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E
Editorial
Obesidade, caquexia e microbioma
Obesity, cachexia and microbiome
Joel Faintuch1
O microbioma intestinal é debatido desde que Elie Metchnikoff ganhou o prêmio Nobel de Medicina, em 1908. De fato, este pesquisador, judeu russo radicado na França, lançou luzes sobre os germes
intestinais, e o papel dos lactobacilos na restauração da homeostase do microbioma.
Desde então, os probióticos cresceram e assumiram papel de relativo destaque, porém não muito mais
que isto. Quem lançou o microbioma nas manchetes internacionais foi a obesidade, ou mais especificamente Jeffrey Gordon, atualmente diretor do Center for Genome Sciences & Systems Biology, Washington
University, St. Louis, MI, USA.
A partir da década de 1990, este pioneiro demonstrou que suspensões fecais de humanos obesos e
magros precipitavam alterações análogas quando inoculadas no intestino de camundongos1.
Desde então demonstrou-se que os mesmos dejetos intestinais curavam infecção por Clostridum difficile
e outros germes entéricos multirresistentes, induziam remissão em Crohn e retocolite ulcerativa, revertiam
a doença do enxerto versus hospedeiro em transplantados de medula óssea e modulavam numerosas outras
entidades.
Era relevância demais para algo cujo destino usual é o sanitário e a rede de esgotos. Cumpria uma releitura dos paradigmas. Ou se enquadrava as exonerações fecais no seu devido lugar, ou tudo se inverteria,
de cabeça para baixo. Estamos mais próximos do desfecho B.
A Food and Drug Administration (USA) classificou fezes como fármaco, a ser processado de modo
formal, mediante protocolos científicos devidamente registrados e aprovados. Nos Estados Unidos da
América, coleta e processamento de fezes são rigidamente regulados. Diversos pesquisadores de outros
países apelaram para que se outorgasse ao material a nobre designação de tecido. Fármaco ou tecido,
raras vezes a indústria farmacêutica investiu tanto em um setor do conhecimento, quanto hoje sucede
com o microbioma.
Demonstrando a ubiquidade do microbioma na fisiologia e fisiopatologia, uma forte associação com
caquexia foi recentemente caracterizada em camundongos2. O modelo não foi tumoral, mas infeccioso
(pneumonia ou diarreia grave). De todo modo, todas eventualidades de caquexia exibem como substrato
uma falha na sinalização de fatores de crescimento na musculatura, ao lado de uma aceleração da degradação dessa mesma musculatura, mediada por vias metabólicas e inflamatórias.
A presença de uma cepa específica de E.coli no intestino dos animais investigados não alterou o balanço
calórico, nem a ativação do inflamasoma, induzidos pela infecção experimental. Não obstante, melhorou
a sinalização do hormônio anabólico IGF-1. Nessas circunstâncias, a tolerância à infecção melhorou
substancialmente, graças à neutralização da caquexia2.
Alguma translação desses achados para a caquexia tumoral humana, ou para a desnutrição progressiva de pacientes críticos? Os estudos prosseguem em outros modelos de caquexia, e já há um candidato
terapêutico, o Lactobacillus reuteri3.
1.
Editor da Revista Brasileira de Nutrição Clínica.
Rev Bras Nutr Clin 2016; 31 (2): 89-90
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Faintuch J
Também Rosenthal et al.4 enfatizam que o microbioma desempenha múltiplos papeis no paciente crítico.
A produção de ácidos graxos de cadeia curta, a digestão e conversão de aminoácidos, a modulação da
inflamação intestinal e da translocação bacteriana são exemplos pertinentes. Até 20% de certos aminoácidos
circulantes nestes pacientes são de origem entérica.
Sabe-se que a nutrição parenteral exerce ações profundas sobre o microbioma intestinal. Entretanto,
nenhuma das fórmulas enterais atualmente em uso, seja no contexto convencional ou crítico, foi avaliada
sob esse prisma, e esta é uma lacuna importante4.
No século XIX, a enfermidade na mente da maioria dos profissionais da saúde era a tuberculose.
Durante a primeira metade do século XX, clínicos no Brasil e em outras partes eram instados a pensar
sifiliticamente. Na década de 1980, entrou em voga a infecção por HIV/AIDS. Estamos em vias de pensar
microbiomicamente?
REFERÊNCIAS
1. Ridaura VK, Faith JJ, Rey FE, Cheng J, Duncan AE, Kau AL, et al. Gut microbiota from twins
discordant for obesity modulate metabolism in mice. Science. 2013;341(6150):1241214.
2. Schieber AM, Lee YM, Chang MW, Leblanc M, Collins B, Downes M, et al. Disease
tolerance mediated by microbiome E. coli involves inflammasome and IGF-1 signaling.
Science. 2015;350(6260):558-63.
3. Varian BJ, Goureshetti S, Poutahidis T, Lakritz JR, Levkovich T, Kwok C, et al. Beneficial
bacteria inhibit cachexia. Oncotarget. 2016;7(11):11803-16.
4. Rosenthal MD, Vanzant EL, Martindale RG, Moore FA. Evolving paradigms in the
nutritional support of critically ill surgical patients. Curr Probl Surg. 2015;52(4):147-82.
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Rev Bras Nutr Clin 2016; 31 (2): 89-90
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