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A Africa como destino - Olavo Filho

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A África como destino
Olavo de Souza Pinto Filho1
RESUMO: O nosso ponto de partida para
esse artigo vem de um incômodo nascido
das reflexões sobre o “movimento de busca
pela África” pelos praticantes do candomblé, que, na visão de alguns especialistas,
tratar-se-ia de um “mito” advindo de disputas por “legitimidade” e “prestígio”. Esse
“mal-estar”, antes de produzir uma negação
dessa assertiva, propõe-se a levá-la a sério,
“Tudo o que acontece com uma pessoa já acon-
ou seja, mobilizar conceitualmente a ideia
teceu com outra no passado, é Ifa quem registra
de “mito”, pensando em “mitos” como sis-
tudo dentro de sua cabaça” Araba Aworeni Adisa.
temas de transformações. Nossa proposição espera esboçar outro caminho que po-
“A outra visão. Única, por enquanto. O que acon-
tencialize as afirmações “nativas” de busca
teceu uma vez pode acontecer de novo. Vocês vão
pela África.
ver. Esperem só. É verdade que podem ter que es-
1
[email protected]
perar muito tempo. Nós voltamos. Nós voltamos.”
Palavras-chave: Ifá. Reafricanização. Mito.
Susan Sontag.
Destino. África.
O sentido da palavra “destino” referente
de retorno à África. Nosso foco está nas
por meio de sua criação que Orumila traria
todos os eventos da vida das
ao título do presente texto pode designar
narrativas e principalmente nas análises so-
as respostas para quem o consulta.
pessoas que ficariam registradas
tanto um lugar, como também um objetivo.
bre essas viagens.
em seu interior sobre a forma de
Pode se dizer destino no sentido de sorte,
versos, cada verso traria o diag-
de fortuna ou sina, em geral, pode-se rela-
a visita do mais alto sacerdote do culto de
ma geral, é o caso do escritor/artista e atu-
nóstico e a solução para esses
cionar destino como uma tessitura de fatos
Ifá no mundo, o Araba Agbaye Aworeni3, à
al Araba de Osogbo Ifayemi Elebuibon que,
eventos.
que se seguem. Entre os babalawos (como
cidade de São Paulo para a realização do
em seu livro The Healing Power of Sacrifice
são denominados os sacerdotes de Ifá)
“Festival Mundial de Ifá”. Naquela ocasião,
(2000), define Ifá como:
O Araba Agbaye é considerado
com os quais tive oportunidade de conviver
pude ouvir do Araba Agbaye uma afirma-
a cabeça dos sacerdotes do culto
em minha pesquisa de campo nos anos de
ção em que dizia aos presentes que tudo
[...] uma divindade que goza de alta estima
de Ifá no mundo, em Ifé dizem
2009 e 2010, o tema “destino”, ou noções
o que acontece com alguém hoje ocorreu
entre as principais divindades do povo yo-
que é o próprio representante
aproximadas desse, era de suma importân-
com outra pessoa no passado. É Ifá quem
rubano, tanto na África como na Diáspora.
de Orunmila. Este título só pode
cia em sua atividade profissional, uma vez
registra essas histórias em seu interior nos
A despeito da incursão da modernidade na
ser dado para alguém que além
que toda a ciência de sua atividade como
Odùs e é com os cacos dos acontecimen-
vida desse povo, Ifá continua florescendo e
de iniciado em Ifá seja oriundo
sacerdote dependia de sua capacidade em
tos, guardados em sua cabaça, que ele con-
permanece como a maior autoridade em tudo
do compound Oketase em Ile-
transitar por esses caminhos. Eles se refe-
serta o futuro.
que diz respeito à cultura, ética social, arte e
-Ife. Outras cidades ostentam
riam a destino como Odù2, não por acaso
portadores do título de Araba,
as pessoas ligadas ao candomblé no Brasil
segredos”), é o jogo “da fa” por onde fala
mais engloba a sua visão do mundo, sua cos-
entretanto, eles estão abaixo do
se referem aos odus como caminhos.
Orunmila. Como me disse certa vez o ba-
mologia, sua fé e seus valores. Resumindo,
balawo Tunde, “Ifá significa palavra forte
Ifá é um sistema profundo de saber extensivo
noções de destino que seguiremos neste
na boca de Orunmila. Ifa explica tudo, não
sobre a vida religiosa e mundana dos yoruba-
estudo, tanto um local a se chegar (no nos-
existe nada no mundo e na vida que não
nos, tanto no seu passado como no presente.
so caso, às cidades nigerianas) como pe-
tenha explicação em Ifa”. Para alguns, Ifá
Seu alcance também se estende ao futuro
los caminhos percorridos para se chegar à
e Orunmila seriam o mesmo ser, não sen-
(ELEBUIBON, 2000, p. 9, apud AYOH’OMIDIRE,
África (aqui entendida como uma presença
do possível diferenciá-los, outros afirmam
2006, pp. 138-139 meus grifos).
metafísica). Nosso propósito é provocar os-
que Ifá é o jogo criado por Orunmila e,
cilações entre essas dualidades bem como
portanto, Orunmila não seria exatamente a
nas interpretações sobre esse movimento
personificação de Ifá, mas seu inventor. É
2
3
Os odus seriam antologias de
Araba Agbaye de Ife.
É com aproximações a essas duas
Em setembro de 2009, acompanhei
Ifá, dizem os Babalawos (“pais dos
Diversos autores têm destacado a centralidade de Ifá para os iorubas de uma for-
religião do povo yorubano. É o sistema que
Dizem os cantadores de Ifá que o elemento principal do Ifá é o Odù. O Odù seria
Olavo de Souza Pinto Filho A África como destino
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um “volume” em que se encontram todas
diáspora africana. Seus seguidores espa-
as informações que explicam os aconte-
lham-se pelos quatro cantos na velocida-
cimentos da vida. No Brasil e em Cuba, é
de de um mundo cada vez mais integrado
Grandes árvores africanas povoam nosso
comum ouvir das pessoas ligadas ao culto
pela globalização, aconselhando quem os
imaginário, dessas que se erguem pesa-
dos orixás se referirem aos odùs como des-
procura em tabuleiros dispostos em locais
damente do solo projetando sua copa em
tinos ou caminhos que as pessoas devem
aparentemente inusitados, como cidades
direção ao céu que acaba por conferir uma
percorrer ao estarem sobre seu domínio.
da Rússia, Argentina ou Uruguai.
majestade única a sua estatura. Poucas ár-
A colonização africana produziu nas
Todo ano as cidades nigerianas de Ife,
Todos os caminhos levam ao Araba
vores assim podem ser vistas. Estando em
comunidades sobre seu julgo efeitos nefas-
Osogbo, Oyo, Abeokuta recebem levas e le-
São Paulo, procurei no parque Ibirapuera
tos, em especial nas elites locais, que há
vas de pessoas dispostas a receber os ensi-
e avistei pouquíssimos exemplares. Con-
tempos vêm deixando de lado os saberes
namentos contidos em Ifá, iniciando-se em
tinuando nos arredores do parque, avisto
tradicionais e adotando costumes ociden-
solo nigeriano ou de lá obtendo uma titula-
a Assembleia Legislativa, adentro seu hall
talizados, em especial nas organizações
ção religiosa que os permita praticar Ifá em
principal e desço por uma escada envolta
políticas e administrativas das cidades ni-
suas cidades de origens. Além disso, sa-
em granito e ali, parada em minha frente,
gerianas. Mesmo contra todas as adversi-
cerdotes nigerianos transitam anualmente
curvada pelo peso dos anos e sabedoria,
dades, as linhagens familiares e o culto de
em inúmeras cidades iniciando e ensinando
encontro a grande árvore o Árábá, com-
Ifá permanecem como importante fonte de
novos seguidores do culto de Ifá.
parada importância talvez apenas como o
organização e até mesmo resistência nes-
Nesse movimento, encontram-se bra-
Iroko ou o Baobá. A sua sombra, acomoda-
ses locais. Hoje muitas personalidades da
sileiros que, em uma busca incessante
dos como flores que se espalham em suas
sociedade iorubana voltam-se aos ensina-
por fundamentos religiosos perdidos na
raízes, estão babalawos nigerianos, brasi-
mentos de Ifá para solução dos atuais pro-
experiência da escravidão, voltam à África
leiros, argentinos e uruguaios, que só se di-
blemas da sociedade iorubana (AFOLABI,
para “recuperar” ou “atualizar” seus conhe-
ferenciam pela cor de suas peles, uma vez
2010; AYOH’OMIDIRE, 2006).
cimentos rituais. É o que muitos autores
que uma uniformidade colorida compõe o
denominaram como o movimento de re
vestuário.
Atualmente, a presença de Ifá não
está circunscrita apenas às regiões nigeria-
ou africanização do candomblé (PRANDI,
nas de onde seu culto surgiu, tão pouco se
1991, 1999; LÉPINE, 2005, 2009; SILVA,
de São Paulo o local escolhido para a rea-
concentra nos países que historicamente
1995, 1999; CAPONE,1999, 2009; FRIGE-
lização do 1o Festival Mundial de Ifá. Este
configuram-se como destinos na forçada
RIO, 2005, entre outros).
evento fora criado, segundo seus organiza-
Foi a Assembleia Legislativa do Estado
Olavo de Souza Pinto Filho A África como destino
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4
Cargo religioso destinado às es-
posas dos babalawos.
dores, em cumprimento a uma determina-
ancião, uma oportunidade para solucionar
das pelo Àràba foi a criação no Brasil de um
ção do próprio Ifá, recebida pelo babalaô
certas divergências e problemas advindos
conselho (aos moldes de um já existente
Ifalana. Um sacerdote brasileiro que anos
do uso ou, melhor dizendo, do “mau uso
na Nigéria) entre os filhos mais velhos do
antes estivera na cidade sagrada de Ilè- Ifé
do sobrenome Aworeni”.
Àràbà no Brasil. Caberá a esse conselho re-
para cumprir obrigações rituais e voltou
Era essa a posição de uma Ìyápetebi4
portar ao conselho nigeriano as ações de
com a incumbência de realizar esse fes-
argentina, na impossibilidade de seu esposo
seus membros, fiscalizar eventuais erros
tival. Seria, portanto, o “próprio Ifá quem
estar no Brasil, ela viera para relatar ao Ara-
ou usos e abusos indevidos do sobrenome
determinou que o Araba viesse” e ali está-
ba que um de seus filhos iniciara indiscrimi-
Aworeni. Sobre isso disse o Àràbà:
vamos todos.
nadamente sacerdotes em Ifá na Argentina,
Ifalana confidenciou-me em outra
sem ter autorização para isso. Segundo ela,
Vocês precisam manter a dignidade do nome
oportunidade que já havia entrado em con-
inúmeras pessoas têm sido iniciadas para
Aworeni. Roupa é uma coisa, conhecimento
tato com o culto de Ifá anos atrás numa
Ifá por pessoas despreparadas para isso,
é outra! Tem muita gente que não aprendeu
festa de Iemanjá em um candomblé paulis-
o que prejudicaria os “sacerdotes” sérios e
Ifá, mas tem a boa doce. O Oluwo tem que
tano. Ali conhecera um babalawo nigeriano
“sujaria” o sobrenome Aworeni.
ter Osu na cabeça e é reconhecido pelos 16
que residia no Brasil há muitos anos. Pelas
Sobre essa contenda, o Àràbà disse
do conselho do Ooni de Ifé. O Oluwo que
mãos dele, recebera os primeiros ikins e
que só pode usar o sobrenome Aworeni
ensina os babalawos, em Ile Ife... Os alunos
textos em ioruba, começara, assim, a dese-
quem foi iniciado por ele, já que ele rece-
chamam de oluwo que os ensina, mas só é
nhar-se seu trajeto rumo à Nigéria.
beu esse nome de seu pai e ele pode pas-
Oluwo quando só 16 reconhecem ele como
“Na época ninguém falava de babala-
sar para as pessoas que inicia, se algum
oluwo. Dentro do Culto de Ogboni é oluwo.
wo, não é como hoje que tem um em cada
filho dele inicia outra pessoa, esse filho
Dois oluwos de Ifá dentro do culto de Ogboni.
esquina, só conhecia pelo livro do Verger”,
deverá saber se ela é digna de usar seu so-
disse-me com certa malícia Ifalana. Atual-
brenome. “Uma pessoa sem caráter pode
mente o culto tem se expandido para ci-
‘estragar’ o nome Aworeni” disse ele. Cabe
entrar na internet e dizer mentiras, por isso
dades do interior do Brasil, da Argentina e
à pessoa que inicia a responsabilidade em
o conselho deverá ser sempre vigilante. O
do Uruguai, prova disso era a presença de
saber quem inicia.
uso da internet pelos adeptos do culto de
sacerdotes de Ifá desses países no Festi-
As relações entre os membros da fa-
Ainda disse que qualquer pessoa pode
Ifá é recorrente, por meio da rede mundial
val, os quais foram iniciados pelo próprio
mília Aworeni estavam longe da convivên-
de computadores, eles entram em conta-
Àràbà e enxergavam, na visita do velho
cia harmoniosa, e uma das medidas toma-
to com outros sacerdotes, criam fóruns
Olavo de Souza Pinto Filho A África como destino
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de discussão, marcam reuniões, eventos
gou à Nigéria. Baba Fola mantém há anos
de uma comunidade de internet outros baba-
e congressos, há uma gama de artigos, li-
no Rio de Janeiro um centro de “intercâm-
lawos que eu passo para ele. Desde os anos
vros e CDs que são compartilhados entre
bio religioso”, todo ano organiza excursões
2000, eu faço intercâmbio religioso no oeste
os seguidores. Obras de antropólogos ou
e viagens para a terra santa africana. Ele
yorubano, levo para conhecer todos os orixás
estudiosos-praticantes são traduzidas do
chegou ao Brasil ao acaso e depois de se
em Ilé- Ife, onde tudo começou, a vida come-
inglês para o português e vendidas pela
aposentar, segundo suas palavras:
çou e tem mais outras cidades, Oyo, Ibadan.
rede, apostilas de jogos de búzios, leitura
A iniciação toda fica em 6.000 dólares, fora a
dos Odús e outros são disputados pelos
Vim abrir um centro cultural no Rio, para
passagem, mas esse custo cobre tudo, tras-
praticantes.
ensinar a língua, fazer intercâmbio cultural
lado, hospedagem, alimentação, vestuário,
e religioso. Eu cheguei em 1997, tinha Ifa
ebos, sacrifícios, oferendas, pagamento das
só, tem dois tipos de Babalawo, uma pessoa
pessoas que cuidam, tudo cobre tudo.
Rastreando os caminhos
que se chama Onifa, que tem Isefa, mas não
pratica, não joga para outro, ela pode ser
Por intermédio dessas viagens que
Cada vez mais constante é a organização
chamada de Babalawo. Babalawo, ele tam-
os praticantes de Ifá vão complementando
de congressos e encontros entre os pra-
bém é iniciado, tem Ifa , aprender as regras,
sua feitura, seja por iniciações em territó-
ticantes de Ifá da Nigéria e da diáspora,
ética, como consulta esse que se chama Ba-
rio africano, seja conhecendo territórios
que estimulam a produção do discurso em
balawo e Oluwo, de muitos anos... Conheci
sagrados na igualmente sagrada Nigéria,
prol da reafricanização e resgate cultural,
Ifa em Ise-ekiti, na Nigéria. Teve um evento
comprando artigos religiosos, vestindo-se
um exemplo disso são as Conferências
em 2005, o ‘Orisa World’, eu fui um dos
à maneira nigeriana, trazendo pequenas
Mundiais da tradição e cultura dos Orixás
palestrantes e depois do congresso conhe-
porções de África em máscaras, colares, se-
(COMTOCs). Esses eventos têm ocorrido
ci algumas pessoas do Uruguai, Argentina,
mentes. Isso é algo que nos traz à memória
desde 1981, realizados em cidades como
Venezuela e Chile querendo informações
a importância das viagens de retorno pro-
em Ilê-Ifé na Nigéria além de cidades no
sobre a cultura, religião e se iniciar em Ifa.
movidas pelos africanos libertos em mea-
Brasil, Estados Unidos, Cuba e Trinidad e
Como comecei com o intercâmbio, pergun-
dos do século XIX, que foram fundamentais
Tobago (SILVA, 1995; CAPONE, 1999).
tei a eles se eles poderiam viajar comigo, os
na formação das primeiras casas de santo
que foram conheceram e levaram os colegas
na Bahia e Recife.
Foi por meio de um desses eventos
que Ifalana conheceu o nigeriano Baba Fola
deles. Então eu vou agora, faço seminários e
e por intermédio de Fola que Ifalana che-
conferências nesses países, conheci através
No rastro dessas narrativas, figurou
quase que proeminentemente um ponto em
Olavo de Souza Pinto Filho A África como destino
38
comum, a viagem de retorno à África e sua
ca figuraria então como local de excelência
Jorge de Carvalho5 em um artigo que dis-
da nostalgia: uma concepção
importância na formulação dessas “redes
para um resgate simbólico. Entretanto, ad-
cute a noção de tempo histórico nos Xan-
de tempo histórico dos cultos
transnacionais” de culto a Ifá.
verte a autora, esse local não existe em si,
gôs de Recife. Nesse artigo o autor discute
mas é fruto de um “sonho de pureza africa-
o sentimento por parte dos membros do
no” (CAPONE, 2004).
xangô recifense que oscilam entre o orgu-
5
CARVALHO José Jorge. A força
afrobrasileiros tradicionais.
Essas viagens não serviram apenas
Brasília: DAN, 1987. p. 22-5. (Sé-
para traçar as trajetórias dessas pessoas,
rie Antropológica, 59.).
foi importante também para uma tomada
Sendo assim, a viagem ao continente
lho de um passado glorioso, domínio dos
de posição no debate teórico sobre elas.
africano transforma-se no verdadeiro “mito”
grandes antepassados africanos e sua sabe-
Uma vez que tratadas pelos pesquisadores
fundador do candomblé dado que: “A via-
doria e conhecimento e por outro de uma
primeiramente como “mitos inventados”
gem à África teria, portanto, purificado a
carência com o presente do culto diante do
(cf. CAPONE, 2004; DANTAS, 1988), a nar-
fundadora, Iya Nassô, da mancha da escra-
que ele denomina como “perda da memória
rativa dessas “viagens míticas” faria parte
vidão e legitimado a ‘pureza’ da família de
coletiva”.
da estratégia dessas comunidades em le-
Senhora, cuja mãe teria nascido em solo
gitimar suas práticas e tradições religiosas
africano” e continua em sua análise afir-
como agentes da mudança, uma vez que,
a partir da concepção de pureza ritual, é
mando que “a fundadora do primeiro can-
por meio da defesa de uma conservação
então que nosso argumento segue por ou-
domblé do Brasil é duplamente legitimada,
estática dos fundamentos religiosos, iriam
tro caminho, um que experimenta outra via
pois nasceu na terra dos ancestrais e é filha
compensando a falta deles com uma repo-
que não seja meramente uma “disputa por
de uma sacerdotisa do culto: ela encarna,
sição de saberes com o vínculo a uma fonte
legitimidade”.
por tanto, a verdadeira tradição africana”.
africana de conhecimento (esta poderia ser
Para a autora, aqueles que empreendiam
desde a troca de segredos entre os mem-
dores primeiramente como “mitos inventa-
essas viagens visavam “fundamentalmente
bros do xangô com as casas de outra nação
dos” (cf. CAPONE, 2004; DANTAS, 1988),
adquirir conhecimentos, pensando no pres-
xambá, ou com terreiros de Salvador, até
a narrativa dessas “viagens míticas” faria
tígio que daí resultaria na volta ao Brasil.
etnografias ou excursões a Cuba, Estados
parte da estratégia dessas comunidades
As viagens eram, e continuam sendo, for-
Unidos e África) (CARVALHO, 1987, p. 51).
em “legitimar” suas práticas e tradições re-
midáveis instrumentos políticos” (CAPON-
ligiosas a partir da concepção de “pureza
NE, 2004, p. 270; 274).
Uma vez que tratadas pelos pesquisa-
Essa oscilação colocaria os sacerdotes
A partir dessa “visão histórica dos cultos6”, o autor situa então três processos: a
ritual”. É este o argumento do trabalho de
Outro autor a teorizar sobre a dimen-
ênfase na glória antiga, sentimento de cri-
Stefania Capone, denominado A busca da
são mítico-histórica das fundações das pri-
se pela memória coletiva e movimentos de
África no candomblé. Para a autora, a Áfri-
meiras casas de culto aos orixás foi José
transformação na busca de continuidade
Olavo de Souza Pinto Filho A África como destino
39
com o próprio modelo de culto. Carvalho
Com a mesma capacidade com que superou
conceituais-teóricos do termo. Em outras
diante de uma questão importan-
parte então para uma tentativa de “apreen-
a distância entre os dois continentes, saltou
palavras, em vez de denunciar que, diferen-
te dentro do campo de estudos
der os significados mais profundos desses
por cima também do tempo inteiro da escra-
te do que os “nativos” afirmam, essa África
sobre religiões de matriz africa-
processos” em especial o “silêncio intencio-
vidão e veio representar, para os membros,
não existe e é fruto de complicados proces-
na. Este ponto é problematizado
nal” por parte dos membros do xangô so-
a imagem de uma mulher africana imbuída
sos de legitimidade e poder, explicando o
por Marcio Goldman, vale a cita-
bre o período da escravidão.
de toda a força dos orixás, tal como (dizem)
uso discursivo de “mito” diferente de “real”,
eram os iorubas antes do tráfico de escra-
buscamos aqui potencializar seus desdobramentos como “mito”.
6
Essa abordagem nos coloca
ção: “Uns e outros tendem a con-
O autor então reflete sobre os mo-
ceber as religiões afro-brasileiras
tivos desse silenciamento em termos da
vos. Dito nos próprios termos da mitologia
como entes mergulhados numa
“memória oral” ao relatar que seus ante-
de criação ioruba, Tia Inês parece ter vindo
historicidade que não lhes per-
passados eram capazes de feitos extraor-
do orun (o mundo metafisico onde os orixás
Straussiana, entendo mitos como sistemas
tence, cabendo-lhes tão-somente
dinários que não condiziam com a situação
habitam) com a finalidade de fecundar o aiye
de transformações, ou feixes de transfor-
resistir a esse fluxo temporal ex-
de escravidão a qual estavam submetidos,
(mundo físico) dos homens carentes de trans-
mações que se abrem em outros eixos de
terno – mantendo-se, então, imu-
ou uma reação “ideológica” para lidar com
cendência, e cujo movimento primeiro é o de
transformação, multiplicando e principal-
táveis ou, mais frequentemente,
a experiência traumática do negro escra-
voltar a unir-se ao orun, do qual foi separado
mente diferenciando-se constantemente8.
degradando-se lentamente até
vo. De qualquer forma o que nos interessa
no princípio dos tempos. Tia Inês vem assim
desaparecerem –, ou acomodar-
aqui é o uso da categoria de “mito” em-
representar a instalação de um novo universo
o que é África em um terreiro transforma o
-se a ele, passando assim a so-
pregada pelo autor que equaliza os ruídos
ioruba no Recife, repetindo o ciclo de união
ritual em outro e os “fundamentos” em um
frer transformações que apenas
da versão historiográfica dos membros do
do aiye com o orun já vivido antes pelos mi-
terceiro, o vestuário de um e os nomes ri-
repercutem aquelas, mais fun-
xangô sobre a fundação de seus primeiros
tos próprios dos habitantes do outro lado do
tualísticos em outro, reafricanizando ou no
damentais, da ‘sociedade abran-
terreiros7.
mar. Através dessa africana, sugiro, o xangô
vocabulário dos autores: “transformando”
revive, em sua história, o mito básico dos io-
realidades que surgem e saltam em pontos
rubas (CARVALHO,1987, p. 53).
diferentes do continente americano (uma
gente’” (GOLDMAN, 2008).
Assim como a fundadora Iyanassô dos
terreiros baianos, Tia Inês (a africana Inês
Em uma inspiração de Lévi-
Tudo se passa como se: [miticamente]
conferência de Ifá em Miami, uma obriga-
Ainda que não seja nossa in-
Joaquina da Costa- Ifá Tinuké) funda o ter-
tenção contrapor a leitura míti-
reiro Ilê Obá Ogunté por volta de 1875, em
ca por uma histórica, é preciso
Água Fria, no Recife. Sobre esse episódio,
desses autores como “mito”, mas quais as
de Egungun em Trinidade e Tobago, uma
salientar que existem inúmeros
relata José Jorge:
implicações de levar a sério o discurso do
saída de iyawo em Campinas e no nosso
trabalhos sobre a vida das co-
antropólogo? Ou seja, pensar a África en-
caso um congresso religioso na capital pau-
munidades de africanos libertos
quanto um “mito” mobilizando os modelos
lista) como retornos ao solo africano.
7
A África figuraria nos argumentos
ção de Ogboni em Montevidéu, um festival
Olavo de Souza Pinto Filho A África como destino
40
nessas capitais muito antes da
Experimentamos imaginar então que
só se revela depois do longo convívio en-
xangô do Recife, ainda que ele coloque isso
lei áurea, ou seja, ao contrário
as histórias sobre as viagens de retorno ao
tre ambos. Coube no caso de Stefania Ca-
como “a individualização do dilema coleti-
do que afirmam os autores des-
continente africano contivessem a repeti-
ponne(2004), a antropóloga, “trazer à luz”
vo” ao analisar a própria trajetória de vida
tacados aqui, é condizente sim,
ção de determinados elementos, ou, nas
essas disputas por poder e legitimidade e
do famoso sacerdote Pai Adão, que nascido
do ponto de vista historiográfico,
palavras de Lévi-Strauss, contivessem uma
relatar que por trás dessas tradições “rein-
filho de africanos volta à África e de lá re-
a afirmação que estas fundado-
“célula explicativa” em que sua estrutura
ventadas” escondiam-se o desejo por poder
torna realizado, pois “o valor de afirmar só
ras não fossem escravas mes-
básica seria a mesma, mas o conteúdo já
e reconhecimento.
se realiza plenamente quem toca a fonte
mo que o período de fundação
não é o mesmo. Variando em um tipo de
desses terreiros fosse anterior a
“minimito” (ainda que curto e condensa-
o trabalho de José Jorge se diferencia da
renovado, revivendo a plenitude” (CARVA-
1889. Foi partir de pesquisas do-
do, mas que conserva a estrutura de mito)
abordagem de Stefania Caponne (e de ou-
LHO, 1987).
cumentais sobre os libertos que
e que conforme vão ocorrendo diferentes
tros), uma vez que procura entender esse
levaram direta e indiretamente
transformações em um elemento, os outros
retorno à África não como disputas por
no, tão cara as pessoas que nos inspiraram
à produção de novos trabalhos
elementos têm de ser rearranjados e trans-
legitimidade e prestígio, mas a partir de
nesse trabalho, para eles a volta ao con-
sobre a vida dos fundadores das
formados “forçosamente” pela mudança do
elementos do próprio universo do xangô,
tinente africano é, por motivos diversos,
casas de candomblé na Bahia.
primeiro (LÉVI-STRAUSS, 1978, p. 34).
sobre isso diz o autor:
imperiosa. Nesse sentido, as inovações, e
Entretanto, é preciso ressaltar que
original; e dela regressar vitorioso, de axé
Retomamos agora a noção de desti-
por que não invenções, efetuadas por esses
Cabe ressaltar, em especial, os
Desta maneira, não faz sentido a opo-
trabalhos advindos da linha de
sição reificada por esses autores entre uma
[...] é preciso insistir também que essa curio-
agentes após esses caminhos e viagens se-
pesquisa “Escravidão e Invenção
África mítica (idealizada pelos religiosos)
sidade que leva muitos líderes a mudar seu
riam constitutivas daquele desejo por com-
da Liberdade” do Programa de
em comparação com uma África real (essa
sistema, fazer viagens, etc. é pelo menos tão
plementar o que estará sempre inacabado,
Pós-Graduação em História da
conhecida pelos pesquisadores). O que
religiosa quanto a pesquisa de um acadêmi-
impelidos pelo que José Jorge de Carvalho
UFBA, que concentra grande par-
esses autores reproduzem nessa atitude é
co é legitimamente intelectual. Pois há, entre
nomeou como a “força da nostalgia” essa
te dessas pesquisas. Para mais
uma postura teórica que implica uma as-
alguns estudiosos, uma tendência a ver essas
busca incessante pela África, que é deter-
informações, conferir os traba-
simetria de posições entre o pesquisador
mudanças como um puro jogo de poder por
minada pelo eterno desassossego que a
lhos de: REIS, João José. 2008.
e o grupo pesquisado, haja vista que cabe
parte dos lideres.(CARVALHO,1987, p. 52)
sensação de perda de fundamentos e da
Domingos Sodré, um sacerdote
ao antropólogo interpretar por meio de ca-
africano: escravidão, liberda-
tegorias “explicativas” exteriores ao grupo
de e candomblé na Bahia do
pesquisado o que estes “fazem”. Podendo
ressante levantado pelo autor seria esse
e cada vez mais procurar preenchê-las com
século XIX. 1. ed. São Paulo:
desvendar assim a verdade escondida que
mito que revive na vida dos membros do
a experiência em solo africano, mesmo que
própria história levou e continua levando
E isso não é tudo. Outro ponto inte-
pessoas a embarcarem nessas rotas do axé
Olavo de Souza Pinto Filho A África como destino
41
Companhia das Letras. PARES,
esse solo africano seja um quarto de um
de Ifalana, “essa viagem estava no meu
Luis Nicolau. 2006. A formação
apartamento de um nigeriano no centro de
destino”. Estava em seu Odù, este conceito
ginada sob a forma da faixa de Möbius
do Candomblé: história e ritual
São Paulo, um curso de língua ioruba numa
iorubano que se refere a acontecimentos
(esse espaço topológico obtido pela cola-
da nação jeje na Bahia. 2. ed.
Universidade ou a sagrada cidade de Ilè-Ifé
guardados no jogo de Ifá, fatos que se re-
gem das duas extremidades de uma fita,
Campinas: Editora da Unicamp.
na Nigéria.
petem desde tempos imemoriais: os fatos
após efetuar meia volta numa delas, a qual
são os mesmos, as pessoas é que são dife-
é uma superfície com uma componente de
A metáfora utilizada por Soyinka ima-
CASTILLO, Lisa Earl ; PARÉS, Luis
Essa África constantemente desejada
Nicolau .2007. Marcelina da Sil-
e invocada poderia ser pensada aqui como
rentes, esses acontecimentos são previstos,
fronteira; é não orientável, possui apenas
va e seu mundo: novos dados
um devir, ou seja, uma composição, um
as pessoas não, são os Odùs que trazem
um lado, possui apenas uma borda) opera
para uma historiografia do can-
movimento, um afeto. Lançando mão da
esses acontecimentos aos seres humanos,
uma torção, é uma topologia que instaura
domblé ketu. Afro-Asia (UFBA),
leitura de Marcio Goldman:
por isso o jogo diz qual é o caminho a per-
o movimento em uma sequência sem prin-
correr, diz o que está para acontecer.
cípio nem fim.
entre outros.
O devir, na verdade, é o movimento através
Essa repetição dos acontecimen-
Roger Bastide afirmou certa vez que
do qual um sujeito sai de sua própria condi-
tos, contudo, não significa que ocorram
no candomblé pode-se: “tornar-se africa-
leitura de Eduardo Viveiros de
ção por meio de uma relação de afetos que
da mesma maneira, os babalaôs afirmam
no”. Tornar-se africano é um fato desde
Castro sobre as Mitológicas
consegue estabelecer com uma condição
que não se trata de uma repetição cíclica
que esteja em seu Odù, em seu caminho.
para corrompê-la em seguida:
outra. O devir é o que nos arranca não ape-
e eterna da mesma coisa. Wole Soyinka
Tornar-se africano é uma realidade se pen-
“Na realidade [as mitológicas de
nas de nós mesmos, mas de toda identida-
chama atenção que não se trata de um
sarmos como dizem os “nativos”: a África
Lévi-Strauss] é de uma transver-
de substancial possível. Trata-se, pois, de
retorno ao mesmo, esse retorno incide em
como destino.
salidade heterogenética generali-
apoiar-se em diferenças não para reduzi-las
uma diferença:
zada, em que o mito de um povo
à semelhança (seja absorvendo-as, seja ab-
transforma o ritual de um segun-
sorvendo-se nelas), mas para diferir, simples
multiform
do povo e a técnica de um tercei-
e intransitivamente (GOLDMAN, 2012).
Evolution of the self-devouring snake to spatials
8
Aproveitando-nos para isso da
ro povo; em que a organização
New in symbol, banked loop the “Möbius Strip”
Diferindo-se e multiplicando, esse
And interlock of re-creativ rings, one surface
de outros (Como ir e vir entre
“devir-África” se potencializa em cada expe-
Yet full of angles, uni-plane, yet sensuous with
a cosmologia e a cosmetologia
riência de retorno. Essa matriz África que
Complexities of Mind and motion
sem sair da política); e em que a
é atualizada. Seus caminhos são buscados
(SOYINKA,1967, p. 83)
redondeza geométrica da terra e
e percorridos porque, segundo as palavras
social de um é a pintura corporal
Olavo de Souza Pinto Filho A África como destino
42
da mitologia é constantemente
Referências
cortocircuitada por sua porosidade geológica, graças a qual as
CAPONE, S. Uma religião para o futuro: a rede transnacional dos cultos afro-brasileiros. Estudos afro-asiáticos, n. 36, p. 57-72, dezem-
transformações parecem saltar
bro de 1999.
entre os pontos extremos do
______. A busca de África no candomblé: tradição e poder no Brasil. Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2004.
continente americano, brotando
aqui e ali como erupções pontuais de um oceano subterrâneo de
CARVALHO, J. A força da nostalgia: uma concepção de tempo histórico dos cultos afrobrasileiros tradicionais. Brasília: DAN; 1987.
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php?script=sci_arttext&pid=S0034-77012003000200012&lng=en&nrm=iso”&HYPERLINK “http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_
arttext&pid=S0034-77012003000200012&lng=en&nrm=iso”lng=enHYPERLINK “http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_
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010085872007000100005HYPERLINK “http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010085872007000100005&lng=en&nrm
=iso”&HYPERLINK “http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010085872007000100005&lng=en&nrm=iso”lng=enHYPE
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