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Doença de Chagas não ameaça outros estados
Segundo as autoridades não há motivo para proibir o consumo de caldo de cana
fora de Santa Catarina, onde houve registro de 24 casos. Relatório para identificar
verdadeira causa sai na próxima semana
O aparecimento na semana passada de vários casos de doença de Chagas
em Santa Catarina surpreendeu não só a população como as autoridades
sanitárias. Isso porque a transmissão da doença pela picada do barbeiro, forma
mais comum de contágio, já foi eliminada da região. Dessa vez, a contaminação
se deu por via oral, pela ingestão de caldo de cana contaminado. Esse é o único
elemento em comum entre os casos confirmados até agora. Como forma de
prevenção, o governo suspendeu temporariamente a venda do produto no estado
e investiga a origem da contaminação. O Ministério da Saúde enviou para o
estado medicamentos e kits complementares de laboratório para realização do
diagnóstico.
Levantamento do ministério, divulgado ontem, mostra que a transmissão da
doença de Chagas ocorreu apenas no município de Navegantes. Dos 24 casos
confirmados, 22 afirmaram ter tomado caldo de cana no quiosque Penha 2, na BR
101, no dia 13 de fevereiro. Para o coordenador de doenças transmissíveis da
Secretaria de Vigilância Sanitária (SVS) do ministério, Eduardo Hage, trata-se de
um surto de natureza rara. “Não há motivo para proibir o consumo de caldo de
cana nos outros estados do País”, afirma. Ele diz que a expectativa da SVS é de
que na próxima semana saia o resultado do rastreamento realizado para identificar
a verdadeira causa de contaminação do produto.
Até agora, técnicos estaduais e dos ministérios da Saúde e da Agricultura
suspeitam de duas possibilidades: a de que uma colônia de barbeiros tenha sido
triturada no caldo ou que a bebida tenha sido contaminada por fezes de animais
contaminados. “Será liberada a venda de caldo de cana em Santa Catarina
quando confirmarmos o motivo da contaminação”, explica Eduardo Hage.
O coordenador de doenças transmissíveis da SVS diz ser pouco provável a
hipótese de ingestão do barbeiro junto com o caldo de cana. Ele acredita mais na
transmissão por meio das secreções como fezes e urina de animais infectados,
considerados “reservatórios”. O gambá é um dos principais suspeitos.
Todas as pessoas que vivem em Navegantes ou que visitaram a cidade no
período de 8 de fevereiro até 26 de março e consumiram caldo de cana devem
fazer exames para saber se foram contaminadas. Realiza-se o exame pela coleta
de duas gotas de sangue do dedo do paciente. O Sistema Único de Saúde (SUS)
oferece tratamento para todos os casos confirmados. “As pessoas que desde cedo
receberam tratamento estão fora de perigo”, ressalta Eduardo Hage. “Os três
casos de morte em Santa Catarina ocorreram quando ainda não se conhecia a
causa da doença”, acrescenta.
Sintomas – A doença de Chagas possui duas fases: a aguda e a crônica. A
fase aguda diz respeito ao início do seu desenvolvimento e, na maioria das vezes,
manifesta-se de quatro a 10 dias após a infecção. O surto em Santa Catarina é
dessa forma da doença, que já tem tratamento. Casos não tratados podem se
agravar e levar à morte, como também evoluir para a forma crônica. Os principais
sintomas da forma aguda são febre alta e mal-estar.
A descoberta da doença na fase inicial é importante, pois os recursos de
tratamento hoje disponíveis podem proporcionar cura total da infecção,
especialmente se o remédio for dado adequada e precocemente. A forma aguda é
rara e transmitida pela ingestão. Só houve no Brasil caso semelhante ao de Santa
Catarina em 1986, na Paraíba, e, em outros anos na Amazônia e no Rio Grande
do Sul.
A maioria de casos registrados no País é da forma crônica da Doença de
Chagas, transmitida diretamente pela picada do barbeiro. Essa forma da doença
tem evolução lenta e causa problemas no coração. Todos os anos, o SUS atende
pacientes infectados que levaram décadas para manifestar a doença. A maioria
desses pacientes têm idade acima dos 30 anos.
País tem o controle avançado da doença
O surto da Doença de Chagas em Santa Catarina não possui nenhuma
relação com seu controle no Brasil, pois sua transmissão não ocorreu pela picada
do barbeiro, mas por meio de reservatórios da doença (animais contaminados que
não podem ser eliminados da natureza, pois fazem parte do equilíbrio ecológico).
O Programa Nacional de Combate a Doença de Chagas do Ministério da
Saúde trabalha há mais de 20 anos em ações regulares de combate à doença,
como melhorias habitacionais e borrifações domiciliares. Essas ações reduzem a
presença do vetor dentro das casas. ]
Um dos principais objetivos do combate à doença de Chagas é a
eliminação do barbeiro T. infestans, única espécie transmissora da doença
possível de ser exterminada do território brasileiro, pois foi introduzida no País.
Originário da Bolívia, esse tipo de barbeiro chegou ao Brasil pela região Sul e se
adaptou bem à vegetação. Desde então, foram os mais importantes transmissores
da doença de Chagas no País, devido à sua preferência por sangue humano e ao
seu elevado índice de infecção natural. Cerca de 80% dos casos de Chagas
detectados no Brasil foram transmitidos por esse barbeiro.
Nos anos 80, os barbeiros da espécie Triatoma Infestans eram encontrados
em mais de 720 municípios brasileiros. Em 2003, esse número caiu para apenas
29. Os pequenos e últimos focos dessa espécie encontram-se, principalmente, no
Paraná e na Bahia. O Paraná está em uma fase mais avançada em relação ao
controle da doença de Chagas e deve receber o certificado de eliminação até o
final do ano. Na Bahia o certificado está previsto para 2006.
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