ANTÓNIO BRAZ TEIXEIRA, Ética, Filosofia e Religião. Estudos

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A N T Ó N I O B R A Z T E I X E I R A , Ética, Filosofia e Religião - estudos sobre o pensamento português, galego e brasileiro, Évora, Pendor, 1997.
A questão da existência de uma "filosofia portuguesa" tem suscitado as mais
acesas disputas, as mais acérrimas controvérsias. De um lado, protagonizadas por
aqueles que desde logo fazem desta questão uma questão de honra, de orgulho pátrio.
Do outro, por aqueles que, à partida, não aceitam sequer equacionar a possibilidade de
existência de uma filosofia assim designãvel.
Refém de tais controvérsias tem estado até hoje o estudo das obras de muitos
filósofos portugueses - sobretudo daqueles que se assumem nessa dupla condição,
como são os casos, entre muitos outros, de José Marinho, Álvaro Ribeiro, Leonardo
Coimbra, Teixeira de Pascoaes ou Fernando Pessoa. Exaltados por uns pelo simples
facto de se assumirem como "filósofos portugueses" e ostracizados por outros por esse
mesmo facto, as suas obras raras vezes têm sido estudadas de uma forma isenta, de
uma forma que atenda sobretudo ao seu valor filosófico.
Uma das poucas pessoas que têm realizado esse trabalho é, há j á várias décadas,
o prof. António Braz Teixeira. A última prova disso é esta colectânea de estudos mais
recentemente publicada. Pelo seu mérito, importa não apenas saudá-la como, sobretudo, tomá-la como exemplo do que deve ser o nosso próprio trabalho. Exemplo que
todos nós devemos pois seguir. Quanto mais não seja, para podermos enfim responder
à questão da existência de uma "filosofia portuguesa".
Porque a "filosofia portuguesa", a existir, não pode ser apenas uma bandeira.
Mas sobretudo uma obra. Ela será uma obra ou não será...
Sobretudo preocupado com a obra c não com a bandeira, o mesmo é dizer, com
a coisa e não com o nome, é esse o olhar do prof. António Braz Teixeira, é esse o
olhar que importa que cada um de nós cumpra. S ó assim, à luz desse olhar, poderemos
então iniciar o estudo dessa série de obras que, no seu conjunto, formam um corpus,
um espaço filosófico singular, de facto irredutível, independentemente do nome que
lhe queiramos dar, no mais amplo universo da tradição filosófica ocidental.
Porque efectivamente filosófico, não é esse espaço um simples espaço físico.
Enquanto simples espaço físico, ele extravasa aliás, em muito, o espaço físico português. Enquanto simples espaço físico, ele será, na sua configuração mínima, um espaço luso-galaico-brasileiro, dadas as profundas afinidades, desde logo linguísticas,
existentes entre estas três culturas - na sua configuração última, um espaço de diálogo,
de mútuo encontro, de mútuo cruzamento, entre as mais diversas mundividências. Tal
o que podemos desde logo apreender ao lermos esta colectânea de estudos, não certamente por acaso intitulada: Ética, Filosofia e Religião - estudos sobre o pensamento
português, galego e brasileiro.
Como dissemos, porque efectivamente filosófico, não é esse espaço um simples
espaço físico. EJe é também, ele é sobretudo, acrescentamos agora, um espaço espiritual. Nessa medida, ele j á não será pois sequer um espaço luso-galaico-brasileiro, nem
muito menos um espaço simplesmente português, mas o espaço de todos aqueles que,
independentemente da sua proveniência geográfica, queiram contribuir para esta
causa. Tão-só esta: a de encontrar um caminho outro, um caminho verdadeiramente
alternativo, à actual deriva niilista da filosofia contemporânea.
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Tal, com efeito, o que, até hoje, mais distintivamente tem caracterizado o nosso
pensamento filosófico - em todas as suas dimensões, desde logo, na sua dimensão
antropológica: uma concepção integral do homem, integrai porque afirma o homem na
sua tríplice condição, enquanto ser, simultaneamente, material, social e, sobretudo,
metafísico. Como nos diz o próprio autor destes estudos, logo a abrir o primeiro deles:
"... se a antropologia filosófica contemporânea tende, noutros países e noutros povos
do nosso continente, a circunscrever-se a uma dimensão humanista e a fechar-se numa
finitude temporal e mundana, em Portugal, a reflexão sobre o homem tem-se caracterizado por uma dupla abertura ou um duplo horizonte, simultaneamente cósmico e
escatológico."
Questionarão aqui alguns a aparentemente excessiva abrangência desse programa, defendendo que não cabe à filosofia, por si só, cumpri-lo. Também a este propósito, de facto, temos muito a aprender com os nossos filósofos. E isto porque a concepção de filosofia que eles nos propõem, e que eles próprios procuraram, durante a
sua própria existência, cumprir, também ela se distingue, se caracteriza, pela sua integralidade. Com efeito, o trânsito que eles nos prefiguram não é apenas um trânsito
sóíico. É também, é sobretudo, um trânsito ontológico - um trânsito através do qual
não se cumpre apenas todo o humano ou j á trans-humano inteligir, mas também, mas
sobretudo, todo o humano ou j á trans-humano ser.
Enquanto trânsito não apenas sóíico como também, como sobretudo, ontológico,
esse será então, desde logo, um trânsito ético - o mesmo é dizer, um trânsito através
do qual aprenda enfim o homem a habitar este mundo, e a coabitar com os outros
seres, e não apenas com os outros seres humanos - e, em última instância, no extremo
de si, um trânsito religioso - o mesmo é dizer, um trânsito que leve o homem a habitar
sobre o abismo, isto é, que leve o homem a abrir-se ao outro, ao absolutamente outro,
de todo o ser, àquele que, na sua infinita transcendência, independentemente do nome
que lhe queiramos dar ou da concepção que dele tenhamos, mais profunda, mais verdadeiramente é em cada um de nós. Daí, aliás, a única objecção que nos permitimos
fazer ao prof. António Braz Teixeira a propósito desta sua colectânea dc estudos: ela
não deveria intitular-se Ética, Filosofia e Religião mas, simplesmente, Filosofia.
Não fosse ela, a Filosofia, tão-só isso: esse trânsito através do qual integralmente
se cumpre o homem.
Renato Epifânio
RUFFING, Margit (Hrsg.): Kant-Bibliographie
1945-1990,
Malter, Frankfurt a. M . : Vittorio Klostermann, 1999, 976 pp.
begründet v. Rudolf
Foi recentemente publicada pela editora Vittorio Klostermann dc Frankfurt am
Main (Alemanha) uma bibliografia de Kant que abrange o período de 1945 a 1990. A
obra referencia cronologicamente todas as edições de obras de Kant. todas as traduções e bibliografias publicadas, assim como estudos sobre o pensamento e a figura de
Kant efectuados durante este período em todo o mundo. Para a referenciação dos
estudos coligidos, foram considerados tanto os artigos e livros publicados como as
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