5º Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UFF | UFRJ | UERJ | PUC-RIO Universidade Federal Fluminense, Niterói. 24 a 26 de outubro de 2012. Cérebro de plástico A materialidade das imagens cerebrais e construções de subjetividades1 Isabela Machado de Oliveira Fraga2 Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ Resumo Neste artigo, busca-se compreender como o frequente uso de imagens cerebrais na mídia e na medicina contribui para a construção de diferentes formas de subjetividade. As imagens cerebrais, como outras tecnologias de imagens corporais, pululam em revistas de informação, em programas de TV e em outros tipos de media como uma forma mais aguçada de entendimento do humano. A partir da ideia lançada por Bruno Latour, de que esse tipo de tecnologia não necessariamente reduz nosso entendimento sobre nos mesmos – mas, ao contrário, acrescenta um novo aspecto –, mostro de que formas essas novas formas de estar no mundo enfatizam a materialidade do corpo (e, portanto, do cérebro) por meio de uma reportagem da revista Veja publicada em 2012, intitulada “Afinal, a leitura do cérebro”. Palavras-chave Subjetividade, tecnologia, corpo, materialidade, contemporaneidade. Corpo do artigo Em Doença como metáfora, Susan Sontag critica o que chama de psicologização das doenças. Haveria, segundo a autora, uma “predileção peculiarmente moderna por explicações psicológicas” sobre as enfermidades. Tais explicações, ao invés de buscar as causas orgânicas – e Sontag refere-se aqui, com especial atenção, ao câncer –, acabam por minar seu status de realidade e configuram uma espécie de “primazia do ‘espírito’ sobre a matéria”. Nas palavras da autora: Uma grande parcela da popularidade e da persuasão da psicologia advém de ser um espiritualismo sublimado: um 1 Trabalho apresentado no GT Subjetividade e Produção de Sentido do V Congresso de Estudantes de PósGraduação em Comunicação - CONECO. 2 Mestranda do Programa de Pós-Graduação da Escola de Comunicação da UFRJ. . www.conecorio.org 1 5º Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UFF | UFRJ | UERJ | PUC-RIO Universidade Federal Fluminense, Niterói. 24 a 26 de outubro de 2012. modo secular e ostensivamente científico de assegurar a primazia do “espírito” sobre a matéria. A realidade inelutavelmente material, a doença, pode receber uma explicação psicológica. [...] Pelo menos existe a promessa de uma vitória sobre a doença. Uma doença “física” torna-se, em certo sentido, menos real – mas, em compensação, mais interessante – na medida em que pode ser considerada uma doença “mental”. (SONTAG, 2007 [1978, 1988]: 51) Escrito em 1978, Doença como metáfora esboça um cenário bem diferente do que vivemos atualmente. Autores como Benilton Bezerra Júnior e Jurandir Freire Costa têm chamado atenção para a prevalência de um entendimento neuroquímico do self sobre visões psicológicas ou psicanalíticas, que tiveram seu ápice – não por acaso – nas décadas de 1960 e 1970 (RUSSO, 1993). Se Sontag critica as explicações psicológicas para doenças orgânicas – que, assim, tornam-se doenças “mentais” –, o que acontece na contemporaneidade é, em grande medida, o caminho inverso: doenças mentais ganham status de doenças orgânicas uma vez que sua materialidade é sublinhada (inventada e construída, portanto) pelas inúmeras formas de atrelamento dos seus descritos sintomas ao corpo. Neste trabalho, pretendo explorar de que formas as doenças mentais ganham caráter material e corpóreo/orgânico nos consultórios médicos, no senso-comum e na mídia – num distanciamento cada vez maior da explicação psicológica para seu surgimento. Não afirmo, no entanto, que metáforas e justificativas imateriais para doenças tenham desaparecido. Ao contrário, o imperativo do bem-viver e seus derivados (otimismo, por exemplo) ainda alimentam as explicações dadas sobre muitos estados orgânicos, como buscam salientar diversos livros de autoajuda, mídias e o senso-comum (FREIRE FILHO, 2011). Em seu livro Bright-sided: how positive thinking is undermining America, a jornalista estadunidense Barbara Ehrenreich narra como se sentia obrigada a ter uma atitude ‘positiva’ e otimista durante o período em que teve câncer de mama, no início dos anos 2000. “Pensamento positivo parece ser mandatório no mundo do câncer de mama, até o ponto em que a infelicidade exige, de certa forma, um pedido de desculpas.” (EHRENREICH, 2010, p. 26). Por outro lado, o papel das emoções e dos pensamentos no alcance da felicidade e do bem estar subjetivo é frequentemente justificado a partir de correlações no corpo – principalmente no cérebro. Exemplos: ser otimista pode tornar seu sistema www.conecorio.org 2 5º Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UFF | UFRJ | UERJ | PUC-RIO Universidade Federal Fluminense, Niterói. 24 a 26 de outubro de 2012. imunológico mais eficiente sob estresse agudo, segundo uma pesquisa de cientistas da Universidade do Kansas; “até sorrisos falsos fazem bem para o coração”, alardeia uma reportagem do Examiner justamente sobre esse estudo. Minha intenção, portanto, é mostrar que desenvolvimentos tecnológicos e a valorização do conhecimento psiquiátrico e neurocientífico têm apontado para um caminho diferente da pura interioridade mental como razão para as mazelas físicas do homem. Esse percurso já foi apontado com maestria por pensadores como Rose, que levantou o conceito de individualidade somática. Por individualidade somática, entendemos aqui uma maneira de interpretar os sentimentos, medos e angústias do self codificados em termos contemporaneamente corporais. Nesse sentido, essas sensações abstratas – bem como anormalidades dessas sensações – seriam traduzidas na linguagem da bioquímica orgânica, especialmente do cérebro (ROSE, 2003). A biologia e a neurociência lançaram-se há décadas em tentativas tão arraigadas quanto diversas de vislumbrar quaisquer aspectos remotamente tangíveis de transtornos psiquiátricos. Enquanto os primeiros medicamentos para os males da mente tratavam apenas os sintomas, as (variadas) explicações para o modus operandi das doenças mentais vieram somente depois – insuficientes; alguns diriam até equivocadas3. Quando se descobriu que os medicamentos que aliviavam os sintomas de depressão aumentavam os níveis do neurotransmissor serotonina no cérebro, postulou-se que o transtorno provavelmente era causado pela baixa quantidade de serotonina nas sinapses cerebrais. O mesmo processo se deu com os níveis de cortisona e outras tantas substâncias aparentemente desreguladas em cérebros de pessoas deprimidas (ROSE, 2003). Desde então, tenta-se provar sem descanso como é o interior de uma pessoa portadora de doença mental. Pululam imagens coloridas de cérebros em revistas, livros didáticos e em meios de comunicação. Ainda assim, nem a psiquiatria nem a ciência de maneira geral afirmam categoricamente a diferença física (ou fisiológica) entre um cérebro de uma pessoa diagnosticada com transtorno bipolar e o de uma pessoa “saudável”. O que há divulgadas são correlações, probabilidades e chances – coloridas com tons de Verdade. E cada vez mais transtornos para se diagnosticar e 3 Fazer referência aos movimentos antipsiquiátricos. www.conecorio.org 3 5º Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UFF | UFRJ | UERJ | PUC-RIO Universidade Federal Fluminense, Niterói. 24 a 26 de outubro de 2012. tratar com cada vez mais remédios. É claro que, como afirma Bruno Latour, não podemos reduzir um fato científico a uma construção social, pois “nossas redes são ao mesmo tempo reais como a natureza, narradas como o discurso, coletivas como a sociedade” (LATOUR, 2011, p. 12). A ideia é justamente vislumbrar a complexa teia de fatores, atores e acontecimentos que permitem o entendimento do chamado transtorno mental, hoje, como doença orgânica. O aspecto material e tangível dos transtornos psiquiátricos é alcançado não só por uma retórica de palavras que explicam o funcionamento do cérebro, mas também – e, talvez, principalmente – por imagens de cérebros e de genes (humanos e de outros animais). O cérebro torna-se metonímia do self e de sua individualidade: E este corpo de uma natureza sem reservas, de uma matéria sem resistências parece corresponder a uma subjetividade exteriorizada e exposta, e não mais numa interioridade recôndita, seu lugar de investimento e constituição” (BRUNO, 2006: 10). Cabe enfatizar que, para fins metodológicos, entendo aqui os transtornos psiquiátricos compreendidos na mais recente edição do Manual de Diagnóstico e Estatística em Doenças Mentais (DSM, na sigla em inglês), elaborado periodicamente pela Associação Americana de Psiquiatria desde a década de 1950 para controlar o caos classificatório e instituir parâmetros e diagnósticos padronizados dos transtornos mentais. Nessa quarta versão revisada do manual – o DSM-IV-R –, os psiquiatras têm à sua disposição um farto cardápio de 374 transtornos mentais com os quais diagnosticar os possíveis pacientes (BEZERRA JR., 2010: 121-123)4. Pet-scanners, ressonâncias magnéticas e outros dispositivos de visibilidade corporal – em especial os que mostram não apenas a estrutura, mas o funcionamento cerebral – buscam tornar manipuláveis (ao menos imageticamente) todo e qualquer processo subjetivo. Não por acaso, explicações de base neurocientífica sobre fenômenos subjetivos e psicológicos parecem ser as mais atraentes para pessoas não especializadas – e, se vierem acompanhadas de imagens cerebrais, tanto melhor. Um estudo realizado na universidade Yale ofereceu a alunos de uma aula de neurociência 4 Esse cenário tem como palco principal os Estados Unidos, mas sua exportação para o resto do Ocidente (e até Oriente, como sinaliza Ethan Watters em seu Crazy Like Us: The Globalization of the American Psyche) torna essa transformação da psiquiatria – e a importância do DSM no diagnóstico de transtornos mentais – digna de atenção também no Brasil. www.conecorio.org 4 5º Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UFF | UFRJ | UERJ | PUC-RIO Universidade Federal Fluminense, Niterói. 24 a 26 de outubro de 2012. e a estudiosos do assunto explicações para fenômenos psicológicos que envolviam neurociência e explicações sem essa característica. Os aspectos neurocientíficos das explicações eram totalmente irrelevantes para a compreensão do assunto. Ainda assim, os alunos não especializados escolheram as explicações de fundo neurocientífico como as mais satisfatórias. “Imagens de manchas em cérebros levam a pensar que agora é possível observar diretamente processos psicológicos” (HENSON apud WEISBERG et al, 2008: 476).5 Outro artigo, publicado na revista científica Nature, em 2003, discute a conotação de realidade embutida na divulgação de imagens cerebrais na mídia. Os autores chamam esse efeito de “neurorrealismo”, produzido principalmente na comunicação de estudos neurocientíficos para um grande público – tanto em revistas especializadas em divulgação científica quanto na mídia geral. “Nosso conceito de neurorrealismo descreve como a cobertura do fMRI [ressonância magnética funcional] pode tornar um fenômeno acriticamente real, objetivo ou eficaz aos olhos do público” (RACINE et al, 2003). Outro conceito levantado pelo artigo tem óbvia importância para as reflexões deste trabalho. Trata-se do “neuroessencialismo”: quando as imagens cerebrais da ressonância magnética funcional servem como uma espécie de metonímia para a subjetividade e identidade pessoal, e as diferenças individuais são reduzidas a diferenças cerebrais. “Nesse sentido, o cérebro é usado implicitamente como atalho para conceitos mais gerais, como a pessoa, o indivíduo ou o self”6 (RACINE et al, 2003). Novamente, aqui, vê-se uma manifestação da individualidade somática aventada por Nicholas Rose. Um exemplo: em O alienista, Machado de Assis narra a obsessão de um médico especialista em doenças mentais – Simão Bacamarte – por compreender a ‘verdade’ da loucura no século XIX. Em nenhum momento, Bacamarte discorre sobre possíveis explicações de curas e tratamentos bioquímicos. Para condições abstratas, as curas 5 Durante os dois anos que trabalhei como repórter de uma revista de divulgação científica, atestei corriqueiramente a presença de imagens do cérebro como elementos que agregam valor a uma matéria de ciência. Em reuniões de pauta com pesquisadores da área de bioquímica, uma cientista da UFRJ certa vez chegou a comentar, a respeito de uma reportagem sobre pedofilia, que “faltou ciência” porque não havia “a imagem de um cérebro” que explicasse como este órgão era diferente do normal em um pedófilo. www.conecorio.org 5 5º Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UFF | UFRJ | UERJ | PUC-RIO Universidade Federal Fluminense, Niterói. 24 a 26 de outubro de 2012. eram também abstratas. Na verdade, Bacamarte deixa claro desde o início que seu maior objetivo com a Casa Verde não é curar a loucura, mas estudá-la e compreendêla. Já a cura e tratamento de sintomas psiquiátricos, hoje, dão-se por meio da ingestão de substâncias psicoativas, cuja ação em certos pontos do cérebro causaria uma renormalização das funções cognitivas. Mas qual o papel das imagens cerebrais em si e também das máquinas que as produzem, corresponsáveis por uma mudança de direção no entendimento de enfermidades mentais como doenças orgânicas, materiais, corpóreas? Uma narrativa possível seria dizer que o desenvolvimento tecnológico dos aparelhos médicos tem levado a uma compreensão mais aguçada do cérebro humano e, portanto, estamos cada vez mais perto de entendermos de fato como funciona esse órgão. Outra narrativa, de caráter oposto, diria que os aparelhos médicos que possibilitam a visão de imagens do nosso cérebro em diferentes circunstâncias (pensamentos negativos, pensamentos positivos, fala, raiva, gratidão) são meras construções sociais sem fundo real que revelam nada mais que a visão de mundo da sociedade àquele tempo. Ambas as narrativas encontram lugares no senso-comum e, por já terem uma longa história de contra-argumentos e críticas, não cabe aqui refazê-las. Basta dizer que: a) a ciência não se aproxima cada vez mais de uma verdade absoluta, mas constrói paradigmas que ela mesma destrói (KUHN, 1962); e b) como já mencionado por Latour e também por Ian Hacking, a banalização do termo “socialmente construído” simplifica o entendimento de nomes e classificações, bem como as redes de humanos e nãohumanos onde vivemos. O cérebro está dentro de nossos crânios e, portanto, dentro de nós. A afirmativa é óbvia demais, mas, antes das imagens cerebrais e de artifícios correlatos, só era possível ter acesso ao cérebro de forma mais imagética por meio de autópsias craniais, feitas – mais comumente – em cadáveres. O cérebro analisado, portanto, era externo a nós, um cérebro morto. Ao analisarmos imagens cerebrais, temos a consciência de que aquele é um cérebro vivo e, ao mesmo tempo, que aquele cérebro pode representar nosso próprio cérebro, mesmo que não o seja de fato. Além da relação metonímica que temos em relação ao cérebro, agenciada em parte pela profusão de imagens cerebrais (o cérebro sou eu, minha subjetividade), também entendemos aquele cérebro ali representado como o nosso próprio. Se virmos imagens www.conecorio.org 6 5º Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UFF | UFRJ | UERJ | PUC-RIO Universidade Federal Fluminense, Niterói. 24 a 26 de outubro de 2012. cerebrais de uma região específica realçada durante, teoricamente, um determinado pensamento, imediatamente fazemos a associação: quando eu penso nisso, essa região do meu cérebro também fica ativada. Como lembram Tucherman e Saint Clair, ecoando Jonathan Crary, a percepção que temos sobre nosso corpo – e cérebro, obviamente – passou de centrar-se no sujeito para focar-se no corpo: Em torno da segunda metade do século XIX, ocorrera um profundo e significativo deslocamento epistemológico no que tange à percepção humana. [...] No que tange aos regimes de observação, o deslocamento se daria de um modelo de percepção baseado na estabilidade e centralidade do sujeito para um regime em que a materialidade do corpo humano – com suas instabilidades, fluxos e temporalidades próprios – seria condição para toda experiência perceptiva. (TUCHERMAN & SAINT CLAIR, 2009, p. 12). Os autores sintetizam acima uma das ideias expostas por Crary em Techniques of the Observer, que explica como o desenvolvimento de aparatos tecnológicos de observação do outro (câmara escura, estereoscópio, caleidoscópio etc.) levaram à percepção de que o corpo do observador tem influência sobre o modo como o objeto é observado. Se o corpo do observador é colocado no centro das atenções a partir de meados do século XIX, o que acontece quando observador e observado mesclam-se – como é o caso dos exames médicos e, como ponto de interesse deste trabalho, das imagens cerebrais? Se entendemos imagens de cérebros – mesmo de outras pessoas – feitas por aparelhos de ressonância magnéticas ou similares como nossa identidade, interioridade exposta e escrutinizada, como subjetivar o subjetivado (as imagens)? Parto da ideia de Latour, que, em Theorizing the Body, usa o exemplo de um neurocientista que guarda na carteira uma foto de sua mulher – seu cérebro, em cores – para dizer que as imagens cerebrais adicionam uma outra forma de nos tornar sensíveis a diferenças entre corpos. As imagens cerebrais não minam a subjetividade, mas acrescentam um novo aspecto a essa subjetividade; não reduzem, mas ampliam nosso entendimento sobre o corpo e sobre nós mesmos (LATOUR, 2004). Compartilho aqui o entendimento do filósofo francês de que a subjetividade não é um aspecto por demais abstrato e intangível que os artefatos técnicos – como os aparelhos de ressonância magnéticos – maculam com sua overdose de reducionismo. Também não quero partir para o argumento oposto, de que só agora conseguimos entender de www.conecorio.org 7 5º Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UFF | UFRJ | UERJ | PUC-RIO Universidade Federal Fluminense, Niterói. 24 a 26 de outubro de 2012. fato como funciona a mente humana, como nunca antes havíamos entendido. Como afirma Latour, As partes do corpo, portanto, são adquiridas progressivamente ao mesmo tempo que as “contrapartidas do mundo” vão sendo registradas de nova forma. Adquirir um corpo é um empreendimento progressivo que produz simultaneamente um meio sensorial e um mundo sensível. (Latour, 2004, p. 40) Por um lado, o entendimento das doenças orgânicas como enfermidades psicológicas sensibilizavam o homem para aspectos intangíveis da sua existência – o inconsciente, os sonhos, as “vontades” –, podemos dizer que a compreensão das doenças mentais como físicas e concretas nos fazem perceber de outra forma o cérebro; adquirimos uma nova parte do corpo que até então não havíamos notado de forma tão central. Uma reportagem recente da revista Veja exemplifica bem esse entendimento metonímico – embora não necessariamente reducionista, como enfatiza Latour – do cérebro em relação à construção de subjetividades. Intitulada de “Afinal, a leitura da mente”, a reportagem é capa da edição de 4 de julho de 2012 da publicação semanal e fala de um aparelho desenvolvido por um neurocientista que “ajuda a entender o enigma da consciência e abre o caminho para a prevenção e a cura de doenças mentais” (p. 84). O tom é, como de costume, messiânico e alardeia que “certas hipóteses verossímeis apenas em obras de ficção científica começam a ficar mais palpáveis” (p. 90). O aparelho em questão é o iBrain, elaborado pelo neurocientista Philip Low, e teria a capacidade de “ler” impulsos cerebrais e transformá-los em linguagem. O mote da matéria é o experimento do iBrain no físico de renome mundial Stephen Hawking, portador de uma doença degenerativa que causa uma paralisação crescente dos músculos. Hawking, segundo a reportagem, tem uma “mente brilhante ainda altamente produtiva” que “será para sempre uma prisioneira silenciosa do corpo imóvel” (p. 85). O corpo, portanto, não é em si o responsável pela concretização do potencial humano, ao contrário: ele, deficiente, é o que impede esse potencial de se concretizar. E, não por acaso, o detentor de tal capacidade é o cérebro. Claro: não é a primeira vez que o corpo é visto como uma prisão ou um elemento causador de restrição – na alegoria da caverna, por exemplo, Platão insinua que a alma é “prisioneira em seu corpo” (ELLIOTT, 1967, p. 138). Diferentemente da www.conecorio.org 8 5º Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UFF | UFRJ | UERJ | PUC-RIO Universidade Federal Fluminense, Niterói. 24 a 26 de outubro de 2012. ideia platônica de que é a alma o elemento restrito pelas amarras corporais, na reportagem é o cérebro, com seus neurônios, sinapses e neurotransmissores entendidos como materiais. Em um dos infográficos, o perfil de um homem “transparente” deixa ver seu cérebro, do qual saem setas e boxes explicando o funcionamento do aparelho-mote da reportagem. O título da ilustração é, sugestivamente, “A esperança está no cérebro” e apresenta técnicas de interferência no órgão que podem atenuar e curar doenças, e aprimorar habilidades. Nomes técnicos explicam que áreas cerebrais como o “giro do cíngulo”, “cápsula anterior” e “área subcalosa” são associadas à depressão, e que eletrodos implantados naquela área podem reestabelecer o equilíbrio da região; impulsos no lobo temporal (que fica na parte de trás do cérebro, aponta a seta) podem melhorar a memória. A ideia básica da reportagem, que explica o funcionamento do iBrain, é que o aparelho poderá ler os impulsos de Hawking e, assim, realizar o que seu cérebro comanda comunicar. Preenchida por dois grandes infográficos que exibem um cérebro numa estética de radiografia – de transparência, portanto –, a reportagem aponta para a direção do iBrain 2, que poderá ler com maior precisão os impulsos cerebrais. Embora uma espécie de benefício comum seja sugerida no texto (Hawking poderá explicar como chegou à conclusão revolucionária para a física de que as partículas subatômicas neutrinos têm massa), o maior ganho do iBrain e dos aparelhos que o sucederão é: [Seria possível] se todas ou a maioria das atividades cerebrais puderem ser mapeadas, digitalizadas e estocadas, o corpo da pessoa poderá morrer, mas seu cérebro viver para sempre gravado em um chip? Teoricamente, sim (p. 90). A sugestão é, portanto, que a pessoa vive se seu cérebro estiver vivo – independentemente da morte corporal. O que determina a vida não é precisamente as batidas do coração, a capacidade de fala ou de comunicação, mas o que cérebro produz: pensamentos, desejos, identidades. Se as doenças mentais eram, como afirmou Susan Sontag, explicadas por seu viés psicológico, são desarmonias nas áreas cerebrais explicitadas no infográfico da reportagem (giro do cíngulo, por exemplo) que causam os transtornos psiquiátricos como depressão e epilepsia. www.conecorio.org 9 5º Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UFF | UFRJ | UERJ | PUC-RIO Universidade Federal Fluminense, Niterói. 24 a 26 de outubro de 2012. Referências bibliográficas BEZERRA JR., Benilton. A psiquiatria e a gestão tecnológica do bem-estar. In: FREIRE FILHO, João (org.). Ser feliz hoje: reflexões sobre o imperativo da felicidade. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010. COSTA, Jurandir Freire. O vestígio e a aura: corpo e consumismo na moral do espetáculo. Rio de Janeiro: Garamond, 2004. CRARY, Jonathan. Techniques of the Observer: On Vision and Modernity in the 19th Century. Cambridge: MIT Press, 1992. DUARTE, Luiz Fernando Dias; RUSSO, Jane; VENANCIO, Ana Teresa A. (orgs.) 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