantino decidiu convocar uma assembléia a que viessem bispos de todo
o Império. A partir daquele concílio de Nicéia, e durante
vários séculos, cada vez que a igreja se encontrava em situação
semelhante apelava-se ao recurso de convocar um concílio
universal ou "ecumênico".
Durante a "era dos altos ideais"
o poder do papa era tão grande que os concílios estavam subordinados aos papas. Exemplo disto foi, como vimos, o IV ConcfIio de Latrão, convocado por Inocêncio '" para aprovar uma
série de medidas que ele e sua cúria tinham determinado de
antemão.
Mas agora, com as experiências tristes do "cativeiro babilônico" e do Grande Cisma do Ocidente, começou a predominar a idéia de um concílio que não somente julgasse as ações
dos papas, mas reformasse a igreja, resolvendo os problemas
que os papas tinham criado com suas ambições, disputas e
corrupção.
66 / A era dos sonhos frustrados
A teoria conciliar
Se bem que os papas e cardeais parecessem estar surdos
durante muito tempo, na verdade toda a cristandade
ocidental
estava cansada dos desmandos
dos potentados
eclesiásticos,
e anelava por uma reforma moral da igreja. Durante o período
do "cativeiro
babilônico"
as vozes de protesto
vinharr, principalmente
dos países que estavam em guerra com a França.
Mas o Grande Cisma criou um clima universal de impaciência
com as maquinações
dos papas. Como eram os eruditos que
constantemente
punham na forma escrita seu inconformismo,
vemo-nos
obrigados
a dirigir nossa atenção
principalmente
para estes testemunhos.
Mas ao fazermos
isto não devemos
esquecer que para as massas não se tratava somente do escândalo que era a existência de dois papas, mas também e sobretudo da exploração
econômica
que a ostentação
e as necessidades políticas
e militares dos contendentes
acarretavam.
p\
simonia,
o absentismo
e o pluralismo,
que incendiavam
a
ambição
dos poderosos,
resultavam
em impostos
cada vez
mais elevados para as massas. Assim a igreja, que em seus
primeiros séculos e mesmo depois em seus melhores momentos
fora defensora
dos pobres, se converteu
em mais um peso
que oprimia as classes já oneradas.
Enquanto isto, principalmente
nas universidades,
o descontentamento
ia assumindo
formas teológicas.
Os estudiosos
sabiam que o bispo de Roma nem sempre tivera as prerrogativas
que agora exigia, e de que gozara nos séculos anteriores. A este
conhecimento
se unia o antigo espírito do franciscanismo,
que
não morrera, e para o qual a pobreza voluntária
era uma das
virtudes mais recomendáveis.
Por isto muitos dos que se opunham à demasiada autoridade do papa e advogavam um concílio
que reformasse
a vida e os hábitos da igreja eram eruditos,
franciscanos, ou as duas coisas.
A teoria conciliar tinha velhas raízes históricas. Para nossos
efeitos podemos dizer que o grande mestre dos principais expoentes do conciliarismo
foi Guilherme
de Occam, ao qual já
fizemos referência quando falamos do "cativeiro
babilônico"
do papado, e que ocupará boa parte da nossa atenção, quando,
no próximo capítulo,
tentaremos
resumir a teologia da época.
A reforma conciliar /67
A maior parte dos teólogos medievais de antes do século
XIV estivera convicta de que as idéias universais eram anteriores às coisas concretas incluídas nestas idéias. Assim, por exemplo, a idéia de "cavalo"
era anterior aos cavalos individuais,
e tem uma realidade
própria,
à parte destes. Esta posição,
que veio a ser clássica, é chamada de "realismo",
porque afirmava que as idéias universais eram reais. Occam e boa parte da
sua geração teológica,
pelo contrário,
criam que real é antes
de tudo o indivíduo
concreto,
e que as idéias universais são
nomes ou conceitos que existem somente na mente. Por isto
são chamados de "nominalistas".
Aplicando
isto à igreja, a conclusão
a que chegavam
Occam e seus seguidores era que a igreja não era uma realidade
celestial ou ideal, representada
na terra pelo papa e a hierarquia
derivada dele, mas era o conjunto dos fiéis. Os fiéis constituem
a igreja, e não vice-versa, Se isto é verdade, conclui-se que a
autoridade
eclesiástica
não está arraigada intrinsecamente
no
papa, mas nos fiéis, de quem o pontífice
deriva sua posição.
Em conseqüência,
um concílio
universal
que representasse
os fiéis de toda a cristandade
deveria ter mais autoridade que
o papa.
Isto não quer dizer que o concílio seria necessariamente
infalfvel, pois, como veremos mais adiante, Occam não crê
que haja instituição
que não erre, e insiste na Iiberdade de
Deus para se revelar de acordo com sua vontade soberana.
Mas significa que, em um caso em que a igreja claramente
pro
cisa de uma reforma, e o papa se nega a dirigi-Ia, um concílio
universal tem a autoridade
necessária para reformar a igreja,
mesmo contra a vontade do papa.
Occam
desenvolveu
estas teorias enquanto
o papado
estava em Avignon.
Depois, com o Grande Cisma, quando
ficou claro que os dois contendentes
estavam mais interessados
em seu próprio poder que no bem-estar da igreja, as teorias
conciliaristas
receberam um novo ímpeto. Para seus principais
expoentes
a idéia de um concílio universal não somente seria
uma maneira de pôr fim ao cisma, mas também o melhor
instrumento
para reformar a igreja. Os graves males da época
eram então atribu ídos à excessiva
central ização do poder
eclesiástico.
P. função do concílio, portanto,
não poderia ser
68
IA
era dos sonhos frustrados
limitada à escolha entre os dois papas existentes, ou à nomeação de outro em seu lugar, mas o concflio teria de se ocupar
diretamente
da reforma da igreja, e parte desta reforma era
a descentralização
do poder. Como muitos diziam, "sem concflio não há reforma".
Durante muito tempo todas estas idéias foram discutidas
nas universidades,
e nas principais cortes da Europa. Mas sempre
existia a dificuldade
de que os conciliaristas
não concordavam
entre si quanto a quem deveria convocar o tão ansiado concílio.
Durante
os últimos séculos os papas tinham convocado
os
condi ios. Mas agora havia dois papas, e por isto a convocação
por um deles faria perigar a imparcialidade
da assembléia.
Como os primeiros concflios foram convocados
pelos imperadores, alguns argumentavam
que esta tarefa cabia ao imperador,
ou pelo menos a soberanos temporais.
Todos estes soberanos,
no entanto, simpatizavam
com um ou outro dos pretendentes,
e por isto um concílio
reunido por iniciativa deles também
não poderia ser o melhor caminho
para reformar
a igreja.
As coisas estavam nisto quando os avanços e retrocessos
de Benedito XIII e Gregório XII levaram os cardeais a intervir
diretamente
na questão, abandonando
seus respectivos papas
e fazendo uma convocação
conjunta para um grande concílio
universal, que deveria se reunir em Pisa no ano seguinte (1409).
o concílio
de Pisa
Enquanto
os cardeais reunidos
em Pisa acusavam seus
ex-I íderes dos crimes mais baixos, estes apressadamente
fugiram
para se esconder,
Benedito
XIII em Perpinhão,
que então
fazia parte de Araqão, e Gregório XII em Veneza, sua cidade
de erigem. Assim que se viram a salvo os dois tentaram se adiantar aos cardeais, convocando
cada qual um concílio universal.
O concílio de Benedito XIII teve certo êxito inicial, pois
um respeitável
número de prelados atendeu ao seu convite.
I\:as não tardaram a surgir discórdias entre os presentes, e pouco
a pouco todos foram abandonando
o lugar, até que a assembléia
se dissolveu.
Benedito
então se retirou para a fortaleza de
Penhíscola,
onde viveu mais quinze anos, sempre insistindo
em que ele era o legítimo sucessor de São Pedro.
A reforma conciliar /69
Quanto a Gregório, sua situação era ainda mais precária,
pois não tinha um reino que o protegesse, como Benedito
tinha Aragão. Seu pretenso concflio nunca passou de um punhado de partidários de quem ninguém fez caso. Por fim ele se
retirou para R(mini.
Enquanto isto chegara o dia marcado para o concílio
de Pisa. Na catedral desta cidade se reuniu uma multidão
que inclu (a, além dos cardeais dos dois colégios, um grande
número de arcebispos, bispos, abades e ministros gerais de
ordens, bem como várias centenas de doutores em direito canõnico e em teologia.
Como todos os presentes sabiam que a legalidade do concílio teria de ser inapelável, as sessões foram extremamente
bem dirigidas. Quando chegou o momento de julgar o caso dos
dois papas, foi seguido com todo o cuidado o processo formal.
Por três dias consecutivos, na porta da catedral, eles foram chamados pelo nome (isto é, seus nomes antes de serem papas,
Pedro de Luna e Angelo Correr), e solicitados a se apresentarem, ou a enviarem representantes. Quando, como era de se
esperar, esta convocação não teve resultados, procedeu-se a
um julgamento formal. Depois de muitos dias de testemunhos
contra os dois papas, eles foram depostos, e o papado declarado vago:
o
santo concílio ecurneruco, que representa a católica
Igreja de Deus, e a quem corresponde julgar este assunto,
reunido pela graça do Esp(rito Santo na catedral de Pisa,
e depois de ter escutado os que querem a extirpação do
cisma abominável e profundo, e a união e restauração da
nossa santa mãe igreja, contra Pedro de Luna e Angelo
Correr (que alguns chamam de Benedito XIII e Gregório
X II), declara que os crimes e abusos destes dois, como
foi demonstrado diante do sacro condi ia, são verdadeiros
e conhecidos. Os dois pretendentes, Pedro de Luna e
Angelo Correr, foram e continuam sendo cismáticos manifestos, partidaristas obstinados, que aprovam, defendem
e promovem o cisma. São evidentemente hereges que se
apartaram da fé. Cometeram perjúrio, e suas promessas
nada valem. Sua disputa manifesta e repetida escandaliza
70 / A era dos sonhos frustrados
a igreja. Seus enormes abusos e iniquidades os fazem
indignos de toda honra e dignidade, e em particular do
pontificado supremo. E mesmo se os cânones da igreja
já mostram que eles são automaticamente
rejeitados por
Deus e separados da igreja, nós, através desta sentença
definitiva, os depomos, rejeitamos e expulsamos, e proibimos aos dois que continuem se chamando de pontffices supremos, ao mesmo tempo que declaramos que o
papado está vago.
Notemos que este decreto não declara que a eleição deste
ou daquele papa tenha sido nula. Se a questão fosse levantada
desta maneira, o concílio se teria dividido, pois nele estavam
presentes cardeais que tinham votado neste ou naquele pretendente. Portanto, em vez de tentar resolver a questão, como
tinha sido feito até então, com base em que os dois pretendentes não tinham sido eleitos legalmente, ela foi resolvida
deixando este problema de lado, e o concílio os depôs por
causa de sua conduta indigna. Era impossível determinar qual
dos dois era o papa legftimo, mas era de se supor que um dos
dois o fosse. Por isto o concílio declarou indiretamente que
um papa, mesmo sendo eleito de maneira correta, poderia ser
julgado e deposto por uma assembléia que representasse toda
a igreja.
Com o papado vago, era necessário eleger um novo papa.
Com a presença dos cardeais dos dois partidos esta eleição podia
ser realizada imediatamente. Mas a assembléia tinha outro propósito fundamental em sua agenda. Não bastava eliminar o
cisma. Era necessário dar pelo menos os primeiros passos em
direção à reforma que todos queriam. E para muitos dos presentes uma das causas principais dos males que afligiam a igreja
era a excessiva centralização do poder. Por isto, antes de um
novo papa ser eleito e a reunião dissolvida, era necessário
garantir que o pont(fice eleito reconheceria a necessidade do
concflio, e estaria disposto a acatar sua autoridade. Por esta
razão todos juraram:
Todos e cada um de nós, bispos, sacerdotes e diáconos
da santa igreja romana, reunidos na cidade de Pisa para
terminar o cisma e restaurar a unidade da igreja, empe-
A reforma conciliar /71
nhamos nossa palavra de honra e prometemos
... que,
se um de nós for eleito papa, ele continuará
o presente
concílio,
sem dissolvê-lo nem permitir,
até onde estiver
ao seu alcance, que seja dissolvido, até que tenha ocorrido
a reforma adequada, razoável e suficiente da igreja universal, tanto em seu cabeça como em seus membros.
Pouco depois o conclave se reuniu e elegeu Pedro Filareto,
o arcebispo de Milão, que tomou o nome de Alexandre
V.
Depois desta eleição o concflio decretou diversas medidas em
favor da reforma eclesiástica, e se declarou dissolvido, congratulando-se por ter terminado o cisma e dado os primeiros passos
em direção a uma reforma que eliminaria males tais como a
simonia e o absentismo.
Os três papas
Mas o concílio de Pisa, longe de resolver o cisma, o complicou, pois agora havia três papas, e cada um se considerava
legCtimo sucessor de São Pedro e cabeça da igreja. Se bem que
a maior parte dos países da Europa ocidental aceitava tanto o
concílio de Pisa como o papa nele eleito, Benedito ainda era
considerado
papa legCtimo por toda a pen fnsula ibérica e pela
Escócia. Gregório, por seu lado, contava com o apoio vacilante de Nápoles e Veneza, e com a ajuda decidida dos r"lulu
testa, que eram donos da cidade de R (mini. Portanto,
m 'SIlIU
sendo o papa pisano sem dúvida o que gozava do reconheci
mento mais geral, os outros dois ainda eram capazes de continuar mantendo suas cortes e pretensões.
Em vez de atacar imediatamente
seus dois rivais, Alexandre
V se dedicou a consolidar sua posição confirmando
quase todos
os cargos e honras que tinham sido conferidos pelos dois papas
que o concílio tinha declarado depostos. Mas isto queria dizer
que, mesmo sendo ele um franciscano de vida austera e leal defensor da reforma, esta foi relegada a segundo plano, pois os
privilégios confirmados
por ele eram precisamente
o pior dos
males que deveriam ser erradicados.
No momento sua principal
tentativa de reforma consistiu em dar mais direitos e ingerência
nos assuntos eclesiásticos
aos seus companheiros
de ordem.
72 / A era dos sonhos frustrados
Como os franciscanos tinham feito votos de pobreza, e muitos
deles ainda levavam estes votos muito a sério, Alexandre parece
ter esperado que sua ordem pudesse ser seu braço direito quando chegasse a hora de se dedicar totalmente à reforma da igreja.
Mas a única coisa que Alexandre conseguiu obter foi a inimizade do restante do clero, para quem os mendicantes
eram um
estorvo, e que estava insatisfeito porque nada tinha sido feito
contra os males que afligiam a igreja quando o papa morreu,
pouco mais de dez meses depois de ser eleito.
Alexandre
morreu em Bologna, e ali mesmo os cardeais
se reuniram para eleger seu sucessor, que acabou sendo o menos
digno deles, Baltasar Cossa, que tinha começado sua carreira
como pirata e na época era dono - mais que dono, tirano de Bologna. Há diversas versões sobre o que aconteceu no conclave, mas não resta dúvida de que o fato de estarem reunidos
em Bologna pesou sobre a decisão dos cardeais, e conta-se
até que Cassa rejeitou altaneiramente
todos os candidatos
propostos, e que por fim tomou a estola papal, colocou-a sobre
os seus ombros, e declarou: "Eu sou o papa".
Seja qual for o modo com que o novo papa foi eleito, o
fato é que ele tomou o nome de João XXIII, e que logo tentou
encher suas arcas através de uma guerra contra Ladislau de
Nápoles, onde esperava obter rica presa. Mas as coisas não saíram como João esperava, e ele logo se viu só e ameaçado pelos
napolitanos, que quase tomaram sua cidade.
Em meio a estas dificuldades
João XXIII pensou que
a melhor maneira de garantir a segurança de Roma era convocar um concflio que se reunisse na cidade. Ladislau não se
atreveria a agir militarmente
contra a sede de uma tão augusta
assembléia. Mas o pretenso concflio acabou sendo uma piada.
Bem poucos prelados se atreveram
a ir para uma cidade tão
em perigo.
Quando a pequen (ssima assembléia por fim se reuniu, os
cronistas
nos contam
que, quando durante a celebração
da
missa foi implorada a descida do Esp(rito Santo, apareceu um
corvo dando gritos. O incidente se transformou
em comédia
quando alguém comentou: "Que forma rara assumiu o Espfrito
Santo!" No dia seguinte novamente foi necessário interromper
as sessões para expulsar o corvo do recinto com varas e pedradas.
A reforma conciliar /73
Enquanto sucedia tudo isto os outros dois papas, Benedito
XIII e Gregório XII, insistiam em suas pretensões. E, depois
de uma breve trégua, Ladislau voltou a ameaçar Roma. Ao papa
João não restou outro remédio que fugir da Itália e se refugiar
sob a ala do imperador da Alemanha, Sigismundo. Foi isto que
levou ao concílio de Constança e ao fim do cisma.
Antes de narrar estes acontecimentos precisamos nos deter
para esclarecer uma dúvida que pode ter surgido na mente do
leitor. Como é que o papa de que estamos falando se chamava
João XXIII,
se houve no século XX outro famosíssimo papa
com o mesmo nome e número? Sucede que a igreja romana
reconhece como papas legítimos
durante o cisma somente
Urbano VI e seus sucessores. Tanto Benedito XIII e seu predecessor Clemente VII como os papas pisanos, Alexandre V e
João XXIII,
são considerados antipapas. Isto é necessário para
a igreja romana, ainda que na verdade Alexandre e João tenham
gozado de um reconhecimento
muito mais amplo que Gregório
X II, porque de outro modo essa igreja teria de concordar que
o concflio de Pisa depôs Gregório legalmente, e que assim os
papas estão sujeitos aos concílios e não vice-versa.
A 8ssembléi8 foi interrompias
ttreae
pelo surçirnento
de um livro protestante do século XVI.
de um corvo. lIustr8çBo
74 / A era dos sonhos frustrados
o concílio
de Constança
Sigismundo,
o imperador da Alemanha sob cuja proteção
João se colocou, era na época o soberano mais poderoso da
Europa. Durante muito tempo a coroa alemã estivera em disputa. r~'ias agora estava firmemente
colocada
na cabeça de
Sigismundo,
que tomou o título imperial com toda a seriedade, e se dedicou a imitar Carlos Magno. As demais potências
européias eram mais fracas que ele. A França, a única que em
outras
circunstâncias
poderia
ter-lhe
feito sombra,
estava
debilitada pela guerra dos cem anos e pela disputa entre armagnacs e borgonhões.
Nestas circunstâncias
Sigismundo sonhou
em ser aquele que pusesse fim ao cisma, iniciando a tão ansiada
reforma eclesiástica.
Por isto, quando João XXIII recorreu a
ele, o imperador concordou
em protegê-lo, sob a condição de
que convocasse
um concílio universal, que deveria se reunir
na cidade imperial de Constança.
Quando o concílio iniciou suas sessões, em fins de 1414,
João XXIII tinha motivos para ter esperanças,
pois tanto o
imperador
como a grande maioria dos presentes
o tinham
recebido com amplas mostras de respeito, dando a entender
que o consideravam
o papa legítimo.
Mas ao mesmo tempo
havia sinais de perigo. Em um sermão, o cardeal Pedro de
Ailly, um dos homens mais eruditos e respeitados da época,
declarou que o concílio tinha poder sobre o papado, e que
somente era digno de ocupar esta alta dignidade quem levasse
uma vida exemplar.
Pouco depois correram
comentários
no
sentido de que João era um papa indigno. Muitos dos presentes
tinham dúvidas sobre se seria possível levar a cabo as reformas
necessárias enquanto
ele fosse papa. Quando chegaram os embaixadores de Gregório XII, declarando que ele estava disposto
a renunciar se os outros dois papas fizessem o mesmo, a situação
de João ficou desesperadora.
Para cúmulo dos males o concflio
decidiu que as votações seriam por nações. Toda a assembléia
foi organizada em quatro "nações": os ingleses, os franceses, os
italianos, e os "alemães",
para os quais eram contados também
os escandinavos,
os poloneses e os húngaros - mais tarde, quando chegaram os delegados ibéricos, foi acrescentada
a quinta
nação, dos espanhóis.
Esta maneira de organizar o sufrágio
A reforma conciliar /75
A cidade de Constança, onde se reuniu
o
concilia,
de acordo com uma
gravura quase contemporânea.
significava que os italianos, em cujo grande número João confiava, tinham somente um voto.
Mals tarde o concílio
exigiu a renúncia de João XXIII.
Este deu a impressão de que cederia, mas assim que surgiu
a oportunidade
ele se disfarçou de lacaio e fugiu de Constança.
Durante mais de dois meses o antes poderoso papa vagou
fugitivo.
Sua situação ficava cada vez mais difícil,
pois seu
principal
protetor
entre os nobres, o duque da Áustria, foi
vencido pelo imperador, e a partir de então era-lhe quase impossível encontrar
asilo. Quando por fim foi aprisionado e
levado de volta a Constança ele estava abatido e disposto a
renunciar. Sem mais demora o concflio aceitou sua renúncia,
e o condenou a passar o restante de seus dias prisioneiro, com
medo de que voltasse a reclamar a tiara papal.
Ainda restavam dois papas. A 4 de julho, pouco depois da
abdicação de João XXIII,
Gregório XII seguiu seu exemplo.
Quanto a Benedito XIII, seus seguidores ficaram reduzidos a
um punhado quando o imperador Sigismundo, mediante uma
série de negociações com os estados ibéricos, conseguiu que
76 / A era dos sonhos frustrados
todos lhe retirassem sua obediência. De sua fortaleza em Penh íscola o velho cardeal Pedro de Luna continuou proclamando
que ele era o único papa legítimo, com o título de Benedito
XIII, mas ninguém já lhe prestava atenção.
Na falta de um papa, o concílio passou a ser o poder supremo, e se dedicou à reforma da igreja. Pouco antes, como
veremos em outro capítulo, João Huss tinha sido condenado,
e muitos dos presentes acreditavam que esta decisão era um
passo necessário para a tarefa de livrar a igreja de qualquer
mancha de heresia ou corrupção. Mas ainda faltava dar passos
concretos para erradicar males como a simonia, o pluralismo
e o absentismo. O concílio, então, se dedicou a esta tarefa,
e logo descobriu que, além de uma série de decretos de caráter
geral, pouco podia ser feito de imediato. Por isto a assembléia
se contentou com promulgar uma série de medidas contra os
abusos da época, e se dedicou a outras duas tarefas que ainda
estavam pendentes. A primeira era a eleição de um novo papa.
A segunda, muito mais importante do ponto de vista dos conciliaristas, era garantir que houvesse concílios periódicos que
controlariam os papas, para que eles fizessem as reformas
necessárias.
Cansados de um concílio que tinha durado três anos, os
membros da assembléia decidiram que, em vez de insistir de
imediato na reforma, eles simplesmente garantiriam que o movimento conciliar pudesse continuar, e depois elegeriam um
novo papa. Asseguraram a continuação do movimento conciliar mediante o decreto Frequens, que ordenava que haveria
novas assembléias conciliares em 1423, 1430, e a partir de
então a cada dez anos. Feito isto, entre os cardeais presentes
e uma comissão do concílio, foi eleito um novo papa, que
tomou o nome de r"lartim V. O Grande Cisma do Ocidente
tinha terminado. O movimento conciliar, entretanto, que por
causa do cisma chegara ao seu auge, não tardou a decair.
o triunfo
do papado
Os próximos anos foram um período de tensão constante
entre a doutrina conciliarista e a da monarquia papal. Martim
V, que era um diplomata hábil, tomou cuidado em não contra-
A reforma conciliar /77
dizer os decretos do concílio
de Constança. IVias tampouco
confirmou os que estavam dirigidos contra seu poder.
Em obediência ao ordenado no decreto Frequens do condlio
de Constança, o papa convocou uma nova assembléia,
que se reuniu em Pávia e depois se transferiu para Siena, fugindo
da peste. Mas este condlio,
agora que o cisma tinha terminado,
teve pouca assistência, e no ano seguinte Martim o declarou
conclu ído, sem que ele tivesse aprovado mais que alguns decretos de menor importância.
Quando se aproximou
a data em que deveria se reunir o
próximo condlio
(1430), o papa deu mostras de querer ignorar
o que fora decretado em Constança. I\:las percebeu que as idéias
conciliares
ainda tinham muita força, e acabou convocando
o concfl io, que se reuniu em Basiléia.
Martim V morreu pouco depois de convocado o concílio,
e seu sucessor, Eugênio IV, cometeu o grave erre de tentar
dissolver a assembléia. A reação foi imediata. O cardeal Cesarini, que rviartim V nomeara presidente da assembléia, se negou
a obedecer ao decreto de dissolução. Isto imediatamente concentrou a atenção da Europa no condlio,
que até então não
tinha causado muito impacto. Em Basiléia o conciliarismo mais
extremado se apossou da reunião. O prestigioso erudito Nicolau
de Cusa dizia que somente o cencílio era infal ível, e que por
isto os ali congregados não tinham obrigação de obedecer ao
papa, mas sim, de julgar se ele agia de maneira correta. Os cardeais Cesarini e Enéias Sílvio Piccolomini
(que depois seria
Pio II) defendiam teses semelhantes. O imperador Sigismundo
se negou a reconhecer o decreto de dissolução, e pressionou
o papa para que o retirasse. Por fim, vendo-se sozinho e desamparado, Eugênio IV se rendeu, e declarou que o concíl io de
Basiléia estava devidamente
constitu ído.
Esta capitulação
de Eugênio I V parecia indicar para o
triunfo
final das doutrinas
conciliaristas.
A partir de então
o concf'llo de Basiléia deu mostras de pretender continuar se
reunido
indefinidamente,
e governar a igreja diretamente.
Uma série de medidas foram limitando o poder do papa, e cortando seus recursos econômicos.
Enquanto isto, na Itália, a
situação política de Eugênio era cada vez mais precária.
78 / A era dos sonhos frustrados
Um acontecimento inesperado, no entanto, veio fortalecer
o prestígio papal. Constantinopla estava fortemente assediada
pelos turcos. Do antigo Império Bizantino restava somente uma
sombra, e esta sombra também desapareceria se o Ocidente não
acudisse em socorro dos seus irmãos orientais. Isto não era fácil
de conseguir, pois as igrejas do Oriente e do Ocidente tinham
estado separadas por séculos, e se acusavam mutuamente de
heresia. Em seu desespero o imperador de Constantinopla e o
patriarca desta cidade decidiram que era necessário acabar com
o cisma que já durava quase quatro séculos. Com este propósito eles recorreram ao papa, e se mostraram dispostos a participar do concüio, se este se reunisse em uma cidade mais
acess(vel, a partir de Constantinopla.
O concfllo de Basiléia negou-se 'a se transferir, e o papa
proclamou um decreto transferindo-o para Ferrara. A maior
parte da assembléia fez caso omisso da ordem pontiHcia e permaneceu em Basiléia. Mas outros, vendo a oportunidade de reunir as igrejas do Oriente e do Ocidente, acudiram para Ferrara.
Resultava, assim, que o movimento conciliar, que chegara
ao ápice do seu poder em reação ao Grande Cisma do Ocidente,
quando havia dois papas, por sua vez caía no cisma, pois agora
havia um papa e dois concflios.
O concfllo de Ferrara, que depois foi transferido para
Florença, contava com poucos prelados, e o restante da cristandade lhe teria dado pouca atenção se em julho de 1439
não tivesse sido proclamada solenemente a reunião das igrejas
bizantina e ocidental. Para conseguir esta união tanto o imperador como o patriarca de Constantinopla aceitaram a supremacia papal.
Enquanto isto, não restava ao Concílio de Basiléia, outra
alternativa senão tomar medidas cada vez mais extremas contra
o papa. Enéias Sflvio Piccolomini e Nicolau de Cusa abandonaram a idéia conciliar e passaram para o partido do papa. Um
a um os diversos reinos e senhorios da Europa foram retirando
seu apoio à assembléia de Basiléia, cujos membros se reduziam
cada vez mais. O que restava do longo concílio, por sua vez,
iniciou um processo contra Eugênio IV, declarando-o deposto.
Em seu lugar foi nomeado Félix V. Assim, não só havia dois
concfllos, mas o movimento conciliar ressuscitara o cisma
A reforma conciliar /79
papal. Mas já quase ninguém fazia caso daquele sfnodo, que
pouco depois se transferiu para Lausanne, e acabou se dissolvendo. Quando Félix V por fim renunciou, em 1449, o papado romano saíra indiscutivelmente
vencedor sobre as idéias
conciliares.
Estas idéias continuaram
circulando
por muito tempo, a
ponto de, como veremos no próximo volume, Lutero chegar
a pensar que um concllio universal seria a melhor maneira
para defender
sua causa reformadora.
A partir da dissolução
do concflio de Basiléia, todavia, não houve outra assembléia
semelhante
que não servisse aos interesses do papado, ou estivesse sob seu dom{nio.
V
João Wycliff
Fui acusado de esconder, sob
uma máscara de santidade, a
hipocrisia, o ódio e o rancor.
Temo, e com dor confesso, que
isto me tenha acontecido com
muita freqüência.
João Wycliff
o curso ininterrupto da nossa narrativa levou-nos a conti
nuar a história do papado e do movimento conciliar até princfpios do século XV. Nesta narrativa nos referimos repetidamente às tentativas
de reforma que caracterizaram
o movimento
conciliar.
Vimos que esta reforma não era dirigida
contra questões de doutrina,
mas mais contra a vida religiosa
na prática, em particular contra abusos como a simonia, o absentismo,
etc. Mas ao mesm
tempo que ocorriam os acontecimentos
que acabamos
d nurrur havia outro movimento
de reforma muito mais radi til, qiu nllo se contentava com atacar as questões referente
) vklr: ( I S costumes, mas que queria
corrigir também as d ut ln is ti I JI( j.t medieval, ajustando-as
mais à mensagem bfbli I. I)()' mu lo:. que seguiram este caminho os que mais se dosi J • II 1111 101 1111 .lo/'í Wycliff e João Huss.
Wycliff viveu durante ri {pOI' I do "r: II v 'iro babilônico"
do
papado, e do in ício do ii 111111 CI 11'1 IIIISS, a quem dedicaremos o próximo capftulo,
1'"11' 111111 r.1I I carreira
no concüio
de Constança.
82 / A era dos sonhos frustrados
Vida e obra de Wycliff
Wycliff foi um destes autores cujos livros dão a entender
muito pouco sobre eles mesmos. A citação que encabeça este
cap ítulo é uma das poucas janelas que Wycliff abre para as
profundezas
do seu coração. E também ela nos diz somente o
que poderíamos adivinhar facilmente: que seus sinceros esforços
reformadores
não estiveram
isentos totalmente
de pecado.
Por isto sabemos muito pouco da sua juventude. E mesmo
se soubéssemos
mais, este conhecimento
talvez não fosse tão
interessante,
pois o pouco que sabemos parece indicar para
uma infância tfpica em uma pequena aldeia da Inglaterra, e
para uma juventude
dedicada quase exclusivamente
ao estudo.
A maior parte da sua vida transcorreu
na universidade
de Oxford, onde ele chegou a ser famoso por sua lógica e erudição. Revelou-se como homem dotado de uma mente privilegiada, disposto a se ater aos seus argumentos
até as últimas
consequencias,
e carente de humor. Um dos seus seguidores
nos fala disto, contando
que anos depois o arcebispo de Can-
lfobannes rclcleff
João VVyclíff, de ecordo
com UnJ8 (/ra vure do século XV.
João Wycliff /83
terbury
lhe disse que na sua oprruao Wycliff era "um grande
erudito, e muitos o consideravam um trgado perfeito".
Wycliff saiu da universidade
em 1371, para se colocar
a serviço da coroa. Na época, como dissemos no nosso primeiro
cap ítulo, havia tensões entre o trono inglês e o pontificado
romano,
particularmente
com referência
aos impostos
que
uma ou outra parte tentavam impor ao clero. V.,.'ycliff saiu em
defesa da coroa, atacando a teoria que dizia que o poder temporal se deriva do espiritual.
Dentro deste contexto ele começou a desenvolver suas teorias do "senhorio",
que abordaremos
mais adiante. Ele participou também de uma embaixada que discutiu com os legados pontiffcios os pontos em questão. Parece
que sua lógica inflex(vel e sua falta de senso da realidade pol ítlca o faziam pouco apto para a diplomacia, e por isto ele não voltou a ser enviado em missões semelhantes.
A partir de então
ele foi usado principalmente
como o polemista demolidor que o
poder secular empregava
contra seus inimigos eclesiásticos.
Esta polêmica, porém, o rigor da sua lógica, seus estudos
bfblicos. e o escândalo do Grande Cisma, que começou em
1378, o conduziram
a posições cada vez mais atrevidas. I\~uitas
das suas doutrinas
sobre o "senhorio",
à medida que iam se
desenvolvendo,
atacavam não só o papa e os poderosos senhores
da igreja, mas também o estado. Assim como o poder espiritual
tinha seus limites, o temporal também os tinha. Por causa disto
os nobres que antes o apoiavam
foram se separando
dele,
deixando-o cada vez mais só.
Wycliff então se contentou
com voltar para sua querida
Oxford,
onde tinha muitos seguidores
e admiradores.
Mas
também ali o cerco se fechava. Suas doutrinas sobre a santa
ceia se opunham
aos ensinos oficiais da igreja. Seus ataques
contra os frades, que tinham começado anos antes, lhe valeram muitos inimigos. Em 1380 o reitor da universidade
convocou uma assembléia
para discutir os ensinos de Wycliff
sobre a ceia, e esta asscmlil "k, o condenou
por estreita margem. Mesmo assim muit S ur n Oxford ainda o defendiam,
e
as autoridades
não se [lI n '/i 1111 LI tornar atitudes contra ele.
Durante vários meses oh (!;I( VII plI $0 cm sua casa, privado da
Iiberdade, mas com porrnls« io p.1I ti continuar escrevendo seus
livros, cada vez mais foqu ,o'"
84 / A era dos sonhos frustrados
Por fim, em 1381, ele se retirou para sua paróquia de Lutterworth. O fato de Wycliff ter tido uma paróquia mostra até
onde chegavam os excessos da época. Ele mesmo, que tanto os
atacava, participava deles, se bem que não no grau extremo
como muitos outros. Durante muitos anos, em sua mocidade,
ele tinha custeado sua estadia em Oxford com o que recebia
A igreja peroauiet de t.utterworui
Joã'o Wycliff /85
de um cargo eclesiástico. E mais tarde, quando se viu em dificuldades econômicas, ele trocou este cargo por outro menos
lucrativo, recebendo certa quantia como compensação. ~ dif ícil
ver a diferença entre isto e a simonia que os grandes prelados
praticavam, a não ser em termos de quantidade. Quanto à
paróquia de Lutterworth, esta lhe tinha sido concedida pela
coroa em gratidão pelos serviços prestados. Nesta época este
tipo de corrupção tinha chegado a tal ponto que quem não
participasse dela, pelo menos em pequena medida, dificilmente poderia ocu par cargos eclesiásticos.
Em 1382, enquanto estava em Lutterworth, Wycliff teve
sua primeira embolia. Apesar disto ele continuou escrevendo
até sua morte, em 1384, em conseqüência de outra embolia.
Já que faleceu estando em comunhão com a igreja, ele foi
enterrado em terra consagrada. Anos depois, porém, quando o
concílio de Constança o condenou, seus restos foram exumados
e queimados, e suas cinzas lançadas no rio Swift.
Suas doutrinas
Wycliff começou sua carreira teológica como teólogo
conservador. Em uma época em que, como veremos mais adiante, os teólogos mais modernos começavam a duvidar da síntese
medieval da fé e da razão, Wycliff era, e continuou sendo durante toda a sua vida, um adepto firme desta síntese. Na sua
opinião tanto a razão como a revelação nos dão a conhecer
a verdade de Deus, sem que haja tensão entre as duas. E a razão
é capaz de demonstrar a doutrina da Trindade e a necessidade
da encarnação. A medida que suas opiniões iam ficando mais
radicais, Wycliff foi reafirmando cada vez mais esta relação
entre as duas maneiras de adquirir conhecimento, e por isto
sua oposição às doutrinas geralmente aceitas se baseava tanto
em que se opunham à Bíblia como em argumentos racionais.
Durante os primeiros anos de controvérsias, já que ele
estava envolvido com a questão da autoridade do papa para
impor tributos ao clero inglês, seu principal tema teológico
foi a questão do "senhorio".
Em que consiste o senhorio
legCtimo? Quais são suas origens? Como é reconhecido? Em
resposta a estas perguntas Vv'ycliff declara que não há outro
86 / A era dos sonhos frustrados
senhorio além do de Deus. Qualquer pessoa tem domínio ou
senhorio sobre outra somente porque Deus lho concede. Mas
existe também um senhorio falso e ilegal, puramente humano.
Este é uma usurpação, em vez de ser senhorio verdadeiro. A
Bíblia nos fornece um critério claro para distinguirmos entre
os dois: Jesus Cristo, a quem pertence todo domínio, não veio
para ser servido, mas para servir. Da mesma forma somente é
legítimo o senhorio humano que se dedica a servir, e não a ser
servido. Aquele que procura o seu próprio bem e não servir
aos seus governados é tirania e usurpação. As autoridades eclesiásticas, portanto, o papado em particular, se se empenham em
impor impostos para proveito próprio, e não para servir aos
que lhes estão subordinados, são ilegítimas.
Também é usurpação exigir poder sobre uma esfera mais
ampla do que a que Deus nos conferiu. Por isto, se o papa quer
extender sua autoridade além dos limites do espiritual, e aplicála em questões temporais, esta pretensão já faz dele um tirano
e usurpador.
Naturalmente estas doutrinas foram recebidas com aprovação pelo poder temporal, que estava às voltas com uma
amarga polêmica com o papa. Mas assim que os poderosos compreenderam as últimas conseqüências dos ensinos de Wycliff,
eles começaram a abandoná-lo. E de fato os argumentos de
Wycliff contra o papado também podiam ser aplicados ao
poder temporal. Também este deveria ser medido pelo grau
em que servia aos seus súditos. E também este se conteria
em usurpador se tentasse extender sua autoridade para o campo
espiritual.
Por isto não devemos nos admirar de que no fim da sua vida
Wycliff estava totalmente abandonado pelos poderosos que
antes tinham se alegrado com seus argumentos. A desculpa
que eles deram foi que Wycliff se tornara herege. E não há
dúvidas de que o mestre de Oxford se opunha a algumas doutrinas comumente aceitas na época. Mas também não há dúvidas
de que os nobres receberam com ai (vio a oportunidade que
Wycliff lhes dava de desculparem sua infidelidade. Isto ficou
claramente visível depois da revolta dos camponeses que ocorreu em 1381. Apesar de Wycliff não ter tomado parte da revolta, nem sequer a incentivando, não faltaram os que viram
João Wycliff /87
nas exiqências dos camponeses
a relação com muitas coisas
que ele tinha dito.
Com o passar dos anos, Wycliff foi dando cada vez mais
ênfase na autoridade das Escrituras, em detrimento
da do papa
e da tradição eclesiástica. Ele concordava com o que Tertuliano
tinha escrito, de que as Escrituras pertencem
à igreja, e por
isto devem ser interpretadas
dentro dela e por ela. Mas não
concordava
que a igreja era a hierarquia
eclesiástica.
Acompanhando
Agostinho,
e se baseando em textos do apóstolo
Paulo, ele chegou à conclusão de que a igreja era o conjunto
de predestinados.
A verdadeira igreja é invisível, pois na visível
e institucional
há perdidos ao lado dos que foram predestinados
para a salvação. Isto está claro, porque apesar de ser impossível
saber com certeza absoluta quem pertence a cada grupo, há
indícios que podemos seguir, como a obediência à vontade de
Deus. Com base nestes ind ícios podemos dizer com certeza
que há muitos perdidos na hierarquia da igreja, que não fazem
parte da verdadeira
igreja, e a quem, portanto,
as Escrituras
não pertencem.
Até o fim de seus dias Wycliff afirmou que o
papa era um destes perdidos, e chegou a chamá-lo de anticristo.
Se a verdadeira igreja é composta de predestinados,
e não
de poderosos eclesiásticos,
e se as Escrituras pertencem a esta
igreja, conclui-se que é necessário traduzir a Bíblia ao vernáculo, à l ínqua comum do povo, devolvendo-a
assim a este.
Foi por inspiração de Wycliff que a Bíblia foi traduzida para
o inglês, depois de sua morte. E foi também pela mesma inspiração que em pouco tempo o país se viu invadido pelos "pregadores pobres",
ou lolardos, de quem falaremos na próxima
secção.
O ponto em que os ensinos de Wycliff deram a seus inimigos a oportunidade
de declará-lo herege, porém, foi sua doutrina sobre a presença de Deus na comunhão. Como já falamos,
através dos séculos a ceia tinha sido o culto cristão por excelência, desde o início. Pouco a pouco ela foi adquirindo
um
sentido mágico, que no começo não tinha. No sentimento
religioso popular surgiu a idéia de que o pão e o vinho se transformavam literalmente
no corpo e no sangue de Cristo. Falamos desta controvérsia
no volume III, quando tratamos
da
época carol íngia. Naquela época as superstições
populares
88 / A era dos sonhos frustrados
Niio há provas
conclusivas de qUt1 Wycliff
tenhs envisdo pessos/mente
os "pregadores pobres", como está representado
dúvidas de que eles foram ínspírsdos por e/e.
squi,
mas não restam
foram
refutadas
pelos melhores eruditos.
Mas apesar disto
elas continuaram
se espalhando, e no século XIII o quarto
concflio de Latrão promulgou a doutrina da transubstanciação,
de acordo com o qual desaparece a substância do pão, quando
é celebrada a ceia, e o corpo de Cristo ocupa seu lugar, apesar
de continuar com a aparência de pão - tamanho, cor, sabor,
etc. A mesma coisa era dita do vinho e do sangue do Senhor.
Wycliff
rejeitou esta doutrina,
não porque quisesse diminuir a importância da ceia, nem porque não cresse que houvesse
nela um verdadeiro milagre, mas porque ela lhe pareceu contradizer a doutrina cristã da encarnação. Quando o Verbo se encarnou, ele se uniu a um homem. Esta união não destruiu a
humanidade
de Jesus Cristo. Afirmar
o contrário
seria cair
em docetismo.
De igual modo ocorre na ceia que o corpo
de Cristo se une ao pão, sem que este deixe de ser o que era
anteriormente.
O corpo de Cristo está verdadeiramente
pre-
João Wyc/ iff /89
sente, de um modo "sacramental"
e "misterioso";
mas o pão
também está presente. Sobre se o corpo do Senhor está também presente para os que participam
da ceia sem ter fé, ou
se, pelo contrário,
esta presença depende da fé, Wycliff não
se pronunciou
com clareza. Como veremos mais adiante, no
que se refere à maneira com que Cristo está presente na comunhão, as opiniões de Wycliff se assemelham
muito às que
manteria mais tarde Martinho Lutero.
Os lolardos
As doutrinas
de Wycliff tiveram sua expressão no movimento dos "Iolardos"
- termo pejorativo
que seus inimigos
aplicavam para eles, e que se deriva de uma palavra holandesa
que quer dizer "murmuradores".
Não há provas conclusivas
de que o próprio Wycliff os tenha encaminhado
à pregação.
Mas de qualquer forma vários dos seus discípulos se dedicaram
a divulgar suas doutrinas entre o povo, ainda em vida do mestre
de Oxford.
No começo, os principais
lolardos eram pessoas
que tinham estudado em Oxford, com Wycliff. Por causa disto
sua pregação naturalmente
estaria dirigida mais para a aristocracia do que para as classes populares. Parte da obra destes
primeiros
lolardos consistiu em traduzir as Escrituras para o
inglês, como \fIJycliff tinha recomendado,
e em percorrer o país,
pregando.
Mas em 1382 o arcebispo
Guilherme
Courtenay
conseguiu que a universidade
de Oxford condenasse
o lolardismo, e a partir de então diversos dos primeiros membros
do movimento
o abandonaram.
Alguns deles chegaram a persegui-lo. O resultado
foi que o lolardismo,
em suas origens
um movimento
acadêmico,
se tornou cada vez mais popular.
Apesar de contar ainda com adeptos entre a nobreza e o clero,
a maior parte dos seus seguidores pertencia às classes menos
letradas.
As doutrinas do lolardismo eram claras, taxativas e revolucionárias. A B (blia deveria s I colocada à disposição do povo
no vernáculo. As distincõcs - nrn o cloro e os leigos, com base
no rito de ordenação,
(r lIil c(JlII.t1l i;_ISàs Escrituras.
A principal função dos minis u o-, de I)e II!: deveria ser pregar, e eles
deveriam estar proibiclo., do ()('IIi' II Cdruos públicos, pois "nin-
90 / A era dos sonhos frustrados
guém pode servir a dois senhores". Além disto o celibato de
sacerdotes, monges e monjas era uma abominação que produzia
imoralidade, aberrações sexuais, abortos e infanticídios. O culto
às imagens, as peregrinações, as orações em favor dos mortos
e a doutrina da transubstanciação eram pura magia e superstição. Mais tarde, à medida que o movimento se distanciava
das suas raízes acadêmicas, e havia nele menos pessoas capazes
de orientá-lo através de estudos bíblicos e teológicos, começaram a surgir dentro dele grupos cujas teorias eram cada vez
mais estranhas.
A perseguição não tardou. Os lolardos que ainda havia
entre os nobres tentaram fazer com que o Parlamento mudasse
as leis com respeito à heresia, mas não o conseguiram, e a maioria deles mais tarde se retratou e voltou ao seio da igreja oficial.
Poucos ficaram firmes, e em 1413 e 1414 Sir John Oldcastle
dirigiu um movimento rebelde fracassado. Três anos depois
Oldcastle foi capturado e executado. A partir de então o lolardismo desapareceu quase completamente entre as classes letra-
Muitos toterdos morreram
COnJO
marttres.
João Wycliff /91
das, mas continuou se espalhando entre os simples. Isto o tornou ainda mais radical. Quando em 1431 foi descoberta uma
nova conspiração lolarda, seu propósito não era somente reformar a igreja, mas também derrubar o governo.
Apesar de serem perseguidos constantemente, os lolardos
nunca foram totalmente extintos. Em princípios do século XVI
o movimento recobrou forças, e o número de mártires executados por defender suas doutrinas aumentou consideravelmente.
Mais tarde, o remanescente lolardo, que deve ter sido considerável, se misturou com os primeiros protestantes. Por isto,
apesar de os sonhos de Wycliff e de seus primeiros seguidores
serem temporariamente frustrados, a longo prazo eles se concretizaram na grande Reforma que comoveu a Inglaterra e toda a
Europa no século XVI.
Mas bem antes da Reforma, os ensinos de Wycliff tiveram
um eco na distante Boêmia.
VI
João Huss
Por isto, nem o papa é a cabeça,
nem são os cardeais o corpo da
igreja santa, católica e universal.
Porque somente Cristo é a cabeça,
e seus predestinados o corpo, e
cada um membro deste corpo.
João Huss
Enquanto
Wycliff enfrentava
as autoridades
eclesiásticas
na Inglaterra, na distante Boêmia estava se formando um movimento reformador
muito semelhante
ao que ele propunha.
A Boêmia, parte do que atualmente
é a Checoslováquia,
estava
estreitamente
ligada ao Império Alemão. Em 1346 o imperador
Carlos IV tinha herdado o trono da Boêmia, e a partir de então
as relações entre os dois pa(ses tinham sido muito estreitas.
Na Boêmia, assim como no restante da Europa, uma reforma
eclesiástica era muito necessária, lois a simonia, a pompa dos
prelados e a corrupção
moral eram comuns. Calcula-se que
aproximadamente
a metade do terri tório nacional estava em
poder da igreja, enquanto (J corou possu (a u.ma sexta parte. Por
isto não devemos nos surpu I tldl r que muitos reis boêmios
tentaram
limitar o pod r ti" Itll I u(I'Ii:1 eclesiástica, e por isto
apoiaram o rnovirnent
n IUil1' '.111. IVldS também é certo que
muitos destes reis f rrml II '()ItII,I(I\),()~; sinceros, cujas ações
foram motivadas por um 111111(tlU II! ',I 10 ele corrigir os abusos
que existiam na igreja.
94 / A era dos sonhos frustrados
o
movimento reformador boêmio parece ter iniciado na
época de Carlos IV, e por iniciativa sua, pois o primeiro grande
pregador do movimento foi Conrado de Waldhausen, que o
próprio rei trouxera ao pafs, Conrado logo teve um número
considerável de discfpulos, e é possível traçar uma linha de sucessão ininterrupta entre ele e o mais famoso dos reformadores boêmios, João Huss. Por esta razão, apesar de ser verdade que
as idéias de Wycliff encontraram eco nas de Huss, isto não deve
ser exagerado a ponto de fazer do reformador boêmio um
mero discípulo do inglês.
A situação pol (tica também era importante para compreendermos as origens da reforma hussita. Em 1363 Venceslau IV
tinha sido coroado rei da Boêmia, ainda em vida de seu pai
Carlos IV. Em 1378, quando este morreu, ele o sucedeu também no trono como imperador da Alemanha. No princípio
seu governo nos dois pafses foi eficiente. l\I!aspaulatinamente
ele foi deixando de se interessar pelo Império, que finalmente
se rebelou em 1400, e o depôs. Onze anos mais tarde Sigismundo, irmão de Venceslau, foi feito imperador pelos alemães
A ciaede da Prafla no século XV, da acordo com a Crónica da Nurambarfl.
J060 Huss /95
rebeldes. Como Venceslau ainda se considerava o único imperador legrtimo, as relações entre os dois irmãos não eram boas.
lVlasfato é que também na Boêmia Venceslau tinha se retirado
dos assuntos pol (ticos, deixando o governo nas mãos dos seus
favoritos, e se dedicando demais ao vinho, de forma que em
princípios do século XV o pafs parecia estar à beira da anarquia.
Outro fator pol rtico importante era a tensão entre os
boêmios ou checos e os alemães. Estes últimos, apesar de serem
uma minoria relativamente pequena, tinham muito poder. Na
universidade de Praga, por exemplo, sem serem a maioria,
eles tinham três votos, e os checos somente um. O sentimento
nacionalista boêmio aumentava cada vez mais, e foi um dos
fatores importantes no curso posterior da reforma hussita.
Dentro deste contexto de corrupção eclesiástica, mau governo e nacionalismo apareceu a figura notável de João Huss.
Vida e obra de João Huss
João Huss nasceu por volta de 1370 de uma famflia camponesa que vivia na pequena aldeia de Hussinek, e ingressou
na universidade de Praga quando tinha uns dezessete anos. A
partir de então toda sua vida transcorreu na capital de seu pafs,
excetuados seus dois anos de ex fiio e encarceramento em Constança. Em 1402 ele foi nomeado reitor e pregador da capela
de Belém. Ali ele pregou com dedicação a reforma que tantos
outros checos propugnavam desde tempos de Carlos IV. Sua
eloqüência e fervor eram tamanhos que aquela capela em pouco
tempo se transformou no centro do movimento reformador.
Venceslau e sua esposa Sofia o escolheram por seu confessor,
e lhe deram seu apoio. Alguns dos membros mais destacados
da hierarquia começaram a encará-lo com receio, Mas boa
parte do povo e da nobreza parecia segui-lo, e o apoio dos reis
ainda era suficientemente
importante para que os prelados
não se atrevessem a tomar medidas contra o pregador entusiasmado.
No mesmo n [uc passou a ocupar o púlpito de Belém,
Huss foi feito reitor du universidade, de modo que se encontrava em ótima posiçf para impulsionar a reforma.
96 / A era dos sonhos frustrados
Ao mesmo tempo que pregava contra os abusos que havia
na igreja Huss continuava sustentando
as doutrinas geralmente
aceitas, e nem mesmo seus piores inimigos se atreviam a censurar sua vida ou sua ortodoxia.
Diferente de Wycliff, João Huss
era um homem extremamente
gentil, e contava com grande
apoio popular.
O conflito surgiu nos círculos universitários.
Pouco antes
tinham começado
a chegar a Praga as obras de Wycliff. Um
disdpulo
de João Huss, Jerônimo de Praga, passou algum tempo na Inglaterra, e trouxe consigo algumas das obras mais radicais do reformador
inglês. Huss parece ter lido estas obras com
interesse e entusiasmo, pois se tratava de alguém cujas preocupações eram muito semelhantes
às dele. Mas Huss nunca se tornou um adepto de Wycliff. Os interesses do inglês não eram
os mesmos do boêmio, que não se preocupava
tanto com as
questões doutrinárias
como com uma reforma prática da igreja.
Ele particularmente
nunca esteve de acordo com o que Wycliff
tinha dito sobre a presença de Cristo na ceia, e até o fim continuou defendendo
uma posição muito semelhante
à que era
comum em seu tempo - a transubstanciação.
Na universidade,
entretanto,
as obras de V\iycliff eram
discutidas.
Os alemães se opunham a elas por uma longa série
de razões, mas principalmente
no que referiam à questão das
idéias universais, que já discutimos
anteriormente;
Wycliff era
"realista",
e os alemães seguiam as correntes
"nominalistas"
do momento. Os alemães tratavam os checos corno um punhado
de bárbaros antiquados,
que não estavam em dia em questões
filosóficas e teológicas" e por isto não adotavam o nominalismo
que estava na moda. P.gora as obras de V\iycliff vinham em
socorro dos boêrnios, mostrando que na muito prestigiosa universidade de Oxford um famoso mestre tinha defendido o realismo, e isto em data relativamente
recente.
Por isto, em sua origem, a disputa teve um caráter altamente técnico e filosófico. Mas os alemães, em seu intento de
ganhar a batalha, tentaram dirigir o debate para as doutrinas
mais controvertidas
de Wycliff, no propósito
de provar que
ele era herege, e que por isto suas obras deveriam ser proibidas.
João Huss e seus companheiros
boêmios se deixaram levar por
esta pol (tica, e logo se viram na difícil situação de ter de defen-
João Huss /97
der as obras de um autor com cujas idéias eles não estavam
completamente
de acordo.
Repetidamente
os checos declararam que não estavam defendendo
as doutrinas
de Wycliff,
mas seu direito de ler as obras do mestre inglês. I',ias apesar
disto os alemães começaram
a chamar seus adversários
de
"wyclifitas".
Sem demora, diversos integrantes da hierarquia que eram
alvo dos ataques de Huss e de seus seguidores, e que viam nos
ensinos de Wycliff uma ameaça séria à sua posição, se reuniram ao grupo dos alemães.
Era a época em que, em resultado do concílio de Pisa,
havia três papas. Venceslau apoiava o papa pisano, enquanto
o arcebispo de Praga e os alemães da universidade
apoiavam
Gregório XII. Venceslau necessitava do apoio da universidade
para sua pol (tica, e já que os checos estavam em maioria nela,
o rei simplesmente
mudou o sistema de votação, dando três
votos aos checos e um aos alemães. Estes, então, abandonaram
a cidade e foram para Leipzig, onde fundaram uma universidade rival, declarando
que a de Praga se entregara à heresia"
Se bem que isto constituiu um grande trunfo para o movimento
hussita, também contribuiu
para propagar a idéia de que este
movimento
não passava de outra versão do wyclifismo, sendo,
portanto, herege.
Mais tarde o arcebispo se submeteu à vontade do rei, e
reconheceu
o papa pisano. lvlas se vingou de Huss e dos seus
solicitando
deste papa, Alexandre V, que proibisse a posse das
obras de Wycliff. O papa concordou,
e proibiu também as pregações fora das catedrais,
dos mosteiros ou das igrejas paroquiais. Como o púlpito de Huss, na capela de Belém, não se
enquadrava
nestas determinações,
o golpe estava claramente
dirigido contra ele. A univcrsiclacíc de Praga protestou.
I'v~as
João Huss tinha agora de f,v'r
diHcil escolha entre desobedecer o papa e deixar do pI f:!Jdf. Com o passar do tempo
sua consciência
se irru ôs. r 1(: 'lll)lu
,JÜ púlpito
e continuou
pregando a tão ansiada r '101111 I. I :,11: loi seu primeiro ato de
desobediência,
e a ele 'UUi'dlll '111,11(1',outros. pois quando em
1410 foi convocado para 11011111,1'11111 d.1t conta das suas ações,
ele se negou a ir, e em ' "',( III' 'li II () ('drd 'ai Colonna o excomungou em 1411, em rlOrlle chi pIpi, ptlr não ter acedido à
,I
98 / A era dos sonhos frustrados
convocação papal. Mas apesar disto Huss continuou pregando
em Belém e participando da vida eclesiástica, pois contava com
o apoio dos reis e de boa parte do pa(s.
Assim Huss chegou a um dos pontos mais revolucionários
da sua doutrina. Um papa indigno, que se opunha ao bem-estar
da igreja, não deve ser obedecido. Huss não estava dizendo que
o papa não era leg(timo, pois continuava favorável ao papa
pisano. Mas mesmo assim o papa não merecia ser obedecido.
Até aqui Huss não estava dizendo mais que os lfderes do movimento conciliar, na mesma época. A diferença estava em que
estes se ocupavam principalmente da questão jur(dica de como
decidir entre vários papas rivais, e buscavam a solução deste
problema nas leis e nas tradições da igreja, enquanto Huss
acabara por seguir Wycliff até este ponto, declarando que a
autoridade final é a Bfblia, e que um papa que não se conforme a ela não deve ser obedecido. Mas mesmo assim isto era,
com poucas diferenças, o que Guilherme de Occam tinha dito,
ao declarar que nem o papa nem o concílio, mas somente
as Escrituras eram infal(veis.
Outro incidente turbou a questão ainda mais. João XXIII,
o papa pisano, estava em guerra com Ladislau de Nápoles.
Nesta contenda sua única esperança de vitória estava em obter
o apoio, tanto militar como econômico, do restante da cristandade latina. Para tanto ele declarou que a guerra com Ladislau
era uma cruzada, e promulgou a venda de indulgências para
custeá-Ia. Os vendedores chegaram à Boêmia, usando de todo
tipo de métodos para vender sua mercadoria. Huss, que vinte
anos antes tinha comprado uma indulgência, mas que agora
mudara de opinião, protestou contra este novo abuso. Em
primeiro lugar uma guerra entre cristãos dificilmente poderia
receber o tftulo de cruzada. E em segundo, somente Deus
pode conceder indulgência, e ninguém pode querer vender o
que vem unicamente de Deus.
rei, entretanto, tinha interesse em manter boas relações com João XXIII. Entre outras razões para isto, a questão
de se ele ou seu irmão Sigismundo era o imperador leg(timo
ainda não fora decidida, e era possfvel que, se a autoridade
de João XXIII viesse a se impor, 'Seriaele quem teria de decidir
a questão. Por isto o rei proibiu que a venda de indulgências
a
João Huss /99
continuasse sendo criticada. Sua proibição, todavia, veio tarde
demais. A opinião de João Huss e de seus companheiros já era
conhecida de todos, a ponto de terem surgido passeatas do povo,
em protesto contra esta nova maneira de explorar o povo checo.
Enquanto isto João XXIII
e Ladislau fizeram as pazes, e
a pretensa cruzada foi revogada. Huss, no entanto, para Roma
ficou sendo o I íder de uma grande heresia, e até chegou-se a
dizer que todos os boêmios eram hereges. Em 1412 Huss foi
excomungado
de novo, por não ter comparecido
diante da
corte papal, e foi fixado um prazo curto, para ele se apresentar.
Se não o fizesse, Praga ou qualquer outro lugar que lhe desse
acolhida estaria sob interdito.
Desta forma a suposta heresia
de Huss resultaria em preju ízo da cidade.
Por esta razão o reformador checo decidiu abandonar a
cidade onde tinha passado a maior parte da sua vida, e se refugiar no sul da Boêmia, onde continuou sua atividade reformadora dedicando-se à literatura. Ali ele recebeu a notícia de que
finalmente se reuniria um grande concflio em Constança, e que
ele estava convidado para lá comparecer e se defender pessoalmente. Para isto o imperador Sigismundo lhe oferecia um salvoconduto, que lhe garantia sua segurança pessoal.
Huss diante do concílio
O concílio de Constança prometia ser a aurora de um novo
dia na vida da igreja. Tinham comparecido a ele os mais distintos defensores da reforma através de um concílio, João Gerson
e Pedro de Ailly. Nele seria decidido de' uma vez por todas quem
era o papa legítimo, e seriam tomadas medidas contra a simonia,
o pluralismo e tantos outros males. E João Huss estava convidado, para apresentar seu caso. Aquela assembléia poderia ser
o grande púlpito que ele usaria para pregar a reforma. Por isto
Huss não poderia deixar de ir.
Mas por outro lado já o fato de ter sido necessário um salvo-conduto
era um indfcio dos perigos que poderiam estar
esperando por ele. Huss sabia que os alemães que tinham se
transferido para Leipzig tinham continuado espalhando o rumor
de que ele era herege.
sabia também que não podia contar
com nenhuma simpatia da parte de João XXIII e da sua cúria.
100 / A era dos sonhos frustrados
Por isto antes de partir ele deixou um documento que deveria
ser lido no caso de sua morte. Para medirmos o caráter deste
homem, observemos de passagem que este documento
era
uma confissão em que declarava que um dos seus grandes pecados era - que gostava demais de jogar xadrez! Os perigos que
o esperavam em Constança eram grandes. Mas sua consciência
o obrigava a ir. E assim partiu o reformador
checo, confiado
no salvo-conduto imperial e na justiça da sua causa.
João XX III o recebeu com cortesia, mas poucos dias depois o chamou para o consistório papal. Huss foi, mesmo insistindo em que tinha vindo para expor sua fé diante do concílio,
e não do consistório. Ali ele foi formalmente acusado de herege,
e ele respondeu que preferia morrer que ser herege, e que o
convencessem de que o era, ele se retrataria. A questão ficou
suspensa, mas a partir de então Huss foi tratado como um prisioneiro, primeiro em sua casa, depois no palácio do bispo, e
por último
em uma série de conventos que lhe serviam de
prisão.
Quando o imperador, que ainda não tinha chegado em
Constança, soube o que tinha acontecido, ficou extremamente
irado, e prometeu fazer respeitar seu salvo-conduto. Mas depois
começou a dar menos ênfase nisto, pois não lhe convinha aparecer como protetor
de hereges. Em vão foram os protestos
do próprio
Huss, como o foram os que chegaram de muitos
nobres boêmios. Huss possu(a inclusive um certificado do Grande I nqu isidor da Boêmia, declarando que ele era inocente de
qualquer heresia. Só que para os italianos, alemães e franceses,
que eram a imensa maioria no concflio. os boêmios não passavam de bárbaros que sabiam pouco de teologia, e cujos pronunciamentos não deveriam ser levados a sério.
No dia 5 de junho de 1415 Huss compareceu diante do
concflio, Poucos dias antes João XXIII tinha sido aprisionado
e trazido de volta para Constança, como narramos no cap(tulo
I V. Já que isto significava que o papa pisano tinha perdido todo
o poder, e já que Huss tivera seus piores conflitos com ele, era
de se supor que a situação do reformador
melhoraria.
Mas
sucedeu o contrário. Quando Huss foi levado para a assembléia
ele estava acorrentado, como se tivesse tentado fugir ou se já
tivesse sido julgado. Foi acusado formalmente
de ser herege,
João Huss / 101
e de seguir as doutrinas de Wycliff. Huss tentou expor suas
opiniões, mas a algazarra foi tamanha que ele não se podia fazer
ouvir. Por fim foi decidido adiar a questão para o dia 7 do
mesmo mês.
O processo de Huss durou mais três dias. Repetidamente
ele foi acusado de herege. Mas quando foram relacionadas as
doutrinas concretas de que supostamente consistia sua heresia,
Huss demonstrou que era perfeitamente ortodoxo. Pedro de
Ailly assumiu a liderança do julgamento, exigindo que Huss
se retratasse das suas heresias. Huss insistia em que nunca tinha
crido nas doutrinas de que exigiam que ele se retratasse, e que
por isto não podia fazer o que de Ailly requeria dele.
Não havia maneira de resolver o conflito. De Ailly queria
que Huss se submetesse ao concüio, cuja autoridade não podia
ficar em dúvida. Huss lhe mostrava que o papa que o tinha
acusado de desobediência era o mesmo que o concflio acabara
de depor. Mostrar suas contradições a um homem supostamente
sábio, tido como homem mais ilustre da época, e isto diante
de uma grande assembléia, nem sempre é uma atitude sábia.
O rancor do seu juiz aumentava cada vez mais. Outros I(deres
do concflio, entre eles João Gerson, diziam que estava desperdiçando o tempo que deveriam dedicar a questões mais importantes, e que de qualquer forma os hereges não merecem tanta
atenção. O imperador se deixou convencer de que ele não
precisa guardar sua palavra para com os que não têm fé, e
retirou seu salvo-conduto. Quando Huss acabou dizendo que
era verdade que ele tinha dito que se não quisesse ter vindo
para Constança, nem o imperador nem o rei teriam podido
obrigá-lo, seus acusadores viram nisto a prova de que ele era
um herege obstinado e orgulhoso - apesar de o nobre boêmio
João de Clum, que o defendeu valentemente até o final, ter
declarado que o que Huss dissera era verdadeiro, e que tanto
ele como muitos outros mais poderosos do que ele teriam
protegido Huss se este tivesse decidido não ir ao condlio.
O concflio pedia unicamente que Huss se submetesse a
ele, retratando-se das suas doutrinas. Mas não estava disposto
a escutar nem crer no acusado, quanto a quais eram as doutrinas que tinham crido e ensinado nu verdade. Uma simples
retratação teria bastado. O cardeal
ebarolla preparou um
102/ A era dos sonhos frustrados
documento em que exigia de Huss que se retratasse se seus
erros, e aceitasse a autoridade do concflio. O documento
estava cuidadosamente
redigido, porque seus ju (zes queriam
lhe dar todas as oportunidades para que se retratasse, e assim
ganhar a disputa, mas o reformador checo sabia que se se
retratasse, com isto estaria condenando todos os seus seguidores, pois se declarasse que suas doutrinas eram aquelas que
seus inimigos tinham apresentado, estaria nisto impl (cito que
seus companheiros criam nas mesmas coisas, e que portanto
eram hereges.
A resposta de Huss foi firme:
- Apelo a Jesus Cristo, o único juiz todo-poderoso e totalmente justo. Em suas mãos eu deponho a minha causa, pois
Ele há de julgar cada um não com base em testemunhos falsos
e concflios errados, mas na verdade e na justiça.
Por vários dias o deixaram encarcerado, na esperança
de que fraquejasse e se retratasse. Muitos foram lhe pedir que
o fizesse, talvez sabendo que sua condenação seria uma mancha
indelével para o concflio de Constança. Mas João Huss continuou firme.
Por fim, no dia 6 de julho, ele foi levado para a catedral
de Constança. Ali, depois de um sermão sobre a teimosia dos
hereges, ele foi vestido de sacerdote e recebeu o cálice, somente
para logo em seguida lhe arrebatarem ambos, em sinal de que
estava perdendo suas ordens sacerdotais. Depois lhe cortaram
o cabelo para estragar a tonsura, fazendo-lhe uma cruz na cabeça. Por último lhe colocaram na cabeça uma coroa de papel
decorada com diabinhos, e o enviaram para a fogueira. A
caminho do suplfcio, ele teve de passar por uma pira onde
ardiam seus livros.
Mais uma vez lhe pediram que se retratasse, e mais uma
vez ele negou com firmeza. Por fim orou, dizendo: "Senhor
Jesus, por Ti sofro com paciência esta morte cruel. Rogo-Te
que tenhas misericórdia dos meus inimigos." Morreu cantando
os salmos.
Os hussitas
Os verdugos recolheram todas as cinzas e as lançaram
no lago, para que não restasse nada do suposto heresiarca.
João Huss/ 103
A morte de Joio Huss, de acordo com um mertiriotoçto do século XVI.
Mas seus discípulos recolheram a terra em que foi queimado,
e a levaram para a Boêmia. Pouco depois Jerônimo de Praga,
que tinha decidido se unir a João Huss em Constança, sofreu
a mesma sorte que seu mestre.
A indignação da Boêmia não teve limites. Tanto os nobres
como a universidade, a cidade de Praga e o povo se negaram
a reconhecer a autoridade do concflio de Constança. Os nobres
tomaram a iniciativa, e protestaram contra o que fora feito
em Constança, reunidos em uma assembléia onde estavam
452 deles, e declararam que não estavam dispostos a obedecer
a um papa indigno. A resposta do concílio foi uma firme insistência de que Huss era herege, ao mesmo tempo que acusava os
nobres e Venceslau e sua esposa de serem patrocinadores
da heresia. Em seguida o concílio promulgou uma série de
decretos a que ninguém obedeceu: a universidade de Praga era
fechada, os nobres que tinham protestado deveriam comparecer
em Constança, e todos os boêmios eram proibidos de ordenar
sacerdotes que seguissem as doutrinas de Huss.
Na própria Boêmia havia interesses conflitantes entre
si, enquanto concordavam em sua oposição ao concílio de
104 / A era dos sonhos frustrados
Constança.
Além dos nobres havia os professores da universidade, e alguns pregadores
de Praga, que eram os verdadeiros
seguidores
de Huss. E longe da capital existiam movimentos
populares
de origens obscuras, que se opunham
à igreja estabelecida. Destes o principal era o do Monte Tabor. Cs taboritas
eram revolucionários
apocal (pticos que criam que o fim estava
proxrrno, e que estavam dispostos a contribuir
para sua vinda
usando da espada. Suas doutrinas
eram muito mais radicais
que as dos verdadeiros
hussitas. Outra comunidade
ou fraternidade semelhante
à dos taboritas,
mas menos apocal íptica,
era a do Monte Horebe.
Os taboritas insistiam em que tudo o que não estivesse na
Bíblia deveria ser rejeitado. Contra eles os hussitas de Praga
diziam que somente deveria ser rejeitado o que contradissesse
os ensinos claros das Escrituras. Por isto os hussitas mantiam
boa parte das cerimônias tradicionais,
as vestimentas
eclesiásticas e os ornamentos
nas igrejas. Os taboritas rejeitavam tudo
isto. Na realidade, como acontece tão freqüentemente
neste
tipo de confronto,
tratava-se de um conflito social. Os taboritas
A comunidade do Monte Tabor.
João Huss / 105
eram em sua maior parte pessoas de classe baixa, desprovidas
de todo bem-estar ffsico, para as quais os ornamentos
e as
cerimônias eclesiásticas eram um luxo abominável. Os hussitas
na maioria eram nobres e burgueses cujos gostos e formação
estavam mais dirigidos para a arte, as letras, a tradição e os
ornamentos.
Estes diversos grupos lutaram entre si sempre que era
poss(vel. Mas diante da ameaça externa eles foram obrigados
a esquecer as diferenças e se unir contra um inimigo comum.
Isto os levou a um acordo de quatro artigos, que a partir de
então seria a base do movimento
rebelde boêmio. O primeiro
era que fosse pregado livremente por todo o reino da Boêmia a
Palavra de Deus. O segundo, que a ceia fosse administrada
"nas
duas espécies", ou seja, que o cálice fosse devolvido aos leigos.
A esta conclusão Huss tinha chegado nos últimos dias da sua
vida, e que depois passou a ser tema característico
dos hussitas.
O terceiro, que o clero fosse privado ele suas riquezas, e vivesse
em pobreza apostólica.
E o quarto, que os pecados públicos
e maiores fossem castigados, particularmente
o pecado da simonia.
Estes quatro artigos foram apresentados
a Sigismundo
em um momento
diffcil para a Boêmia. Venceslau acabara
de falecer, e o herdeiro da coroa era nada menos que seu irmão
Sigismundo, o imperador que em Constança tinha trafdo Huss.
O pa(s estava dividido, e não estava pronto para se opor à sucessão leg(tima do trono. Mas também
não estava disposto a
capitular
e se entregar nas mãos de Sigismundo
sem impor
condições.
Estas condições,
acrescentadas
aos quatro artigos,
consistiam
em que os alemães não recebessem
mais cargos
públicos, e que haveria liberdade de culto.
Sigismundo
não podia aceitar estes artigos sem rejeitar
o concflio
que ele mesmo tinha patrocinado,
e sem deixar
claro que a condenação
de Huss tinha sido injusta. Por isto,
em vez de ceder às condições dos boêrnios, ele decidiu tomar
o trono pela força. Para isto ele conseguiu que o papa proclamasse uma grande cruzada contra os hereges hussitas. As tropas
de Sigismundo
chegaram até Pra!J(J, mas foram ali derrotadas
por um contingente
constitu fdo pr mcqialrnente
por taboritas,
sob o comando de João Zizku. ( sl(: Na membro da nobreza
106 / A era dos sonhos frustrados
A devoluçBo do cálice aos leigos foi um dos temes centrais do mo virrento
husslts.
inferior, que, decepcionado com os hussitas de Praga, se tinha
unido aos taboritas, e os tinha organizado militarmente. Sua
principal arma de guerra eram os carros dos camponeses, que
Zizka transformou em fortalezas sobre rodas. Convictos de
que o Senhor estava do seu lado, os taboritas cafram sobre
os exércitos imperiais e os obrigaram a se retirar. Mais tarde,
em outra batalha, acabaram por destruir as forças da suposta
cruzada.
Estes triunfos aconteceram
em 1420. Repetidamente
o papa e o imperador tentaram conquistar a região. Em 1421
um exército de cem mil cruzados fugiu das tropas de Zizka,
que perdeu o único olho que tinha (era caolho desde sua mocidade), mas apesar disto não abandonou as tarefas militares.
No ano seguinte a terceira cruzada contra os boêmios se desfez
antes de encontrar o inimigo. Pouco depois Zizka se separou
dos taboritas e se uniu à fraternidade do Monte Horebe, pois
lhe parecia que os taboritas estavam ficando m (sticos e visionários demais. Entre os horebitas ele viveu até sua morte, em
João Huss/107
consequencia da praga, em 1424. Mas apesar de terem perdido
seu grande general os hussitas continuaram triunfando no
campo de batalha. As novas cruzadas de 1427 e 1431 não
tiveram melhor êxito que as anteriores.
J. A. Comento foi um dos mais famosos herdeiros da tradição bussite. Em
meio li persefluiçio ele esperallfJque em algum I~ar ttceri« um remanescente, que alflum dia voltaria a brotar.
108 / A era dos sonhos frustrados
A última campanha mencionada teve lugar enquanto
os hussitas negociavam com o ccncflio de Basiléia. Por fim
convencidos de que tinham cometido um grave erro ao condenar João Huss, os conciliaristas convidaram os I(deres hussitas
a participar do novo concílio, para ali aplainarem suas diferenças. Mas os boêmios, vacinados pela experiência de João
Huss, exigiam garantias impossíveis de atender. Desesperados,
os católicos tentaram uma nova cruzada, e foram derrotados
uma vez mais. Isto os levou a negociar um acordo com os
hussitas. A igreja da Boêmia regressou à comunhão romana,
apesar de receber permissão para a ceia nas duas espécies, e
foram garantidos à Boêmia certos elementos contidos nos
quatro artigos. Muitos hussitas concordaram com isto, particularmente os nobres. Foi firmado um acordo, e por fim Sigismundo pôde ocupar o trono da Boêmia - até que morreu,
dezesseis meses depois.
Nem todos os boêmios, todavia, estavam de acordo com
este arranjo. Muitos abandonaram a igreja estabelecida, e
mais tarde fundaram a Uni tas Fratrum - unidade dos irmãos.
Esta organização chegou a ser numerosíssima, não somente
na Boêmia, mas também na Morávia. Durante a reforma do
século XVI eles estabeleceram estreitas relações com o protestantismo, e por algum tempo pensou-se que eles se juntariam
aos luteranos. Pouco depois os imperadores da casa da Austria,
que davam todo seu apoio ao catolicismo, começaram a persegui-los. A organização foi praticamente destru (da. Mas o bispo
João Amós Comênio, do exílio, continuava animando-os e
intercedendo por eles. Nesta atividade ele alcançou fama de
ser um homem santo, sábio e grande reformador da educação.
O sonho de Comênio era que algum dia, depois da perseguição, surgisse em algum lugar um rebento da planta que a
violência tinha cortado. E seu sonho não foi frustrado; mais
adiante nesta história voltaremos a nos encontrar com o remanescente da Unitas Fratrum, com o nome de "morávios".
VII
Os movimentos
populares
Os bispos, príncipes, condes e
cavaleiros deveriam ter permissão
para possuir somente tanto quanto
o povo em geral. Virá o dia em
que também eles terão de ganhar
a vida trabalhando.
Hans Bôhm
Nos últimos três capítulos, e em diversos dos que seguirão
e este, dedicamos nossa atenção a movimentos reformadores cuja origem foi principalmente acadêmica. Os conciliaristas na universidade de Paris, Wycliff na de Oxford, e Huss na de Praga, foram todos respeitados em sua época por seus conhecimentos.
Mesmo sendo acusados de hereges e sediciosos, ninguém se
atrevia a dizer que seus erros provinham da ignorância.
Ao lermos os anais da época, no entanto, nos assalta a
suspeita de que estes movimentos reformadores entre pessoas
eruditas eram somente uma parte muito pequena do bulir
religioso, que fervia principalmente no povo pobre e iletrado.
Não devemos esquecer, por exemplo, que tanto o movimento
de Wycliff como o de Huss mais tarde não tiveram sua expressão
mais permanente nas universidades, mas entre o povo. Sem
os lolardos ou os taboritas, os dois movimentos teriam ficado
esquecidos em documentos antigos. E também é muito improvável que Wycliff e os seus pudr ssorn convencer os que seguiram
suas idéias entre as classes b IÍx IS, s neste povo já não existisse
110 / A era dos sonhos frustrados
antes um fervor que encontrou sua expressão nas doutrinas
que vinham de Oxford. O mesmo podemos dizer, talvez com
mais justeza, dos taboritas da Boêmia, que vieram a ser os
defensores mais decididos do movimento hussita, mas provavelmente não derivavam a maior parte das suas doutrinas
do reformador de Praga, mas de idéias que circulavam entre
o povo.
Por quê, então, os livros de história dão tanta atenção
ao movimento conciliar, a Wycliff e a Huss, e tão pouca a
estes outros movimentos populares? Simplesmente porque
as informações sobre estes últimos são muit(ssimo escassas,
e pouco confiáveis. Sobre o movimento conciliar, por exemplo,
temos as obras dos seus principais I(deres, bem como as atas
dos concílios e as crônicas da época. Apesar de muitas destas
fontes terem coloração partidária, sua abundância permite
que as comparemos, para assim tentar equilibrar nosso julgamento. Mas no caso dos movimentos populares a situação é
bem diferente. Seus segu idores eram quase totalmente pessoas
sem instrução, que ou não sabiam escrever, ou não sentiam o
desejo de deixar registros para a posteridade. Muitos destes
movimentos eram de caráter apocal (ptico, e os que deles faziam
parte criam que o fim estava próximo, e por isto não viam
razão alguma para narrar sua história, ou para pôr seus ensinos
no papel. ~ bem possfvel que, se tivessem a intenção de fazê-lo
não o teriam conseguido, pois tratava-se de correntes de
entusiasmo, que apareciam de repente em algum lugar, para
logo depois desaparecer, continuar correndo sob a superf(cie,
e irromper novamente em outra época e outro lugar. Os próprios integrantes dos movimentos desconheciam sua história.
Quanto aos testemunhos dos seus inimigos, sua veracidade
é muito duvidosa. Nesta época fazia-se uma série de acusações
contra qualquer movimento que parecesse ser sedicioso ou herético. Dizia-se que os I(deres destes movimentos eram pessoas
que utilizavam o entusiasmo religioso para soltar as rédeas
da imoralidade e do roubo, odiavam os sacerdotes e toda a
hierarquia da igreja, profanavam o sacramento do altar, criam
que o fim do mundo estava próximo, diziam ter recebido
uma nova revelação de Deus, ou que o Espfrito Santo se tinha
encarnado nelas, etc. ~ bem possfvel, e até provável, que em
Os movimentos populares 1111
alguns casos parte disto tenha sido verdadeiro. Mas o fato
de as mesmas acusações terem sido feitas contra movimentos
claramente diferentes nos faz suspeitar que freqüentemente
eram falsas.
Por estas razões a história dos movimentos religiosos
populares do fim da Idade Média ainda está por ser escrita.
Não é possfvel saber com exatidão como este grupo se relacionava com aquele, nem a origem dos seus nomes, nem sequer
o que muitos destes nomes significavam. Por isto não podemos
narrar aqui a história destes movimentos. Podemos, isto sim,
assinalar suas caracterfstlcas comuns, e o que significavam
para a história do cristianismo.
Desde os tempos de Constantino o problema dos bens
e da pobreza tinha sido uma preocupação quase que constante
dos cristãos. Quando o Império Romano se tornou cristão,
e a igreja ficou cheia de luxo e pompa, o monaquismo surgiu
como movimento de protesto. Quando, nos séculos XII e XIII,
a economia monetária começou a mudar a paz social da Europa,
houve novos sinais de inconformismo. O mais notável foi o
franciscanismo, cujo fervor varreu toda a Europa ocidental.
Mas tanto na época de Constantino como no século XIII a
igreja soube
assimilar estes movimentos, dar-lhes um lugar
na estrutura eclesiástica, e mais tarde transformá-los em instrumentos dóceis nas mãos da hierarquia .
.Na época que estamos estudando, a igreja tinha perdido
esta flexibilidade. Já no século XLII houve quem temesse que
surgissem mais movimentos como o franciscanismo, prevendo
que a igreja não poderia controlá-los. Por isto em 1215 o
quarto concflio de Latrão proibiu a fundação de novas ordens.
Agora, nos séculos XIV e XV, a tendência que se manifestara
em 1215 chegou ao seu ponto culminante. A hierarquia sentia
seu poder ameaçado pelo fervor dos novos movimentos de
pobreza. A pobreza franciscana tinha sido reinterpretada de
modo, que não requeria a pobreza da ordem em si, mas somente
dos seus membros como indiv(duos. Como ordens, tanto
a de São Francisco como a de São Domingos se tornaram ricas
e poderosas. Os prelados, agora senhores poderosos, e os frades,
cujo espfrito de crítica profética tinha sido esquecido, viam
nos novos movimentos que exaltavam a pobreza uma censura
112 / A era dos sonhos frustrados
A igreja e a fé eram representadas como uma grande fortaleza, protegida
pelos prelados e por alguns frades eruditos, enqoento o povo Ignorante
e fBmitico tentallB miná-la.
a eles. Por isto tinham a tendência de rotulá-los de heréticos
e corruptos.
A questão da pobreza tinha duas origens. De um lado
estavam pessoas relativamente conscienciosas, que abraçavam
uma pobreza voluntária, por motivos de renúncia. Este tinha
sido o caso, no século XIII, de São Francisco de Assis. Durante
os séculos que estamos estudando - o XIV e o XV - continua-
Os movimentos populares / 113
ram existindo pessoas da mesma origem social, que se sentiam
impelidas por motivos semelhantes. Mas já que o franciscanismo
e outras ordens parecidas tinham abandonado seu espírito
inicial, estas pessoas se viam obrigadas a procurar maneiras
próprias de expressar e viver o que pensavam ser sua vocação
de pobreza voluntária, e por isto criavam grupos ou movimentos
que não eram bem vistos pela hierarquia da igreja. Outras
se juntavam a movimentos que existiam entre as classes humildes, porque parecia-lhes que ali seria mais fácil cumprir o
ideal evangélico da pobreza que São Francisco e tantos outros
antes dele tinham pregado.
Bem - e agora chegamos à outra origem da questão - se
a pobreza voluntária é uma virtude, a involuntária, que é resultado não de uma decisão própria, mas das condições sociais,
também não o seria? Nas Escrituras há numerosas indicações
de que Deus julga a favor dos pobres e contra os ricos que
os oprimem. Por diversos meios esta idéia central da Bíblia
chegava aos marginalizados. Um destes meios provavelmente
eram pessoas de posição social melhor, que voluntariamente
compartilhavam da sorte dos pobres, mas cujo nível de instrução lhes permitia apelar para as Escrituras para defender o valor
da pobreza, e cujos argumentos e ensinos os marginalizados
escutavam. Outro meio eram as muitas histórias de mártires
e milagres que circulavam entre o povo. Nestas freqüentemente
havia um confronto entre um senhor poderoso e uma pessoa
oprimida, e não havia dúvida de que Deus estava do lado desta
última.
Por todas estas razões, e porque os tempos economicamente eram maus, surgiu rapidamente uma multidão de movimentos que se confundiam entre si. Alguns procuravam somente
uma oportunidade para praticar a pobreza voluntária. Outros
viam nos males da época um sinal dos tempos apocal (pticos.
O anticristo viria em breve, ou já estava no mundo. Era necessário arrepender-se, castigar o corpo, para assim se salvar do
mal que viria sem demora. Outros, enfim, passaram do arrependimento à ação. Os últimos tempos, que se aproximavam,
deveriam ser marcados pela fidelidade ao evangelho e pela
justiça. Nesta hora a tarefa do cristão consistia em empunhar
as armas e marchar em direção ao Reino de Deus, contra os
114 / A era dos sonhos frustrados
que falsificavam
a verdade evangélica, ou contra os que destru (am a justiça oprimindo os pobres.
Já que aqui é imposs(vel narrar a história de toda esta
agitação,
iremos nos limitar a dar uma idéia superficial de
um movimento cujo ponto central foi a pobreza voluntária - o
das beguinas e dos begardos - de outro cuja caracterfstica
foi a penitência extrema - os flagelantes - de um terceiro que
tentou estabelecer
a verdade evangélica mediante a força das
armas - os taboritas - e por fim um dos muitos que sonharam
com o Reino da justiça - o de Hans Bohrn,
Beguinas e begardos
O monaquismo
sempre tinha exercido uma forte atração
sobre as mulheres.
No século XIII o despertamento
religioso
que deu origem ao franciscanismo
se fez sentir também entre
elas. rl:iuitas se uniram aos ramos femininos dos franciscanos
e dos dominicanos.
Outras engrossaram
as fileiras das ordens
mais antigas. Mas em pouco tempo seu número era tão grande
que os homens começaram
a se queixar, e a limitar o número
de mulheres que estavam dispostos a aceitar no ramo feminino
das suas ordens.
muito provável que em parte este impulso
entre as mulheres foi motivado pelo fato de a vida monástica
ser o único meio ern que elas, mesmo as mais ricas, podiam
escapar de uma vida completamente
dirigida pelos desejos
e decisões dos outros - pais, irmãos, esposos e filhos.
Seja como for, os conventos tradicionais em pouco tempo
não tinham mais espaço para todas as candidatas, e um grande
número de mulheres passou a se reunir em pequenos grupos
que viviam juntos e levavam uma vida de oração, devoção
e relativa pobreza. Estas passaram a ser chamadas de "beguinas", e as casas em que viviam de "beguinagens".
A origem
deste nome é obscura, mas tudo parece indicar que ele era
depreciativo,
pois era usado freqüentemente
como sinônimo
de "herege"
ou de "albigense".
Isto é um ind feio de como
o restante da sociedade
as considerava,
e também a maior
parte da hierarquia
eclesiástica.
Alguns bispos apoiaram
o
movimento,
mas outros o proibiram
em suas dioceses. Em
fins do século XIII começou a haver legislação contra este
É
Os movimentos populares /115
Na cidade de Bruxelas, na Bélgica, ainda existe este antigo beguinagem.
Foto deJM.
tipo de vida, que ameaçava a estrutura da igreja porque não
constitu (a uma ordem oficialmente
estabelecida,
e também
não seguia o tipo de vida do restante dos leigos.
Na mesma época o movimento
começou a assumir coloração um pouco diferente.
No começo
muitos beguinagens
aceitavam
somente mulheres que tivessem meios para suprir
sua própria subsistência.
Mas depois começaram
a ingres$<Jr
neles outras de origem mais simples, cuja pobreza não .rn
totalmente
voluntária,
mas mais real que a das
primoir I".
Sem demora os beguinagens
começaram
a ser acusados Ut
centro de ociosidade,
onde se refugiavam mulheres que nflo
queriam assumir as responsabilidades
da sociedade. Com ad .•
vez mais insistência os bispos começaram
a lhes antepor OUS
táculos. Como conseqüência
as beguinas se afastaram cada vez
mais da igreja hierárquica, e algumas chegaram a abraçar doutrinas supostamente
ou realmente
erradas. Em alguns poucos
lugares, particularmente
nos Países Baixos, elas conseguiram
sobreviver
até tempos
recentes.
Mas em muitos outros elas
foram proibidas.
ou se juntaram a movimentos
mais radicais.
116 / A era dos sonhos frustrados
Em menor número e em data um pouco posterior os
homens seguiram o mesmo caminho das mulheres. Estes receberam o nome de "begardos", e também foram acusados mais
tarde de heresia, e destru (dos.
Os flagelantes
Os flagelantes apareceram pela primeira vez em 1260,
mas tiveram uma expansão súbita no século XI V. Eles eram
pessoas que castigavam seus próprios corpos com chicotes, em
penitência por seus pecados. Isto não era novidade, pois diversos
grandes mestres do monaquismo o tinham praticado. Mas até
então isto sempre ocorrera dentro do âmbito da vida monástica,
e quase sempre tinha sido regulamentado pelas autoridades.
Agora passou a ser um movimento popular. Convictos de
que o fim do mundo se aproximava, ou de que Deus o destruiria se a humanidade não desse mostras convincentes de
arrependimento,
centenas e milhares de cristãos começaram
a se chicotear a ponto de fazer correr sangue.
Não se tratava, ao contrário do que poder(amos supor,
de um movimento histérico momentâneo
e desordenado,
mas de uma disciplina regida e às vezes até mesmo ritualista.
Alguém que quisesse se juntar ao movimento tinha de se comprometer a segui-lo durante trinta e três dias e meio. Durante
este tempo tinha de obedecer totalmente aos seus superiores.
Depois, mesmo voltando para casa, o flagelante ficava comprometido a se chicotear todos os anos na Sexta-feira Santa.
Durante os trinta e três dias da sua obediência o flagelante
se unia a um grupo que seguia diariamente um ritual prescrito.
Iam em procissão até a igreja, marchando de dois em dois e
cantando hinos. Depois de rezar à Virgem na igreja se dirigiam
para uma praça pública, sempre entoando hinos. Ali desnudavam as costas e formavam um grande círculo. Depois de
se prostarem em oração, ficavam de joelhos e, ao mesmo tempo
que continuavam cantando, se flagelavam até sangrar. Outras vezes, enquanto se chicoteavam, um dos Iíderes pregava, geralmente sobre os sofrimentos de Cristo. Depois se levantavam, cobriam novamente suas costas, e voltavam marchando em procissão. Faziam isto duas vezes por dia, além de outra flaqelaçãoindividual, à noite.
Os movimentos populares / 777
Chicatllallllm-611 até correr SIIngUII. Assim os represent« lista gravura da
época.
Apesar de serem acusados de gente desordenada,
a verdade
tinham uma disciplina regida. A princfpio
a hierarquia não os viu com maus olhos, mas pouco a pouco
sua atitude
foi mudando.
A causa disto foi principalmente
que aparentemente
os flagelantes
ofereciam
um caminho
de salvação dissociado dos sacramentos
da igreja. Se sua flagelação constituía
uma penitência,
como eles diziam, isto implicava em que era poss(vel uma penitência
válida à parte da
confissão
ao sacerdote.
Além disto ul(JlIrlS
começaram
a se
referir à flagelação como um "segundo
b.uisrno",
imitando
o que tinha sido dito muitos séculos
11111',
do martírio.
Em
conseqüência
diversos prelados os ÚCllhllt 1111 do querer usurpar
"o poder das chaves" que tinha sidu ti 1<10 I Pedro e a seus
sucessores. A isto foram acresccnuuhu
111111"',
icusacões. Vestir
um hábito especial sem ter peru: !ol, II II II ol 1',10 era um ato
é que os flagelantes
118 / A era dos sonhos frustrados
de desobediência.
Quando suas reuruoes foram proibidas,
os que continuaram se reunindo foram acusados de participar
de reuniões ilIcitas. Em vários países eles foram perseguidos.
!'v'ais tarde deixaram de praticar sua flagelação em público.
Mas parece que o movimento continuou de maneira clandestina por várias gerações.
Os taboritas
Quando estudamos os hussitas tivemos oportunidade
de nos referirmos aos taboritas. Seu cantata com os hussitas
de Praga, e a necessidade de formar uma frente unida contra
as repetidas cruzadas que foram lançadas contra a Boêmia,
levaram os taboritas a abrandar algumas das suas doutrinas
originais. Ao que parece estas doutrinas se baseavam no começo
em um milenarismo exagerado. O fim estava às portas. Então
Jesus Cristo castigaria os ímpios, e exaltaria os eleitos. Nos
últimos dias, à espera do fim, era tarefa destes eleitos empunhar
a espada e preparar o caminho do Senhor. Não havia motivo
para ter misericórdia daqueles que de qualquer forma o Juiz
Supremo iria condenar ao fogo eterno. Por isto todos os que
agora se opunham à vontade de Deus deveriam ser destru ídos
pelas mil (cias cristãs. Quando chegasse a hora final Deus restauraria o para (so. Quando alguns dos taboritas, os adamitas,
levaram estas doutrinas ao extremo de andarem nus, imitando
Adão e Eva no paraíso, e se dedicaram a uma vida licenciosa,
afirmando que não poderiam ser condenados porque já faziam
parte dos eleitos, o restante dos taboritas se voltou contra
eles e os passou ao fio da espada.
O estudioso moderno pode descobrir em todo este movimento as conseqüências de um profundo sentimento de opressão social, mas os taboritas não viam o Reino vindouro nestes
termos, em primeiro lugar. Não se tratava tanto da vitória dos
oprimidos sobre os opressores, como do triunfo dos santos
sobre os pecados. Mas é realidade que quase todos os taboritas
pertenciam às classes marginalizadas da Boêmia, e que os
"pecadores" que eles condenavam eram os ricos e poderosos,
primeiro na Boêmia, e depois da condenação de Huss de toda
a Europa.
Os movimentos
populares
/ 119
Outro fato significativo é que a expectação escatológica
levou os taboritas a tomar atitudes concretas, e contribuiu
para seus repetidos triunfes sobre os invasores alemães. É
importante mencionar isto, porque freqüentemente se diz que
esta expectação leva as pessoas ao conformismo, quando na
verdade a história nos relata diversos casos que provam o
contrário. Na realidade muita coisa depende do conteúdo
concreto desta expectativa, e da maneira em que ela se relaciona com o presente.
Hens Bohm
Era a quaresma de 1476. As colheitas tinham sido fracas
no sul da Alemanha. Na diocese de Wurzburg o bispo, que era
também senhor da comarca, impunha impostos cada vez mais
pesados. Na pequena aldeia de Nicklashausen havia uma imagem
A exptlctBtíV8 escstológícs erB urna das coro tnroucos n a!s cumuns destes
mo vimentos populares. Aqui vemos o sntl rlsto , fll aludo pelos demânlos,
BnqUBnto um anjo tenta derrubá-lo.
120 / A era dos sonhos frustrados
da Virgem que passara a ser alvo de peregrinação, pois dizia-se
que ela tinha poderes milagrosos. Num certo dia do mês de
março o jovem pastor Hans Bohrn se levantou no meio dos
peregrinos e começou a pregar. Suas palavras tocavam fundo
no coração. Sua mensagem, que era necessário se arrepender,
encontrou eco naquelas pessoasangustiadas, e em pouco tempo
contava-se aos milhares os que acorriam para ouvir o jovem
Bbhm. Muitos deles permaneciam ali, e os cronistas nos contam
que o número dos que se reuniram passou de cinqüenta mil.
Então as mensagens de Bbhm começaram a ser mais
radicais. Diante de toda aquela miséria reunida ali, não era diffcil ver o contraste entre a mensagem cristã e a vida luxuosa
que o bispo de Wurzburg levava. Bbhm começou a atacar a
pompa, a avareza e a corrupção do clero. Depois anunciou que
viria o dia em que todos os seres humanos seriam iguais, e todos
teriam de trabalhar. Isto era o que o Senhor prometia. Mais
tarde Bohm instigou seus seguidores a agirem em antecipação
ao dia do Senhor, negando-se a pagar qualquer tipo de impostos,
d(zimos ou outras obrigações, e marcou um dia em que todos
juntos marchariam para reclamar seus direitos.
Nunca se soube o que Bôhrn tencionava fazer, pois no dia
anterior à data marcada os soldados do bispo se apoderaram
dele e dispersaram seus seguidores a tiros de canhão. Pouco
depois Bohrn foi queimado como herege. Como aparentemente
o fermento da sua pregação continuava, o bispo colocou toda a
aldeia sob interdito, e proibiu as peregrinações para lá. Mas
nem mesmo estas medidas sufocaram as últimas fa(scas do
movimento, até que a igreja foi destruída por ordem do arcebispo de Mainz.
Este episódio é somente um de várias dezenas que podedamos ter contado. Os últimos anos da Idade Média foram
caracterizados por um grande descontentamento popular, que
combinava causas sociais com motivos religiosos. Os oprimidos
viam que a vida dos apressores não só era injusta, mas também
se vestia com um manto de piedade cristã, e inclusive se apoiava
na autoridade da igreja. Contra esta situação houve inúmeros
movimentos de protesto, e até rebeliões que só puderam ser
sufocados mediante a ação militar. Em todos estes casos as
autoridades eclesiásticas, que integravam o número dos que se
Os movimentos populares / 121
beneficiavam com a situação existente, deram todo seu apoio
aos poderosos. Em conseqüência disto floresceu o sentimento
anti-cJerical, inspirado no início não por correntes modernas
de secularização, mas pelo antiquíssimo sonho de justiça entre
os seres humanos.
VIII
A alternativa
mística
A contemplação é um conhecimento
superior aos diversos tipos de
conhecimento .... É uma ignorância
iluminada, um belo espelho onde
brilha a eterna luz de Deus.
João de Ruysbroeck
Os séculos XIV e XV foram um período de muita atividade
religiosa, mesmo em meio às suas muitas frustrações, e talvez
em parte por causa delas. Tanto na Espanha como na Inglaterra
e na Itália houve místicos notáveis cujas obras serviram de
inspiração para várias gerações. Mas foi na Alemanha, nas margens do Reno em particular, que este movimento floresceu
e realizou seus maiores feitos.
Durante toda a sua história o cristianismo contou com
homens e mulheres cuja relação com Deus foi tal que receberam
o título de "místicos". Nesta história; porém, apareceram dois
tipos diferentes de misticismo, entre os quais convém fazer
distinção. Um é essencialmente cristocêntrico. Não pretende
chegar a Deus através da contemplação direta, ou através de uma
iluminação divina, mas através de Jesus Cristo. Sua contemplação tem por alvo os sofrimentos de Jesus, ou sua ressurreição
e triunfo final. Exemplos deste tipo de misticismo são o Apocalipse, São Bernardo de Claraval e São Francisco de Assis. O
outro tipo de contemplação se deriva principalmente da tradição neoplatônica. O propósito dos que seguem este caminho
é ascender através da contemplação interna, até chegar à união
124 / A era dos sonhos frustrados
com o Um inefável. Plotino, o grande mestre pagão deste tipo
de misticismo, dizia que nesta união a alma chegava a um estado
de êxtase. Mais tarde alguns dos seus seguidores foram inimigos encarniçados
do cristianismo.
Mas outros
aceitaram
esta fé, e desta forma este segundo tipo de misticismo foi
introduzido
na tradição cristã. Através do falso Dion(sio, o
Aeropagita,
Gregório de Nissa, Agostinho e outros, o neoplatonismo se uniu a tal forma ao cristianismo
que muitos chegaram a confundi-los.
A parti r de então grande parte dos m Isticos cristãos escolheu o segundo caminho, em lugar do cristocêntrico.
Em alguns casos, como no de Boaventura no século XIII, os dois elementos se uniram, e este místico dedica
bel fssimos escritos
à contemplação
da paixão de Cristo, e
outros
ao processo
de subir espiritualmente
pelos degraus
da hierarquia
das coisas criadas, até chegar à contemplação
co criador.
grande mestre cio misticismo alemão foi Eckhart de
Hochheim,
conhecido
geralmente
como I\~estre Eckhart. Em
fins do século XIII, quando tinha uns quarenta anos de idade,
Eckhart foi enviado por sua ordem - a de São Domingos - para a universidade
de Paris. Depois de completar
ali os seus
estudos ele foi nomeado provincial da Saxônia, e mais tarde
vigário-geral da Boêmia. No exercício destes cargos ele demonstrou que seu misticismo não impedia que ele fosse um administrador prático e eficiente. Durante seus últimos anos coube-lhe
viver na época do papado de Avignon, e ele sofreu muito com
as circunstâncias
que a igreja atravessava.
A doutrina
m (stica de Eckhart é essencialmente
neoplatônica. Seu ponto de partida é a contemplação
da divindade,
do Um inefável. Tudo que podemos dizer de Deus é inexato,
e por isto, em certo sentido, falso. "Se eu digo: Deus é bom,
isto não é verdade. Eu sou bom, Deus não". Uma afirmação
como esta pode ser mal interpretada,
e de fato o foi. Naturalmente o que Eckhart queria dizer não era que Deus fosse
mau, mas que qualquer linguagem que descreve Deus é analógica, e por isto inexata. Mas no fim das contas suas palavras
deixam claro a direção em que ia seu pensamento,
cujo propósito era exaltar Deus, mostrando que ele está acima de todo
conceito humano, razão pela qual o verdadeiro conhecimento
a
A alternativa mística / 125
de Deus não é racional, mas intuitivo. Não podemos conhecer
Deus estudando-o,
mas vendo-o em contemplação
m (stica.
Em Deus estão desde a eternidade todas as idéias de todas
as criaturas. Já antes de criar o mundo Deus, como art(fice
supremo,
tinha em sua mente a idéia de cada coisa que iria
criar. Este é outro tema caracter(stico
do cristianismo
de
tendência
platônica.
E com base nisto Eckhart chega a dizer:
Nesta verdadeira
essência da divindade,
que está além
de todo ser e de toda distinção, eu não existia; desejei
estar ali; conheci-me
ali; quis criar ali o homem que sou.
Por isto eu sou 'minha própria causa de acordo com meu
ser, que é eterno, mesmo que não de acordo com minha
origem, que é temporal.
Esta afirmação, e muitas outras semelhantes,
fizeram com
que Eckhart
fosse .acusadc de ser herege. Dizia-se que ele
estava ensinando
a eternidade
do mundo e das criaturas, e
confundia
Deus com o mundo de tal forma que incorria em
pante(smo
- a doutrina
que as criaturas são parte da divindade. Ele era acusado particularmente
de ter dito que a alma,
ou parte dela, não é criada, mas eterna. Repetidamente
Eckhart
declarou que isto se baseava em interpretações
falsas dos seus
ensinos. A verdade parece ser que ele tentou evitar cair no
pante(smo,
ou na doutrina da divindade da alma, mas freqüentemente suas afirmações davam margens a estas interpretações.
Até o fim de seus dias ele foi acusado de ser herege, e condenado como tal. Sua .apelação tramitava na cúria papal em Roma
quando morreu.
Mesmo sendo as acusações feitas contra
khart exageros
ou interpretações
erradas dos seus ensinos, não resta dúvida
de que o misticismo
deste mestre alemão
ru bum di] rente
do misticismo cristocêntrico
de São Bernardo I
I)
r (II reis Q.
Prova disto é que para Eckhart os lugares SUIHo!>II U 11111101111 II
importância
que tinham tido para aqueles.
,I( dl.1 II <tlll ".11
rusalém está tão próxima da minha alma como o III III • III III"
estou neste momento".
Para isto não era noc :J', II (j '"
I I I)
olhar em di reção a Jerusalém,
nem para os Icollli
I. 1111 III( I
que tiveram lugar ali. O importante é se dedic Ir ) COi,l, '11111111, II
126 /
A era dos sonhos frustrados
interna, "deixar-se
levar", e chegar a ver Deus "sem nenhum
intermediário".
Mesmo acusado de herege em vida, ~v'~estre Eckhart teve
muitos
seguidores,
especialmente
entre os dominicanos.
Os
mais famosos destes foram João Tauler e Henrique
Susso.
Estes dois, apesar de serem menos eruditos que seu mestre, sabiam expor suas doutrinas de maneira que podiam ser compreendidas e seguidas por pessoas muito menos estudadas em questões teológicas, e por isto sua obra consistiu mormente em propagar os ensinos m (sticos de Eckhart.
Seguindo o curso do Reno mais para baixo, encontramos
o lugar onde viveu o místico flamengo João de Ruysbroeck.
E muito provável que Ruysbroeck tenha lido as obras de
Eckhart, e as seguido em alguns aspectos,
mas o misticismo
do flamengo é muito mais prático que o do mestre alemão.
Esta tendência
foi levada mais além por Gerardo de Groote,
outro
rnfstico
flamengo
sobre quem
Ruysbroeck
teve um
forte impacto. Por causa da obra destes dois o que é chamado
de "devoção
moderna"
tomou forma e se popularizou.
Esta
devoção consistia em levar uma vida de meditação disciplinada,
orientada
principalmente
em direção à contemplação
da vida
de Cristo, e a imitá-lo. O escrito mais famoso desta escola
é Imitação de Cristo, que até hoje continua
sendo uma das
obras de devoção
mais lidas, tanto por católicos como por
protesta ntes.
Parte da obra de Ruysbroeck e de seus discípulos consistiu
em mostrar os erros dos "irmãos de esp(rito livre". As doutrinas deste movimento
não estão bem claras. Mas parece que
se tratava de pessoas com tendências m (sticas que diziam que,
por causa da sua experiência
direta com Deus, eles não precisavam de meios como a igreja ou as Escrituras. Alguns chegavam
a dizer que, como eram pessoas espirituais,
podiam dar liberdade ao corpo para que seguisse suas próprias
inclinações.
Uma conseqüência
notável da obra de Gerardo de Groote
foi o surgimento
dos Irmãos da Vida Comum.
De Groote
renunciou
ao rendimento
eclesiástico que recebia, e passou a
pregar contra os abusos eclesiásticos,
e a exortar seus seguidores para que levassem uma vida de santidade
e devoção
renovadas. Em contraste com os que antes dele tinham pregado
A alternativa mística / 127
a mesma coisa, no entanto, de Groote não exigia de seus seguidores que se dedicassem à vida monástica, mas lhes dizia que
deveriam continuar sua vida normalmente, e nela se dedicar
à devoção, a não ser que tivessem uma vocação monástica.
Apesar disto mais tarde muitos dos seus discípulos se dedicaram à vida monástica, seguindo a regra agostiniana. Mas nunca
perderam seu interesse pela vida comum, e por isto os Irmãos
da Vida Comum fundaram escolas que não tinham igual. Nestas
escolas não educavam só os que queriam ser monges, mas também pessoas que tencionavam abraçar carreiras bem diferentes.
Assim, ao mesmo tempo que estimulavam o estudo, promoviam
a "devoção moderna". Estas escolas foram um centro de renovação da igreja, pois nelas se formaram pessoas de espírito crítico
e reformador. O mais famoso de seus alunos foi Desidério
Erasmo, a quem voltaremos mais adiante.
A não ser em alguns poucos casos o misticismo alemão e
flamengo dos séculos XIV e XV evitou os excessos do entusiasmo. A contemplação mística não tinha o propósito de produzir
grandes emoções, mas uma paz interna. E a maneira utilizada
não era tanto o estfrnulo das emoções, mas a meditação. Na
opinião destes místicos chegava-se a Deus não pelos sentimentos, mas através do intelecto.
Este movimento não tinha a intenção de se opor à igreja,
nem à sua hierarquia. Alguns dos seus JCderes criticaram os
abusos dos prelados, em particular o seu espírito de ostentação,
mas com o passar do tempo a maioria encontrava uma resposta
para esta situação, em termos de não mais atacá-Ia abertamente, mas se retirar para meditar. Se a igreja estava corrompida, o cristianismo ainda podia se sobrepor a esta corrupção
seguindo o caminho da devoção morderna, e dedicando-se a
imitar a Cristo. Por estas razões o movimento m fstlco pôde
continuar seu caminho sem que fosse perseguido como o foram
reformadores no estilo de Huss e de seus seguidores.
Mas por outro lado o misticismo era uma ameaça, em um
sentido mais profundo, não mais para os prelados corruptos,
mas para a própria noção de igreja hierárquica como a conheceu
a Idade lViédia. De fato, se o cristão chega ao nível supremo
da vida espiritual chegando-se diretamente a Deus, a conclusão
óbvia é que os sacramentos, a pregação e a comunhão com
128 / A era dos sonhos frustrados
a igreja têm um valor secundário, ou pelo menos passageiro.
O m (stico, em seu estado de contemplação perfeita, não precisa
de sacerdotes que lhe ofereçam os sacramentos, nem de uma
igreja que lhe mostre que caminho deve seguir, nem mesmo
das Escrituras para lhe mostrarem qual é a vontade de Deus.
Os místicos dos séculos XIV e XV poucas vezes chegaram a
estas conclusões. Mas em suas doutrinas havia um fermento
que mais tarde despedaçaria a autoridade da hierarquia eclesiástica, e em alguns casos até mesmo a da Escritura.
Podemos ver no misticismo, assim como já vimos no nacionalismo de que já falamos, os primeiros sinais da ruptura da
unidade hierárquica que a igreja medieval presenciou.
IX
A teologia
acadêmica
Todos têm um desejo natural de
saber. Mas de que serve o
conhecimento sem o temor de Deus?
Sem dúvida um lavrador humilde
que serve a Deus é melhor que um
filósofo orgulhoso que ... tenta
entender o rumo do céu.
Imitação
de Cristo
A teologia acadêmica teve duas características principais
depois de seu apogeu com Tomás de Aquino. A primeira foi
uma tendência constante para as distinções cada vez mais sutis,
as questões rebuscadas e escabrosas, e o estilo condensado e
carregado. A segunda foi uma crescente separação entre a filosofia e a teologia, entre o que a razão pode descobrir e o que
somente sabemos depois de Deus revelá-lo.
São Tomás de Aquino e seus contemporâneos tinham
afirmado que entre a fé e a razão havia uma continuidade
fundamental, de maneira que certas verdades reveladas como a da existência de Deus - podiam ser conhecidas também através do uso correto da razão. I\ías pouco depois da
morte do grande mestre dominicano foi se abrindo um abismo
cada vez mais profundo entre os dois tipos de adquirir conhecimento.
João Duns Escoto, o mais famoso do rn stres franciscanos
desde o tempo de Boaventura, recebeu COir1 lodo a justiça o
tftulo de Doctor suti/. Este título lh . 101 ('Olll( I ido como uma
130 / A era dos sonhos frustrados
honra, mas na verdade é testemunho do maior defeito das suas
obras. Sua sutileza e suas distinções constantes são tantas e
tais que seus escritos somente podem ser compreendidos pelos
especialistas que dedicaram longos anos ao estudo da teologia
e da filosofia desta época. Em meio a todo o emaranhado de
seus escritos, entretanto, uma coisa fica clara: Duns Escoto
não concorda com os teólogos da geração anterior à sua, que
criam que doutrinas como a da imortalidade da alma, ou da onipresença divina, podiam ser provadas de maneira racional.
Escoto não nega estas doutrinas. Nem sequer nega que sejam
compat(veis com a razão. Mas nega que a razão seja capaz de
demonstrá-Ias. No máximo a razão pode chegar a provar que
estas coisas são possíveis. mas não que são necessárias.
Esta tendência ficou mais clara na teologia de Guilherme
de Occam e de seus contemporâneos e discípulos, nos séculos
XIV e XV. Partindo da onipotência divina estes teólogos chegaram à conclusão de que a razão natural não pode provar absolutamente nada relacionado com Deus, nem com seus propósitos.
Quase todos estes teólogos estabelecem uma distinção
entre o poder de Deus "absoluto" e seu poder "ordenado".
Se Deus é verdadeiramente onipotente isto quer dizer que ele
pode fazer o que lhe agrada, de acordo com seu poder absoluto.
Não existe nada que possa limitar este poder. Tanto a razão
como a distinção entre o bem e o mal estão subordinadas a
ele. Se ocorresse o contrário ter(amos de dizer que o poder de
Deus é limitado pela razão, ou pela idéia do bem. ~ somente
por causa do seu poder ordenado que Deus age razoavelmente,
e que Deus faz o bem.
Falando em termos estritos, na opinião destes teólogos,
não se deve dizer que Deus sempre faz o que é bom, mas que
tudo o que Deus faz é bom, seja o que for. ~ Deus quem determina o que é bom, e não vice-versa.
Da mesma forma não podemos dizer que Deus age de
maneira razoável. Não é a racionalidade que faz com que Deus
aja desta ou daquela maneira. Pelo contrário, é Deus, em sua
vontade soberana, que determina em que consistirá a razão, e
então, através do seu poder ordenado, age seguindo as diretrizes
desta razão.
A teologia acadêmica /131
Em conseqüência,
os antigos argumentos
através dos quais
os teóloqos tentavam demonstrar
que esta ou aquela doutrina
era razoável ou "conveniente"
perdiam todo seu valor. Tomemos como exemplo o problema
da encarnação.
Anselmo, e
quase toda a tradição teológica a partir dele, tinha dito que
a encarnação de Deus em um ser humano era razoável, porque
a humanidade
tinha uma devida para com Deus que, por ser
infinita, somente podia ser paga por Deus, e que, por ser humana, somente podia ser paga por um ser humano. Mas agora
os teólogos dos séculos XIV e XV afirmam que tudo isto,
que pode parecer muito racional do nosso ponto de vista, não
o é se levamos em conta o poder absoluto de Deus. Com seu
poder absoluto Deus poderia ter decretado
que a d (vida fosse
cancelada,
ou simplesmente
declarado que o ser humano não
era pecador, ou ter contado como mérito qualquer outra coisa
que escolhesse, bem diferente dos méritos de Cristo. Por isto,
o fato de sermos salvos por estes méritos não é porque tinha
de ser assim, ou que a encarnação
e os sofrimentos
de Cristo
tenham sido o meio mais apropriado, mas simplesmente
porque
Deus assim o determino.u.
De igual modo também não podemos pensar que na criatura humana haja algo que a torne particularmente
apta para
a encarnação.
A presença de Deus na criatura é sempre um
milagre. ~ um milagre tão grande que nada tem a ver com a
capacidade do ser humano de receber o Criador. Por esta razão,
continuando
nesta linha de pensamento,
houve discípulos de
Occam que chegaram a dizer que, se Deus quisesse, poderia
ter se encarnado em um burro.
Tudo isto não deve nos levar a pensar que estes teólogos
fossem pessoas incrédulas que tinham prazer em fazer perguntas sutis só pelo prazer de fazê-Ias. Ao contrário,
tudo que
sabemos de suas vidas parece indicar que eram pessoas devotas
e sinceras. Seu propósito era exaltar a Ulól iu de Deus. O Criador
está a uma distância infinita da criu tur ti. /\ mente humana é
incapaz de penetrar os mistérios de I uu:.. 1\ onipotência divina
é tal que todos os nossos esforços (II 1)(III trar nela se deterão
diante dela. Pretender que a man iI U CUIII que Deus age é eminentemente
racional equivaleria (I I III I II I I )eus, colocando a
razão acima dele. Este era o teor d I Ir 010, I d .• época.
132 / A era dos sonhos frustrados
Não se tratava, portanto,
de uma teologia incrédula, disposta a crer somente o que a razão pudesse demonstrar,
mas
exatamente
do contrário.
Tratava-se
de uma teologia que,
depois de provar que a razão tem pouca serventia, colocava
tudo nas mãos de Deus, e estava disposta a crer em tudo o que
o Senhor tinha revelado; e crer não por ser racional, mas por
ter sido revelado.
Disto conclu (mos que a questão da autoridade é de suma
importância para a teologia dos séculos XI V e XV. Se não podemos provar pela razão que esta ou aquela afirmação é correta,
deve haver autoridades
infal íveis que nos dêem a conhecer a
doutrina verdadeira.
Occam cria que tanto o papa como um
concílio universal podiam errar, e que somente as Escrituras
eram infal (veis. Mas algum tempo depois, à medida que o
Grande Cisma do Ocidente levou o movimento
conciliar ao
seu auge, muitos teólogos começaram a pensar que um concílio
universal era a autoridade
suprema, e que qualquer oposição
deveria cessar diante dele. Por esta razão no concílio de Constança OS grandes teólogos Gerson e Ailly insistiam na necessidade de Huss se submeter ao concílio. Se ele tivesse oportunidade de demonstrar
que a grande assembléia estava equivocada
ao condená-lo,
a autoridade
do concílio cairia por terra. E
como eles mesmos tinham dito que o poder da razão é muito
pequeno,
não restaria nenhuma
alternativa
para subsanar o
cisma, reformar a igreja, ou determinar qual era a reta doutrina.
Por outro lado, esta doutrina dava muita importância
à
fé, não só como crença, mas também como confiança.
Deus
ordenou seu poder para nosso bem. E isto quer dizer que devemos confiar nas promessas de Deus, mesmo quando todas as
considerações
da razão nos levarem a duvidar delas. A onipotência divina é tal que está acima dos nossos inimigos. Os que
confiam nela não serão desamparados.
Este foi o tema característico de alguns teólogos anteriores
à Reforma, e o veremos aparecer novamente em Martinho Lutero.
Mas por mais devotos que estes pensadores tenham sido,
suas sutilezas e sua insistência em definições precisas e sutis
não podiam deixar de provocar uma forte reação entre os que
viam o contraste
entre a complexidade
da teologia acadêmica
e a simplicidade do evangelho. Parte desta reação foi a "devoção
A teologia acadêmica / 133
moderna", de que falamos no capítulo anterior. Desta devoção
surgiu a Imitação de Cristo, livro que logo ficou muito popular,
e que expressa no primeiro capítulo o que parece ter sido uma
reação muito comum contra a teologia da época:
De que te adianta poder debater com profundidade
sobre a Trindade, se te falta a humildade, e com isto ofendes a Trindade?
As palavras altissonantes não fazem com que alguém
seja santo e justo. A vida virtuosa é que faz com que sejamos agradáveis a Deus.
melhor sentir o arrependimento que saber defini-lo.
Se soubesses de cor a Bíblia toda e tudo o que os filósofos têm dito, de que te adiantaria isto, sem o amor de
Deus e sem a graça?
Vaidade de vaidades. Tudo é vaidade, exceto amar
a Deus e servir somente a ele.
Em resumo, nos últimos séculos da Idade Média a escolástica seguiu um caminho que não podia deixar de provocar
uma reação negativa por parte de pessoas devotas, que viam
neste tipo de teologia um obstáculo à piedade, e não uma ajuda.
Com sempre crescente insistência e urgência se fez ouvir o grito
angustiado dos que pediam um retorno à simplicidade evangélica.
É
x
o renascimento
e o humanismo
Oh! Suprema generosidade do
Pai Deus! Oh! altlssima e
maravilhoslssima sorte do ser
humano! A ele foi concedido
ter o que decidir, ser o que
quiser.
Pico de la Miranaola
Poucos termos na história são usados com maior ambigüidade que os de "Renascimento" e "humanismo". O próprio
t(tulo "Renascimento", aplicado a uma época histórica, implica
em um ju ízo negativo da época que lhe precedeu. Neste sentido
o termo foi usado pelos que o cunharam.' Para eles a Idade
Média era somente isto: um período intermediário entre as glórias da antigüidade e as dos tempos modernos. Ao chamar a
arte medieval de "gótica" estavam expressando novamente um
conceito pejorativo - "gótico" quer dizer "proveniente dos
godos", e assim é sinônimo de "bárbaro". Já dissemos no volume anterior que a arte chamada "gótica", longe de ser um sinal
de barbárie, foi um dos maiores feitos da civilização ocidental.
Mas seja como for, os que deram o nome de "Renascimento"
ao movimento intelectual e artístico que surgiu na Itália nos
séculos XIV e XV, além de com isto evidenciar seus preconceitos com relação aos séculos anteriores, davam sinais de ignorância destes séculos.
De fato, o suposto "Renascimento",
apesar de em parte
ter ido às fontes clássicas de Iiteratu ra e arte, se inspi rou mu ito
136 / A era dos sonhos frustrados
mais nos séculos XII e XIII. Sua arte tem profundas raízes no
gótico; sua atitude em relação ao mundo empresta tanto de São
Francisco como de Cícero; e sua literatura se inspira em parte
nos cânticos medievais que os trovadores levavam de região
para região.
Mas apesar de tudo isto ainda podemos, particularmente
na Itália, dar o nome de "Renascimento"
a este período.
Muitos dos principais intelectuais da época viam no passado
imediato, e às vezes no presente, uma época de decadência
com respeito à antigüidade clássica, e por causa disto se empenhavam em provocar um renascer desta antigüidade, em voltar
às suas fontes, e em imitar sua linguagem e estilo. É a isto que
nos referimos aqui quando falamos de "Renascimento".
Quanto ao termo "humanismo",
a ambigüidade não é
menor. Por um lado este termo traz em si a tendência de colocar a criatura humana no centro do universo, e fazer sobressair
seu valor. Por outro lado o mesmo termo se refere ao estudo
das "humanidades".
Um "humanista", então, não é alguém
que exalta o valor humano, mas que se dedica às belas artes,
em particular à literatura. Como veremos no restante deste
capítulo, muitos "humanistas" dos séculos XIV e XV, e mesmo
depois, o eram nos dois sentidos. Seu interesse pelas letras
clássicas freqüentemente andava junto com uma grande admiração pela criatura capaz de produzir estas obras de arte. Mas
nem sempre houve esta união. Por isto, à guisa de simples esclarecimento, diremos que ao falarmos do "humanismo"
neste
contexto não nos referimos a uma opinião sobre o valor da
criatura humana, mas a um movimento literário que se caracterizou pelo estudo cuidadoso das letras clássicas, e por sua
imitação.
A Itália nos séculos XIV e XV
O Renascimento teve na Itália sua origem e sua melhor
expressão. Podemos ver as causas disto, pelo menos em parte,
nas condições polfticas e econômicas desta pen ínsula.
Assim como o restante da Europa ocidental, a Itália
sofreu os estragos da peste bubónica e das guerras, que pareciam ter se tornado endêmicas. E sofreu, muito mais que o
o renascimento
e o humanismo / 137
restante da Europa, as conseqüências do "cativeiro babilônico"
e do grande cisma do Ocidente. Quase constantemente ela foi
cenário de guerras entre papas rivais, ou entre nobres ou republicanos que apoiavam um ou outro dos pretendentes. Ao
mesmo tempo o movimento republicano enfrentava continuamente a velha aristocracia, e por isto havia em cidades como
Florença e Veneza revoluções que com freqüência desembocavam em conflitos armados que se estendiam inclusive aos
territórios vizinhos.
Em meio a estas circunstâncias a Itália não conseguia
seguir o exemplo da França, que tinha conseguido sua unidade nacional, nem da Espanha, que se aproximava deste
objetivo. Os espíritos mais patrióticos entre os italianos lamentavam esta situação. Dentro deste contexto devemos entender
a mais famosa obra de Nicolau Maquiavel, O pr/ncipe. Maquiavel era um patriota florentino que sonhava com a unidade italiana. Suas convicções eram republicanas, mas ele estava convicto também que somente um príncipe astuto e sem muitos
escrúpulos poderia unir o país. Por isto ele dedicou sua obra
ao cardeal Lourenço de Médici, que na época governava Florença, incentivando-o a deixar de lado "as debilidades da nossa
religião" e se lançar a esta empresa.
Não só Maquiavel estava descontente com as condições
da época. Este tema era caracter(stico de toda a Europa, açoi
tada pela praga, pela guerra dos cem anos e pelo grande cisma.
A diferença com a Itália era que nesta a insatisfação ocorria
dentro de um ambiente de prosperidade econômica. As cidades
de Florença, Veneza, Gênova e Milão eram importantes centros
de indústria e comércio. A posição geográfica da Itália, no
centro do Mediterrâneo, permitia a estas cidades beneficiar-se
do comércio com os países muçulmanos e com o Império
Bizantino. A burguesia italiana, que surgiu desta indústria e
deste comércio, era poderos(ssima. Daí o conflito quase constante entre esta burguesia com seus ideais republicanos e a
velha aristocracia.
A prosperidade econômica, unida à instabilidade pol (tica,
deu lugar a uma aristocracia intelectual, de origem principalmente burguesa, que buscou inspiração nos tempos clássicos
da Grécia e da Roma republicana.
138 / A era dos sonhos frustrados
o despertar
das letras clássicas
Um dos principais
propulsores
desta nova tendência
foi
o poeta Petrarca, que em sua juventude
tinha escrito sonetos
o
Renascimento viu surgir um no !tO interesse nos manuscritos gregos que
o Império Bizantino tinha conservedo, Este acima, que é do começo do
eV8ngelho de Lucas e data do século XIII, está guardado na biblioteca
do Seminário Luterano de Chicago.
o renascimento
e o humanismo / 139
em italiano, mas depois passou a escrever em latim, imitando
o estilo de C (cero. Ele logo teve muitos seguidores, que também começaram
a imitar as letras clássicas. Com este propósito copiaram
manuscritos
dos velhos autores latinos. Outros
viajaram até Constantinopla,
e de volta à Itália trouxeram
consigo
manuscritos
gregos. Mais tarde, quando
Constantinopla foi tomada pelos turcos em 1453, muitos exilados bizantinos chegaram à Itália com seus manuscritos
e conhecimentos
da antigüidade
grega. Tudo isto contribuiu
para um despertar
literário que começou na Itália e foi se estendendo
por toda a
Europa ocidental.
Este interesse pelo clássico em pouco tempo inclu (a também as artes, e não só as letras. Os pintores, escultores e arquitetos foram buscar sua inspiração não na arte cristã dos séculos
imediatamente
anteriores,
mas na arte pagã da antigüidade.
Naturalmente
eles não conseguiram se desvencilhar totalmente
da sua herança direta, mesmo querendo fazê-lo, e por isto boa
parte da arte do Renascimento
tem suas raízes no gótico. O
A
invençéo
humanismo.
da imprensa de tipos
móveis abriu novas possibilidades
ao
140 / A era dos sonhos frustrados
ideal de muitos artistas italianos da época, no entanto, era redescobrir os cânones de beleza da antigüidade, e assimilá-los em
suas obras.
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I:mcacmm aium uiunuê m gmil'uo.
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tnltun trttf iu;El'ílfpmm Iunu-iummm 11l1lllU' tllJrilr rarr ígmn:rfuo. ir
uíatr nmo l)J rífrr !:tonú·n lllf.},fllctu
lllunl!oirm an nlmgiuE lliflCUllmé
noRm·, pnfu pír~ mann·rr unI.l'
rilib; ttti 'l hití,n Ul1iiJrrq, l'Ol'C.llluiq;
reprilí qli mnunur í ttrril. Jft mmnr
Illl,lO lloirm illll'magiuhlifnUl:liuf
flhí·Uil rmnginé lllÍ nraurr tllú-mu.
ÚlJ!ú.fnlliuã rnautr roa.!f>ml'llirit,
lj, íllio lJtUo-, mul:rd!in: lltlf.âphm
mini lrepl.ttttttr5·I.tOiIurr ti·1X luiw
mini pifn"h;uhlrío-I.tunlntüiln cditr uniucdin allimiinln qur lUOUntr
ruptttr5.i1~i>icq;lJr9.ltmlll'lli unbif
olUuf I)rdlã uffttntti frmrnfup ttrrii.
IXumufuliUl1"ljut blÍ! III fnurnpto
Úlunlre !J!IIio fur-ur fmcuobloi nrii
llUlltlía aíflllltb"l'Ol'C·ômq;uoltttn
ttti·t uuiurríio ij mouEiurtu Cttríl·, í
quibJ!fi Mima uiurc-ur lJullc.lr uI)
uÚtmlltí.ffrfadú!fi iril:t~llJlcq;!rua
nmrra ljUrfm:rm.l mir unlar bnna,
A S/blia de Gutenberg
manuscritos da época.
está impressa de maneira muito semelhante
aos
o renescimento
e o humenismo / 141
Todo este interesse na antigüidade clássica coincidiu com
a invenção da imprensa, que por sua vez teve um impacto
profundo sobre o humanismo. Mas não devemos pensar que
isto fez das letras renascentistas um movimento popular. Ao
contrário, os livros que os renascentistas mandaram imprimir
eram obras dif íceis de serem lidas, compostas em latim clássico
ou em grego. Além disto a arte tipográfica da época fez todo
o possível para imitar os manuscritos que eram impressos. As
muitas abreviaturas, muito dif íceis de entender, que os copistas usavam para facilitar seu trabalho, continuaram sendo usadas nos livros impressos. Para os humanistas a imprensa era
um meio magn(fico para se comunicarem entre si, ou para
reeditar as obras da antigüidade, mas não para difundir as idéias
entre o povo. Estas idéias continuaram sendo posse exclusiva
da aristocracia intelectual. Exceto o caso de Savonarola, somente quando do advento da Reforma protestante a imprensa começou a ser usada como meio de comunicação com as massas,
para a divulgação de idéias teológicas e filosóficas.
Apesar disto a imprensa teve um impacto notável sobre
as letras renascentistas. Em primeiro lugar os livros se torna-
Os livros eram tio
em correntes,
ceras que em multas btollotoou olos estevem errerrsdos
como no caso dB unlversldedo do Loydon, 8té o século XVII.
142 / A era dos sonhos frustrados
ram relativamente
mais acessíveis. Quando somente havia manuscritos, e mesmo durante várias décadas depois da invenção
da imprensa, os livros eram tão caros que em muitas bibliotecas
eles estavam amarrados às estantes com correntes. Um erudito
de recursos médios podia possuir apenas alguns poucos. Com a
invenção da imprensa foi possível começar a reproduzir
em
quantidades
maiores
alguns dos livros mais apreciados
da
antigü idade.
Isto, por sua vez, fez com que os humanistas vissem até
que ponto os erros dos copistas se tinham introduzido
em
uma obra. Se um humanista,
por exemplo, tomasse um livro
impresso em outra cidade com base em outro manuscrito,
lo~.) encontrava
diferenças entre este livro e outro manuscrito
da mesma obra. Nos séculos anteriores os eruditos não estavam de todo ignorantes
desta situação,
mas a invenção da
imprensa a fez mais palpável.
Bem, a própria imprensa oferecia um meio de remediar
a situação, mesmo que não de todo. Agora era possível produzir várias centenas de exemplares de um livro idênticos entre
si. Já não era necessário confiar a reprodução
de obras literárias a uma multidão de copistas, sob o risco de que cada um
deles introduzisse nelas novos erros. Se um erudito se dedicava
à árdua tareva de comparar vários manuscritos
de um mesmo
livro e tentar chegar a um texto fiel ao original, sua obra podia
culminar
em uma edição impressa, sem mais erros que os
que o próprio erudito deixara passar. Assim surgiu a "crítica
textual",
cujo propósito
não é criticar os textos, como podedamos supor, mas aplicar todos os recursos da crítica histórica para chegar novamente
ao texto original de uma obra.
Tudo isto deu lugar a uma desconfiança
entre os legados
da tradição imediata. Se os manuscritos
não eram totalmente
fidedignos, não era também possível que algumas destas obras
fossem completamente
falsas, produto da imaginação de algum
século posterior?
Logo alguns dos documentos
mais respeitados da Idade Média foram declarados espúrios. Um dos casos
mais notáveis foi o da Doação de Constantino, em que o famoso
imperador
concedia ao papa jurisdição
sobre o Ocidente.
O
erudito Lourenço Valia estudou este documento,
e chegou à
conclusão de que era falso, por diversas razões de estilo, vocabu-
o renascimento
Oficina
ele encederneaores,
e o humanismo /143
no século XVI.
lário, etc, que impossibilitavam
a datação pelo século IV. Da
mesma forma Valia atacou a lenda de acordo com a qual o Credo tinha sido composto pelos apóstolos, antes de se separarem
para partir cada um em sua própria missão.
Tudo isto não teve imediatamente
conseqüências
graves
para a vida da igreja. O próprio Valia serviu como secretário
144 / A era dos sonhos frustrados
do papa, sem que seus estudos e suas conclusões lhe acarretassem maiores problemas.
Isto porque,
como já dissemos,
toda esta atividade literária se limitou a uma aristocracia intelectual, que tinha a tendência
de desprezar as massas, e que
não tinha grande interesse em divulgar os resultados das suas
investigações.
Mas apesar do pouco impacto que teve de imediato este
despertar
literário contribuiu,
junto com o misticismo e a devoção moderna,
para marcar o fim da época em que a escolástica dominava a vida intelectual.
A nova visão da realidade
H istoriadores
preconcebidos
têm tido o costume de pintar
a Idade I\;;édia com cores sombrias, para dar assim maior destaque às glórias da época moderna, mas a verdade é que na Idade
1\1édia houve, ao lado dos ascetas que desprezavam
o mundo
presente na expectativa
pelo vindouro, outra corrente que se
gloriava nas maravilhas da criação. Podemos ver isto no naturalismo de São Francisco, entoando
louvores às aves, à água,
aos astros, e mesmo à morte. Seu canto não era de negação
do mundo, mas de concordância
com ele. Para ele e para os
que seguiram sua inspiração,
o mundo vindouro era glorioso
não porque contrastasse
com o presente, mas porque o superava. Se este mundo já é belo e digno de admiração,
quanto
mais o será o outro, que o Criador de ambos nos prometeu!
Nas catedrais góticas os escultores
se regozijavam esculpindo
cenas da natureza,
reais ou imaginárias.
Ali aparecem,
entre
frondosas
vides, mil avezinhas, lesmas e camaleões que dão
testemunho
do mesmo Criador
universal
cantado
por São
Francisco.
Não é verdade, portanto,
que o Renascimento
tenha descoberto a beleza da criação, supostamente
esquecida pelo homem medieval. Pelo contrário:
a arte renascentista,
inspirada
em parte na arte clássica, prestou mais atenção à beleza e perfeição do corpo humano.
A Itália tinha belezas exuberantes.
Em suas principais
cidades havia dinheiro suficiente para construlr grandes ediffcios, e para reunir neles todos os recursos artfsticos imagináveis.
o renascimento
e
o humanismo
/ 145
Os nobres e os grandes burgueses tinham meios para suprir o
custo de uma arte dedicada, não para a glória do céu, mas do
o "Davi" de MiflUellnfJelo fi uma mar;ni'flaJ 1I10NcrU do taoet da perfelǧo
humana do Renascimento. Foto de JM.
146/ A era dos sonhos frustrados
mecenas que custeava o empreendimento.
A arte, portanto,
até então dedicada quase exclusivamente ao ensino religioso e à
glória de Deus, passou a se ocupar do esplendor humano. Nos
modelos clássicos da Grécia e de Roma estava manifesta uma
admiração pela criatura humana que boa parte da arte medieval
tinha esquecido, e que agora os pintores e escultores da Renascença assimilaram, em pedra e pintura. O Adão que Miguelângelo pintou na abóbada da Capela Sixtina, que recebe do dedo
de Deus poder para governar a criação, é bem diferente do
Adão débil dos manuscritos medievais. Nele está concretizada
a visão renascentista do ser humano, nascido para criar, para
governar, para deixar sua marca no mundo que o rodeia.
A mesma visão toma carne e osso na pessoa de Leonardo
da Vinci. Houve poucas atividades humanas em que este gênio
da Renascença não interveio ou tentou mostrar sua maestria.
A posteridade o conhece principalmente como pintor, mas
Leonardo dedicou muito da sua atenção à engenharia, à arquitetura, à ourivesaria, à bal (stica e à economia. Sua ambição era
ser o "homem universal" que era o ideal da época. Seus grandes projetos de canalização fluvial, máquinas militares e aparatos de voo nunca foram realizados. Muitas das suas esculturas e pinturas ficaram inconclu (das, ou não passaram de esboços que são conservados até hoje como peças valiosas. Seus
interesses múltiplos, unidos às flutuações pol [ticas que não
lhe permitiram residir por muito tempo no mesmo lugar, deram
à sua obra um caráter fragmentário e inconclu(do. Mas apesar
disto Leonardo, e as lendas que se formaram ao redor da sua
personalidade, passou a ser símbolo e encarnação do ideal renascentista do "homem universal".
Esta visão do ser humano e da sua capacidade sem limites,
tanto para o bem como para o mal, é o tema principal do
autor renascentista Pico de la Mirandola, que citamos no começo deste capítulo. Continuando esta citação Pico diz que Deus
deu ao homem todo tipo de sementes, para que as semeasse
dentro de si mesmo, e assim determine o que há de ser. Quem
escolher a semente vegetativa, ou a sens(vel, não será mais
que uma planta ou um bruto, 1V1asquem escolher a semente
intelectual, e a cultivar dentro de si, "será um anjo e filho de
Deus". E se ele se volta para o centro da sua alma, insatisfeito
o renascimento
e o humanismo / 147
Leonardo da Vinci.
com o fato de ser uma criatura, "seu espírito, unido a Deus
em obscura solidão, se elevará por cima de todas estas coisas".
Tudo isto levou Pico a exclamar, em estranhas palavras de
louvor à criatura humana: "Quem não há de admirar este camaleão que nós somos?"
Os papas do renascimento
Quando deixamos a história do papado varros capítulos
atrás (cap(tulo IV), este acabara de triunfar sobre o movimento
conciliar.
Na época Eugênio IV o ocupava, que se ocupou,
148/ A era dos sonhos frustrados
além dos conflitos com o condlio
de Cesaréia, do embelezamento da cidade de Roma. Isto era o primeiro indfcio de que
o espfrito do Renascimento
começava a se apossar do papado.
A partir de então, e mesmo depois de iniciada a Reforma protestante, o pontificado
romano estaria em mãos de homens cujos
ideais eram os que a Renascença
defendia. Quase todos eles
eram amantes das belas artes, e um dos propósitos fundamentais
dos seus pontificados
foi trazer para Roma os melhores artistas,
e dotar a cidade de palácios, igrejas e monumentos
dignos de
sua posição como capital da cristandade.
Alguns tomaram do
espfrito da Renascença seu amor pelas letras, e por isto enriqueceram as bibliotecas do Vaticano. Mas muito poucos deles se
ocuparam
verdadeiramente
da reforma da igreja. Quase todos
tomaram
do espfrito da época seu amor pelo luxo, o poder
despótico
e os prazeres sensuais. Vejamos brevemente
sua
história.
Nicolau V sucedeu a Eugênio IV quando da morte deste.
Os anos de seu pontificado,
de 1447 a 1455, foram dedicados
principalmente
ao fortalecimento
da posição pol ítica de Roma
entre os estados italianos e a do papa dentro dela. Sua meta
era fazer de Roma a capital intelectual da Europa, trazendo
para ela os melhores pintores e autores da época. Sua biblioteca pessoal chegou a ser a melhor do século XV. Ele fortificou também a cidade e mandou expulsar os que se opunham
ao seu poder monárquico.
Em 1453 a queda de Constantinopla, a que nos referiremos mais adiante, sacudiu a consciência da cristandade
ocidental,
e o papa tentou organizar uma
cruzada contra os turcos, sem ter nenhum êxito. Na reforma
da igreja ele pensou pouco ou nada.
Seu sucessor, Calixto III, foi o primeiro papa da famflia
espanhola dos Borja - que na Itália recebeu o nome de Bórgia.
A única coisa que este papa emprestou dos ideais da Renascença
foi o sonho de ser um grande príncipe secular. Com a desculpa
de que era necessário unir a Itália para empreender uma cruzada
contra os turcos, ele se dedicou mais à guerra que às suas responsabilidades
religiosas. Além disto seu pontificado
ficou
caracterizado
por um dos piores males da época, que a partir
de então se tornaria endêmico do papado, o nepotismo.
Um
dos parentes que ele cobriu de honras foi seu neto Rodrigo,
o renascimento
e o humanismo / 149
a quem fez cardeal e que mais tarde seria o tristemente
famoso
Alexandre VI.
O próximo papa, Pio II, foi o último que em todo este
per(odo cingiu com certa dignidade a tiara papal. Em sua mocidade ele tinha sido um homem característico
da Renascença.
Mas depois decidiu que precisava emendar sua vida, e assumiu
suas responsabilidades
pontiffcias com toda a seriedade. Como
a Europa estava ameaçada pelos turcos ele dedicou boa parte
dos seus esforços para deter seu avanço e tentar organizar uma
cruzada. Apesar de seus feitos não terem sido especiais, seus
erros também não o foram.
Paulo II era um oportunista
que, quando soube que seu
tio Eugênio IV tinha sido feito papa, decidiu que a carreira
eclesiástica lhe prometia mais que o comércio a que se dedicava.
Seu interesse principal era acumular objetos de arte, em particular jóias e artigos de ourivesaria. Seu gosto pela pompa se
tornou proverbial.
O fato de agora ser papa não fez com que
ele abandonasse
suas concubinas,
que a corte, ao que parece,
reconhecia
publicamente.
Ele se dedicou a restaurar a glória
da Roma pagã, mandando
restaurar os arcos do triunfo dos
imperadores
Tito e Sétimo Severo, e a estátua de rI/arco Aurélio. Morreu ainda jovem de apoplexia, em conseqüência
de seus
excessos sexuais, de acordo com cronistas da época.
Sixto IV comprou o papado, fazendo-se eleger com base
em promessas e presentes que fez aos cardeais. Durante seu
pontificado
o nepotismo e a corrupção chegaram a níveis nunca
vistos no papado. A essência da sua pol (tica consistiu em enriquecer sua fam ília, em particular
seus cinco sobrinhos.
Um
destes, Juliano della Rovere, mais tarde ocuparia o papado com
o nome de Júlio II. Sob Sixto a igreja se transformou
em negócio da fam (lia. Toda a Itália se viu às voltas com guerras e conspirações cujo único objetivo era conquistar territórios, riquezas
e honras para os sobrinhos do papa. Seu sobrinho predileto,
Pedro Riário, tinha vinte e seis anos quando foi feito cardeal,
patriarca de Constantinopla
e arcebispo de Florença. Seus vícios
e excessos ficaram famosos em toda a Itália, e se diz que foi
em conseqüência
deles que ele morreu poucos anos depois.
Outro deles, Jerônimo
Riário, urdiu uma trama em que um
dos Médicis foi assassinado diante do altar, enquanto ouvia rnis-
150 / A era dos sonhos frustrados
sa, por um sacerdote. Quando os familiares e amigos do defunto
se vingaram enforcando
o sacerdote
assassino, o papa excomungou toda a cidade de Florença, por ter violado a pessoa
sagrada de um sacerdote,
e lhe declarou guerra. Para manter
esta pol (tica, e a pompa de seus sobrinhos, ele impôs a todos
os territórios
papais o monopólio
do trigo. O melhor grão era
vendido para encher as arcas papais, e o povo somente recebia
pão da pior qualidade.
Mas apesar de tudo isto a posteridade
conhece Sixto IV como o mecenas que mandou construir a
Capela Sixtina, chamada assim em sua honra.
Inocêncio VIII foi eleito depois de ter jurado pelo que havia de mais sagrado de que respeitaria os direitos dos outros
cardeais, que não nomearia mais do que um da sua fam (Iia,
e que poria a sé romana em ordem. Mas assim que se viu de posse da tiara papal ele declarou que o poder do papa era supremo,
e que por isto não precisava se sujeitar a nenhuma promessa,
principalmente
quando feita sob alguma pressão. Ele foi o primeiro papa a reconhecer
publicamente
seus vários filhos ilegrtimos, que cumulou de honras e riquezas. A venda de indulgências se transformou
em um negócio vergonhoso sob a administração e a serviço de um dos filhos do papa. Em 1484 Inocêncio quis livrar a cristandade de bruxas através de uma bula
cujo resultado foi a morte de centenas de mulheres cujo único
crime era serem impopulares,
ou talvez um pouco excêntricas.
Esta foi a única medida deste pontífice
que nem mesmo de
forma remota poderia ser considerada
uma tentativa de reformar a vida religiosa.
Então Rodrigo Bórqia comprou
os cardeais e foi eleito
papa, com o nome de Alexandre VI. Com ele o papado chegou
ao ponto culminante
da sua corrupção.
Alexandre era um homem forte e implacável, que praticava em público todos os
pecados capitais - exceto a gula, pois tinha pouco apetite.
Conta-se que o povo dizia: "Alexandre
joga fora as chaves,
os altares e até o Cristo. E no fim das contas ele tem este direito, pois os comprou".
Enquanto toda a Europa tremia diante
do avanço dos turcos o papa travou contato
com o sultão
Baiaceto em segredo. Suas concubinas,
esposas legais de alguns
de seus subalternos,
lhe deram filhos que Alexandre reconheceu
como tais. Os mais famosos foram César e Lucrécia Bórgia. Mes-
o renascimento
e o humanismo / 151
mo nem sempre havendo certeza da veracidade das piores
histórias que se conta desta farnflia - seus crimes múltiplos e
seus incestos - o que resta, mesmo se as descontamos, é uma
corrupção e uma ambição sem limites. Suas conspirações e
suas guerras banharam a Itália em sangue, e mancharam o papado como nunca antes.
Alexandre VI morreu repentinamente - há quem diga
que depois de beber um veneno que tinha preparado para outra
pessoa. Seu filho César, que tinha planos de se apoderar do
papado quando seu pai morresse, estava de cama por causa da
mesma doença - ou do mesmo veneno - e não pôde concretizar seus projetos. Então foi eleito Pio III, um homem de profundo esp írito reformador que se propôs restaurar a paz na
Itália. Mas morreu vinte e seis dias depois de ser eleito, e seu
sucessor foi digno de Alexandre VI.
Júlio II, o mesmo Juliano della Rovere que seu tio Sixto
IV tinha feito cardeal, tomou este nome porque queria imitar,
não algum santo ou mártir cristão, mas Júlio César. Assim como
a maioria dos papas da época ele foi um grande patrocinador
das artes. Durante seu pontificado 1\1iguelângelo terminou de
pintar a Capela Sixtina, e Rafael decorou o Vaticano com seus
famosos afrescos. Mas a ocupação favorita de Júlio II foi a guerra. Ele reorganizou a guarda papal, vestindo-a com uniformes
que, diz-se, foram desenhados por Miguelângelo, e no comando
dela se lançou ao campo de batalha. Hábil guerreiro e pol (tico,
durante seu reinado chegou-se a pensar que talvez ele finalmente conseguisse a unidade italiana, sob a hegemonia papal.
A França e a Alemanha se opuseram aos seus planos, mas o
papa soube vencê-los tanto na diplomacia como no campo
de batalha. Por fim, em 1513, a morte pôs um fim às aspirações de conquista daquele papa que recebeu com justiça o
ep íteto de o Terrfvel.
Seu sucessor foi o filho de Lourenço, o Maqnffico, de Florença, João de Médicis, que tomou o nome de Leão X. Seguindo
os passos de seu pai se dedicou a patrocinar as artes, ao mesmo
tempo que tentava consolidar as conquistas pol (ticas e militares de Júlio II. Nesta última tentativa ele fracassou, e em 1516
se viu obrigado a firmar com Francisco I da França um acordo
que praticamente transformava a coroa na verdadeira cabeça
152 / A era dos sonhos frustrados
Terminar s bss,7iC8de São Pedro foi um dos sonhos de Leão X. Este
sonho foi causaindireta do protesto de Lutero. Foto de JM.
da igreja francesa. Sua paixão pelas belas artes se sobrepôs a
todo interesse religioso ou sacerdotal. Seu grande sonho foi
completar a Basflica de São Pedro. Estava entregue a esta tarefa
quando irrompeu a Reforma protestante. Mas esta história faz
parte do próximo volume desta série.
A reforma humanista: Erasmo de Roderdã
rente.
Fora da Itália a Renascença tomou
Na Espanha, Inglaterra, França,
um rumo bem difeAlemanha e Países
o renascimento
e o humanismo / 153
Baixos havia eruditos
que sonhavam
com uma restauração
do cristianismo
antigo, seguindo os métodos dos humanistas.
No próximo
capítulo
desta história teremos ocasião de nos
referirmos a vários deles. Aqui cabe falar dos sonhos do maior
e mais famoso humanista, Erasmo de Roterdã.
Erasmo era filho ilegítimo de um sacerdote e da filha de
um médico. Durante toda a sua vida ele teve de carregar a carga
dupla das suas origens simples e de ser bastardo. 1\1as, criado
em meio à grande atividade comercial da Holanda, em muitos
aspectos suas opiniões refletiam os valores comuns entre a classe
burguesa. Estudou um pouco a teologia escolástica,
mas logo
sentiu por ela uma grande repugnância,
e se dedicou ao estudo
das letras clásssicas, Depois, em uma visita à Inglaterra, ele
começou
a se interessar
pelas Escrituras
na literatura
cristã
antiga, que a ele parecia que tinha ele ser arrancada das mãos
dos escolásticos. Começou a estudar grego, e chegou a dominar
este idioma como poucos em sua época. Sua fama foi crescendo, e mais tarde ele passou a ser o centro de um círculo internacional de humanistas
que queriam reformar a igreja, não
por meios violentos, mas devolvendo-lhe
sua fé simples e primitiva.
O modo de Erasmo entender
esta fé era característico
de seu espírito
humanista,
unido à devoção moderna,
cuja
influência
tinha recebido quando estudou, ainda jovem, com
os Irmãos da Vida Comum. Para ele o cristianismo
é antes de
tudo um tipo de vida decente, equilibrado
e moderado.
Os
mandamentos
de Jesus, que são o centro da fé cristã, são
muito semelhantes
às máximas dos estóicos e dos platônicos.
Sua meta é chegar a dominar as paixões, colocando-as
sob
o governo da razão. Isto dá lugar a uma disciplina que tem
muito de ascetismo,
mas que não deve ser confundida
com
o monaquismo.
O monge se retira do mundo; o verdadeiro
"soldado de Cristo" tem por metas do seu treinamento
a vida
prática e cotidiana. A igreja precisa ser reformada porque abandonou esta disciplina, e se deixou levar pelos vícios dos pagãos.
Para Erasmo
as doutrinas
tinham
importância
secundária. Isto não quer dizer que ele era indiferente
a elas, pois
havia doutrinas
que eram fundamentais,
como a da encarnação.
154 / A era dos sonhos frustrados
!\;as uma vida reta era muito mais importante
que a doutrina
ortodoxa,
e os frades que se ocupavam com distinções sutis
enquanto
levavam vidas escandalosas
eram objeto freqüente
dos ataques mordazes de Erasmo.
Q. ERASMi·ROTRRODA
.M. . AB 'ALB~RTO' DVRERO·AD
vtvAM..· EFFIGtEM·nELÍNÍATA·
.
'lHN' KPEIT'l'n·TA· ,yrn>AM.
M.ATA· mz RI
·.M.D x.
Erasmo de Roterdã,
x, V
o pflncipe
1·
dos humanistas.
o renascimento
e o humanismo / 155
Em resumo, o humanista holandês procurava uma reforma
dos costumes,
a prática da decência e a moderação.
Pouco a
pouco foi conquistando
a admiração de boa parte dos eruditos
da Europa, que se escandal izavam com as atividades dos papas
da Renascença. Entre seus admiradores havia não poucos nobres
e soberanos. Seu programa de reforma parecia ter boas possibilidades de êxito.
Então estalou a Reforma protestante.
Os espíritos se inflamaram. As questões levantadas eram de teologia fundamental,
e não tanto de moralidade.
Os dois partidos tentaram conquistar o apoio do famoso humanista. 1\1as Erasmo não podia apoiar
de todo coração nenhum dos dois. Por fim ele rompeu definitivamente
com Lutero e os seus, mas sem dar ajuda aos católicos que se opunham à Reforma. Do seu escritório ele continuou pedindo moderação,
uma reforma no estilo humanista,
e a volta às virtudes dos estóicos e platônicos de antigamente.
Mas ninguém lhe dava ouvidos. Erasmo não tinha percebido
a profundidade
das questões em debate, e a reforma por que
ele tanto ansiara não ocorreu. Seu sonho, como tantos outros
antes, foi frustrado.
XI
Jeronimo
Savonarola
Estes senhores, como se não soubessem
que são tão humanos como os demais,
querem que todos os honrem e
bendigam. Mas o verdadeiro pregador
não pode adulá-los, pois tem de
atacar seus vícios. Por isto não.
podem suportá-lo, porque não se
comporta com eles como os demais o
fazem.
Jerônimo Savonarola
Perto do fim da primavera de 1490 um frade dominicano
de trinta e sete anos de idade se apresentou diante das portas de
Florença. Seu nome era Jerônimo Savonarola, natural de Ferrara, onde seu avô paterno o tinha educado, um médico conhecido tanto por seu conhecimento como por sua devoção e retidão moral. Deste avô, Savonarola tinha recebido princfpios que
nunca o abandonariam, e que o levaram a se unir, ainda jovem,
à ordem dos pregadores de São Domingos. Em pouco tempo o
frade dominicano se distinguiu por sua dedicação ao estudo e à
santidade, e por isto a ordem lhe conferiu responsabilidades
cada vez mais importantes.
Anos an tes ele tinha morado já
uma vez em Florença, onde foi admirado por sua erudição
bfblica, se bem que não por seus sermões, cuja veemência e
sotaque ferrarense não soavam bem aos ouvidos renascentistas dos florentinos.
Depois ele tinha sido mestre de estudos
no convento dominicano de Boloçnu.
158 / A era dos sonhos frustrados
Agora ele estava voltando a Florença a pedido do senhor
da cidade, Lourenço de Médicis. Talvez o que tinha inspirado
neste tirano esta estranha petição tenha sido a recomendação
de Pico de la Mirandola, que tinha feito amizade com o frade
e se tornara seu admirador. Seja como for, Lourenço não tardaria em descobrir que o pregador que tinha convidado para
sua cidade lhe acarretaria problemas.
No começo Savonarola se limitou a expor as Escrituras
para os frades do convento dominicano de São Marcos. Mas
sua fama logo se espalhou, e um grande número de pessoas
começou a acorrer às suas conferências. Em conseqüência estas
foram transferidas do jardim onde até então tinham tido lugar
para a igreja do convento. Durante quase meio ano o eloqüente
frade expôs o livro do Apocalipse. No começo tratava-se de conferências, mas que logo se transformaram em sermões. Neles
Savonarola atacava a corrupção da igreja, e profetizava que a
igreja teria de passar por uma grande tribulação antes de ser
restaurada. Ao mesmo tempo que comentava o Apocalipse
ele atacava também os poderosos, cujo luxo e avareza se contradiziam com a fé cristã.
•
Sua popularidade cresceu rapidamente, e na quaresma
de 1491 ele foi convidado para pregar em Santa Maria das
Flores, a igreja mais importante da cidade. Ali viu-se claramente
que sua pregação não era do agrado dos poderosos. Lourenço
de 1V'lédicistentou fazê-lo se calar; mas o frade lhe respondeu
que ninguém podia mandar se calar a Palavra de Deus. Seus
ataques, dirigidos contra a corrupção que reinava em todos os
n (veis sociais, não deixavam de fazer referência aos impostos
pesados que Lourenço exigia, com os quais custeava a pompa
da sua casa e dos seus favoritos. Lourenço tentou lhe roubar a
audiência incitando outro pregador a atacar Savonarola do
seu púlpito. Mas este acabou provando ser mais popular que
seu oponente, e mais tarde o malfadado rival foi para Roma,
para ali tramar a ru ína do dominicano.
Poucos meses depois Savonarola foi eleito prior de São
Marcos. Quando alguns frades lhe disseram que era costume
que cada novo prior fizesse uma visita de cortesia a Lourenço,
para agradecer-lhe sua boa vontade para com a casa, frei Jerõnimo simplesmente contestou; dizendo que devia sua eleição
Jerônimo Savonarola /159
Sevonerote
em seu escritório.
a Deus e não a Lourenço, e que por isto tinha de se retirar
para dar graças a Deus e se colocar sob suas ordens. Pouco
depois ele mandou vender todas as propriedades do convento
para dar o dinheiro aos pobres. A vida dos frades passou a
ser um exemplo proverbial de santidade e serviço. Inclusive
outras casas de cercanias pediram ao ilustre prior de São Marcos que efetuasse nelas reformas semelhantes às que instaurara no convento florentino. Quanto a Lourenço, em seu
leito de morte ele mandou chamar o santo frade, de quem
pediu e obteve a absolvição de todos os seus pecados.
Pedro de Médicis tinha sucedido a Lourenço, e provara
ser um tirano pior que o anterior, quando chegaram rumores
de que o rei da França, Carlos VIII, se preparava para invadir
a Itália com o propósito de conquistar o Reino de Nápoles,
cuja coroa reclamava. Florença tremeu diante do avanço das
tropas francesas, que Savonarola tinha predito dois anos antes.
Pedro se mostrou incapaz de orqanizur as defesas da cidade,
e tentou comprar o favor do rei fran ôs entregando-lhe literalmente vilas e castelos. Irados, os fi rOI I! inos enviaram a Carlos
160 / A era dos sonhos frustrados
VIII uma embaixada
encabeçada por Savonarola. Este se apresentou diante do rei, chamou-o de instrumento
da justiça de
Deus, declarou-o
bem-vindo em nome dos florentinos,
e lhe
disse que tinha profetizado
sua vinda dois anos antes; depois
o ameaçou, e lhe profetizou
grandes males se não se comportasse da maneira devida com os florentinos.
Enquanto
isto
estes aproveitavam
as circunstâncias
para expulsar Pedro da
cidade, e com ele o jugo dos I'viédicis.
Pouco depois o rei entrou triunfante em Florença. Quando
tentou impôr condições insuportáveis em troca de não saquear
a cidade, os florentinos
recorreram mais uma vez ao seu pregador, que enfrentou o rei e conseguiu dele condições muito mais
favoráveis. Poucos dias depois, tendo estabelecido
uma aliança
com Florença, o rei francês partiu com suas tropas.
A cidade estava agora acéfala. Poucos desejavam que os
Médicis regressassem.
Muitos esperavam
poder se aproveitar
das circunstâncias
para dar rédeas soltas aos ódios que tinham
se acumulado
nas últimas semanas de incertezas.
Por isto
Savonarola
se viu colocado, quase sem querer, na posição de
determinar
o rumo a ser seguido. Graças a ele foi estabelecido
um governo republicano
e evitado o derramamento
de sangue.
Até mesmo os amigos dos Médicis foram perdoados,
graças à
intervenção do fogoso pregador.
Praticamente
dono da cidade, Savonarola usou o púlpito
para propor as reformas que Ihe pareciam necessárias. Insistiu
em que o comércio fosse reaberto, que tinha sido interrompido
durante
a invasão francesa, dizendo que era necessário dar
emprego aos pobres, que tinham perdido seus poucos rendimentos. Quanto àqueles para os quais estas medidas não bastavam, deveriam ser alimentados
derretendo
e vendendo o ouro
e a prata das igrejas.
Seu interesse pelos pobres sem demora lhe acarretou
a
má vontade de boa parte da aristocracia.
O mesmo aconteceu
com muitos clérigos, atingidos muito de perto pela reforma eclesiástica proposta. Mas Savonarola contava com a quase totalidade do povo, e não teria tido maiores problemas, se não fosse
por causa da pol (tica internacional.
A campanha de Carlos VIII na Itália tinha sido facflima.
Em seguida o papa - na época o tristemente
famoso Alexandre
Jerõnimo
Ssronerote
pregBndo.
Savonarola / 161
Observ« B Sep8rBç80 entre homens e mulheres.
VI - vários estados italianos e os monarcas da Espanha e da
Alemanha se uniram em uma "Santa Aliança" contra o rei
da França. A cidade de Florença, graças a Savonarola, permaneceu firme no acordo que tinha feito com os franceses. Seus
aliados encarregaram Alexandre VI da tarefa de dobrar o monge
inflex (vel. O cenário estava preparado para a grande tragédia
que mais tarde teria lugar em Florença.
Enquanto isto o movimento reformador chegou a seu
apogeu em Florença. Apesar de ter sido dito que Savonarola
era um monge obscurantista, a verdade é o contrário. O frei
dominicano se opunha às letras renascentistas como desculpa para todo tipo de excessos morais e um retorno ao paganismo. Mas sua atitude em relação ao estudo em si sempre
foi positiva. Seu sonho era que São Marcos se convertesse
em um centro missionário, e por isto eram estudados neste convento, além do latim
do grego, hebraico, o árabe e
o caldeu.
Por outro lado, Savoruu ol.: :;t mostrou inimigo decidido
do luxo e da ostentação. 1!iIO 11('011 m.mi íosto em seus repetidos
162 / A era dos sonhos frustrados
ataques, a partir do púlpito, contra as joras e as sedas, bem
como todos os vestidos demasiadamente chamativos de algumas
mulheres. O resultado foi a "queima de vaidades", que aconteceu diversas vezes enquanto o frei teve o apoio dos florentinos.
No centro da praça principal da cidade era construída uma
grande pirâmide escalonada de madeira, debaixo da qual eram
colocados pólvora, palha e lenha. Depois as pessoas traziam
"vaidades" - trajes, perucas, jóias, etc - que colocavam sobre
os escalões da pirâmide, à qual no fim era ateado fogo. Estas
grandes fogueiras, com os hinos que eram cantados, as procissões e as explosões de pólvora, vieram a substituir a celebração
do carnaval em Florença.
A pregação de Savonarola, sempre inflamada, inclu ra profecias cujo cumprimento
alimentava o fanatismo com que
muitos veneravam o frade. Assim, por exemplo, quando um
dos portos que pertenciam a Florença foi sitiado por um exército e uma esquadra da Santa Aliança, Savonarola declarou que,
assim como os montes seriam jogados no fundo do mar, assim
também a frota seria destru(da. Pouco depois uma tempestade
imprevista destruiu a esquadra da Santa Aliança, vários navios se
afundaram, e os invasores se viram obrigados a levantar o s(tio.
Mas isto, por sua vez, queria dizer que de Savonarola
eram esperados cada vez mais e maiores milagres. Quando a
situação econômica ficou diffcil não faltaram os que criticaram
o profeta por não tirar Florença dos seus problemas. E estas
cr(ticas aumentavam, por estas dificuldades serem motivadas
em parte por Florença, sob a influência de Savonarola, se
negar a se juntar à Santa Aliança.
O papa também fez tudo que era possível para conseguir
uma mudança na sua pol ítica, Sabendo que o frade dominicano
era o grande obstáculo em seu caminho, enviou bulas de excomunhão contra ele. Mas Savonarola, com o apoio do governo
florentino, declarou que a excomunhão não era válida, pois
se' baseava em supostas heresias que ele não tinha pregado.
Quando o papa lhe ordenou que guardasse silêncio e não pregasse mais, o frade lhe obedeceu por algum tempo. Mas neste
per(odo se dedicou a escrever, com virulência cada vez maior,
contra a corrupção da igreja. Pela primeira vez a imprensa foi
usada como instrumento de propaganda religiosa, pois os
Jerónimo Sevonerot« / 163
Ss vonerol« tinha a visão da rena
de Cristo.
1IBç80
do mundo todo atraltfls do sangUfl
escritos de Savonarola eram lidos avidamente tanto em Florença
como fora da cidade.
Quando, tentando comprar seu silêncio, Alexandre
VI
lhe ofereceu o chapéu cardinal (cio, Savonarola lhe retrucou:
164 / A era dos sonhos frustrados
"Não quero outro chapéu que um vermelho: vermelho de
sangue".
O papa então procedeu a medidas mais extremas. Ameaçou
toda a cidade de interdito, e de prisão todos os mercadores
florentinos que havia em Roma e nas demais cidades da Aliança.
Além disto, por causa do interdito, todos os bens florentinos
que ca fssem em seu poder seriam confiscados. Isto era uma
ameaça de ru fna econômica para toda a cidade, e Savonarola
logo perdeu o apoio que tinha entre os aristocratas e os burgueses.
Somente lhe restavam, ainda, seus próprios frades, alguns
poucos amigos entre as pessoas abastadas, e o povo baixo.
Este último, porém, estava em situação desesperadora, pois
a fome aumentava, e pedia-se com cada vez mais insistência
que o profeta fizesse um milagre.
A ocasião para este milagre pareceu surgir quando um
frade franciscano, inimigo irreconciliável de Savonarola, desafiou para a prova de fogo qualquer pessoa que afirmasse que o
dominicano era verdadeiramente um profeta de Deus. Sem
consultar frei Jerônimo um dominicano aceitou o desafio.
Depois de longas negociações foram firmados os termos da
prova. Se o franciscano saísse vencedor, ou se os dois contendentes perecessem, Savonarola teria de abandonar a cidade.
Chegou por fim o dia da prova. No meio da praça foi
constru ída uma grande plataforma retangular, coberta de terra
para não se queimar, e sobre ela duas grandes piras, que deixavam uma passagem estreita entre si. Tinha sido combinado
que os dois contendentes entrariam ao mesmo tempo. no fogo,
cada um por uma extremidade da passagem. O que saísse do
outro lado seria o vencedor. Savonarola, que nunca concordou
com a experiência, pois dizia que isto era tentar a Deus, por fim
concordou em estar presente. Os mais fanáticos dos seus seguidores estavam certos de que ocorreria ali um grande milagre,
e que ficaria provado de uma vez por todas que frei Jerônimo
era profeta do Altíssimo.
Quando chegou o momento, todavia, o franciscano não
apareceu. Seus companheiros
de ordem apresentaram mil
desculpas e explicações, que uma a uma foram eliminadas.
E o desafiante ainda não tinha aparecido. Durante todas estas
Jerônimo
Savonarola / 165
idas e vindas o céu tinha ficado escuro, e acabou caindo um
aguaceiro tão forte que mesmo se os dois contendentes
quisessem, teria sido imposs(vel acender o fogo. Alguns poucos dos
presentes
disseram que se tratava de um milagre, pois frei
Jerônimo
sempre se opusera à prova. Mas os que tinham acorrido para ver um espetáculo se sentiram roubados.
Nesta noite os espfritos
estavam
exaltados.
Correu o
comentário
de que, já que ninguém tinha ganho a prova, Savonarola tinha perdido, de acordo com o que tinha sido combinado. Os poderosos
da cidade, que temiam por seu comércio,
se uniram aos eclesiásticos
que Savonarola
tinha ofendido,
e promoveram
uma grande desordem.
A turba acabou por
se dirigir para São Marcos, e exigiu que Savonarola
fosse
entregue.
Enquanto
o frade orava alguns dos seus seguidores mais
fiéis empunharam
as armas em sua defesa. Mas mais tarde o
profeta se entregou
aos que exigiam que ele fosse preso. Ao
ver o antes tão poderoso pregador amarrado, muitos zombaram
dele, cuspindo nele e dizendo-lhe palavrões.
Quando o conselho da cidade se reuniu para tratar do caso
de Savonarola,
seus amigos não se apresentaram,
e imediatamente foram escolhidos
alguns que os substitu íssern. Assim
ficava garantido que o acusado não teria quem o defendesse.
Mas ainda era necessário encontrar
de que acusá-lo. Por
vários dias ele foi torturado,
e a única coisa que conseguiram
arrancar dele, quando estava tão quebrantado
que não conseguia
nem mesmo levar comida à boca, foi que na realidade ele não
era profeta,
mas que as profecias eram invenção sua. E isto
ele negou assim que a tortura
amainou.
Foram feitos três
julgamentos,
dois deles pelas autoridades florentinas e o terceiro
pelos legados do papa. Este no começo quisera que os florentinos lhe entregassem o prisioneiro, para dispor dele a seu modo.
Mas os florentinos
se negaram a fazer isto, não para salvar seu
profeta,
mas por temor dos segredos que ele poderia revelar
a Alexandre
VI. Por fim o papa concordou
em enviar os seus
legados para que julgassem o caso em Florença mesmo; apesar
disto lhes ordenou
antes que partissem que o condenassem.
Nos três julgamentos
Savonarola
foi condenado
sem
misericórdia.
Os legados do papa não conseguiram
mais do que
166 / A era dos sonhos frustrados
a confissão de que ele tivera a intenção de apelar a um concflio
universal. Por fim, sem obter a confissão desejada, condenaramno como "herege e cismático", apesar de nunca terem declarado
em que consistia sua heresia. Pouco antes tinham sido condenados, em circunstâncias
semelhantes,
dois de seus colaboradores
mais chegados.
De acordo com o costume, não era a igreja quem castigava
os hereges, mas estes eram entregues ao "braço secular". Por
isto o novo conselho de Florença foi convocado
para ditar
a sentença, e este decretou, como era de se esperar, que os três
fossem mortos. A única misericórdia que tiveram com eles foi
ordenar
que fossem enforcados
antes de serem queimados.
Assim sucedeu no dia seguinte. Os três morreram
com
serenidade exemplar.
Depois suas cinzas foram lançadas ao rio
Arno, para evitar que os seguidores do frade as recolhessem
como rei (quias, Mas apesar disto houve durante várias gerações
em Florença, e em outras regiões da Itália, os que guardaram
rei Iquias do santo frade. Quando, anos mais tarde, Roma foi
saqueada por tropas alemãs, houve quem visse neste acontecimento o cumprimento
das profecias de Savonarola em relação
ao castigo que Deus preparava para a cidade corrupta.
Repetidamente,
também
no século XX, houve católicos
que falaram em declarar santo aquele frade dominicano
que
morreu mártir das ambições de um papa. Talvez a igreja nunca
chegue a dar este passo. Mas todos os historiadores
concordam
em que, naquele combate desigual, a justiça estava do lado do
frade.
XII
O fim do
Império Bizantino
Os turcos temem acima de tudo
nossa união com os cristãos
ocidentais .... Por isto,
quando quiseres lhes inspirar
terror, faze-os saber que vais
reunir um concílio para chegar
a um entendimento com os latinos.
Pensa sempre neste concílio,
mas nunca o convoques.
Manuel II Paleólogo, a seu filho
Os séculos XIV e XV foram tempos aziagos para o que
restava do Império Bizantino. Como já dissemos no volume
anterior, em 1204 os cruzados se apossaram da cidade de
Constantinopla,
e estabeleceram nela um imperador e um
patriarca latinos. Em 1261 os gregos puderam novamente se
apoderar da sua capital, e assim terminou o Império Latino de
Constantinopla. Mas o mal estava feito. O velho Império Bizantino nunca recobrou sua glória perdida, e teve de se contentar
em manter uma existência precária entre os ocidentais de
um lado e os turcos de outro.
Nestas condições a questão das relações entre a igreja
grega e a latina dominou o cenário religioso de Constantinopla.
O receio do povo em relação aos latinos se tinha aguçado
quando estes usaram a quarta cruzada para tomar Constantinopla, e depois lhe impuseram seus costumes, doutrinas e hierarquia eclesiástica. Os líderes bizantinos, tanto polfticos como
168 / A era dos sonhos frustrados
eclesiásticos, tinham os mesmos receios. Mas eles viam a necessidade de chegar a um entendimento com o cristianismo ocidental, para poder resistir aos ataques dos turcos. Por isto quando
alguém propunha uma reunião com Roma, tratava-se sempre
do imperador, o patriarca, ou algum outro civil ou clérigo de
alto n (vel. E pelas mesmas razões todas estas propostas sucumbiam diante da firme vontade do povo, dos monges e do clero
baixo, para os quais os latinos eram hereges e cismáticos, com
os quais não se deveria ter contato algum.
A situação pol ítica ficava cada vez mais complicada porque, por ocasião da conquista latina de Constantinopla, tinham
sido fundados diversos países que se separaram da antiga capital. Em Nicéia e Trebizonda houve impérios gregos rivais do
latino de Constantinopla. No Epiro, na Mésia e em outras áreas
do Egeu do Estados menores tentavam continuar a herança
bizantina. Quando Constantinopla voltou a cair nas mãos dos
gregos alguns destes Estados se submeteram a ela. Mas muitos
outros continuaram tendo sua existência independente, ou
uma relação com a capital mais teórica do que real. Em conseqüência os imperadores bizantinos eram senhores efetivos de
pouco mais do que Constantinopla e circunvizinhanças. Pouco
a pouco os turcos iam estreitando o cerco. E não parecia haver
nenhuma defesa contra eles.
Em meados do século XIVa situação piorou. Os turcos
otomanos, que já tinham se apossado da Ásia Menor, atravessaram o Mar Negro e começaram a conquistar os Balcãs. Este
era o único território que restava a Constantinopla, além de
algumas ilhas no Egeu. Os genoveses se aproveitaram desta conjuntura e se apoderaram das principais destas ilhas, enquanto
os turcos conquistavam toda a península balcânica, exceto o
Epiro e o Peloponeso. O primeiro destes dois territórios seguiu
um curso independente, até que foi conquistado primeiro pelos
albaneses e depois, no século XV, pelos turcos. O segundo foi
tomado pelos turcos em 1460, sete anos depois da queda de
Constantinopla.
Privada de quase todos os seus territórios, e dividida por
questões de sucessão ao trono, Constantinopla somente pôde
resistir como Estado vassalo dos turcos, aos quais se via obrigada a pagar tributo. E esta situação também era extrema-
o fim
GLlflrreiro o tomeno , de ecorao com
8
do Império Bizantino / 169
Crânice de Nuremberg.
mente precária, pois assim que os turcos se viram livres dos
seus conflitos com os húngaros e os albaneses, era de se esperar que se voltassem contra Constantinopla. Já rodeada totalmente de territórios otomanos, como uma ponte entre a Asia
e a Europa, a velha capital de Constantino era um enclave nas
possessões do sultão Baiaceto. No começo do século XV parecia
que os turcos tomariam Constantinopla a qualquer momento.
Então aconteceu o imprevisto. Durante várias décadas
os imperadores bizantinos tinham estado rogando ao Ocidente
cristão que acudisse em sua defesa. Seus rogos não mereceram
nenhuma resposta concreta. Mas no Oriente, entre os pagãos,
se levantou o conquistador que, sem querer, prolongaria a vida
de Bizâncio por mais meio século. Tamerlão, o terrível mongol
170 / A era dos sonhos frustrados
que se propôs reconstruir
o império de Gengis Cã, derrotou
os turcos na batalha de Angora, na Asia Menor, em meados de
1402. Isto deteve o avanço dos turcos. E apesar de Tamerlão
ter logo abandonado
a Asia Menor, os turcos se viram depois
disto divididos por uma guerra civil entre os filhos de Baiaceto.
Quando por fim o sultão Maomé I saiu vencedor ele teve de
dedicar seus esforços à consolidação
do seu poder e a impor
a ordem em seus territórios. Seu filho, Murad l l, sitiou Constantinopla em 1422. Mas um novo ataque mongol, e a rebelião
de um de seus irmãos, o obrigaram
a levantar o cerco. Do
outro
lado os húngaros e os albaneses também
obtiveram
vitórias importantes
sobre os turcos. Assim, salva por acontecimentos inesperados,
Constantinopla
conseguiu prolongar sua
existência.
Mas em 1451 Maomé"
sucedeu a I\ilurad, quando
este morreu. E seu grande sonho era fazer de Constantinopla
uma cidade muçulmana, capital do império.
Enquanto
isto os imperadores
de Bizâncio não tinham
outro recurso que recorrer ao Ocidente
latino, na esperança
de que talvez desse ouvidos ao seu clamor. Foi então que teve
lugar a reconciliação
entre os dois ramos da cristandade,
no
concflio de Ferrara-Florença,
em julho de 1439. Mas isto não
trouxe
nada de proveitoso
para a assediada Constantinopla,
pois o papado não tinha o poder necessário para obrigar as potências ocidentais
a enviar reforços à cidade assediada, e os
gregos viram na ação de seu imperador e seus lfderes eclesiásticos uma traição e uma capitulação
diante da heresia. Em
1443 os patriarcas
de Jerusalém,
Antioquia
e Alexandria,
talvez em parte por pressão dos turcos,
repudiaram
o que
tinha sido feito no concflio.
Os russos reagiram da mesma
forma. E assim Constantinopla
se viu completamente
só, dividida e assediada pelos turcos. A Constantino
XI, que reinava
na época na cidade de seu homônimo,
o Grande, não restava
outro aliado que o ocidente cristão, e por isto ele insistiu em
seus planos de união. Em dezembro
de 1452 foi celebrado
em Santa Sofia a missa romana.
Os dias de Constantinopla
estavam contados.
No dia 7
de abril de 1453 Maomé II sitiou a cidade. Para derrubar as
muralhas ele usou peças de artilharia que engenheiros cristãos
tinham feito para ele. Os sitiados se defenderam
valentemente,
o fim
do Império Bizantino / 171
mas sua situação era desesperadora, pois as muralhas não resistiam ao ataque da artilharia turca. No dia 28 de maio houve
um culto solene na catedral de Santa Sofia. No dia 29 ocorreu
o último assalto dos turcos. O imperador Constantino XI Paleólogo morreu defendendo a cidade. (Cinco séculos mais tarde
este autor encontrou no cemitério de uma pequena igreja angli-
MlJomé /I
muçotmene.
tomou
posse da c/Um/IJ,
I/lN
IUI
trsnstorrrede
ne IstBmbul
172 / A era dos sonhos frustrados
cana de uma ilha do Caribe uma lápide que dizia: "Aqui jaz o
último descendente por linha direta de Constantino Paleólogo,
o último imperador de Constantinopla".) Os turcos irromperam
através da muralha, e por três dias e três noites, como o sultão
tinha prometido, a velha capital foi saqueada. Depois Maomé
tomou formalmente posse dela, e Constantinopla foi transformada em Istambul, capital do Império Otomano. Na catedral
de Santa Sofia, onde séculos antes João Crisóstomo tinha pregado, ressoava agora o nome de Maomé. O grande sonho de
Constantino, de fundar uma nova Roma cristã, tinha terminado.
Novas condições pol íticas e econômicas puseram fim à "era dos altos
ideais". A peste bubônica, que despopulou regiões inteiras, semeou o
pavor em toda a Europa. A morte passou a ser o tema principal da
pregação cristã. O papado caiu em descrédito ao passar primeiro pelo
"cativeiro babilônico"
de Avignon, depois pelo Grande Cisma (quando
chegou a haver três papas ao mesmo tempo) e pela série indigna de
papas do Renascimento. Boa parte da igreja igualmente se corrompeu.
Constantinopla, o antigo baluarte cristão, caiu em poder dos turcos.
Mas em meio a tudo isto houve um impulso reformador, em que
encontraram eco as palavras de Savonarola, Wycliff, Huss e outros.
E ATÉ AOS CONFINS DA TERRA:
Uma história ilustrada do cristianismo
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DOS MÁRTIRES
DOS GIGANTES
DAS TREVAS
DOS ALTOS IDEAIS
DOS SONHOS FRUSTRADOS
DOS REFORMADORES
DOS CONQUISTADORES
DOS DOGMAS E DAS DÚVIDAS
DOS NOVOS HORIZONTES
INCONCLUSA
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