n. 364, 18 de novembro de 2014. Ano VIII. tem e não tem A majestade ou hegemonia nos anarquismos vai atingindo uma configuração que ultrapassa o doutrinário para se aproximar ao delírio. Heliogabalo? Não tem. Tem anarquista que vota na situação ou na oposição com verborragia exemplar? Tem. Tem anarquista que decreta que Proudhon não é anarquista? Tem. Tem anarquista que é superior? Tem. Tem gente que sabe tudo? Tem. Tem os demais que não sabem? Não tem. Tem microtribunal? Tem. Tem conversa para expandir os anarquismos? Não tem. Tem pluralismo uniforme? Tem. Na anarquia tem pouca gente? Tem e não tem. Tem gente que não dá bola para a disputa hegemônica? Tem. Tem sábio? Tem demais. Tem profeta? Onde? Tem relações de poder para colocar outros no ostracismo? Tem. Tem gente que nem se incomoda com essa baboseira toda? Tem. a anarquia não é propriedade de ninguém! Tem muito mais anarquia do que defendem os anarquistas juramentados? Tem. Tem inocentes? Não tem. Tem anarquistas acadêmicos? Tem, e cada vez mais acadêmicos. Tem heterotópicos? Tem. Tem espertinhos da ordem que esvaziam os conceitos anarquistas? Tem de montão. Tem até pós-anarquismo. Tem polícia contra os anarquistas? Tem. Tem anarquia na América Latina? Muita. A anarquia não é propriedade de ninguém! tirem as mãos dos estudantes Há um mês estudantes secundaristas de Kesarianí, bairro de Atenas, ocuparam duas escolas em que estão confinados diariamente. A resposta do governo foi a usual, isto é, a violência por meio de intimidações à base de bala, seguida de algumas detenções. Contudo, a estratégia do Estado fez com que o número de ocupações aumentasse rapidamente. Desde que elas começaram, os libertários gregos apoiaram a atitude dos jovens para quem, segundo eles, a "hipnose do sofá e da televisão perdeu seu encanto e as promessas de um futuro melhor e de uma 'carreira' deixaram de convencer". Frente às violências do Estado e à salutar atitude dos estudantes, os anarquistas afirmaram: "escutem atentamente, policiais e juízes: tirem as mãos dos estudantes!" zero de conduta O primeiro texto publicado pelos estudantes de Kesarianí explicitou o combate ao “fascismo de alguns professores”, a “austeridade excessiva mostrada durante a chegada dos alunos à escola pela manhã”, “às grades que durante os últimos anos nos têm isolado como se fossemos prisioneiros”, aos “edifícios das escolas em que estamos empilhados”, entre outros. Todavia, passado um mês das primeiras ocupações, militantes de vários movimentos sociais saíram às ruas de Atenas organizados pela chamada “coordenação de luta dos estudantes”, colmatando certas urgências dos jovens de Kesarianí. Um filósofo advertiu sobre a indignidade de falar pelos outros. Portanto, que os estudantes sigam afirmando sua revolta contra a necessidade de organizações, porta vozes, líderes, autoridades. Que os estudantes de Kesarianí sigam com zero de conduta, atitude que não cabe em exame algum. méxico urgente Estão desaparecidos desde setembro mais de 43 estudantes contestadores da Escola Normal Rural Raúl Isidro Burgos, da cidade de Ayotzinapa, em Iguala, no México. Exames de restos humanos encontrados no lixo incinerado na cidade vizinha de Cocula foram enviados à Áustria para análises. A polícia e o cartel narcotraficante Guerreros Unidos são apontados como os responsáveis pelo assassinato coletivo. As fusões entre governos e narcotraficantes não são desconhecidas de ninguém. Assim como as matanças. Não se trata de uma questão de justiça, averiguação policial ou denúncia. O entreato previsível, proporcionado pelos ilegalismos capitalistas, governos, narcos e as encenações de tribunais gravitados pela ideologia do fim das impunidades, é ininterrupto. O teatro da justiça e da idoneidade policial sempre se encerra com um epílogo protocolar. brasil emergente E lá se vai a “Operação Lava Jato” em fase “juízo final”. Empresas (estatais ou não) e o governo de coalizão se sustentam no vai-davalsa de rincões de dinheiros para alimentar o clientelismo parlamentar. É o complemento dos programas sociais que geram votos, redutores de índices de miséria, conformismo, oposição partidária, escolas e comunidades participativas com ou sem programinhas culturais e seus respectivos agentes. Diante de um quadro tão efetivo de governo sobre os miseráveis, pergunta-se: o que fazem os supostos contestadores radicais enfurnados nestas comunidades? Antes de provocarem uma reversão do quadro, ampliam as arengas de melhorias. Eis um impasse aos condutores de consciência. Enquanto isso, a balbúrdia sobre a negociata democrática de coalizão do momento explicita a devida atenção dada ao que seria o adjunto adnominal em uma frase. Morô? tirem as mãos dos índios Na beira da estrada, um corpo nu com 35 facadas. Marinalva Manoel, uma das combatentes do povo guarani-kayowá, foi a última das vítimas noticiadas na grande imprensa em meio ao extermínio sistemático que incide sobre os povos indígenas no Brasil, especialmente seu povo. Há mais de 40 anos os guarani-kayowá lutam pela demarcação da Terra Indígena (TI) Ñu Porã, seu tekoha, que fica em uma região sobre a qual estão fincados latifúndios no estado do Mato Grosso do Sul. Com o processo de reconhecimento e demarcação paralisado, os guarani-kayowá vivem hoje à beira da BR 163, onde o corpo de Marinalva foi encontrado. Mais um entre tantos corpos que aguardam o assassinato anunciado, diante da covardia dos fazendeiros e seus jagunços e da conivência de um Estado que reconhece direitos indígenas para inglês ver. O extermínio prossegue em curso. parem de matar! O assassinato de Marinalva repercutiu na grande mídia pela brutalidade com que foi concretizado e pelo fato de que a indígena havia participado, 15 dias antes, de um protesto no Supremo Tribunal Federal. Ela, como outras combatentes de seu povo, já havia alertado mais de uma vez o recebimento de ameaças de morte oriundas de fazendeiros que tornaram propriedade privada o tekoha guaranikayowá. Em carta enviada ao Ministério Público após o assassinato, o conselho Aty Guasu Guarani e Kayowá lembra também as ameaças de despejo e de anulação de laudos antropológicos que reconheceriam sua TI. Enquanto isso, em Brasília, o governo “de esquerda” continua tirando proveito do fortalecimento da bancada ruralista e silenciando frente ao extermínio. O extermínio, em nome da aliança entre o Estado e a defesa do território dos proprietários, prossegue em curso.