Cérebros, Mapas e o Novo Território da Psicologia

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Cérebros, Mapas e o Novo Território da Psicologia
Anne Beaulieu
Royal Netherlands Academy of Arts and Sciences
Theory & Psychology Copyright © 2003 Sage Publications. Vol. 13(4): 561–568
[0959-3543(200308)13:4;561–568;034694]
Resumo
Na última década, tem-se visto o crescimento do interesse no uso dos métodos de
imageamento funcional do cérebro em pesquisas. A variedade das condições e
comportamentos estudados usando esses métodos também tem se expandido. Esses
desenvolvimentos têm alterado o perfil dos subcampos da psicologia e da neurociência.
Enquanto esses acontecimentos são criticados como movimentos reducionistas, eu argumento
que eles podem ser melhor caracterizados como processos produtivos. Esse tipo de
caracterização torna visível a expansão e reorganização do objeto de estudo e de domínios de
investigação; ele destaca novas relações com outras disciplinas e instituições e problematiza o
subseqüente incremento na visibilidade social. Uma abordagem reflexiva para o mapeamento
das práticas é proposto para ajudar as pesquisas de imageamento funcional no direcionamento
das questões de segregação e responsabilidade metodológicas.
Palavras-chave: Mapeamento Cerebral, História do Imageamento Funcional, Neuroética,
Reducionismo, Reflexividade.
Abstract
The past decade has seen growing interest in the use of functional brain imaging methods in
research. The range of conditions and behaviours studied using these methods has also been
expanding. These developments have changed the profile of subfields in both psychology and
neuroscience. While these events have been critiqued as reductionist moves, I argue that they
can better be characterized as productive processes. Such a characterization makes visible the
expansion and reorganization of the object of study and of domains of investigation; it
highlights new relations with other disciplines and institutions, and it problematizes the
subsequent increased social visibility. A reflexive approach to mapping practices is proposed
to help functional imaging research address issues of methodological isolation and
accountability.
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Key Words: Brain Mapping, History of Functional Imaging, Neuroethics, Reductionism,
Reflexivity
racial’ aplicados antes dos scans. Esse
Tudo no Cérebro
estudo foi publicado em um dos
O argumento de que ‘tudo está
no
cérebro’
dificilmente
principais
periódicos
científicos
suscita
americanos. Não se seguiu nenhum
dúvidas. Quase todos os meses, uma
protesto. Exatamente como medir esse
nova área para tal processo ou uma rede
traço pode ser debatido, mas aquele
para
é
medo de que o Outro está conectado em
encontrado e amplamente divulgado. De
nossos cérebros é uma ideia que pode
fato, ao longo da Década do Cérebro, a
ser levada em consideração. É também
ideia de uma base biológica para a
uma ideia que parece não apenas
mente tornou-se enraizada, tanto no
carregar a agenda de um novo estilo de
discurso popular quanto no científico.
pesquisa psicológica, mas também de
Algumas declarações sobre as bases
abraçar
biológicas
de
aprimoramento nas relações sociais. Se
podem
os mecanismos biológicos do medo
aquele
de
comportamento
certos
personalidade
traços
ainda
o
podem
Um artigo recente afirma ter encontrado
eventualmente
os substratos biológicos para atitudes
(biologicamente, farmacologicamente)
raciais (Phelps et al., 2000). Como
modulados.
atitudes
complexas
estar
identificados,
de
ocasionalmente surpreender e chocar.
poderiam
ser
compromisso
podem
também
eles
ser
culturais
tão
O que não quer dizer que a
relacionadas
aos
metodologia do mapeamento cerebral
tecidos do cérebro e a circulação
não vem sendo debatida, tanto dentro
sanguínea? Um grupo de sujeitos foi
quanto fora da comunidade de pesquisa.
escaneado enquanto observavam rostos
Figuras como Jerry Fodor e Tom Wolfe
negros e brancos, e a atividade foi
escreveram sobre as fraquezas desta
mensurada em suas amígdalas (uma
abordagem. Wolfe (1997) preocupa-se
estrutura envolvida na aprendizagem
com a queda de noções como cultura,
emocional e no medo).
O nível de
self e alma, como um resultado dos
atividade correspondia aos resultados
cientistas examinando dentro de nossos
dos sujeitos nos testes de ‘avaliação
cérebros,
tornando-os
transparentes
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através
das
tecnologias
de
imageamento. Fodor (1999) insiste na
complexos. Em uma frase: mapas ligam
a vida da mente e o espaço do cérebro.
importância de fazer questões sobre a
O
desenvolvimento
do
mente, para além de observar áreas
mapeamento do cérebro tem marcado
específicas do cérebro iluminando-se
uma importante mudança na prática de
em relação a uma determinada tarefa.
experimentos
Certamente, uma linha de argumento
psicologia e da neurociência. Pela
comumente ouvida quando se discute
utilização
mapeamento
em
escaneamento, fenômenos que estavam
denunciar o reducionismo potencial dos
sendo estudados utilizando medidas
mapas cerebrais e apontar as limitações
comportamentais,
dos scans. Esse tipo de crítica não deixa
estudados utilizando base cerebral, e,
de ser interessante, mas pode perder
mais
importantes
e
anatômicas. Em vez de focar nos
científicos desta nova tendência. Uma
processos da mente no tempo, o
crítica sobre esses mapas que visibilize
mapeamento cerebral
suas complexidades e o modo como são
atenção para padrões no espaço do
produtivos (não apenas redutivos) pode
cérebro
proporcionar um melhor trabalho de
mudanças no foco dos experimentos são
contextualização desta nova corrente de
detalhadas em Images of Mind, de
pesquisa.
Posner e Raichle (1997), dois pioneiros
cerebral
aspectos
consiste
sociais
em
de
certas
áreas
experimentos
vieram
especificamente,
(Beaulieu,
a
da
de
ser
medidas
redireciona a
2002).
Essas
do método no final de 1980. Muitas das
A Função dos Mapas
objeções sobre essa abordagem são
formuladas em resposta a uma edição de
O que é isso que estes mapas
Behavioral and Brain Sciences, na qual
fazem*, e por que isso é valorizado? A
um resumo desse livro foi apresentado1.
que propósito estes mapas do cérebro
Essas localizações têm crescido
estão servindo? A resposta se baseia em
em sofisticação ao longo da última
um princípio simples e detalhes técnicos
década. Um crescimento complexo do
conjunto de características da mente
*
N.T. Aqui a autora faz um jogo de palavras
com a língua inglesa: “What is it that these
maps do do”(...).
pode ser mapeado no cérebro. As
experiências de vida, o impacto do
ambiente e da aprendizagem, tem sido
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todos estudados em experimentos de
da mente no mapeamento cerebral leva
mapeamento. Tem-se produzido mapas
o social ou o ambiental bastante a sério.
distinguindo como a linguagem é
Atribui-se a eles uma característica do
localizada em bilingues precoces e
mapa. Na popular revista Newsweek, o
tardios. A memória espacial superior
destino da carência de orfãos romenos
dos motoristas de táxi de Londres, os
foi
quais precisam aprender a memorizar as
crianças normais através de dois PET
principais ruas da cidade para serem
scans, com as imagens sustentando para
certificados, também tem sido mapeada
o impacto de negligência emocional
como biologicamente diferente. Além
como mensurado nos cérebros dos
de modificar as formas de trabalho de
órfãos (Begley, 1997). Neste caso, a
muitos psicólogos e neurocientistas, os
falta de educação foi apresentada como
mapas têm estado no centro de novas
uma característica biológica.
formas de argumentos sobre o natural e
o
aprendido.
importante
aspectos
O
mapeamento,
ressaltar,
sociais
e
não
é
ignora
ambientais;
ao
largamente
comparado
ao
de
Mais recentemente, os mapas
cerebrais
têm
cada
vez
mais
configurado o modo como a questão
natural/aprendido está sendo colocada.
contrário, ele recoloca estes aspectos em
Um
estudo
de
termos biológicos. O experimento sobre
(Thompson et al., 2001) relacionou
racismo descrito no início deste artigo é
escaneamento cerebral com variação
um claro exemplo de como até mesmo
genética.
um conceito firmado em determinantes
correlacionou
culturais como o racismo pode ser
resultados de teste de QI em relação à
traduzido como uma reação no cérebro.
influência
Estes mapas ligam fatores sociais,
acontecendo nesse exemplo não é a
psicológicos e ambientais à estrutura
recusa em dar importância aos aspectos
biológica do cérebro.
não
Esse
cérebros
estudo
estrutura
genética.
biológicos
O
das
gêmeos
também
cortical
que
e
está
funções
Pode-se dizer que o mapeamento
psicológicas, mas, ao contrário, uma
reconfigura o debate natural/aprendido.
complexa tradução dos fenômenos em
Não é só o natural que conta; o
mensurações do cérebro. Medindo os
aprendido também conta, mas apenas
volumes das partes do cérebro e
quando
correlacionando-os
traduzido
em
ativação
mensurável no cérebro. A biologização
aos
graus
de
similaridade genética (através da bem
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conhecida
gêmeos
estratégia
de
monozigóticos
comparar
e
O Espaço do Corpo
gêmeos
fraternos), as variações em volumes
O foco do mapeamento cerebral
podem ser atribuídas a fatores genéticos
no
ou ambientais. Esse estudo específico
consequências ulteriores para o futuro
ainda sugeriu um possível mecanismo
da psicologia e neurociência. O alcance
para explicar fatores hereditários em
do mapeamento se extende às noções de
escores de QI: volumes de matéria cinza
self, no sentido de seu potencial e de
foram
determinados
sua biografia. Assim como essas noções
geneticamente e puderam assim ser
são mapeadas no espaço do cérebro,
relacionados aos resultados obtidos
elas também entram nos sistemas de
pelos sujeitos.
base cerebral. O sistema primário que
fortemente
Diferenças
nas
e
anatomia
tem
de
lida com o corpo é, claramente, a
inteligência, diferenças nos graus de
instituição biomédica. No momento em
relacionamentos
que estas noções estão ligadas ao
e
medidas
espaço
diferenças
no
ambiente e experiência puderam ser
cérebro,
todos comparados nesse estudo, porque
funções mentais tornam-se condições
eles foram traduzidos em caracteres de
biomédicas. Isto é, portanto, outra
voxels,
que
forma significativa pela qual estes
delineiam os escaneamentos do cérebro
mapas são produtivos: neurociência e
e servem para calcular volumes e níveis
psicologia podem ligar seu trabalho ao
de atividade metabólica. Acusar o
empreendimento médico, incluindo a
mapeamento cerebral de reducionismo é
genética e a farmacologia. Ao trabalhar
perder os caminhos pelos quais sua
com mapas do cérebro, um território
força
comum (literalmente) é criado onde
as
unidades
redefine
digitais
conceitos
como
o
comportamento, aprendido, cultura e
essas
ambiente. O papel relacional do mapa é,
trabalhar.
portanto,
ligar
contexto,
mente
e
que
várias
previamente
disciplinas
eram
podem
Esta ligação torna claro dois
cérebro. Este é um dos modos pelo qual
pontos
relacionados.
Primeiro,
ela
o impacto dos mapas é mais bem
ilumina porque o mapeamento cerebral
analisado como produtor de novas
tornou-se conectado a detecção de
relações, em vez de condená-lo como
doenças. Livros como de Rita Carter,
reducionista.
Mapping the Mind (1998), mostram
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quão
ponderosa
do
pela tendência de fazer estudos de grupo
mapeamento está se tornando. A recente
em mapeamento cerebral e de mensurar
edição em brochura deste livro, embora
scans de diversos sujeitos retomando
em
ainda
diferenças individuais está se tornando
conserva muitas das suas atrativas
um alvo de importante crescimento, já
ilustrações e imagens dramáticas de
que o mapeamento cerebral e os
cérebros ativos. Página após página
esforços
apresenta pares justapostos de cérebros
aliados. A possibilidade de reunir dados
coloridos. A sensível distinção entre
significativos sobre indivíduos pode
esses cérebros produz o forte argumento
assim parcialmente explicar o sucesso
visual de que há uma diferença a ser
dos estudos de fMRI em contraste com
percebida entre cérebros assassinos e
o PET, que requer o cálculo de uma
pacíficos,
média.
um
a
formato
metáfora
reduzido,
padrões
de
pensamentos
biomédicos
Mapas
tornaram-se
cerebrais,
portanto,
masculinos e femininos, ou estados
rearticulam a tensão entre a busca por
conscientes e inconscientes da mente
universais da neurociência cognitiva e
(Dumit, 2004). Uma vez que as
atenção
condições são identificadas no cérebro,
individuais nos estudos em genética
a lógica clínica diz que nós devemos ser
(Plomin & Kosslyn, 2001) ou ciência
hábeis para distinguir casos patológicos
clínica. Este significativo desafio para
dos
momento,
noções tradicionais de ‘normalidade’ é
psicologia
especialmente nítido quando os mapas
(especialmente em psicologia social e
cerebrais são constituídos através de
cognitiva) tem sido tradicionalmente
base de dados de scans e atlas
concebida em termos muito diferentes
eletrônicos (Beaulieu, 2001).
normais.
Até
normalidade
em
do que na ciência
diferenças
explicam
o
clínica.
Estas
alguns
dos
investida
para
variações
Em segundo lugar, este modo de
relatar
experimentos
alinham
a
desconfortos expressos por psicólogos
tecnologia do escaneamento cerebral
sobre as extrapolações feitas nas bases
com outros scanners biomédicos, como
de seus trabalhos (por exemplo, sobre a
o raio-x, a ferramenta diagnóstica
possibilidade
padrão. Pesquisadores que trabalham no
de
‘testagem’
para
dislexia ou ‘falsas memórias’).
mapeamento
cerebral
comumente
Enquanto que psicólogos falam
relatam que eles são questionados se
sobre ‘o cérebro’, uma noção sustentada
podem estender seus trabalhos para
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proporcionar testes diagnósticos para
mapeamento preciso do litoral foi um
detectar as condições que eles estão
potencial ato de deslealdade não muitos
investigando. Uma vez que temos o
séculos atrás. De fato, mapas são ainda
mapa, devemos estar aptos para usá-lo
potentes objetos envolvidos em sistemas
para navegação!
de poder, e os mapas do cérebro não são
Também é importante notar que
diferentes. Mapeamento cerebral é,
enquanto as noções anatômicas têm
portanto, também produtor de novas
sustentado
estudos
demandas aos pesquisadores. Como a
aproximadamente na primeira década
psicologia e a neurociência enfrentam
desta nova corrente, as áreas nas quais
áreas simbólicas significativas, como
cérebro e comportamento estão sendo
consciência,
conectados são desenvolvidas em duas
subjetividade e as bases neurais das
direções. Cérebros e comportamento
relações sociais, eles devem esperar por
estão sendo ligados no nível molecular,
níveis relacionados de preocupação
com inclinações genéticas (como no
social.
estudo de gêmeos descrito acima) ou
neurociência cognitiva aumenta o uso
possíveis implicações farmacológicas
do mapeamento para retratar seus
(como nos estudos que consideram
resultados
neurotransmissores
humano,
cruciais)
estes
como
(Cummings,
fatores
2000;
Jetty,
(falsa)
memória,
Semelhantemente,
biomédico.
em
ela
como
a
termos
de
cérebro
adentra
o
domínio
Consequentemente,
ela
Charney, & Goddard, 2001). Uma
deixa de ser uma disciplina acadêmica
segunda tendência significativa é a de
relativamente isolada; o incremento da
favorecer
a
visibilidade leva a um grande suporte
modelação como forma de traduzir
público, mas também a um grande
processos
noções
escrutínio público. As intervenções de
neurocientíficas para uma linguagem
Fodor e Wolfe discutidas anteriormente
comum (veja McIntosh, Fitzpatrick, &
são assim dignas de nota, porque suas
Friston, 2001).
avaliações
a
matematização
cognitivos
e
e
da
metodologia
de
mapeamento cerebral foram publicadas
em mídia impressa proeminentes. Junto
O Corpo Político
ao crescimento recente da ‘relevância’
Mapas,
também
não
material
obstante,
de
política.
são
O
da
neurociência
cognitiva
vem
o
aumento da responsabilidade. Assim
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como a comunidade de geneticistas e o
acima, uma abordagem reflexiva do
seu projeto para mapear genes, a
contexto e conteúdo desta pesquisa
neurociência enfrenta uma iniciativa
pode ser mais efetiva debatendo-se a
Pan-Européia
seus
aceitabilidade deste empreendimento e
aspectos éticos, legais e sociais (ELSA).
leva para um debate frutífero, para além
Um simpósio financiado pela Wenner-
de
Gren e a European Science Foundations
reducionismo biológico.
para
examinar
acusações
e
recusas
de
um
foi organizado em Estocolmo, em
Este tipo de abordagem reflexiva
setembro de 2001, e objetivava a
nos leva a dois importantes tipos de
reflexão sobre as questões levantadas
considerações. Primeiro, em termos de
por estes desenvolvimentos recentes na
conteúdo,
neurociência. Um pedido Americano
reconhecimento de que os objetos da
para desenvolver a ‘neuroética’ também
psicologia
foi
mudando,
feito.2
neurociência
A
nova
cognitiva
corrente
nos
e
conduz
neurociência
não
ao
estão
simplesmente,
visa
diretamente, aprimorando. Isto também
relacionar mecanismos cerebrais com
implica uma posição modesta no que
referências tradicionais da psicologia
diz
social e está, portanto, tratando com
mapeamento cerebral – uma posição
questões
claramente
que permite pesquisadores considerar o
significativas (veja Cacioppo et al.,
que está excluído pelos paradigmas
2002).
dominantes
sociais
social
da
ela
Mapas cerebrais e especialmente
respeito
às
em
possibilidades
experimentos
pode
coração deste tipo de pesquisa. Novas
Roepstorff, 2002; Roepstorff 2002).
financiamento
ser
enriquecida
(Jack
&
têm
Segundo, em relação ao contexto
lançado em meio a declarações e
deste trabalho, há algumas indicações
‘a
de que pesquisadores estão tomando
neurociência cognitiva social é uma
nota da importância social de suas
grande ciência e está na vanguarda...
atividades (Phelps, 2001). É preciso
Isto talvez assuste alguns que podem
mais do que conversa fiada, uma vez
temer que ela nos leve estrada abaixo
que os pesquisadores entendem onde e
para o reducionismo biológico’ (Azar,
como suas pesquisas são social e
2002). Diante dos pontos discutidos
culturalmente localizadas, podem ser
ratificações
de
de
mapeamento e como a metodologia
as metodologias de fMRI estão no
iniciativas
do
defensivas
que
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mais
capazes
para
delinear
suas
Notas
responsabilidades como produtores de
conhecimento e suas responsabilidades
1. Veja o texto principal e respostas
sociais.
críticas em Posner e Raichle (1995).
Isto
alternativa
oferece
para
o
responsabilidade
uma
terceira
problema
social
da
2. A Dana Foundation, Universidade de
dos
Stanford e Universidade da Califórnia,
pesquisadores – aqueles que parecem
em São Francisco,
mais práticos e éticos ao negarem
conferência
qualquer responsabilidade pelo o que
Mapeando o campo’. Veja o website da
acontece em suas próprias pesquisas, ou
conferência
então assumirem todas as possíveis
http://scbe.stanford.edu/neuroethics_con
repercussões de seus trabalhos. É claro
ference.html.
organizaram a
intitulada
e
‘Neuroética:
conferencista,
que isto não deveria ser considerado
como de exclusiva responsabilidade dos
Referências
pesquisadores. Instituições e agências
de fomento talvez também precisam
Azar, B. (2002). At the frontier of
sustentar este aumento de consciência,
science. Monitor on Psychology,
pela estimulação da comunicação em
33(1)
curso (ao invés da post-hoc) entre
http://www.apa.org/monitor/fronti
pesquisadores de mapeamento cerebral
er.html
e antropólogos, sociólogos e eticistas
2002).
que são experts nestas questões.
January:
(consulted
8
Beaulieu, A. (2001). Voxels in the
Mapas são de fato produtivos:
brain: Neuroscience, informatics
eles conectam o estudo da cognição
and
com a vida diária, psicologia com o
objectivity.
corpo
Science, 31(5), 635–680.
e
pesquisa
científica
January
com
instituições de cuidado. Estas novas
changing
notions
Social
of
Studies
of
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relações e as oportunidades que elas
(only)
criam pode constituir o verdadeiro
visual
impacto do mapeamento e estes são,
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Tradução:
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Psicologia pela Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul (2003),
Agradecimentos.
A
deseja
mestrado em Psicologia pela Pontifícia
agradecer Stuart Blume, Trudy Dehue,
Universidade Católica do Rio Grande
Brad Jorgensen, Sarah Riley, David
do
Gooding, Helen Haste and Andreas
Psicologia pela Pontifícia Universidade
Roepstorff, bem como o Editor deste
Católica do Rio Grande do Sul (2012),
periódico, pelos prestativos comentários
com período de doutorado sanduíche na
e a discussão estimulante neste tópico.
London School of Economics (LSE).
Anne Beaulieu é pesquisadora senior
Atualmente é professor adjunto do
na Networked Research and Digital
Centro Universitário Franciscano. Tem
Information
experiência na área de Psicologia, com
(Royal
autora
Netherlands
Sul
(2006)
e
doutorado
em
P o l i s e P s i q u e , V o l . 2 , n . 1 , 2 0 1 2 P á g i n a | 168
ênfase em Psicologia Social, atuando
principalmente nos seguintes temas:
produção da subjetividade, psicologia,
neurociências, saúde mental, educação e
corpo.
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