divulgação técnica agentes microbianos

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DIVULGAÇÃO
TÉCNICA
Agentes microbianos
associados ao
trato genital de touros.
AGENTES MICROBIANOS ASSOCIADOS AO TRATO GENITAL DE TOUROS
M.E. Genovez, E. Scarcelli, A.F. Carvalho
Instituto Biológico, Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Sanidade Animal, Av. Cons. Rodrigues Alves
1252, CEP 04014-002, São Paulo, SP, Brasil. E-mail: [email protected]
RESUMO
Este trabalho apresenta os agentes microbianos patogênicos e/ou ubiquitários que interferem
na qualidade do sêmen bovino empregado na inseminação artificial e na fertilização in vitro.
PALAVRAS-CHAVE: Sêmen, microbiota, trato genital, touros.
ABSTRACT
MICROBIAL AGENTS ASSOCIATED WITH THE GENITAL TRACT OF BULLS. This paper
presents the pathogens and/or ubiquitous microbial agents, that affect the quality of bull semen
for the artificial insemination and the in vitro fertilization use.
KEY WORDS: Semen, microbiota, genital tract, bulls.
O Brasil, com cerca de 207 milhões de cabeças de
bovinos, maior rebanho comercial do mundo, vem se
destacando no cenário internacional de exportações
do setor agropecuário.
A inseminação artificial (IA) desempenha importante papel para a eficiente produtividade dos rebanhos bovinos. O maior entrave ao amplo emprego da
IA no Brasil, ao redor de 6%, deve-se à necessidade
de alterações profundas nos manejos zootécnico e
sanitário, as quais implicam em mão de obra melhor
qualificada e em boas práticas.
O congelamento do sêmen permite que agentes
infecciosos sejam preservados e sobrevivam ao
descongelamento, devido aos crio-protetores parte
do extensor e tornam menos eficazes os antibióticos.
Um ejaculado capaz de conter cerca de 7 x 109 espermatozoides, suficientes para fornecer centenas de
doses de sêmen comercializáveis em nível nacional
e internacional, apresenta risco potencial para disseminação de doenças. Os padrões de certificação
para o comércio de material genético detalhados
no Código Zoossanitário dos Animais Terrestres da
Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) são
referência reconhecida pela Organização Mundial
do Comércio. Embora esses padrões da OIE sejam
rotineiramente utilizados pela maioria dos países,
são apenas orientativos, pois esses devem estabelecer
suas próprias exigências para importação, de acordo
com o nível sanitário e os riscos identificados no
País de origem ou no produto a ser importado. Nos
programas internacionais para doadores de gametas,
são consideradas a saúde do doador, a condição
sanitária do rebanho de origem do doador e ainda
dos rebanhos do país de origem, como, por exemplo,
ser livre de febre aftosa e brucelose.
No Brasil, o controle sanitário animal é regido pelo
Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento
(MAPA), o qual segue as normas sanitárias internacionais da OIE. Ao MAPA por meio da Divisão de
Fiscalização de Material Genético Animal (DMG/
DFIP), compete coordenar, promover e acompanhar
a fiscalização da produção, processamento, comércio, importação e exportação de material genético
animal. A ação coordenada pela DMG tem como
base legal sêmen e embriões e se baseia na lei nº 6.446,
de 5/10/1977, que dispõe sobre a inspeção e a fiscalização obrigatórias do sêmen destinado à IA em
animais domésticos. A instrução normativa nº 48 de
17/07/2003, regulamenta que somente poderá ser
produzido, comercializado e distribuído no Brasil,
o sêmen bovino ou bubalino coletado em centros de
coleta e processamento de sêmen (CCPS), registrados
no MAPA, que cumprirem os requisitos sanitários
mínimos. Os reprodutores doadores de material
genético devem estar inscritos no órgão competente
do MAPA, no Estado.
A instrução normativa nº 47 de 23/10/2007 versa
sobre os requisitos sanitários para a importação de
sêmen bovino e bubalino oriundo de países extraMercosul. Esses são os requerimentos mínimos
exigidos, mas não impedem que sejam ampliados
para investigações de outras doenças. Para saber
mais, acessar o site do MAPA: http://www.agricultura.gov.br.
A familiarização com a microbiota normal é um
pré-requisito necessário para se conhecer a ecologia
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M.E. Genovez et al.
das doenças infecciosas. O hospedeiro e sua microbiota característica estão normalmente em estado de
equilíbrio dinâmico, fornecendo condições favoráveis para a manutenção da população microbiana
e não reagindo contra ela. Várias populações se
interagem, sem prejudicar o hospedeiro, podendo
beneficiá-lo. Destacam-se os micro-organismos ubiquitários isolados da cavidade prepucial de touros:
Staphylococcus epidermidis, Streptococcus spp., Escherichia coli, Pseudomonas aeruginosa, Bacterium spp.,
Alcaligenes faecalis, Pseudomonas pyocynea, Proteus
vulgaris, Micrococcus spp., Acinetobacter spp., Bacillus
spp., alguns fungos e leveduras.
Essa diversidade de gêneros bacterianos contaminantes do sêmen in natura permanece preservada no
sêmen industrializado, e pode se tornar oportunista
resultando em diminuição da eficiência reprodutiva.
Embora existam controvérsias quanto à interferência
desses agentes sobre a capacidade fecundante do
sêmen; sob certas condições, bactérias oportunistas
podem migrar pelo trato genital de touros causando uretrite, vesiculite seminal ou epididimite
e alterara-la significativamente, em decorrência de
intensa reação inflamatória. Pode, também, afetar
diretamente o espermatozoide por competir pela
utilização dos nutrientes naturais ou infectar fêmeas,
resultando em baixas taxas de concepção ou altas
taxas de mortalidade embrionária.
Frequentemente o animal ao se deitar expõe a
mucosa peniana; micro-organismos originários das
fezes e do solo podem interferir na microbiota natural
da cavidade prepucial e uretra e atingirem o sêmen
no momento da colheita do ejaculado. Agentes
patogênicos podem alcançar a cavidade prepucial
e o sêmen também por via ascendente nas doenças
sexualmente transmitidas causadas por Mycoplasma spp., Ureaplasma diversum, Campylobacter fetus
subsp. venerealis e Campylobacter fetus subsp. fetus,
Tritrichomonas foetus, Histophilus somni e os vírus da
IBR e BVD.
Por outro lado, a contaminação do sêmen pode
ocorrer por via descendente como consequência de
enfermidades sistêmicas específicas do aparelho
reprodutor, e são causas reconhecidas de baixos
índices de produtividade, tendo assim especial significado econômico além de zoonótico como Brucella
abortus, Leptospira spp., Campylobacter fetus subsp.
fetus, Chlamidophyla spp., entre outras.
Na IA, o sêmen é depositado diretamente no
útero, e passível de infectar as fêmeas, uma vez que
os micro-organismos ficam protegidos do efeito do
pH ácido vaginal e da ação bactericida da secreção
cérvico-vaginal produzida no estro. Inquéritos
realizados em vacas, tanto durante o estro como
durante a fase luteínica, na ocasião de transferências
de embriões, revelaram a presença de população
de bactérias comuns ao colo do útero e ao útero
propriamente dito, especialmente nas vacas multíparas, similar quantitativa e qualitativamente a que
se encontra na cavidade prepucial do macho. Não
obstante, a introdução de quantidades massivas ou de
combinações particulares de agentes exógenos pode
debilitar as defesas do sistema imune e desencadear
processo infeccioso.
Os mecanismos de defesa não-específicos do
útero das fêmeas são muito potentes durante o cio,
especialmente os baseados na ação dos polimorfonucleares, que atuam eliminando o excesso de sêmen
e os corpos estranhos, incluindo vírus e bactérias.
Devido, provavelmente, a esses mecanismos de
defesa não-específicos, a patogenicidade do sêmen
infectado no trato reprodutivo das fêmeas parece
reduzida durante a fase éstrica, a qual tem papel
decisivo na determinação da infecção bacteriana. O
útero das fêmeas é susceptível às infecções bacterianas logo após o desaparecimento dos sinais externos
de cio (metaestro), período que corresponde ao momento em que os níveis de estrógenos plasmáticos
diminuem e os níveis de progesterona aumentam.
Nas situações em que as fêmeas são inseminadas
várias vezes, ou em que o cio não é cuidadosamente
controlado, é possível observar a indução de endometrite e descargas vaginais devido ao uso de sêmen
contaminado por bactérias.
De um modo geral, sabe-se que há poucos problemas reprodutivos na IA quando estão presentes
bactérias em pequenas quantidades (cerca de 10
UFC/mL de sêmen diluído).
A colheita de sêmen por meio de vagina artificial
propicia menor contaminação do que a massagem
das vesículas seminais, mas mesmo sob as melhores e adequadas condições de colheita, observa-se
contaminação microbiana entre 150.000 a 650.000
micro-organismos/mL no sêmen in natura. Touros jovens geralmente mostram menor contagem
bacteriana no muco prepucial e sêmen do que reprodutores idosos.
O número de bactérias presentes no sêmen in
natura é inversamente proporcional à frequência de
lavagens da cavidade prepucial e regiões adjacentes.
A desinfecção prévia do prepúcio para a ejaculação
influi na qualidade do sêmen, reduzindo-se com este
procedimento cerca de 50% dos micro-organismos.
Entretanto, lavagens muito frequentes podem tornar
a cavidade prepucial vulnerável à colonização por
um único agente, o qual poderá afetar a qualidade
do sêmen. A predominância de uma única população
de micro-organismo adaptada cuja multiplicação
se torna exacerbada pode diminuir a vitalidade e a
sobrevivência do espermatozoide por competir na
utilização dos nutrientes e do oxigênio.
Os antibióticos comumente utilizados no extensor
do sêmen são pertencentes ao grupo dos ß-lactâmicos,
como penicilina e amoxilina e dos aminoglicosíde-
Biológico, São Paulo, v.73, n.1, p.1-3, jan./jun., 2011
Agentes microbianos associados ao trato genital de touros.
os, como gentamicina, estreptomicina e amicacina.
A adição de antibióticos no meio e o posterior
congelamento diminuem de forma considerável a
carga microbiana presente no sêmen, porém estirpes resistentes à penicilina e a estreptomicina estão
aumentado nos últimos anos.
Uma situação particular ocorre nos procedimentos de fertilização in vitro (FIV) de bovinos no que
tange ao uso de sêmen industrializado. A fecundação propriamente dita é uma reação em cascata,
desencadeada pela passagem do espermatozoide
pela membrana pelúcida, penetração na membrana
plasmática e seu alojamento no interior do citoplasma
oocitário. Essa fusão envolve todo o espermatozoide,
de maneira que a cauda também se integra ao citoplasma, fato esse fundamental para a estruturação do
citoesqueleto do primeiro ciclo celular. Baixas taxas
de fertilização e prenhez devidas à contaminação
por agentes ubiquitários e oportunistas, próprios da
microbiota prepucial durante o cultivo e cocultivo,
têm trazido à discussão a necessidade de controle
bacteriano do ejaculado para esse fim.
A técnica bacteriológica quantitativa de pour
plate (OIE, 2003) era laboriosa e com elevado custo.
O Laboratório de Doenças Bacterianas da Reprodução (LDBR) do Instituto Biológico (IB) padronizou
o método de cultivo bacteriano qualitativo aliado
ao quantitativo do sêmen pela técnica de contagem
de bactérias viáveis por superfície (UFC/mL) com
vantagens de praticidade e menor custo.
Diversos protocolos diagnósticos estão disponíveis e podem ser aplicados para a identificação
de bactérias, fungos, leveduras, parasitas e vírus,
incluindo as modernas técnicas moleculares que detectam quantidades mínimas de DNA dos inúmeros
micro-organismos; entretanto, a questão primordial
é o custo adicional de tais procedimentos em relação
aos benefícios reais.
O Brasil deve estar atento à vigilância sanitária,
de forma a impedir que problemas sanitários se
transformem em barreiras comerciais internacionais,
gerando, além de inúmeros prejuízos, a depreciação
de seus rebanhos.
BIBLIOGRAFIA
BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Disponível em: <http://www.agricultura.gov.
br>. Acesso em: 10 set. 2010.
GENOVEZ, M.E.; SCARCELLI, E.P.; FACIOLLI, M.R.;
CARDOSO, M.V.; TEXEIRA, S.R. Avaliação bacteriológica de sêmen in natura industrializado de touros.
Revista Brasileira de Reprodução Animal, v.23, n.3, p.403405, 1999.
OFFICE INTERNATIONAL DES EPIZOOTIES. Ter����
restrial animal health code. Bovine and small ruminant
semen. 2005. 14. ed. Disponível em: <http://www.
oie.int/eng/normes/mcode/en_chapitre_3.2.1.htm>.
Acesso em: 15 ago. 2005.
Recebido em 19/1/11
Aceito em 22/3/11
Biológico, São Paulo, v.73, n.1, p.1-3, jan./jun., 2011
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