Pênfigo foliáceo brasileiro

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MANOEL RIVELINO DE ARAÚJO
PAULA CARNEIRO MOTA SOARES
PÊNFIGO FOLIÁCEO BRASILEIRO: UM ENFOQUE À
ETIOLOGIA E TRATAMENTO
GOIÂNIA-GO
2003
2
MANOEL RIVELINO DE ARAÚJO
PAULA CARNEIRO MOTA SOARES
PÊNFIGO FOLIÁCEO BRASILEIRO: UM ENFOQUE À
ETIOLOGIA E TRATAMENTO
Pesquisa apresentada ao Curso de Graduação em
Enfermagem da Universidade Católica de Goiás,
como requisito parcial para obtenção do grau de
Bacharel em Enfermagem.
Profa. Orientadora: Ms. Maria Aparecida da Silva
GOIÂNIA-GO
2003
3
DEDICATÓRIA
Aos meus pais, Manoel Raimundo de Araújo e Terezinha de
Jesus Ferreira de Araújo.
Manoel Rivelino de Araújo
Aos meus pais, José Carlos Soares e Maria Alice Carneiro Mota
Soares e à minha avó Creuza Carneiro Mota.
Paula Carneiro Mota Soares
4
AGRADECIMENTOS
Agradecemos primeiramente a Deus por nos abençoar tanto.
Depois nos sentimos gratos por todas as pessoas que
contribuíram para que este estudo fosse concluído com sucesso.
5
RESUMO
Trata-se de um estudo bibliográfico que busca reunir as principais descobertas sobre a
etiologia e a evolução do tratamento do pênfigo foliáceo brasileiro, visando uma
interação com a assistência de enfermagem a esses pacientes. O pênfigo foliáceo
brasileiro ou fogo-selvagem, como é conhecido popularmente, é uma dermatose bolhosa
de etiologia ainda desconhecida e de característica endêmica em alguns estados
brasileiros. Acredita-se que o possível vetor seja o S. nigrimanum, também conhecido
como mosquito borrachudo, o qual se faz presente em áreas endêmicas e ausente em
áreas não-endêmicas. Pesquisas recentes atribuem a doença a substâncias químicas
presentes em alguns alimentos e medicamentos, porém não se sabe ao certo qual o seu
poder de atuação no processo de desenvolvimento da doença. Por ser uma doença autoimune, o tratamento é feito basicamente com corticosteróides e associado a outros
medicamentos, que atuam como adjuvante, principalmente no controle de infecções. A
assistência de enfermagem é sistematizada e possui papel importante na readaptação do
doente até sua cura, preparando-o para a alta.
6
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................7
2 PERCURSO METODOLÓGICO ...............................................................................10
3 RESULTADOS DA PESQUISA.................................................................................12
3.1 Um breve histórico sobre o pênfigo .........................................................................12
3.2 Hipóteses sobre a instalação do pênfigo: aspectos epidemiológicos e etiologia......13
3.3 Conhecendo a clínica e buscando o diagnóstico..................................................... 17
3.4 A evolução do tratamento.........................................................................................21
3.5 A relevância da assistência de enfermagem.............................................................24
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS .....................................................................................27
5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .......................................................................28
6 BIBLIOGRAFIA CONSULTADA............................................................................31
7
1 INTRODUÇÃO
O pênfigo foliáceo brasileiro ou pênfigo foliáceo sul-americano ou fogo-selvagem,
ou, ainda, pênfigo endêmico, foi classificado por Neves (1992) como uma dermatose
bolhosa de etiologia ainda desconhecida, epidemiologicamente distinta das outras
variedades de pênfigos, de característica endêmica para alguns dos estados brasileiros,
inclusive Goiás.
O pênfigo, por suas próprias características dermatológicas, pode desencadear
estigmas e preconceitos tanto por parte dos portadores da doença quanto pela sociedade,
uma vez que a população em geral associam-na a uma doença contagiosa, levando ao
medo e até mesmo à discriminação, como podemos observar durante as atividades em
campo de prática.
O termo pênfigo foi usado inicialmente para designar lesões bolhosas que
comprometem o tecido cutâneo e, às vezes, o tecido mucoso (SAMPAYO e
RIVITTI,1998).
Atualmente, refere-se a um grupo de doenças bolhosas auto- imunes, com
comprometimento cutâneo- mucoso, que tem como característica comum a presença de
bolhas intra-epidérmicas, resultantes da perda da integridade das fixações intercelulares,
fato que ocorre por acantólise 1 , significando a perda da adesão entre as células epiteliais
de Malpighi.
De acordo com os autores Sampayo e Rivitti (1998) e Prado et al. (2001), o pênfigo
é dividido em dois grupos principais: o pênfigo vulgar e o pênfigo foliáceo, apesar de
existirem outras formas menos freqüentes, como o pênfigo induzido por drogas e o
paraneoplásico 2 .
O pênfigo vulgar é o tipo mais comum, porém o mais grave, ocorrendo em cerca de
80% dos casos em todo o mundo. Este tipo de pênfigo é subdividido em duas
variedades: a comum, que é caracterizada por bolhas, e a vegetante, caracterizada por
1
Acantólise: processo pelo qual ocorre a dissolução ou lise dos sítios de adesão intercelular numa
superfície epitelial escamosa.
2
Paraneoplásico: trata-se de uma nova síndrome descrita inicialmente em 1990, e desde então, inúmeros
casos foram associados a neoplasias, tal como linfo -reticulares.
8
lesões vegetantes localizadas, afetando mucosa e pele, sobretudo no couro cabeludo,
face, axilas, região inguinal, tronco e pontos de pressão. O quadro tem início com lesões
na mucosa oral sob a forma de úlceras ou aftóides e, após algumas semanas ou meses,
acomete também a pele mediante o aparecimento de vesículas e bolhas flácidas, de
conteúdo límpido ou turvo, por todo o tegumento (PRADO et al., 2001).
O pênfigo foliáceo pode ser subdividido em clássico ou doença de Cazenave, e
endêmico ou fogo-selvagem, cuja endemicidade está presente no Brasil, distribuída no
Distrito Federal e nos seguintes estados: Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul,
Tocantins, Minas Gerais, Paraná e São Paulo, e cuja etiologia, ainda desconhecida, está
ligada ao meio ambiente. Ambos são caracterizados pela presença de vesículas e bolhas
flácidas e fugazes e ulcerações às vezes cobertas por crostas. Geralmente, tem início no
segmento cefálico, com progressão crânio-caudal simétrica, e preferência pelo couro
cabeludo, face, tórax e costas, raramente atingindo mucosas (PRADO et al., 2001).
A origem e o tratamento do pênfigo são temas ainda muito discutidos, uma vez
que o desenvolvimento da doença ainda não é totalmente explicado. Apesar de
ser conhecida como uma doença auto- imune, é ainda incerto como se dá seu mecanismo
de instalação no organismo humano.
O tratamento utilizado atualmente é complicado, longo, e envolve altas doses de
corticóides geralmente associados a um imunossupressor, requerendo uma observação
constante do paciente pela equipe, pois este, geralmente, desenvolve alguns dos efeitos
colaterais dessas drogas, o que poderá levá-lo ao óbito. Ressalva-se também a constante
observação mesmo após a estabilização da doença, pois as lesões podem reaparecer e,
sendo assim, o cliente deverá retornar ao serviço de saúde para recomeçar o tratamento.
Baseados neste contexto, na observação em campo de prática, e no fato de que são
poucas as informações sobre a doença, propõe-se fazer neste estudo, um levantamento
das principais bibliografias sobre pênfigo, bem como as inovações ocorridas em seu
tratamento, procurando relacionar seus possíveis fatores de risco, pondo em foco o
pênfigo foliáceo brasileiro (pênfigo endêmico ou fogo-selvagem), mais presente no
Brasil, especialmente em Goiás.
Assim, o objetivo deste estudo é identificar as hipóteses existentes sobre a
instalação da doença, o grupo de pessoas mais freqüentemente acometido, fatores de
risco, evolução do tratamento, assim como destacar a relevância da assistência de
enfermagem às pessoas portadoras de pênfigo, uma vez que há escassez de material
sobre este assunto publicado pela enfermagem. Neste sentido, espera-se que este estudo
9
sirva como fonte de consulta entre os estudantes e os profissionais de enfermagem a fim
de ampliar e facilitar o acesso às fontes aqui atualizadas e apresentadas de forma bem
didática.
Desta forma, com o desenvolvimento deste estudo, esperamos contribuir para a
atualização dos profissionais da área de saúde, visando despertar o interesse pelo estudo
dessa doença que se encontra de forma ativa em nossa sociedade.
10
2 PERCURSO METODOLÓGICO
Segundo Ruiz 3 , a pesquisa bibliográfica consiste no exame do material escrito,
guardado em livros, artigos e documentos, para levantamento e análise do que já se
produziu sobre determinado assunto.
Neste estudo, foi realizada inicialmente a revisão da literatura clássica sobre o tema,
seguida da revisão de publicações em periódicos, anais e teses no período de 1990 a
2002, com exceção de um artigo que data de 1981. Para melhor compreensão das
referências específicas ao tema, recorremos aos insumos de anatomia, histologia,
fisiologia, patologia, imunologia, farmacologia e epidemiologia.
Tivemos como fontes de pesquisa as bibliotecas existentes nesta capital: Biblioteca
da Universidade Federal de Goiás, Biblioteca da Universidade Católica de Goiás e
Biblioteca do Hospital de Doenças Tropicais, bem como em bancos de dados on-line
(BIREME, LILACS, BDENF, MED LINE, PAHO...) e revistas como NEJM, Arquivos
de Dermatologia, Revista de Patologia Tropical, Jornal de Investigação Dermatológica,
JBM, Anais Brasileiros de Dermatologia, Revista do Instituto de Medicina Tropical de
São Paulo, Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, Jornal Americano da
Academia de Dermatologia, The Journal of Immunology, The Journal of Investigative
Dermatology e Brazilian Journal of Medical and Biological Research.
Inicialmente foi realizado o levantamento da bibliografia a partir das fontes citadas
acima. Dando seqüência, a leitura, o fichamento, a análise, a interpretação e elaboração
final deste estudo.
Para a consulta das publicações sobre a temática foram utilizadas as seguintes
palavras-chave: tratamento e pênfigo, enfermagem e pênfigo, pênfigo foliáceo
brasileiro, fogo-selvagem, pênfigo foliáceo sul-americano e pênfigo endêmico.
Através dos quadros 1 e 2, é possível visualizar o quantitativo de trabalhos
encontrados sobre o tema; quantos tiveram seus resumos selecionados e ainda, quantos
foram fichados para este estudo.
3
RUIZ, J. A. Metodologia científica: guia para eficiência nos estudos. São Paulo: Atlas, 1976.186 p
(citado e referenciado por SOUZA e ALENCASTRE, Produção da Enfermagem psiquiátrica no Brasil,
1932 – 1993. Brasília: R. Bras. Enferm., v. 52, n. 2, p. 271- 282, abr./jun. 1999).
11
QUADRO 1 – Publicações via on line encontradas durante a revisão da literatura
VIA
ENCONTRADOS
SELECIONADOS
FICHADOS
LILACS
187
83
15
MEDLINE
1551
47
06
BDENF
01
01
01
SCIELO
04
04
04
OUTROS
04
04
04
TOTAL
1747
139
30
INTERNET
O Quadro 1 expressa o total de artigos encontrados via internet a partir dos sites já
descritos, perfazendo um total de 1.747 artigos, sendo que apenas 139 estavam
relacionados ao pênfigo foliáceo; os demais falavam de pênfigo vulgar, herpetiforme e
paraneoplásico.
QUADRO 2 – Publicações impressas encontradas nas principais bibliotecas
BIBLIOTECAS
ENCONTRADOS SELECIONADOS
FICHADOS
HDT
10
10
10
UFG
02
02
02
UCG
03
03
03
TOTAL
15
15
15
O Quadro 2 mostra o total de trabalhos impressos encontrados nas bibliotecas,
todos incluídos neste estudo, sendo utilizada apenas uma tese.
Após a organização desse material, foi possível proceder à análise de forma a
apresentar a síntese do conteúdo sobre a temática mediante os aspectos: Um breve
histórico sobre o pênfigo; Hipóteses sobre a instalação do pênfigo: aspectos
epidemiológicos e etiologia; Conhecendo a clínica e buscando o diagnóstico;
Evolução do tratamento, e A relevância da assistência de enfermagem.
12
3 RESULTADOS DA PESQUISA
3.1 Um breve histórico sobre o pênfigo
O pênfigo é conhecido desde a mais remota antiguidade. Foi descrito
primeiramente por Hipócrates (460 – 330 A.C.), que menciona algo sobre uma febre
penfigóide (pemphigodes pyretoi). Lever (1942), citado por Guerra (1990).
Em 1681, Koening descreveu o primeiro caso de pemphigus vulgaris; dois séculos e
meio após, Cazenave descreveu o primeiro caso de pemphigus foliaceus.
Embora existam relatos de paciente supostamente com pênfigo foliáceo em 1730, o
primeiro registro feito no Brasil é de Paes Leme em 1903, sob forma de uma tese
apresentada à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.
Em 1912, durante um congresso médico em Belo Horizonte são comunicados
novos casos de fogo-selvagem oriundos do estado de Minas Gerais e da região nordeste
do estado de São Paulo. Em 1927, Castro estudou 107 pacientes portadores de fogoselvagem, cujo trabalho estendeu até 1980 a fase de publicações de grandes séries de
pacientes com fogo-selvagem.
No decorrer da década de 1930, o número de casos começou a aumentar
significativamente no estado de São Paulo. Então, em 1937, Lindemberg, professor de
dermatologia da Faculdade de Medicina da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo,
foi encarregado pelo governo do estado de estudar a doença. Foi o primeiro pesquisador
a conseguir induzir na pele de cobaias e coelhos a formação de bolhas intra-epiteliais.
Em agosto de 1939, a situação no estado de São Paulo era dramática, o que levou o
governo a construir um hospital dedicado exclusivamente ao tratamento de pacientes
com fogo-selvagem. Este foi inaugurado em 1940, um ano depois do início de sua
construção. Começa então a criação de hospitais especializados no assunto. Assim, em
1952 são inaugurados o Hospital do Pênfigo de Goiânia e o Hospital Adventista do
Pênfigo em Campo Grande, no então estado de Mato Grosso. Acompanhando o declínio
das grandes publicações de pacientes com pênfigo foliáceo endêmico, essas instituições,
que antes atendiam especificamente os casos referentes à doença em questão, mudaram
suas atividades, restando apenas aquele de Campo Grande (hoje, capital do estado de
Mato Grosso do Sul).
13
Entre 1952 e 1970, Goiás se tornou o foco mais numeroso de fogo-selvagem,
permitindo ao dermatologista Anuar Auad estudar 2.663 pacientes. A partir da segunda
metade da década de 1970, a diminuição dos quantitativos de pacientes nas publicações
começa a refletir a diminuição da endemia, que praticamente desapareceu em focos
importantes como os São Paulo e do norte do Paraná.
Assim, a história epidemiológica do pênfigo foliáceo sul-americano mostra
ascensão seguida de queda da endemia, que segue coincidentemente a trajetória do
desbravamento e ocupação de regiões do território brasileiro. Atualmente, parece haver
uma estabilização da endemia em áreas restritas, remanescentes dos grandes focos
(CAMPBELL, 2001).
3.2 Hipóteses sobre a instalação do pênfigo: aspectos epidemiológicos e etiologia
O pênfigo foliáceo é uma doença que ocorre em todo o mundo, mas em especial na
região centro-norte da América do Sul. No Brasil, predomina nas regiões Centro-Oeste,
em Minas Gerais, no oeste de São Paulo, no norte do Paraná e no Distrito Federal.
Atualmente, seu foco principal situa-se no Mato Grosso e no Tocantins, com aumento
do número em Rondônia, Acre, sul do Amazonas e Pará (FILHO, 1999).
Pesquisas realizadas no Brasil e em outros países da América do Sul, como o Peru,
indicam maior prevalência de pênfigo foliáceo sul-americano em mo radores e/ou
trabalhadores da zona rural, com distribuição equivalente entre os sexos feminino e
masculino.
Um estudo realizado por Minelli et al. (1990) no Hospital São Roque (Paraná)
mostra que dos 194 casos de dermatites bolhosas estudados, 179 foram diagnosticados
como pênfigo foliáceo (fogo-selvagem), o que representa 92,6% do total de casos
estudados. A distribuição desses casos (foliáceo) por faixa etária nos revela maior
prevalência entre 16 e 30 anos (adulto-jovem – 32,84%), sendo que 40,78% eram do
sexo feminino e 59,21% do sexo masculino, com predomínio entre brancos (81,56%),
trabalhadores ou moradores da área rural (90,49%).
Em 2001, Chiossi publicou um trabalho realizado com pacientes da região nordeste
de São Paulo que divergiu daquele mencionado acima, pois há uma proporção de 60,4%
de mulheres e 46,9 % da zona rural.
14
No Peru, Galarza (2002) também mostra que 80% dos pacientes pertenciam à zona
rural e 56% deles eram do sexo feminino.
Portanto, é possível afirmar que a população de risco comporta a faixa etária dos
adultos jovens, de qualquer sexo, habitantes da zona rural, especialmente população
ribeirinha, ou habitantes de áreas de desmatamentos (urbanização).
Já Barravieira (1995) diz que a ocorrência do pênfigo é mais freqüente em
trabalhadores de cultura de café, cana-de-açúcar, cacau, milho, soja e algodão.
Campbell (2001) cita, a partir de levantamentos estatísticos, que o maior número de
casos se concentra no final da estação chuvosa e no verão seco. Aponta ainda que os
grandes percentuais do Simulium, comparados a outros insetos, encontram-se próximos
a cursos de água, justamente onde ocorre o maior número de casos da doença. Descreve,
também, fatores relacionados à presença de roedores, à exposição ao pó de cereais,
fuligem ou poeira. Diz ter sido identificadas nove espécies de simulídeos na Aldeia de
Limão Verde, porém nas regiões vizinhas e em outras áreas Terena 4 sem fogoselvagem, o S. nigrimanum não foi encontrado. É possível que este atue como vetor de
agente infeccioso, ou seja, portador de substâncias antigênicas e/ou sensibilizantes,
talvez presentes nas proteínas da saliva, o que, segundo Galarza (2002), favoreceria a
formação de antígenos do tipo IgG 4 em indivíduos predispostos geneticamente.
Existe também a possibilidade de alguns fármacos induzirem ao pênfigo, como é o
caso da penicilinamina, captopril e rifampicina, assim como alguns alimentos que
contém substâncias de constituição química similar (GALARZA et al., 2002).
Tur e Brenner (1998) comentam sobre essa possibilidade e sugerem que fatores
dietéticos estão envolvidos no processo de adoecimento por pênfigo, e que
potencialmente a morbidade pode ser reduzida se estes fatores forem identificados e
evitados. As evidências de que alimentos que contém tiol5 possam levar a uma indução
do pênfigo surgem a partir de casos analisados indicando a indução por alho e alhoporó-porro. A eliminação desses alimentos da dieta induziu a remissão das lesões
enquanto que sua readministração levou a uma piora do quadro lesional.
Os isotiocianatos6 (óleos das mostardas) são um grupo de plantas que contém tiol,
pertencentes à família das mostardas, que, dependendo da estrutura química, podem ser
4
Reserva indígena em Limão Verde – MS; foi um foco recentemente identificado da doença com uma
prevalência de 3,4% da população em uma das aldeias da reserva.
5
Radical monovalente –SH quando fixado ao carbono; hidrossulfeto; mercaptano. Mistura de óleos de
petróleo sulfurados e sulfonados purificados com amônia; utilizada no tratamento de doenças cutâneas.
6
Radical do ácido isotiociânico.
15
imunologicamente
reativos
(alilo 7 ,
benzil
isotiocianatos)
ou
irritantes
(fenil
isotiocianatos), o qual pode causar reações de acantólise mediadas por anticorpos ou ser
incorporados dentro da epiderme, conduzindo a uma acantólise bioquímica nãoimunológica de maneira similar àquela produzida por drogas que contém tiol.
O urushiol8 é um fenol que causa uma dermatite alérgica de contato que
provavelmente tem início com a ligação das penta-deci-catecolaminas das proteínas da
pele. Uma reação similar que pode ser o primeiro passo da seqüência de eventos que
levam à acantólise.
E os taninos 9 , encontrados naturalmente em plantas que possuem vários tipos de
fenóis na sua composição, são considerados biologicamente ativos. As autoras Tur e
Brenner (1998) apontam os possíveis efeitos dos taninos: precipita a interação com
proteínas; interação com drogas; efeitos nutricionais; reativação dos fatores
quimiotáticos dos neutrófilos; simulação do macrófago alveolar; ativação plaquetária;
inibição enzimática e espoliação de metais.
Os taninos também induzem a ligação de paraproteína 10 IgA às células vermelhas
do sangue de maneira análoga, reagindo com estruturas dentro ou fora da membrana
dessas células. É freqüentemente usado como um agente de reação cruzada, sendo que
uma reação cruzada similar na epiderme pode ser o mecanismo pelo qual esse composto
induz ao pênfigo.
Barravieira (1995), entretanto, diz ter sido descrita nos doentes de pênfigo a
elevação dos níveis séricos de peptídeo tímico, alfa 1-timosina e de auto-anticorpos
altamente específicos para queratina murina ácida de 59Kd contra a queratina
correspondente a 56Kd. O aumento dessas duas substâncias tem sido descrito em
doenças de etiologia viral, sugerindo, por analogia, evidências circunstanciais para a
causa infecciosa da doença.
7
Radical monovalente, CH2 = CHCH2–. Isotiocianato de alilo; obtido da Brassica nigra ou pela ação da
água sobre a sinigrina e mirosina ou produzido sinteticamente; vesicante, utilizado em solução a 10% em
álcool a 50%, como contra-irritante na neuralgia. Dá à mostarda seu sabor e aroma característicos.
8
Mistura de hidrocarbonetos não-voláteis, derivados de catecol com cadeias laterais C15 ou C17,
insaturadas, constituindo o alérgeno ativo do óleo irritante de hera venenosa, Toxicodendron radicans, do
carvalho venenoso, T. diversilobum e da árvore da laca asiática, T. verniciferum.
9
Qualquer um de um grupo de constituintes vegetais não-uniformes e complexos, que podem ser
classificados em hidrolisáveis e condensados. São utilizados no curtume, na coloração, em fotografia e na
clarificação de cervejas e vinhos. Formam corantes pretos na presença de ferro.
10
É uma imunoglobulina mo noclonal do plasma sanguíneo, observada eletroforeticamente como uma
faixa intensa nas regiões ?, ß ou a, devido a um aumento isolado de um único tipo de imunoglobulina em
virtude de um clone de plasmócitos originados da multiplicação rápida anormal de uma única célula. O
achado de uma paraproteína no soro de um paciente indica a presença de um clone proliferativo de células
produtoras de imunoglobulina, e pode ser observado em várias doenças malignas, benignas ou paraneoplásicas.
16
Apesar de todas essas discussões a respeito da etiologia do pênfigo, nenhuma delas
fica de fato comprovada, necessitando de um estudo mais aprofundado. Todavia, a
hipótese mais concreta e estudada é aquela que focaliza a probabilidade do S.
nigrimanum ser o vetor desencadeador da doença.
3.3 Conhecendo a clínica e buscando o diagnóstico
Segundo Filho (1999), o pênfigo foliáceo se manifesta através de manchas
vermelhas na pele, nas quais se localizam lesões bolhosas que se rompem facilmente
formando crostas, localizadas principalmente nas porções centrais do tórax, tanto
anterior como posteriormente, nos ombros, pescoço, rosto e couro cabeludo. Na fase
inicial, essas lesões bolhosas são chamadas pré- invasivas, sendo freqüente a presença de
descamação intensa no couro cabeludo. O não-tratamento dessas lesões implica a sua
extensão de forma simétrica, em semanas ou meses, a todo o corpo, caracterizando a
fase invasiva.
Posteriormente à fase invasiva, seguirá a fase eritrodérmica, caracterizada por
bolhas que se tornam cada vez mais raras, sendo substituídas por uma vermelhidão e
descamação que podem generalizar-se. Essa fase pode durar anos, caso o paciente não
seja tratado, podendo ele falecer por complicações decorrentes dessa dermatose.
Expressa-se clinicamente pelo aparecimento de bolhas flácidas sobre a área
eritematosa, que se rompem com facilidade, deixando áreas ulceradas com halo
eritematoso, posteriormente recobertas por crostas. As lesões iniciam-se geralmente na
face e no couro cabeludo, com progressão crânio-caudal, podendo atingir tronco e
membros. (BARRAVIEIRA, 1995).
Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 1991), o pênfigo é dividido em três
formas: frusta ou localizada, onde as lesões geralmente são em pequeno número,
localizadas somente na face, no couro cabeludo e em partes altas do tronco. Têm
aspecto eritematoso, exudativo ou escamoso, onde nem sempre se observa a formação
de bolhas. Possui evolução imprevisível, podendo ocorrer regressão lenta, espontânea,
ficando apenas a presença de máculas hipocrômicas ou hiperpigmentadas, ou ainda a
substituição por novas lesões mantendo o caráter de benignidade; na forma
generalizada, as lesões atingem grandes áreas do tegumento, podendo chegar à
eritrodermia. Nessa forma são distinguidas três síndromes clínicas distintas: forma
17
bolhosa esfoliativa, na qual o paciente apresenta predomínio de lesões bolhosas
superficiais, lembrando a dermatite esfoliativa, podendo ser acompanhada de sintomas
como febre, artralgia e mal-estar geral, geralmente associados ao início da erupção
bolhosa. A forma eritrodérmica esfoliativa é a segunda forma clinica, caracterizada por
lesões erosivas superficiais confluentes com crostas e exsudato seroso. A terceira forma
clínica é aquela em que o paciente apresenta lesões com placas ceratósicas e nodulares,
similar às das formas crônicas localizadas; a forma hiperpigmentada é vista em
pacientes entrando em remissão do quadro clínico, e muitas vezes independe do uso de
corticosteróides. Pode apresentar-se restrita às áreas anteriormente vesiculares ou ser
difusa e generalizada.
O fogo-selvagem é caracterizado, independentemente da fase da doença, por uma
sensação de ardor e calor com grande sensibilidade ao frio (BARRAVIEIRA,1995).
As bolhas que ocorrem no pênfigo foliáceo são extremamente superficiais e
membranas mucosas nunca são acometidas. A acantólise ocorre na camada mais
superficial da epiderme, logo após a camada córnea. Existindo uma forte associação
com quatro antígenos leucocitários humanos (HLA) específicos com os alótipos DRB1
*0404, 1402, 1406 e 1401 (NOUSARI, 1999).
O fogo-selvagem deve ser diferenciado do pênfigo foliáceo clássico e do pênfigo
vulgar por meio de suas características epidemio lógicas e pela ausência de lesões orais.
O sinal de Nikolsky11 pode estar presente, porém não é considerado um fator
patognomônico. O exame histopatológico das lesões da pele mostram vesículas
subcórneas com células acantolíticas, o que favorece o diagnóstico, visto que outras
dermatoses bolhosas, como o penfigóide bolhoso e a dermatite herpetiforme, produzem
vesículas e bolhas subcutâneas sem evidência de acantólise. A imunofluorescência
indireta (IFI) revela auto-anticorpos em níveis que se correlacionam com a atividade da
doença e extensão do envolvimento da pele (CAMPBELL et al., 2001).
Com base nestes dados, diz-se que o diagnóstico de pênfigo foliáceo endêmico
parte de investigações clínicas e laboratoriais levando em consideração a procedência
do paciente e fazendo diagnóstico diferencial com outras dermatites bolhosas e/ou
esfoliativas.
11
Fácil separação da camada do estrato córneo da epiderme, a partir da camada celular basal, por meio de
fricção das áreas cutâneas aparentemente normais, que se encontra no pênfigo e em algumas outras
doenças bolhosas.
18
Assim, considera-se também de grande importância o achado laboratorial para
facilitar a diferenciação com outra dermatose, bem como a caracterização do pênfigo.
♦ Histopatologia: presença de acantólise nas bolhas intra-epidérmicas,
placas verrucosas ou vegetantes apresentando quadro histológico
caracterizado por acantose
12
, hiperceratose
13
, paraceratose 14 e acantólise,
que são comumente observadas nos casos crônicos da doença.
Incontinência pigmentar nos casos de hiperpigmentação clínica. A
microscopia eletrônica revela que a adesão celular estará afetada em todas
as camadas, em níveis variados (CAMPBELL, 2001).
♦ Imunofluorescência: IgG é encontrado em todas as biópsias de pele
lesional e perilesional, ainda que esta possa parecer saudável. Em cerca de
50% dos casos pode ser detectado C3. A maioria dos pacientes tem autoanticorpos do pênfigo ligados in vivo nos espaços intercelulares da mucosa
oral, apesar de o fogo-selvagem não apresentar lesões orais. Segundo um
trabalho realizado por Pegas, citado por Campbell (2001), IgG teve um
percentual de 100% à imunofluorescência indireta com predomínio do
subtipo IgG4 com 95,74% dos casos, seguido de IgG1 com 78,72% e IgG2
36,17%, com IgG3 negativa. Cunha, citado por Campbell (2001),
apresentou em seu estudo a existência de uma correlação entre o valor dos
títulos de anticorpos específicos e a extensão da doença, ficando os valores
mais altos para a forma generalizada. Disse ainda que os anticorpos
encontrados no pênfigo foliáceo são dirigidos apenas contra desmogleína
1. A IF direta pode permanecer positiva em pele de indivíduos
clinicamente curados por vários anos.
♦ Immunobloting (IB): Fornece informação mais específica do que a IFI,
por identificar antígenos específicos aos quais são dirigidos os anticorpos,
caracterizando, assim, o tipo de pênfigo. Porém não deve ser utilizada para
fins diagnósticos, pois pode ser negativa em alguns pacientes, enquanto
que em outros pode ser positiva para anticorpos contra ambos os antígenos.
♦ Imunoprecipitação (IP): Surgiu em 1990 como técnica imunoquímica
altamente sensível para pênfigo foliáceo endêmico, para a detecção de
12
Espaçamento da camada de Malpighi da epiderme que se observa em várias afecções cutâneas.
Espaassamento da camada córnea da epiderme ou mucosa.
14
Retenção de núcleos nas células do estrato córneo da epiderme.
13
19
auto-anticorpos. Os pacientes apresentam 100% de positividade nesta
técnica.
♦ Elisa (enzyme-linked immunosorbent assay): Possui alta especificidade e
pode ser escolhido como método de eleição no diagnóstico e segmento dos
doentes de pênfigo. Ishii et al. (citados por Campbell (2001), que
desenvolveram a técnica, encontraram positividade de 96% para doentes
de pênfigo foliáceo e 94% para pênfigo vulgar.
Diante do exposto, observa-se que a associação entre o diagnóstico laboratorial e os
achados no exame clínico poderá apontar para um diagnóstico mais seguro, descartando
outras possíveis dermatoses bolhosas.
3.4 A evolução do tratamento
Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 1991), o tratamento do pênfigo baseiase na corticoterapia por via oral, sendo prednisona a droga de primeira escolha, e como
droga de segunda escolha a triamcinolona em dose equivalente. Dosagem inicial, de 1 a
1,5 mg/kg/dia, em dose única, no café da manhã, até o desaparecimento do quadro
bolhoso, cerca de 30 a 40 dias após o início do tratamento. Em casos frustos, pode ser
utilizada uma dose de ataque que varia de 20mg a 40mg por dia. Considera-se ainda que
ao término do tratamento as doses deverão ser reduzidas 10mg a cada 10 dias. Existe
uma dose de manutenção de cerca de 20mg a 40mg por dia em dose única por via oral
por um período de três meses. Mantendo a remissão, a dose poderá ser dada em dias
alternados. Após seis a 12 meses de remissão, a dose poderá ser dada de três em três
dias. A retirada do corticosteróide deverá ser feita após um a três anos livres de
sintomas.
Bystryn e Steinman (1996) propõem o uso de pulsoterapia com megadoses de
corticosteróides quando não houver resposta ao uso destes sob a forma oral. Sendo a
droga mais empregada a metilprednisona (solumedrol) por via endovenosa, na dose de
1g/dia, durante o período de duas a três horas, por cinco dias. Entretanto, esse
tratamento é melhor tolerado por pacientes jovens.
Os tratamentos adjuvantes do pênfigo podem ser classificados de acordo com seu
mecanismo ou potencial de ação. Podem ser considerados as drogas antiinflamatórias,
imunossupressoras e procedimentos imunomoduladores. As drogas imunossupressoras,
como
ciclofosfamida,
ciclosporina
e
azatioprina,
são
as
principais
drogas
20
imunossupressoras usadas no tratamento adjuvante do pênfigo, sendo que o tratamento
com azatioprina foi eficaz à medida que as doses de corticosteróides eram diminuídas.
A ciclosporina inibe seletivamente as respostas imunes mediadas pelos linfócitos T. Não
se sabe qual o mecanismo de ação dessa droga no tratamento do pênfigo, já que este é
uma doença de células B mediada por auto-anticorpos. Já pulso de ciclofosfamida foi
baseado em estudos com lúpus eritematoso, nefrite lúpica, granulomatose de Wegener e
doença de Behçet, que sugerem ser mais eficaz do que a pulsoterapia oral ou venosa,
apresentando menos efeitos colaterais do que a ciclofosfamida oral (BYSTRYN e
STEINMAN, 1996).
Ioannides et al. (2000) sugerem que o tratamento de combinação com
corticosteróides e ciclosporina , 5 mg/kg, não oferece vantagens sobre o tratamento com
corticosteróides isoladamente, em pacientes com pênfigo. Segundo eles, os efeitos
colaterais são evidenciados com a associação desses medicamentos.
O uso da plasmaferese e do pulso com corticosteróides parece ser eficaz, nota-se
uma sensível melhora dentro de mais ou menos uma semana, o que não seria possível
em doença ativa sem tratamento.
A triancinolona intralesional pode ser usada para tratar lesões individuais do
pênfigo. É útil no controle da doença leve sem o uso de medicação sistêmica e também
para tratar um surto leve da doença sem aumentar a dose das medicações sistêmicas.
Como o uso prolongado dos agentes imunossupressores está associado à perda da
fertilidade e ao maior risco de câncer, parece razoável usar o ouro como tratamento
adjuvante inicial em pacientes jovens em idade fértil. Sendo a formulação parenteral
mais eficiente do que a oral (BYSTRYN e STEINMAN, 1996).
Razzaque e Naveed (2001) discorreram sobre o uso de imunoglobulina intravenosa
em pacientes com pênfigo foliáceo que não obtiveram resposta satisfatória à terapia
convencional. Nesse estudo, todos os pacientes tiveram resposta clínica efetiva com
remissão das lesões por um período médio de 18,6 meses após a suspensão do uso. Não
há relatos de efe itos colaterais sérios.
Um aspecto importante abordado por Serra et al. (1995) em um estudo realizado
após cinco anos de corticoterapia em pacientes com imunodeficiência adquirida mostrou
que o uso dessas drogas não agravou a doença por HIV, tampouco modificou o quadro
de imunodeficiência do paciente que a usou. Mostrou que é seguro o uso de
corticosteróides em pacientes com contagem de CD4 maior que 200 cel/ml, pois após
21
um ano de uso dessas drogas em pacientes portadores do HIV sua carga viral
permaneceu estável.
Campbell (2001) recomenda a reposição de proteínas e potássio e a diminuição na
ingesta de sódio durante o tratamento.
Portanto, ao analisar a evolução do tratamento medicamentoso no pênfigo,
percebe-se que, apesar de várias tentativas de terapias alternativas, não houve grandes
mudanças, visto que a terapia mais utilizada atualmente continua sendo com
corticosteróides, o que mostra a necessidade e a importância de os estudiosos
continuarem pesquisando sobre esse assunto.
3.5 Relevância da assistência de enfermagem
As ações de enfermagem devem objetivar, acima de tudo, o atendimento global do
indivíduo, orientada pelos problemas do paciente que são sinais sintomas de alteração
das necessidades humanas provocadas pela doença (KAMIYAMA, 1981).
Além do desconforto e da insegurança inerentes à própria doença, o paciente com
pênfigo foliáceo experimenta sérios problemas psicossociais, conseqüentes da lesão da
auto-imagem.
Assim, as preocupações mais comumente vividas por pacientes portadores de
pênfigo são:
♦ preocupação com o aparecimento de novos casos na família;
♦ receio da própria doença e preocupações com a sua evolução;
♦ desconforto provocado pelo isolamento reverso ou preventivo;
♦ insegurança.
A partir daí, alguns aspectos da assistência de enfermagem ao paciente com
pênfigo foliáceo endêmico, descritos por Brunner e Suddart (1999) e Kamiyama (1981)
devem ser observados:
♦ Avaliar a dor e o desconforto causado pelas lesões.
♦ Promover a integridade da pele, evitando o uso de esparadrapos e cuidando para
que o paciente esteja sempre aquecido, vista que a hipotermia é comum.
♦ Reduzir a ansiedade, desenvolvendo uma relação de confiança.
22
♦ Monitorar e tratar as complicações potenciais, vista que a maior causa de morte
são as infecções secundárias adquiridas a partir das lesões pré-existentes.
♦ Atentar para um possível desequilíbrio hidroeletrolítico, já que existe uma perda
significativa de cloreto de sódio pela pele.
♦ Também devem ser observados cuidados relativos ao ambiente e ao material,
tais como:
-promoção e manutenção de ambiente livre de poeira, correntes de ar e de fontes de
infecção;
-limpeza úmida rigorosa e cuidadosa (água, sabão, desinfetante e esterilização de panos
de limpeza a cada plantão);
-limpeza concorrente diária;
-limpeza terminal na alta do paciente;
-uso de material esterilizado no cuidado do paciente;
-provimento de material necessário ao cuidado do paciente em sua unidade.
♦ Assistência ao ajustamento do paciente à nova situação:
-explicação sobre a doença, o tratamento e a hospitalização;
-apoio e atenção.
♦ Assistência na admissão do paciente:
-admissão direta no quarto;
-verificação das condições do paciente e atendimento aos problemas prioritários;
-orientação sobre o sistema de isolamento, seu regulamento e outras informações
sentidas necessárias pelo paciente.
♦ Administração de medicamentos:
-explicação sobre os efeitos do corticóide;
-observação dos efeitos colaterais (edema, oligúria, distúrbios emocionais, etc.).
♦ Cuidados com alimentação e hidratação:
-alimentação hiperprotéica, hipervitaminada e hipercalórica;
-oferecimento de saladas com vegetais cozidos e de frutas lavadas com água clorada ou
cozidas;
-hidratação cuidadosa;
-tratamento das lesões da boca (quando necessário) com água bicarbonatada a 2% e
aplicação de xilocaína 10 minutos antes das refeições;
-criteriosa higiene oral.
23
♦ Controles e observação:
-sinais vitais;
-evolução das lesões bolhosas;
-sinais de infecção secundaria;
-eliminações;
-líquidos ingeridos e eliminados;
-reações comportamentais;
-efeitos colaterais da terapia imunossupressora;
-sinais de complicações e de agravamento;
-queixas e problemas expressados pelo paciente.
♦ Cuidados com a higiene:
-banho de imersão com água esterilizada, morna (temperatura 37°C) ou com
permanganato de potássio a 1:40.000, em banheira forrada com plástico esterilizado;
-uso de toalhas e de roupas esterilizadas;
-aplicação de vaselina esterilizada ou pomada de corticosteróide após o banho.
♦ Cuidados com a roupa do paciente:
-uso de roupas esterilizadas;
-uso de roupas de cama esterilizadas;
-uso de lençóis de plástico esterilizados a fim de evitar aderências nas lesões.
♦ Cuidados especiais:
-restrição de manipulação do paciente ao mínimo necessário;
-movimentação cuidadosa;
-cuidados com a dor provocada pelas lesões;
-uso de arco de proteção esterilizado e outros recursos a fim de evitar aderência das
lesões à roupa de cama;
-orientação e encaminhamento sobre atividades ocupacionais compatíveis com as
condições do paciente.
♦ Preparo para alta:
-orientação do paciente e da família sobre a doença (natureza, patogenia, tratamento,
profilaxia e cuidados), focalizando em especial a importância e a necessidade da
continuidade do tratamento após a alta.
♦ Preparo da equipe de enfermagem:
-orientação sobre: doença; tratamento; profilaxia;
24
-cuidados com o paciente e sua família.
Diante da fragilidade em que se encontra um paciente portador de pênfigo, entendese aqui que o sucesso do tratamento depende, em muito, da compreensão do paciente
sobre a sua doença, do plano terapêutico, bem como da sua participação no tratamento.
25
26
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste estudo, buscou-se uma atualização sobre aspectos mais relevantes do pênfigo
foliáceo brasileiro, cuja revisão bib liográfica permitiu também levantar subsídios para a
assistência de enfermagem com vistas a despertar o interesse de colegas, sejam eles
acadêmicos ou profissionais da saúde, sobre sua interação no processo de adoecer e
tratar o pênfigo.
Este estudo proporcionou a atualização do conteúdo, favorecendo aos profissionais
da área, especialmente os enfermeiros, o acesso ao material elaborado de forma mais
ampla e condensado em uma única fonte.
Considera-se que, apesar dos estudos terem avançado, até o presente momento não
foi identificado concretamente o agente etiológico do fogo-selvagem, sendo identificado
apenas o provável vetor que desencadeia a doença. Apesar disso, os avanços nas
pesquisas científicas puderam melhorar as formas de diagnóstico compreendidas através
de técnicas laboratoriais e exame clínico, o que nos permite enfatizar aqui a importância
de o enfermeiro deter o conhecimento sobre a doença, uma vez que ele também
participa ativamente do restabelecimento da saúde do indivíduo com pênfigo.
No levantamento do material para a concretização desta pesquisa, notamos quase
que ausente a publicação de textos e artigos científicos sobre o tema por parte da
enfermagem. Por isso deixamos registradas neste estudo a expectativa e a esperança de
poder contribuir para futuras publicações sobre este assunto.
27
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