ANÁLISE TEXTUAL DA MÚSICA

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ANÁLISE TEXTUAL DA MÚSICA “ALEGRIA, ALEGRIA”, DE CAETANO VELOSO
Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro,
Eu vou.
O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em Cardinales bonitas,
Eu vou.
Em caras de presidente,
Em grandes beijos de amor,
Em dentes, pernas, bandeiras,
Bomba e Brigitte Bardot.
O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça.
Quem lê tanta notícia?
Eu vou
Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos.
Eu vou
Por que não? E por que não?
Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento
Eu vou.
Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
Uma canção me consola
Eu vou.
Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone,
No coração do Brasil.
Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou
Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo amor.
Eu vou
Por que não? E por que não?
ANÁLISE:
O SUCESSO DA DÉCADA DE 1960
A música ​Alegria, alegria​, de Caetano Veloso é uma dessas canções que se cristalizam no
imaginário público como se fosse sem autor definido: de domínio público e, por isso
mesmo, eleva o seu compositor à categoria dos grandes autores da música brasileira e, a
própria música, à categoria dos clássicos.
Esta letra em questão funcionou como um dos pontos de partida e até síntese do
movimento tropicalista ocorrido principalmente na nossa música durante as décadas de
60 e 70, do século passado. O Tropicalismo, movimento sócio-cultural iniciado a partir de
1967, surgiu principalmente na música, mas acabou influenciando toda a cultura nacional,
pois retomava basicamente elementos da Antropofagia, do Modernismo Brasileiro, e
outros elementos da contra-cultura, da ironia, rebeldia, anarquismo e humor ou terror
anárquico.
A paródia, a crítica à esquerda intelectualizada, a não-aceitação de qualquer forma de
censura, a sedução dos meios de comunicação de massa, o retrato da realidade urbana e
industrial, a exploração do ser humano, tudo isso, todos esses elementos montado com
uma colagem de fragmentos do dia-a-dia nas grandes cidades do país, eram, de fato, os
princípios norteadores da arte tropicalista.
CONTEXTO HISTÓRICO
O panorama sócio-histórico da época desta canção era de total arrogância direitista.
Estávamos em plena Ditadura Militar, especificamente nos “anos de chumbo”, como era
chamado o governo do presidente Emílio Garrastazu Médici, conhecido como o mais duro
e repressivo do período. Nestes anos, a repressão e a luta armada crescem e uma severa
política de censura é colocada em execução. Jornais, revistas, livros, peças de teatro,
filmes, músicas e outras formas de expressão artística são proibidas. Alguns partidos
políticos passaram para a ilegalidade e a UNE (União Nacional dos Estudantes) teve seu
prédio incendiado. Muitos professores, intelectuais, artistas, políticos, jornalistas e
escritores são investigados, presos, torturados, exilados ou assassinados.
O Regime Militar fora imposto com um grande golpe desde 1964 e, naquele final de
década, já havia as revoltas contra esta ditadura. Os estudantes iam às ruas protestar
contra um governo ditatorial, que destruía as universidades, deixando-as reféns do
sistema de negação do conhecimento, e a população já participava de lutas e passeatas
contra o regime militar, mesmo estas sendo proibidas pelos militares.
A cultura importada era alienante, por isso, Caetano usa palavras como Brigitte Bardot,
Cardinales (em referencia á atriz ítalo-americana Claudia Cardinale) e coca-cola (maior
símbolo do império norte-americano, que financiava os exércitos em toda a América
Latina).
Mas, os anos 60 foram a grande década revolucionária: os anos da minissaia, dos
hippies, dos homens de cabelos compridos, da pílula anticoncepcional e,
consequentemente da revolução feminina e da liberação sexual. Assim como surgiram
ídolos impostos e fabricados pela mídia principalmente nos EUA, também surgiram
símbolos de uma época que marcaram tanto pela alienação, quanto pela imposição de um
comportamento novo ou pela exposição da exploração sofrida pelo ser humano. Neste
patamar, aparecem ídolos da cultura pop e líderes sociais e políticos, como os Beatles,
Rolling Stones, Jonh Kennedy, Martin Luther King, Fidel Castro e Che Guevara. Também
fazem parte deste contexto histórico, a Guerra do Vietnã, a viagem à Lua, feminismo,
lutas pelo aborto e pelo divórcio e a prática do amor livre, tendo como expoente principal
o festival de Woodstok, que marcou o planeta com o poder de transformação da
sociedade pela juventude. No Brasil, era a época dos grandes festivais de música, do
ufanismo dos militares e das obras faraônicas erguidas a partir de grandes empréstimos.
Os ídolos da música cantavam versões de sucessos norte-americanos ou europeus.
Surgia a Jovem Guarda e logo depois a Bossa Nova. A cultura de massa tupiniquim
começava a virar produto de exportação.
A MÚSICA E SUA INTENÇÃO
Escrita, musicada e interpretada pelo cantor e compositor Caetano Veloso, em novembro
de 1967, “Alegria, alegria” ajudou a criar o estilo hoje intitulado de MPB e deslocou a
expressão artística musical brasileira para o cenário da crítica social, em um ativismo
político sem precedentes na história de outro tipo de arte no mundo. Graças a isso,
Caetano Veloso teve grande parte de sua obra censurada pelo regime militar. Chegou a
ser preso, junto com seu parceiro musical e amigo, Gilberto Passos Moreira, o Gilberto
Gil, também cantor e compositor baiano e atual ministro da cultura do Governo Lula. Os
dois artistas ficaram exilados em Londres por quase dois anos. Caetano era classificado
para o governo no Brasil como “persona nom gratta”, uma expressão latina que
corresponderia a mal-agradecido e, por isso, mal-vindo de volta à pátria. Até 1972,
quando ambos voltam do exílio.
“Alegria, alegria” chegou a ser tema de novela da Rede Globo (Sem lenço e sem
documento, na década de 80), quando o Regime Militar já estava perdendo o seu máximo
poder. Na canção, é relatada a opressão sofrida pelo cidadão comum, nas ruas, nos
meios de comunicação, em sua cultura nativa, no seu próprio país. A letra denuncia o
abuso de poder de forma metafórica “caminhando contra o vento/sem lenço e sem
documento”; a violência praticada pelo regime “sem livros e sem fuzil,/ sem fome, sem
telefone, no coração do Brasil”; e a precariedade na educação brasileira proporcionada
pela ditadura que queria pessoas alienadas: “O sol nas bancas de revista /me enche de
alegria e preguiça/quem lê tanta notícia?”.
Podemos pegar como exemplo também de formas alienantes, elementos externos à
cultura nacional, como alguns símbolos impostos pelo cinema norte-americano que
exportava/exporta seus ídolos como: Cardinale, Brigitte Bardot e a coca-cola, principal
imposição comercial da mídia na época.
Para dar exemplos dos desníveis sociais existentes no Brasil e as diferenças regionais, o
autor se utiliza de um expediente inovador. Através de comparações aparentemente
desconexas e fazendo uso de metáforas, faz a denúncia dos contrastes regionais, sociais
ou econômicos, como nos versos: “Eu tomo uma coca-cola,/Ela pensa em casamento”,
“Em caras de presidente/em grandes beijos de amor/em dentes, pernas, bandeiras,
bomba e Brigitte Bardot.”
INTERTEXTUALIDADE
Ao começar a audição da música ou simplesmente da leitura da letra, é impossível não
lembrar dos versos de outra canção dessa época de censura. Trata-se de “Para não dizer
que não falei das flores”, do cantor paraibano Geraldo Vandré, também perseguido pelo
Governo Militar, que convocava o povo para ir às ruas e lutar contra a ditadura vigente.
As duas músicas se iniciam com a palavra “Caminhando” e isso já é um grande motivo
para suscitar na população à lembrança da outra. Só depois de Geraldo Vandré ter
vencido um grande festival de música com esta canção e, também pelo fato dela ter sido
proibida e os discos terem sido destruídos pelo governo, é que Caetano tem sua música
Alegria, alegria também proibida. Era comum a destruição ou apreensão de discos ou
fitas por parte do governo militar, alguns exemplos são da música Ovelha Negra, de Rita
Lee e, mais recentemente, o disco de lançamento da banda de rock carioca Blitz foi
censurado em duas faixas, que foram expressamente riscadas dos discos de vinil, em
1981.
Outro compositor que sofreu muitas perseguições da ditadura foi Chico Buarque, que
teve inúmeras músicas censuradas ao longo da carreira. No entanto, o cantor e
compositor carioca, amigo e contemporâneo de Caetano Veloso, aprendeu a “driblar” a
censura por meio do uso de palavras metafóricas, como na música “Apesar de Você”,
gravada primeiramente por Clara Nunes, que criticava o governo ditatorial como se fosse
uma relação afetiva entre um homem e uma mulher.
“Alegria, alegria” já começa poética desde o título. O que é também característica da obra
de Caetano, fazer um certo ritmo nos títulos de suas obras, seja repetindo palavras ou
juntando palavras com sons parecidos, produzindo aí uma aliteração. Como nos
exemplos: “London, London”, “Podres Poderes”, “Minha Voz, Minha Vida”, “Araçá Azul”
ou “Pássaro Proibido”.
CAETANO VELOSO
O mais ilustre filho de Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, filho da centenária Dona
Canô, Caetano Emanuel Viana Teles Velloso é um caso à parte na complexa teia de sons
e poesias que permeiam a música popular brasileira. Ele tem acesso livre a todas as
tribos da música atual, pois viaja por todos os estilos e ritmos, passando facilmente do
inovador pop ao incontestável brega, com um forte apelo popular. Ao tempo que dá
sempre uma nova leitura às músicas que interpreta, compõe melodias nos mais diversos
ritmos, inclusive rock leve ou pesado, samba de raiz, romântico comercial, bossa-nova,
baião, axé e outros ritmos regionais. É músico, arranjador, produtor, escritor, cineasta,
além de cantor e compositor. Por isso, é considerado um dos grandes intelectuais da
contemporaneidade.
Compositor virtuose de pérolas da música romântica como Você é linda, Quero ficar com
você, Nosso Estranho Amor, O Leãozinho e Menino do Rio, também é autor de clássicos
da MPB engajada, panfletária ou de desbunde, como: Odara, Sampa, Podres Poderes,
Tropicália, Fora da Ordem, Haiti e Língua. Foi interpretado por todas as grandes
intérpretes da música brasileira da atualidade, começando pela sua irmã Maria Bethânia,
a amiga-irmã Gal Costa, a também conterrânea Simone, Zizi Possi, Elba Ramalho, Elza
Soares, Leila Pinheiro, Ângela Ro Ro, Marisa Monte, Adriana Calcanhotto, Daniela
Mercury, Fafá de Belém, Cássia Eller, Alcione, Rita Lee, Baby do Brasil, Marina Lima e
Beth Carvalho, entre outras. Também teve músicas gravadas por cantores como Milton
Nascimento, Chico Buarque, Roberto Carlos, Tom Jobim, Gilberto Gil, João Gilberto,
Paulo Ricardo, Emílio Santiago, Jorge Bem Jor e muitos outros grandes artistas da MPB.
Quase sempre compõe sozinho letra e melodia, mas também fez várias músicas em
parceria, principalmente com Gilberto Gil, Chico Buarque, Jorge Mautner, Jorge Bem Jor
e Lulu Santos. Atualmente, encontra-se relativamente afastado de estúdios e televisão.
No entanto, apresenta shows regularmente por todo o país e no exterior, principalmente
nos Estados Unidos e Europa. Tem cerca de duas mil músicas compostas e pelo menos
trinta discos lançados, em uma carreira de mais de 40 anos.
Caetano também se aventurou na literatura, lançando dois livros autobiográficos em que
relata muito da história sócio-cultural do Brasil e, no cinema, produziu um filme que não
teve muita aceitação do público. Fez muitas trilhas sonoras tanto para filmes, quanto para
produções de TV, novelas e minisséries.
Se “Alegria, alegria” não é sua obra mais famosa ou mais lembrada pelos seus fãs, é,
pelo menos a mais emblemática de uma época que jamais será esquecida da História do
Brasil. E Caetano Veloso foi o grande divulgador deste período de grande revolução
popular e de tanta efervescência cultural.
ANÁLISE ESTILÍSTICA:
As figuras de som predominam na letra da música de Caetano Veloso, pois o ritmo é
constante, quebrado por palavras e/ou expressões como “eu vou”, no final de cada
estrofe. A aliteração está presente tanto na repetição de sons consonantais
(consonância) quanto de sons vocálicos (assonâncias), como nos exemplos: “Entre fotos
e nomes, sem livros e sem fuzil, sem fone, sem telefone, no coração do Brasil.”: repetição
do som do fonema /f/. Nos versos “Caminhando contra o vento, sem lenço sem
documento, no sol de quase dezembro”, percebe-se a presença do fonema /k/. Também
nos versos “entre fotos e nomes, sem livros e sem fuzil, sem fone, sem telefone, no
coração do Brasil”, percebe-se a presença dos sons vocálicos de /em/. O que se repete
também nos versos “sem lenço sem documento, no sol de quase dezembro”.
A presença de outras figuras de linguagem também é predominante no poema,
principalmente a metáfora, como nos exemplos: “Em Cardinales bonitas” ou
“Caminhando contra o vento”, que tem o valor semântico de “nadando contra a
corrente”, uma expressão popular que significa “estar contra”, no caso, lutar contra a
Ditadura Militar. No contexto do momento histórico vivido pelo autor na época do Regime
Militar, a expressão “caminhando contra o vento” vem reforçar a idéia central do texto:
ser do contra, lutar contra as forças armadas pelo regime ditatorial, promover a união da
população contra o governo imposto de forma indireta e arbitrária. Idéia corroborada pelo
descumprimento das regras gramaticais da língua padrão, como no exemplo: “Me enche
de alegria...”, em que a frase é iniciada pelo pronome oblíquo ME.
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