FABIANE MORAES

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MINISTÉRIO DA SAÚDE
GRUPO HOSPITALAR CONCEIÇÃO
CENTRO DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA E PESQUISA EM SAÚDE – ESCOLA GHC
INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO RIO
GRANDE DO SUL – CÂMPUS PORTO ALEGRE
Curso de Especialização em Saúde Mental: Gestão,
Atenção, Controle Social e Processos Educacionais
A ASSISTENCIA PSICOLÓGICA NA PROMOÇÃO DA SAÚDE
MENTAL EM UM HOSPITAL GERAL NO INTERIOR DO RIO GRANDE
DO SUL
FABIANI RAMOS DE MORAES
ORIENTADOR: FERNANDA ZANOTO KRAEMER
PORTO ALEGRE
2013
A ASSISTENCIA PSICOLÓGICA NA PROMOÇÃO DA SAÚDE MENTAL EM UM
HOSPITAL GERAL NO INTERIOR DO RIO GRANDE DO SUL
Fabiani Ramos de Moraes1
Fernanda Zanoto Kraemer2
RESUMO
O presente artigo apresenta um relato de experiência a partir das práticas instituídas no
Serviço de Psicologia em um hospital geral no interior do Rio Grande do Sul. Tal proposta se
justifica frente à necessidade de reflexão a cerca do fazer do psicólogo no ambiente hospitalar.
O projeto divide-se em três momentos: a reflexão sobre a assistência psicológica no hospital
geral; um relato de experiência; e a reflexão sobre uma nova possibilidade de fazer a
assistência psicológica onde a clínica se faz presente. A partir deste trabalho pretende-se
contribuir com a construção da identidade da psicologia dentro da instituição hospitalar e
estimular a reflexão de novas práticas para proposições de ações de intervenção rumo aos
novos modos de operar o cuidado em saúde.
Descritores: psicologia hospitalar, saúde mental, humanização
ABSTRACT
This article presents an experience report from the practice established in the
Department of Psychology at a general hospital in the state of Rio Grande do Sul. This
proposal is justified due to the necessity of reflection about the making of the psychologist in
the hospital environment. The project is divided into three stages: a reflection on the
psychological care in general hospital, an experience report; reflection on a new possibility of
psychological assistance where the clinic is present. From this work we intend to contribute to
the identity construction of psychology within the hospital and to encourage discussion of
new practices for propositions of intervention actions toward new ways of operating the
health care.
Descriptors: hospital psychology, mental health, humanization
1
Especializanda em Saúde Mental: Gestão, Atenção, Controle Social e Processos Educacionais; Pós – Graduada
em Psicologia Jurídica, Psicóloga, atua em Hospital Geral no interior do Rio Grande do Sul – e-mail:
[email protected]
2
Mestre Profissional em Gestão de Tecnologia em Saúde do Programa de Pós – Graduação em Epidemiologia
da UFRGS, Enfermeira do Hospital Cristo Redentor, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil , professora e
orientadora de trabalho de conclusão de curso na Escola GHC.
3
INTRODUÇÃO
Este artigo descreve a vivência de um profissional psicólogo no Serviço de Psicologia
num Hospital Geral do interior do Rio Grande do Sul. A motivação pela realização desse
trabalho deu-se a partir da necessidade de reflexão a cerca do reconhecimento da importância
da escuta clínica do Psicólogo em uma instituição hospitalar. A escuta clínica vai além do
fazer do Psicólogo Hospitalar, um não se faz sem o saber do outro. Os psicólogos que compõe
as equipes em hospitais, na maioria das vezes, realizam trabalho de consultoria por
interconsulta, onde o médico solicita sua avaliação e se necessário o acompanhamento.
Quando solicitado para tal avaliação o sofrimento psíquico do paciente já se faz presente e
com tal intensidade que sinais e sintomas são evidenciados. O diferencial deste relato de
vivencia é a escuta clínica através da presença da psicologia em todos os setores do hospital,
sendo eles: emergência e pronto atendimento, participação nos grupos de ouvidoria e
humanização, na saúde mental, na internação, adulta e pediátrica, maternidade, UTI e bloco
cirúrgico.
Quando inicie o trabalho como psicóloga no hospital, o fazer psicologia hospitalar era
um desafio, um caminho novo a ser percorrido, havia transitado por outras Políticas Públicas.
Mesmo contratada para prestar assistência a todo o hospital, permanecia na Unidade de Saúde
Mental. Atrás daquela porta restava-me esquecida. Por não ser uma cultura da instituição? Ou
pela grande demanda na Saúde Mental? Esquecida talvez não, mas “a psicóloga DA saúde
mental”. Os atendimentos fora da Saúde Mental ocorriam esporadicamente como consultoria
por solicitação médica para avaliação do grau de sofrimento psíquico. Com o passar do
tempo surge à necessidade de mais um profissional para trabalhar nos recursos humanos. Esta
profissional chega também para fazer a análise institucional, a partir deste momento, a direção
passa a refletir sobre a necessidade de um Serviço de Psicologia e contrata mais duas colegas,
uma psicóloga para assistência aos demais setores do hospital e outra para agregar à equipe da
saúde mental. A psicologia começa a tomar seu espaço, a demanda cresce, e com ela a
necessidade de expandir o serviço. Na saúde mental, permanece uma psicóloga, e eu divido
com a outra colega os demais setores, passando a ser referência na maternidade, pediatria e
bloco cirúrgico, onde também está o centro obstétrico. Neste momento sinto-me tomada pelo
receio do novo. E o que fazer com os pacientes em intenso sofrimento psíquico? Para onde
encaminhar, se necessário acompanhamento psicológico? A rede de atendimento psicológico
na atenção básica não consegue atender toda a demanda. Para atender os pacientes pré e pós-
4
cirúrgicos, a emergência e o ambulatório de psicologia, dois novos colegas integram a equipe.
Hoje o serviço de psicologia conta com nove profissionais.
O hospital vive um outro momento de sua história, com uma gestão inovadora, e um
olhar visionário que aproxima a instituição do Estado e da União. O Estado visando sanar
suas necessidades de atendimento à média complexidade, dentro da região de saúde nº8,
propõe em parceria com a União na condição do hospital aderir à portaria do Ministério da
Saúde, nº 929, de 10 maio de 2012, o incentivo financeiro 100% SUS. A portaria institui que
o incentivo financeiro seja destinado às unidades hospitalares que se caracterizam como
pessoas jurídicas de direito privado sem fins lucrativos e que destinam 100% de seus serviços
de saúde, ambulatoriais e hospitalares, exclusivamente ao Sistema Único de Saúde – SUS.
A partir deste momento passa a ser o primeiro hospital filantrópico 100% SUS no Estado do
Rio Grande do Sul, abrangendo 160 mil usuários do serviço. Com a implantação do SUS na
instituição a gestão passa a se ocupar também do programa de Humanização. O olhar
humanizado ao paciente tem como objetivo assistir o ser humano na sua integralidade
preocupando-se com o sofrimento físico e psíquico.
Segundo Oliveira (2007), a humanização da assistência ao paciente hospitalizado
adotou o significado de um processo de transformação da cultura institucional, onde se
reconhece e valoriza os aspectos subjetivos, históricos e socioculturais de usuários e
profissionais, assim como funcionamentos institucionais importantes para compreensão dos
problemas e elaboração de ações que promovam boas condições de trabalho e qualidade de
atendimento.
Em um estudo que analisa o discurso do Ministério da Saúde sobre a proposta de
humanização na assistência à saúde, Deslandes (2004), define o termo humanização como
sendo um amplo conjunto de iniciativas que abrange a assistência que valoriza a qualidade do
cuidado do ponto de vista técnico; o reconhecimento dos direitos, da subjetividade e da
cultura do paciente; o valor do profissional da saúde. Dentro desta perspectiva, as idéias
centrais de humanização do atendimento na saúde são as de: oposição à violência,
compreendida como a negação do outro, em sua humanidade; necessidade de oferta de
atendimento de qualidade; articulação dos avanços tecnológicos com acolhimento; melhorias
nas condições de trabalho do profissional e ampliação do processo de comunicação.
A Humanização em saúde é uma possibilidade política de se alterar uma lógica
utilitária e autoritária que produz sujeitos cerceados, fragmentados e incapazes. Ao considerar
dimensões subjetivas e singulares, a implantação do atendimento humanizado poderá
5
instaurar, nas organizações, espaços de liberdade de acolher, amparar, sustentar e dar
significado à presença e às ações de profissionais de saúde, gestores e pacientes. (Reis,
Marazina, Gallo, 2004)
A partir do aumento do quadro profissional do serviço de psicologia e da
sensibilização para uma prática humanizada, a lógica do cuidado passa a ser vista como um
fazer transdisciplinar e a atenção psicológica passa a focar na promoção da saúde mental.
Assim, este relato de vivencia tem como objetivo contribuir com a construção da
identidade da psicologia dentro da instituição hospitalar e estimular a reflexão de novas
práticas para proposições de ações de intervenção rumo aos novos modos de operar o cuidado
em saúde.
A psicologia no contexto hospitalar
No final dos anos 50 e durante toda e década de 60, a atuação do psicólogo na saúde
púbica brasileira esteve ligada à área da saúde mental, principalmente junto aos hospitais
psiquiátricos, tendo como modelo de atuação o enfoque clínico.
Em 1986, 1992 e 1996, durante as Conferências Nacionais de Saúde e nas
Conferencias Nacionais de Saúde Mental, ocorrem através da mobilização de movimentos
sociais, representados por várias categorias profissionais e pela comunidade em geral, uma
discussão publica e democrática sobre a situação precária da saúde e da rede de assistência no
País.
A partir da mobilização política nacional e das Conferências, na década de 70, um
conjunto de ações específicas foram implementados pelo governo brasileiro. A primeira ação
foi à discussão sobre a atenção primária à saúde e à sua implantação no interior do Brasil. Em
seguida foi à criação de uma rede de assistência interligada, composta por unidades básicas de
saúde, ambulatórios e hospitais gerais e especializados. A terceira ação, já proposta pela
Constituição Federal de 1988, foi à criação de um novo modelo de atenção à saúde,
regulamentado a partir da lei 8080 em 1992, denominado de SUS – Sistema Único de Saúde,
refletindo a reorganização do sistema de saúde pública brasileiro. (Seidl e Costa, 1999).
A Psicologia foi progressivamente entrando no contexto do hospital geral “em
resposta às novas tendências que assinalavam a necessidade de expansão do saber
biopsicossocial na compreensão do fenômeno da doença, visando modificar as concepções
6
habituais, cristalizadas pelo modelo biomédico”, que passara a ser questionado (Chiattone,
2000). A doença passa a ser vista como um estado de crise agravado pela hospitalização, que
interfere diretamente sobre o estado emocional do indivíduo. Neste momento, o principal
objetivo da atuação de psicólogos no contexto hospitalar é a minimização do sofrimento
gerado pelo adoecimento e a hospitalização, evitando as possíveis seqüelas emocionais dessa
vivência (Angerami-Camon, 1995).
Romano (1999) refere que há basicamente quatro tipos de relação que interessam à
psicologia hospitalar. Primeiro - pessoa com pessoa - quem é o paciente e que é o cuidador;
segundo - paciente com grupos – seu grupo familiar, a equipe multiprofissional, o grupo dos
outros pacientes; terceiro – paciente com o processo do adoecer e com a situação da
hospitalização; quarto – paciente consigo mesmo – personalidade, necessidades, mitos e
fantasias.
Segundo o Conselho Federal de Psicologia3, o psicólogo especialista em Psicologia
Hospitalar tem sua função centrada nos âmbitos secundário e terciário de atenção à saúde,
atuando em instituições de saúde e realizando atividades como: atendimento psicoterapêutico;
grupos psicoterapêuticos; grupos de psicoprofilaxia; atendimentos em ambulatório e unidade
de terapia intensiva; pronto atendimento, enfermarias em geral; psicomotricidade no contexto
hospitalar; avaliação diagnóstica; psicodiagnóstico; consultoria e interconsulta.
Chiattone (1991) refere que a Psicologia Hospitalar trata-se apenas de uma estratégia
de atuação em Psicologia da Saúde, e que deveria ser chamada de Psicologia no contexto
hospitalar.
Segundo Simonetti (2004), “os aspectos psicológicos não existem soltos no ar, e sim
encarnados em pessoas”, sejam estas pacientes, familiares ou os próprios profissionais de
saúde. Logo, a atuação do psicólogo hospitalar deve se dar essencialmente ao nível da
comunicação, das relações interpessoais sobre a tríade paciente-família-equipe.
E, ao ampliar seu modelo assistencial ao paciente, aos familiares e às equipes de
saúde, o psicólogo hospitalar engaja-se definitivamente na essência da sua prática: a
humanização da assistência prestada ao nível da saúde (Chiattone, 2000).
Uma equipe transdisciplinar, que visa à unidade do conhecimento, articulando
elementos que passam entre, além e através das disciplinas, é um dispositivo importante e
necessário para o acolhimento humanizado. Num hospital esta equipe ainda faz o papel de
7
integrar os diferentes momentos do atendimento, naquilo que muitas vezes resulta na
internação hospitalar. Para tanto, o trabalho transdisciplinar requer que as diferentes áreas
façam as trocas de seus saberes sem perder a especificidade. Os diferentes olhares de cada
saber são importantes para a escuta e o cuidado de quem ali esta.
Carvalho (2005) refere que o trabalho do psicólogo em ambiente hospitalar é
evidenciado pela atuação clínica. A autora refere ainda que este é um ponto que merece maior
consideração, pois encontra dois detalhes conflitantes. A literatura expõe o debate acerca da
definição do campo da psicologia hospitalar, ou seja, a própria psicologia ainda não conseguiu
estabelecer um paradigma científico do contexto hospitalar, o que gera ambigüidade, e
confusão de papeis profissionais.
Segundo Borges (2009), para o psicólogo hospitalar a entrevista clínica prima pela
questão avaliativa e terapêutica. Levando em consideração sempre as questões éticas,
humanas e profissionais envolvidas. A entrevista tem como objetivo fazer uma aliança com o
paciente, através do estabelecimento do vínculo inicial. O autor utiliza o termo atendimento,
como sinônimo de entrevista clinica, entende que além das coletas de dados e do estudo
destes, no atendimento temos o objetivo de sermos terapêuticos de alguma forma, por meio da
empatia, do atendimento, da aceitação da pessoa do paciente como um todo, com suas
dificuldades e potencialidades.
No ambiente hospitalar não sabemos se veremos novamente o paciente, por este
motivo temos que otimizar ao máximo a escolha do momento, o tempo, mesmo que tenhamos
um objetivo, o planejamento terapêutico para demais encontros, a incerteza se faz presente.
“A arte de conhecer alguém é algo especial na psicologia, pelo fato de que jamais
conheceremos alguém na sua totalidade, nem mesmo teremos certezas a respeito desse nosso
suposto conhecimento”. (Borges, 2009, p.18) Cada momento com o paciente é único em seu
tempo, mesmo que tenhamos visto mais de uma vez em setores diferentes, seu tempo é outro.
Figueiredo (1997) refere que muitos autores versam sobre pontos comuns quanto à
concepção do adoecer psíquico e do tratamento. Quem adoeceu e sofre é, antes de tudo um
sujeito e não um corpo. Logo a fala deve ser privilegiada não como manifestação patológica
que exige correção ou resposta imediata, mas como possibilidade de fazer aparecer uma outra
dimensão da queixa que singulariza o pedido de ajuda. Consequentemente o tratamento
3
Resolução CFP Nº 02/01 Altera e regulamenta a Resolução CFP nº 014/00 que institui o título profissional de
especialista em psicologia e o respectivo registro nos Conselhos Regionais. Dados extraídos do site do Conselho
Federal de Psicologia - http://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2006/01/resolucao2001-2.pdf
8
consiste nesta etapa inicial, em acolher e escutar ao invés de apenas ver e conter quando
necessário.
O Serviço de Psicologia num Hospital Geral no interior do Rio Grande do Sul4
Trata-se de um Hospital Geral5 de média complexidade, situado no interior do Rio
Grande do Sul, 100% SUS, referencia para 14 municípios, privado, mantido por uma entidade
filantrópica, sem fins lucrativos, a demanda é espontânea e referenciada. Possui 157 leitos em
funcionamento, presta serviço ambulatorial, internação, urgência e emergência. Em média o
hospital realiza 240 procedimentos mensais no bloco cirúrgico, 4 mil atendimentos ao mês na
emergência e 577 internações mensais.
O Serviço de Psicologia é composto por seis psicólogos, quatro com 30 horas
semanais e duas com 40 horas semanais, uma exerce o cargo de coordenação do serviço e a
outra coordena a Saúde Mental. Duas assistentes sociais que trabalham 30 horas semanais
cada uma e uma assistente administrativa com 44 horas semanais.
Pinto (2004) endossa a discussão acerca da necessidade da implementação e da
padronização de procedimentos de atendimento psicológico, visando à melhoria do serviço
prestado no contexto hospitalar. Dessa forma, apresentamos algumas possibilidades de
atuação da equipe de Psicologia no trabalho com os pacientes, seus familiares e funcionários
da instituição. O protocolo do serviço de psicologia foi criado a partir da análise institucional
e do desejo de implantação do serviço, demanda esta inovadora na instituição.
Segundo o protocolo do Serviço de Psicologia6, o psicólogo que atende na Emergência
do hospital, realiza, junto com a assistente social, o Grupo de Acolhimento na sala de espera.
O tempo de espera pelo atendimento médico é um espaço muito rico para abertura à fala do
paciente. As pessoas encontram-se à espera para serem atendidas e muitas vezes a
necessidade é de que as escutem. Durante esse momento, muitas situações/sentimentos
surgem e encaminhamentos podem ser realizados, inclusive diminuindo o fluxo de
4
O presente texto foi produzido pela equipe do Serviço de Psicologia para apresentar na 1ª Jornada de
Psicologia Hospitalar do Hospital de Clínicas de Porto Alegre – Formação, Intervenção e indicadores
de qualidade, em setembro de 2013.
5
Dados disponível no site do Ministério da Saúde – CNES – Cadastro Nacional de Estabelecimentos
de Saúde, endereço eletrônico, visitado em novembro de 2013.
http://cnes.datasus.gov.br/Exibe_Ficha_Estabelecimento.asp?VCo_Unidade=4312402257556
6
Protocolo de Psicologia criado pela Psicóloga Adriana Cardoso Bandeira
9
atendimento médico ou ambulatorial. O paciente que busca o pronto atendimento ou a
emergência possui características de urgência, seja ela de fator emocional ou física. Neste
sentido, a escuta do paciente é de suma importância e em muitos casos deve ser individual. O
familiar também pode ser atendido, pois é um momento de escuta para suas duvidas e
aflições. Emocionalmente encontra-se em um momento diferenciado, tendo muitas vezes que
tomar decisões nunca antes experimentadas.
Os pacientes que tem procedimento cirúrgico7 eletivo agendado são contatados por um
psicólogo, quem oferece um atendimento antecedendo a cirurgia, do qual resulta um parecer
sobre o estado emocional do paciente nesse momento. Assim, busca-se acolher a pessoa, com
suas expectativas e ansiedades referentes ao procedimento a ser realizado. Após a cirurgia é
realizada visita ao leito do paciente oferecendo suporte conforme a necessidade identificada.
Na unidade de Internação Clínica8 é realizado atendimento ao leito dos pacientes
internados, assim como dos seus familiares. Com o propósito de oferecer suporte emocional,
favorecendo o processo de despedida são acompanhados de forma específica os pacientes em
fase terminal e seus familiares. Três vezes na semana, com a assistente social, nutricionista,
enfermeira e recepcionista, o psicólogo participa do Grupo de Acompanhantes ou Roda de
Conversa como também é chamado. Este é um espaço de escuta e troca, quando a equipe
também fornece informações importantes sobre o funcionamento e as rotinas do hospital.
Nesse setor são promovidos discussões de casos interdisciplinarmente, dos quais o psicólogo
também participa.
A UTI do hospital, também conta com o psicólogo. Este realiza atendimento ao leito e
acompanha os familiares através de um grupo, com freqüência de três vezes na semana,
levando em consideração o momento de crise. Também serão realizados atendimentos
individuais dos membros da família, assim como de cada família, se necessário.
Na Unidade de Saúde Mental9 a psicóloga realiza acompanhamento diário dos
pacientes. Esses são atendidos individualmente uma vez na semana, ou quando houver outra
demanda. Além disso, ocorre semanalmente uma atividade de grupo específica para
dependentes químicos de álcool e outras drogas, e um Grupo Terapêutico para pacientes com
outros transtornos psiquiátricos. Cabe ainda à psicóloga desse setor a coordenação da
7
Extrato do texto produzido em equipe escrito pela Psicóloga Rafaela Cassol da Cunha.
Extrato do texto produzido em equipe escrito pela Psicóloga Magliane Freitas da Rosa.
9
Extrato do texto produzido em equipe, escrito e apresentado pela Psicóloga Carla Vanessa da Silva
Giuliani na 1ª Jornada de Psicologia Hospitalar do Hospital de Clínicas de Porto Alegre – Formação,
Intervenção e indicadores de qualidade, em setembro de 2013.
8
10
assembléia junto aos pacientes com o objetivo de escutá-los quanto as suas necessidades em
relação à estrutura, às solicitações administrativas e esclarecimentos das normas durante a
internação, às suas reivindicações, elogios, sentimentos, dentre outros aspectos relacionados
com o funcionamento do tratamento oferecido. A assembléia ocorre uma vez na semana com
dia e horário estabelecido, assim como os demais grupos. Junto da assistente social do setor, é
desenvolvido o Grupo de Familiares, organizado em um dos dias de visita, antes desse
horário. Os familiares também são atendidos individualmente conforme a procura dos
mesmos, ou pela indicação da equipe ou do próprio profissional. A psicóloga participa das
reuniões semanais de equipe e de discussões de casos multidisciplinares, esses acontecendo
duas vezes na semana, com objetivo de integrar os olhares de cada membro da equipe que
acompanha o paciente. Para cada pessoa é estabelecido um Plano Terapêutico Individual que,
como os demais profissionais, o psicólogo preenche no prontuário. Na ocasião da alta
hospitalar é preenchido também o documento de Referência e Contra-Referência, o que
embasa o encaminhamento para a rede extra-hospitalar.
No Ambulatório10 de Psicologia atua um dos psicólogos da equipe. Para o ambulatório
são encaminhados pelos colegas psicólogos dos setores do hospital pacientes pós-alta que
necessitam de acompanhamento, assim como seus familiares. O psicólogo que atua na
assistência aos trabalhadores, também faz seus encaminhamentos para o ambulatório sempre
que julgar indicado, ou conforme o pedido e interesse do funcionário.
O Serviço de Psicologia atua também junto ao Setor de Recursos Humanos
11
(RH),
onde faz entrevistas de seleção, visando à escuta do sujeito na relação com o seu fazer,
compondo com essa entrevista o processo de seleção. Dessa resulta um laudo contendo um
aconselhamento para a chefia, objetivando orientar sobre a melhor forma de o funcionário ser
acolhido e já, desde o início, poder desenvolver suas potencialidades. Durante o período de
experiência são feitas duas avaliações de desenvolvimento, quando são levantados aspectos
que possam melhorar e os que estão satisfatórios. Após essa avaliação de desenvolvimento
realizada junto das chefias o funcionário é chamado pelo psicólogo para uma auto avaliação,
na qual são ponderadas as notas atribuídas pela chefia, sendo o funcionário também ouvido
nesse momento. O coordenador também pode encaminhar o funcionário para auto avaliação
junto ao psicólogo fora do período de contrato. Desse atendimento resulta uma devolução
para a coordenação somente das questões da vida funcional do colaborador. O atendimento
10
11
Extrato do texto produzido em equipe escrito pelo Psicólogo Saulo Nascimento Medeiros.
Extrato do texto produzido em equipe escrito pela Psicóloga Adriana Cardoso Bandeira.
11
também pode ser sugerido pelos colegas psicólogos que trabalham nos setores. Assim, o
funcionário marca seu horário, é atendido, porém desse atendimento não há devolução para as
coordenações.
O
colaborador
também
pode
procurar
o
psicólogo
do
trabalho
espontaneamente. Esse realizará a escuta e, conforme demanda ou desejo do funcionário, fará
encaminhamento ao ambulatório para acompanhamento terapêutico. Ainda no setor de
Recursos Humanos é tarefa do psicólogo a entrevista de desligamento na ocasião da
demissão. Nesse momento visa-se estabelecer um diálogo, elucidando as causas do
desligamento e se está bem resolvida à ação a que se propõe. Atualmente, o mesmo
profissional que atua no Setor de Recursos Humanos realiza um trabalho de Psicologia
Institucional no hospital. O principal instrumento dessa intervenção são os grupos de
ouvidoria. Esses são espaços de escuta solicitados pelos coletivos, geralmente setores, que se
reúnem e encaminham sugestões sobre fluxos e melhores formas de trabalho, resultando em
encaminhamentos para direção e outros setores. Quando é detectado pelo RH ou alguma
coordenação à necessidade de intervenção em determinado setor é realizada avaliação
individual de todos os funcionários que ali trabalham, resultando em uma análise dos
sintomas do setor. Assim, vislumbra-se alguma possibilidade de mudança contando com as
potencialidades de cada um.
O Serviço de Psicologia também está à frente do Grupo de Humanização do hospital.
Como um dispositivo de Educação Permanente12 trabalha com pequenos grupos que ao final
de um semestre fazem propostas de ações que possam fazer parte do dia a dia da instituição.
As ações têm objetivo de humanizar o atendimento na assistência ao público do hospital, bem
como de melhorar as relações interpessoais também entre os trabalhadores.
Todos os integrantes do Serviço de Psicologia encontram-se duas vezes na semana em
reunião de equipe, a fim de problematizar questões referentes à prática, dando o melhor
encaminhamento, e trocar experiências dos diferentes setores, objetivando o desenvolvimento
e o aprimoramento do trabalho. Além disso, os psicólogos também propõem um grupo de
estudos quinzenal na instituição, para o qual são convidados os colaboradores, e, com o apoio
do Grupo de Educação Continuada, propõe capacitações periodicamente levando em
consideração temas que possam ser importantes no contexto do hospital.
Os setores da maternidade, pediatria e bloco cirúrgico serão apresentados mais
detalhadamente, pois se trata da área de atuação da autora.
12
No Bloco Cirúrgico é realizado acolhimento dos pacientes no momento anterior e
posterior aos procedimentos. Com as crianças é feito um grupo juntamente com seus
acompanhantes, geralmente a mãe. Além disso, na sala de espera é realizado juntamente com
a assistente social um grupo de acolhimento aos familiares e acompanhantes que ali
aguardam.
No setor de Pediatria todas as crianças internadas são acompanhadas com objetivo de
fornecê-las suporte emocional, levando em conta a especificidade do acompanhamento
também dos pais nesse caso.
É observado o sintoma familiar, o lugar que a criança ocupa nessa família. São
realizados também os encaminhamentos necessários pós-alta hospitalar. Estamos em processo
de implantação da brinquedoteca, espaço que será utilizado para atendimento de uma forma
lúdica.
Alves (2008), em seu texto “Ostra feliz não faz pérolas” nos faz refletir sobre o
processo de criação da pérola, onde a ostra, para fazer uma pérola, precisa ter dentro de si um
grão de areia que a faça sofrer. Sofrendo, a ostra diz para si mesma: preciso envolver essa
areia pontuda que me machuca com uma esfera lisa que lhe tire as pontas... ostras felizes não
fazem pérolas... pessoas felizes não sentem a necessidade de criar. O ato criador, seja na
ciência ou na arte, surge sempre de uma dor. Não é preciso que seja na dor doída.
Fazendo uma analogia com a ostra, assim como uma ostra, a mulher durante a
gestação sofre com ansiedades, medos, angústias, frustrações, crises emocionais, baixa autoestima, maior sensibilidade, rejeição, impaciência, choro, depressão, sofre com os sintomas
fisiológicos como náuseas e vômitos, aumento de saliva, aumento freqüência urinária,
sonolência, cefaléia, azia, alterações da acuidade visual e auditiva, constipação intestinal. Em
cada trimestre gestacional, alterações são evidenciadas sendo elas físicas ou emocionais. É um
período de mudanças que fazem parte do processo natural do desenvolvimento humano.
Assim como ostras a mulher precisa criar uma maneira dentro de si para ultrapassar esta dor
da transformação, onde deixa de ser filha, passa a ser mãe.
Na maternidade as mães são acompanhadas pela psicóloga desde a gestação, através
do grupo de gestantes em parceria com a atenção básica do município. No centro obstétrico as
gestantes são acolhidas, em algumas vezes, minutos antes do parto.
12
Fonte: PORTARIA Nº 198/GM em 13 de Fevereiro de 2004, O Ministério da Saúde Instituiu a
Política Nacional de Educação Permanente em Saúde como estratégia do Sistema Único de Saúde para
a formação e o desenvolvimento de trabalhadores para o setor.
13
Basta o silêncio, olhos nos olhos e o afago das mãos, mãos que em silêncio são
recebidas e apertadas como uma simples forma de amenizar a dor do trabalho de parto. Este
momento é vivenciado na sala de pré-parto, a psicóloga deseja um bom parto, lembrando que
em seguida estará com seu bebê nos braços. Receber assistência terapêutica considerando o
momento imediatamente posterior ao nascimento do bebê e as demandas que possam daí
resultar, atenta-se para a prevenção da saúde mental e detecção de possíveis desgastes e
conflitos emocionais inerentes ao contexto. Sempre que se observa necessidade é realizado
encaminhamento pós-alta. As gestantes internadas também são acompanhadas, sobretudo
àquelas gestantes que por terem sua gestação classificada como “de risco” aguardam
transferência para outros hospitais. Juntamente com a assistente social e a enfermeira, a
psicóloga realiza diariamente uma roda de conversa com os acompanhantes. É um momento
importante onde se entende que os acompanhantes e familiares também possam ser parte da
equipe de trabalho, nas rodas de conversa além de orientações em relação ao ambiente
hospitalar, é realizada uma aliança com o participante dando ênfase de que estamos à sua
disposição.
A preocupação em relação às primeiras horas após o parto se dá porque se entende que
o primeiro contato afetivo da mãe com o bebê é um momento de suma importância para
maturação emocional do recém nascido, neste momento o olhar do psicólogo não está voltado
apenas para uma possível depressão pós-parto, mas sim para a relação mãe-bebê. A relação
mãe-bebê e a formação do vínculo e do apego foram profundamente estudadas por autores da
Psicanálise e da Teoria das Relações Objetais, como Margareth Mahler, Renné Spitz, Serge
Lebovici, Donald Winnicott e Jonh Bowlby.
O bebe permanece com a mãe no quarto e neste momento a forma como se estabelece
o contato visual mãe-bebê determina o que Bee (1996), chama de ligação afetiva é o desejo de
estabelecer ou manter contato com uma pessoa específica, assim, os comportamentos de
vínculo são as diversas formas que fazemos para estabelecer contato visual. A autora
apresenta duas etapas no desenvolvimento da ligação afetiva entre a criança e os pais, onde,
primeiramente, há um vínculo que se forma no nascimento ou logo depois desse, de forma
que é fortalecido pela oportunidade de engajamento em comportamentos de ligação mútuos
com o bebê.
Para Klein (1986) a hora do nascimento, o afastamento da vida intra-uterina e a
necessidade do bebe adaptar-se as novas condições do período pós-natal geram no bebê uma
ansiedade persecutória, vivenciada pela angústia de separação do útero da mãe e um grande
14
medo de morte e aniquilamento. O bebê passa a projetar todas as suas ansiedades e
frustrações no seio mau, que é ao mesmo tempo fonte de nutrição e prazer.
Na entrevista clínica, na maioria das vezes, fica evidenciado que a gestação não foi
planejada, mas sim desejada, ao ser questionado se a gestante estava utilizando algum método
anticonceptivo, ao responder que não, seguidamente a paciente se dá conta de que, sim, foi
planejada, de uma forma talvez, não consciente.
De acordo com autores como Winnicott (1983) e Maldonado (2002) mesmo no ventre
o bebê já é um ser humano distinto de qualquer outro e, no momento em que nasce já teve
uma grande soma de experiências, tanto agradáveis como desagradáveis. A mãe já conhece
algumas das características do seu bebê a partir dos movimentos que ela se habituou a esperar
dele no útero. A interpretação dos movimentos fetais pela gestante constitui mais uma etapa
da formação da relação materno-filial em que, na fantasia materna, o feto já começa a adquirir
características peculiares e a se comunicar com a mãe por meio da variedade dos seus
movimentos. As representações mentais e as fantasias que a gestante faz de si mesma como
mãe e de seu futuro bebê influenciam o estilo de vínculo que ela formará com o filho. Aqui,
pode-se pensar que a mãe com culpa de um dia ter rejeitado seu feto, possa ser influenciada
por esse sentimento negativo na hora de comunicar-se com seu filho e esse, um dia, sofrer as
possíveis conseqüências dessa relação sensível entre a rejeição, a culpa e a tentativa de
compensação disso tudo por parte da mãe. Neste momento o dar-se conta de que a gestação
talvez tenha sido sim planejada, torna o sentimento de culpa menos negativo.
Para Bee (1996), essas relações que se estabelecem levam tempo e ensaios, mas o
resultado é a calma e o prazer mútuo, pois quanto mais fácil e previsível se torna o processo,
maior satisfação os pais sentem e mais forte se torna o vínculo com o filho, proporcionando
assim um crescimento saudável.
Conclusão
Esse lugar consiste, portanto, essencialmente em um lugar de escuta, mas de uma
escuta diferenciada e privilegiada, na medida em que é a porta de entrada para um mundo de
significados e sentidos. Esse lugar é o do psicólogo no contexto hospitalar, esse lugar é o do
sujeito que ali está, para ser acolhido, para ser escutado, para ser muitas vezes apenas visto,
olhado.
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Segundo Botega & Smaia (2002) o tratamento psicológico de pacientes internados em
hospital geral pode acarretar importantes benefícios terapêuticos e vantagens, tais como uma
melhor adesão ao tratamento médico, recuperação mais rápida e, consequentemente, menor
tempo de permanência no hospital, menor utilização de serviços médicos e, por conseguinte,
redução de custos com assistência à saúde.
Por este motivo é crescente a valorização e o reconhecimento da necessidade de
atenção aos aspectos psicológicos envolvidos no contexto hospitalar. Nesse ambiente estão
relacionadas diversas situações de intensa mobilização psíquica com demanda de acolhimento
e continência, necessitando da intervenção do psicólogo.
Em cada setor onde a psicologia se faz presente podemos notar mudanças, mudança no
modo de tratamento da equipe com o paciente, na forma de olhar para o paciente, mudanças
em relação à forma como o paciente se relaciona com a equipe, percebemos que a família
sente-se mais acolhida, menos solitária neste processo. A pesquisa de satisfação do
atendimento aponta índices satisfatórios em relação ao atendimento do serviço de psicologia.
Nas rodas de conversa percebemos que os participantes sentem-se de fato acolhidos e mais a
vontade para questionar ou reivindicar o que discordam.
Quanto ao processo de Humanização implantado no referido hospital, Martins (2001)
refere que percebe a humanização em saúde, como um processo amplo, demorado e
complexo, devido às resistências, pois envolvem mudanças de comportamento onde padrões
já conhecidos são percebidos como mais seguros. Assim, cada profissional, equipe ou
organização passa por um processo singular de humanizar, pois se não for singular não será
humanização.
Percebemos no inicio desse trabalho resistências, até mesmo em relação à implantação
do serviço de psicologia, questionamentos como: para que tanto psicólogos? seguidamente
nos eram feitos. Com o passar do tempo, com a implantação do grupo de humanização, onde
os colaboradores puderam se capacitar, favorecendo o processo singular de humanização
percebemos mudança e maior aceitação.
O trabalho em equipe multiprofissional consiste uma modalidade de trabalho coletivo
que se configura na relação recíproca entre as múltiplas intervenções técnicas e a interação
dos agentes de diferentes áreas profissionais. Por meio da comunicação, ou seja, da mediação
simbólica da linguagem, da-se a articulação das ações multiprofissionais e a cooperação
(Peduzzi, 2001).
16
Romano (1999) nos diz que o psicólogo também intermedia a relação equipe/paciente:
devendo ser o porta voz nas necessidades, desejos, e intervir de forma que os desencontros da
informação sejam minimizados. Na prática diária do serviço de psicologia discordamos da
autora, entendemos que não devemos ser o porta voz dos desejos do paciente e sim devemos
empoderá-lo a ser protagonista de sua história, onde seus desejos possam ser expressos por ele
mesmo. O que nos cabe é sugerir a equipe, em registro no prontuário, algumas atitudes em
relação à determinada situação.
Penso que em relação à atuação na maternidade, os caminhos trilhados têm
demonstrado resultados que vão ao encontro dos autores estudados. Bolwlby (2002) refere
que é essencial para a saúde mental e desenvolvimento da personalidade do bebê a vivencia
de uma relação calorosa, íntima e continua com a mãe. O bebê sofre privações quando a mãe
é incapaz de proporcionar-lhe as cuidados amorosos necessários, como acontece nas situações
em que a mãe sofre de depressão pós-parto, ou nos casos em que a gestação não foi desejada,
gestação precoce, ou até mesmo por identificação com uma história de vida dolorosa e
recheada de privações.
A interação da mãe-bebê, a importância do vínculo materno são imprescindíveis à
construção do psiquismo e da subjetividade do sujeito.
Como diz Winnicott (1988) o primeiro espelho da criatura humana é o rosto da mãe: a
sua expressão, o seu olhar, a sua voz. É como se o bebê pensasse: olho e sou visto, logo
existo. Se este rosto estiver passando tranqüilidade, alegria, bem-estar a sua existência mais
facilmente terá significado.
Borges (2009) nos faz refletir sobre sua colocação, “se alguma vez o paciente foi
amado e foi capaz de amar, foi capaz de criar e construir algo, mesmo que não lembre ou não
se considere apto a identificar esta sua capacidade, então cabe a nós auxilia-lo a se reconhecer
como um ser criativo e desejante.” Como dizia o psicanalista Jacques Lacan “O desejo é a
essência da realidade” e ainda como Sigmund Freud “O pensamento é o ensaio da ação”.
Sejamos nós enquanto profissionais da saúde mental, um facilitador para que o sujeito possa
buscar dentro de si o desejo de criar, e que esse desejo se transforme do pensamento à ação
para uma nova realidade.
Como sugestão para novos estudos, este trabalho é finalizado com o desejo de pensar
mais sobre o fazer do psicólogo na pediatria, na UTI, na emergência, enfim em cada setor.
Este estudo desperta a vontade de saber mais, de pensar mais sobre o Humano que para nós se
apresenta cada dia diferente e único.
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