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Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação
XXXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – São Paulo - SP – 05 a 09/09/2016
Teorias Marginais da Comunicação: Um Panorama das Abordagens que Bernard
Berelson Considerou Menores1
Marcus GOMES2
Rafiza VARÃO3
Universidade Católica de Brasília, Brasília, DF
Resumo
Este artigo apresenta um panorama e a contextualização das abordagens que Bernard
Berelson (1959) apontou como “menores” em relação às teorias da comunicação
desenvolvidas pelos pais fundadores dos estudos acadêmicos em comunicação (Harold
Lasswell, Karl Hovland, Kurt Lewin e Paul Lazarsfeld). São estudos provenientes de outros
campos, como a psicologia e ciência política, que são pouco ou nada conhecidos no Brasil.
Quatro das abordagens apontadas por Berelson serão apresentadas (abordagem
psicolinguística, psiquiátrica, jornalística e reformista). Conclui-se que é necessário um
conhecimento mais profundo dessas abordagens, uma vez que trazem pontos de vista
interessantes ao estudo da comunicação.
Palavras-chave: comunicação; teorias da comunicação; história; Bernard Berelson.
Introdução
As primeiras teorias voltadas ao estudo da Comunicação nos Estados Unidos, mesmo
que encomendadas pelo governo estadunidense na década de 1940, foram formuladas quase
que sequencialmente, em um curto período de tempo. Outras áreas de estudo mais antigas,
como a Ciência Política, Sociologia e Psicologia, foram fundamentais no processo que
consistia em compreender os processos relacionados à comunicação de massa. Utilizando-se
o conhecimento de outras ciências, as primeiras teorias e seus autores fundantes (Carl
Hovland, Harold Lasswell, Kurt Lewin e Paul Lazarsfeld) colaboram para a construção do
campo.
Entretanto, quando estudamos as teorias da comunicação durante a graduação não
sabemos que o universo teórico da escola americana de pesquisa em comunicação é muito
maior do que o apresentado. É importante ter em mente que a Escola de Chicago vai além
dos fundadores. Devemos também considerar a existência de outras ideias sobre o campo
1
Trabalho apresentado na Divisão Temática Interfaces Comunicacionais, da Intercom Júnior - XII Jornada de Iniciação
Científica em Comunicação, evento componente do XXXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação.
2 Aluno do 8° semestre de Jornalismo da Universidade Católica de Brasília, email: [email protected].
3 Orientadora do trabalho. Professora da Universidade Católica de Brasília, email: [email protected].
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desenvolvidas por outros pesquisadores que não estão diretamente relacionadas às teorias
desenvolvidas pelos pais fundadores.
Usualmente, as universidades no Brasil adotam o livro Teorias das Comunicações de
Massa (2003), de Mauro Wolf, como bibliografia básica. No entanto, esta obra contempla
apenas uma parte da história da epistemologia e teorias da comunicação, sendo assim
necessário trabalhos que englobem novas visões sobre a origem e o desenvolvimento do
campo comunicacional. Entender as propostas dessas teorias e autores é relevante para o
entendimento da história do campo comunicacional.
O artigo The state of communication research (1959), de Bernard Berelson, descreve
e explica o momento em que o trabalho dos autores fundantes ganharam relevância e outras
pesquisas caíram no ostracismo. No mesmo trabalho, o autor referencia tais pesquisas que
foram originalmente relevantes para essa história, mas depois foram caindo em desuso. São
elas: The Reformist Approach (Abordagem Reformista); The Broad Historical Approach
(Abordagem Histórica Ampla); The Journalistic Approach (Abordagem Jornalística); The
Mathematical Approach (Abordagem Matemática); The Psycholinguistic Approach
(Abordagem Psicolinguística) e The Psychiatric Approach (Abordagem Psiquiátrica).
Este artigo abordará o conteúdo de quatro dessas seis teorias (Abordagem
Psicolinguística, Abordagem Psiquiátrica, Abordagem Jornalística e Abordagem História
Ampla). O intuito do artigo é apresentar as bases desses pensamentos que ajudaram na
formação do campo comunicacional, para que possa servir de arcabouço teórico para outros
trabalhos acadêmicos e para que possam apresentar novas possibilidades nos estudos da
tradição do campo. É importante ter em mente que essas abordagens descritas por Berelson
não são teorias propriamente ditas. São linhas de pesquisas que tem conteúdos em comum
com o estudo do campo comunicacional. Quais são e o que dizem as correntes de pesquisa
que já foram consideradas relevantes e que agora se encontram esquecidas? Quais são os
pontos de confluência entre essas abordagens e a comunicação? Para construir esse
panorama, o método utilizado será a pesquisa bibliográfica.
Dessas seis abordagens, duas não serão contempladas no presente artigo. A teoria
matemática, por se tratar do modelo de Shannon e Weaver, que é frequentemente encontrado
na literatura sobre as teorias de comunicação. Também a Broad Historical Approach
(Abordagem Histórica Ampla), de Harold Innis e David Riesman, pelo aprofundamento atual
que está ocorrendo nesta linha de pensamento nas universidades brasileiras, como o artigo
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“Pensamento comunicacional canadense: as contribuições de Innis e McLuhan” (2008), de
Luiz C. Martino.
Charles Osgood e a Abordagem Psicolinguística
Bernard Berelson (1959) indica que a Abordagem Psicolinguística é representada por
Charles Osgood e George Miller. Há a participação de outros autores no desenvolvimento de
tal abordagem, que é importante para a comunicação pois busca entender o processo de
significação das palavras por meio da psicologia, área de estudo de Osgood e Miller, mas não
há uma obra-chave que explique o que é a Abordagem Psicolinguística.
A psicolinguística é a intersecção entre a psicologia e a linguística. Na definição de
Slama-Cazacu, “A psicolinguística trata diretamente dos processos de codificação e de
descodificação enquanto relacionam estados da mensagem com estados dos comunicadores”
(1979, p.42).
A grande contribuição de Osgood para a comunicação foi o aprofundamento no estudo
da semântica através da psicolinguística, do qual ele é considerado um dos fundadores, junto
com John Bissell Carroll e o próprio George Miller (PINTO 2009). Também é utilizada por
Osgood a ideia de estimulo-resposta, que vemos dentro do behaviorismo nas teorias da
comunicação mais tradicionais, como a Abordagem Empírico-experimental. Além disso,
Charles Osgood escreveu, junto com Thomas Sebeok, a obra considerada o marco inicial da
psicolinguística; Psycholinguistics, A survey of theory and research problems (OSGOOD e
SEBEOK, 1954).
Segundo Osgood (1952), o ser humano determina os significados a partir das suas
próprias percepções, interferindo na análise do objeto, podendo alterar o seu significado.
Existem cinco métodos para conhecer os significados (fisiológicos, aprendizagem,
percepção, associação e escalares) e um método, criado por Osgood, para entender os
significados mais difíceis de descrever, o diferencial semântico.
O diferencial semântico é um instrumento de avaliação psicológica. Nela, o indivíduo
classifica um signo numa tabela de adjetivos antagônicos. Este signo provoca um estímulo
no individuo, o sentido de associação. Atualmente o diferencial semântico é utilizado para
avaliação de produtos.
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FIGURA 1 - Exemplo do uso do diferencial semântico de Osgood na avaliação de duas marcas de café.
Mais do que apenas “dar ferramentas” da psicologia à comunicação, Charles Osgood
esteve, de fato, atuante em formulações no próprio campo. Juntamente com Wilbur Schramm,
formulou um modelo de comunicação, conhecido como o “Modelo Osgood e Schramm”,
publicado na obra How Communication Works (1954).
Este modelo se diferencia do modelo linear de Laswell por levar em consideração a
interação entre receptor e o emissor e tem como premissa a circularidade dos processos de
comunicação.
Os autores trabalham com a percepção da comunicação em termos interpessoais – o
emissor/receptor passa a ser mais um ‘momento’ do que propriamente uma pessoa:
qualquer um pode enviar ou receber uma mensagem sem necessariamente se situar
em um ou outro lugar do processo de maneira permanente. Desse modo, há uma
passagem da linearidade para a circularidade do processo comunicativo (MARTINO,
2009, p. 31).
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FIGURA 2 – Modelo de Osgood e Schramm (MARTINO, 2009, p.31)
Este modelo está intrinsicamente presente na atual ideia de cibercultura, de Pierre
Lévy. Todo receptor tem uma codificação e interpretação da mensagem. No caso de Lévy, o
objeto de estudo é a interatividade individuais nos meios de comunicação contemporâneos,
mas com proximidade ao modelo pensado em 1954.
De fato, seria trivial mostrar que um receptor de informação, a menos que esteja
morto, nunca é passivo. Mesmo sentado na frente de uma televisão sem controle
remoto, o destinatário decodifica, interpreta, participa, mobiliza seu sistema nervoso
de muitas maneiras, e sempre de forma diferente de seu vizinho (LÉVY, 1999, p. 79).
George Miller realizou trabalhos notórios no campo da psicolinguística em duas
frentes. A primeira se assemelhava a de Osgood, tratando dos processos de interpretação da
linguagem. “[...] ele aplicava os conhecimentos e técnicas desenvolvidas e aperfeiçoadas ao
longo dos anos pela Psicologia Experimental para observar a linguagem a partir de dados
quantitativos” (SAMPAIO et al., 2015, p. 242). Miller também ganha notoriedade quando ele
decide fazer suas pesquisas experimentais fora do behaviorismo.
Seu mais conhecido trabalho é o livro The Magical Number Seven, Plus or Minus
Two: Some Limits on our Capacity for Processing Information, de 1956, em que ele trata da
capacidade de memorização das pessoas. Neste livro, ele apresenta a tese de que as pessoas
só preservam uma determinada quantidade de informações na memória de curto prazo.
Estudos publicados, por George Miller, em 1956, referiam-se a um ‘número mágico’
7 ± 2. Sobre o qual, o sistema cognitivo humano somente consegue processar um
número limitado de informações que variam entre 5 a 9 elementos por vez, ou seja,
consegue-se assimilar, de maneira natural e satisfatória, de cinco a nove elementos
de informação por vez. Uma vez excedidos esses limites, o raciocínio e a
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aprendizagem ficam abaixo do desempenho esperado, sobrecarregando a estrutura
cognitiva (SANTOS e TAROUCO, 2007, p.3).
Esta abordagem tem afinidade com a semiótica4, especialmente quando usa o conceito
de signo e significado. Tanto Osgood quanto Miller são considerados como fundadores da
psicolinguística, talvez por isso Berelson os tenha classificados como os dois principais
nomes dessa abordagem. Mesmo sem ter a intenção de realizar estudos comunicacionais
(exceto quando Osgood participa de um modelo de comunicação), estes autores fazem parte
da história deste campo.
Abordagem Psiquiátrica
Berelson (1959) aponta dois autores como os principais da abordagem psiquiátrica,
Jurgen Ruesch e Gregory Bateson, que escreveram Communication: the Social Matrix of
Psychiatry, em 1951. Segundo Alves (1999), esta obra foi influenciada pela Teoria Geral dos
Sistemas (de Norbert Wiener5), que trouxe conceitos originais, como auto regulação,
interdependência e feedback.
Bateson era biólogo e antropólogo de formação. Seu interesse na comunicação surgiu
na década de 1940, quando escreveu, juntamente com Margaret Mead6, o livro Balinense
Character, onde ele buscava explorar o que caracterizava crianças balineses por meio de
observações sociais, suas condutas de forma verbal e visual e a comunicação humana
(SAMAIN, 2001).
O que Bateson buscava nos anos 50 e o que deveria efetivamente desenvolver até sua
morte em 1980? Procurava equacionar melhor a vasta interrogação sobre a
comunicação humana nos termos de uma estrutura que pudesse ligar os “seres vivos”
entre si – a natureza e o pensamento, a comunicação e a antropologia (SAMAIN,
2001).
É justamente a comunicação humana o objeto de estudo de Bateson e Ruesch. Para
eles, a comunicação não “[...] se refere somente à transmissão verbal, explícita e intencional
de uma mensagem”, mas também “inclui todos os processos através dos quais as pessoas se
influem mutuamente” (LANA, 2008, p. 239).
A comunicação humana é o objeto de Communication: the Social Matrix of
Psychiatry, pois é o ponto de encontro entre a comunicação e a psicopatologia, vertente da
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Lembrando que a Semiótica é anterior à Psicolinguística
Matemático e fundador da cibernética (1894-1964)
6 Antropóloga e ex-esposa de Bateson (1901-1978)
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psiquiatria abordada no livro. Conforme Bateson e Ruesch (1965, p.17), “[...] a comunicação
é a matriz em que estão cravadas todas as atividades humanas” (apud Lana, 2008). Juntos,
Bateson e Ruesch realizam o trabalho com o propósito de encadear o individual e o social.
A formulação ressalta a dinâmica interativa entre os indivíduos que, diante uns dos
outros, percebem seus próprios atos, recebem impressões, modificam/moldam ações
e retêm informações para ações futuras (LANA, 2008, p. 239).
Algumas premissas relacionadas à comunicação são definidas pelos autores para o
melhor entendimento da obra: comunicação interpessoal, intrapessoal e comunicação de
massa. A interpessoal é designada pela presença de atos expressivos por parte de uma ou mais
pessoas, pela percepção, consciente ou inconsciente, de terceiros de tais atos expressivos e a
interferência na conduta, resultante da observação de que os atos foram notados. A
comunicação intrapessoal é um caso especial da interpessoal e caracteriza-se pelo registro
interno de experiências passadas de cada indivíduo, na qual é impossível saber se há falha na
interpretação, pois é impossível avaliar e corrigir tais enganos (LANA, 2008).
Na
comunicação de massa, o sujeito sente que é parte de algo maior, um sistema supra pessoal,
no entanto ele não é capaz de observar os efeitos das mensagens, não podendo, assim, ser
corrigidas as distorções.
Ruesch e Bateson vão além e, no capítulo três de sua obra, que trata sobre doenças
psíquicas (psicopatias), eles desenvolvem a hipótese de que a comunicação humana pode
trazer benefício no estado de saúde dos pacientes.
Psiquiatras que dedicam seu tempo para psicoterapia acreditam na relação de
pacientes que sofrem de psicopatologia, e pensam que o contato com os seres
humanos é uma necessidade terapêutica. Se alguém tenta analisar os eventos que
ocorrem em uma situação social, a interação entre paciente e médico, e os esforços
direcionados a influenciar o paciente por meio de psicoterapia, deve-se chegar à
conclusão de que estes eventos caem no âmbito da comunicação. Por conseguinte, é
possível afirmar com certeza que os agentes terapeuticamente eficazes contidos em
psicoterapia encontram-se em comunicação (RUESCH e BATESON, 1951, p. 80).
O aprofundamento e as várias pesquisas realizadas por outros psiquiatras (incluindo
os estudos de Kurt Lewin Dynamic Theory of Personality, de 1935) analisadas por Bateson
e Ruesch, tornam a obra Communication: the Social Matrix of Psychiatry densa e rica em
conhecimento científico no campo da psiquiatria. No entanto o estudo não se limita só a este
campo e conecta a comunicação à cultura, relações humanas e antropologia. Estes estudos
são melhores aproveitados na psiquiatria, embora o termo “comunicação” esteja presente no
título e em quase todos os capítulos do livro.
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Por tudo isso que foi apresentado, Bateson e Ruesch mereciam um olhar mais
cuidadoso por parte dos estudiosos da comunicação.
Abordagem jornalística
Muito antes de se conceber o campo de estudos da comunicação, que, segundo a
“história oficial”, tem o seu marco inicial em 1947 quando Wilbur Schramm cria o programa
de doutorado em comunicação na universidade de Illinois (VARÃO, 2010), o jornalismo já
tinha tomado forma e era alvo de estudo de várias áreas acadêmicas, como a sociologia, a
política e a psicologia. A abordagem jornalística fala sobre como se deu o encontro entre o
campo recém criado com o jornalismo praticado diariamente. A principal discussão é sobre
os aspectos controladores da mídia e a comunicação de massa.
O interesse no estudo da comunicação iniciou-se no final do século XIX, onde o termo
comunicação já era utilizado, e no início do século XX. Para os estudiosos daquela época, a
comunicação era apenas um interesse secundário (MEDITSCH, 2011, p.3).
A comunicação também é uma categoria utilizada nas ciências sociais americanas pelo
menos desde a primeira década do Século XX, como no livro de Charles H. Cooley que
sustenta a sua significância para a organização social, e que antecipa algumas ideias
sobre a mídia como extensão do homem e a aldeia global, que meio século depois seriam
exploradas pelo canadense Marshall Macluhan. (MEDITSCH, 2011, p.4).
Na década de 1930, Ralph Casey7 alertou que era necessário que as escolas de
jornalismo abraçassem e desenvolvessem pesquisas sobre o seu principal objeto de estudo, o
próprio jornalismo. Sem ser ouvido, Casey se aproximou dos cientistas sociais que tinham
interesse na comunicação, especialmente de Malcolm Willey8, que desenvolveu um estudo
sobre comunicação de massa publicado na revista Journalism Quartely, onde Casey era
editor. Em um de seus artigos, Willey faz a sua conceituação de comunicação de massa.
Comunicação de Massa é caracterizada pela possibilidade de estabelecer contatos
com grande número de pessoas simultaneamente ou quase simultaneamente, a partir
de um ou alguns pontos centrais de estimulação. [...] A singularidade de comunicação
de massa atual está no facto de que com o uso de dispositivos mecânicos o tamanho
da audiência é quase ilimitado, e assembleias físicas não são mais essenciais. No
desenvolvimento da comunicação de massa moderna, o jornal periódico, o filme
cinematográfico e o rádio são básicos, mas esses três são complementados por muitos
outros meios de comunicação. Os dispositivos de comunicação de fio em geral
(telégrafo e telefone), a estrada de ferro (pelo qual a correspondência e materiais
impressos são distribuídos), veículos automotores (que também fazem a também
distribuição de material impresso e facilitam a circulação dos seres humanos), e os
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Professor na escola de jornalismo na Universidade de Minnesota (1890-1962).
Professor de Sociologia na Universidade de Minnesota (1897-1974)
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vários usos da máquina de impressão (além de jornal e usos periódicos) são todos
parte da comunicação de massa. Sem os três, no entanto, a comunicação de massa
básica em sua escala atual seria inconcebível (WILLEY 1935, p. 194)9.
Sobre os meios de comunicação de massa (rádios, jornais, periódicos e cinema),
Willey escreve seus efeitos10. Nota-se que a ideia de massa é muito semelhante a que se faz
na teoria hipodérmica e na teoria crítica (escola de Frankfurt), ambos formulados na década
de 1930.
O jornal tem constantemente ampliado o âmbito dos seus esforços para trazer um
mundo cada vez mais complexo para as mentes de seus leitores; o filme e o rádio
permitem uma compreensão direta de eventos distantes que era inimaginável há uma
geração. Mas para além destes efeitos sobre os seres humanos destacados é o fato de
que essas novas agências unem indivíduos em resposta concertada a estímulos
comuns. Mecanismos sociais já existem onde é possível impressionar o povo de um
país inteiro em simultâneo. Qualquer uso desses mecanismos envolve
inevitavelmente efeitos de longo alcance sobre atitudes e comportamentos sociais.
Estes efeitos podem ser impremeditado por aqueles que detém o controle do
funcionamento do mecanismo. Por outro lado, eles podem ser pré-determinado de
acordo com os objetivos de interesse particular (WILLEY e RICE, 1933, p. 208209)11.
No entanto, a contribuição de Willey para o campo da comunicação foi diminuída,
quase apagada da história. Segundo Meditsch (2011), Schramm lançou uma série de obras
relacionadas ao mesmo tema, mas sem citar na bibliografia os trabalhos de Willey “[...] assim,
Schramm pôde aparecer como se ele e seu grupo houvessem inventado a roda” (MEDITSCH,
2011, p.11).
Outro autor de relevância neste período, apontado por Berelson (1959), foi Raymond
Nixon, que dedicou seus estudos ao problema da liberdade de imprensa. “Ele se propôs a
No original “Mass Communication is characterized by the possibility of establishing contacts with large numbers of people
simultaneously or virtually simultaneously, and from one or a few central points of stimulation. [...] The uniqueness of
present-day mass communication is in the fact that with the use of mechanical devices the size of the audience is almost
unlimited, and physical assemblage is no longer essential. In the development of modern mass communication the
newspaper and periodical, the motion picture, and the radio are basic, but these three are supplemented by many other media
of communication. The wire communication devices in general (telegraph and telephone), the railroad (whereby mail and
printed matter is distributed), motor vehicles (also distributing printed matter, as well as facilitating the circulation of human
beings), and the various uses of the printing press (in addition to newspaper and periodical uses) are all a part of mass
communication. Without the basic three, however, mass communication on its present scale would be inconceivable”.
Tradução do autor.
10 Alinhando-se à tradição de estudo dos efeitos
11
No original: “The newspaper has constantly expanded the scope of its endeavors to bring an ever more complex world to
the minds of its readers; the motion picture and the radio permit a direct comprehension of distant events that was
unimaginable a generation ago. But beyond these effects upon detached human beings is the fact that these new agencies
unite individuals in concerted response to common stimuli. Social mechanisms now exist whereby it is possible to impress
the people of an entire country simultaneously. Any use of these mechanisms inevitably involves far-reaching effects upon
social attitudes and behavior. These effects may be unpremeditated by those in whose control the operation of the
mechanism rests. On the other hand, they may be predetermined in keeping with objectives of private interest.” Tradução
do autor.
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analisar comparativamente os sistemas de liberdade de imprensa no cenário internacional,
privilegiando variáveis econômicas e culturais” (MELO, 1998, p. 152).
Nixon também foi editor da revista Journalism Quartely durante 25 anos e, nesta
função, teve papel importante na construção do campo da comunicação nos Estados Unidos,
uma vez que muitos dos seus alunos ao redor do mundo poderiam ter acesso a suas obras para
continuar os estudos acadêmicos em comunicação (MELO, 1998).
A abordagem jornalística passa por pesquisadores e obras além dos descritos por
Berelson (1959) e pelo presente artigo, como Stuart Rice, Charles Cooley e Douglas Waples
por exemplo. A Journalism Quartely também esteve presente em todo o processo, pois era o
meio de publicação no campo da Comunicação que reuniu os pensamentos dos primórdios
do campo. Esses documentos originais hoje permitem que pesquisadores atuais tenham
acesso aos clássicos da comunicação, sejam estes clássicos reconhecidos ou não.
Abordagem Reformista
A Abordagem Reformista é mais uma corrente preocupada com a comunicação de
massa. É a única abordagem a que Berelson se dedica a escrever um parágrafo dando
explicações, dizendo que seus autores estão “Preocupados com a organização, estrutura e
controle de meios de comunicação, e em particular, com as considerações de ordem
pública12” (Berelson, 1959, p.4).
Os autores referências desta abordagem fazem parte de um grupo de estudiosos
denominado Comission on the Freedom of Press, escolhidos pelo reitor da Universidade de
Chicago, Robert Hutchins. Financiados pela revista Time e apoiados pela Enciclopédia
Britânica, o objetivo era reconhecer o “atual estado e as perspectivas futuras da liberdade de
imprensa”. A Comission on the Freedom of Press também ficou conhecida como Comissão
Hutchins.
Além de Hutchins, outros doze acadêmicos fizeram parte da comissão13, entre eles
Harold Lasswell, um dos pais fundadores do campo comunicacional, e Charles Merriam,
No original “Concerned with organization, structure, and control of the mass media, and particularly with considerations
of public policy.” Tradução do autor.
13 John M. Klark (professor de economia da Universidade de Columbia); John Dickinson (professor de direito da
Universidade de Pensilvânia); Willian Hocking (professor-emérito de Filosofia da Universidade de Harvard); Archibald
Macleish (secretário-assistente do Estado); Reinhold Niebuhr (professor de ética e filosofia da religião na Union Theological
Seminary); Robert Redfield (professor de antropologia na Universidade de Chicago; Beardsley Ruml (presidente do Federal
Reserve Bank of New York); Arhur Schlesinger (professor de história na Universidade de Harvard); George Shuster
(presidente do Hunter College).
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criador do behaviorismo e orientador de Lasswell na sua mais conhecida obra, “Técnica de
Propaganda na Guerra Mundial”.
Juntos, estes pesquisadores realizaram estudos sobre a liberdade de imprensa e, em
1947, lançaram o relatório final intitulado A Free and Responsible Press – A General Report
on Mass Communication, Newspaper, Radio, Motion Pictures, Magazines, and Books, que
traz à tona questões sobre responsabilidade social e crítica da mídia.
Dentre os pontos principais estavam discussões sobre a Teoria da Responsabilidade
Social da Imprensa14, propôs a criação de um órgão para analisar a atuação da mídia com o
intuito de mostrar aos meios de comunicação a sua responsabilidade dentro da sociedade. O
relatório apontou também a preocupação com o monopólio midiático, que poderia causar um
monopólio de ideias. “Este relatório trata das responsabilidades dos proprietários e gerentes
de imprensa com suas consciências e do bem comum para a formação da opinião pública.
[...] Eles são, tomados em conjunto, a influência mais poderosa hoje15” (HUTCHINS, 1947,
p. VII).
Este estudo deixou grandes legados e reflexões sobre o poder da comunicação.
Inspiraram algumas regras da Federal Communication Commission (FCC)16 nos Estados
Unidos (PAULINO, 2008), é citado nos manuais de ética e deontologia (OLIVEIRA, 2007,
p.164) e inspirou diferentes mecanismos de crítica de mídia, sendo um deles o ombudsman,
posteriormente desenvolvido na Suécia (BITTENCOURT e SILVA, 2015, p. 10).
Considerações finais
Foram apresentados neste trabalho quatro linhas de pesquisa que fazem parte da
história do campo comunicacional, mas que, por motivos apresentados pelo próprio Berelson,
por Varão (2010) e outros autores, foram consideradas menores nas décadas de 1940 e 50.
Osgood e Miller se aproximam da semiótica, além do modelo desenvolvido por Osgood e
Schramm. Bateson e Ruesch se preocupam com a comunicação humana e realizam o estudo
aprofundando o relacionamento entre comunicação e psiquiatria. No que chamamos de
abordagem jornalística, Casey, Nixon, Schramm, Willey e outros deixaram, por meio da
14
Criada em 1942 para decidir as responsabilidades da imprensa na sociedade.
No original: “This report deals with the responsibilities of the owners and managers of the press to their consciences and
the common good for the formation of public opinion. [...] They are, taken together, however, probably the most powerful
single influence today.” Tradução do autor.
16 Órgão regulador das telecomunicações dos Estados Unidos, criado em 1934
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revista Journalism Quartely, um grande legado: os estudos pioneiros em comunicação. E na
Comissão Hutchins, os melhores acadêmicos da década de 1940 levantaram questões
importantes sobre a liberdade e o papel da imprensa. Questões essas que são discutidas até
hoje.
No entanto, é difícil imaginar que estas abordagens não são levadas em consideração
nos estudos acadêmicos no Brasil, visto que elas trazem, cada uma a seu modo,
desdobramentos até os tempos atuais e tangem assuntos muito estudados.
Estas abordagens dialogam com conteúdos apresentados nas universidades
brasileiras. Tais abordagens, juntamente com as teorias já consagradas, tem potencial para
trabalhar a multidisciplinaridade dentro dos cursos de Comunicação Social. Quando se fala
de cibercultura, é importante deixar claro que tal ideia não surge apenas com o advento de
aparelhos tecnológicos. A concepção do fenômeno comunicacional neste caso é semelhante
à ideia pensada 50 anos antes, mas aplicável numa outra ferramenta.
O mesmo acontece quando abrimos os olhos para a preocupação com a liberdade de
expressão e crítica da mídia. A comissão Hutchins trouxe os primeiros questionamentos e os
primeiros problemas, o que acarretou em grandes ações por parte dos próprios meios de
comunicação e da sociedade. Para que a discussão sobre o tema da liberdade e
responsabilidade da mídia seja ainda mais sólido, é necessário conhecer a história.
Rever outras extensões e outros pensamentos da escola de Chicago nos leva a pensar
em novas questões acadêmicas e nos dá ainda mais suporte para continuar avançando, ou
seja, amplia nossa visão vertical e horizontalmente. É necessário voltar os olhares para além
dos consagrados clássicos, pois ainda há caminhos a serem descobertos que dialogam com a
nossa realidade e têm muito a contribuir para as futuras pesquisas.
REFERÊNCIAS
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[Cadernos do Noroeste, Série Comunicação, vol. 12 (1-2)], Instituto de Ciências Sociais,
Universidade do Minho, Braga, 1999, 5-18.
BATESON, G.; RUESCH, J. Communication: The Social Matrix of Psychiatry, New York, W.W.
Norton & Company, 1951.
BATESON, G.; RUESCH, J. Comunicacion: la matriz social de la psiquiatria Buenos Aires:
Paidos, 1965.
BERELSON, B. The State of Communication Research, The public opinion quartel, Vol. 23, No.
01, pp 1-6, 1959. Published by Oxford University.
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BITTENCOURT, W. C.; SILVA, G.; Apontamentos históricos sobre crítica de mídia noticiosa,
Revista Novos Olhares, Vol. 4, N° 2, 2015.
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