filosofia - Universidade Castelo Branco

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VICE-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO E CORPO DISCENTE
COORDENAÇÃO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
FILOSOFIA
Rio de Janeiro / 2007
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UNIVERSIDADE CASTELO BRANCO
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U n3p
Universidade Castelo Branco.
Filosofia. –
Rio de Janeiro: UCB, 2007.
68 p.
ISBN 85-86912-15-8
1. Ensino a Distância. I. Título.
CDD – 371.39
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FILOSOFIA
Conteudista
Liliana Lúcia da S. Barbosa
Apresentação
Prezado(a) Aluno(a):
É com grande satisfação que o(a) recebemos como integrante do corpo discente de nossos cursos de graduação, na certeza de estarmos contribuindo para sua formação acadêmica e, conseqüentemente, propiciando
oportunidade para melhoria de seu desempenho profissional. Nossos funcionários e nosso corpo docente
esperam retribuir a sua escolha, reafirmando o compromisso desta Instituição com a qualidade, por meio de uma
estrutura aberta e criativa, centrada nos princípios de melhoria contínua.
Esperamos que este instrucional seja-lhe de grande ajuda e contribua para ampliar o horizonte do seu conhecimento teórico e para o aperfeiçoamento da sua prática pedagógica.
Seja bem-vindo(a)!
Paulo Alcantara Gomes
Reitor
Orientações para o Auto-Estudo
O presente instrucional está dividido em quatro unidades programáticas, cada uma com objetivos definidos e
conteúdos selecionados criteriosamente pelos Professores Conteudistas para que os referidos objetivos sejam
atingidos com êxito.
Os conteúdos programáticos das unidades são apresentados sob a forma de leituras, tarefas e atividades
complementares.
As Unidades 1 e 2 correspondem aos conteúdos que serão avaliados em A1.
Na A2 poderão ser objeto de avaliação os conteúdos das quatro unidades.
Havendo a necessidade de uma avaliação extra (A3 ou A4), esta obrigatoriamente será composta por todo o
conteúdo de todas as Unidades Programáticas.
A carga horária do material instrucional para o auto-estudo que você está recebendo agora, juntamente com os
horários destinados aos encontros com o Professor Orientador da disciplina, você administrará de acordo com
a sua disponibilidade, respeitando-se, naturalmente, as datas dos encontros presenciais programados pelo
Professor Orientador e as datas das avaliações do seu curso.
Bons Estudos!
Dicas para o Auto-Estudo
1 - Você terá total autonomia para escolher a melhor hora para estudar. Porém, seja
disciplinado. Procure reservar sempre os mesmos horários para o estudo.
2 - Organize seu ambiente de estudo. Reserve todo o material necessário. Evite
interrupções.
3 - Não deixe para estudar na última hora.
4 - Não acumule dúvidas. Anote-as e entre em contato com seu monitor.
5 - Não pule etapas.
6 - Faça todas as tarefas propostas.
7 - Não falte aos encontros presenciais. Eles são importantes para o melhor aproveitamento
da disciplina.
8 - Não relegue a um segundo plano as atividades complementares e a auto-avaliação.
9 - Não hesite em começar de novo.
SUMÁRIO
Quadro-síntese do conteúdo programático...............................................................................................................
11
Contextualização da disciplina ...................................................................................................................................
12
UNIDADE I
A NATUREZA DA FILOSOFIA
1.1. Os níveis de conhecimento e suas aplicações ........................................................................................... 13
1.2. O conhecimento filosófico e sua importância .............................................................................................. 16
1.3. Os métodos da investigação filosófica ......................................................................................................... 17
1.4. Principais períodos filosóficos na dimensão gnoseológica e política ...................................................... 18
UNIDADE II
AS DIMENSÕES FILOSÓFICAS DO HOMEM
2.1. O que é o Homem: sua hominização .............................................................................................................. 30
2.2. A essência do fenômeno humano .................................................................................................................. 30
2.3. A Complexidade humana ................................................................................................................................. 32
2.4. Corporeidade no pensamento filosófico ....................................................................................................... 32
UNIDADE III
REFLETINDO SOBRE OS VALORES: AXIOLOGIA
3.1. Noções preliminares de axiologia ................................................................................................................. 39
3.2. O agir comunicativo e educação para a consciência moral ........................................................................ 40
3.3. A construção de valores e a responsabilidade de cidadania ..................................................................... 42
3.4. A ética como espaço de revolução global ..................................................................................................... 42
UNIDADE IV
AS TENDÊNCIAS FILOSÓFICAS CONTEMPORÂNEAS E SUAS INFLUÊNCIAS
NA COTIDIANIDADE
4.1. Positivismo ........................................................................................................................................................... 45
4.2. Marxismo ............................................................................................................................................................... 46
4.3. Fenomenologia e Existencialismo ..................................................................................................................... 48
4.4. As tendências emergentes do final do século XX e início do XXI ............................................................ 49
Glossário ................................................................................................................................................................... 61
Gabarito .................................................................................................................................................................... 63
Referências bibliográficas ...................................................................................................................................... 65
Quadro-síntese do conteúdo
programático
UNIDADES DO PROGRAMA
1. A NATUREZA DA FILOSOFIA
1.1. Os níveis de conhecimento e suas aplicações
1.2. O conhecimento filosófico e sua importância
1.3. Os métodos na investigação filosófica
1.4. Principais períodos filosóficos na dimensão
gnoseológica e política
OBJETIVOS
• Possibilitar ao aluno o gosto pelo pensamento reflexivo-filosófico
inovador, crítico e autônomo capaz de desenvolver a pesquisa acadêmica e a manutenção do diálogo com outras áreas do saber inter e
transdisciplinar;
• Diferenciar os tipos de conhecimentos existentes no cotidiano;
• Perceber o significado e a importância da filosofia como pensamento
que pretende superar o senso comum e estabelecer uma visão crítica da
realidade;
• Fornecer ferramentas necessárias para aquisição de uma metodologia
apropriada à investigação filosófica;
• Oferecer uma visão dos vários momentos da filosofia na história do homem.
2. AS DIMENSÕES FILOSÓFICAS DO HOMEM
2.1. O que é o Homem: sua hominização
2.2. A essência do fenômeno humano
2.3. A complexidade humana
2.4. Corporeidade no pensamento filosófico
• Capacitar o aluno para um modo especificamente filosófico de formular
e propor soluções de problemas nos diversos campos do conhecimento,
analisar as possibilidades de compreensão do homem, do mundo e de si
mesmo, em bases lógico-dialéticas, objetivando a aquisição do saber
crítico para o exercício da cidadania e da qualidade de vida;
• Desenvolver reflexões sobre quem é o homem e as questões pertinentes
a sua natureza e a sua capacidade de transcendência;
• Compreender as origens filosóficas do Ser do Homem, seu modus
vivendi como um verdadeiro progresso ontológico;
• Analisar as concepções que resultam de um modo mutilador de
organização de conhecimento incapaz de reconhecer e compreender a
complexidade humana;
• Refletir sobre o corpo na vida cotidiana, buscando desvelar os
antecedentes históricos das relações do homem com sua corporalidade.
3. REFLETINDO SOBRE OS VALORES: AXIOLOGIA
3.1. Noções preliminares de axiologia
3.2. O agir comunicativo e a educação para a
consciência moral
3.3. A construção de valores e a responsabilidade de
cidadania
3.4. A ética como espaço de revolução global
• Levar o aluno a se tornar um sujeito capaz de refletir sobre a realidade
a partir da contextualização dos valores emergentes na cultura, tomando
uma posição crítica face aos problemas nacionais e globais;
• Compreender a dimensão ética e moral da existência humana;
• Identificar na atitude dialogal o espaço para a construção da
consciência moral;
• Desvelar através da reflexão e do diálogo a construção dos valores
necessários a uma atitude de cidadania como norte para a
consciência planetária;
• Compreender e utilizar de forma coerente os conceitos de direito, dever,
responsabilidade, cidadania, entre outros, vinculando-os à idéia de ethos.
4. AS TENDÊNCIAS FILOSÓFICAS CONTEMPORÂNEAS
E SUAS INFLUÊNCIAS NA COTIDIANIDADE
4.1. Positivismo
4.2. Marxismo
4.3. Fenomenologia e Existencialismo
4.4. As tendências emergentes do final do século XX
e início do XXI
• Capacitar o aluno à compreensão das diferentes teorias e visões
de mundo de forma a identificar suas contribuições no drama
antropológico hodierno, desvelando as contradições inerentes a
cada modo de olhar e o fio condutor que une esses olhares para o
entendimento da situação do Ser no mundo;
• Analisar a importância da visão positivista como mola propulsora do
desenvolvimento científico, social e político e suas conseqüências atuais;
• Compreender a dimensão do marxismo oriundo de um contexto
de contradições existentes entre a realidade social e o avanço
técnico, estendendo essas compreensões para a sociedade pósguerra e a sociedade das tecnologias de comunicação;
• Reconhecer nos postulados da fenomenologia e do existencialismo
a possibilidade da liberdade e responsabilidade tendo como
implicações o compromisso e o conflito;
• Estabelecer uma visão crítica da situação do homem no mundo,
compatível com as mudanças avassaladoras em que se encontra a
humanidade, identificando as visões emergentes que procuram caminhos
alternativos para a construção de uma consciência planetária e cósmica.
11
12
Contextualização da Disciplina
O homem não vive sem uma filosofia. Essa frase nos remete a muitas reflexões. O ser humano vive num mundo
de indagações, de questionamentos; sua vida vê-se tecida por uma teia muito complexa e que o põe em constantes
reflexões sobre si mesmo e seu mundo.
O pensamento filosófico impõe-se como pensamento radical, rigoroso e de conjunto. Assim, a filosofia implica
um raciocínio com métodos apropriados que procuram iluminar os caminhos dos homens.
A filosofia é um pensar coerente, pois faz emprego dos recursos do raciocínio lógico; profundo, vai até as
raízes dos problemas, não permanecendo na superfície (é avessa ao achismo). É abrangente, já que procura
abordar as questões tendo presente o contexto em que estas se encontram e a multiplicidade de respostas
possíveis. Enfim, procura não somente explicar as coisas, como fazem as ciências, mas se esforça também em
buscar o sentido que elas possam ter para a existência humana.
A filosofia tem hoje o desafio de levar os homens a tomar consciência de seu tempo, apesar de os meios de
comunicação propagarem uma cultura da superficialidade. Na atualidade, a lixocultura é uma armadilha muito
sutil que convida os homens a não pensar.
No decorrer dos conteúdos, a filosofia irá se desdobrando em áreas específicas, desde a lógica até a antropologia
filosófica, na tentativa de oferecer um conhecimento mais profundo das idéias dos grandes pensadores que
contribuíram para a formação de um modelo mental nas diferentes sociedades.
Este instrucional inicia-se com a natureza da filosofia e seu método. Depois oferece uma visão da trajetória do
pensamento filosófico. Assim parte da Grécia Antiga, em torno do século VI a.C. O aparecimento da filosofia
deveu-se à intensificação da vida nas cidades (pólis) gregas (Mileto, Corinto, Atenas, Éfeso, Eléia, etc.). A partir
do século VIII a.C., as pólis passaram a congregar pessoas provenientes de várias culturas – genos – e, com
isso, criaram condições novas de vida, dando chances ao surgimento do cidadão (pólis).
Recentemente, principalmente a partir da década de 90, o avanço da ciência e da tecnologia e as transformações
socioeconômicas (globalização, neoliberalismo e robotização dos sistemas de produção) têm provocado o
debate de questões, tais como os limites da inteligência artificial, a salvaguarda dos valores humanos na aldeia
global, o futuro do homem numa sociedade robotizada, a revolução genética e outras temáticas que insurgem na
sociedade do século XXI.
UNIDADE I
13
A NA
TUREZA D
A FIL
OSOFIA
NATUREZA
DA
FILOSOFIA
Você está neste momento “[...]lendo esse texto,
e tem a sensação de estar parado no universo,
mas o universo está girando. Nosso planeta gira
a uma velocidade de 1.300 quilômetros por hora e
você tem a sensação de que está parado. Todos
temos a sensação de que o sol nasce no leste e
morre no oeste, mas, na verdade, quem gira é a
Terra. Portanto, não confie muito nos seus órgãos
dos sentidos, pois aquilo que você pensa que está
vendo na realidade é uma ilusão. Temos a
impressão de que estamos andando sobre uma
Terra chata, mas ela é redonda. Da mesma forma,
existem muitas coisas que você considera
verdadeiras, mas que são ilusórias. É bom saber
que os seus olhos enganam, os seus ouvidos
enganam, qualquer um dos nossos órgãos
sensoriais pode nos enganar. A realidade que você
percebe não é a realidade real; ela é a sua
realidade, naquele determinado momento. Se você
modificar suas crenças, se você modificar seu
modo de perceber o mundo, eu lhe garanto que o
mundo vai mudar. A sua realidade vai mudar.[...]”
(RIBEIRO, 2003: 05).
Segundo Leôncio Basbaum (1978: 302-3),
“devemos repelir qualquer idéia de que a filosofia
seja um quadro exposto à contemplação passiva
do homem, ou mesmo um entorpecente para
mergulhá-lo em doces sonhos etéreos enquanto
esquece a realidade da vida e o muito que há a
fazer dentro dela. A filosofia é, antes de mais nada,
em primeiro lugar e acima de tudo, uma arma, uma
ferramenta, um instrumento de ação com a ajuda
da qual o homem conhece a natureza e busca o
conforto físico e espiritual para a vida. Se o homem
realmente se destaca dos outros animais pela
amplidão e profundidade do seu pensamento, se
tudo o que ele realizou, desde que, saindo da
selvageria, começou a construir o que chamamos
de civilização, foi a concretização desse
pensamento, que, evoluindo, se transformou,
através do tempo e do espaço; não há dúvida de
que esse pensamento, mobilizando os dedos de
sua mão, é a sua principal arma na conquista da
natureza e, portanto, da sua liberdade”.
Diante de um mundo destituído de valores que
expressam amor, fraternidade, solidariedade e respeito
ao homem, figura uma luz no final do túnel – a Alegoria
da Caverna, de Platão – um saber que pede passagem e
propõe uma nova ciência, a ciência do homem. A
ciência que resgata o princípio e fim último de valor:
a pessoa.
Vivemos no fundo da caverna, enxergamos o mundo
por uma única lente, é preciso rever os valores que
predominam na sociedade, que como possuidores da
capacidade de reflexão possamos construir um mundo
mais justo e digno para todos cidadãos.
Somos levados ao questionamento, incertezas e
angústias diante de um cenário que não mais privilegia
o humano. Somos impelidos a sair do marasmo e a
arriscarmos a conquista de um novo mundo.
No livro O mundo de Sofia , de Gaarder (1996), o
autor faz uma analogia do coelhinho que o mágico
retira da cartola com as pessoas que acreditam que o
mundo é incompreensível. Segundo o autor, os homens
são como bichinhos microscópicos que se instalam na
base dos pêlos do coelho. No entanto, alguns homens
tentam subir para a ponta dos pêlos a fim de olhar
bem dentro dos olhos do grande mágico. Esses homens
são aqueles que não se satisfazem diante das situações
do mundo e se lançam numa jornada rumo aos limites,
a transcendência. E voltamos a insistir que só o homem
é capaz da transcendência, visto que é um ser práxico
(BARBOSA, 2002: 119).
1.1. Os Níveis de Conhecimento e Suas Aplicações
Produzir conhecimento é uma capacidade e uma
necessidade humana. Para tanto, temos disponíveis
certos recursos lógicos e metodológicos que nos
auxiliam a obter um conhecimento mais adequado e
mais desvendador dos significados que pode ter uma
manifestação do mundo circundante.
14
Natureza do Conhecimento Humano e Características de Sua Construção
Tipos de Conhecimento Principais Características de Sua Construção
Científico
Conjunto de assertivas que partiram de hipóteses de investigadores que as
sistematizaram em forma de teoria, com emprego de métodos de estudo e de
comprovação reconhecidos pelo rigor acadêmico.
Filosófico
Conjunto de especulações tido como de natureza racional, construído com sistematização, mas sem exigências de observação, de realização de experimentos e,
portanto, sem verificação.
Religioso
Discurso sobre verdades consideradas inspiradas pela divindade, caracterizado
por uma natureza tomada como sagrada e visto como infalível através da adesão
pelo chamado ato de fé.
Empírico
Conjunto de idéias e opiniões vindas do acúmulo de vivências cotidianas das
pessoas ao longo do tempo ou passadas por sua comunidade, construídas na
familiaridade com os fenômenos considerados.
Do Senso Comum
Conjunto de conhecimentos constituídos principalmente de opiniões e modos acríticos de
perceber a realidade, embora costumem mesclar-se de conhecimentos advindos das outras
naturezas (científicos, filosóficos, empíricos, religiosos) e incorporados ao pensamento
das pessoas comuns (não-acadêmicas) devido a um forte processo de sua popularização.
Mágico
Criticamente, um não-conhecimento, reunindo um conjunto de crendices oriundas de mitos (culturais) e de elementos fantasiados e organizados psicanaliticamente (individuais).
Fonte: TURATO, Edberto Ribeiro. Tratado da metodologia clínico-qualitativa: construção teórico-epistemológica, discussão
comparada e aplicação nas áreas da saúde e humanas. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2003. p.57.
Estamos iniciando este novo século numa sociedade
tendendo à globalização, e impregnada de fenômenos
que desumanizam, coisificam o ser humano. O pensamento hegemônico, quase que único, faz com que se
privilegie o individualismo, a descrença em valores éticos, o dogmatismo, o fanatismo, o consumismo, a ausência de solidariedade, a valorização do “ter” em relação ao “ser”, a competitividade destrutiva. A oposição
a esta “cultura do narcisismo”, instrumentalizada pela
“mídia” todo-poderosa, é praticamente nula.
- Ausência dos valores humanos
[...] O PENSAR é algo difícil, muitas vezes sofrido, e facilmente pode ser substituído por dogmas e crenças; melhor
ainda se estes aparentam ser fruto de “liberdade”. Liberdade essa que, na verdade, impõe-se sub-repticamente à
limitação e à impossibilidade do pensamento próprio.
- Falta criatividade
[...] O mau uso do conhecimento adquirido através das
ciências é altamente preocupante, ainda mais quando se
sabe que são os grupos que visam principalmente o poder ou o lucro que se apropriam das descobertas.
- O conhecimento científico acompanha o ritmo
da sociedade atual. Vivemos a crise de valores
éticos que permitem a humanização.
[...] Método adequado [...] criativo e flexível, [...] indo
além do senso comum. Esse método é tanto mais rico
quanto mais longe ele vai nos objetivos propostos.[...]
nas chamadas Ciências Humanas [...] os objetivos e o
método devem ter a potencialidade de ampliar-se, rumo
àquilo que nem pensamos que iríamos encontrar.
- O método qualitativo permite ir além do quantitativo, procurando descrever o fenômeno nos
seus aspectos mais suscetíveis à percepção do
próprio sujeito, os aspectos fenomênicos.
[...] Corre-se o risco de que se questione a “verdade
única”, que nos diz que somos apenas objetos
consumistas, que produzimos objetos de consumo
para nós e para os demais. Áreas como a ética, a
afetividade, as relações profundas entre os seres
humanos, as conjunções sociais, históricas e
culturais podem revelar-se e fazer pensar. Ora, o
pensar é subversivo. [...] Suas investigações têm
por finalidade o bem-estar do ser humano.
- Crítica aos resultados das pesquisas em Ciências
Humanas que, na verdade, busca o fim último da
ciência: a melhoria da vida e seu envolvimento em
todos os aspectos que compõem a natureza humana.
A atitude científica apresenta uma dimensão pessoal, uma característica não exclusiva dos cientistas
de carreira, mas que se encontra difusa nas pessoas
da sociedade em geral.
A atitude científica é filha do bom senso, do espírito
crítico que uma pessoa desenvolve geralmente desde
uma idade precoce, bem como de uma relação sadia
que a pessoa estabelece com os outros e com o
mundo.[...] A atitude científica existe num estado de
espírito que compreende uma disposição emocional e
uma organização intelectual, que permite às pessoas
apreenderem os fenômenos no ponto mais próximo de
como as coisas funcionariam em si mesmas.[...] A
atividade científica, por seu turno, é uma prática casada
com discussões teóricas, usando instrumentos
trabalhados, embora não obrigatoriamente sofisticados,
e que também tem explicitamente o propalado objetivo
de se aproximar da verdade das coisas da natureza e
do homem.
Adotando uma atitude filosófica e usando os
conhecimentos das diversas correntes/escolas da
história da filosofia, a universidade poderia rever
criticamente suas posições políticas e ocupações
científicas, processo que, no entanto, é incomum
na maioria dos departamentos universitários.
Embora a atitude filosófica (sábia) não dependa
estritamente do uso do saber filosófico
historicamente sistematizado, este por sua
inequívoca riqueza deveria ter um espaço maior
na vida cotidiana das pessoas comuns e nas
instituições de toda natureza.
Acerca da atitude religiosa, podemos entendê-la
como a disposição natural das pessoas em direção a
um posicionamento afetivo (psicológico), a
atividades/ocupações que considerem o
desenvolvimento de suas relações com a realidades
e seres de instâncias sobre-humanas, e conseqüentemente uma disposição a elaborar intelectualmente
seus sentimentos e atos religiosos.
Mito
O mito foi a primeira grande arma da qual o homem se
serviu para enfrentar o desconhecido e de algum modo
controlá-lo – sociedades primitivas.
As atitudes e os conhecimentos religiosos, a rigor,
não devem se opor ou competir, respectivamente,
com as posturas pessoais ou com o engendrar das
comunidades que elaboram o saber filosófico e
científico, pela (aparentemente) simples razão de que
a religião, a filosofia e a ciência têm intenções
diferentes com os objetos de sua consideração, como
conseqüentes modos diferentes de abordagem.
O conhecimento empírico e do senso comum, por
sua vez, pode ser então definido como um conjunto
das vivências diárias, dado pela familiaridade que se
tem com a coisa/assunto em consideração/questão
e consistindo em informações/dados de conteúdo
comum e igualizado (Trujilo Ferrari, 1982:6).
[...] atitude mágica de uma pessoa é a que implica se
relacionar com os outros e com o mundo como se os
resultados dos pensamentos, da fala e das ações fossem
fortemente condicionados por poderes ocultos,
inexplicáveis e, muitas vezes, caprichosos (de mudança
imprevisível nos modos de sentir, pensar e se conduzir
sem motivos razoáveis). A atitude mágica não se
harmoniza com a atitude científica, à medida que não
apenas afronta teorias que contemplem relações naturais
entre fenômenos, mas também recusa de antemão a
busca clara de relações.[...] A atitude mágica contrapõese também às atitudes filosófica, religiosa e mesmo do
senso comum, à medida que esta última, ainda que não
obedeça aos rigores dos experimentos e da construção
científica, ao menos procura se sustentar na busca
comedida das conclusões da experiência de vida, com
observação ao modo do funcionamento da natureza
das coisas e dos comportamentos humanos.
TURATO, Edberto Ribeiro. Tratado da metodologia
clínico-qualitativa:
construção
teóricoepistemológica, discussão comparada e aplicação nas
áreas da saúde e humanas. Petrópolis, Rio de Janeiro:
Vozes, 2003: passim 02 - 56.
universo e do homem. Geralmente relatam a forma
de como, através de deuses ou de forças poderosas,
o universo e o homem passaram a existir do modo
como existem. Entre os mais famosos mitos
cosmogônicos estão o mito de Marduk (Babilônia)
e o mito grego de Prometeu e Pandora.
Tipos de Mito:
• Mitos Teogônicos ( theós = deus + gónos = geração) –
relatam o modo como surgiram os deuses e as entidades
poderosas em geral. É famoso o mito de Afrodite
emergindo das águas do mar ou o de Atenas saindo da
cabeça de Zeus.
• Mitos Cosmogônicos (Kósmos = universo +
gónos = geração) – referem-se às origens do
• Mitos de Renovação – indicam o nome, como devem
ser invocados e a esfera de ação dos deuses
encarregados de proteger o universo, a natureza e o
próprio homem. A esses tipos de mito estão ligados
também os mitos de destruição, ou seja, das divindades
capazes de destruir ou produzir malefícios. Muitas vezes,
as próprias divindades protetoras, quando desafiadas,
produzem a destruição. Estão particularmente ligados
aos rituais mágicos.
15
16
• Mitos Heróicos – contam os grandes feitos de um
personagem que possui qualidades fora do comum.
Esse personagem pode ser um semideus, um homem
dotado de poderes especiais ou um animal elevado à
categoria de espírito divino, a quem se atribue grandes feitos no sentido de ser útil ao seu povo, de satisfazer os desejos de um tirano ou até mesmo de agradar
ao ser amado. Entre os mais famosos mitos heróicos
estão os mitos de Perseu, Hércules e Aquiles.
• Mitos Escatológicos (éskhatos = o último, as últimas + logia = doutrina) – prevêem o fim de todas as
coisas ou de parte das coisas, do homem ou de grande parte da humanidade. Entre os mitos escatológicos
mais famosos estão o de Gilgamesh (Babilônia) e o
de Deucalião e Pirra (Grécia).
FUNÇÕES DO MITO:
• Conhecimento – fornece uma interpretação da
realidade. Não tendo ainda acesso à ciência e à filosofia,
o homem mítico encontra nas narrativas míticas a fonte
de explicação para os fenômenos da natureza e para
os fatos que dizem respeito à vida do grupo.
• Acomodação – diante do mundo ameaçador – as forças
da natureza, as doenças, as injustiças, a morte –, o mito
se apresenta como um ponto de referência, um oásis no
qual o homem procura algum tipo de consolo e segurança.
• Organização Social – a sociedade organiza-se
de acordo com as indicações contidas no mito. O
mito indica que tipo de relações devem ser
estabelecidas entre os homens e as mulheres e os
guerreiros. Em algumas sociedades, por exemplo,
os homens devem dedicar-se exclusivamente à guerra e em épocas de paz nada fazem, cabendo às mulheres a realização de todas as tarefas, inclusive as
de caça e agricultura.
MITO E MAGIA:
A narrativa mítica sugere a maneira adequada de se
invocar os deuses ou as forças ocultas. Uma vez feita a invocação, cria-se a convicção (poder psicológico) de que as coisas irão realmente ocorrer de acordo
com o conteúdo da inovação.
O conjunto dos rituais é denominado magia. Uma
das notas do ritual mágico consiste numa espécie de
comércio que se estabelece com as divindades: caso
sejam satisfeitos os desejos do deus, este tem a obri-
gação de satisfazer o pedido e, se não o fizer, pode
perder a credibilidade.
CARACTERÍSTICAS DO MITO:
• Comunitária – o indivíduo não se percebe com tal.
• Sacralizada – nada ocorre naturalmente. Tudo o
que acontece deve-se à intervenção de alguma força
oculta, à presença de um deus, de um herói ou de um
antepassado.
• Acrítica – o homem mítico tende a aceitar sem críticas os ensinamentos da tradição.
MITO HOJE:
Alguns pensadores do século passado, os positivistas,
afirmavam que o progresso científico e tecnológico faria
o homem abandonar totalmente suas crenças, passando
a aceitar somente as explicações resultantes das pesquisas científicas. A ciência não é capaz de dar todas as
respostas de que necessita o homem; por mais que a
ciência e a tecnologia progridam, elas não são capazes
de satisfazer a sede humana do infinito.
Superstições, crendices, invocações de espíritos fazem parte não só das assim chamadas sociedades menos desenvolvidas, mas podem ser encontradas nos
mais refinados ambientes das sociedades avançadas.
O mito está fortemente vivo, apesar da negativa de alguns. A religião, a filosofia e a ciência não conseguiram
eliminá-lo. Somente diminuíram sua importância.
MITO MODERNO:
Movido por aspirações íntimas, premido por necessidades de todos os tipos, convocado pela propaganda a
adquirir um determinado status, desejoso de afirma-se
de algum modo perante os outros, mas limitado economicamente, intelectualmente, em talento ou pelas próprias circunstâncias, o homem vê-se incapaz de atingir aquilo a que aspira ou o que dele se cobra. Temos aqui os
ingredientes básicos para a vivência mítica: alguém realiza tais anseios de fama, glória, riqueza, status etc. Dáse, no caso, um processo de aproximação entre o homem
e o ídolo, que pode ser um artista (real) ou um herói das
histórias de quadrinhos (imaginário).
De modo geral, os mitos da atualidade vêm preencher
o vazio deixado pelo abandono de certos valores, como
o ético ou o da comunicação autêntica.
1.2. O Conhecimento Filosófico e Sua Importância
A F I L O S O F I A é um modo de pensar os
acontecimentos além de suas aparências, podendo
pensar a ciência, seus valores, seus métodos e seus
mitos; podendo pensar a religião, a arte e o próprio
homem em sua vida cotidiana, incluindo sua própria
educação.
É ela que permite o distanciamento para a avaliação dos
fundamentos dos atos humanos e dos fins a que eles se
destinam, é a possibilidade de transcendência humana,
ou seja, a capacidade que o homem tem de superar a sua
imanência (que significa a situação dada e não escolhida).
Pela transcendência, o ser humano reconstrói conceitos
e valores, ultrapassa os limites dados pelo cotidiano e
refaz a si mesmo e o mundo num processo contínuo,
como partícipe da experiência humana.
No início (século VI a.C.), o filósofo procurava
responder não só ao PORQUÊ das coisas mas também
ao COMO, ao funcionamento, por isso a Filosofia
englobava também o conhecimento científico além
da indagação filosófica propriamente dita.
No século XVI, com Francis Bacon, a Ciência
começou a se separar da Filosofia. Surgiu um novo
método – a indução – para atingir um novo
conhecimento, crescente, progressivo e dinâmico,
provisório e não mais dogmático, mas provável.
Somente a partir do século XVII, com Galileu, é que
a Ciência se separa da Filosofia. Começam a surgir
diferentes ciências e especializações, que se ocupam
apenas de partes da realidade, cabendo à Filosofia a
reflexão sobre o conjunto.
“A atitude filosófica pura e forte pode estar presente
no cientista, no filósofo profissional e no homem
comum e deve buscar uma sabedoria para distinguir as
coisas boas e ruins para si, para a vida do outro e para
a comunidade humana, no cotidiano e na história [...]”
(TURATO, op.cit.: 51).
Por isso a Filosofia é importante, cabe a ela fazer a
investigação dos fundamentos do conhecimento e da
ação humana, refletindo, inclusive, se a Ciência é
realmente um conhecimento objetivo, o que é
objetividade e até que ponto o cientista pode ser objetivo.
O filósofo reflete sobre a condição humana atual e
sobre que tipo de homem é desejável no futuro, por
isso reflete sobre a escola, para saber que tipo de homem
essa escola está formando, se um ser criativo, político e
participante ou um ser conformado com o status quo.
A Filosofia se propõe, através da reflexão profunda
dos problemas, descortinar as ideologias presentes nos
discursos e desvelar suas contradições existentes,
possibilitando um repensar humano.
A Filosofia vai além da realidade como ela se apresenta,
procurando entender os problemas profundamente, para
depois propor alternativas de mudanças.
1.3. Os Métodos da Investigação Filosófica
Segundo Dermeval Saviani (1980), o pensamento
filosófico deve ser:
• Radical – isto é, deve chegar até a raiz, à origem
dos problemas, deve ser profundo, deve chegar aos
valores originais que possibilitaram o fato.
• Rigoroso – ou seja, deve seguir um método adequado ao objeto em estudo, colocando em questão o senso
comum e as generalizações científicas apressadas.
• De conjunto – como já foi dito, a Filosofia se
preocupa com o todo, com todos os atos, fatores e
valores que estão envolvidos num determinado
problema. Faz uma análise diacrônica e sincrônica
do contexto analisado, sendo útil como
complementação a cada ciência que tem uma visão
parcial da realidade.
Para resumir, segundo Dermeval Saviani:
Radical – deve ir à origem dos problemas
o pensamento filosófico deve ser:
Rigoroso – deve seguir um método adequado
De conjunto – deve se preocupar com o todo
A tarefa da Filosofia consiste em corrigir a visão,
ou, mais exatamente, a visão distorcida. Essa tarefa,
no entanto, não é fácil. Isso por dois motivos:
Primeiro, pelo fato de que toda visão tende a se transformar em cosmovisão; isto é, numa visão global. Assim, nossas afirmações mais simples são expressões da
17
18
nossa cosmovisão, “de nossa organização
arquitetônica do mundo”, como diz Rubem Alves
(ALVES apud SAVIANI, 1980: 24).
O mais grave, porém, é que pretendemos solucionar
todos os problemas e todas as contradições da vida e
do mundo através dessa cosmovisão.
Segundo, pelo fato de que, em geral, nós não temos
consciência da nossa cosmovisão. Ela funciona como
óculos que temos diante de nossos olhos e, ao vermos
as coisas, não vemos os próprios óculos.
Como a Filosofia pode ajudar-nos a superar essas
duas dificuldades?
A essência da Filosofia é a procura do saber e não
a sua posse e que o trabalho filosófico é um trabalho
de reflexão constante. Faz parte da essência da
Filosofia, portanto, questionar os pressupostos
comumente aceitos sem exame, questionar, como diz
Rubem Alves, a nossa “organização arquitetônica do
mundo” e o “nosso conhecimento familiar de que
lançamos mão para explicar nossas práticas
cotidianas” (PILETTI, 1990: 17).
A Filosofia, enfim, pode nos ajudar a superar nossa
visão distorcida da realidade porque a reflexão
filosófica, para merecer esse nome, tem que ser, como
vimos, uma reflexão radical, rigorosa e de conjunto.
Alguns métodos serão aqui expostos para
exemplificar algumas concepções teóricas.
Para procurar os conceitos universais, o método
socrático, baseado no diálogo, assenta-se em dois
passos fundamentais: Ironia e Maiêutica. Sócrates
começa por solicitar ao seu interlocutor que defina um
dado conceito (O que é o Bem? A Justiça? A Retórica ?).
Aceita qualquer definição como ponto de partida, para
em seguida formular um conjunto de questões em torno
da mesma, mostrando as suas limitações. Chama-se
Ironia esse passo, porque nos diálogos de Platão,
Sócrates finge ignorar as respostas que procura.
Maiêutica - Processo de questionamento a que se expõe
seus interlocutores, em seus diálogos filosóficos;
utilizava esse método não com a proposta de ensinar,
mas apenas para aprender, por meio de perguntas.
Confrontado com as limitações das suas definições, o
interlocutor acaba por reconhecer as limitações do seu
próprio saber. É então convidado a reformular a
resposta anterior, dando uma definição mais ampla, na
direção da universalidade.
Dialética - O método proposto por Platão para atingir
o conhecimento autêntico (epistéme) é a dialética.
Consiste na contraposição de uma opinião com a crítica
que dela podemos fazer, ou seja, na afirmação de uma
tese qualquer seguida de uma discussão e negação
desta tese, com o objetivo de purificá-la dos erros e
equívocos.
Método Cartesiano ou Dúvida Metódica - O ponto
de partida é a busca de uma verdade primeira que não
possa ser posta em dúvida. Por isso converte a dúvida
em método. Começa duvidando de tudo, das afirmações
do senso comum, dos argumentos da autoridade, do
testemunho dos sentidos, das informações da
consciência, das verdades deduzidas pelo raciocínio,
da realidade do mundo exterior e da realidade do seu
próprio corpo. O racionalismo é o sistema que consiste
em limitar o homem ao âmbito da própria razão.
1.4. Principais Períodos Filosóficos na Dimensão
Gnoseológica e Política
• Filosofia Antiga (do séc. VI a.C. ao século VI d.C.)
A Filosofia Antiga nasceu na Grécia, no século VI
a.C., com os filósofos pré-socráticos indo até o período helenístico, que é o predomínio da cultura grega
nos três grandes reinos (da Macedônia, Síria e Egito).
A reflexão filosófica que se iniciou nesta época continuou convivendo com a consciência mítica e religiosa que dominava até então, assim como acontece em
nossos dias, guardadas as devidas proporções.
Os filósofos pré-socráticos tinham como ponto central de suas reflexões a busca do princípio ou fundamento das coisas, a arché.
Os primeiros filósofos gregos são também chamados
“filósofos da natureza”, porque suas reflexões estavam
centradas na natureza e nos processos naturais.
Queriam entender os fenômenos naturais através da
observação, sem ter que recorrer aos mitos e aos deuses.
Fizeram a Filosofia se libertar da Religião, deram os primeiros passos na direção de uma forma científica de pensar.
A Filosofia nesta época englobava a indagação filosófica propriamente dita e o conhecimento “científico”, como o chamamos hoje.
As respostas às indagações que faziam sobre o princípio das coisas foram variadas e divergentes, uns
afirmavam que era a água, outros já diziam que era o
ar, ou o fogo, ou os quatro elementos (terra, ar, fogo
e água).
Embora a atitude não fosse mais mítica, os elementos naturais ainda eram considerados quase que como
divindades.
“A atitude filosófica rejeita as interferências dos deuses, do sobrenatural, buscando a coerência interna,
definição dos conceitos, o debate e a discussão”
(ARANHA e MARTINS, 1993: 67).
Sócrates (470-399 a.C.), “personagem mais enigmática de toda a história da Filosofia, não escreveu uma
única linha e está entre os que mais influência exerceram sobre o pensamento europeu” (GAARDER, 1996:
78). Ele criou o método socrático, que consistia na
busca do rigor através da discussão e do diálogo,
através do qual o homem é encarado para ser compreendido e analisado.
Com Sócrates, surge o interesse pelo ser humano e
suas virtudes, as quais são identificadas como: bondade, justiça, temperança, coragem, etc.
Para Sócrates, o homem não podia ser definido, pois
depende de sua consciência, não é como a natureza
que possui propriedades objetivas.
Sócrates, com suas perguntas, destruía o saber constituído através do senso comum e dos preconceitos,
para construir outro a partir de um raciocínio coerente
e rigoroso.
Platão era discípulo de Sócrates quando este morreu
condenado a beber cicuta, aos 29 anos, por sua
atividade como filósofo.
Conhecemos a vida de Sócrates através de Platão,
que foi também um dos maiores filósofos da história.
Platão interessava-se pela relação entre aquilo que é
eterno e imutável na natureza, na moral, na sociedade
e aquilo que “flui”.
Para Platão, a verdadeira realidade se encontra
no mundo das idéias, lugar da essência imutável
de todas as coisas, dos verdadeiros modelos ou
arquétipos. Todos os seres, inclusive o homem,
são apenas cópias imperfeitas de tais realidades
eternas e se aperfeiçoam à medida que se aproximam do modelo ideal.
Depois de Platão vem Aristóteles, que também foi
um dos grandes filósofos gregos e que durante 20
anos foi aluno da Academia de Platão, para onde foi
quando este tinha 61 anos.
“Platão estava tão mergulhado no mundo das ‘idéias’
que quase não registrou as mudanças da natureza.
Aristóteles, ao contrário, interessava-se justamente
pelas mudanças naturais” (GAARDER, op. cit.: 121).
Para Aristóteles, o ser é constituído de matéria e forma em potência a serem atualizadas, tem uma natureza
essencial que se realiza aos poucos até alcançar um
pleno desenvolvimento.
Para ambos, a plenitude humana dependia do aperfeiçoamento da razão.
Após a morte de Aristóteles (322 a.C.), a Filosofia
Helênica continuou a investigar os problemas levantados por Sócrates, Platão e Aristóteles, tendo como
ponto comum entre eles a preocupação em saber qual
seria a melhor maneira de o homem viver e morrer.
A partir do ano 50 a.C., Roma passou a assumir o
poderio militar na região antes dominada pelos gregos, mas a cultura e a filosofia continuaram sendo
helênicas até muito tempo depois.
• Filosofia Patrística (do séc. I ao séc. VII)
É a filosofia dos primeiros Padres da Igreja, por isso
recebe esse nome. Inicia-se com as epístolas de São
Paulo, que se converteu ao Cristianismo pouco depois
da morte de Jesus e começou a viajar como missionário através de todo o mundo greco-romano, transformando o cristianismo numa religião universal.
O Cristianismo começa a se infiltrar no mundo
greco-romano como algo completamente diferente
da Filosofia Helênica, mas Paulo encontrava apoio
nesta filosofia ao afirmar que a busca por Deus está
dentro de todos os homens, o que para os gregos
não era novidade.
O que Paulo pregava de novo é que esse Deus não
era “filosófico”, ao qual as pessoas pudessem chegar apenas pela razão, mas que ele tinha se revelado
aos homens.
Paulo conseguiu, com sua tarefa missionária, expandir
o Cristianismo para as cidades gregas e romanas mais
importantes: Atenas, Roma, Alexandria, Éfeso, Corinto
e nos três ou quatro séculos seguintes todo o mundo
greco-romano estava cristianizado. Procurou-se
conciliar a cultura greco-romana com o Cristianismo.
“Mas o Cristianismo não era a única religião nova
daquela época, o Helenismo era marcado por um
sincretismo religioso, por isso a Igreja precisava definir claramente a doutrina cristã, a fim de estabelecer
seus limites em relação às demais religiões e evitar uma
cisão dentro da própria Igreja cristã” (Ibidem: 179).
19
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Para definir claramente a doutrina cristã, surgem os
“dogmas” cristãos mais importantes que vão servir de
base para a Filosofia Patrística. Um desses “dogmas”
foi que Jesus havia sido Deus e homem ao mesmo
tempo e que através do milagre de Deus poderíamos
ressuscitar para a vida eterna.
Um grande representante desse período, já no seu
final, foi Santo Agostinho (354 a 430). Foi influenciado
pelo neoplatonismo do final da Antiguidade, mas se
converteu ao Cristianismo.
Com ele, a Filosofia Patrística deu novo rumo à
pedagogia da época, colocando a disciplina cristã como
auxiliar para resolver as situações aflitivas do homem.
Segundo Santo Agostinho, a fé revela verdades
ao homem de forma direta e intuitiva. A razão é
posterior a fé. “Sua filosofia tem como preocupação
central a relação entre a fé e a razão, mostrando que
sem a fé a razão é incapaz de promover a salvação
do homem e trazer-lhe a felicidade” (JAPIASSU e
MARCONDES, 1995: 15).
Filosofia Medieval (do séc. VIII ao séc. XIV)
A Idade Média recebeu esse nome por ser intermediária
entre duas outras épocas, a Antiguidade e o
Renascimento. É considerada pelo homem renascentista
como a longa “noite de mil anos” por ser vista como um
período de decadência, mas, para outros, foi considerada
o período de “mil anos de crescimento” pois foi aí que
se iniciou o sistema escolar, por exemplo.
Já no princípio desse período, surgiram nos conventos
as primeiras escolas que, no século XII, também foram
criadas à volta das catedrais. Por volta de 1200,
começaram a ser fundadas as primeiras universidades.
“Os primeiros cem anos depois de 400 d.C. foram
realmente de declínio cultural. A era romana fora uma
época de “cultura elevada”, com grandes cidades que
dispunham de sistemas de esgotos, banhos e
bibliotecas públicas. Isto para não falar da imponente
arquitetura” (GAARDER, op. cit.: 190).
Teodósio, o último imperador romano, dividiu o
Império em Ocidental e Oriental em 395 e essa data
marca o fim da Antiguidade e o começo da Idade Média.
Cresceu muito o poder da Igreja nesta época, em fins
do século IV, quando Roma perdeu seu poder político, o
bispo de Roma se tornou o chefe de toda a Igreja católica
romana e recebeu o nome de “papa” = “pai” e passou a
ser considerado o representante de Jesus na terra.
No ano de 529, a Academia de Platão, em Atenas, foi
fechada e no mesmo ano foi fundada a Ordem dos
Beneditinos, a primeira grande ordem religiosa. Nesse
momento, a Igreja católica se impõe e afasta a Filosofia
grega, transformando os mosteiros em grandes centros
monopolizadores da educação, reflexão e meditação.
A Filosofia Medieval passou a ser ensinada nas
escolas a partir do século XII, por isso recebeu o nome
de Escolástica.
Apesar de a Igreja ter fechado a Academia de Platão,
os filósofos gregos não foram esquecidos, Platão e
Aristóteles continuaram influenciando neste período,
“embora o Platão que os medievais conhecessem fosse
o neoplatônico (vindo da Filosofia de Plotino, do século
VI d.C.), e o Aristóteles que conhecessem fosse aquele
conservado e traduzido pelos árabes, particularmente
Avicena e Averróis” (CHAUÍ, 1995: 45).
De certa forma, a cultura da Antiguidade conseguiu
sobreviver a toda a Idade Média, vindo a ressurgir no
Renascimento.
O maior e mais importante filósofo da Idade Média
foi são Tomás de Aquino (1225 a 1274), que era um
teólogo. Naquela época, não havia nítida distinção
entre Filosofia e Teologia. Ele tentou conciliar a
Filosofia de Aristóteles e o Cristianismo.
São Tomás de Aquino quis mostrar que existe apenas
uma verdade. Uma parte dela reconhecemos através
da razão e da observação e outra parte através da Bíblia.
Ele acreditava poder provar a existência de Deus com
base na Filosofia de Aristóteles (através da razão).
Filosofia da Renascença (do séc. XIV ao séc. XVI)
“É marcada pela descoberta de obras de Platão
desconhecidas na Idade Média, de novas obras de
Aristóteles, bem como pela recuperação das obras
dos grandes autores e artistas gregos e romanos”
(Ibidem: 46).
As quatro grandes linhas de pensamento que
dominavam o pensamento da Renascença eram:
• A idéia de que a natureza é um grande ser vivo e de
que o homem faz parte dessa natureza como um
microcosmo (como espelho do Universo inteiro),
podendo agir sobre ela através da alquimia, da magia
natural e da astrologia. Essa idéia é proveniente de
Platão, do neoplatonismo e da descoberta de livros
de Hermetismo.
• A idéia que valorizava a vida ativa, a política e
defendia os ideais republicanos das cidades contra o
poder hierárquico da Igreja, o império eclesiástico, o
poderio dos papas e dos imperadores. Os pensadores
dessa época foram buscar, nos antigos juristas e
historiadores, essas idéias republicanas e propuseram
a “imitação dos antigos”.
• A idéia que defendia o ideal do homem como artífice
de seu próprio destino, através dos conhecimentos
como astrologia, magia e alquimia, assim como através
da política, das técnicas (medicina, arquitetura,
engenharia, navegação) e das artes (pintura, escultura,
literatura e teatro).
• A certeza de que era possível constituir um
conhecimento novo, científico, baseado na
indução e não mais na dedução ou na autoridade,
experimental, diferente da filosofia, dissociado da
teologia, e que possibilitaria uma nova
cosmovisão.
Foi a época das grandes descobertas marítimas, da
Inquisição e das críticas profundas à Igreja, que desembocaram na Reforma Protestante e na Contra-Reforma da Igreja.
Entre os nomes mais importantes desse período estão:
a) Representante da Filosofia da Natureza:
– Kepler
b) Representantes da Metafísica:
– Nicolau de Cusa (docta ignorantia)
– Giordano Bruno (sistema panteísta)
c) Representantes da Filosofia Política:
– Maquiavel (O príncipe)
– Tomás Morus (Utopia)
d) Representante da Reforma da Ciência:
– Luis Vives (De tradendis disciplinis, De anima
et vita)
Filosofia Moderna – (do séc. XVII a meados do séc.
XVIII)
É a época do Grande Racionalismo Clássico, marcado por três grandes mudanças intelectuais:
• A Filosofia muda o foco de suas indagações para o
intelecto do homem ao invés de começar a indagar
sobre a Natureza e Deus. Começa a questionar sobre a
capacidade de conhecer e, depois, como o intelecto
pode conhecer o que é diferente dele.
• Tudo o que pode ser conhecido pode ser transformado num conceito ou idéia clara e distinta formulada
pelo intelecto. A Natureza, a Sociedade e a Política
podem ser inteiramente conhecidas pelos sujeitos
porque são passíveis de serem transformadas em
conceitos.
• “A realidade é concebida como um sistema racional
de mecanismos físico-matemáticos, cuja estrutura
profunda é matemática. O ‘livro do mundo’, diz Galileu,
está escrito em caracteres matemáticos” (Ibidem: 47).
Essa grande mudança intelectual deu origem à
mecânica, à ciência clássica, por meio da qual são
explicados todos os fatos da realidade: astronomia,
física, química, psicologia, política e artes, estudadas
de forma mecânica.
Nasce a idéia de conquista científica e técnica da
realidade, a partir da explicação mecânica e matemática do Universo e da invenção das máquinas.
Havia uma grande confiança na razão para definir
qual o melhor sistema político, qual a origem, as causas e os efeitos das paixões humanas, além da possibilidade de transformá-los, tornando a vida ética perfeitamente racional.
Os principais pensadores dessa época e suas principais obras:
Representantes da Reforma da Ciência:
– Francis Bacon (Novum Organum – método
indutivo)
– Descartes (Discurso do Método)
– Tomas Hobbes (Leviatã – teoria do Estado)
– Espinosa (A ética demonstrada segundo o método
geométrico)
– Leibniz (político, científico e filosófo – solução
pluralista)
Filosofia da Ilustração – (meados do séc. XVIII ao
começo do séc. XIX)
Esse período também enfatiza a primazia da razão. O
nome Iluminismo vem de luzes (nome dado à razão).
Segundo Chauí (op. cit.: 48), o Iluminismo pregava:
• “Que, pela razão, o homem pode conquistar a liberdade e a felicidade social e política (a Filosofia da Ilustração foi decisiva para as idéias da Revolução Francesa de 1789).
• Que a razão é capaz de evolução e progresso, e o
homem é um ser perfectível. A perfectibilidade consiste em liberar-se dos preconceitos religiosos, sociais e
morais, em libertar-se da superstição e do medo, graças ao conhecimento, às ciências, às artes e à moral.
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• Que o aperfeiçoamento da razão se realiza pelo
progresso das civilizações, que vão das mais atrasadas
(também chamadas de ‘primitivas’ ou ‘selvagens’) às mais
adiantadas e perfeitas (as da Europa ocidental).
• Que há diferença entre Natureza e civilização, isto é, a
Natureza é o reino das relações necessárias de causa e
efeito ou das leis naturais universais e imutáveis,
enquanto a civilização é o reino da liberdade e da finalidade
proposta pela vontade livre dos próprios homens, em
seu aperfeiçoamento moral, técnico e político.”
Nesse período, houve grande interesse pela biologia,
pela economia e pelas artes, que são consideradas
símbolo do grau de progresso de uma civilização.
Os principais pensadores dessa época e suas obras
mais representativas:
a) John Locke (“Ensaio sobre o entendimento
Humano” e “Pensamentos sobre a educação”)
b) Boyle (química) e Newton (Teoria da gravitação)
c) David Hume (“Tratado da Natureza Humana”)
d) Franceses (progressiva emancipação): Voltaire,
Diderot, Condillac, D’Alembert e Rousseau
Os temas rousseaunianos mais importantes são:
• O naturalismo: o homem é originalmente bom, a
natureza humana é boa, o mal existe no mundo;
• O individualismo: toda ação socializadora é nefasta
e funesta pois perverte a natureza humana – essa é a
maior contradição da pedagogia de Rousseau, pois de
acordo com ele se está educando um ser anti-social.
• O sentido da pedagogia – que está em sua obra O
Emílio – a educação é preparação para a vida adulta –
depois na vida adulta, a ação política contribui para a
socialização que se dará espontaneamente.
• O subjetivismo – cada ser humano é único – a
importância da educação para a autenticidade.
• Kant e o idealismo alemão (com ele se inicia a corrente
mais importante da filosofia contemporânea) – investiga
sobre o sujeito para encontrar as condições subjetivas
que fazem possível a objetividade. Como representante
da ilustração, propunha uma emancipação do homem
frente a tutelas auto-impostas com o uso da razão.
• Schelling (período de filosofia negativa: predomínio
do estético; período de filosofia positiva: predomínio
do religioso).
• Hegel (1770-1831 – culminação do idealismo.
“Fenomenologia do Espírito”, “Ciência da Lógica”).
Filosofia Contemporânea – (meados do séc. XIX até
nossos dias)
Por se tratar de um período que está sendo vivido
por nós, fica difícil proceder à classificação por não
podermos manter a necessária distância para analisar
com mais objetividade, mas pode-se citar as
diferentes correntes, com os seus nomes mais
expressivos, que servirá de base para futuras
investigações, segundo Aranha e Martins (1989):
– Crítica da Ciência – Henri Poincaré (1854-1912)
– Fazemos a ciência com fatos, como fazemos uma
casa com pedras; mas a acumulação de fatos não é
ciência, assim como um monte de pedras não é uma
casa;
– Positivismo – Augusto Comte (1798-1857)
“fundador do positivismo, corrente filosófica
segundo a qual a humanidade teria passado por
estágios sucessivos (teológico e metafísico) até
chegar ao ponto superior do processo,
caracterizado pelo conhecimento positivo, ou
científico” (Ibidem: 100).
– Neopositivismo e Filosofia Analítica – Bertrand
Russell (1872-1970 Principia Mathematica, Los
problemas de la Filosofia);
– Pragmatismo – John Dewey (1859-1952).
– Filosofia da Existência
• Karl Jaspers (1883-1969) – existência, transcendência,
Deus; sobre a verdade.
• Martin Heidegger (1889-1976) – “O ser e o tempo”,
“Que é metafísica? – sentido do ser”.
– Fenomenologia – fundada por Edmund Husserl
(1859-1938), cujos seguidores são: Heidegger, Karl
Jaspers e Merleau-Ponty.
– Existencialismo
• Jean-Paul Sartre (1905-1980) – O ser e o nada. O
existencialismo é um humanismo.
Para Sartre só as coisas e os animais são “em si”. O
homem, sendo consciente, é um “ser-para-si”, aberto
à possibilidade de construir ele próprio sua existência.
O homem não é mais que o que ele faz. Não se pode
falar numa natureza humana encontrada igualmente
em todos os homens.
• Karl Popper (1902) – filósofo austríaco – segundo
ele, o que distingue essencialmente um governo
democrático de um não-democrático é que apenas
no primeiro os cidadãos podem livrar-se de seus
governantes sem derramamento de sangue.
– Marxismo
• Karl Marx (1818-1883) – Rejeita explicitamente a
concepção de uma natureza humana universal. Os
homens são seres práticos que se definem pelo
trabalho, o que explica que não há uma essência
separada da existência.
Marx, assim como Freud, mostra que a razão pode ser
deturpadora e pervertida, pode estar a serviço da mentira
e do poder. Esse tipo de racionalidade deve ser contestado
pela atividade crítica da razão mais completa e mais rica.
Marx se posicionou contra a moral kantiana, fundada
na razão universal, abstrata, e tenta encontrar o homem
concreto da ação moral.
A doutrina marxista é chamada de filosofia da práxis
porque é a união dialética da teoria e da prática.
• Gramsci (1891-1937) – filósofo italiano, “teórico do
marxismo, que recusara o dogmatismo do marxismo
oficial, enfatiza a necessidade de formação do
intelectual orgânico, ligado a sua classe e capaz de
elaborar coerente e criticamente a experiência
proletária” (ARANHA e MARTINS, 1993: 265).
• Louis Althusser (1918) – filósofo francês que analisa
a violência simbólica exercida pela classe dominante
através dos Aparelhos Ideológicos do Estado (escola,
família, meios de comunicação de massa, instituições
de cultura, partidos políticos) onde é repassada a
ideologia dominante.
• Theodor Adorno (1903-1969) – levantou o problema
da alienação promovida pela arte de massa.
• Max Horkheimer (1895-1973) – junto com Adorno,
afirmava que os produtos da indústria cultural levavam
inevitavelmente à alienação.
– Estruturalismo
• Michel Foucault (1926-1984) – prefere examinar a
questão do poder não como manifestação do Estado,
mas como uma rede de micropoderes que se estende
por todo o corpo social.
– Filósofos Independentes (sem escola) – Henri
Bergson (1859-1941), Teillard de Chardin (1881-1955),
Vladimir Jankélévitch (1903-1985).
– Escola de Madri – Ortega y Gasset, Julian Marias
e Xavier Zubini.
Principais Períodos da Filosofia
ÉPOCA
FILOSOFIA
CARACTERÍSTICAS
PRINCIPAIS
REPRESENTANTES
do séc. VI a.C. ao séc.
VI d.C.
ANTIGA
- engloba a indagação filosófica e o
conhecimento científico;
- faz indagações sobre a natureza.
Sócrates
Platão
Aristóteles
do séc. I ao séc. VII
PATRÍSTICA
do séc. VIII ao séc. XIV
MEDIEVAL
do séc. XIV ao séc. XVI
RENASCENÇA
- acredita que a natureza é um
grande ser vivo, da qual o homem
faz parte;
- valorização da política;
- idéia do homem como artífice do
seu próprio destino.
Dante
Nicolau de Cusa
Giordano Bruno
Maquiavel
Tomas Morus
Kepler
Luis Vives
do séc. XVII a meados
do séc. XVIII
MODERNA
- reforma da ciência;
- grande racionalismo clássico;
- o foco passa a ser o intelecto do
homem.
Francis Bacon
Galileu
Descartes, Espinosa,
Tomas Hobbes, Leibniz
de meados do séc. XVIII
ao começo do séc. XIX
ILUSTRAÇÃO
de meados do séc. XIX
até nossos dias
CONTEMPORÂNEA
- filosofia dos Padres da Igreja;
- imposição das idéias cristãs.
- passou a ser ensinada na escola,
no séc. XII, como nome de
Escolástica;
- surge a Teologia;
- faz indagações sobre Deus.
- enfatiza a primazia da razão;
- o homem é um ser perfectível,
liberta-se dos preconceitos religiosos,
sociais e morais.
-
crítica da ciência;
positivismo;
neopositivismo;
pragmatismo;
racionalismo;
fenomenologia;
marxismo;
estruturalismo.
São Paulo, São João, Santo
Agostinho, outros padres e
santos
São Tomás de Aquino
Platão
Aristóteles
John Locke, Voltaire
Boyle, Newton
Rousseau, Kant,
Diderot, Schelling
Hegel, Hume
Henri Poincaré
Augusto Comte
John Dewey
Bertrand Russell
Edmund Husserl
Heidegger, Jaspers
Merleau-Pounty
Althusser
Michel Foucault
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Exercícios de Auto-Avaliação
Responda às questões:
1. Qual a importância do mito antigamente?
2. Como pode-se diminuir a influência ou eliminar o mito?
3. Cite e explique um fenômeno humano como mito, ritual e magia.
4. Quais as funções do mito atualmente?
5. Cite alguns filósofos do início do pensamento racional e diga qual era a idéia filosófica de cada um.
6. O que significa Logos?
7. Qual a idéia central da Filosofia na Idade Média?
8. Quais são as tendências filosóficas? Destaque seus precursores e os filósofos antigos que exerceram
influência sobre eles.
9. Qual a idéia central da filosofia moderna que acabou provocando a dessacralização da consciência, isto é,
a consciência humana deixou de ser sagrada?
10 - O que é Filosofia? Pesquise também no texto de Luckesi (1990: 22-23) e em Russell (1957, 1. p.XI),
constantes da bibliografia indicada, e escreva outros conceitos também.
11 - Qual a relação da ciência com a Filosofia?
12 - Quais são as principais características do pensamento filosófico?
13 - Qual a diferença entre Teologia e Ciência, segundo o texto de Bertrand Russell, no livro História da
Filosofia Ocidental. Trad. Brenno Silveira. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1957. 1. p. XI.?
14 - O que se entende por transcendência?
Leitura Complementar
Leia o texto abaixo e desenvolva uma crítica filosófica, procurando atender às exigências afirmadas por Demerval
Saviani (radical, rigorosa e de conjunto).
A FILOSOFIA NO MUNDO
Seja a filosofia o que for, está presente em nosso mundo e a ele necessariamente se refere.
Certo é que ela rompe os quadros do mundo para lançar-se ao infinito. Mas retorna ao finito para aí
encontrar seu fundamento histórico sempre original.
Certo é que tende aos horizontes mais remotos, a horizontes situados para além do mundo, a fim de ali
conseguir, no eterno, a experiência do presente. Contudo, nem mesmo a mais profunda meditação terá
sentido se não se relacionar à existência do homem, aqui e agora.
A filosofia entrevê os critérios últimos, a abóbada celeste das possibilidades e procura, à luz do aparentemente impossível, a via pela qual o homem poderá enobrecer-se em sua existência empírica.
A filosofia se dirige ao indivíduo. Dá lugar à livre comunidade dos que, movidos pelo desejo de verdade,
confiam uns nos outros. Quem se dedica a filosofar gostaria de ser admitido nessa comunidade. Ela está
sempre neste mundo, mas não poderia fazer-se instituição sob pena de sacrificar a liberdade de sua verdade.
O filósofo não pode saber se integrar à comunidade. Não há instância que decida admiti-lo ou recusá-lo. E
o filósofo deseja, pelo pensamento, viver de forma tal que a aceitação seja, em princípio, possível.
Mas como se põe o mundo em relação com a filosofia? Há cátedras de filosofia nas universidades. Atualmente
representam uma posição embaraçosa. Por força da tradição, a filosofia é polidamente respeitada, mas, no
fundo, objeto de desprezo. A opinião corrente é a de que a filosofia nada tem a dizer e carece de qualquer
utilidade prática. É nomeada em público, mas existirá realmente? Sua existência se prova, quando menos,
pelas medidas de defesa a que dá lugar.
A oposição se traduz em fórmulas como: a filosofia é demasiado complexa; não a compreendo; está além de
meu alcance; não tenho vocação para ela; e, portanto, não me diz respeito. Ora, isso equivale a dizer: é inútil
o interesse pelas questões fundamentais da vida; cabe abster-se de pensar no plano geral para mergulhar,
através de trabalho consciencioso, num capítulo qualquer de atividade prática ou intelectual; quanto ao
resto, bastará ter "opiniões" e contentar-se com elas.
A polêmica torna-se encarniçada. Um instinto vital, ignorado de si mesmo, odeia a filosofia. Ela é perigosa.
Se eu a compreendesse, teria de alterar minha vida. Adquiriria outro estado de espírito, veria as coisas a uma
claridade insólita, teria de rever meus juízos. Melhor é não pensar filosoficamente.
E surgem os detratores, que desejam substituir a obsoleta filosofia por algo de novo e totalmente diverso.
Ela é desprezada como produto final e mendaz de uma teologia falida. A insensatez das proposições dos
filósofos é ironizada. E a filosofia vê-se denunciada como instrumento servil de poderes políticos e outros.
Muitos políticos vêem facilitado seu nefasto trabalho pela ausência da filosofia. Massas e funcionários são
fáceis de manipular quando não pensam, mas tão-somente usam de uma inteligência de rebanho. É preciso
impedir que os homens se tornem sensatos. Mais vale, portanto, que a filosofia seja vista como algo entediante.
Oxalá desaparecessem as cátedras de filosofia. Quanto mais vaidades se ensinem, menos estarão os homens
arriscados a se deixar tocar pela luz da filosofia.
Assim, a filosofia se vê rodeada de inimigos, a maioria dos quais não tem consciência dessa condição. A
autocomplacência burguesa, os convencionalismos, o hábito de considerar o bem-estar material como razão suficiente de vida, o hábito de só apreciar a ciência em função de sua utilidade técnica, o ilimitado desejo de poder, a
bonomia dos políticos, o fanatismo das ideologia, a aspiração a um nome literário – tudo isso proclama a antifilosofia.
E os homens não os percebem porque não se dão conta do que estão fazendo. E permanecem inconscientes de que a
antifilosofia é uma filosofia, embora pervertida, que, se aprofundada, engendraria sua própria aniquilação.
O problema crucial é o seguinte: a filosofia busca a verdade nas múltiplas significações do ser-verdadeiro
segundo os modos do abrangente. Busca, mas não possui o significado e substância da verdade única. Para
nós, a verdade não é estática e definitiva, mas movimento incessante, que penetra no infinito.
No mundo, a verdade está em conflito perpétuo. A filosofia leva esse conflito ao extremo, porém o despe de
violência. Em suas relações com tudo quanto existe, o filósofo vê a verdade revelar-se a seus olhos, graças ao
intercâmbio com outros pensadores e ao processo que o torna transparente a si mesmo.
Quem se dedica à filosofia põe-se à procura do homem, escuta o que ele diz, observa o que ele faz e se interessa
por sua palavra e ação, desejo de partilhar, com seus concidadãos, do destino comum da humanidade.
Eis por que a filosofia não se transforma em credo. Está em contínua pugna consigo mesma.
JASPERS, Karl. Introdução ao Pensamento Filósofo. São Paulo: Cultrix, 1971. p. 138.
Relacione o texto abaixo com a situação do Brasil hoje e procure na literatura de mitologia existente o mito de
Hermes, fazendo comparações.
ATUALIDADE DA MITOLOGIA
Leandro Konder
Um dos deuses mais curiosos da mitologia grega era Hermes, que os romanos, mais tarde, chamariam de
Mercúrio. Hermes era filho de Zeus, o deus dos deuses, um marido inveteradamente infiel, que aprovava
qualquer descuido na vigilância de sua ciumentíssima esposa, a deusa Hera, para envolver-se em aventuras
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extraconjugais. Zeus teve um tórrido romance com a mais jovem das Plêiades, a adolescente Maia, e desse
romance nasceu Hermes.
Desde criança, Hermes se revelou um gênio da malandragem. Roubou 50 vacas de seu irmão Apolo, o deus
do Sol. Apolo, indignado, acusou o garoto perante o tribunal do Olimpo. Zeus interrogou o réu e ficou
impressionado com a cara-de-pau dele; apesar das provas que o incriminavam, o menino negou tudo, com
firmeza. O conflito só foi resolvido quando Hermes mostrou a Apolo dois instrumentos musicais que havia
inventado: a lira e a flauta. Em troca dos dois instrumentos, Apolo concordou em dar ao irmãozinho safado
não só todo o seu rebanho como também o seu cajado de ouro.
Hermes adorava afanar coisas dos outros. Tinha a volúpia da apropriação indébita. Furtou a espada de
Ares, o deus da guerra (aquele que os romanos chamariam de Marte). Furtou o tridente de Poseidon, o deus
das águas (aquele que os romanos chamariam de Netuno). E furtou o cinto de Afrodite, a deusa da beleza
(aquela que depois dos romanos passaria a ser a das camisinhas).
Como era um campeão da simpatia, Hermes acabava sempre sendo perdoado por suas vítimas e ficava
impune. A belíssima Afrodite, aliás, não só o desculpou como dormiu com ele e engravidou. Hermes era
ambíguo demais para se comprometer seriamente com alguém, por isso não permaneceu ligado à deusa da
beleza (que, diga-se de passagem, também era uma criatura de uma enorme ambigüidade: Efestos, Ares e
Adonis que o digam ...).
O filho do casal ambíguo nasceu, recebeu o nome de Hermafrodito e acabou tendo, ambiguamente, os dois
sexos reunidos na sua mesma pessoa.
Hermes gostava de se envolver em situações escusas, fazia trapaças, zombava dos trouxas. Agia, geralmente, à noite. Tinha notáveis habilidades de mágico e prestidigitador. Freqüentemente, infringia as leis.
Como no Olimpo o encarregado de aplicar as leis era Zeus, Hermes tratou de prestar serviços ao pai. Zeus
teve uma ligação extraconjugal com Sêmele, a moça pariu um filho, Dionísio, e Hera resolveu matar o bebê.
Coube a Hermes, a pedido do "juiz" prevaricador, salvar a vida do futuro deus do vinho (garantindo com isso
a gratidão do genitor e a cobertura do tribunal para suas falcatruas).
Zeus, retribuindo o favor, nomeou Hermes mensageiro dos deuses, encarregado da mediação entre o Olimpo
e o mundo dos homens.
Usando sandálias com asas, o menino se deslocava constantemente, com incrível velocidade, num movimento de ida e volta, entre os dois pólos. E aproveitava para aplicar em cada um deles as coisas que
aprendia no outro.
A experiência adquirida nesse intercâmbio tornou-o o deus do comércio, o influente protetor de todas as
malandragens mercantis. E, além disso, lhe permitiu desenvolver uma habilidade especial, um talento que
antes dele nenhum deus jamais tivera: a arte de embromar.
Hermes aperfeiçoou recursos eficientíssimos de retórica, criou um novo estilo de expressão. Temperava seu
discurso com malícia, com ironia, fazia insinuações graciosas, misturava verdades com mentiras.
Os deuses, a princípio, estranharam a novidade, acharam-na demasiado humana; pouco a pouco, entretanto, aderiram à moda e trocaram a fala direta e sincera pelas construções hábeis e sinuosas. Em vez de expor
idéias para um cotejo limpo com o pensamento alheio, passou-se a recorrer cada vez mais, na linguagem, aos
artifícios da sedução e ao brilho do engodo.
O objetivo do lucro mercantil suplantou qualquer preocupação com a justiça. O Olimpo não resistiu ao
descrédito provocado por essa mudança. Os deuses perderam a pouca credibilidade que lhes restava e
sumiram. O próprio Hermes desapareceu, nunca mais foi visto.
Consta, porém, que ele está vivo. E há mesmo quem diga que está morando no Brasil e ocupa cargos
importantes no aparelho de Estado.
KONDER, Leandro. A atualidade da mitologia. In. O Globo. Opinião 7, domingo, 7 de julho de 1996.
1 - Leia o capítulo I do livro Educação e Qualidade, de Pedro Demo, indicado na bibliografia, e reúna-se com
um ou mais colegas de seu curso para juntos responderem a estas perguntas:
a) Para onde vai a educação brasileira?
b) Que tipo de homem estamos formando?
c) Qual é a apreciação que vocês podem fazer sobre os textos apresentados? Escreva as conclusões do grupo.
d) Leia no livro: A História da Educação, de M.G. Rosa:
a) O texto de Aristóteles - p. 50-56;
b) O texto de Santo Agostinho - p. 103-106;
c) O texto de São Tomás de Aquino - p. 108-112;
d) O texto de Maquiavel - p. 119-122;
e) O texto de Descartes - p. 161-171;
f) O texto de Rousseau - p. 198-214;
g) O texto de Dewey - p. 298-306.
2 - Após a leitura desses textos, que representam cada época da Filosofia, trace um paralelo entre eles,
destacando semelhanças e diferenças. Caso seja possível, reúna-se com colegas e escrevam uma conclusão em
equipe.
3 - Explique duas diferenças entre o período medieval e o renascentista.
4 - Cite as três grandes mudanças intelectuais que caracterizaram o Grande Racionalismo Clássico.
5 - Que corrente filosófica afirma que "pela razão o homem pode conquistar a liberdade e a felicidade social e
política"?
6 - Leia o capítulo sobre Hegel no livro O mundo de Sofia, de Gaarder. Descubra qual foi a sua contribuição
para a Filosofia da Ilustração.
Sugestão de Leitura
GAARDER, Jostein. O Dia do Curinga. Tradução João Azenha Jr. São Paulo: Cia. Das Letras, 1996.
NEEDLEMAN, Jacob. O Coração da Filosofia. Tradução Júlio Fischer, São Paulo: Palas Athena, 1991.
Atividades Complementares
Leia O Mito da Caverna, de Platão, abaixo e responda às perguntas apresentadas no final do texto.
O MITO DA CAVERNA
Imaginemos uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração após geração, seres humanos estão
aprisionados. Suas pernas e seus pescoços estão algemados de tal modo que são forçados a permanecer
sempre no mesmo lugar e a olhar apenas para a frente, não podendo girar a cabeça nem para trás nem para
os lados. A entrada da caverna permite que alguma luz exterior ali penetre, de modo que se possa, na semiobscuridade, enxergar o que se passa no interior.
A luz que ali entra provém de uma imensa e alta fogueira externa. Entre ela e os prisioneiros – no exterior,
portanto – há um caminho ascendente ao longo do qual foi erguida uma mureta, como se fosse a parte
fronteira de um palco de marionetes. Ao longo dessa mureta-palco, homens transportam estatuetas de todo
tipo, com figuras de seres humanos, animais e todas as coisas.
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Por causa da luz da fogueira e da posição ocupada por ela, os prisioneiros enxergam na parede do fundo
da caverna as sombras das estatuetas transportadas, mas sem poderem ver as próprias estatuetas, nem os
homens que as transportam.
Como jamais viram outra coisa, os prisioneiros imaginam que as sombras vistas são as próprias coisas. Ou
seja, não podem saber que são sombras, nem podem saber que são imagens (estatuetas de coisas), nem que há
outros seres humanos reais fora da caverna. Também não podem saber que enxergam porque há a fogueira e
a luz no exterior e imaginam que toda a luminosidade possível é a que reina na caverna.
Que aconteceria, indaga Platão, se alguém libertasse os prisioneiros? Que faria um prisioneiro libertado?
Em primeiro lugar, olharia toda a caverna, veria os outros seres humanos, a mureta, as estatuetas e a
fogueira. Embora dolorido pelos anos de imobilidade, começaria a caminhar, dirigindo-se à entrada da
caverna e, deparando com o caminho ascendente, nele adentraria.
Num primeiro momento, ficaria completamente cego, pois a fogueira na verdade é a luz do sol e ele ficaria
inteiramente ofuscado por ela. Depois, acostumando-se com a claridade veria os homens que transportam as
estatuetas e, prosseguindo no caminho, enxergaria as próprias coisas, descobrindo que, durante toda a sua
vida, não vira senão sombras de imagens (as sombras das estátuetas projetadas no fundo da caverna) e que
somente agora está contemplando a própria realidade.
Libertado e conhecedor do mundo, o prisioneiro regressaria à caverna, ficaria desnorteado pela escuridão, contaria aos outros o que viu e tentaria libertá-los.
Que aconteceria nesse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, não acreditariam em suas palavras e, se não conseguissem silenciá-lo com suas caçoadas, tentariam fazê-lo espancando-o e, se mesmo
assim, ele teimasse em afirmar o que viu e os convidasse a sair da caverna, certamente acabariam por matálo. Mas, quem sabe, alguns poderiam ouvi-lo e, contra a vontade dos demais, também decidissem sair da
caverna rumo à realidade.
Responda com base na filosofia de Platão que se refere ao Mundo das Idéias:
1. O que é a caverna?
2. Que são as sombras das estatuetas?
3. Quem é o prisioneiro que se liberta e sai da caverna?
4. O que é a luz exterior do sol?
5. O que é o mundo exterior?
6. Qual o instrumento que liberta o o prisioneiro que saiu da caverna e com o qual ele deseja libertar os outros
prisioneiros?
7. O que é a visão do mundo real iluminado?
8. Por que os prisioneiros zombam, espacam e matam aquele que saiu da caverna?
Questão para refletir e responder de acordo com suas vivências:
De que forma você poderia interpretar na sua vida a Alegoria da Caverna?
- Procure assistir, caso tenha acesso, a pelo menos um dos filmes a seguir relacionados:
• O Pato Donald no Mundo da Matemática - de Walt Disney
• Em nome de Deus (História do filósofo Abelardo e Heloísa)
• O nome da Rosa (baseado no livro de Humberto Eco)
• Sonhos - de Akira Kurosawa (ver especialmente o último sonho)
• As Bruxas de Salém (final da Idade Média)
Em cada um procure uma relação com esse tópico estudado, discuta as conclusões com outras pessoas e
escreva para o tutor do curso.
- Leia no livro O Ponto de Mutação, de F. Capra, os textos: A máquina do mundo newtoniana (p. 49);
A concepção mecanicista da vida (p. 95).
Qual a contribuição de Descartes e de Newton para a visão de mundo atual? Envie para o seu tutor avaliar.
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UNIDADE II
AS DIMENSÕES FILOSÓFICAS DO HOMEM
A reflexão filosófica brota da realidade histórica e
cultural, da situação concreta em que vivemos e nesta
deve repercutir contribuindo, assim, juntamente com
outras “ferramentas”, para a transformação da
realidade, no sentido de propiciar mediante um
postura crítica, as intervenções necessárias, graças
à dialética reflexão/ação sem a qual o pensamento é
estéril e a ação, cega.
2.1. O que é o Homem: Sua Hominização
A civilização do conhecimento, da ciência e da tecnologia
agoniza, pede socorro diante do cenário de violência e
barbárie que se instala nos corações dos homens. Este é o
grande paradoxo. Esses mesmos homens capazes de
desenvolvimento científico e tecnológico surpreendentes,
mergulhados no individualismo exacerbado, caminham
cegamente para a morte.
Acreditando-se superior aos demais seres do planeta,
devido a sua capacidade de raciocínio, o homem
transforma, deforma, constrói, destrói, impregnando
marcas no mundo que acredita comandar. No entanto,
esse ser que levado pela racionalidade tecnicista esquece
que é parte integrante da natureza e não o seu dono, vêse diante de um mundo destituído dos valores éticos que
sustentam o humano. Levados pela ambição e poder
desmedidos, o homem ignora os sinais de alerta que a
natureza – planeta Gaia – vem proporcionando como
“respostas” aos seus desmandos e irresponsabilidades.
Filósofos e estudiosos como Morin, entre outros
protagonistas da transição dos séculos XX e XXI, têm
buscado em literatura dos grandes clássicos os
embasamentos para suas teorias, clamando pela urgência,
pela complexidade, pela interdependência homem/
natureza/ciência/vida, num grito ao mesmo tempo de
denúncia e de esperança.
2.2. A Essência do Fenômeno Humano
Teorias Dualistas
IDEALISMO
No sentido gnosiológico (ou epistemológico) o termo foi empregado pela primeira vez por Wollf: “Denominam-se idealistas, diz ele, aqueles que admitem
que os corpos têm somente uma existência ideal, em
nossos ânimos, e por isso negam a existência real
dos próprios corpos e do mundo” (ABBAGNAMO,
1970: 498).
PLATÔNICO – PLATÃO (428-347 a.C.)
“Doutrina das idéias segundo a qual são objetos
do conhecimento científico entidades ou valores que
têm um status diverso do das coisas naturais e caracterizado pela unidade e pela imutabilidade. Com
base nesta doutrina, o conhecimento sensível, que
tem por objeto as coisas na sua multiplicidade e
mutabilidade, não tem o mínimo valor de verdade e
pode somente obstacular à aquisição do conhecimento autêntico” (Ibidem: 734).
“O verdadeiro conhecimento, a epistéme (ciência), é
aquele pelo qual a razão ultrapassa o mundo sensível
e atinge o mundo das idéias, lugar das essências imutáveis de todas as coisas, dos verdadeiros modelos
(arquétipos)” (ARANHA e MARTINS, 1993: 136).
AGOSTINIANO – SANTO AGOSTINHO (354-430)
Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona. Em
sua obra “A Cidade de Deus”, o filósofo afirma a
coexistência dos dois planos de existência: “a
Cidade de Deus” e a “Cidade Terrestre”. “Para Santo
Agostinho, a relação entre as duas dimensões é de
ligação e não de oposição, mas a repercussão do
seu pensamento, à revelia do autor, desemboca na
doutrina chamada Agostinismo político, que marca
toda a Idade Média e significa o confronto entre o
poder do Estado e o da Igreja, considerando a
superioridade do poder espiritual sobre o temporal”
(Ibidem: 200).
CARTESIANO – DESCARTES (1596-1650)
“O ponto de partida é a busca de uma verdade
primeira que não possa ser posta em dúvida. Por isso,
converte a dúvida em método. Começa duvidando
de tudo, das afirmações do senso comum, dos
argumentos da autoridade, do testemunho dos
sentidos, das informações da consciência, das
verdades deduzidas pelo reciocínio, da realidade do
mundo exterior e da realidade do seu próprio corpo
[...]. O racionalismo é o sistema que consiste em limitar
o homem ao âmbito da própria razão [...]. O
racionalismo exclue a experiência sensível, mas esta
é apenas a ocasião do conhecimento e está sujeita a
enganos. A verdadeira ciência se perfaz no espírito”
(Ibidem: 104).
Uma das conseqüências do racionalismo cartesiano
“é o dualismo psicofísico (ou a dicotomia corpoconsciência), segundo o qual o homem é um ser duplo,
composto de uma substância pensante e uma
substância extensa” (Ibidem: 105).
REALISMO
“A palavra começou a ser usada por volta do fim do
século XV para indicar a orientação mais antiga da
Escolástica em oposição à orientação chamada
“moderna” dos nominalistas ou terminalistas.[...] No
sentido mais geral e moderno, o Realismo tem sido
qualificado e definido das maneiras mais diferentes: e
quase sempre, as doutrinas que o adotaram como lema
qualificaram também como realistas as doutrinas do
passado que coincidiam com seus pontos de vista
(ABBAGNAMO, op. cit.: 802).
“Concepção filosófica segundo a qual existe uma
realidade exterior, determinada, autônoma,
independente do conhecimento que se pode ter sobre
ela. O conhecimento verdadeiro, na perspectiva
realista, seria então a coincidência ou correspondência
entre nossos juízos e essa realidade” (JAPIASSU e
MARCONDES, op. cit.: 210).
ARISTOTÉLICO – ARISTÓTELES (384-322 a.C.)
“Afirma que é possível conhecer o que é o real
concreto e mutável por meio das definições e
conceitos que permanecem inalterados. Basta que
para isso seja estabelecido previamente o que importa
ser conhecido acerca do ser, distinguindo-o daquilo
que pode ser deixado de lado por ser meramente
ocasional, factual ou acidental.
Para Aristóteles, a filosofia implica o abandono do
senso comum e o despertar da consciência crítica que
tem uma função libertadora para o homem. O abandono
do senso comum se dá em virtude do espanto (pathos),
e este é a origem do filosofar” (REZENDE, 1998: 58).
MARXISMO - KARL MARX (1818-1883)
“Marx e Engels formularam seu pensamento a partir da
realidade social por eles observadas: de um lado, o avanço
técnico, o aumento do poder do homem sobre a natureza,
o enriquecimento e o progresso; de outro, e contrariamente,
a escravidão crescente da classe operária, cada vez mais
empobrecida. Para a elaboração de sua doutrina, partiram
da leitura dos economistas ingleses (Adam Smith e David
Ricardo), da filosofia de Hegel (o conceito de dialética e
uma nova concepção de história) e dos filósofos do
socialismo utópico. A teoria marxista compõe-se de uma
teoria científica, o materialismo histórico, e de uma filosofia,
o materialismo dialético.O materialismo dialético parte da
consideração de que os fenômenos materiais são
processos. O mundo não é uma realidade estática, não é
um relógio, um mecanismo regulado pelo “divino
relojoeiro”, mas é uma realidade dinâmica, é um complexo
de processos. Por isso, a abordagem da realidade só pode
ser feita de maneira dialética, que considera as coisas na
sua dependência recíproca, e não linear” (ARANHA e
MARTINS, 1989: 240).
Teorias Unicistas
A visão unicista parte da conceituação centrada na
totalidade – ou Cosmos –, constitui nitidamente o
embrião de uma nova abordagem de ciência. Para tanto,
ela fundamenta-se, de um lado, na crítica e no estudo
sistemático dos conceitos de ciência que a
antecederam, de outro lado, no retorno às tradições
espirituais como requisito necessário à aquisição de
uma abordagem holística do real.
O extremo sentimento de mal-estar que muitas pessoas
sentem diante dos complexos e trágicos problemas da
atualidade tem levado a uma busca de um diálogo entre
os vários núcleos do saber e da atividade humana. Por
exemplo, temos a ONU e a Unesco como grandes
organizações internacionais que buscam uma maneira
conjunta de solucionar muitos dos atuais problemas
humanos, sem falar nos movimentos de encontro
interdisciplinares e a busca pela ação cooperativa em
todos os âmbitos, a medicina psicossomática e
homeopática e a abordagem holística em psicoterapia,
etc. É a essa busca de uma visão de conjunto, uma
visão do TODO – que possui características próprias
independentes das características de suas partes
constituintes, como o todo humano possui
características próprias da de seus órgãos e tecidos –,
que se dá o nome de holismo.
FENOMENOLOGIA – EDMUND HUSSERL
(1859-1938)
“A fenomenologia é o método e a filosofia fornece
os conceitos básicos para a reflexão existencialista [...].
O postulado básico da fenomenologia é a noção de
intencionalidade, pela qual se considera que toda
consciência é intencional, tende para algo fora de si”
(Idem, 1993: 304).
“A fenomenologia propõe a superação da dicotomia,
afirmando que toda consciência é intencional. Isso
significa que não há pura consciência, separada do
mundo, mas toda consciência tende para o mundo. Da
mesma forma, não há objeto em si, independente de
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uma consciência que o perceba. Portanto, o objeto é
um fenômeno, ou seja, etimologicamente, ‘algo que
aparece’ para uma consciência” (Idem, 1989: 123).
Pelo engajamento, a liberdade deixa de ser apenas
imaginária e passa a estar situada e comprometida
na ação.
EXISTENCIALISMO – SARTRE (1905-1980) –
HEIDEGGER (1889-1976)
O existencialismo é uma moral da ação, porque
considera que a única coisa que define o homem é o
seu ato. Ato livre por excelência, mesmo que o homem
sempre esteja situado num determinado tempo ou
lugar. Não importa o que as circunstâncias fazem do
homem, ‘mas o que ele faz do que fizeram dele’”
(Ibidem: 305-06).
“Segundo o existencialismo, a noção de engajamento
significa a necessidade de um determinado pensador
estar voltado para a análise da situação concreta em
que vive, tornando-se solidário nos acontecimentos
sociais e políticos de seu tempo.
2.3. A Complexidade Humana
Morin, em seu livro, Cabeça Bem-Feita (2001: 14),
afirma que “ [...] a inteligência que só sabe separar,
fragmenta o complexo do mundo em pedaços
separados,
fraciona
os
problemas,
unidimensionaliza o multidimensional. Atrofia as
possibilidades de compreensão e de reflexão,
eliminando assim as oportunidades de um
julgamento corretivo ou de uma visão a longo
prazo.” Esse pensamento moriniano procura
levantar uma crítica ao reducionismo das ciências
advindo do racionalismo cartesiano e reforçado
pelo positivismo comteano. Possibilita um repensar
da história do homem que, impedido de
compreender a si próprio pela luz do paradigma
cientificista, vê-se mergulhado na angústia e na
impotência. O Ser do Homem deixa de ser o objetivo
e o fim tornando-se o meio, e a técnica predomina
sobre o Ser.
Descrevendo em seu livro, A barbárie interior,
ensaio sobre o i-mundo moderno, Jean François
Mattei (2002), filósofo e político, expõe idéias
que podem ser ilustradas por muitos dos
acontecimentos dos dias atuais:
A civilização, portanto, distrair-se-á novamente, à
imagem do homem carrasco de si mesmo de Baudelaire,
no retorno incansável de seu próprio tormento, para
renascer em seguida de suas cinzas e recomeçar ad
nauseam, sendo a civilização e a barbárie as duas
máscaras, adversárias e cúmplices, de uma única e
mesma humanidade (MATTÉI, 2002: 47).
Esse pessimismo a que se refere Mattéi, diz
respeito às inquietudes de Schiller e Goethe,
Victor Hugo e Flaubert, Baudelaire e Poe, quando
refletem com olhares críticos o seu tempo, o
século XIX. Hoje é preciso manter-se firme,
agarrado à caixinha de Pandora, para não se
deixar levar pela desesperança, em virtude dos
acontecimentos que denunciam que o homem
está vivendo a barbárie da modernidade.
2.4. Corporeidade do Pensamento Filosófico
Merleau-Ponty (1994: 122) afirma que “o corpo é o
veículo do ser no mundo, e ter um corpo é, para um ser
vivo, juntar-se a um meio definido, confundir-se com
certos projetos e empenhar-se continuamente neles”.
A visão pontyana entende o homem na unicidade,
vendo nessa totalidade um caminho claro do espírito
para a visão holística.
A análise do comportamento e conduta motora
deixa claro que os envolvimentos do ser humano e
seu corpo formam uma mesma realidade e não se
pode fragmentá-los em partes distintas, senão correse o risco de não dar conta das significações que
envolvem o ser humano e sua vivência. MerleauPonty afirma, em seu livro Fenomenologia da
Percepção (1994), que a corporeidade inaugura o serno-mundo e incorpora o mundo no ser.
Tanto os platônicos como os aristotélicos sustentam
que a alma seja mais perfeita que o corpo e que exerça
sobre ele uma atividade causal. Logicamente,
concentram suas atenções sobretudo na alma.
O método de investigação do Corpo:
A aplicação da distinção entre método científico e método
“experencial” para o estudo do corpo deu origem a duas
considerações diferentes do fenômeno corporeidade.
• A consideração científica, a qual estuda o corpocoisa, o corpo objeto, o corpo situado no mundo, o
corpo como se manifesta aos outros;
• A consideração fenomenológica, que estuda o
próprio corpo como é sentido, vivido.
Funções da Corporeidade
• “Função Mundanizante – é por obra do corpo que o
homem faz parte do mundo; ele se reconhece constituído
dos mesmos elementos do mundo, sujeito às mesmas
sortes e às leis, por causa do seu corpo. Graças aos
estudos dos existencialistas Heidegger, Sartre, MerleauPonty, o corpo adquiriu nova clareza e profundidade.
• Função Epistemológica – a somacidade é, antes de
tudo, instrumento necessário para uma autoconsciência.
Devido à sua subjetividade e à sua objetividade
inseparáveis, meu corpo é mediador entre o meu “ Eu”
e o mundo das coisas, lugar de encontro entre minha
consciência e o universo dos objetos. Como é preciso
esquecer o corpo, segundo Descartes, para poder repelir
o mundo, assim basta reconhecer a experiência vivida
pelo corpo para superar o dualismo sujeito-objeto e
todos os impasses do idealismo.
• Função Econômica – apenas aquilo com que posso
entrar em contacto por meio do meu corpo pode ser por
mim reclamado como meu. Órgão específico da função
econômica como também mundanizante é a mão: é com
ela que nós tomamos posse das coisas, e é também com
a mão que nós moldamos e transformamos as coisas.
• Função Ascética – nosso corpo é diretamente
envolvido, seja nas suas boas ações como nas más,
seja nos vícios como nas virtudes” (MONDIN, 1980:
passim 27-42).
Exercícios de Auto-Avaliação
1 - Quais as maiores dificuldades de compreender a natureza humana atualmente?
2 - Quais as influências das concepções dualistas e unicistas diante da compreensão do Homem?
3 - Quais são as principais características das visões dualista e unicista?
Leitura Complementar
TRECHO DO TEXTO: O CORPO E AS PALAVRAS
(Rubem Alves)
Continuei então as minhas reflexões e me pus a perguntar sobre os mundos e os corpos que se escondem
neste discurso que fala sobre a educação física... Que melodias esta prática arranca deste órgão mágico que
se chama corpo? Que valores se celebram? Que visões de amor? Ah! É certo que ela está cheia de "sinais
astrais" e de sonhos... Há atos de bruxedo a serem realizados e corpos que precisam ser transformados: que
eles deixem de ser o que seriam para serem coisas diferentes. Senão esta palavra educação não teria sentido
algum. Confesso que tenho medo de dizer qualquer coisa porque não pude ainda nem ler os textos sagrados
desta religião e nem examinar os seus catecismos, aqueles lugares em que os seus sinais astrais e os seus
sonhos são ditos com todas as letras. Conheço apenas os seus grandes momentos de celebração pública e de
entusiasmo coletivo em que os corpos, os melhores, aqueles que atingiram os mais altos graus de excelência,
se apresentam para os rituais supremos e para a admiração pública. Será isto? Será que, por acaso, a
verdade da educação física se revelará, em toda a sua força e fascínio, nestes eventos litúrgicos? Litúrgicos?
É. Porque qualquer um que deles já participou ou que simplesmente os contemplou conhece das emoções,
dos risos e das lágrimas, e aqueles que sobem no pódium bem que se sentem muito próximos dos deuses... E
como são invejados e admirados...
Pensei nas Olimpíadas, festival supremo de uma educação implacável do corpo, que chegou à inacreditável
sofisticação de medir as diferenças por centésimos de segundo. E aí, olhando para o relógio, começamos a
compreender algo que pertence a estes sonhos (ou serão pesadelos?): o corpo que luta contra o tempo...
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As que mais me impressionavam eram as nadadoras, não sei explicar porque: aqueles corpos sobre-humanos, repetições sem fim dos mesmos movimentos, milhares de horas de disciplina e de abstenções, nervos,
fibras, músculos, tudo num único propósito, aquele centésimo de segundo que faria toda a diferença deste
mundo, cérebros esquecidos de tudo o mais, concentração total, como se o mundo tivesse apagado, e ao
disparo da arma os corpos também seriam disparados. Afinal de contas para aquele momento que tinham
sido armados através de anos, quanto mais depressa melhor.
E corpos contra as águas: luta contra o tempo, os números que corriam depressa demais para que os olhos
pudessem perceber a diferença.
E me pus então a perguntar sobre a razão de tudo aquilo, que é que se podia fazer com um centésimo de
segundo. Me lembrei daquele estranho vendedor de pílulas contra a sede, do pequeno príncipe. Vendia
pílulas que acabavam com a sede e assim as pessoas podiam economizar todo o tempo que gastavam, cada
dia, indo ao filtro. Todos os minutos somados, ao fim do mês chegariam a uma hora. E mostrava as estatísticas. E foi então que o Princepezinho meditou que, se tivesse uma hora à disposição, para fazer dela o que
quisesse, poria as mãos no bolso e iria tranqüilamente até a fonte, beber água... Pois é, o vendedor não me
parece agora tão tolo porque, afinal de contas, há alguma coisa que se pode fazer neste tempo que se
economiza: ir até a fonte... Mas continuo sem saber o que se pode fazer com um centésimo de segundo. Para
um beijo não chega, e nem para um gole de vinho. Também não é suficiente para se cheirar uma flor, e nem
mesmo para se dizer "amor". Mas é certo que deve haver algo que se possa fazer com ele. Se não, não se
compreenderia tanto esforço, e a alegria daquela que conquista o tal centésimo de segundo, e a tristeza de
todas as outras, que o deixaram escapar. Quem diria que, num centésimo de segundo está toda a diferença
deste mundo...
Diziam que ali se encontravam as melhores nadadoras do mundo e me pus a perguntar-me se nadar era
aquilo que eu estava vendo, luta contra a água... Tão diferente das crianças que vejo sempre, brincando com
a água, ali, diante dos meus olhos, no vídeo da TV, oferecida à admiração do mundo inteiro, uma luta
olímpica. A água era a inimiga que precisava ser vencida. Cada movimento de corpo era um gesto de lutador,
cujo único objetivo era conquistar a resistência da massa líquida. E era só por isto que todas estavam tão
sérias, ninguém brincava em serviço, o gostoso não estava na travessia, no evento mesmo de nadar. Era
preciso chegar ao fim, olhar primeiro para os números eletrônicos, somente eles dariam a permissão para o
riso. Pode rir quem ficou menos com a água, quem a derrotou mais depressa. E era só pra isto que servia o tal
centésimo...
É, tão diferente das crianças, pra quem a água é parceira num jogo de amor, e nadar é ficar com ela o maior
tempo possível... Para as nadadoras cada braçada era um meio apenas para se atingir um fim, que se
encontra ao final... Já para as crianças cada braçada é um abraço, experiência de prazer, um fim em si
mesmo. Não, a água não é resistência a ser vencida, é companheira de traquinagens...
E as nadadoras sérias e as crianças brincantes de repente se transformaram em parábola, porque percebi
que é isto mesmo que fazemos com a escola. Também a escola vive sob a tirania do relógio: todos os "adágios"
devem ser trocados "pretíssimo". É melhor se ouvir o disco de 33 rotações em 78: economiza-se tempo. E
existe sempre a leitura dinâmica para se vencer a poesia. Se se pode almoçar em 5 minutos, por que gastar
uma hora? Se se pode ter um orgasmo em um minuto por que gastar a noite? Há outras coisas a se fazer...
Depois foi aquela corredora, ao fim da maratona, o público num delírio de excitação, o corpo todo contorcido, já não mais se reconhecendo a si mesmo, incapaz de obedecer às ordens que vinham do cérebro (se é
que o cérebro, num corpo tão torturado, ainda era capaz de pensar), prefiro pensar em feitiço, corpo enfeitiçado por anos de treinamento, educação física, os locutores louvando aquele exemplo de espírito desportivo,
sonâmbulos incapazes de ver o horror/terror daquilo que acontecia bem diante dos seus olhos, expressão
suprema de espírito militar, o corpo deve esquecer de si mesmo e não é só isto: lá estava um corpo torturado
que pedia misericórdia, que pedia o fim, o descanso. Mas não, ele fora educado para se ultrapassar. E,
silenciosamente, dentro das carnes daquela corredora, antigas lições eram repetidas: "O corpo precisa ser
ultrapassado, o corpo precisa ser ultrapassado. O que importa é fazer com que o corpo obedeça..." A voz do
corpo: silenciada. Não mais ouvida. Transformado de texto, com uma sabedoria, em simples meio para se
atingir um fim. Um centésimo de segundo. Um centímetro a mais. Educação física: morte do corpo? Fiquei
pensando que aquela moça, na véspera, havia tido sonhos sobre sua entrada no estádio. Talvez ela não
sonhasse com o primeiro lugar. Mas teria sonhado, pelo menos, com a beleza, o prazer do entusiasmo
religioso, a elegância de gazela. E ela se teria visto, nos seus sonhos, e teria sorrido de prazer pensando que,
talvez, haveria de contar isto aos seus filhos. Mas lá estava ela: o corpo que não era mais corpo, um
amontoado de nervos e músculos contorcidos, como se estivessem saindo de uma câmara de tortura. E
imagino o que ela teria sentido, quando, talvez no dia seguinte, tivesse visto a repetição daquela cena, nos
vídeos de televisão. É certo que deve ter chorado amargamente e desejado morrer...
E as outras coisas?
Quanto a mim, valorizo o sono tranqüilo, coisa que nunca se celebrou em Olimpíadas mas que deveria ser
um dos direitos universais dos seres humanos. Poucas pessoas, neste mundo, irão jamais correr os cem
metros rasos, mas todos temos de dormir... Mas não me consta que as coisas relativas ao dormir bem se
encontrem nos currículos de educação física. Talvez porque não se considere que o corpo dormindo seja
corpo. A capacidade para o ócio e a preguiça, como os gatos... Mas numa sociedade toda ela voltada para
a competição e a produção, é certo que o fazer nada deve ser banido do rol das virtudes a serem cultivadas. Ele não é bom para a economia. O brinquedo, a alegria da travessia... Porque parece que, nos
catecismos da educação física, tais como aparecem nas celebrações Olímpicas, a travessia não vale nada,
só vale mesmo a chegada. O prazer não está na ação. O que vale, mesmo, é quando se chega ao pódium.
Também nunca vi nada que se relacione, ainda que de longe, à educação para o amor. E haverá coisa mais
importante? Amar é coisa que tem a ver com o corpo, corpo que sabe se entregar, que sabe ser brinquedo,
que sabe brincar. Mas parece que isto, que tem a ver com a nossa felicidade, ainda não foi elevado à
dignidade de coisa a merecer um lugar em nossa educação do corpo. O que será, talvez, providencial.
Porque no dia em que o amor se transformar em objeto de práticas educativas é bem possível que comece
a haver olimpíadas de amor, e é possível que os amantes fiquem parecidos com aquelas nadadoras e
aquela corredora: ganha quem terminar primeiro... Há também a educação dos sentidos. Lembro-me de
que uma das críticas que Marx fazia ao capitalismo tinha a ver justamente com isto. O capitalismo é uma
educação do corpo: o corpo que é ensinado a esquecer todos os seus sentidos eróticos e que se transforma
no local de um sentido apenas: o sentido de posse. Saber ver, saber ouvir, saber sentir cheiros, saber sentir
gostos, saber sentir na pele: mas onde se encontra, em nossos currículos de educação física, o despertamento
dos nossos sentidos eróticos?
O que está em jogo são duas maneiras diferentes de ver o corpo: num caso, corpo que é simples meio e que
é treinado para se transformar num instrumento de luta contra o tempo e contra o espaço. Uma corrida é luta
contra o tempo. Já um salto é luta contra o espaço. Num outro, o corpo é reconciliado com o espaço e o
tempo, e que não deseja vencê-los mas apenas usufruí-los. Quem não está em paz com o tempo e o espaço não
pode dormir bem...
Tenho medo das Olimpíadas. Não por elas mesmas, mas pelos sonhos que elas lançam sobre todos aqueles
que se movem no mundo da "educação física". Seu fascínio é grande. Seu poder de feitiço é imenso. E sua
aura divina quase irresistível... Gostaria que houvesse outros festivais em que a luta contra o tempo e contra
o espaço fossem substituídas pelo prazer da travessia. É, gostaria de acreditar que a educação física está em
paz com o corpo, que ela não deseja transformá-lo em puro meio para fins olímpicos (por pequenos que
sejam), mas que tratasse de cuidar dele como coisa bela que deseja reaprender a esquecida arte de brincar
(e de ser feliz)...
BRUHNS, H. T. (org.). Conversando sobre o corpo. 5 ed. Campinas: Papirus, 1984. (pp. 17-42)
http://www.unb.br/fef/downloads/ronaldo/trecho_corpo_e_as_palavras.doc. Acesso em 07/01/2006 às 22:29
Após a leitura desse texto procure desenvolver uma análise crítica, procurando relacionar as idéias do conteúdo programático e o texto de Rubem Alves. Em seguida envie ao seu tutor.
Leia o texto apresentado abaixo e faça uma análise sobre a questão de quem é o homem.
JUSTOS E SOLITÁRIOS: A ÉTICA DO NOVO MILÊNIO
Dom Paulo Evaristo Arns*
Milhões de desempregados tecnológicos, grupos indígenas e imensas massas de camponeses sem-terra
procuram organizar-se para que sua dramática situação ganhe destaque na mídia. Sabem que se não despontarem na televisão não existirão, para seu governo e para seus irmãos de raça e cultura.
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Durante o processo de globalização econômica, podemos falar em democratização do emprego? A revolução tecnológica excluirá os trabalhadores, salvando apenas os políticos? Trabalhadores, sindicalistas e
aposentados se perguntam se valerá a pena participar do Nafta, do Mercosul, se o preço a pagar por esta
inserção for a miséria de milhões e o fracasso da pequena propriedade agrícola e do trabalho local. Outros
se perguntam se podemos ficar à margem deste processo.
Quem produzirá o pão-nosso-de-cada-dia, se a solidariedade for trocada por competitividade? Quem pode
chamar a Deus de Pai, se não partilhar com quem está a seu lado como irmão? Como ser justos e solidários
na política e na vida cotidiana? Quem olhará nossos índios e crianças?
Vozes do poder econômico propõem "desregulamentação", "flexibilização", propugnando o fim dos sindicatos e dos direitos sociais pela criação de "aposentadorias privatizadas".
A questão política do emprego de milhões de latino-americanos é hoje crucial. Ela é a pedra-de-toque da
justiça social. Esta é a questão real que desmascara discursos e ideologias. O Brasil precisa sair urgentemente da onda neoliberal e entrar na era da liberdade e do respeito à pessoa humana.
Jovens vivem a questão estratégica do emprego como o futuro de suas vidas e esta, não resolvida, torna-se
porta aberta para as gangues, drogas e violência urbana crescente. Os com mais de 40 anos, quer trabalhadores de alta, quer trabalhadores de baixa qualificação profissional, permanecem invisíveis às estatísticas
oficiais, mas despontam como a questão explosiva para os próximos anos. Haverá ou não emprego para as
maiorias? Tecnologia e democracia podem rimar? Planos econômicos devem estar sujeitos a que critérios
éticos e sociais?
O dilema brasileiro, hoje, reside no binômio subdesenvolvimento e injustiça, mas funda-se na falta de
projetos amplos e democráticos para construir uma nação solidária, justa e participante. Projetos que
incluam a todos e que responsabilizem grupos, empresas e governos. Miséria se resolve com trabalho e
justiça. Mas um país se constrói com cidadania, educação e saúde co-participadas.
Na cartilha neoliberal o que importa é a mercadoria. Querem que fiquemos de joelhos diante das "leis invisíveis da
economia" que se tornou divina. O ajuste monetário é apresentado como fonte de imortalidade do modelo. As
condições de saúde e educação ainda não estão no centro das políticas públicas. A mercadoria tem se subjetivado
e o homem vai sendo coisificado. Vozes democráticas têm bradado aos céus e procurado desmascarar esta ideologia
mortífera.
É preciso construir uma economia com coração, alma e corpos sadios. É preciso que a ordem econômica
seja decidida pelos que trabalham e também pelos excluídos do trabalho. Venceremos a injustiça se não nos
submetermos às leis "invisíveis" do mercado e de suas bolsas de valores. Outros são os valores que nos
norteiam e podem gerar um novo país.
Antes de pensar em reeleições, nossos governantes deveriam resolver urgências estruturais, tais como: a
escravidão da mão-de-obra de milhares de pessoas da América Latina, particularmente no campo e nas
minas do Brasil. Em 1995 foram descobertas 26.047 pessoas em regime de escravidão no Brasil. O índice,
segundo a Comissão Pastoral da Terra, em 1994, era de 25.193 pessoas. Portanto, cada ano o número
aumenta. Vale lembrar que a maioria são crianças, ainda lutando para ser gente.
A fome e a exclusão que atingem atualmente milhões de pessoas vêm sendo reforçadas pelo arrocho salarial
e pelo desemprego tecnológico. Enquanto a produtividade no Brasil cresceu, em um ano, 15,7%, a renda
cresceu somente 1,85%. Isto é mau sinal. A garantia de condições de vida digna para os desempregados é
crucial, pois já afirmara o presidente Franklin D. Roosevelt: "Homens necessitados não são homens livres".
Em cada pessoa humana deste imenso e rico país, vemos a imagem única de Deus e um sujeito construtor da
democracia. Esta pessoa exige não só justiça, mas solidariedade e respeito aos seus valores e suas
potencialidades. Crer no brasileiro, ouvi-lo e promovê-lo, eis a tarefa desta virada de milênio. Crendo nos
homens e mulheres poderemos viver um novo tempo. Neste final de milênio, precisamos democratizar trabalho, ética e justiça. Mas voltando os sonhos de uma pátria de irmãos dispostos a construí-la em mutirão.
(In. Jornal do Brasil, 1º Caderno, 07/01/97, p.9)
*Cardeal-arcebispo de São Paulo
Sugestão de Leitura
MONDIN, Battista. O Homem, quem é ele? elementos de antropologia filosófica. São Paulo: Paulus, 1980. pp. 27 - 42.
MORIN, E. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. 3 ed. Tradução Eloá Jacobina.
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.
MORIN, E. O enigma do homem: uma nova antropologia. 2 ed. São Paulo: Zahar, 1979.
Após essas leituras, construa um texto próprio procurando definir a dimensão filosófica do homem, podendo
inclusive utilizar citações dessas obras. Isso permitir-lhe-á o crescimento intelectual, o domínio da linguagem
científico-acadêmica e a autonomia necessária ao estudante.
Sugestão de Filme
– O Ovo da Serpente (1977). Direção Ingmar Bergman. Reconstrói a Alemanha dos anos 30, tendo como pano
de fundo a ascensão do nazismo. Enfoca sobretudo a desumanização do homem.
– O Discreto Charme da Burguesia (1972). Direção Luis Buñuel. Crítica inteligente às classes do mundo
contemporâneo.
– A Ilha (2005). Direção Michael Bay. A história sobre clones humanos criada pelos roteiristas parece estar
reciclando diversas ficções científicas.
Atividades Complementares
A receita transcrita abaixo foi uma das atividades de alunos do curso de Pós-graduação em Psicopedagogia.
A partir de sua leitura analítica, procure você construir uma poesia e descubra a dimensão poética que tem todo
ser humano. Sucesso!!!
RECEITA DE HOMEM
Fernanda Carvalho da Silva (Aluna do curso de Psicopedagogia da Associação Educacional Dom Bosco)
• INGREDIENTES
3 xícaras de evolução (e espécie de macaco, ou seja, um mamífero de luxo, de cérebro diferenciado (com
movimento de pinça, etc.);
2 colheres de desenvolvimento da linguagem;
3 colheres bem cheias de desejo;
3 copos de razão;
2 porções de liberdade;
1 pitada de maldade;
3 xícaras de vida.
• MODO DE PREPARO
Misture 3 xícaras de evolução, 2 colheres com o desenvolvimento da linguagem. Bata bem. Acrescente na
massa 3 colheres bem cheias de desejo e misture com 3 copos de razão. Acrescente 2 porções de liberdade bem
picadas. Salpique uma pitada de maldade (esta faz a diferença em toda a massa).
Observação:
É preciso ter cuidado com a pitada de maldade porque pode fermentar toda a massa.
Pode gerar todo tipo de violência (guerra, contendas, ambição, ódio).
Misture 3 xícaras de vida e bata bem.
Deixe descansar durante milhões de anos até alterar a forma e a cor. Pré aqueça em locais diferentes, para obter
diferenças de raças e etnias (até chegar ao homem homo sapiens).
Leve ao forno do tempo.
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• RECHEIO
– INGREDIENTES
2 colheres da própria massa;
3 xícaras de desejo de aprender e transformar;
Amor (a gosto);
3 copos de alegria;
2 porções de amizade;
4 colheres de felicidade;
10 gotas de carinho;
Floquinhos de encantamento.
• MODO DE PREPARO
Reserve 2 colheres da própria massa e acrescente 3 xícaras de desejo de aprender e de transformar.
Acrescente Amor o tanto que desejar, 3 copos de Alegria bem cheios, misture bem até obter uma massa
homogênea, reserve.
Numa tigela separada, bata a amizade até ficar esbranquiçada com a cor da paz. Misture com toda a massa e
acrescente 4 colheres de felicidade até chegar ao ponto da solidariedade. Acrescente 10 gotas de carinho e
misture com floquinhos de encantamento, leve ao fogo do coração até obter o ponto da esperança.
• COBERTURA (PÓS-MODERNA)
2 copos cheios de linguagem e direitos humanos. Acrescente 2 gotas de discernimento, misture com 2 xícaras
de globalização e bata bem.
Misture toda a massa com 1 colher de café de capitalismo e mais 4 colheres de criatividade. Ponha um relógio
para modificar e acelerar o ponto do tempo que marcará a massa com pressa e stresse. Acrescente gotas de
entretenimento e leve ao fogo superaquecido da sociedade do conhecimento.
A cobertura altera o sabor de toda a massa.
• OBSERVAÇÕES TÉCNICAS
Todos os ingredientes foram fornecidos por DEUS CRIADOR.
Esta receita tem prazo de validade (desde que nasce até ± 80 anos).
Ela tem um sabor diferente todos os dias.
Resende, julho de 2006.
Pós-graduação Lato Sensu em Psicopedagogia
Disciplina de Filosofia da Educação
Profa. Liliana Lúcia da Silveira Barbosa
UNIDADE III
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REFLETINDO SOBRE OS VALORES: AXIOLOGIA
Os valores existem na ordem da afetividade, ou seja, não
ficamos indiferentes diante de alguma coisa ou pessoa,
pois somos afetados por elas de alguma forma. Valorar é
uma experiência humana que se encontra no centro de
toda escolha de vida. Portanto, diante daquilo que é, a
experiência dos valores orienta para o que deva ser.
Segundo Sampaio (2004), a revolução científica
trouxe junto com o próprio desenvolvimento
tecnológico e científico a outra faceta obscura da
sociedade, a substituição de determinados valores
que impulsionam o Ser Humano para sua
hominização.
Destacando a razão como valor fundamental e
desvinculando a ciência da religião, da tradição, da
filosofia, da ética, da arte, trouxeram-nos imensos
benefícios através da conquista da terra e dos seus
recursos, do progresso científico e tecnológico. Mas
só agora, quando iniciamos um novo milênio, é que
pudemos ver o que aconteceu. Ao nos voltarmos
apenas para a racionalidade e objetividade, perdemos a visão global da vida e das relações. Desenvolvemos uma unilateralidade de visão, a “especialização”, que gerou a alienação e fragmentação do conhecimento, conduzindo à perda da dimensão
valorativa do sentimento, da emoção, da
espiritualidade e da qualidade de vida.
Essa crise global (familiar, educacional e social) é
reforçada pela passagem do autoritarismo que incutia o medo e a repressão, onde os valores morais
para o estabelecimento da ordem e da disciplina eram
rígidos, para essa outra fase liberal em que nos encontramos: da indiferença ou indecisão no tocante
às leis, normas e valores de garantia do convívio
social. Saber lidar com a liberdade e autonomia e, ao
mesmo tempo, com a disciplina, ordem e respeito é o
grande desafio dos novos tempos.
Essa forma ilusória de ver o mundo em partes isoladas e fragmentadas tem separado os homens uns
dos outros e levado a uma visão desconexa para
um cruel sistema competitivo. Todos os fragmentos estão hoje em oposição. O ser humano luta contra ser humano, contra a natureza; uma empresa luta
contra a outra empresa; um partido político contra
outro partido político; uma nação luta contra outra
nação. Tem levado também a teorias fechadas, em
que cada visão diferente se sente ameaçada pela
outra, impedindo a expansividade do pensamento,
dos sentimentos e das relações, apesar do fenômeno da globalização e da universalização dos meios
de comunicação humana.
A contemporaneidade nos revela muito das conseqüências de nossos atos anteriores. Estamos vivendo uma crise global profunda, onde o vazio existencial e afetivo, provocado pela manipulação e
desmandos, favorece a miséria, a violência, a corrupção, o medo, a insegurança, resultado da fragilidade
das relações e dos valores humanos.
Os pais e a escola sentem-se inseguros sobre como
agir, oscilando entre o autoritarismo e a
permissividade, sem saber quais qualidades éticas a
empregar na educação e os limites necessários, tudo
isso influenciado pelos meios de comunicação, principalmente a televisão, que divulgam o sensacionalismo, a violência, a agressividade e a degradação
dos valores e costumes.
A família, a escola e os líderes não estão se constituindo referências para as crianças e jovens. A perda
dessa dimensão valorativa e da autoridade tem gerado o descompromisso com as questões éticas, indicando um sombrio quadro institucional.
É notório o fato de que o mundo está passando por
mudanças profundas e rápidas. A nossa cultura, em
seu movimento próprio e constante de renovação,
mostra vários aspectos agonizantes de nossa civilização e um desses é a educação, a qual não tem
atendido aos interesses das crianças, dos jovens e
adultos e nem cumprido a função que lhe cabe.
SAMPAIO, Dulce Moreira. A pedagogia do ser:
educação dos sentimentos e dos valores humanos.
Petrópolis, RJ: Vozes, 2004, passim 29-31.
3.1. Noções Preliminares de Axiologia
De onde parte o valor?
Da vida, da existência do ser do homem, como um ente em
permanente estado de carência, privação ou vacuidade.
• Valor
O que caracteriza a pessoa é o fato de ela ser um ente
que valora.
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O homem é o único Ser que faz sua vida desenrolarse, essencialmente, no mundo da cultura, que é, em
última análise, o próprio mundo dos valores.
Atribuir um valor a alguma coisa é não ficar indiferente
a ela. Portanto a não-indiferença é a principal
característica do valor.
• Axiologia
Do grego axios: digno de ser estimado, e logos:
ciência, teoria. Designa a filosofia dos valores.
• Deontologia
É a ciência do que é justo e conveniente que o
homem faça, do valor a que visa e do dever ou
norma que dirige o comportamento humano. Portanto
a Deontologia coincide com a ciência da moralidade
ou com a ética da ação humana. “Esse termo foi criado
por Benthan em 1834 para designar sua moral
utilitarista, mas que passou a significar, posteriormente,
o código moral das regras e procedimentos próprios a
determinada categoria profissional” (JAPIASSU e
MARCONDES, op. cit.: 67).
• Origem e procedência do Valor
Mitológico - Lenda grega, de Zeus e Prometeu.
Quando este roubou uma centelha do fogo sagrado e
deu aos homens, que assim foram dotados de
inteligência, Zeus enviou Hermes e este distribuiu duas
qualidades aos homens: respeito e justiça – critérios ou
os princípios éticos para a fundamentação de uma
moralidade social.
Medieval - O valor vai continuar, ainda que
implicitamente, associado à idéia de Deus no qual todos
os outros valores se encontram ou se amarram, como,
entre todos os demais, a verdade, a beleza, etc.
Moderno - O bem passa a ser o valor, e não mais uma
idéia, pois esta começou a ser relacionada com a
instância ou com a teoria do conhecimento do Ser, e
de próprio valor.
• Corte de paradigma – I. Kant (1724 -1804)
Kant - Crítica da Razão Prática. Separa a moral da
religião e gera uma cosmovisão antropocêntrica.
O homem é um ser determinado, dominado de
maneira imperativa e categórica por uma lei, que é a lei
moral, inexplicável pela Física ou pela Matemática.
Gira em torno dos postulados da imortalidade, da
liberdade e da existência de Deus.
Kant concorda com Pascal e Rousseau quando afirma
que acima da lógica da mente está o sentimento do
coração; e o primeiro sentenciou que o coração tem
razões que a razão nunca poderá compreender, ou que
a própria razão desconhece.
Para Kant, se o homem é um ser moral, a ação do homem
no mundo é que vai criar uma espécie de "sobremundo",
como sendo uma outra realidade. Por esse motivo, o homem
não vive inserido no mundo da natureza e sim nesse outro
mundo ou "sobremundo", que é criado a partir da ação do
próprio homem, que é, em última análise, o mundo da cultura.
Antigo - Sócrates = valor, justiça (princípio ético,
de que é preferível ser injustiçado, do que se cometer
uma injustiça; e no caso de se cometer uma injustiça,
devia-se assumir a responsabilidade por este ato).
Esse outro mundo, o da cultura, que é criado a partir
do fazer, ou da ação, ou ainda do agir do homem, é que
vai resultar esse aspecto da moralidade do próprio
homem. São exatamente os valores, correspondentes
às carências humanas que vão manifestar-se na cultura
humana, isto é, no modo pelo qual o homem enfrenta os
obstáculos que a natureza lhe impõe.
Platão apresenta o bem como idéia e não como valor, ou
seja, o bem como uma idéia que o homem pode alcançar ou
conhecê-lo pela razão. O conhecimento da verdade levava
à virtude, ou que a ignorância da verdade levava ao erro.
Portanto a natureza oferece, ou impõe ao homem,
uma série de obstáculos, ou problemas, e o homem vai
tentar resolvê-los; e ao fazer isso, passa a transformar
o mundo da natureza num mundo humanizado.
3.2. O Agir Comunicativo e a Educação Para a
Consciência Moral
O problema da ação e a questão dos valores
encontram-se indissoluvelmente ligados. Agir
pressupõe sempre uma opção, uma tomada de posição,
uma valorização, implícita ou explícita.
O valor é uma realidade, mas não é um fato. Ele
situa-se num plano distinto da realidade dada, das
árvores, dos rios ou dos teoremas da matemática.
Apesar de implicar uma tomada de posição de um
sujeito, o valor não é puramente subjetivo; no que
respeita, por exemplo, aos valores morais, ao bem e ao
mal, ao justo e injusto. Ele ultrapassa largamente o
plano da subjetividade, para se impor ao nosso espírito
com uma força muitas vezes mais determinante que a
dos próprios objetos.
O filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.) afirmava
que o homem é "animal político" por instinto e que a
experiência do convívio social favorece o
desenvolvimento das potencialidades humanas.
A tese aristotélica alimentou e ainda alimenta
comentários, críticas e considerações de toda espécie.
Apesar das polêmicas quanto ao caráter instintivo da
sociabilidade humana, não há genericamente
discordância quanto à importância da experiência
social do homem.
• Obrigatoriedade Moral
– O comportamento moral é um comportamento
obrigatório e devido;
– A obrigatoriedade moral inclui a liberdade de
escolha e de ação do sujeito, e este deve aceitar como
fundamentada e justificada a mesma obrigatoriedade.
• Necessidade, Coação e Obrigatoriedade
– O comportamento moral como um comportamento
livre e obrigatório;
– Não há comportamento moral sem certa
liberdade, mas concilia-se com a necessidade, em
vez de excluí-la;
– Um comportamento que não pode ser de outra forma,
isto é, não há opção, não tem um verdadeiro sentido
moral; Nesse caso, não há obrigatoriedade moral, pois
existe esse "ver-se obrigado, isto é, foi determinado
num sentido em que não há opção;
– O sujeito pode ficar livre da obrigação moral,
quando circunstâncias externas exercem uma influência
decisiva – como uma coação externa – não deixando
possibilidade nenhuma de o sujeito agir de acordo
com a sua obrigação moral;
– Impondo ao agente uma forma de comportamento
não querida ou não escolhida livremente, a coação
externa entra em conflito com a obrigação moral e
acaba por substituí-la;
– A obrigatoriedade moral perde também a sua razão
de ser quando o agente opera sob uma coação
interna, ou seja, sob a ação de um impulso, desejo ou
paixão irresistível que forçam ou anulam por completo
a sua vontade.
• Obrigação Moral e Liberdade
– Nem toda liberdade de escolha possui uma
significação moral e traz consigo, por si só, uma
obrigatoriedade moral;
– Só existe obrigação moral a partir do momento em que
exista uma promessa que possa ser cumprida, pois temos
a possibilidade de escolher entre uma e outra alternativa;
– Limitando minha escolha, sou eu quem escolhe
limitá-la e com isso afirmo a liberdade indispensável
para que se possa imputar-se uma obrigação moral. Se
essa limitação for imposta de fora (coação externa)
não haverá obrigação moral; Sou eu quem escolhe,
ainda que por dever, isto é, como sujeito moral.
• Caráter Social da Obrigação Moral
– A obrigação moral possui um caráter social;
– Somente pode haver obrigação para um indivíduo
quando as suas decisões e os seus atos afetam os
outros ou a sociedade;
– A obrigatoriedade moral tem um caráter social,
porque se a norma deve ser aceita intimamente pelo
indivíduo e este deve agir de acordo com a sua livre
escolha ou a sua consciência do dever, a decisão pessoal
não será operada num vácuo social. O obrigatório e o
não-obrigatório não são algo que ele inventa, mas que
encontra estabelecido numa sociedade determinada;
– O indivíduo certamente opera de acordo com o ditame
de sua consciência moral, mas esta, por sua vez, dita
somente aquilo que concorda com os princípios, valores
e normas de uma moral efetiva e vigente.
• A Consciência Moral
– O termo "consciência" pode ser usado em dois
sentidos: um geral, o de consciência propriamente dita,
e outro específico, o de consciência moral. Ex.: "Pedro
perdeu a consciência.", "a minha consciência me diz.";
– A consciência moral somente pode existir sobre a
base da consciência no sentido e como uma forma
específica desta;
– O conceito de consciência está estritamente
relacionado com o de obrigatoriedade;
– É a consciência moral que, neste caso, informandose da situação e com a ajuda das normas estabelecidas,
que se interiorizam às nossas, toma as decisões.
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3.3. A Construção de Valores e a Responsabilidade
de Cidadania
O convívio social estabelece uma vasta gama de
relações. Miguel Reale (1994), por exemplo, entende
que as relações sociais que pressupõem a criação de
normas de organização e conduta no seio de uma
sociedade são as quatro seguintes: coordenação,
subordinação, integração e delimitação.
• As relações de coordenação são as que ocorrem
entre as partes que tratam de igual para igual, por
exemplo, o princípio contraditório, que observa a
igualdade das partes no processo;
• As relações de subordinação são as relações de
mando por partes que tratam de igual para igual, por
exemplo, a cobrança de impostos ou a obrigatoriedade
do serviço militar;
• As relações de integração são as que agrupam as
relações de massa, de comunidade vital e de pessoa
comum, ou seja, nas relações de integração surge a
noção de coletividade ou um 'nós' coletivo;
• As relações de delimitação dão origem ao
aparecimento de um 'eu' responsável que se relaciona
com os outros de forma positiva (amizade, por exemplo)
ou de forma negativa (conflitos de interesse) ou de
forma mista (troca, contrato, acordo etc.).
Qualquer que seja a teoria sobre a sociabilidade
humana que se construa, o certo é que os homens se
encontram em estado convivencial e, nesse estado,
interferem e recebem interferência de outros homens.
Essas interferências podem, em maior ou menor grau,
causar perturbações. Para conter ou limitar tais
perturbações, é mister que se estabeleçam normas
jurídicas. Surge, então, o Direito.
A humanidade sofre diante de um ambiente onde a
ética não mais fundamenta o humano, mas a
produção desenfreada, o sucesso econômico, a
competitividade cega e destruidora. Os últimos
cataclismas do fim do século passado e início do
atual têm dado provas desses desequilíbrios. Boff
(2003: 13) afirma que "a sustentabilidade do planeta,
urdida em bilhões de anos de trabalho cósmico,
poderá desfazer-se. A terra buscará um novo
equilíbrio que, seguramente, acarretará uma
devastação fantástica de vidas".
3.4. A Ética Como Espaço de Revolução Global
A visão mecanicista do homem ocidental provocou
"nossa tendência para dividir o mundo que
percebemos em coisas individuais e isoladas, e para
experimentar a nós mesmos como egos isolados neste
mundo" (CAPRA, 1995: 26). Essa percepção impediunos de enxergar uma outra visão da realidade, pautada
na noção de que todos os fenômenos são
interconectados, como redes interligadas e que o
homem é parte integrante de um todo.
Na tentativa de buscar um melhor entendimento do
homem, reportamos a Ortega y Gasset, quando procura
conceituar o homem como ser humano-massa, que atua
diretamente por pressões materiais. Essa atitude, tornao vítima do egocentrismo e de fácil manipulação pelo
poder. Aliena-se à medida que se afasta de sua origem,
de sua autoconsciência. Do ponto de vista históricopolítico, o ser humano-massa acabará por reagir,
aprendendo através de seus sofrimentos.
Sampaio (2004) enfatiza a necessidade de uma
educação dos sentimentos e dos valores humanos
capazes de encontrar a chegada. Segundo a autora,
é o mundo dos sentimentos, da criatividade, da sabedoria,
da intuição que expande a consciência e nos faz perceber a
grande lei natural que nos impulsiona a sairmos do estágio
individual, egoísta que tem nos fragmentado e causado
tantos males e atingirmos a fase do homem que despertou
para uma consciência mais global, abrangente, que nos une
e integra, levando-nos a pensar e agir em benefício de
todos" (SAMPAIO, 2004: 42).
Faz-se mister assumirmos um compromisso com a
cultura de paz, a não-violência, o respeito, a justiça e a
solidariedade. No entanto, fica claro que esses
princípios devem nortear toda a conduta e
comportamento motor do indivíduo, seja em qualquer
espaço de sua vida social, política, familiar ou
profissional. Devemos ultrapassar o discurso vazio, a
fala calorosa, mas sem sentido prático e nos envolver
definitivamente na cotidianidade de um processo de
reconstrução do humano e num entendimento claro
da necessidade de elevarmos nossa reflexão para uma
consciência cósmica.
Sendo assim, no caminho da ética e da solidariedade
se encontra a chegada do humano, de onde ele nunca
deveria ter saído. Mas foi necessária toda essa jornada,
a história demonstra que a vida humana é um
aprendizado.
Exercícios de Auto-Avaliação
1. Explique com suas palavras: "A civilização científico-técnica confrontou todos os povos, nações, culturas
com suas tradições morais, culturais e grupais, com suas respectivas especificidades. Pela primeira vez na
história da humanidade, os homens estão diante da tarefa prática de assumir a responsabilidade solidária pelas
conseqüências de suas ações, seguindo parâmetros de dimensões planetárias." (K. O. Apel) - entregue ao tutor.
2. Explique com suas palavras. "Nós vos pedimos com insistência: nunca digam “Isso é natural!”. Diante dos
acontecimentos de cada dia. Numa época em que reina a confusão, em que corre o sangue, em que o arbitrário
tem força de lei, em que a humanidade se desumaniza ... Não digam nunca: - Isso é natural! A fim de que nada
possa ser imutável!"(Berthold Brecht) - entregue ao tutor.
3. Responda às questões abaixo e entregue ao tutor.
a) Pascal e Rousseau que afirmaram que acima da lógica da mente está o sentimento do coração; e o primeiro
sentenciou que o coração tem razões que a razão nunca poderá compreender, ou que a própria razão desconhece.
Você concorda com eles? Justifique.
b) Que tipo de valores você percebe no mundo que o cerca? E quais as implicações desses valores?
c) Explique com suas palavras o imperativo categórico de Kant: "Age de tal modo que a máxima de tua ação
possa sempre valer como princípio universal de conduta."
Atividades Complementares
Leia o texto abaixo e faça uma reflexão sobre a questão ética atualmente.
UMA PESCARIA INESQUECÍVEL
Ele tinha onze anos e, a cada oportunidade que surgia, ia pescar no cais próximo ao chalé da família, numa
ilha que ficava em meio a um lago. A temporada de pesca só começaria no dia seguinte, mas pai e filho saíram
no fim da tarde para pegar apenas peixes cuja captura estava liberada.
O menino amarrou uma isca e começou a praticar arremessos, provocando ondulações coloridas na água.
Logo, elas se tornaram prateadas pelo efeito da lua nascendo sobre o lago. Quando o caniço vergou, ele
soube que havia algo enorme do outro lado da linha. O pai olhava com admiração, enquanto o garoto
habilmente, e, com muito cuidado, erguia o peixe exausto da água. Era o maior que já tinham visto, porém
sua pesca só era permitida na temporada. O garoto e o pai olharam para o peixe, tão bonito, as guelras para
trás e para frente. O pai, então, acendeu um fósforo e olhou o relógio. Eram dez da noite – faltavam apenas
duas horas para a abertura da temporada. Em seguida, olhou para o peixe e depois para o menino, dizendo:
- Você deve devolvê-lo, filho!
- Mas, papai, reclamou o menino.
- Vai aparecer outro, insistiu o pai.
- Não tão grande quanto este, choramingou a criança.
O garoto olhou à volta do lago. Não havia outros pescadores ou embarcações à vista. Voltou novamente o
olhar para o pai. Mesmo sem ninguém por perto, sabia, pela firmeza em sua voz, que a decisão era inegociável.
Devagar, tirou o anzol da boca do enorme peixe e o devolveu à água escura. A criatura movimentou
rapidamente o corpo e desapareceu. E, naquele momento, o menino teve a certeza de que jamais veria um
peixe tão grande quanto aquele.
Isso aconteceu há trinta e quatro anos. Hoje, o garoto é um arquiteto bem-sucedido. O chalé continua lá, na
ilha em meio ao lago, e ele leva seus filhos para pescar no mesmo cais. Sua intuição estava correta. Nunca
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mais conseguiu pescar um peixe tão maravilhoso como o daquela noite. Porém, sempre vê o mesmo peixe –
repetidamente – todas as vezes que depara com uma questão ética. Porque, como o pai lhe ensinou, a ética
é simplesmente uma questão de certo e errado. Colocá-la em prática é que é difícil. Agir corretamente,
quando se está sendo observado, é uma coisa. A ética, porém, está em agir da mesma forma quando ninguém
está nos vendo. Essa conduta reta só é possível quando, desde criança, aprendeu-se a devolver o peixe à
água.
A história valoriza não como se consegue ludibriar as regras, mas como, dentro delas, é possível fazer a
coisa certa. A boa educação é como uma moeda de ouro: tem valor em toda parte.
Fonte: Autor: James P. Lenfestey. Colaboração Lísia Freitas Carvalho - REDE AGÊNCIAS.
Leia o livro de Leonardo Boff, intitulado Ecologia, Mundialização Espiritualidade; faça um fichamento das
idéias principais da primeira parte do livro e depois uma análise dessas idéias e envie ao seu tutor.
UNIDADE IV
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AS TENDÊNCIAS FILOSÓFICAS CONTEMPORÂNEAS E
SUAS INFLUÊNCIAS NA COTIDIANIDADE
Em geral, os grandes pensadores contemporâneos
reagem decididamente contra o materialismo e o
positivismo do século XIX. Os problemas
ontológicos tomam o passo, na importância que se
lhes dedica, ao estudo puramente crítico do
conhecimento, tão preferido há decênios. Há,
sobretudo, um grande esforço de pôr a Filosofia mais
em contato com a realidade integral do homem, da
ação e da vida. Procura-se enriquecer o puro
pensamento abstrato e deduzido com os tesouros da
intuição e da experiência vital.
Uma escola alemã de Filosofia, a Escola de Frankfurt,
elaborou uma concepção conhecida como Teoria Crítica, na qual distingue duas formas da razão:
O século XIX é, na Filosofia, o grande século da
descoberta da história ou da historicidade do homem,
da sociedade, das ciências e das artes.
A razão crítica é aquela que analisa e interpreta os
limites e os perigos do pensamento instrumental e
afirma que as mudanças sociais, políticas e culturais
só realizar-se-ão verdadeiramente se tiverem como
finalidade a emancipação do gênero humano e não as
idéias de controle e domínio técnico-científico sobre a
Natureza, a sociedade e a cultura.
No entanto, no século XX, a Filosofia passou a desconfiar do otimismo científico-tecnológico do século
anterior em virtude de vários acontecimentos.
• Razão instrumental
A razão técnico-científica, que faz das ciências e das
técnicas não um meio de liberação dos seres humanos,
mas um meio de intimidação, medo, terror e desespero.
• Razão crítica
4.1. Positivismo
August Comte (1798-1857). O termo positivismo foi
adotado por Comte para designar toda diretriz
filosófica marcada pelo culto da ciência e pela
sacralização do método científico.
O positivismo expressa um tom geral de confiança nos
benefícios da industrialização, bem como um otimismo
em relação ao progresso capitalista, guiado pela técnica
e pela ciência. Manifestando-se de modo variado em
diversos países ocidentais, a partir da segunda metade
do século XIX, o positivismo reflete, no plano filosófico,
o entusiasmo burguês pelo progresso capitalista e pelo
desenvolvimento técnico-industrial.
Embora muito criticado no plano teórico, é uma
doutrina extremamente influente no plano prático. Ainda
hoje continua bem viva e atuante em nossa sociedade.
O positivismo admite, como fonte única de
conhecimento e critério de verdade, a experiência, os
fatos positivos, os dados sensíveis. Nenhuma
metafísica, portanto, como interpretação, justificação
transcendente ou imanente da experiência. A Filosofia
é reduzida à metodologia e à sistematização das
ciências. A lei única e suprema, que domina o mundo
concebido positivamente, é a evolução necessária de
uma indefectível energia naturalista, a qual resulta das
ciências naturais.
O positivismo surgiu com o desenvolvimento
filosófico do Iluminismo, ao qual se associou a
afirmação social das ciências experimentais.
Propõe à existência humana valores completamente
humanos, afastando radicalmente a teologia ou a
metafísica. Assim, o positivismo – em sua versão
comtiana, pelo menos – associa uma interpretação
das ciências e uma classificação do conhecimento
a uma ética humana, desenvolvida na segunda fase
da carreira de Comte.
Um dos temas centrais da obra filosófica de
Comte é a necessidade de uma organização
completa da sociedade. Nessa tarefa, ele próprio
pretendeu desempenhar o papel de um reformador
universal "encarregado de instituir a ordem de
maneira soberana". Mas essa reconstrução da
sociedade consistia, para Comte, na regeneração
das opiniões (idéias) e dos costumes (ações) dos
homens. Tratava-se, portanto, de uma
reestruturação intelectual das pessoas e não de
uma revolução das instituições sociais, como
propunham filósofos socialistas de sua época,
como Saint-Simon, Fourier e Proudhon.
Na obra de Comte, destacam-se três partes
fundamentais: a lei dos três estados, a classificação
das ciências e a reforma intelectual da sociedade.
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A lei dos três estados:
Estágio do Conhecimento
Humano
Teológico
Monoteísmo (um único Deus, é
o senhor do universo)
Politeísmo (vários deuses
atuam na natureza)
Fetichismo (o espírito é
compartilhado tanto pelo
homem como pelos demais
seres – animismo)
Princípio de Produção dos
Fenômenos (motor da história)
Instância determinante na
formulação das teorias
Deus único
Diversos deuses
Imaginação de agentes
sobrenaturais
Diversos objetos (personificação)
Metafísico
Entes ontológicos, abstratos
(natureza – o mais íntimo dos seres)
Imaginação de entidades
abstratas e absolutas mais
razão (argumentos)
Positivo
Sociologia, Biologia, Química,
Física e Astronomia
Leis universais
Observação dos fatos
concretos mais razão
COTRIM, Gilberto. Fundamentos da filosofia. 13 ed. São Paulo: Saraiva, 1997.
4.2. Marxismo
Karl Marx (1818-1883)
e Friedrich Engels (1820-1895)
Materialismo Dialético – O método. Consiste na necessidade de considerarmos a realidade socioeconômica de
determinada época como um todo articulado, atravessado
por contradições específicas, entre as quais a luta de classe.
Materialismo Histórico – a aplicação dos princípios
do materialismo dialético no campo da história. É a
explicação da história por fatores materiais, ou seja,
econômicos e técnicos.
“Para Marx, a sociedade se estrutura em dois níveis:
Infra-estrutura (base econômica) – engloba as relações
do homem com a natureza, no esforço de produzir a própria existência, e as relações dos homens entre si. Ou seja,
as relações entre os proprietários e não-proprietários e os
não-proprietários e os meios e objetos do trabalho.
Superestrutura político-ideológica:
a literatura, a filosofia, a ciência, a arte etc. Também
nesse caso ocorre a sujeição ideológica da classe dominada, cuja cultura e modo de vida reflete as idéias e
os valores da classe dominante.
Marx chama de práxis a ação humana de transformar
a realidade. Nesse sentido, o conceito de práxis não
se identifica propriamente com a prática, mas significa
a união dialética da teoria e da prática. Isto é, ao mesmo
tempo em que a consciência é determinada pelo modo
como os homens produzem a sua existência, também a
ação humana é projetada, refletida, consciente.
Por isso a filosofia marxista é também conhecida como
filosofia da práxis.
Para Karl Marx, o que fundamentalmente caracteriza o
homem é a forma pela qual reproduz suas condições de
existência. Marx inverte o processo do senso comum
que pretende explicar a história pela ação dos ‘grandes
homens’, ou, às vezes, até pela intervenção divina. Para
o marxismo, no lugar das idéias, estão os fatos materiais;
no lugar dos heróis, a luta de classes.
Estrutura jurídico-política – representada pelo Estado e
pelo direito: segundo Marx, a relação de exploração de classe no nível econômico repercute na relação de dominação
política, estando o Estado a serviço da classe dominante.
• Modo de Produção – maneira pela qual as forças
produtivas se organizam em determinadas relações de
produção num dado momento histórico.
Estrutura ideológica – referente às formas da consciência social, tais como a religião, as leis, a educação,
• Relações de Produção e Força Produtiva – revelam
a maneira pela qual os homens, a partir das condições
naturais, usam as técnicas e se organizam por meio da
divisão do trabalho social. As relações de produção
correspondem a um certo estágio das forças
produtivas, que consistem no conjunto formado pelo
clima, água, solo, matérias-primas, máquinas, mão-deobra e instrumentos de trabalho.
• Modo de Produção Patriarcal - surge quando o
homem inicia a domesticação de animais, desenvolve
a agricultura graças ao uso dos instrumentos de metal
e fabrica vasilhas de barro, o que possibilita fazer
reservas. Alteram-se as relações de produção e o modo
de produção: aparece uma forma específica de
propriedade (propriedade da família); diferenciam-se
funções de classe (autoridade do patriarca); há
alteração do direito hereditário, estabelecendo-se a
filiação paterna (Sociedades Primitivas).
• Modo de Produção Escravista – é decorrente do
aumento da produção além do necessário à
subsistência e exige recurso e novas forças de
trabalho, conseguidas geralmente entre prisioneiros
de guerra, transformados em escravos. Com isso, surge
a propriedade privada dos meios de produção, e a
primeira forma de exploração do homem pelo homem
com a conseqüente contradição entre os senhores e
escravos. Dá-se então a separação entre o trabalho
intelectual e trabalho manual. A ociosidade passa a
ser considerada a perfeição do homem livre, enquanto
o trabalho manual, considerado servil, é desprezado
(Antigüidade Grega e Romana).
• Modo de Produção Feudal – a base econômica é a
propriedade dos meios de produção pelo senhor feudal.
O servo trabalha um tempo para si e outro para o
senhor, o qual, além de se apropriar de uma parte da
produção daquele, ainda lhe cobra impostos pelo uso
comum do moinho, do lagar, etc. A contradição dos
interesses das duas classes leva a conflitos que farão
aparecer, paulatinamente, uma nova figura: o burguês
(Sociedades Feudais).
• Modo de Produção Capitalista – é a nova síntese
que surge das ruínas do sistema feudal, ou seja, da
contradição entre a tese (senhor feudal) e a antítese
(servo). O que vimos até agora é que o movimento
dialético pelo qual a história se faz tem um motor: a
luta de classes (Capitalismo).
• Luta de Classes – confronto entre duas classes
antagônicas quando lutam por seus interesses. No
modo de produção capitalista, a relação antitética se
faz entre o burguês, que é o detentor do capital, e o
proletário, que nada possui, e só vive porque vende
sua força de trabalho.
Método dialético na história
TESE
ANTÍTESE
SÍNTESE
Afirmação
Negação
Negação da Negação
Modo de Produção
Escravista
Escravo
Sistema Escravista
Modo de Produção
Feudal
Servo
Sistema Feudal
Modo de Produção
Capitalista
Proletário
Sistema Capitalista
Mais-valia - o valor que o operário cria além do valor
de sua força de trabalho, e que é apropriado pelo
capitalista. A parte do trabalho excedente não é paga
ao operário, e serve para aumentar cada vez mais o
capital. Esse intercâmbio entre o capital e o trabalho é
o que serve de base à produção capitalista, ou ao
sistema do salariado, e tem de conduzir, sem cessar, à
constante reprodução do operário como operário e do
capitalista como capitalista.
Alienação - com a descrição da mais-valia, Marx
configura o caráter de exploração do sistema
capitalista. De imediato o operário não é capaz de
reverter o quadro porque se encontra alienado.
Segundo Marx, a alienação tem origem na vida
econômica: quando o operário vende no mercado a força
de trabalho, o produto que resulta do seu esforço não
mais lhe pertence e adquire a existência independente
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dele. A perda do produto significa outras perdas para o
operário: ele não mais projeta ou concebe aquilo que
vai executar (dá-se a dicotomia concepção-execução
do trabalho, a separação entre o pensar e o agir); com o
aceleramento da produção, provocado pela crescente
mecanização do trabalho (linha de montagem), o operário
executa cada vez mais apenas uma parte do produto
(trabalho parcelado ou trabalho ‘em migalhas’). O ritmo
do trabalho é dado exteriormente e não obedece ao
próprio ritmo natural do seu corpo.
O produto do trabalho do operário subtrai-se, portanto,
à sua vontade, à sua consciência e ao seu controle, e o
produtor não se reconhece no que produz. O produto
surge como um poder separado do produtor, como
realidade soberana e tirânica que o domina e ameaça. A
esse processo Marx chama fetichismo da mercadoria.
Produz-se então a grande inversão em que a reificação
do homem (res: ‘coisa’) é o contraponto do fetichismo
da mercadoria. Quando a mercadoria se ‘anima’, se
‘humaniza’, obriga o homem a sucumbir às forças das
leis do mercado que o arrastam ao enfrentamento de
crises, guerras e desemprego. A conseqüência é a
desumanização do homem, sua reificação.
Ideologia - as idéias, condutas e valores que
permeiam a concepção de mundo de uma determinada
sociedade, e que representam os interesses da classe
dominante, ao serem generalizadas às classes
dominadas, ajudam a manter a dominação.
A ideologia impede que o proletariado tenha
consciência da própria submissão, porque camufla a
luta de classes quando faz a representação ilusória da
sociedade mostrando-a como uma e harmônica. Mas
ainda a ideologia esconde que o Estado, longe de
representar o bem comum, é a expressão dos interesses
da classe dominante.
Estado e Sociedade - para Marx , o Estado não supera
as contradições da sociedade civil, mas é o reflexo
delas, e está aí para perpetuá-las. Por isso só
aparentemente visa o bem comum, estando de fato a
serviço da classe dominante. Portanto o Estado é um
mal que deve ser extirpado.
Ao lutar contra o poder da burguesia, o proletariado
deve destruir o poder estatal, o que não será feito
por meios pacíficos, mas pela revolução. Marx não
considera viável a passagem brusca da sociedade
sem Estado, havendo a necessidade de um período
de transição.
A classe operária, organizando-se num partido
revolucionário, deve destruir o Estado burguês e criar
um novo Estado capaz de suprimir a propriedade
privada dos meios de produção. A esse novo Estado
dá-se o nome de ditadura do proletariado, uma vez
que, segundo Marx, o fortalecimento contínuo da
classe operária é indispensável enquanto a burguesia
não tiver sido liquidada como classe no mundo inteiro.
Utopia Comunista - a primeira fase de vigência da
ditadura do proletariado corresponde ao socialismo,
que supõe a existência do aparelho estatal, da
burocracia, do aparelho repressivo e do aparelho
jurídico. Nessa fase, persiste a luta contra a antiga
classe dominante, a fim de evitar a contra-revolução.
O princípio do socialismo é: ‘De cada um, segundo
sua capacidade, a cada um, segundo seu trabalho’.
A segunda fase, chamada comunismo, tem como
princípio: ‘De cada um, segundo sua capacidade, a
cada um, segundo suas necessidades’. O comunismo
se define pela supressão da luta de classes e,
conseqüentemente, pelo desaparecimento do Estado.
A ‘anarquia feliz’, o desenvolvimento prodigioso das
forças produtivas, levaria à ‘era da abundância’, à
supressão da divisão do trabalho em tarefas
subordinadas (materiais) e tarefas superiores
(intelectuais), à ausência de contraste entre cidade e
campo e entre indústria e agricultura.
Se a passagem para o comunismo significa o
desaparecimento das classes, como fica a afirmação
feita por Marx, de que a luta de classes é o motor da
história?
O movimento da história continuaria, pois ela é
um processo; só que a luta não mais seria entre a
classe dominante e a dominada, mas entre a
vanguarda e os elementos que impedem as
mudanças por comodismo ou incompreensão. A luta
seria entre o progresso e as forças conservadoras,
entre o novo e o velho” (ARANHA e MARTINS,
1993: passim 240-245).
4.3. Fenomenologia e Existencialismo
O existencialismo é uma filosofia de protesto, seus
partidários não estão muito preocupados com a
metodologia e a exposição sistemática. Alguns
filósofos, porém, entendem que a fenomenologia
proporciona uma metodologia rigorosa para descrever
a experiência de vida que a hermenêutica proporciona:
um enfoque interpretativo à experiência individual.
Jean-Paul Sartre (1905 - 1980). De todos os filósofos
existencialistas importantes, provavelmente o mais
conhecido talvez seja Jean-Paul-Sartre. Nascido na
França, ele cresceu em uma casa onde foi incentivado
a desenvolver suas qualidades intelectuais. Começou
a escrever muito cedo, enfatizando o sofrimento da
condição humana. Sartre desejava tornar-se professor
de Filosofia. Completou a sua educação na França,
mudou-se para a Alemanha, mais tarde se fixou-se em
Paris, onde se tornou professor de Filosofia.
Perseguia suas ambições literárias, escrevendo
diversos romances e peças que se tornaram best-sellers
na Europa.
Na Segunda Guerra Mundial, foi capturado pelos
alemães no princípio da guerra. Foi permitido que
retornasse a Paris em liberdade condicional e lá juntouse à resistência francesa.
Sartre via a condição humana em termos do indivíduo
solitário em um mundo absurdo. Ele percebia a existência
humana como algo principalmente sem sentido, pois
somos jogados em um mundo totalmente sem sentido, e
qualquer significado que encontrarmos no mundo deve
ser construído por nós mesmos. O desenvolvimento do
significado é uma questão individual e, como o mundo e
o indivíduo não têm significado, não temos justificativa
para existirmos. Não há um Deus para conferir em
significado à existência (Sartre era ateu) nem existe
nenhum domínio de idéias ou realidade física independente
com significado imutável, independente e próprio. A
humanidade, individual e coletivamente, existe sem
qualquer significado ou justificativa, exceto por aquilo
que nós mesmos construímos.
O ponto de vista de Sartre é muito austero, no mínimo,
se comparado com, digamos, o idealismo ou o realismo.
Sartre afirmava que a existência precede a essência.
Sartre via a ciência como uma criação humana, nem
pior ou melhor em si do que qualquer outra criação.
A humanidade é absolutamente livre, como Sartre
colocou em sua terminologia característica: "O
homem está condenado a ser livre".
Se somos livres, somos criadores de nossos próprios
males e podemos criar um estilo de vida mais humano
e melhor. A decisão é nossa. Tudo que devemos fazer
é tomar as nossas decisões e agir de forma adequada.
Todavia essas escolhas e decisões não são fáceis.
Sartre não ignorava a sociedade e os costumes
existentes.
• Filósofos Fenomenológicos e Seu Pensamento
Edmund Husserl (1859-1938). Nasceu na Moravia,
na Tchecoslováquia.
O termo fenomenologia já havia sido usado anteriormente
por Kant e Hegel, porém o seu uso para designar um método
filosófico particular é atribuído a Husserl.
Husserl entendia seu trabalho como sendo
radicalmente diferente e similar à exigência de René
Descartes, de que a Filosofia fosse baseada em
critérios além da possibilidade de dúvida. Pensava que,
se o método fenomenológico fosse rigorosamente
aplicado e executado, isso tornaria científica a Filosofia,
mas de uma forma diferente das ciências tradicionais.
Heidegger (1889 - 1976). Heidegger trabalhou por um
tempo como assistente de Husserl e aceitou a noção
da fenomenologia como método e como ciência dos
fenômenos da consciência. Para Heidegger, a tarefa
não era simplesmente um esforço para descrever
fenômenos, mas para chegar ao que está por trás deles,
seu ser. Assim, para ele, a fenomenologia era a ciência
do ser – a ontologia.
Maurice Merleau-Ponty (1908 - 1961). Maurice
sustentava que não poderia haver nenhuma negação do
mundo e, portanto, nenhum agrupamento completo.
Merleau-Ponty entendia a percepção como sendo sempre
uma parte do mundo. A percepção está no mundo e vem
do mundo. A única maneira de vê-la com alguma exatidão
é aceitar essa base terrena no estudo filosófico. Para
Merleau-Ponty, não podemos escapar de nossa
"faticidade", de nossa existência terrena. Devemos
reconhecer que a própria consciência humana é um
projeto do mundo, um mundo que ela não tem nem aceita,
mas que sem o qual não pode existir. A consciência está
perpetuamente direcionada para o mundo das coisas,
das idéias, dos eventos, das pessoas ou da experiência.
A percepção é primordial. Pensar, pensamento e objetos
de pensamentos não são concretos, mas abstratos.
4.4. As Tendências Emergentes do Final do Século XX
e Início do XXI
A holopráxis é um retorno às raízes do Ser como imerso no
cósmico, parte integrante de um fundamento transdisciplinar.
O holismo é uma tendência que sintetiza unidades em
totalidades organizadas, na qual o homem é um todo
indivisível, não podendo ser explicado pelos seus
distintos componentes (físico, psicológico ou psíquico),
considerados separadamente. Tudo é interdependente.
Tudo se interliga e se inter-relaciona de forma global.
A visão holística procura romper com toda espécie
de reducionismo: o científico, o somático, o religioso,
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o niilista, o materialista ou substancialista, o
racionalista, o mecanicista e o antropocêntrico, entre
outros.
ciência moderna que melhor pode demonstrar esta
relação parte/todo em simbiose íntima (GUIMARÃES,
2001: 8).
Uma parte não está somente dentro de um todo. O todo
está também dentro da parte; o indivíduo não está somente
dentro da sociedade, a sociedade enquanto todo está também
no indivíduo. Desde a infância aprendemos a distinguir o
limpo do sujo, o bom do mau; nós aprendemos a linguagem,
nós aprendemos a cultura que se introduz como um todo
em cada um de nós e nos permite tornarmos nós mesmos
(PETRAGLIA, 2000: 83).
Pierre Weil, psicólogo francês, vice-presidente da
Universidade Holística Internacional e principal
mentor do movimento holístico no Brasil, define a
abordagem holística da realidade como a tendência
para se lançar pontes sobre todas as fronteiras de
reducionismos humanos, estabelecendo dois distintos
e complementares fundamentos: a holologia e a
holopráxis.
Estamos começando a antever e a construir um modelo
científico que se baseia no conceito de relação, que é
muito mais amplo que o de análise, como o usado pela
ciência normal. Já não são somente as partes
constituintes de um corpo ou de um objeto que são de
fundamental importância para a compreensão da
natureza desse objeto, mas o modo como se expressa
todo esse objeto, e como ele se insere em seu meio. As
partes que constituem um sistema têm um notável
conjunto de características que se vêem no âmbito das
partes, mas o sistema inteiro, o todo – o holos –,
freqüentemente possui uma característica que vai bem
além que a mera soma das características de suas partes.
Por exemplo, sabemos que tanto o hidrogênio quanto o
oxigênio são constituintes fundamentais no processo
de combustão. Mas se juntamos esses elementos e
formarmos a água, nós os usaremos para combater a
combustão. O Todo não elimina as características das
partes, mas estas, quando em relações íntimas, dão o
substrato a uma nova forma, cujas características
transcendem às das partes constituintes. A Ecologia é a
A holologia refere-se ao enfoque especulativo e
experimental da Holística, destinada a adquirir o saber,
através da análise e do conhecimento racional
resultante da atuação ativa do hemisfério cerebral
esquerdo, da racionalidade, da lógica e da abstração.
A holologia desenvolve as funções psíquicas do
pensamento e sensação.
A holopráxis abrange o conjunto dos métodos e
experiências de vivência direta do real pelo ser humano,
além de qualquer conceito, representando o caminho
vivencial para a experiência holística, de natureza
transpessoal. “Para que o saber se torne sabedoria é
necessária a via experencial, sintética, intuitiva e de
mergulho na essência, para o desvelar do Ser. A
holopráxis desenvolve as funções psíquicas do
sentimento e da intuição” (BARBOSA, 2006: 52).
Exercícios de Auto-Avaliação
1) Responda às questões:
a) O que Comte propôs para estudar a sociedade?
b) Qual foi a contribuição do marxismo?
2) O positivismo provocou um crescente desenvolvimento do conhecimento científico e conseqüentemente o
mito do especialista. Explique essa afirmação. Envie ao tutor.
3) Explique o que seriam as ciências positivas, segundo Comte.
4) Explique com suas palavras as poesias abaixo dentro da visão marxista. Entregue ao tutor.
O Homem e o Lobo
Um Homem disse a um Lobo: – Se tu não
fosses tão arrogante e prepotente,
ganharias a vida honestamente
e terias a minha proteção.
– Prefiro a liberdade a ter patrão. –
O Lobo retrucou. – De resto,
se eu fosse bom e me tornasse honesto,
me tratarias como um cão.
A Lesma
Exausta, a pobre Lesma da vanglória,
ao atingir o cume do obelisco,
disse, olhando da própria baba o risco:
– Meu rastro ficará também na história!
A focinheira
– Sabe que sou fiel e afeiçoado. –
Dizia o Cão ao Homem, disposto
a tudo, mesmo a ser sacrificado
cumprindo as suas ordens. – Isto posto,
quero falar, agora, com franqueza:
a focinheira põe-me deprimido;
por que não dá-la ao Gato, que é fingido,
apático e traidor por natureza?
O Homem responde: – Mas a focinheira
lembra sempre a existência de um patrão
que te protege e, de qualquer maneira,
é quem te ampara e te garante o pão.
– Já que assim é, o dito por não dito! –
corrige o Cão. – Desculpe-me a besteira.
E, desde aí, com ar convicto,
passou a falar bem da focinheira ...
Exercícios Complementares
1 - Leia o capítulo I do livro O Ponto de Mutação, de Capra, e destaque os valores que estão em crise na
sociedade atual e como o autor se posiciona em relação a esses valores.
2- Leia o artigo apresentado abaixo. Destaque as idéias principais de cada item e desenvolva uma análise
crítica.
ATREVA-SE A PENSAR COM LIBERDADE
Jutta Burggraf
Introdução
"Os pensamentos são livres", diz uma canção popular alemã. Compreende-se que tenha sido proibido cantála no terceiro Reich. Mas a ordem de "esquecê-la", própria de um regime totalitário, somente teve o efeito de
fazer com que fosse cantada com mais entusiasmo na clandestinidade, ou ao menos por dentro, no coração de
cada um, isto é, naquele lugar íntimo aonde as ordens não chegam e onde "os outros" não podem entrar.
Somos livres para pensar por nossa própria conta. Mas temos a coragem de fazê-lo de verdade? Ou será que
estamos, em vez disso, acostumados a repetir o que dizem os jornais e revistas, a televisão, o rádio, ou o que
lemos na Internet, ou o que acaba de afirmar alguma pessoa mais ou menos interessante com quem cruzamos
pela rua? Hoje, em muitos países, a autoridade que fiscaliza os pensamentos – a censura – parece ter
desaparecido. Mas isso não é verdade: apenas mudou de modo de agir; já não se vale da coerção, mas apenas
de uma branda persuasão. Tornou-se invisível, anônima, e disfarça-se de "normalidade", "bom senso" e "opinião
pública". Pede-nos apenas que façamos o que todos fazem.
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52
Somos capazes de resistir ao bombardeio constante desse "inimigo invisível"? Aprendemos já a exercitar
todas as nossas faculdades para discorrer e discernir? Pensar é, sem dúvida, uma grande coisa; mas, antes de
mais nada, é uma exigência da natureza humana: não devemos fechar voluntariamente os olhos à luz. Estamos
dispostos, no fim das contas, a ser ou chegar a ser "filósofos", a nos entusiasmarmos com a realidade, e buscar
o sentido último da nossa vida?
O Papa João Paulo II faz uma afirmação que, à primeira vista, parece atrevida: "Todo homem é, de certo modo,
filósofo, e possui concepções filosóficas com as quais orienta a sua vida"(1). Que quer dizer isso? Um professor
de Química, uma dona de casa, um taxista, uma ministra, um camponês, uma artista, um jogador de futebol –
todos filósofos?
A FILOSOFIA INICIOU-SE COM A HUMANIDADE
É comum exigir a presença de um especialista sempre que se quer tratar de temas de Medicina, Física,
Arquitetura ou Engenharia. Ninguém pode considerar-se capaz de responder com competência às perguntas
que surgem nestes campos se não tiver ao menos uma formação elementar nessas matérias. E nem sequer tenta
falar destes temas durante um churrasco ou uma excursão. Mas esse é precisamente o caso da Filosofia: todo o
mundo se atreve a falar de temas filosóficos. Até em alguns bares – quando o barulho o permite... – escutam-se
conversas profundas sobre o mundo, sobre o sentido da vida, ou sobre como é estranho que o tempo passe tão
rápido sem que possamos conservar o momento presente.
De fato, quantos dentre os que tiveram de ficar esperando numa estação de trem ou metrô, diante de um
relógio, não se converteram em filósofos?! É verdadeiramente impressionante: se olharmos uns instantes para
o relógio, observando como o ponteiro dos minutos e o dos segundos se movem, perguntamo-nos quase sem
reparar: "O que é o instante? O que significa o presente? Eu mesmo já me movo no futuro? Ou ainda estou no
passado?" "Hoje será o ontem de amanhã", diz o povo; e também: "Ao agora... logo me referirei com as palavras
há pouco". E Santo Agostinho afirmou: "Eu sei o que é o tempo, desde que não me perguntes".
É possível conversar sobre essa e sobre muitas outras questões quase em qualquer situação, de preferência na
natureza, nos montes ou nas praias. Por princípio, todo homem está capacitado para refletir sobre as dimensões
mais profundas da vida. Será que isso significa que todos nós, os homens, somos filósofos no sentido estrito da
palavra? Ou que não é necessário dispor de uma formação especial para exercer essa ciência? Nada disso.
Significa que a Filosofia é diferente do resto das ciências, e que todo homem capaz de raciocinar pode agir
como filósofo.
Todo ser humano, cedo ou tarde, questiona-se sobre o "porquê" e o "para quê" da sua existência, perguntase de onde vem e para onde vai, quem é, o que poderia fazer da sua vida. Nisto distingue-se dos animais. O
animal vive de um dia para o outro: come, bebe, dorme, cresce, corre de um lado para o outro, reproduz-se e
morre. Uma vida assim é boa e normal para um animal, mas não para uma pessoa.
Os filósofos da Antigüidade chegaram a dizer – talvez de maneira um tanto rude – que se uma pessoa não se
preocupa com as perguntas fundamentais da vida, e somente vive de um dia para o outro (de uma refeição para
a outra, de um jornal da televisão para o outro), terá "fracassado" na sua existência. No mais profundo do seu
ser, não terá chegado a se encontrar a si mesmo; não se terá "convertido num homem". Dito da maneira
tradicional: a sua existência não terá sido digna de um homem.
Quando se inicia a Filosofia? Segundo alguns peritos, com Tales de Mileto, no século VI antes de Cristo;
segundo outros, nasce com Homero no século IX antes de Cristo; e há também alguns, mais radicais, que
afirmam que, antes dos gregos, os povos orientais de alguma maneira já filosofavam… No entanto, se é verdade
que cada homem é filósofo, a Filosofia deve começar com a Humanidade. Nas bibliotecas alemãs, não é difícil
encontrar uma obra antiquada e coberta de pó, de vários tomos, escrita no século XVIII e intitulada História da
Filosofia – desde o começo do mundo até a nossa época. A capa do primeiro tomo mostra uma paisagem
selvagem, com um grande urso, e tem por título: "A Filosofia antediluviana"(2)...
No entanto, é um traço característico do nosso tempo o fato de não serem poucas as pessoas que parecem
carecer de inquietações intelectuais. Até se mostram "alegres" com um certo niilismo prático que não se
preocupa com o porquê da vida nem se formula a simples pergunta pelo sentido da existência. Encontramo-nos
perante o perigo de não viver a vida, mas de apenas "nos deixarmos levar". Às vezes, não dispomos da suficiente
calma interior para considerar os acontecimentos com uma certa objetividade, nem para tomar consciência da
nossa situação existencial. Não refletimos sobre o sentido e os objetivos da nossa própria atuação; em última
análise, não agimos como filósofos, prescindindo assim de uma dimensão essencial da vida humana.
Durante a Segunda Guerra Mundial, um jovem alemão, membro da resistência, que se encontrava na Rússia,
escreveu no seu diário um diálogo fictício com um dos seus chefes: "O homem nasceu para pensar…, para
pensar, querido funcionário! Essa palavra se dirige diretamente contra você, contra você e contra todo o
sistema que vocês montaram. Isso o surpreende porque, segundo você mesmo diz, você é uma pessoa que exalta
o espírito. Mas é a um espírito perverso que você está servindo nesta hora de desespero... Você reflete sobre o
aperfeiçoamento da metralhadora, mas a pergunta mais rudimentar, mais fundamental e importante, você a
silenciou na sua juventude; é a pergunta: Por quê? e Para quê?"(3).
Com efeito, simplesmente levantar essas perguntas é já um primeiro sinal de que uma pessoa se rebela contra
a perspectiva de viver como um animal. Via de regra, só é possível filosofar, é claro, quando as necessidades
básicas da vida estão ao menos minimamente cobertas. Mas mesmo que esse seja o caso, observamos uma certa
"apatia", uma certa "abstenção de pensar", justamente nas sociedades ocidentais consumistas.
INFLUÊNCIAS NEGATIVAS SOBRE A CAPACIDADE FILOSÓFICA
A nossa vida se converteu, em muitos sentidos, numa agitação contínua. Muitas pessoas sofrem as conseqüências
do stress ou do cansaço crônico. A dureza da vida profissional, e também as exigências exageradas da indústria
do ócio, trazem consigo umas obrigações excessivas, de forma que o único que se deseja à noite é descansar,
distrair-se dos problemas cotidianos, e não se esforçar com mais nada. Tudo isso pode levar a uma certa
"alienação espiritual", à superficialidade de uma pessoa que vive só no momento, para as coisas imediatas. Na
nossa sociedade do bem-estar, tão saciada, é com freqüência muito difícil pararmos para refletir.
Ao mesmo tempo, podemos observar que freqüentemente as pessoas decaem no instintivo, no puramente
sensual. Muitos filmes, revistas, talk-shows e até não poucas páginas da web falam claramente essa linguagem.
Mas uma pessoa que se deixa absorver pelo materialismo e pelo sensualismo fica embotada e cega para o
espiritual. Podemos nos acostumar a quase tudo, também a não usar o entendimento para fazer as críticas mais
elementares e necessárias.
Um excesso de informação também pode ser um impedimento. Vivemos na era dos meios de comunicação de
massa. Recebemos uma imensa quantidade de informação. Quem tenta ter acesso simultâneo a toda a informação
dos cinco continentes, quem não perde nenhum programa de televisão e nenhum comentário político, ou costuma
ver um filme atrás do outro, pode se converter numa pessoa muito superficial. Com freqüência, não temos nem
tempo nem forças suficientes para assimilar toda a informação recebida; além do mais, absorvemos
inconscientemente milhões de dados, por exemplo, quando damos um simples passeio pelo centro de uma cidade...
Isso me faz lembrar de um pequeno episódio que se conta da escritora alemã Ida Friederike Görres. Certa vez,
nos anos cinqüenta do século XX, perguntaram-lhe o que fazia para ter sempre idéias tão originais e julgar com
tanta clareza a situação da sociedade. Ela respondeu: "Não leio nenhum jornal. Assim posso concentrar as
minhas forças. O que for importante, acabarei por sabê-lo de um modo ou de outro". Naturalmente, essa atitude
é discutível e, na minha opinião, não deve ser imitada. Mas pode ser, sim, um convite para refletirmos.
Hoje, várias décadas depois, multiplicou-se enormemente o volume de informação que recebemos diariamente,
ao mesmo tempo que essa informação se especializou. Será difícil para uma pessoa converter-se em filósofo sem
uma certa "atitude de distanciamento" diante dos meios de informação. O escritor russo Dostoievski afirma:
"Estar sozinho de vez em quando é mais necessário para uma pessoa normal do que comer e beber"(4).
Ao longo da história, houve grandes pensadores que se separaram voluntariamente do burburinho da
sociedade. Não queriam distrair-se com banalidades. Um exemplo famoso da Antigüidade é Diógenes, que
morava feliz dentro de um barril e não se deixava incomodar por ninguém, segundo conta a tradição. E um
exemplo do nosso tempo é o filósofo austríaco Wittgenstein, filho de um industrial, que deu de presente aos seus
irmãos os milhões que tinha herdado. Preferia a austeridade às riquezas. Durante longo tempo não comeu
outra coisa além de pão e queijo; quando lhe perguntaram pela razão, respondeu simplesmente: "Para mim,
tanto faz o que como; o que importa é que seja sempre o mesmo"(5). Quando morreu, em 1951, suas últimas
palavras foram: "Diga-lhes que tive uma vida maravilhosa" (6).
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ATITUDES BÁSICAS PARA SE FAZER FILOSOFIA
Como se vê, essa capacidade básica que cada homem tem de se perguntar pelo sentido do mundo e da sua
própria existência pode desenvolver-se ao longo da vida ou pode corromper-se. Vamos considerar as atitudes
básicas que se exigem para que uma pessoa se converta num filósofo.
– Desprender-se do mundo diário
Segundo o filósofo alemão Josef Pieper, "filosofar é um ato que transcende o mundo do trabalho"(7). O
mundo do trabalho é aqui sinônimo de mundo no qual se tem de "funcionar", render, competir. De vez em
quando, convém distanciar-se de tudo isso: não dar atenção unicamente ao imediato (e afobar-se com ele),
mas sim olhar "em outra direção".
Afastar-se do mundo do trabalho é muito relaxante. Assim se pode descansar e cobrar novas forças para a
vida diária. Não se consegue somente quando se exerce a Filosofia. Também o poeta transcende a
cotidianidade; é capaz de esquecer-se de tudo, e de cometer loucuras. Quem ama também faz isso: o seu amor
o impele a deixar para trás todo o cálculo e a não se deixar comprometer por um mundo utilitário.
Ou seja: o filósofo se parece com um amante e com um poeta. Ele também ama: ama a verdade, anseia por
ela. Platão fala do "eros filosófico": afirma que a Filosofia se assemelha à loucura porque tira o homem do
seu mundinho e o conduz às estrelas. Todo aquele que sofre alguma comoção é convidado a transcender o
seu mundo cotidiano. É o que acontece quando alguém se encontra numa "situação-limite": quando se
enfrenta a morte, por exemplo, surge freqüentemente um ato filosófico – ou religioso.
A Filosofia, a arte, a religião e também o amor estão de certa forma relacionados. Opõem-se ao utilitarismo
do mundo do trabalho. Não se deixam "comercializar" ou utilizar para determinados objetivos. Se o fizessem,
a Filosofia e a Religião se transformariam em ideologias, e o amor numa indústria do sexo.
Em certo sentido é verdade que o filosofar "não serve para nada". É, por assim dizer, inútil. E agora a frase
forte: nem pode, nem deve servir para nada!, precisamente porque deve e quer superar o pensar utilitário.
Martin Heidegger diz: "É completamente correto, e assim deve ser: a Filosofia é inútil"(8).
Com a Filosofia – tal como ocorre com a poesia – transcendemos o cotidiano. Isso às vezes é necessário
para "sobreviver" num mundo difícil: é um modo de manter a serenidade, se o dia-a-dia for insuportável.
Nietzsche diz que Sócrates se refugiou na Filosofia porque tinha uma mulher insuportável, a famosa Xantipa,
que ralhava com ele sem parar. A tradição conta que, certa vez, Xantipa despejou um balde de água suja pela
janela, bem sobre Sócrates, que se encontrava em baixo com os amigos conversando sobre temas filosóficos.
Os amigos zangaram-se, mas Sócrates permaneceu impassível: "Na minha casa chove quando há tormenta".
E os amigos concluíram: "Se Sócrates sabe lidar com Xantipa, sabe lidar com qualquer outra pessoa"(9).
Quando uma pessoa transcende o mundo cotidiano, nega a "exigência totalitária" do mundo do trabalho:
afirma que a profissão, por mais importante que seja, não deve absorver completamente as faculdades
humanas nem pode satisfazer todos os desejos do coração humano: há algo mais a que nos queremos dedicar.
Nisto estiveram de acordo todos os filósofos, poetas e apaixonados de todos os tempos. O filósofo tem, pois,
muito mais em comum com um poeta, por exemplo, do que com um empresário; o que não quer dizer que um
empresário não possa nem deva também exercer a Filosofia.
– Fomentar a admiração
O filósofo medieval Tomás de Aquino afirma: "A razão pela qual o filósofo se compara com o poeta é esta:
ambos são capazes de se admirar"(10). Uma pessoa que filosofa, reconhece e admite a sua própria falta de
conhecimentos; abre-se a uma verdade maior e deixa-se fascinar por ela. A admiração é, segundo os antigos,
o começo da Filosofia. Conta-se que alguns grandes filósofos eram capazes de tal admiração que, literalmente,
esqueciam o que se passava à sua volta. Tales de Mileto, por exemplo, mesmo no meio de uma batalha, ficou
parado de repente ao lhe ocorrer uma idéia, e não viu que o inimigo se aproximava... E Tomás de Aquino foi
o único que esteve calado durante um solene banquete ao qual o rei da França o havia convidado, enquanto
todos os outros estavam entretidos em conversas cultas; de súbito deu um soco na mesa e exclamou: "É isso!"
Tinha encontrado um argumento contra os maniqueus(11).
A Filosofia tem um caráter essencialmente não-burguês, pois admirar-se não é de "burgueses": não é de aburguesados
insensíveis, que dão tudo por sabido. Só são capazes de admirar-se quando ocorre algo muito extraordinário, como
um escândalo. Por isso, a indústria recreativa se torna cada vez mais agressiva. Se uma pessoa necessita de fatos
sensacionais para conseguir admirar-se ou comover-se, isso é sinal certo de que não age como filósofo.
O admirar-se não é princípio da Filosofia somente no sentido de initium, de passagem preliminar ou começo.
É o principium: origem interior do filosofar. A admiração não se põe entre parênteses, nem se deixa de lado, por
mais avançado que esteja o filósofo. Sempre que uma pessoa filosofa, admira-se; e na medida em que crescem os
seus conhecimentos, deve crescer a sua capacidade de admiração. Tomás de Aquino define a admiração como
desiderium sciendi, o anelo e desejo de saber cada vez mais. A pessoa que se admira é aquela que começa a
andar, que deseja saber mais e mais, e tenta chegar ao fundo de todas as coisas. Por isso, Goethe, o grande
escritor alemão, afirma: "O máximo que um homem pode alcançar é a admiração"(12).
O filósofo admira-se. Descobre, naquilo que é cotidiano e comum, o que há de realmente extraordinário e
insólito. Sabe entusiasmar-se com uma brisa ou com um dente de leão, tal e como o faria um poeta, um apaixonado
ou um menino. Tomás de Aquino disse que não podíamos captar nem a essência de uma mosca; ou seja, que é
possível até admirar-se infinitamente diante de um mosquito. (Um filósofo também é capaz de meditar
profundamente sobre situações familiares e sociais, sobre problemas humanos de qualquer tipo...).
– Despir-se de preconceitos
Filosofar significa abrir horizontes, dirigir o olhar para a totalidade do mundo; o nosso espírito é, de alguma
maneira, uma "força para obter o infinito"(13). Deve-se então falar sempre de tudo ao filosofar? Claro que não!
Isso não é possível; além disso, o resultado só poderia ser um caos! Mas uma pessoa tem que estar disposta a
falar de tudo! Nunca deve perder de vista "Deus e o mundo". Não deve deixar nada de lado arbitrariamente se
quiser chegar ao fundo das coisas.
O filósofo como tal tem que estar disposto a enfrentar "tudo", a prestar atenção a "tudo". Isso não significa, é
claro, que se ocupe de infinitas minúcias. Como acabamos de ver, um excesso de informação pode impedir a
atitude filosófica. Mas é preciso estar disposto a não deixar de lado nada que a princípio possa ser essencial.
Ter uma atitude crítica significa para o filósofo: "ter a preocupação de nada deixar conscientemente de lado"(14).
Como é evidente, a "totalidade" da realidade não é idêntica a um resultado obtido por uma soma que inclua
tudo e um pouco mais. Aquele que entenda muito de Biologia, de Literatura, de receitas de cozinha, de futebol,
de política internacional e da vida particular de todos os artistas e príncipes, não é por isso um filósofo. A
Filosofia trata do todo, de uma compreensão "estruturada" do mundo, e que possui uma hierarquia: o essencial
se reconhece como essencial, o não essencial como não essencial.
Um filósofo autêntico trata simplesmente de não excluir ou omitir nada intencionalmente. Tem amplos horizontes:
com ele se pode falar de tudo! Para ele não existem tabus nem sistematizações precipitadas que ignoram tudo
aquilo que não concorde com o seu sistema, barrando qualquer nova conversa sobre o assunto. A Filosofia não
aceita limitações arbitrárias, pois se o fizesse perderia a sua própria identidade, convertendo-se em ideologia.
Neste sentido, Goethe julga muito negativamente alguns filósofos do seu tempo, que pretendem "dominar Deus
e o espírito humano" e "encaixotam todo o Universo dentro de diferentes sistemas"(15).
Esse "enfrentar-se com tudo" tem mais a ver com a profundidade do que com a extensão. O filósofo não somente
olha além, não somente ergue a vista acima da vida cotidiana, transcendendo o mundo, mas também sabe
dirigir a sua atenção para as coisas que o cercam, vendo-as com exatidão. Pergunta pelas razões últimas. Não
lhe interessa saber, por exemplo, qual a forma mais rápida de ganhar dinheiro, mas o que é em si o poder da
riqueza, e o que ela significa para o Homem.
Quem quiser ter uma visão da "totalidade do real" logo perceberá que isso é quase impossível. O mundo é
muito maior do que a nossa capacidade de compreensão. O ato filosófico não consiste, antes de mais nada, em
"pensar muito", mas em contemplar a realidade, escutar com atenção, em calar: "escutar tão plenamente que
esse silêncio atento não seja perturbado nem interrompido por nada, nem sequer por uma pergunta"(16). (A
natureza da pergunta encerra uma determinada orientação da resposta, e isso significa uma limitação). Pieper
fala da "franqueza ilimitada" com a qual se deve escutar o mundo. O filósofo considera o mundo "sob qualquer
aspecto concebível", e não só sob alguns aspectos concretos, como o fazem as ciências particulares"(17).
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Subentende-se que esse silêncio não guarda nenhuma relação com uma passividade neutra; pelo contrário:
pressupõe um compromisso máximo. Pois do que se trata é de não querer deixar nada de lado, de considerar
todos os aspectos, sem se deixar cegar por preconceitos. (Numa disputa, deve-se escutar todos os participantes
com igual atenção). Para um autêntico filósofo, não existem nem temas que se devam excluir, nem "temas
sensacionais", nem "pessoas etiquetadas". Pieper diz que estar aberto ao mundo é como que a "característica
distintiva" do verdadeiro filósofo"(18).
– Adquirir certa independência para julgar e refletir
Uma pessoa que queira pensar por conta própria há de estar disposta ao inconformismo. Filosofar significa
distanciar-se, não apenas (ou nem sempre) do cotidiano, mas das interpretações comuns, da opinião pública
ou publicada, da "intimidação" que os meios de comunicação às vezes podem causar. Os autênticos filósofos
sempre foram contra a corrente. São os que vêem o que todos vêem, mas se atrevem a pensar o que talvez
ninguém à sua volta pensa. Os que agiram assim, às vezes até sofreram a morte por isso (como Sócrates), mas
não deixaram de se opor a todo tipo de regime totalitário.
A Filosofia exige independência. Tem de poder desenvolver-se sem que nenhuma normativa oficial a impeça.
Pieper exige para cada comunidade humana um espaço livre em que seja possível o debate sem restrições sobre
qualquer questão que ocupe as mentes (19). Se isso não é possível, é sinal de que essa sociedade tem vestígios
totalitários.
No entanto, mais importante ainda que a liberdade exterior é a liberdade interior. Significa querer
incondicionalmente a verdade e não se deixar hipnotizar nem manipular por nada. As situações podem ser
favoráveis ou contrárias à liberdade, podem ser a razão de que ela aumente ou diminua, mas não intervêm
essencialmente no ato livre. Assim, uma pessoa está de certo modo condicionada pelo país, pela sociedade,
pela família na qual nasceu; está condicionada pela educação e pela cultura recebidas, pelo próprio corpo,
pelo seu código genético, pelo seu sistema nervoso, pelos seus talentos e limites, e por todas as frustrações que
teve. Mas mesmo assim, apesar de tudo isso, é livre: é livre para opinar sobre todas essas condições.
Um homem pode ser livre até numa prisão, como o demonstraram Boécio, São Thomas More, Bonhoeffer e
muitos outros. "Há algo dentro de você que não podem atingir, que não lhe podem tirar: é seu!": isto, um preso
o diz a outro num diálogo impressionante do filme “Um sonho de liberdade”. Um homem pode ser livre também
num sistema totalitário, embora as ameaças e o medo reduzam a liberdade. Pode manter uma fé, um desejo ou
um amor no interior da alma, embora externamente se decrete a sua abolição absoluta. Assim, Sakharov foi
grande não só como físico, mas sobretudo como homem, como apaixonado lutador pela liberdade de cada
pessoa humana. Pagou por isso o preço do sofrimento que lhe foi imposto pelo regime comunista, cuja
mendacidade e desumanidade revelou aos olhos do mundo. Outro dissidente famoso confessou publicamente:
"Bendita prisão, que me faz refletir, que me faz homem!" (Alexander Solchenitsin).
– Humildade intelectual
Apesar de tudo isso, não devemos superestimar-nos. Por mais que uma pessoa tenha uma experiência
sumamente rica e uma compreensão profunda da vida humana, não deve perder o sentido da realidade:
o filósofo não é "o sábio por antonomásia", mas aquele que ama a verdade, aquele que sente ânsias por
compreender os últimos porquês do mundo, aquele que se esforça por ver relações. Filosofia significa amor
à sabedoria, procura da sabedoria, de uma sabedoria que nunca se chega a possuir plenamente.
A pessoa que se admira é consciente de não saber nada. É célebre a frase de Sócrates, que admite: "Só sei que
nada sei". Em certa medida, aplica-se a qualquer cientista. Hoje estamos muito sensibilizados quanto ao fato de
nenhuma pessoa poder "saber tudo", nem sequer numa subdisciplina delimitada. Começa-se por estudar algo,
mas não se chega ao fim; constantemente se descobrem mais e mais campos de pesquisa. A especialização
avançou muito: um Psiquiatra não sabe quase nada de Oftalmologia; um Historiador que conhece a fundo o
século XVI mal tem idéia do XVII. Biólogos escrevem teses sobre o bico do pintassilgo, mas não conhecem a sua
cauda. Tudo isso não tem importância, pois temos uma mente limitada. Só que hoje voltamos a ser conscientes
disso, ou pelo menos muito mais conscientes do que durante as últimas décadas de fé cega na Ciência.
Sócrates é tão atual! Não disse apenas: "Só sei que nada sei", coisa que podemos compreender muito bem nos
nossos dias; também afirmou: "Jamais fui mestre de ninguém", querendo indicar com isso que não é possível
dividir a Humanidade em duas "classes": "os que sabem" e "os que não sabem", os "sábios" e os "néscios".
Todos estamos buscando a verdade, ninguém a possui por completo. Cada um pode aprender com os outros.
Hoje temos uma sensibilidade especial para essas relações. Quem pretendesse mostrar que sabe tudo logo
cairia no ridículo. Esse tipo de atitude já não impressiona ninguém. Tornamo-nos céticos diante das construções
sistemáticas. Vimos ruir, da noite para o dia, sistemas ideológicos gigantescos, e ao mesmo tempo presenciamos
como cambaleiam um sem-número de tradições fundamentais da cultura ocidental.
Não há porque ficarmos deprimidos perante essa situação. Sofrer de vez em quando algumas comoções
fortes pode ser até benéfico para uma pessoa e para toda uma sociedade. Uma crise não é uma catástrofe.
Pode servir para que voltemos a tomar consciência dos nossos próprios fundamentos. É uma oportunidade
para nos transformarmos mais conscientemente em alguém que busca, que adota a atitude filosófica. É
provável que assim reconheçamos, cada vez mais claramente, quão necessário é mudar a forma de pensar em
determinados âmbitos.
DESAFIOS E LIBERDADE
Filosofar significa de certo modo, como dissemos, afastar-se do mundo do trabalho. Esse passo transcendente
não está condicionado somente pela origem, mas sobretudo pela meta, que consiste em adquirir, na maior
medida possível, conhecimentos sobre o sentido do nosso mundo. Baseia-se na convicção de que a autêntica
riqueza do Homem não está em saciar as suas necessidades cotidianas, "mas em saber ver aquilo que existe"(20).
Neste sentido, a Filosofia não está reservada aos especialistas. Poder-se-ia dizer que é um dom e uma tarefa
para todas as pessoas. Por conseguinte, teria que ser a coisa mais normal do mundo começar conversas
filosóficas, não só na Universidade, mas também nas ruas e em pleno centro da cidade. Mas então reparamos em
algo curioso que, é claro, se pode observar em todas as épocas e em todas as sociedades: os filósofos, com muita
freqüência, são uns marginalizados! Neste mundo do dinheiro e do êxito, pode ocorrer até que inspirem aos
outros um sentimento de pena ou de incompreensão.
Vimos que a Filosofia, por natureza, não é "comercializável"; opõe-se ao mundo do trabalho. Por isso, muitas
vezes, traz o estigma do esquisito, de um mero luxo intelectual que talvez se possa tolerar, mas que também é
ridicularizado. Com freqüência, o filósofo "não tem os pés no chão". Se admira o céu estrelado, o dente de leão
e o mosquito, às vezes o faz por necessidade, por não poder suportar o mundo do cotidiano. Xantipa fazia com
que o seu lar não fosse acolhedor, e então Sócrates subiu ao telhado da casa, pois olhar o céu estrelado era
mais atrativo... Mas de tanto olhar para o céu pode-se chegar a estar no mundo da Lua: essa é, por assim dizer,
a "doença profissional" do filósofo.
Existe, realmente, uma certa problemática: o filósofo, com alguma freqüência, não vê o mundo cotidiano. Olha
para o céu; mas ninguém pode viver assim constantemente! Não somos espíritos puros. Temos um corpo, e temos
que comer, beber e dormir. Precisamos de um teto e de uma segurança social. Com outras palavras, não nos
basta só o "céu estrelado", mas também precisamos de um espaço protegido, um lar. Também nos faz falta um
ambiente familiar, o concreto, a sensação de que somos acolhidos e acompanhados. Se todo mundo se dedicasse
a fitar o céu estrelado a vida se tornaria inóspita.
Quando me dói a cabeça, não quero que fiquem olhando para mim, sem fazer nada a não ser admirar-se ou
filosofar sobre "o mal da doença": quero que me dêem um analgésico! Também é certo que, sem a base material
que torna possível a existência física, ninguém pode filosofar. É difícil meditar sobre o mundo na sua totalidade
quando se está construindo uma casa, ou se tem um pleito, ou se está estudando para uma prova importante; e
muito mais quando se passa fome ou se sofrem os efeitos de uma enfermidade dolorosa.
A admiração não fornece habilidades nem aumenta o senso prático: admirar-se significa "comover-se". Mas
ninguém pode passar a vida toda na pura contemplação da verdade. Pois o homem não pode viver, a longo
prazo, só de sentir-se comovido. De fato, ao encontrar a verdade, surge o desejo de transmiti-la: assim pode
nascer a figura do professor de Filosofia ou do escritor-filósofo.
Dos começos (conhecidos) da Filosofia Ocidental, foi-nos transmitida uma história bastante significativa:
como Tales de Mileto, ao passear contemplando o céu, em certa ocasião caiu num poço. Uma criada que
presenciou o fato, riu-se às gargalhadas. Platão comenta a respeito: "O filósofo costuma ser um motivo de
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riso sempre renovado, não só para as criadas, mas para muita gente, porque ele, alheio às coisas do mundo,
cai num poço e se mete em muitos outros apuros"(21). Esse é o dilema do filósofo: vive num mundo onde seus
coetâneos se orientam por aspectos pragmáticos como o dinheiro e o êxito; ele, pelo contrário, se dedica a algo
que se opõe diametralmente às ambições dessas pessoas, ou pelo menos se pode dizer que se dedica a algo que
não é "útil", que não é "prático".
O que não é "útil" não costuma ser levado a sério. Mas isso é somente um aspecto (o negativo) da
impossibilidade de ser comercializado. O lado positivo é a liberdade que isso traz consigo. Por um lado, a
Filosofia é inútil, no sentido de que não tem um uso ou uma aplicação diretos. Por outro, a Filosofia se opõe a
ser utilizada: não está disponível para objetivos que estejam fora dela. A Filosofia não é "sabedoria de
funcionário", mas – como disse John Henry Newman –, "sabedoria de cavalheiro (gentleman)"(22); não é
sabedoria útil, mas sabedoria livre.
Muitos riem do filósofo, mas ele é livre. É claro que tem consciência da sua situação, mas não se importa com ela,
pois é independente do que os outros pensem dele. Platão, além do mais, vira a coisa do avesso: os outros ("os
homens do dinheiro") também se expõem ao ridículo precisamente por perseguirem objetivos tão pouco nobres.
E quando se trata de questões essenciais, não sabem o que dizer, e então é a vez de os filósofos rirem (23).
O conceito de liberdade significa aqui, como vimos, a não-disponibilidade para objetivos concretos. O ato de
filosofar é livre na mesma medida em que não remete a algo que esteja fora dele. É "um afazer pleno de sentido
em si mesmo"(24). Vê-se, outra vez, que o filósofo é semelhante à pessoa que ama: também não é possível amar
alguém para conseguir algo! Precisamos de médicos para diagnosticar doenças, precisamos de pedreiros para
construir casas, mas não precisamos de filósofos para as nossas necessidades imediatas nem para justificar as
nossas ações! Se um Estado precisa de filósofos para justificar a própria política, então a Filosofia será
destruída. Pelo contrário: precisamos deles, sim, para que nos ajudem a nos compreender e a compreendermos
os outros.
Um filósofo, portanto, costuma viver como um inconformista, às vezes como um marginalizado, e pode ser
considerado louco. É alguém que não se deixa bajular nem usar para objetivos estreitos, como por exemplo
fornecer a ideologia adequada a um regime totalitário. Ao mesmo tempo, está cheio de anseios pela verdade.
A sua meta é captar os fundamentos da existência, e sabe que só o conseguirá de maneira muito imperfeita,
embora o seu esforço seja muito grande. Não é tanto uma pessoa que conseguiu elaborar com êxito um
conceito do mundo bem arredondado; é antes alguém que está ocupado em conservar viva uma certa pergunta:
aquela que se refere ao último porquê da totalidade do real (25).
Não há dúvida de que é possível encontrar uma série de respostas provisórias a essa pergunta, mas nunca se
poderá encontrar a resposta definitiva. É por isso que devemos estar dispostos a formulá-la constantemente e
durante toda a vida. Dar-se por vencido, resignar-se, porque nunca se irá encontrar a verdade na sua totalidade;
dar-se por satisfeito com qualquer solução que só pode ser provisória; desistir de continuar perguntando, é
sinal de que a pessoa se converteu num aburguesado. Filosofar significa precisamente a experiência de que,
embora a nossa vida cotidiana, condicionada por objetivos existenciais diretos, seja importante e necessária,
não basta: pode e deve ser abalada de vez em quando pela a inquietante pergunta sobre o sentido do todo.
UMA META QUE ABRE NOVOS HORIZONTES
A capacidade de admirar-se faz parte das possibilidades máximas da nossa natureza. Ajuda-nos a perceber
que o mundo é mais profundo, extenso, misterioso, belo e diferente do que parece à luz do entendimento
cotidiano. Da admiração nasce a alegria (26), afirma Aristóteles. E a mesma coisa se exprime com o ditado
"tomar algo com filosofia": não significa encarar as coisas com resignação, nem com gravidade, mas encarálas serenamente. Pieper fala da "intrínseca esperança contida na admiração"(27).
A pessoa que se admira não fica encerrada no seu mundinho. Boécio escreveu na prisão, às vésperas da morte,
o seu célebre livro sobre “A consolação da filosofia”. O enfoque interior da admiração mantém vivo o
conhecimento de que a existência é incompreensível e misteriosa, mas também está repleta de sentido. E, na
medida em que se descobre o sentido da própria existência, pode-se experimentar uma felicidade profunda.
Quando alguém se dedica à Filosofia, vai-se aproximando de uma iluminação sobre a realidade. E, embora
alcance a verdade sobre a existência, sobre o Homem e sobre o mundo, sempre poderá aprofundar mais, porque
o saber fechado e a Filosofia são mutuamente exclusivos! (A Filosofia não produz "receitas de bolo"). Quanto
mais profunda e extensa se torna a compreensão, mais esmagadora é a visão do imenso campo daquilo que
ainda falta compreender. Por isso, o começo e o fim da Filosofia estão caracterizados pela escuta da realidade,
pelo silêncio, pela "contemplação". O filósofo grego Anaxágoras respondeu, quando lhe perguntaram para
que estava na Terra: "Estou na Terra para a contemplação do céu e da ordem do Universo"(28). Uma resposta
que se pode considerar religiosa.
Finalmente, a Filosofia prepara e liberta o Homem para a experiência de Deus. Torna-o capaz de "transcenderse" mais uma vez. Desemboca numa verdade maior, na Teologia. Aristóteles não duvidou em qualificar a
Filosofia como "ciência divina"(29). E Wittgenstein, que tinha uma certa visão mística do sentido da vida, pôde
afirmar: "O filósofo pergunta pelo sentido. Só se acreditarmos em Deus é que descobriremos que a vida de fato
tem sentido"(30). Pode-se descobrir um mundo cada vez mais extenso e profundo. Mas nem mesmo então se
encontram "soluções fáceis" ou "soluções prontas" para as grandes perguntas da vida, e menos ainda
sistematizações. Quanto mais se conhece o mundo, mais se percebe o seu caráter misterioso.
A Filosofia, pois, encontra-se a caminho de uma meta que nunca alcançará por seus próprios meios. "Sentimos
que, ainda que todas as perguntas científicas tivessem sido respondidas, não teríamos nem começado a tocar os
nossos problemas existenciais"(31), diz Wittgenstein. Comparada com a Teologia, a Filosofia só pode chegar
a um conhecimento muito limitado. "Mas esse pouco que se ganha com ela, não obstante vale mais do que todo
o resto que se conhece pelas ciências"(32), afirma Tomás de Aquino.
Portanto, só se pode convidar todas as pessoas de boa vontade a serem, cada uma, um filósofo, mesmo
correndo o perigo de serem consideradas pela nossa sociedade consumista como "estranhas", inconformistas
ou "loucas". Para terminar, podem animar-nos as palavras de um autor contemporâneo: "Quem jamais teve um
ataque filosófico, passa pela vida como se estivesse trancado numa prisão: trancado por preconceitos, pelas
opiniões da sua época e da sua nação"(33). Quem não pensa por conta própria não é livre.
http://www.quadrante.com.br/Pages/servicos02.asp?id=63&categoria=Filosofia, acesso em 15/07/2005.
2- Assista ao filme Matrix I e faça uma análise sobre o filme dentro de uma abordagem filosófica, enfocando a
idéia passada pelo filme de que a humanidade está "adormecida" em sua ignorância e só conseguirá acordar ao
buscar o conhecimento.
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Glossário
Corporeidade:
Termo utilizado por Heidegger, "significando realidade humana, ente humano, a quem somente o ser pode
abrir-se. [...]. Heidegger prefere utilizar a expressão ‘ser-aí’. [...] é o ser do existente humano enquanto existência
singular e concreta" (JAPIASSU e MARCONDES, 1995: 64-5).
Conhecimento Objetivo:
Conhecimento objetivo é aquele fundado na observação imparcial, independente das preferências individuais.
Conhecimento resultante da descentralização do sujeito que conhece, pelo confronto com outros pontos de vista.
Conhecimento Subjetivo:
Conhecimento subjetivo é aquele que depende do ponto de vista pessoal, individual, não fundado no objeto,
mas condicionado somente por sentimentos ou afirmações arbitrárias ao sujeito.
Cosmologia:
Ciência que estuda o cosmos, sua origem, sua evolução e seu propósito. Imagem de mundo que uma sociedade produz para orientar-se nos conhecimentos e para situar o lugar do ser humano no conjunto dos seres.
Ética:
A palavra ética vem do grego ethos, que significa o modo de ser, o caráter das atitudes humanas. Os romanos
traduziram o ethos grego, para o latim mos que significa costume, origem da palavra "moral". Ethos (caráter) e
mos (costume) conceituam um comportamento propriamente humano que não é natural, porque o ser humano
não nasce com ele como se fosse um instinto, mas, o vai adquirindo à maneira que segue vivendo.
Existência:
"O vocábulo existência, ponto básico da filosofia de Kierkegaard, é introduzido no léxico filosófico a partir do artigo
de Gabriel Marcel, Existence et objectivité, publicado na Renue de méttaphysique et de morale, 1925, pág. 175.
A partir do 'ser-aí', Heidegger mostra a especificidade do ser do homem, que é a existência. Se o homem é
lançado no mundo de maneira passiva, pode tomar a iniciativa de descobrir o sentido da sua própria existência
e orientar suas ações nas direções as mais diversas" (ARANHA e MARTINS, 1989: 325).
Fenomenologia:
O termo provém de duas palavras gregas, phainomenon e logos. Assim, seu sentido primeiro é ciência ou
estudo dos fenômenos. A amplitude desse sentido permite identificar a fenomenologia com a própria investigação filosófica, uma vez que esta deve, necessariamente, partir disso que se apresenta, dos fenômenos, de modo
a conferir-lhes uma unidade de sentido.
Gnosiologia:
Também chamada por vezes de gnoseologia, ou Filosofia do Conhecimento, estuda a capacidade humana de
conhecer. A raiz filológica do termo vem das palavras gregas gnose (conhecimento) e logos (ciência, teoria).
Ideologia:
O termo se compõe de duas palavras gregas: (eidos = idéia ) + ( logia = estudo, investigação, ciência ).
O termo foi criado por Destutt de Tracy (1754 - 1836), em 1796. Com essa palavra ele queria designar uma
"nova" disciplina filosófica, cujo objetivo seria o estudo das idéias. Em pouco tempo, porém, o sentido
específico pretendido por Tracy praticamente cai em desuso. Quando Tracy ainda era vivo, foi empregado
para designar tanto o pensamento filosófico como a atividade intelectual em geral. Assim os pensadores,
especialmente os pensadores franceses do século XVIII que exaltavam temas políticos, serão chamados
também de ideólogos.
Após a Revolução Francesa (1789 - 1799), o termo adquiriu um sentido diferente graças a Napoleão Bonaparte.
O general francês, respondendo às críticas que lhes eram feitas por um grupo de intelectuais, chamou-os
pejorativamente de "esses ideólogos", dando um caráter depreciativo à palavra. Napoleão pretendeu realçar
o fato de que estes não sabiam o que diziam ou que falavam muito e nada faziam. Assim, no sentido napoleônico,
ideologia significa um conjunto de idéias ocas que a nada leva e que não corresponde à realidade dos fatos.
Esses sentidos predominam até Karl Marx (1818 - 1883) e Friedrich Engels (1820 - 1895). Os dois darão um
sentido específico ao termo. A filosofia desenvolvida por esses dois filósofos é normalmente conhecida como
marxismo. Do ponto de vista filosófico, a denominação dada ao marxismo é Materialismo Histórico-Dialético.
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O marxismo é, sobretudo, uma filosofia quase voltada para o tratamento de questões ligadas às áreas social,
econômica e política. Ele surgiu num ambiente que parecia pedir o aparecimento de um salvador para as
classes menos favorecidas.
Intencionalidade:
“A intencionalidade é a característica definidora da consciência, enquanto necessariamente voltada para um
objeto: ' Toda consciência é consciência de algo'. A consciência só é consciência a partir de sua relação com o
objeto, isto é, com um mundo já constituído, que a precede. Por outro lado, esse mundo só adquire sentido
enquanto objeto da consciência, visado por ela” (JAPIASSU e MARCONDES, op. cit.: 134).
Ontognoseológico:
“Termo derivado das palavras onto e gnose. "Onto vem de on (ente) e onta (entes), os quais vêm do substantivo to on: o Ser" ( CHAUÍ, 1995: 238); gnose em grego significa conhecimento e logos, teoria ou ciência.
Teoria do conhecimento que tem por objetivo a origem, a natureza, o valor e os limites da faculdade de
conhecer” (JAPIASSÚ e MARCONDES, op. cit.: 111). A partir dessas derivações, o termo gnoseológico é a
ciência que procura conhecer o Ser.
Percepção:
"Do latim perceptio. Ato de perceber, ação de formar mentalmente representações sobre objetos externos a
partir dos dados sensoriais" (JAPIASSU e MARCONDES, op. cit.: 192)
Silogismo:
Tipo de raciocínio dedutivo que, de uma proposição geral, conclui outra proposição geral ou particular.
Aristóteles elaborou uma teoria do raciocínio como inferência. Inferir é tirar uma proposição como conclusão de
uma outra, ou de várias outras proposições que a antecederam e são sua explicação ou causa. O raciocínio é
uma operação do pensamento realizada por meio de juízos e enunciada lingüística e logicamente pelas proposições encadeadas formando um silogismo.
Sofisma:
Tipo de raciocínio incorreto, embora tenha a aparência de correto. É conhecido também como falácias e/ou
paralogismo. Alguns estudiosos dão ao sofisma o sentido pejorativo decorrente da intenção de enganar o
interlocutor, enquanto no paralogismo não haveria esta intenção.
Totalitarismo:
Sistema político no qual todas as atividades do ser humano estão submetidas ao estado.
A crítica ao liberalismo e a concepção individualista de homem, a hostilidade aos princípios da democracia, a
valorização das elites e do papel do mais forte levam à exaltação do estado.
Gabarito
UNIDADE I
Página 24
1 - O mito era importante pois oferecia uma explicação do mundo e do homem através das fabulações.
2 - O mito enfraquece ou se extingue a partir da reflexão filosófica, pois acaba por desvelar o que está por trás
do mito.
3 - O futebol pode ser considerado um mito, a partir do momento em que é interpretado como um fenômeno em
que o telespectador se coloca na figura do jogador e se realiza como ser especial, possuidor de valores até então
não alcançados por ele. Torna-se um ritual, pois costuma repetir determinadas ações e atitudes que inicialmente
se deram pela aprovação ou sucesso do time e faz a associação. E é magia pois transmite todo um conteúdo
mágico, sobrenatural do fenômeno.
4 - Conhecimento, acomodação e organização social.
5 - Anaxímenes sustentava que a fonte de todas as coisas seria o ar ou o vapor. Achava também que o
fogo seria o ar refeito. Para Empédocles, a Natureza seria feita de quatro elementos básicos: terra, ar,
fogo e água. Todas as coisas seriam uma mistura desses elementos, em proporções variadas. Demócrito
achava que todas as coisas seriam feitas de partículas minúsculas e indivisíveis, chamadas átomos.
Segundo Demócrito, haveria um grande número de diferentes tipos de átomos, cada qual com ganchos
e engates, permitindo-lhes se encaixarem uns nos outros para formar todos os tipos de objetos diferentes
encontrados no mundo.
6 - Significa o mundo ordenado pela razão. É o início da filosofia no mundo grego antigo.
7 - A idéia central consistia em buscar respostas às questões fundamentais do homem na idéia de Deus.
8 - As tendências filosóficas são a Patrística, destacando Santo Agostinho, influenciado pelas doutrinas
platônicas (Platão); e Escolástica, destacando Santo Tomás de Aquino, influenciado pelas doutrinas
aristotélicas (Aristóteles).
9 - A idéia central é a busca do conhecimento através da razão, a qual permitiu que muitas das questões
humanas pudessem ser desvinculadas da fé religiosa.
10 - A Filosofia é um modo de pensar os acontecimentos além das aparências (os outros conceitos servirão
para orientá-lo).
11 - No início da Filosofia, ela estava ligada à Ciência, mas, depois de Galileu, as duas se separaram.
12 - Radical, rigoroso e de conjunto.
13 - Resposta pessoal.
14 - É a superação da imanência do homem.
UNIDADE I
Página 27
1 - Envie o resultado deste trabalho para o tutor.
2 - Resposta Pessoal.
63
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3 - O período medieval teve influências de Platão e Aristóteles; mas o Platão vindo do neoplatonismo (da
Filosofia de Platino, do séc. VI d.C.) e o Aristóteles traduzido pelos árabes; o período renascentista descobre
obras de Platão e Aristóteles desconhecidas na Idade Média e ainda recupera obras dos grandes autores e
artistas gregos e romanos.
Durante o período medieval, surge a Filosofia cristã, que é a linguagem que tenta falar dos dogmas, da Teologia;
no período renascentista, um dos pensamentos que dominavam era contra o poder hierárquico da Igreja.
4 - Mudança do foco de indagações para o intelecto do homem;
Tudo que pode ser conhecido deve ser transformado em conceito;
A realidade é concebida como um sistema racional de mecanismos físico-matemáticos.
5 - Iluminismo.
6 - Resposta pessoal.
UNIDADE II
1 - O avanço científico e tecnológico provocado pela fragmentação do conhecimento levou a ascenção de uma
visão dualista, provocando ora uma valorização exagerada do modo idealista, ora do realista, impedindo que o
homem desse conta da complexidade humana e da inserção natural à unidade.
2 - As teorias dualistas fragmentaram a noção de homem, enquanto que a visão unicista procura compreender os
vários aspectos que compõe o ser humano, seja os aspectos genótipos, sejam fenótipos, possibilitando a compreensão
tanto da dimensão físico-biológica, quanto social, psicológica, econômica, política e planetário-cósmica.
3 - Visão dualista: fraciona os problemas, atrofia as possibilidades de compreensão, o Ser do Homem deixa de
ser o objetivo e o fim tornando-se o meio, e a técnica predomina sobre o Ser.
Visão unicista: centrada na totalidade, propõe a superação da dicotomia, o mundo é um mundo das incertezas,
da complexidade.
UNIDADE III
Todas as questões devem ser encaminhadas ao tutor.
UNIDADE IV
1a) Propôs que se fizesse um estudo científico da sociedade, considerando o homem como um ser social.
b) Levou a compreender que os primeiros fatos humanos foram resultados da luta pela sobrevivência,
evidenciando que o plano econômico comanda todos os outros planos da existência humana.
2 - Envie ao tutor.
3 - As ciências positivas, segundo Comte, seriam as ciências como a biologia, a química, a física, que partem da
observação dos fatos concretos mais a razão, isto é, do método experimental. Nelas, ele inclui a Sociologia.
4 - Envie ao tutor.
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