PDF: A função do verbo ser no discurso

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PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0310595/CA
Maria de Fátima Duarte Henrique dos Santos
A função do verbo ser no discurso:
uma visão sistêmico-funcional
Tese de Doutorado
Tese apresentada ao Programa de Pós-graduação em Letras do
Departamento de Letras da PUC-Rio como parte dos requisitos parciais
para a obtenção do título de Doutor em Letras.
Orientadora: Profa. Dra. Eneida do Rêgo Monteiro Bomfim
Rio de Janeiro
Abril de 2007
Maria de Fátima Duarte Henrique dos Santos
A função do verbo ser no discurso: uma visão sistêmicofuncional
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0310595/CA
Tese apresentada como requisito parcial para a obtenção
do grau de Doutor pelo Programa de Pós-graduação em
Letras do Departamento de Letras do Centro de Teologia e
Ciências Humanas da PUC-Rio. Aprovada pela Comissão
Examinadora abaixo assinada.
Profa. Dra. Eneida do Rêgo Monteiro Bomfim
Orientadora
Departamento de Letras – PUC-Rio
Profa. Dra. Lúcia Pacheco de Oliveira
Departamento de Letras – PUC-Rio
Profa. Dra. Violeta de San Tiago Dantas
Barbosa Quental
Departamento de Letras – PUC-Rio
Prof. Dr. José Carlos de Azeredo
Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ
Profa. Dra. Maria Luiza Braga
Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ
Suplentes: Profa. Dra. Maria Carmelita Padua Dias
Departamento de Letras – PUC-Rio
Profa. Dra. Maria Teresa Gonçalves
Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ
Prof. Paulo Fernando Carneiro de Andrade
Coordenador Setorial do Centro de Teologia e Ciências
Humanas – PUC-Rio
Rio de Janeiro, 12 de abril de 2007
Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou
parcial do trabalho sem autorização da universidade, da autora e do
orientador.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0310595/CA
Maria de Fátima Duarte Henrique dos Santos
Graduou-se em Letras, Português e Inglês, na USU (Universidade
Santa Úrsula) em 1982. Concluiu o curso de Formação de
Tradutores Inglês-Português pelo Departamento de Letras da PUCRio/CCE de agosto de 1995 a junho de 1997. Concluiu o curso de
Especialização em Tradução Inglês-Português em nível de PósGraduação “Lato Sensu” de março de 1997 a dezembro de 1997 na
CCE/PUC-Rio. Mestre em Estudos da Linguagem com dissertação
aprovada pelo Departamento de Letras da PUC-Rio em setembro
de 2002.
Ficha Catalográfica
Santos, Maria de Fátima Duarte Henrique dos
A função do verbo ser no discurso : uma visão sistêmicofuncional / Maria de Fátima Duarte Henrique dos Santos ;
orientadora: Eneida do Rego Monteiro Bomfim . – 2007.
300 f. : il. (col.) ; 30 cm
Tese (Doutorado em Letras)–Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2007.
Inclui bibliografia
1. Letras – Teses. 2. Verbo ser. 3. Transitividade. 4.
Lingüística sistêmico-funcional. 5. Função. 6. Análise do
discurso. I. Bomfim, Eneida do Rego Monteiro. II. Pontifícia
Universidade Católica do Rio de Janeiro. Departamento de
Letras. III. Título.
CDD: 400
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Para minha mãe, minha maior inspiração de vida.
Para meu marido, meu companheiro e cúmplice na vida.
Agradecimentos
Agradeço a Deus, em primeiro lugar, por iluminar meu caminho sempre.
A minha orientadora Professora Eneida do Rêgo Monteiro Bomfim pelos
ensinamentos e pela confiança no meu trabalho.
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Ao CNPq e à PUC-Rio, pelos auxílios, sem os quais esta tese não poderia ter
sido realizada.
A minha irmã Lourdes, minha alma gêmea, meu apoio sempre, pela dedicação a
minha vida.
A minha irmã Silvina, pela cumplicidade em todos os momentos.
A minha amiga e colega de profissão, professora Gabriela Castelo Branco, pela
valiosa sugestão para a epígrafe.
A Francisca Ferreira de Oliveira, Chiquinha, por sempre estar disposta a ajudar
na vida acadêmica de um doutorando na PUC.
A todas as minhas colegas do grupo de estudos da gramática sistêmicofuncional, pelas preciosas contribuições a minha pesquisa.
Aos participantes da Comissão Examinadora.
Aos que representam um estímulo na minha vida, que são vida.
Resumo
Santos, Maria de Fátima Duarte Henrique dos; Bomfim, Eneida do Rêgo
Monteiro. A função do verbo ser no discurso: uma visão sistêmicofuncional. Rio de Janeiro, 2007. 300p. Tese de Doutorado –
Departamento de Letras, Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro.
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A pespectiva da tradição gramatical com relação ao verbo ser é a de que
se trata de um verbo cuja função é apenas a de ligar o sujeito ao seu
predicativo, sendo desta forma tratado no limite da estrutura oracional,
descontextualizado, como um constituinte sem expressão significativa, ou seja,
um verbo que não apresenta transitividade verbal. Esta tese tem por objetivo
propor um novo ponto de vista acrescentando um outro entendimento sobre o
verbo ser. A pesquisa teve como orientação teórico-metodológica a perspectiva
da lingüística sistêmico-funcional. A análise foi realizada em textos de opinião e
editoriais jornalísticos online de jornais de grande circulação. Os resultados da
análise revelaram que o verbo ser desempenha uma função mais ampla, a
saber, uma função no discurso. As conclusões alcançadas contribuem para
ampliar o entendimento do verbo ser no campo dos estudos da análise e
descrição da língua portuguesa, assim como no campo dos estudos da análise
do discurso.
Abstract
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0310595/CA
Santos, Maria de Fátima Duarte Henrique dos Santos; Bomfim, Eneida do
Rêgo Monteiro (Advisor). The function of the verb ser [to be] in
discourse: a systemic-functional perspective. Rio de Janeiro, 2007.
300p. PhD Thesis – Departamento de Letras, Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro.
Traditional grammar considers ser [to be] as a verb whose sole function is
to link the Subject to its Predicative, and therefore only analyzed at the limits of
the clause structure, de-contextualized, as a meaningless constituent, i.e., a verb
that does not present any verbal transitivity. The objective of this study is to
propose a new viewpoint that adds an additional understanding of the verb ser.
The theoretical-methodological orientation of this work is Systemic-Functional
Linguistics (LSF). The analysis was based on texts extracted from the opinion
and editorial pages of major Brazilian newspapers. The results of the analysis
reveal that the verb ser performs a more comprehensive function, that is, a
function in discourse. The conclusions reached contribute to enhance our
understanding of the verb ser in the field of the analysis and description of the
Portuguese language, as well as in the domain of discourse analysis.
Keywords
Verb ser [to be], transitivity, systemic-functional linguistics, function,
discourse analysis.
SUMÁRIO
1.
1.1
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0310595/CA
1.1.1
1.2
1.3
1.4
1.5
2.
2.1
2.1.1
2.1.2
2.2
Introdução
Alguns conceitos de ‘predicação’ e ‘transitividade’ em
língua portuguesa
A predicação nominal
Justificativa pedagógica
Objetivo
Hipótese
Relevância deste estudo
2.4.1.2
2.4.1.3
2.4.1.4
2.4.1.5
2.4.2
2.4.2.1
2.4.2.1.1
2.4.2.1.1.1
2.5
Posição teórica
A linguagem na perspectiva da LSF
A estratificação da linguagem
A linguagem que é funcional
O conceito sócio-lingüístico – Contexto de Cultura e
Contexto de Situação
O Sistema Semântico da Linguagem: o Sistema Léxicogramatical
As Metafunções da linguagem
A Metafunção Ideacional
A Metafunção Interpessoal
A Metafunção Textual
Tema
Tema Predicado
Comentário Tematizado
Equativas Temáticas
Rema
A coesão textual
A transitividade
Histórico
The Case for Case – [A favor do caso] – a abordagem de
Charles Fillmore (1968)
Introdução à lingüística teórica – Lyons (1968)
Functionalism and Grammar – Talmy Givón
Gramática Funcional - Simon Dik
A história da transitividade na LSF
O Sistema de Transitividade
A oração como representação
O Processo Relacional
Os principais tipos de oração relacional
As relações lógico-semânticas
3
3.1
Metodologia
Introdução
2.3
2.3.1
2.3.1.1
2.3.1.2
2.3.1.3
2.3.1.3.1
2.3.1.3.1.1
2.3.1.3.1.2
2.3.1.3.1.3
2.3.1.3.1.3
2.3.1.4
2.4
2.4.1
2.4.1.1
18
23
28
46
52
53
57
58
58
71
73
77
86
90
91
99
102
108
114
115
117
119
122
126
128
128
135
139
141
144
175
182
188
190
199
202
202
3.2
3.3
3.4.1
3.4.2
O corpus – artigos de opinião e editoriais jornalísticos
A elaboração da análise
A extração dos dados
Procedimentos da análise e descrição dos dados
204
220
222
223
4.
4.1
4.2
O verbo ‘ser’ no discurso
Introdução à análise do corpus
A instanciação do verbo ‘ser’ na ordem canônica P1-V-P2
(Participante-Verbo-Participante)
A instanciação do verbo ‘ser’ na ordem V-P (VerboParticipante)
228
228
5.
Conclusão
283
6.
Referências bibliográficas
294
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4.3
229
249
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Lista de figuras
Figura 1
Representação gráfica do conceito de Contexto
80
Figura 2
Representação gráfica de Texto em Com-texto
82
Figura 3
Representação gráfica do processo de expressão do
significado
83
Figura 4
Representação gráfica da realização típica de seqüências,
figuras e elementos
94
Figura 5
Representação gráfica do componente semântico integrado à
Léxico-gramática realizado pelo Sistema de Transitividade
97
Figura 6
Representação gráfica do processo de criação do texto
121
Figura 7
Representação gráfica do Sistema Lingüístico
187
Figura 8
Representação gráfica da avaliação quantitativa das
estruturas temáticas no corpus
287
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LISTA DE TEXTOS DO CORPUS
1 – Nós, a imprensa – Ali Kamel – O Globo – 1.172 palavras
2 – Crise estrutural – Panorama Econômico – O Globo – 614 palavras
3 – Isso não é ‘higienização’ – Roberto Macedo – O Estado de S.Paulo – 870
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palavras
4 – Agronegócio e desenvolvimento – José Tadeu Jorge – O Estado de S.Paulo
– 874 palavras
5 – A grande onda – Paulo Guedes – O Globo – 597 palavras
6 – O mesmo mundo – Ali Kamel – O Globo – 889 palavras
7 – Segurança monetária – Editorial – O Estado de S.Paulo – 676 palavras
8 – O aumento do ITBI – Editorial – O Estado de S.Paulo – 700 palavras
9 – Despudores à parte – Editorial – O Estado de S.Paulo – 695 palavras
10 – Nepotismo no judiciário – Editorial – O Estado de S.Paulo – 631 palavras
11 – A recuperação da Paulista – Editorial – O Estado de S.Paulo – 648 palavras
12 – São Paulo mostra o caminho – Editorial – O Estado de S.Paulo – 656
palavras
13 – Para além da crise – Fernando Henrique Cardoso – O Estado de S.Paulo –
1.122 palavras
14 – Quanta indecência – Guadêncio Torquato – O Estado de S.Paulo – 769
palavras
15 – Atrasado e suspeito – Editorial – O Estado de S.Paulo – 1.993 palavras
16 – Despautério legislativo – Editorial – O Estado de S.Paulo – 629 palavras
17 – O material de construção – Júlio Mesquita – O Estado de S.Paulo – 657
palavras
18 – É tudo faz de conta – Helena Chagas – O Globo – 761 palavras
19 – Recomeços? – Roberto DaMatta – O Globo – 867 palavras
20 – Sofro como todo brasileiro – Don Eugênio Salles – O Globo – 771 palavras
21 – Ecologismo primitivo – Xico Graziano – O Estado de São Paulo – 862
palavras
22 – O norte é o nosso interesse nacional – Rubens Barbosa – O Estado de
S.Paulo – 901 palavras
23 – O governo emperrado – Editorial – O Estado de S.Paulo – 622 palavras
24 – Regras para os asilos – Editorial – O Estado de S.Paulo – 621 palavras
25 – Apostando no cansaço – Editorial – O Estado de S.Paulo – 727 palavras
26 – ‘Mandrake’ no ‘abafa’ – Editorial – O Estado de S.Paulo – 660 palavras
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27 – Colonialismo na rodada – Editorial – O Estado de S.Paulo – 608 palavras
28 – Chantagem emocional – Editorial – O Estado de S.Paulo – 674 palavras
29 – O dinheiro ou a vida – Ipojuca Pontes – O Estado de S.Paulo – 950
palavras
30 – O Sínodo dos Bispos em Roma – Dom Cláudio Hummes – O Estado de
S.Paulo – 925 palavras
31 – Valores familiares – Editorial – O Estado de S.Paulo – 680 palavras
32 – Nova ofensiva da Receita – Editorial – O Estado de S.Paulo – 663 palavras
33 – Desastre anunciado – Editorial – O Estado de S.Paulo – 640 palavras
34 – Grande trapalhada – Tereza Cruvinel – O Globo – 906 palavras
35 – Amor e paixão – Márcio Moreira Alves – O Globo – 910 palavras
36 – Culpa e vergonha, essas raridades – Roberto DaMatta – O Globo – 866
palavras
37 – Criando riqueza nas favelas – Paulo Guedes – O Globo – 493 palavras
38 – Adeus às armas? – Gilberto de Mello Kujawski – O Estado de S.Paulo –
872 palavras
39 – a internacionalização da USP – Roberto Macedo – O Estado de S.Paulo –
872 palavras
40 – A grande virada – Fernando Calazans – O Globo – 568 palavras
41 – Fiel da balança – Ilimar Franco – O Globo – 859 palavras
42 – Adeus à inércia – Panorama Econômico – O Globo – 804 palavras
43 – Novo round – Helena Chagas – O Globo – 749 palavras
44 – Segurança jurídica – Merval Pereira – O Globo – 842 palavras
45 – Só crescendo mais – George Vidor – O Globo – 929 palavras
46 – Especial para quem? – Mauro Halfeld – O Globo – 518 palavras
47 – O drama de Aldo – Helena Chagas – O Globo – 715 palavras
48 – O que há de mau na MP do bem – Tereza Cruvinel – O Globo – 887
palavras
49 – John Wayne vem aí – Parte II – Nelson Vasconcelos – O Globo – 886
palavras
50- A morte vem para beijar – Luiz Garcia – O Globo – 545 palavras
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51 – Não se pode apoiar o aborto – Dom Eugenio Sales – O Globo – 773
palavras
52 – Publiquem a lenda – Roberto DaMatta – O Globo – 922 palavras
53 – Qual estado, para qual democracia – Lourdes Sola – O Estado de S.Paulo
– 934 palavras
54 – Abuso do espaço público – Benedito Lima de Toledo – O Estado de
S.Paulo – 941 palavras
55 – A greve das federais – Editorial – O Estado de S.Paulo – 641 palavras
56 – Utilização máxima das vias – Editorial – O Estado de S.Paulo – 681
palavras
57 – Mais do mesmo no PT – Editorial – O Estado de S.Paulo – 696 palavras
58 – Renúncia é pizza? – Helena Chagas – O Globo – 759 palavras
59 – Erros de campanha do sim – Tereza Cruvinel – O Globo – 898 palavras
60 – Jejum da insensatez – Luiz Garcia – O Globo – 479 palavras
61 – Reale 95 – Celso Lafer – O Estado de S.Paulo – 930 palavras
62 – O fogo! – Guadêncio Torquato – O Estado de S.Paulo – 986 palavras
63 – Um cenário melhor – Editorial – O Estado de S.Paulo – 639 palavras
64 – A subprefeitura das marginais – Editorial – O Estado de S.Paulo – 653
palavras
65 – O referendo sobre as armas – Editorial – O Estado de S.Paulo – 685
palavras
66 – Cafajestagem – Fernando Calazans – O Globo – 558 palavras
67 – O fracasso do favela bairro – Ali Kamel – O Globo – 944 palavras
68 – As brasas dormidas – Tereza Cruvinel – O Globo – 869 palavras
69 – Um clima de otimismo – Dom Eugenio Sales – O Globo – 734 palavras
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70 – Dois anos – Panorama Econômico – O Globo – 855 palavras
Lista dos textos exemplificados
Exemplo (1) – Artigo 20 – “Sofro como todo brasileiro” – Dom
Eugenio Sales.
Exemplo (2) – Artigo 12 – “São Paulo mostra o caminho” – Editorial –
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O Estado de S.Paulo.
Exemplo (3) – Artigo 5 – “A grande onda” – Paulo Guedes
Exemplo (4) – Artigo 1 – “Nós a imprensa” – Ali Kamel
Exemplo (5) – Artigo 68 – “As brasas dormidas” – Tereza Cruvinel
Exemplo (6) – Artigo 45 – “Só crescendo mais” – George Vidor
Exemplo (7) – Artigo 32 – “Nova ofensiva da Receita” – Editorial – O
Estado de S.Paulo
Exemplo (8) – Artigo 22 – “O norte é o nosso interesse nacional” –
Rubens Barbosa – O Estado de S.Paulo
Exemplo (9) – Artigo 13 – “Para além da crise”- Fernando Henrique
Cardoso – O Estado de S.Paulo
Exemplo (10) – Artigo 4 – “Agronegócio e desenvolvimento” – José
Tadeu Jorge – O Estado de S.Paulo
Exemplo (11) – Artigo 15 – “Atrasado e suspeito” – Editorial – O
Estado de S.Paulo
Exemplo (12) – Artigo 67 – “O fracasso do favela-bairro” – Ali Kamel
Exemplo (13) – Artigo 68 – “As brasas dormidas” – Tereza Cruvinel
Exemplo (14) – Artigo 49 – “John Wayne vem aí – parte II” – Nelson
Vasconcelos
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Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.
Carlos Drummond de Andrade, Verbo ser
1.
Introdução
Bem longe de dizer que o objeto precede o ponto de vista, diríamos que é o ponto de vista que
cria o objeto; aliás, nada nos diz de antemão que uma dessas maneiras de considerar o fato
em questão seja anterior ou superior às outras (Saussure, Curso).
Inicio esta tese citando uma passagem do Curso de Lingüística Geral por
reconhecer e concordar com Benveniste ([1966]1995, p.34) que não há um só
lingüista ou estudioso da linguagem hoje que não deva algo a Saussure. Faço essa
reverência ao pai da lingüística, em primeiro lugar por entender que, por não ser um
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objeto simples de ser estudado, pois não existe por si mesmo, a linguagem só é
passível de apreensão segundo um determinado enfoque que deve ser delimitado. Em
segundo lugar, por reconhecer também que não há aspecto da linguagem que possa
ser considerado fora dos outros ou que se possa isolar, pois a entendo como um
sistema, em termos sistêmico-funcionais. A significação é um desses aspectos de nãoisolamento, e como afirma Benveniste,
as coisas não significam em razão de seu serem-isso substancial, mas em virtude de
traços formais que as distinguem das outras coisas da mesma classe e que nos
cumpre destacar (1995, p.45).
Em suma, as citações em questão, tanto a de Saussure quanto a de Benveniste,
colocam desde sempre a concepção de que devemos situar cada elemento na rede de
relações que o determina e estabelecer explicitamente que a existência do fato só se
dá em virtude da definição que lhe atribuímos.
É dessa forma que pretendo que minha pesquisa seja entendida, a saber, como
mais um ponto de vista sobre o objeto de estudo por mim escolhido e que é uma
questão muito estudada na língua portuguesa – o verbo ‘ser’. Porém, trata-se de um
ponto de vista que, acredito, pode fazer diferença na medida em que acrescenta um
outro entendimento sobre essa questão, contribuindo para o que até hoje se pesquisou
sobre esse verbo.
No que diz respeito ao objeto de estudo desta tese, a saber, o verbo ‘ser’, os
estudos tradicionais até então não fizeram justiça a ele, pois o excluíram do grupo de
19
verbos transitivos e o colocaram no grupo dos ‘verbos de ligação’. Ao vê-lo como um
mero elemento de ligação entre o Sujeito e o Predicativo, não o consideram
significativo, podendo ser retirado da oração, sem que haja prejuízo do sentido da
mesma (Cunha & Cintra, 1985;Bechara, 1977; 2001;Rocha Lima, 1985), podendo até
mesmo ser substituído por um símbolo matemático (=).
Ao conhecer a Lingüística Sistêmico-Funcional (doravante LSF1) e a
Gramática Sistêmico-Funcional (doravante GSF), pude perceber que Michael
Alexander Kirkwood Halliday (doravante Halliday) atribui ao verbo to be2 (verbo
‘ser’ ou ‘estar’ em português) uma maior importância desde seus primeiros trabalhos
(1966;1967;1968), não vendo “nenhuma justificativa adequada para negar ao to be o
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status de um verbo lexical na linguagem” (1966, p.66), considerando-o, dessa forma,
um processo pentencente ao Sistema de Transitividade da Metafunção Ideacional.
A importância atribuída a esse verbo pela LSF e pela GSF deve-se ao fato de
elas trazerem uma forma diferente de olhar a linguagem, a qual despertou-me o
interesse e instigou-me a analisar e descrever o verbo ‘ser’ em artigos de opinião e
editoriais jornalísticos, gênero textual que leio diariamente, com esse arcabouço
teórico-metodológico.
Além disso, e diferentemente da tradição na qual fui instruída, desde que
leciono, tem sido minha convicção que o estudo de uma língua deve ter como base o
uso, dirigindo o foco para as transformações sistemáticas e funcionais inerentes a sua
constituição como instrumento de interação social. Essas transformações são
inerentes ao dinamismo e à necessidade permanente de atualização e de adaptação às
necessidades comunicativas de seus falantes. Julgo, por isso, fundamental a
consideração destes fatores no estudo integral do sistema lingüístico, sobretudo no
âmbito de modelos gramaticais cujos pressupostos teóricos baseiam-se na função
social da linguagem, ou seja, nos quais o estudo de uma língua e de seu uso implica
1
A LSF de Michael A. K. Halliday baseia-se no ‘funcionalismo etnográfico e no contextualismo
desenvolvido por Malinowski nos anos 1920, além da lingüística firthiana da tradição etnográfica de
Boas-Sapir-Whorf e do funcionalismo da Escola de Praga (Halliday, 1985, p.5).
Obs: A tradução do material teórico foi realizada por mim e está baseada nos termos da LSF e da GSF
em português aprovados pelos participantes do projeto DIRECT (http://www.sistemica.f2s.com ou em
http://www.yahoogroups.com/gsfemportugues
2
Cabe ressaltar que embora o verbo to be corresponda a ‘ser’ e ‘estar’ na língua portuguesa, apenas a
acepção de ‘ser’ em português foi contemplada nesta tese.
20
uma análise centrada na natureza social da produção de significados e na
contextualização cultural e situacional dos falantes/escritores.
A maioria dos estudos em língua portuguesa tem sido feita no nível sintático
da oração descontextualizada. Proponho, portanto, que a descrição e a análise
lingüística do verbo ‘ser’ seja realizada no nível do texto, uma vez que “a unidade
básica da linguagem em uso não é uma palavra ou uma oração, mas um texto”
(Halliday, [1970] 2002, p.190). Ainda segundo Halliday & Matthiessen (2004, p:3336),
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o texto é a forma de dados usados para a análise lingüística; toda a descrição de
gramática está baseada em texto. [...] O corpus é fundamental para o
empreendimento de teorização da linguagem.
É por essa razão que uma proposta de análise e descrição do verbo ‘ser’ em
textos deve envolver uma teoria de criação de significado que seja minimamente coextensiva com uma teoria de comportamento e cultura humanos, sendo a orientação
sistêmico-funcional aquela que considera o texto como
o processo de significado; [...] o produto desse processo. Um texto é,
conseqüentemente, uma entidade semântica; nos é dado em orações, [...] no sentido
de ser um todo do qual as orações são simplesmente parte. [...]
É verdade que os textos são, no todo, maiores do que as orações; [...] O
relacionamento não é tanto o de tamanho, mas o de explícito e implícito. O texto é
realizado em orações (Halliday, [1981] 2002, p.221).
Logo, considero a LSF, parte do arcabouço teórico-metodológico, apropriada
para fundamentar esta tese por me alinhar com a noção de linguagem3 como uma
semiótica social4 e na concepção de experiência ou realidade construída no social e
constantemente sujeita aos processos de transformação. A perspectiva de linguagem
3
Na LSF, o termo ‘linguagem’ significa um sistema semiótico natural (em oposição a semióticas,
como a matemática e às linguagens de programação de computadores), usado por humanos adultos
(em oposição à linguagem usada por crianças), verbal (em oposição à música, à dança e outras
linguagens da arte) (Halliday & Matthiessen, 2004, p.20).
4
De acordo com Halliday (1978, p. 1), a linguagem é uma semiótica social porque ela surge na vida do
indivíduo através de uma troca constante de significados. Uma criança cria, primeiro sua língua
infantil, depois sua língua materna, na interação com o pequeno grupo de pessoas que constitui seu
grupo significativo. Nesse sentido, a linguagem é um produto do processo social. Social no sentido de
sistema social, sinônimo de cultura. Portanto, semiótica social refere-se à definição de um sistema
social ou uma cultura como um sistema de significados, e o social indica que há uma preocupação com
as relações entre linguagem e estrutura social, esta considerada como um aspecto do sistema social
(Halliday, 1985, p. 4-5).
21
adotada pela LSF é basicamente a social, a qual relaciona linguagem ao sistema
social, à cultura e ao aspecto particular da experiência humana, a saber, a estrutura
social.
Um fator importante para a escolha da GSF, a outra parte do arcabouço
teórico-metodológico, como metodologia para a análise e descrição das ocorrências
do verbo ‘ser’, é que ela realiza uma descrição gramatical de orientação funcional5 e
semântica, na qual a linguagem é vista como sistema semiótico, os processos de uso
como processos de construção de significado pela seleção dos elementos lingüísticos
apropriados a determinada situação discursiva. Essa seleção dos elementos
lingüísticos não é realizada “no vácuo, mas no contexto de situações discursivas”
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(Halliday,[1970] 2002, p.174), sendo a ‘gramática da linguagem’, o sistema de
opções disponíveis para o falante ou escritor.
A LSF e a GSF têm como foco de interesse analisar como usamos a
linguagem, como a estruturamos no uso para uma ou mais funções específicas e como
ela é organizada para criar significados. Na teoria sistêmico-funcional, os analistas
não estão interessados somente no que a linguagem é, mas por que a linguagem é;
não só no que a linguagem significa, mas como ela o faz.
Dito de outra forma, a análise objetiva descrever a contribuição individual dos
participantes nas situações ‘do mundo real’, ao invés da função gramatical do
constituinte sintático nas representações lingüísticas dessas situações. Os elementos
lingüísticos são observados a partir de produções textuais autênticas e descritos em
termos da função que desempenham no sistema lingüístico como um todo.
Por ser o arcabouço teórico-metodológico desta tese e por não haver tradução
publicada da obra de Michael Halliday, o que a torna pouco conhecida e usada para a
5
Vale chamar a atenção para o uso da palavra funcional. Há quatro sentidos para funcional. No sentido
de objetivo, trata-se do que os falantes pensam que estão fazendo ou pretendem através da linguagem:
perguntar, declarar, dar uma ordem, persuadir e outras forças ilocucionárias. Esse é o uso da linguagem
para atuar um tipo de ato de fala, no evento discursivo. O segundo sentido é o relacionado ao contexto,
ou seja, quando a linguagem reflete o contexto do ato de fala, sua função no texto. No texto, função
tem a ver com as categorias textuais da organização discursiva e inclui abordagens funcionais tais
como estrutura narrativa, coesão e outras marcas de textualidade. O terceiro sentido diz respeito à
relação: a relação de um elemento estrutural com ou em uma unidade estrutural de ordem mais alta e
sua contribuição para essa unidade. Finalmente, funcional equivale a significado, especialmente onde
considera-se que o significado inclua as pragmáticas de objetivo e contexto. Neste caso, incluem-se as
metafunções propostas por Halliday.
22
descrição da língua portuguesa, apresentarei alguns conceitos fundamentais, no
Capítulo 2, como contribuição para os estudos da língua portuguesa à luz da LSF e da
GSF. No entanto, na análise dos dados, só usarei os conceitos contemplados em
Introduction to Functional Grammar (1994), Construing Experience Through
Meaning (1999) e Introduction to Functional Grammar (2004), resumidos na seção
2.4.2.
Esta tese pretende refletir também sobre a possibilidade e a relevância de usar,
como arcabouço teórico-metodológico, a descrição realizada pela GSF para a língua
inglesa, no estudo do verbo ‘ser’, em artigos de opinião e editoriais jornalísticos em
língua portuguesa, e enfrenta o desafio de transferir para o domínio do ensino de
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língua portuguesa ferramentas interpretativas que têm sido usadas praticamente só em
sua descrição.
Pelas razões acima expostas, era indispensável introduzir, ainda que de forma
bastante breve, a postura teórico-metodológica que a norteia. Assim, no capítulo
seguinte, apresento com maior profundidade a LSF e a GSF para a análise e descrição
das ocorrências do verbo ‘ser’ nos artigos mencionados.
Embora a teoria contemple três metafunções da linguagem, usarei para esta
tese a Metafunção Ideacional, especificamente o Sistema de Transitividade, por ser
ele o que aborda a oração como representação da experiência através das
configurações de processos.
Cabe ainda mencionar que a opção pela GSF de Halliday (1994) e Halliday e
Matthiessen (2004) em detrimento de outras duas gramáticas funcionais, a saber, de
Talmy Givón (1995) e Simon Dik (1981), deve-se a algumas diferenças de
concepções de análises lingüísticas e, sobretudo, ao tratamento dado à concepção de
‘transitividade’ por esses autores, a qual será abordada no Capítulo 2.
Na próxima seção, apresentarei um pequeno resumo de alguns estudos sobre
‘predicação’ e ‘transitividade’ em língua portuguesa, realizados por autores cuja
abordagem diferencia-se da LSF. Cabe lembrar que, nesta tese, estou usando a
interpretação de ‘predicação’ e ‘transitividade’ na perspectiva do arcabouço teóricometodológico acima descrito. Destacarei, ao longo do caminho, algumas semelhanças
23
e diferenças com as outras abordagens, tentando esclarecer o que uma perspectiva
sistêmico-funcional traz para a discussão em questão.
1.1
Alguns
conceitos
de
‘predicação’
e
‘transitividade’
em
língua
portuguesa
A ‘predicação’ tem sido uma fonte de interesse lingüístico há um período
bastante considerável. No entanto, algumas abordagens (nos últimos 50 anos ou mais)
parecem não revelar a natureza multifuncional dos tipos de fenômenos investigados.
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Desde os tempos de Aristóteles, é comum dividir as frases em dois
componentes – sujeito e predicado – e considerar a correspondente atribuição de
propriedades a alguma entidade como um exemplo de ‘predicação’. Portanto, tem-se
atribuído ao ‘sujeito’ aquela informação dada, conhecida e estabelecida, ou seja, é a
ele atribuída formalmente6 a concepção de ‘entidade sobre a qual as informações são
dadas em uma determinada oração’.
As gramáticas tradicionais (doravante GT), por exemplo, herdaram esse
enfoque na oposição Sujeito/Predicado, fundamentadas nos princípios da lógica,
atribuindo ao sujeito a definição de “ser aquele sobre o qual se diz algo; e o predicado
aquilo que se diz do sujeito” (Lima, 2000, p.234), oposição com a qual Tesnière
(1959, p.102-105) e Fillmore (Lobato, 1977, p.293; Fillmore, 1968, p.17) não
concordam por defenderem que não há respaldo nos fatos da língua para tal
afirmação.
A GT classifica os predicados em:
(i) predicado verbal cujo verbo é de ação e pode ser classificado em transitivo
direto, quando necessita de objeto direto; em transitivo indireto, quando necessita de
objeto indireto; em transitivo direto e indireto, quando necessita de ambos os
complementos, e em intransitivo, quando não necessita de complementação alguma
por conter em si o significado total;
6
‘Formalmente’ aqui significando os elementos da frase que podem ser reconhecidos em termos
formais (caso nominativo, concordância entre aquele elemento e o verbo etc).
24
(ii) predicado verbo-nominal aquele cujo verbo também é de ação, mas
apresenta um complemento predicativo (do objeto ou do sujeito); e
(iii) predicado nominal aquele cujo predicador é um nome (substantivo ou
adjetivo) que se liga ao sujeito por um ‘verbo de ligação’.
Para os propósitos desta tese, discutirei apenas a última classificação (iii), uma
vez que ela diz respeito ao verbo ‘ser’, um dos verbos de ligação.
O predicado nominal diz respeito à concepção adotada pela GT de que os
‘verbos de ligação’ constituem uma classe de verbos não-nocionais e, portanto, não
podem ser considerados transitivos, uma vez que estes apresentam significado. Logo,
os verbos significativos – transitivos – são aqueles que necessitam de
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complementação à direita. Isto equivale a dizer que a ‘transitividade’ é caracterizada
pela existência de um complemento direto e indireto que é afetado pela ação do
verbo.
Nessa perspectiva, pode-se dizer que, para a tradição gramatical,
complemento do verbo significa apenas o que vem integrar a transitividade verbal à
direita, ficando a transitividade relacionada com a necessidade de complemento que
integre o sentido do verbo à direita, ou seja, as gramáticas tradicionais tratam a
transitividade verbal do ponto de vista do conteúdo integral do processo verbal.
Essa definição é recursiva e circular. É recursiva porque sempre se dá da
mesma forma repetitiva, isto é, parte do verbo para seu complemento à direita. É
circular porque parte do verbo para o complemento à direita e retorna daí para o
verbo. O sujeito não é considerado um complemento.
O que me parece ter ocorrido com a classificação dos ‘verbos de ligação’ foi
uma mudança de perspectiva da GT. Ao invés de verificar-se a necessidade de
complementação à direita desses verbos, partindo-se da perspectiva verbal, como no
caso dos predicados verbais e verbo-nominais, talvez tenham sido levadas em conta
somente as diferenças entre as características prototípicas do complemento direto e do
complemento predicativo, o que resultou na separação desse grupo de verbos em um
outro conceito de predicação, a ‘nominal’.
25
Vale ressaltar que os ‘verbos de ligação’ exigem complementação à direita,
sendo que em alguns casos, o preenchimento da posição à esquerda, como no caso
das ‘orações sem sujeito’, dependerá de características típicas desse tipo de oração.
Um outro aspecto para o qual chamo a atenção, com relação à abordagem
tradicional, é que ela, em alguns casos, privilegia os aspectos formais e, em outros, a
semântica. Quanto à ‘transitividade’, por exemplo, os verbos são classificados de
acordo com os aspectos semânticos. No entanto, no tratamento dos ‘verbos de
ligação’, a classificação parece negligenciar uma análise das relações semânticas
entre os termos constituintes da oração.
No que se refere ao Sujeito, por exemplo, em Moderna Gramática
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Portuguesa (2001, p.409), Bechara o define como “a unidade ou sintagma nominal
que estabelece uma relação predicativa com o núcleo verbal para constituir uma
oração”. Em seguida, na página 410, ele acrescenta que o sujeito “é uma noção
gramatical e não semântica, isto é, uma referência à realidade designada como ocorre
com as noções de agente e paciente.” Portanto, o autor reconhece que nem sempre o
sujeito gramatical exerce o papel de agente do processo verbal e tenta inserir uma
definição semântica para o elemento à esquerda do verbo.
Em resumo, as gramáticas tradicionais abordam a transitividade a partir de
uma perspectiva dicotômica de presença ou ausência de complementos à direita do
verbo e a classificação desses complementos em objeto direto ou indireto se dá na
razão direta da predicação e não consideram o Sujeito um dos argumentos verbais. A
análise que se pode fazer da abordagem tradicional sobre ‘transitividade verbal’ é a
de que alguns princípios não foram considerados, os quais, a meu ver, devem nortear
a análise lingüística, como a centralidade do verbo na estruturação oracional e a
predicação verbal na construção sintagmática.
Um autor que traz uma nova perspectiva para os estudos sobre ‘predicação’ é
Azeredo (2000, p.175-183), o qual aborda a ‘predicação’ propondo uma distinção
entre predicado verbal e predicado nominal, baseado nos princípios da gramática de
valências7. O autor defini como predicador “o constituinte do predicado que controla
7
O termo ‘valência’ originou-se na química, onde denota a habilidade do átomo de emitir/desprender
ou de receber/aceitar um determinado número de elétrons ao formar um composto químico. O lingüista
francês Lucien Tesnière foi o primeiro a usar esse termo no campo da lingüística, no contexto de sua
26
a espécie de sujeito” e como argumentos (do predicador) os constituintes que
preenchem as posições estruturais abertas pelo predicador. Portanto, assume como
valencial o princípio explicativo das diversas estruturas do predicado e da oração.
Azeredo define como predicado verbal aquele cuja seleção do sujeito é
controlada por um predicador verbal8, ou seja, um verbo transitivo ou intransitivo.
São verbos predicadores intransitivos os que recusam complementação e verbos
predicadores transitivos “aqueles que se constroem obrigatoriamente na presença de
um objeto.” Essa definição encontra par na tradição gramatical.
Azeredo contribui para a discussão sobre predicação com a proposta de que os
predicadores intransitivos apresentam a possibilidade de conter um complemento que
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pode estar implícito, como o caso dos verbos ‘ler e comprar’. A diferença entre o
explícito e o implícito estaria no fato de que quando o complemento é explicitado,
verifica-se a necessidade comunicativa do enunciador de referir-se ao processo verbal
ou ao objeto da ação. Quando os verbos ‘entornar e ferver’ estão acompanhados de
um argumento que denota ‘objeto transformado’ (pelo processo verbal), o sujeito
apresenta-se com o papel semântico de ‘agente’ ou ‘causador’. No entanto, quando
usados sem acompanhamento de argumento, elnid2(r)3(a)4(ns)-1(f)3ea293( )-150(e)4(f)3(or)3i(a)4(ç)4 nt iam
27
se através de um meio, ou seja, deve haver um meio através do qual o processo
realiza-se, como postula Halliday (1994, p.163).
Halliday (1985;1994;[1970] 2002, p.194) introduz o conceito de ‘predicação’
como outra dimensão da estrutura oracional, chamando a atenção para o fato de que o
Sujeito é um complexo de quatro funções distintas, sendo três delas na estrutura da
oração.
Na gramática, a estruturação da experiência dá-se através de um conjunto de
tipos de papéis constituídos no Sistema de Transitividade, ou seja, a expressão
lingüística de processos, participantes e circunstâncias, estes o resultado de uma
configuração semântica (Halliday, 1994, p.106).
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O sistema de tipos de orações constitui um arcabouço para a representação
dos processos na gramática – processo de ação, processo mental e processo relacional
– e estes, por sua vez, têm um conjunto de papéis inerentes diferentes ou funções
estruturais associados a eles. Portanto, Ator, Objetivo, Portador, Atributo e
Beneficiário, por exemplo, são funções semânticas ou papéis no Sistema de
Transitividade, ou seja, os elementos básicos da estrutura da transitividade são os
diversos papéis associados com os processos.
Nesse sentido, o autor propõe a adoção de três perspectivas para a posição 1
da oração na gramática da língua:
1. Ator (sujeito lógico) – função ideacional
2. Sujeito modal (sujeito gramatical) – função interpessoal
3. Tema (sujeito psicológico) – função textual
e o quarto e último está na estrutura da ‘unidade de informação’ – Dado (sujeito
psicológico) – função textual.
Isto significa que, para o autor, não há divisão entre um sujeito lógico
existente no nível semântico da descrição e um sujeito gramatical no nível gramatical.
Ao contrário, há duas relações (ou funções) gramaticais separadas: uma que se
relaciona à oração como representação do mundo em termos de ‘quem fez o que, para
quem, quando e como’, e a outra reconhecida como as considerações gramaticais
formais.
28
No entanto, esses sujeitos nem sempre se alinham. Vejamos abaixo um
exemplo.
Exemplo 1, adaptado de Halliday (1994, p.30-6).
O duque
deu
a minha tia
esses bules.
Sujeito psicológico
Processo (ativo)
Recebedor
Meta
foram dados
a minha tia
pelo duque.
Processo (passivo)
Recebedor
Ator
Sujeito gramatical
Sujeito lógico
Esses bules
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Meta
Exemplo 2, adaptado de Halliday (ibid., p. 30-36).
Minha tia
recebeu
esses bules
do duque.
Sujeito gramatical
Processo (passivo)
Meta
Ator
Recebedor
A seleção do Sujeito oscila entre os participantes envolvidos no processo de
‘dar’, como se observa na primeira e na segunda orações do primeiro exemplo. Os
papéis de Ator, Recebedor e Meta são introduzidos na estrutura oracional somente em
determinadas combinações, como no exemplo 2. Quando o Sujeito não é Ator nem
Meta, no entanto, verifica-se que esse fato altera o predicador, sendo a única
possibilidade a mudança para o predicador ‘receber’ (exemplo 2).
1.1.1
A predicação nominal
Como vimos na seção anterior, quando o predicado declarar uma qualidade,
estado ou condição, o elemento principal será um nome (adjetivo ou substantivo ou
expressão preposicionada) que se referirá a outro nome sujeito e, nesse caso, o verbo
serve apenas como a ligação entre os nomes (sujeito e predicativo), sendo, então,
29
chamados de ‘verbos de ligação’ (doravante VL). Esses verbos são os seguintes:
‘ser’, ‘estar’, ‘permanecer’, ‘continuar’, ‘parecer’, ‘ficar’, entre outros como ‘andar’,
‘achar-se’, ‘cair’, ‘converter-se’, ‘encontrar-se’, ‘fazer-se’, ‘meter-se a’, ‘viver’,
‘virar’ e ‘tornar-se’ (Bechara, 1977, p.202-204; Bechara, 2001, p. 424-436; Cunha &
Cintra, 1985, p. 129-130; Lima, 2000, p.238).
Evanildo Bechara (1977, p.202-204) refere-se ao predicado nominal como
aquele que exprime uma qualidade, estado ou condição, cujo elemento principal, o
predicativo, é um nome (adjetivo ou substantivo), o qual se refere a outro nome – o
Sujeito.
Quanto aos VLs, o autor declara que seu ofício é o de apresentar do sujeito
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um estado, qualidade ou condição permanente, passageiro (verbos ‘estar’, ‘andar’,
‘achar-se’ e ‘encontrar-se’), mudança de estado (verbos ‘ficar’, ‘tornar-se’, ‘acabar’,
‘cair’, ‘fazer-se’, ‘virar’, ‘converter-se’ e ‘meter-se a’), continuidade de estado
(verbos ‘continuar’ e ‘permanecer’) e aparência (‘parecer’).
Em nota de observação na página 204, há dois exemplos isto é bem e isto é
bom, para os quais Bechara dá uma explicação distinta. Para o autor, o advérbio não
exerce a função de predicativo por ser o verbo ‘ser’ nocional e não de ligação e a
razão para tal é por ele representar a construção latina bene est.
Em sua mais recente gramática (2001), Bechara dedica uma seção na página
424-5 para o que denomina ‘complemento predicativo’ ou ‘predicativo’. O autor
considera os verbos incluídos nos predicados nominais verbos que
se caracterizam por uma referência tão vaga à realidade comunicada, que fazem do
predicativo um argumento, pelo aspecto semântico, muito mais intrinsecamente
relacionado com o verbo do que os demais integrantes do predicado complexo (os
complementos direto, relativo e indireto) e portador de referência a traços essenciais
do sujeito.
Logo, assim como os outros verbos, que sintaticamente são o núcleo da
oração, os verbos de ligação, ainda que se tratem de verbos muito amplos e vagos ou
vazios, na opinião do autor, também exigem complementação, um argumento à
esquerda - A1 e um argumento à direita - A2, este atribuindo características ou
identificando o A1. Essa lista de verbos inclui: ‘ser’, ‘estar’, ‘ficar’, ‘permanecer’,
‘parecer’ e outros.
30
Bechara observa também que se atentarmos para o aspecto formal, o
complemento predicativo apresenta pontos de contato com o complemento direto.
Estes pontos de contato seriam a extensão semântica do verbo; o mesmo
posicionamento do predicativo e do objeto direto à direita do verbo, ou seja, ambos
posicionam-se sem o auxílio de preposição; ambos podem ser substituídos pelo
pronome átono o “ainda que de maneira diferente, quando o verbo é ‘ser’, ‘estar’,
‘ficar’, ‘parecer’; e, por último, há equivalência das orações com verbos de ligação
com orações com verbos que exprimem ação e processo, principalmente quando o
verbo está no presente. Vejamos alguns exemplos que o autor fornece:
1 – O trabalho é proveitoso. O trabalho o é.
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2 – As alegrias eram passageiras. As alegrias o eram.
3 – Janete é minha irmã. Janete o é.
4 – Pedro é cantor. Pedro o é.
5 – Pedro canta.
6 – O colega está irritado.
7 – O colega irrita-se.
No entanto, afirma o gramático que há particularidades do predicativo que não
são compartilhadas pelos complementos diretos, tais como: a concordância em gênero
e número (quando representada por adjetivo e alguns pronomes) com o sujeito da
oração. Uma outra particularidade é a impossibilidade de apassivação das orações
com verbos de ligação, e a incompatibilidade de aparecer com o seu representante
invariável o na mesma oração. Bechara fornece mais esses exemplos:
8 – Felipe é simpático. Felipe o é. *Felipe o é simpático.
Isso implica que o substitui simpático. No caso de um objeto direto – Maria
comeu as uvas – faz-se a concordância – Maria as comeu. Entretanto, se utilizarmos
uma pro-forma, teríamos – Maria o fez. No caso dos ‘verbos de ligação’, não
podemos nos valer da utilização da pro-forma.
Aqui cabe ressaltar o fato de que, para a tradição gramatical, uma das
características de transitividade verbal direta é a possibilidade de apassivação, ou
seja, os verbos transitivos cujos sujeitos/agentes na frase ativa perdem sua posição de
tópico, têm seu complemento direto deslocado para ocupar tal posição. É interessante
31
observar que se trata de um critério exclusivamente sintático, pois se considerarmos
também o aspecto semântico, a classificação transitiva pela possibilidade de
apassivação dependerá da verificação das características que o complemento direto
apresenta, uma vez que essas características podem impedir seu deslocamento para a
posição de tópico na oração passiva.
Nesses casos, não só os traços semânticos do sujeito como também os do
complemento direto determinam a possibilidade ou não de apassivação. Portanto, a
transitividade verbal, quando considerada sintaticamente, não parece ser a única
característica determinante para a apassivação. Vejamos os exemplos abaixo:
9 – A empresa ocupa cerca de 1000 trabalhadores.
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*Cerca de 1000 trabalhadores são ocupados pela empresa.
10 – A lua derrama serenidade nos rochedos da costa.
*A serenidade nos rochedos da costa é derramada pela lua.
Nos exemplos fornecidos acima, a possibilidade de apassivação não pode ser
restrita à transitividade verbal sintática, mas considerada em relação aos aspectos
semânticos e, portanto, o todo frasal, principalmente com relação às características do
complemento direto.
A alegação de que os verbos para serem transitivos devem apresentar a
possibilidade de apassivação não se sustenta nos fatos da língua, se forem
contemplados os demais elementos oracionais, além do verbo, como visto nos
exemplos acima.
As observações acerca das características prototípicas de complemento direto
e apassivação devem ser consideradas do ponto de vista de que os argumentos
também influenciam nessa classificação e não centrá-la exclusivamente no verbo.
A diferença entre a perspectiva ativa e a passiva parece situar-se na mudança
da perspectiva dinâmica para a perspectiva estática e, nesse sentido, os verbos de
ligação não apresentariam essa possibilidade de mudança de perspectiva pois já são
estáticos. No entanto, devem ser considerados transitivos pois, embora seja uma
transitividade fraca, apresentam outras características que os habilitam à classificação
transitiva.
32
Na seção em que inicia perguntando se vale a pena distinguir predicado verbal
e predicado nominal, Bechara menciona o fato de alguns autores considerarem que os
verbos de ligação apresentam um esvaziamento do signo léxico que é suprido com o
auxílio de um nome (substantivo ou adjetivo), nome este que concorda com o sujeito
em número e gênero, o que implicou a retirada do status de verbo de tais verbos, pois
sua missão gramatical se restringiria a ‘ligar’ o predicativo ao Sujeito. O nome
expressaria a realidade comunicada e o verbo, o elemento que marcaria o tempo, o
modo e o aspecto da oração.
Bechara argumenta ainda que não há por que se fazer uma distinção entre
predicado verbal, predicado verbo-nominal e predicado nominal, alinhando-se aos
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lingüistas e gramáticos que não separam o predicado verbal do nominal. Para o autor,
embora a tradição gramatical tenha retirado dos verbos de ligação o status de verbos,
por terem como missão gramatical apenas ligar o sujeito à sua qualidade ou
característica, chamada de predicativo do sujeito, toda a relação predicativa tem como
núcleo um verbo (p. 426).
O autor acrescenta também um outro fator a favor da inclusão dos verbos de
ligação na categoria de verbos, do ponto de vista funcional e formal, a saber, as
características de morfemas de gênero, número, pessoa, tempo e modo apresentadas
por esses verbos.
A alegação de que os verbos de ligação constituem predicados nominais por
apresentarem um esvaziamento semântico que é preenchido por um signo lingüístico
na função de predicativo – um substantivo ou adjetivo – pode ser refutada pelo fato
de que na posição de predicativo ocorrem outras classes de palavras que não os
nomes (substantivos e adjetivos) como os advérbios, sustentado nos fatos da língua
(Bechara, 2001, p.426). Bechara fornece os seguinte exemplos:
11 – Os vizinhos estão bem.
12 – Os jovens são assim.
13 – A mesa parece de madeira.
Vejamos também os exemplos apresentados no Dicionário de usos do
Português do Brasil (Borba, 2002), apenas a título de ilustração:
33
14 - Este rifle foi de meu pai.; A culpa não era nossa. – indicando posse
inerente; pertencer.
15 – O coronel é dos meus. – indicando ‘estar colocado entre’; situar-se entre.
16 – Não sou de briga – indicando ter propensão ou inclinação para.
Com relação à classificação sintática das orações com o verbo ‘ser’ seguido
de expressão de horas, São dez horas, Bechara alega que dez horas é o predicativo
desta oração sem sujeito porque a comutação com o pronome invariável o é a única
possível e exemplifica:
17 – São dez horas. São-no.
Já Cunha & Cintra (1985, p.129-132) definem, na observação da página 130,
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que os ‘verbos de ligação’ “servem para estabelecer a união entre duas palavras ou
expressões de caráter nominal”, portanto não são transitivos. Os autores dividem os
verbos em significativos e não-significativos, considerando os ‘verbos de ligação’
como não-significativos, em oposição aos outros verbos considerados significativos.
Cunha & Cintra (1985, p.129-132) classificam como predicado nominal
aquele formado por um verbo de ligação + predicativo. Esses verbos servem para
“estabelecer a união entre duas palavras ou expressões de caráter nominal”.
Na concepção dos autores, esses verbos não trazem idéia nova ao sujeito,
funcionando como elo entre o sujeito e o predicativo. Os ‘verbos de ligação’ podem
expressar um estado permanente (verbo ‘ser’), um estado transitório (verbos ‘estar’ e
‘andar’), uma mudança de estado (verbos ‘ficar’ e ‘tornar-se’), continuidade de estado
(verbos ‘continuar’ e ‘permanecer’) e aparência de estado (verbos ‘parecer’ e
‘permanecer’).
Cunha & Cintra alertam para o fato de que alguns dos ‘verbos de ligação’
tanto podem ser usados ora como copulativos ora como significativos e para isso é
necessário que se observe em que contexto estão sendo usados. Para justificar a
diferença entre os usos dos ‘verbos de ligação’, os autores lançam mão de exemplos
onde apenas o predicativo é trocado por um sintagma adverbial e por um sintagma
nominal e, neste caso, os verbos são verbos significativos. Eis os exemplos
fornecidos por eles:
18 – Estavas triste.
Estavas em casa.
34
19 – Andei muito preocupado.
Andei muito hoje.
20 – Fiquei pesaroso.
Fiquei no meu posto.
21 – Continuamos silenciosos.
Continuamos a marcha.
Outro autor tradicional que considera o predicado nominal aquele que tem por
núcleo um nome é Rocha Lima (2000, p.238). Segundo ele, o predicado é nominal
porque a declaração feita sobre o sujeito encontra-se no nome (substantivo, adjetivo
ou pronome) e, assim sendo, este é o predicado. O gramático apresenta suas
classificações de predicação baseadas num mesmo elemento – o complemento verbal
– ou na sua ausência, no caso dos verbos intransitivos.
Resumindo, Celso Cunha e Rocha Lima apresentam abordagens semelhantes
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quanto à inadequação terminológica, ou seja, quanto ao fato de classificar os verbos
transitivos de acordo com seus complementos e os verbos de ligação de acordo com a
noção que expressam, misturando conceitos díspares como transitividade e aspecto.
Por exemplo, o verbo ‘ficar’ é classificado como expressando mudança de estado,
sem levar em conta seu uso com sentido continuativo como:
22 – Ele ficou parado enquanto o ladrão fugia.
23 – Vai ficar aí parado o dia todo?
Já Azeredo (1997, p.46-7), referindo-se ao que classifica como predicado,
informa que em sua estrutura há um ‘componente lexical’ e um ‘componente
gramatical’ que reúnem as categorias de ‘tempo’, ‘modo’, ‘aspecto’, ‘número’ e
‘pessoa’. O componente lexical é o ‘predicador’, “reservando-se então o nome de
‘verbo predicador’ àquele que reúne na mesma forma concreta os componentes
lexical e gramatical”. Como o verbo ‘ser’ para o autor não é considerado um verbo
predicador, ou seja, “uma unidade capaz de se flexionar naquelas categorias”, sua
classificação passa a ser de um ‘verbo transpositor’.
Em outro trabalho, Azeredo (2000, p.175), referindo-se à valência verbal,
chama a atenção para o fato de que o verbo ‘ser’ não faz exigência sobre a espécie de
sujeito que recebe e, dessa forma, não pode ser considerado um ‘predicador’. Nesse
caso, são os predicativos, e não os verbos [‘ser’ e ‘estar’], que guardam com o sujeito
a necessária relação de compatibilidade, podendo ser considerados, portanto, os
predicadores.
35
Para o autor, por não fazerem exigências quanto ao preenchimento de seus
argumentos, os ‘verbos de ligação’ são verbos instrumentais mesmo quando o sujeito
é zero (oração sem sujeito na gramática tradicional) servindo apenas de introdutórios
aos predicadores não-verbais (SN, Sadj, Sadv, Sprep). A função que deveria ser do
predicador fica a cargo dos constituintes à direita do predicador, pois são eles que
estabelecem com o sujeito a relação de compatibilidade.
Aqui, pode-se colocar a seguinte questão: e quando não há sujeito? Com o que
se estabeleceria a chamada relação de compatibilidade, como, por exemplo, a questão
das construções do verbo ‘ser’ + expressões de tempo, orações ‘sem sujeito’, como
São dez horas, Era tarde?
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Azeredo (2000, p.182) diz que, nestes casos, os complementos predicativos (o
complemento à direita) devem ser chamados de situacionais, pois “denotam a
situação, no tempo ou no espaço, do objeto ou evento designado pelo sujeito da
frase”. Azeredo (2000, p.177) argumenta ainda que o verbo ‘ser’ apresenta uma
diferença na expressão de sua modalidade, expressando uma atitude de certeza.
Por sua vez, nesse tipo de oração, Bechara (2001, p.428) apresenta para o
complemento do verbo ‘ser’ uma única possibilidade de classificação: a de
predicativo, pois, para o autor, trata-se de uma oração sem sujeito, com verbo
impessoal e, por concordância atrativa, no plural.
Resumindo, Azeredo atribui aos ‘verbos de ligação’ a denominação de
instrumentais também por eles apresentarem uma versatilidade que os habilita à
significação de conteúdos que os predicadores verbais não exprimem por si mesmos.
Esses conteúdos dizem respeito à atitude do enunciador e não à classe e ao
conteúdo do sujeito. Portanto, esses verbos têm como função a expressão das noções
gramaticais relativas ao predicado: a pessoa do sujeito; o tempo em que se situa o fato
referido pela oração; o modo ou atitude do enunciador em relação ao fato; e o aspecto
ou natureza da duração desse fato.
O gramático considera que a seleção do sujeito é controlada por um
predicador não-verbal. Em outras palavras, a seleção do sujeito se dá através do
predicativo do sujeito e não do predicador verbal (verbos de ligação).
36
Os
predicadores
não-verbais
são
aqueles
introduzidos
por
verbos
instrumentais e apresentam como conteúdo significativo um atributo, para o qual o
autor denomina predicadores atributivos; uma identidade, chamados de predicadores
identificativos; e uma situação, os predicadores situacionais. Esses predicadores nãoverbais também funcionam como complementos predicativos.
Nos predicadores atributivos estão inclusos os adjetivos, locuções adjetivas,
pronomes e numerais adjetivos, substantivos e expressões substantivas com função
qualificadora. Nos predicadores identificativos encontram-se os sintagmas nominais
com função referenciadora e que apresentam uma possibilidade de permuta de
posição com o sintagma nominal sujeito. Já os predicadores situacionais são os que
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denotam a situação, no tempo ou no espaço, do objeto ou do evento designado pelo
sujeito da frase. Estão inclusos os exemplos de orações sem sujeito com verbo ‘ser’
mais expressão de tempo.
Em alguns dos aspectos acima apresentados, Azeredo se aproxima da
abordagem tradicional (Bechara, Rocha Lima e Celso Cunha) e, em outros, também
se alinha com Mira Mateus et alii (2003, p.539), exceto pelo fato de que não diz
claramente tratar-se de verbos não-nocionais.
Com relação à predicação, para Mira Mateus et alii (2003, p.182-183), há
relações de predicação em todas as orações, uma vez que predicar é atribuir
propriedades a entidades ou estabelecer relações entre entidades. Nessa perspectiva,
as autoras consideram que o verbo ‘ser’ também constitui predicação, pois predicação
abrangeria
não só a relação entre o que tradicionalmente se designa ‘sujeito’ e ‘predicado’ de
uma frase ou oração mas também a relação que se estabelece entre um núcleo lexical,
como um verbo, e os seus argumentos.
O ‘estado de coisas’ dessas predicações é estabelecido por essas relações entre
o verbo e seus argumentos. Nesse sentido, o verbo desempenha a função semântica de
predicador, ou seja, estabelece com seus argumentos, também chamados lugares
vazios, a categoria desses argumentos, restringindo as suas propriedades, ao que
chamamos restrição categorial.
37
No entanto, no caso de construções com predicações compostas de verbos
‘copulativos’9, as autoras afirmam que eles “apenas selecionam um argumento
interno”, a que denominam ‘oração pequena’, cujo núcleo pode ser adjetival (Sas),
nominal (Sns), preposicional (Sps) ou adverbial (Sadvs).
Neste caso, a meu ver, pelo simples fato de selecionarem argumentos, os
verbos ‘copulativos’ podem ser considerados predicadores.
Vilela e Koch (2001, p.66-67) compartilham da mesma posição das autoras
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quanto à predicação postulando que
o predicado é a expressão lingüística de uma função assertiva no sentido de que ele
configura a propriedade de um indivíduo (ou de uma classe de indivíduos). O
predicado compõe-se de um lexema, cuja semântica representa lingüisticamente esta
função assertiva, e dos morfemas gramaticais que estão ligados à forma do verbo
conjugado, e exprimem pessoa, número, tempo, modo e gênero do verbo [=voz].
Com base na sua valência, o lexema do predicado configura um acontecer, um
estado, uma relação ou a propriedade de um acontecimento (ou de uma classe de
acontecimentos).
Nessa perspectiva, Vilela e Koch classificam verbos de ação como aqueles
que ‘implicam um ‘fazer’’, verbos de processo aqueles que ‘aplicam e implicam um
‘acontecer’, um ‘passar-se com’ e os ‘verbos de estado’, aqueles que configuram
verbalmente ‘a duração de um ser, a permanência de um estado’, sem que com isso
se implique a completa imutabilidade, como se pode observar com os verbos
permanecer, continuar, estar, viver etc., conforme estes verbetes em Borba (2002).
.
Os ‘verbos de estado’ são chamados pelos autores de verbos copulativos que
indicam ‘estado natural’ no caso do verbo ser, ‘estado adquirido’ para os verbos estar
e achar-se, ‘mudança de estado’ no caso dos verbos ficar, virar (ele virou
comunista), tornar-se, converter-se, ‘estado permanente’ para os verbos viver,
continuar e ‘mudança de estado’ para o verbo parecer.
Vilela e Koch consideram que esses verbos servem de suporte ao predicativo
e que a eles devem ser acrescentados outros verbos como:
andar (+ adjetivo); acabar/terminar + nome (ele acabou ministro);
dar em + nome (ele deu em doido);
9
Para as autoras, a lista de ‘verbos copulativos’ é a seguinte: ‘andar’, ‘continuar’, ‘estar’, ‘ficar’,
‘parecer’, ‘permanecer’, ‘revelar-se’, ‘ser’, ‘tornar-se’.
38
tornar-se/fazer-se + nome (ele fez-se monge aos 90 anos - ele tornou-se um
vigarista);
virar + nome (ele virou semeador de sonhos);
cair + nome/adjetivo (ela caiu doente);
os verbos nominandi nomear, eleger, jurandi considerar, achar, causandi
tornar-se, fazer, em que o predicativo designa uma qualidade, o resultado de um
desenvolvimento ou ação em relação ao fato nomeado pelo sujeito ou objeto da
mesma frase.
Os predicativos configuram o mesmo denotado que o sujeito ou complemento
direto da frase em que ocorrem.
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Nessa perspectiva, pode-se afirmar que os verbos são as palavras predicativas
por excelência, uma vez que são elas que selecionam seus argumentos para a
formação da estrutura argumental. Portanto, a noção de ‘argumento de’ exprime a
relação que estabelecem entidades com palavras predicativas (verbos). 10
Nessa mesma linha em defesa de que toda a relação predicativa estabelecida
na oração tem como núcleo o verbo, Benveniste (1995, p.166) define o verbo como
“o elemento indispensável à constituição de um enunciado assertivo finito11”. A
função verbal apresenta dupla função no enunciado assertivo:
(i)
a função coesiva, “que consiste em organizar numa estrutura
completa os elementos do enunciado;
(ii)
a função assertiva, “que consiste em dotar o enunciado de um
predicado de realidade.” Dessa forma, pode-se concluir que o
enunciado estabelece uma referência com a realidade, ligando a
organização lingüística ao sistema da realidade. Portanto, o verbo é
o elemento gramatical coesivo e assertivo ao mesmo tempo.
Para Borba (1996, p.69), os chamados ‘verbos de ligação ou copulativos’
integram-se numa mesma classe sintático-semântica dos ‘verbos de estado’, que
10
Em todos os tipos de orações, sejam elas interrogativas, imperativas, exclamativas etc., estabelecemse relações entre elementos, atribuem-se propriedades. Isto quer dizer que há sempre uma predicação
(entendendo predicação como não só a relação de um argumento com um outro argumento, bem como
também do verbo com o argumento à direita que dependerá de certas configurações sintáticas).
11
Um enunciado assertivo para o autor é constituído de dois caracteres formais independentes: é
produzido entre duas pausas e tem uma entonação específica ‘final’.
39
configuram frases estativas, definidas como as que traduzem uma visão estática do
universo, ou seja, frases cujo núcleo predicativo não envolve qualquer mudança,
implicando atribuição e identificação. Em outras palavras, os verbos de estado
expressam uma propriedade (estado, condição, situação) localizada no sujeito, que é
suporte dessa propriedade. No entanto, esses verbos distinguem-se entre si por seus
traços inerentes e quando realizados com seus argumentos indicam modalidades de
relações tais como intensidade, circunstância e possessão.
Chamo a atenção para o fato de que por constituírem frases estativas, ou seja,
não dinâmicas, não equivale a dizer que sejam predicadores não-nocionais. O fato de
não haver dinamicidade no estado de coisas realizado, não implica a falta de
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significado do predicador. Isto quer dizer que seria impossível uma noção de
atribuição ou identificação sem um núcleo predicativo que realize uma das
modalidades da relação. Dessa forma, os verbos de estado selecionam
obrigatoriamente um argumento que é inativo, na medida em que não é agentivo.
Em Uma gramática de valências para o português (1996, p.33), Borba
apresenta ‘um modelo eclético GV-GC’, ou seja, as concepções da Gramática de
Valências e as da Gramática de Casos para a análise e descrição da língua portuguesa.
Para este fim, propõe-se determinar a valência dos itens e as relações básicas,
especificando a natureza dos papéis inerentes ao núcleo predicativo, o que suponho
que esteja referindo-se ao verbo, uma vez que admite que os argumentos podem ir de
zero a quatro em português.
A associação de um verbo a um nome, ou seja, ao seu argumento, resulta um
Caso para o nome e uma classe para o verbo e uma dessas classes de verbos seria a
dos ‘verbos de estado’. O caso seria então as relações sintático-semânticas, ou seja, o
resultado da coesão dos argumentos com o predicado, aqui entendido como o verbo.
O verbo apresenta propriedades sintático-semânticas, as quais determinam seu
comportamento no âmbito da frase.
Ainda com relação à valência verbal, Borba considera que ela atinja
‘especificamente o que se poderia chamar de verbos plenos’. ‘Verbos plenos’ são
aqueles que contêm significado e são núcleo do predicado num sintagma verbal.
40
Ao detalhar os verbos de estado, Borba (1996, p.60) inclui em sua análise
verbos como ‘amar’, ‘ter’, ‘periclitar’, ‘vigorar’ , ‘medir’, ‘pesar’, ‘simbolizar’,
‘gostar’, ‘trazer’ (no sentido de portar), ‘vestir’, ‘significar’, ‘amanhecer’ e
‘anoitecer’ (sentido figurado),
justificando que essa classificação de ‘verbo de
estado’ dá-se por eles expressarem uma propriedade (estado, condição, situação)
localizada no sujeito, sendo este apenas “mero suporte dessa propriedade ou, então,
seu experimentador ou beneficiário.” O autor acrescenta que um dos argumentos
desses verbos é “obrigatoriamente um argumento inativo, na medida em que não é
agentivo, nem causativo, nem paciente.”
Cabe mencionar que Mira Mateus et alii (2003, p.191) compartilham dessa
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mesma concepção ao postular que os verbos estativos são verbos que exprimem
situações não dinâmicas (exprimem estados), em que não há alteração ou transição de
nenhuma entidade envolvida no processo durante o intervalo de tempo em que tais
situações ocorrem. Nesta categoria, as autoras incluem os verbos copulativos, além de
‘haver’, ‘existir’, ‘ser’ (no sentido existencial) e os verbos locativos de dois lugares
com um argumento ‘Tema’ e um argumento ‘Locativo’. Para estes últimos, Mira
Mateus et alii incluem os verbos ‘morar’, ‘residir’, ‘ter’, ‘pertencer’. Outros verbos
considerados estativos são: ‘saber’, ‘ver’, ‘gostar’.
Para uma análise que se propõe eclética, ou seja, um misto de gramática de
valências e gramática de casos, Borba está sendo coerente com sua proposta,
analisando a valência verbal e as relações estabelecidas com seus argumentos
originando a classe de ‘verbos de estado’.
A partir de uma relação
Predicado (Argumento), o autor determinou as
41
complemento. Os tais verbos de ‘peso’ semântico são: ‘amar’, ‘crer’, ‘saber’,
‘compreender’, ‘duvidar’, ‘medir’, ‘custar’, ‘rodear’, ‘serpear’, ‘circundar’...
2º. Aquelas cujo núcleo predicativo é de existência, apresentando um
argumento realizado como sujeito ou como complemento. Esses são os casos dos
verbos ‘existir’, ‘ser’, ‘haver’ (no sentido de existir), ‘ter’, ‘dar’ (neste caso, o
exemplo foi Aqui dá muita banana; Neste pau tem mel).
3º. Aquelas cujo núcleo predicativo é um adjetivo ou um nome (predicativo),
apresentando um argumento apenas, onde o predicado é introduzido por um verbo
copulativo da classe de ‘ser’, ‘estar’, ‘parecer’ e estes verbos realizam-se em orações
equativas, atributivas, locativas e possessivas.
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Um dos problemas que identifico já aqui nesta classificação é o fato de que se
o autor propõe-se a uma análise verbal valencial, suponho, portanto, que ele esteja
referindo-se ao verbo como núcleo, centro dinâmico da oração com base na teoria da
gramática de valências. Logo, como pode ter como uma das classificações das
orações estativas, uma oração cujo núcleo é um adjetivo?
Para Borba (id., p.70), as orações equativas “indicam a inclusão de classe e
caracterizam-se pela associação de dois sintagmas nominais que, se tiverem a mesma
extensão semântica, são permutáveis entre si”.
Um dos exemplos utilizados é Diana é a pianista. A pianista é Diana. A
alegação é a de que o SN2 – a pianista e Diana – funciona como aposto. Mas, o que
seria então “uma extensão semântica” neste caso? Diana se estende semanticamente a
pianista ou vice-versa? Creio tratar-se mais de características do SN, realizado à
esquerda, que estão sendo atribuídas ao SN sujeito.
Na mesma página, o autor faz a seguinte afirmação: “as atributivas
incorporam uma nota ou atributo ao SN sujeito. Isso quer dizer que depois da cópula,
sempre vem um Sadv”.
Um dos exemplos fornecidos é Oscar é rico. Pedro é muito homem para
enfrentar essa parada. O complemento rico e muito homem .... não me parecem
enquadrarem-se na classificação de Sadv.
Com relação ao verbo ‘ser’, Borba ressalta que há uma inerência. Idéia já
contemplada por Oiticica (1922, p.154-157), no exemplo O sol é um astro brilhante,
42
onde o adjetivo brilhante contém a declaração feita ao sujeito que a ela está ligado
pelo verbo é, o qual indica estado normal. No caso de Borba, o verbo ‘ser’ exprime
uma qualidade ou a nota atribuída ao nome como algo inerente a ele, habitual e
imutável. Aqui me parece que Borba reconhece que o verbo ‘ser’ apresenta em seu
sema determinada exigência para o preenchimento de seus argumentos A1 e A2.
Neste caso, chamo a atenção para o fato de que ao referir-se apenas ao
adjetivo brilhante e não ao sintagma nominal um astro brilhante, como aquele que
está fazendo uma declaração ao sujeito, me parece que Borba deixa entrever uma
semelhança com as orações atributivas e identificativas em Halliday & Matthiessen
(2004), pois se o sol é um astro e, se esse astro é brilhante, logo o sol é brilhante,
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portanto, o adjetivo está qualificando os dois – sol e astro, que são um a identidade do
outro.
Para as orações possessivas, Borba afirma que elas “indicam posse ou
propriedade e associam dois termos – um possuidor e um possuído – não
necessariamente nesta ordem.”
posssuído/possuidor.
O uso do verbo ser impõe a ordem
Aqui, mais uma vez, verifica-se que o verbo ser
restringe/seleciona os seus argumentos e a posição destes na sintaxe da oração.
Na parte onde disserta sobre os verbos-suporte (Id., p.79), Borba apresenta
esquemas estruturais do tipo: “Vsup + Adj/N/Sadj/SN: ser feliz; permanecer em
silêncio; ser útil aos amigos; ser homem, estar (um homem); ficar uma fera; virar um
elefante”, os quais afirma serem equivalentes a “um verbo simples morfologicamente
derivado do radical do nome abstrato ou do adjetivo”, como é o caso da construção
‘ser’ + adjetivo que seria equivalente a ‘ter’ + NA (corresponde ao adjetivo).
Vejamos alguns exemplos fornecidos pelo autor:
24 – Ser belo, inteligente... – ter beleza, inteligência.
Benveniste (1995, p.173) declara que o verbo ‘ser’ realiza uma oração verbal
paralela a todas as demais orações verbais. O autor sugere que “devamos restituir ao
verbo ‘ser’ a sua força plena e a sua função autêntica para medir a distância entre uma
asserção nominal e uma asserção com ‘ser’”.
Benveniste reconhece também que há uma distinção entre os verbos ‘ser’ e
‘estar’, a saber, o primeiro é ‘ser’ de essência e o segundo, ‘ser’ de existência ou de
43
circunstância. Essa distinção vem corroborar minha hipótese de que o verbo ‘ser’ é
nocional, expressa sentido.
Maria Helena de Moura Neves (2000, p.25) contribui com sua concepção
sobre os ‘verbos de estado’, afirmando que o predicado pode ser representado pela
categoria verbo ou pela categoria adjetivo (construído com um ‘verbo de ligação’).
Neves considera que o predicado de uma oração é o verbo (exceto os modalizadores
‘poder’, ‘dever’, ‘precisar’; os que indicam ‘aspecto’ e os que auxiliam a indicação de
‘tempo’ e ‘voz’) que pode designar propriedades ou relações, ou os adjetivos quando
constituídos com ‘verbos de ligação’. Acrescido de seus argumentos (que designam
entidades), esses predicados constituem predicações.
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Nessa perspectiva, as predicações podem ser classificadas de três formas: com
referência às unidades semânticas presentes nos verbos (classificação semântica);
com referência à codificação lingüística dos ‘estados de coisas’, ou seja, quanto à
integração de componentes (o componente de ‘aspecto’ e o componente pragmático
‘controle’); e quanto à transitividade, isto é, quanto à especificação do papel dos
complementos verbais.
Dessa forma, as predicações verbais, quando consideradas as unidades
semânticas do predicado (verbo), podem apresentar três classes principais de
predicados verbais, a saber: duas dinâmicas e uma não-dinâmica. Os dinâmicos
podem designar ações ou atividades e seus participantes são ‘agente’ ou ‘causativo’,
podendo haver ou não outro participante ‘afetado’; ou podem designar processos
quando envolvem uma relação entre um nome e um estado, sendo o nome, o paciente
do verbo (afetado).
Neste segundo caso de predicado dinâmico de processo, a autora não está se
referindo aos ‘verbos de ligação’, pois como disse acima, para ela esses verbos não
constituem predicações verbais.
Os predicados não-dinâmicos são os acompanhados por um sintagma nominal
que é suporte do estado. Portanto, designam ‘estado’. Os dois exemplos apresentados
por Neves são com o verbo ‘permanecer’ e ‘existir’. É nesta categoria que a autora
inclui as orações sem sujeito da gramática tradicional, postulando que há verbos que
implicam “um processo ou estado em um ambiente, sem que haja referência a nada
44
particular dentro desse ambiente” (id., p.26). Para a autora, as orações que não
apresentam sintagma nominal como agente ou paciente (A1=0) são consideradas
apenas predicado. Os exemplos fornecidos pela autora são:
25 – É já tarde: seu marido deve estar esperando.
26 – É domingo; dia, portanto, em que a gente pode fazer observações talvez
não muito úteis.
Neves (2000, p.27-8) classifica as predicações verbais também segundo a
codificação lingüística dos ‘estados de coisas’. Nesta classificação a tipologia
semântica dos ‘estados de coisas’ apresenta-se como Dinâmica com controle (ações),
Dinâmica sem controle (processos) e Não-dinâmica com controle e sem controle. As
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Predicações Dinâmicas com controle e sem controle podem ser télicas ou não-télicas
e a Predicação Não-dinâmica se divide apenas em com controle e sem controle.12 Os
seguintes exemplos são apresentados por Neves como Predicação Não-dinâmica com
controle:
27 – Outro dia você estava comigo quando o carro parou na esquina.
28 – O Rei está em pé ao lado do trono.
A terceira classificação das predicações verbais refere-se à especificação do
papel dos complementos verbais, ou seja, a ‘transitividade’. Segundo Neves, aqui está
implicada a valência verbal, isto é, “a capacidade de os verbos abrirem casas para
preenchimento por termos (sujeito e complemento), compondo-se a estrutura
argumental”.
Nesta classificação estão os verbos
(i)
que possuem objetos que sofrem ou não mudança física no seu estado;
(ii)
que
possuem
um
complemento
não-preposicionado
e
um
complemento preposicionado;
(iii)
12
que têm complementos oracionais.
Para os objetivos desta tese, limitei-me a expor de forma bastante sucinta a classificação das
predicações contempladas por Neves (2000). Para maiores detalhes sobre a diferenciação das
classificações Dinâmicas e Não-dinâmicas, sugiro a leitura da seção 2.2 do capítulo referente ao verbo
que inicia-se na página 27 e termina na 28.
45
Verifica-se na exposição de Neves que a autora parte de uma concepção
valencial, mas prende-se à visão tradicional ao excluir os ‘verbos de ligação’ de sua
classificação de predicados.
É no capítulo dedicado aos adjetivos, especificamente as suas funções
sintáticas, que Neves explica com mais detalhes que eles são o núcleo do sintagma
verbal, portanto núcleo do predicado, quando o verbo é de ligação e denominados
predicativo do sujeito, constituindo o predicado nominal. No entanto, os ‘estados de
coisas’ expressos pelos verbos apresentam dois parâmetros importantes para uma
tipologia semântica: dinamismo e controle.
As análises realizadas até a apresentação desta pesquisa, restringiram-se a
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classificar o verbo ‘ser’ como o verbo de representação mais geral do grupo de verbos
de ligação, juntamente com o verbo ‘estar’ que não está sendo aqui contemplado.
A tendência era a de ver as orações com o verbo ‘ser’ constituídas de três
elementos: sujeito, verbo e predicativo. A meu ver, essa análise se mostra
insatisfatória porque o que se argumenta é que o verbo ‘ser’ é apenas o portador do
tempo e aspecto verbal e, em alguns casos, da modalidade (aqui até se poderia
confirmar tal descrição atribuindo-lhe o âmbito da motivação semântica da função
interpessoal, mas não no âmbito da função ideacional como é minha intenção). Uma
46
Lourdes – Ela parece muito simpática.
Silvia – Ela é muito simpática.
A outra justificativa para que o verbo ‘ser’ fosse considerado sem significado
foi o fato de que se retirado da oração não prejudicaria o sentido do enunciado, como
em O menino é bonito e O menino bonito, ou seja, menino e bonito estariam
relacionados funcionalmente de formas comparáveis.
Este não é o meu entendimento, porque no grupo nominal menino bonito não
há uma relação contrastiva, já, na oração, menino e bonito estão relacionados através
de um processo que incorpora um contraste com outras relações possíveis, como a
que vimos no exemplo acima com o verbo ‘parecer’.
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Aqui vale ressaltar que, segundo a tradição gramatical, tais construções com o
verbo ‘ser’ mais um adjetivo foram interpretadas como um modelo de predicado
nominal, em contraste com os predicados verbais, onde há um verbo transitivo
presente na estrutura da oração.
Um outro ponto importante é que o fato de que por um item poder estar
ausente em um determinado ambiente x e um outro sempre estar presente em um
outro ambiente y não significa dizer que ele seja sem-significado se estiver presente
naquele determinado ambiente x. Vejamos, por exemplo, o caso do uso da preposição
por como marcadora de duração;
(1) Trabalhamos sete horas.
(2) Trabalhamos por sete horas.
Essa preposição como marcadora de duração pode estar ausente, como no
exemplo (1), mas isso não significa que ela não marque a duração quando está
presente, como no caso do exemplo (2).
1.2
Justificativa pedagógica
Além da utilização dos fundamentos da LSF e da GSF como arcabouço
teórico-metodológico para a descrição das instanciações do verbo ‘ser’ nos artigos de
47
opinião e editoriais jornalísticos, encontro ainda uma outra justificativa pedagógica
em seu uso.
Como forma de ensino, esse novo olhar poderá facilitar a compreensão e
apreensão dos alunos na identificação das diversas funções semânticas, sintáticas e
pragmáticas que o verbo ‘ser’ pode desempenhar no texto. Acredito que o
conhecimento da linguagem nos ajuda a ser melhores usuários, no sentido de
melhores leitores, falantes e ouvintes da linguagem. E será a visão que adotamos com
relação à linguagem e à experiência que norteará nossa maneira de ensiná-la.
Do ponto de vista da LSF, a linguagem não pode ser descrita como um
fenômeno autônomo, uma vez que não se pode compreender a gramática sem que se
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considere a atuação de parâmetros relacionados à cognição e a necessidades
discursivas. A linguagem, na concepção hallidiana, é uma forma de interação,
aprendida através da interação, na qual o homem negocia os significados que constrói
nos processos lingüísticos (Halliday, 1978, p.23). É dessa forma que a linguagem é
transmissora dos padrões de vida, dos modos de pensamento e ação, das crenças e
valores da cultura.
As estruturas gramaticais têm significado, em parte, em virtude das práticas
sociais e das atividades que elas ajudam a constituir. Assim, a linguagem não é um
sistema simbólico que corre paralelo à experiência, mas um sistema que constrói a
experiência. A linguagem é um mecanismo que nos permite comunicar e entender. As
línguas naturais são as ferramentas genuínas para a comunicação entre os seres
humanos.
A abordagem hallidiana de gramática considera o papel dos itens lingüísticos
no texto em relação a sua função na construção do significado. A interpretação e
nomeação dos itens lingüísticos estão baseados na sua função. O ponto focal na GSF
é a oração, e todos os aspectos sintáticos e semânticos da linguagem são observados e
descritos nela e além dela, sendo o objetivo da nomeação funcional, nas palavras de
Halliday (1994, p.29) o de apenas “fornecer meios de interpretar a estrutura
gramatical de tal forma que possamos relacionar qualquer exemplo fornecido ao
sistema da linguagem como um todo”.
48
Na GSF, o conteúdo semântico é explicado através dos constituintes formais
da oração, sendo esta a principal realização e representação lingüística da experiência.
A unidade de análise do estrato da gramática (ou também léxico-gramatical) é a
oração, pois é somente olhando para a estrutura da oração que é possível descobrir
como os traços semânticos são representados na gramática.
Nas palavras de Halliday (1994, p.22-3), “em uma gramática funcional,
levamos a análise da estrutura constituinte até um ponto semelhante ao de teorias
lingüísticas parentes e ao da gramática tradicional”, porque é a oração que demonstra
variações nas funções semânticas e nos papéis semânticos de unidades mais
inferiores.
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Ao examinar a estrutura das orações realizadas com o verbo ‘ser’, priorizando
as relações semânticas, a análise se faz de modo mais próximo da realidade do mundo
referencial que a linguagem representa, em que todas as unidades lingüísticas são
semioticamente construídas como configurações de funções (Halliday, 1994, p.xvi),
ou seja, cada unidade é interpretada como funcional, relativamente a sua
operacionalidade no sistema lingüístico.
As ferramentas analíticas fornecidads pela GSF ajudam-nos a compreender as
relações entre o contexto de situação no qual um texto é produzido, os signficados
ativados por esse contexto e a linguagem na qual e pela qual os significados são
realizados.
Pelas razões expostas acima, justifica-se a utilização da abordagem sistêmicofuncional como pano de fundo e fundamento teórico-metodológico de análise e
descrição do verbo ‘ser’ considerado tradicionalmente como ‘de ligação’. Essa nova
abordagem do fenômeno aqui contemplado poderá contribuir para uma melhor
compreensão e apreensão dos fatos lingüísticos, pois trata-se de uma ferramenta útil
para a análise e descrição aqui pretendida, uma vez que ela possibilita uma análise
semântico-sintática-funcional desse verbo.
Logo, a análise lingüística à luz da GSF se justifica ainda por estar interessada
fundamentalmente em como usamos a linguagem, como a estruturamos no uso para
uma ou mais funções específicas e como a linguagem é organizada para criar
significados.
49
Como aprendizes e professores não podemos dissociar a linguagem do
significado, e a GSF se apóia na noção de linguagem como construção de significado,
uma semiótica social cuja concepção é a de que a experiência ou realidade são
construídas no social e estão em constante assujeitação aos processos de
transformação.
A utilização da LSF e da GSF como arcabouço teórico-metodológico para a
análise e descrição do verbo ‘ser’ encontra-se também no argumento sobre a
relevância particular de ambas para o estudo lingüístico e para o ensino de língua
portuguesa de uma teoria que concebe o fato de que a forma como a linguagem é
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ensinada reflete
questões, por exemplo, que abrangem a natureza da linguagem como um aspecto da
experiência humana e também linguagem como uma fonte de fundamental
importância na construção dessa experiência (Halliday & Hasan, 1985, p.v).
Por essas razões, ao oferecermos aos aprendizes uma ferramenta analítica,
estamos oferecendo a possibilidade de eles tornarem-se conscientes dos recursos que
a língua portuguesa possui e de melhorarem sua aprendizagem ao mesmo tempo. O
conhecimento da gramática facilita a aprendizagem lingüística e ajuda a produzir e a
compreender textos em português.
Parece-me ser mais fácil para o aluno assimilar noções como ‘agente, paciente
etc.’, observar as escolhas realizadas pelos falantes para construir significado na
construção textual, do que se debruçar sobre o estudo de noções abstratas como
‘sujeito, objeto direto, objeto indireto, adjunto adverbial’.
Insisto em dizer que o estudo das relações estabelecidas pelo verbo ‘ser’ em
textos contribuirá para a identificação das funções semânticas que, pelos critérios
meramente sintáticos, por vezes, não são contempladas. Ao levarem-se em conta as
relações semânticas, estaremos trabalhando com a subjetividade do falante/escritor,
com sua capacidade de produzir significado através das escolhas lingüísticas que
realiza ao interagir socialmente. O uso desses critérios de natureza semânticosintático-funcionais me parecem eficazes.
Com essa afirmação refiro-me ao fato de que, por vezes, as ‘estratégias’ de
como ‘descobrir’ o nome de um determinado termo oracional impede a observação
50
dos significados que esse termo constrói no texto. O resultado de um ensino de língua
portuguesa voltado apenas para as relações de ordem sintática e a nomeação dos
termos oracionais, revela-se desinteressante, conseqüentemente causando baixos
índices de desempenho lingüístico não só em produções escritas como também nas
demais disciplinas que como o ‘português’ necessitam que se apresente uma
determinada ‘reflexão’ sobre o enunciado.
As práticas pedagógicas ainda em vigência supervalorizam um ensino
gramatical, de base nomenclatural em detrimento de um ensino que possibilite uma
análise do material lingüístico que leve a uma descrição adequada dos fatos e que do
ponto de vista pedagógico vise ao desenvolvimento da capacidade do aprendiz para
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interpretar os signos do mundo e no mundo.
Neste ponto, defendo a investigação da linguagem como objeto de pesquisa
lingüística, no sentido de se estudar o seu funcionamento de modo consciente,
reflexivo e sistemático. O que proponho é uma construção de conhecimento
lingüístico, a partir de uma reflexão sobre as escolhas que fazemos na construção de
nossos discursos em interação social. Defendo um ensino que leve em conta as
realizações empíricas da língua, que são os discursos, e não um estudo restrito à
análise de palavras ou, no máximo, da oração.
Em outras palavras, sugiro acrescentar um novo ponto de vista à abordagem
lingüística e conseqüentemente ao ensino de língua portuguesa, pois só a partir de
uma análise dos fatos lingüísticos como ponto de partida chegaremos a uma descrição
lingüística adequada.
Visando a tal objetivo, é necessário que tenhamos um instrumento que nos
permita apossar de nossa mente pelas idéias e das idéias pela nossa mente de forma a
realizarmos uma mudança de perspectiva. A meu ver, isso só será possível na medida
em que se valorize um ensino-aprendizagem de língua portuguesa através da análise
das relações semântico-sintático-funcionais da linguagem. Uma análise semânticosintático-funcional pode revelar diferenças de sentido propiciadas pelo verbo objeto
de análise desta tese que juntamente com seus complementos e inserção no texto
fornecerão ao conjunto as características específicas de cada realização.
51
O ensino de língua portuguesa deve ser direcionado para proporcionar
condições aos aprendizes de ordenar suas idéias, de expressar clara e precisamente a
‘realidade observada’ além de proporcionar a aquisição e o desenvolvimento do
discurso oral e escrito desses aprendizes. O conceito de expressão da ‘realidade
observada’ sugere que o ensino de língua tenha seu fundamento em uma construção
da noção de ‘realidade’, entendida como a de nosso ambiente físico, assim como a de
nosso ambiente social. A ‘comunicação do mundo real’ tornou-se e continua a ser
uma convocação para que se supere um foco indevido em formas gramaticais e,
talvez também, um foco indevido nos textos mortos ou em exemplos
descontextualizados.
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O que me distingue no olhar para a língua não me opõe. Ao contrário, entendo
e reitero que desempenho uma tarefa complementar ao optar por um ponto de vista
diferenciado em relação aos pontos até então apresentados. Um estudo de língua
centrado em análise apenas sintática tem se mostrado desmotivador e não me parece
desenvolver a competência lingüística comunicativa13 do aprendiz. O ensino da
análise sintática não pode deixar de contemplar as relações semânticas em contexto
que estruturam a oração. As relações que se estabelecem entre o predicador (verbo),
como centro estruturador da oração, e os seus argumentos devem ser enfatizadas,
assim como também as relações semânticas que a oração estabelece no texto. Os
valores semânticos das diversas funções sintáticas devem ser vistos como ponto de
partida para o ensino, uma vez que, sob esse ponto de vista, a identificação dos
elementos oracionais se torna mais exata e de mais fácil assimilação.
A relevância pedagógica desta tese configura-se ainda devido à ausência de
material sobre o assunto em análise no mercado editorial nacional. Até o presente
momento, encontrei alguns trabalhos realizados em língua portuguesa de abordagem
funcional, mas nenhum que analisasse o verbo ‘ser’ em uma abordagem sistêmicofuncional em artigos de opinião e editoriais jornalísticos.
13
Por competência lingüística comunicativa, numa LSF, entendo a capacidade que os indivíduos têm
não apenas de acionar a produtividade da língua (jogar com as opções/escolhas), mas também de
proceder a escolhas comunicativamente adequadas (operar as variáveis dentro do condicionamento
ditado pelo próprio processo de produção), e também de usar e interpretar essas escolhas de uma
maneira interacionalmente satisfatória.
52
No que se refere a outras investigações relativas ao verbo ‘ser’, tenho
conhecimento da dissertação de mestrado de Alcir Leopoldo da Silva (1975), cuja
proposta é apresentar um tratamento diacrônico do verbo ‘ser’ e da dissertação de
mestrado de Sheila Meijlachowicz (2003), cuja proposta é apresentar um novo olhar
sobre os ‘verbos de ligação’. No entanto, essa dissertação não investiga apenas o
verbo ‘ser’ e também não utiliza como arcabouço teórico-metodológico a LSF e a
GSF, para a análise e descrição.
1.3
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Objetivo
O objetivo desta tese de doutorado é apresentar uma nova proposta de
descrição e análise lingüística do verbo ‘ser’, classificado pelas gramáticas
tradicionais do Português do Brasil (PB) como verbo de ligação, introduzindo a idéia
de sua centralidade, a noção de transitividade hallidiana e, também as noções
expressas por esse verbo, dando relevo ao seu conteúdo significativo.
Logo, usando esse novo arcabouço teórico-metodológico, verificarei o verbo
‘ser’ não só na sua função sintática, mas também e, principalmente, na sua função
semântica, como criador de significado textual. Dessa forma, não me limitarei mais à
estrutura e passarei a ver a linguagem em uso, na criação de significado em contexto.
Minha proposta nesta tese é apresentar uma descrição e uma análise das
realizações do verbo ‘ser’ tendo como modelo os aspectos teórico-metodológicos da
Lingüística Sistêmico-Funcional e também como metodologia a gramática sistêmicofuncional intitulada An Introduction to the Functional Grammar (2004), referências
de apoio como Construing Experience Through Meaning (1999), obras de autoria de
M.A.K. Halliday e Christian M.I.M. Matthiessen, e An Introduction to Functional
Grammar (1994) de M.A.K.Halliday.
Baseada no reconhecimento da importância de se contemplar as realizações
lingüísticas como significativas do ponto de vista das escolhas que os falantes fazem
ao elaborá-las na interação verbal social, apresento as seguintes questões de pesquisa:
53
1 – O verbo ser, considerado ‘verbo de ligação’ pela tradição gramatical, é vazio de
sentido ou não-nocional?
2 – Quais os traços semânticos que as realizações com o verbo ‘ser’ apresentam nas
orações utilizadas em artigos de opinião e editoriais jornalísticos?
3 – Podemos considerá-lo um Processo Relacional como o fez Halliday para o verbo
to be?
1.4
Hipótese
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Com base na LSF, formula-se a hipótese inicial de que o chamado verbo ‘ser’
não é vazio de sentido, mas constitui, guardadas as devidas especificidades da língua
portuguesa, um processo com características semânticas próprias e uma determinada
função no discurso.
Minha hipótese está respaldada no tratamento dado por Halliday (1966, p.66)
às relações que se instanciam com o verbo to be (‘ser’). O autor considera o verbo to
be um tipo de processo – Processo Relacional – ou seja, Halliday defende que as
relações estabelecidas por esse verbo podem ser realizadas da mesma forma que
outros processos, não havendo justificativa alguma para negar a ele o status de um
verbo lexical e destaca também que “o que é mais significante é sua nãosingularidade: o fato de que ele pode ser claramente designado no conjunto de classes
de verbos reconhecidos nos sistemas de transitividade”.
A partir dessa afirmação, formulo uma segunda hipótese, a saber, a de que o
verbo ‘ser’ pode ser considerado, na língua portuguesa, transitivo à luz da GSF e,
portanto um Processo Relacional.
A terceira hipótese que formulo refere-se ao fato de que Halliday prevê
processos como Tema no caso das orações imperativas, as quais não apresentam
necessariamente Sujeito, pelo menos explícito (Halliday & Matthiessen, 2004, p.76).
Portanto, se o Tema experiencial é o que aparece na posição inicial da oração e deve
ser um elemento experiencial – processo, participante ou circunstância – logo, o
verbo ‘ser’ que é um elemento experiencial, ao aparecer na primeira posição da
54
oração, mesmo que não sejam orações imperativas, pode ser considerado o Tema
experiencial da oração em que ocorre em português, acrescido do fato ainda de não
haver necessidade de preenchimento da posição vazia do Sujeito, uma vez que os
verbos apresentam na sua desinência a pessoa de Sujeito, assim como suas marcas
temporais.
Chamo a atenção também para o fato de que é o processo e não o participante
que aparece em primeiro lugar como o componente experiencial, condição esta
absolutamente possível na língua portuguesa, pois trata-se de uma particularidade do
nosso idioma a possibilidade das orações apresentarem a inversão do tipo VS, sem a
necessidade de preenchimento do lugar do Sujeito deslocado.
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Além disso, o aparecimento de um processo na posição inicial da oração – um
elemento experiencial – satisfaz uma das condições colocadas por Halliday, a saber, a
de que o elemento experiencial deve se apresentar para que haja ancoragem “no cerne
da experiência” (Halliday, 1994, p.53), característica do Tema.
Contribuindo um pouco mais para a minha hipótese, saliento o fato de que o
autor também considera que “as relações semânticas são manifestadas nos itens e
padrões léxico-gramaticais tão sistematicamente quanto a semântica de processos ou
funções discursivas” (Halliday, 1994, p.336-339), o que significa dizer que, em se
tratando de relações semânticas e semântica de processos, o verbo ‘ser’ desempenha,
nos tipos de construção extraídos como exemplos, a função de estabelecer uma
relação semântica com o que foi dito anteriormente e com o que será dito em seguida,
cumprindo, portanto, uma função de elemento de ancoragem no cerne da experiência,
e uma função de predicar. Isto significa que há inferências e interpretaçõoes
resultantes de tais relações e que elas dependem tanto das relações de acessibilidade
estruturais quanto das semânticas.
Assim, pode-se inferir que a ordem de palavras na oração desempenha uma
parte relevante na definição de Tema como noção gramatical, porque o Tema é
realizado pela primeira posição. Halliday (1970) fala sobre a primeira posição como
sendo muito importante para a progressão da informação em inglês. Portanto, o uso
de determinados padrões temáticos é funcionalmente relevante, porque o emprego
especial de uma ou mais estratégias de tematização revela motivação comunicativa,
55
uma vez que o desejo do autor de transmitir uma percepção específica de realidade,
juntamente com o assunto específico do texto, é determinante na seleção das opções
temáticas em cada texto.
Em português, os elementos que contribuem para sinalizar o ponto de vista
vêm em primeiro lugar, e a informação mais nova é relegada para o último lugar. A
relação entre os elementos antecedentes conhecidos e os novos que os seguem é a de
que os elementos tornam-se conhecidos por meio da referência a um esquema de
definição paradigmática, e os novos são compreendidos por meio da referência a um
esquema de definição sintagmática, condicionado pelo elemento precedente
conhecido. Posto dessa forma, isso significa que o posicionamento linear na sentença
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desempenha um papel importante no desenvolvimento da informação do conhecido
para o novo, do geral para o específico.
A partir dessas escolhas, os elementos lingüísticos passam a funcionar como
indicadores de avaliações em termos das intenções, sentimentos, atitudes e
engajamentos dos autores com relação ao conteúdo proposicional de tais discursos.
Vale lembrar também que a definição de Tema como um elemento dentro de
uma determinada configuração estrutural que organiza a oração como mensagem é
funcional. Logo, não é só a posição inicial que define o elemento como Tema, mas
também sua função na oração. O uso do verbo, como no caso do verbo ‘ser’, cujas
características estabelecem algo como permanente, é um recurso favorável e de
grande utilidade na argumentação. Isso significa que sua relação com o todo da
oração não é meramente seqüencial ou apenas inicial, mas centrada na mensagem
oracional, portanto funcional.
Respaldada pelo acima descrito, investigarei as ocorrências em que o verbo
‘ser’ aparece na posição inicial, como Tema experiencial, uma vez que a tipicidade
desta instanciação relaciona-se com o meio no qual se dá a interação. Verificarei se
há coesão lexical e referencial, assim como se esse verbo estabelece a coerência ao
realizar também sua interação com as outras cadeias referenciais. Isto porque, para
Halliday (1994, p.337), as configurações mais altamente estruturadas, como as de
uma cadeia se relacionar a outra em uma outra cadeia por uma relação
56
gramaticalmente definível, isto é, uma relação na transitividade, são fortemente
coesivas.
Sendo, portanto, o Tema o que serve como um ponto de partida, temos a
possibilidade de uma quantidade de desenvolvimentos que determinam a mensagem.
A organização da mensagem dá-se a partir da escolha do Tema experiencial.
Minha hipótese é corroborada por Ventura & Lima-Lopes (2002) que também
afirmam que
em português, inglês e em muitas outras línguas, essa organização é feita
principalmente através da escolha que fazemos do elemento que ocupa a posição
inicial de cada oração que enunciamos – esse elemento é chamado de Tema, ou
ponto de partida da mensagem, dentro da Gramática Sistêmico-Funcional (GSF).
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Os autores seguem explicando como então se dá tal organização e
estabelecem que
a organização da oração em Tema-Rema normalmente acontece da seguinte forma:
na parte que corresponde ao Tema, colocamos informações cuja função é fazer a
ligação entre a oração que está sendo criada e as orações que vieram antes dela no
texto; ou ainda, estabelecer um contexto para a compreensão do que vem a seguir, ou
seja, do Rema.
Para tratar as hipóteses levantadas, partirei da perspectiva de que a oração tem
um dinamismo comunicativo alcançável através da progressão da informação, ou
seja, meu ponto de vista é o da perspectiva funcional da oração, uma perspectiva
social. Na gramática sistêmico-funcional, a linguagem é entendida como
o que um falante pode fazer. O que uma pessoa pode fazer no sentido lingüístico, isto
é, o que ele pode fazer como falante/ouvinte é equivalente ao que ele pode
‘significar’ (Halliday, 1978, p.27-78).
Além disso, a linguagem também é entendida como um sistema de
significados associados a formas que expressam os significados (Halliday, 1994,
p.xiii-xiv), portanto, à luz da GSF, acredito ser possível analisar a estrutura oracional
das instanciações do verbo ‘ser’ e reunir a noção de pragmática e de semântica: a
pragmática, na intenção de uso da linguagem, e a semântica, no sentido do
significado do texto, o que permite a visão de que não só estruturamos textos, mas
fazemos essas estruturações com determinadas intenções.
57
1.5
Relevância deste estudo
Considero este trabalho uma importante contribuição para os estudos da
língua portuguesa por apresentar uma nova proposta de descrição e análise lingüística
– uma análise semântico-sintático-funcional – através da qual acredito poder
contribuir com um novo olhar para o verbo ‘ser’ e também para um melhor domínio
lingüístico por parte dos aprendizes de língua portuguesa com relação ao próprio
discurso e, também, com relação ao discurso do outro.
Minha pretensão situa-se no enfoque de um ensino de língua portuguesa que
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possa proporcionar ao aprendiz a utilização da linguagem em suas interações sociais,
nas práticas sociais nos diferentes grupos da sociedade em que circule, em momentos
distintos. E, nesse ensino-aprendizagem, não se pode deixar de contemplar o caráter
dialógico e interativo da linguagem, sobretudo sua capacidade de produzir e negociar
significados.
Essa pretensão tem como crença a concepção de que a construção da realidade
é inseparável da construção do sistema semântico lingüístico no qual a realidade está
codificada. Isto significa que a aprendizagem lingüística é ao mesmo tempo a
construção da realidade interna e externa do indivíduo (Halliday, 1979, p.9).
2
Posição Teórica
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A linguagem é uma instituição política: aqueles hábeis
em suas formas, capazes de usá-la para moldar e servir
importantes objetivos pessoais e sociais, serão os
‘capacitados’: capazes, a saber, não de meramente
participar efetivamente no mundo, mas capazes
também de agir nele, no sentido de poderem lutar por
mudanças sociais significativas (Frances Christie,
1989).
2.1
A linguagem na perspectiva da Lingüística Sistêmico-Funcional
O funcionalismo lingüístico contemporâneo, desenvolvido por autores como
Michael Halliday, Ruqaiya Hasan, Christian M.I.M. Matthiessen, Geoff Thompson,
entre outros, denominado Lingüística Sistêmico-funcional, é considerado uma
perspectiva social da linguagem por enfatizar a importância do contexto na
aprendizagem e no desenvolvimento lingüístico do indivíduo, no uso de sua
linguagem, a qual é compreendida na relação com a estrutura social e, sobretudo, por
interessar-se em como a linguagem é estruturada para o uso em diferentes contextos.
A linguagem é vista como uma semiótica social (Halliday, 1978, p.1-5), cuja
definição é a de um sistema social ou cultural como um sistema de significados, que
constrói nossa realidade, o que significa interpretar a linguagem dentro de um
contexto sócio-cultural, no qual a cultura em si é interpretada em termos semióticos.
A palavra social indica o interesse nas relações entre a linguagem e a estrutura
social, sendo esta um dos aspectos do sistema social, o que pretende sugerir uma
59
interpretação de que a linguagem é um fato social, embora não no sentido saussuriano
do termo1.
O termo ‘semiótica’
está enquadrado em uma taxonomia linear de ‘físico – biológico – social –
semiótico’; e o termo ‘sistema’ é uma abreviação de ‘sistema & processo’ (Halliday
& Matthiessen, 1999, p.507).
Halliday acrescenta ainda que
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o caso mais geral de um sistema semiótico é a linguagem (no sentido prototípico
desse termo: uma linguagem natural, falada por adultos e aprendida como língua
materna). Isso envolve um meio físico, um organismo biológico como
transmissor/receptor e uma ordem social interativa. Tal sistema constitui, como o
expressamos, uma teoria geral da experiência: com ela, construímos nosso
conhecimento de senso comum do mundo, a ‘realidade’ que reside ao nosso redor e
dentro de nós (Halliday & Martin, 1993, p.16).
A linguagem cria relações entre participantes e pontos de vista; apresentações
verbais de eventos, atividades; constrói relações de partes com o todo em seu próprio
texto e entre si e seus contextos, pois o significado de qualquer texto ou evento
discursivo depende de como o conectamos a algum texto ou evento.
As abordagens da LSF e da GSF mostram-se adequadas aos propósitos desta
pesquisa, na medida em que o conceito de uso é crucial, a concepção de significado
oracional favorece a identificação de relações semânticas realizadas pelo verbo ‘ser’ e
a descrição funcional tem como base a unidade semântica textual e a unidade de
significação oracional.
1
A) Vale lembrar que para Ferdinad de Saussure, o significado de ‘língua como fato social’ refere-se à
concepção de que o que é fato na língua (langue) está no campo social; o que é ato da fala ou discurso
(parole) situa-se na esfera do individual. Saussure afirma que “a língua tem um lado individual e um
lado social, sendo impossível conceber um sem o outro.” Para o autor, a linguagem é a faculdade
natural de usar uma língua, “ao passo que a língua constitui algo adquirido e convencional” (Curso,
p.17). Portanto, a língua é “o conjunto de hábitos lingüísticos que permitem a uma pessoa compreender
e fazer-se compreender” (p. 92). Nesse sentido, Saussure acrescenta que a língua guarda toda a
experiência acumulada pelo povo falante durante a sua existência. Para Saussure, a língua “é , ao
mesmo tempo, um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções
necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos” (p.
17). Ela é “a parte social da linguagem, exterior ao indivíduo, que, por si só, não pode nem criá-la nem
modificá-la; ela não existe senão em virtude de uma espécie de contrato estabelecido entre os membros
da comunidade” (p.22).
B) Considero a linguagem como fato social pois sua existência fundamenta-se nas necessidades de
comunicação. “A língua como um fato social” é uma citação saussureana. “Linguagem como semiótica
social” é uma citação hallidiana (Halliday, 1978, p.1). Ambas têm em comum a visão de que a
linguagem é um fenômeno social e, nesse sentido, pode-se dizer que uma contém a visão da outra.
60
As pesquisas desenvolvidas pelos lingüistas sistêmico-funcionais têm
propiciado uma lingüística com caráter de ciência aplicada, centrada na
indissociabilidade entre o significado e a forma lingüística, entre o léxico e a
gramática, entre o contexto e o fraseado, apoiando-se sempre em dados lingüísticos
reais.
Essas indissociabilidades estão relacionadas e refletidas na concepção de
linguagem como redes de sistemas2 de significados. Cada sistema oferece ao
falante/escritor um elenco variado de significados. Esse potencial lingüístico (o
sistema) é o meio no qual o falante realiza suas escolhas lingüísticas para estabelecer,
desenvolver e manter as diversas relações sociais nas quais se envolve.
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O enfoque aqui está sendo direcionado para a noção essencial de que a
linguagem é o que o falante pode fazer no sentido lingüístico, ou seja, o que pode
fazer é equivalente ao que pode significar, daí linguagem como um sistema de
produção de significados, um sistema de ‘potencial de significados’ que residem nos
padrões sistêmicos de escolhas, fornecendo aos falantes a possibilidade de construir a
experiência, sendo esta tratada então como significado.
Um sistema é a categoria central para representar a organização
paradigmática, isto é, “padrões em o que poderia ser no lugar de” (Halliday &
Matthiessen, 2004, p.22). As opções são realizadas como constructos sintagmáticos
ou estruturas (ordenação sintagmática na linguagem) que são “padrões ou
regularidades, no que ocorre com o que” (Halliday & Matthiessen, 2004, p.22).
Uma rede de sistemas ordena parcialmente seus sistemas em termos de suas
interdependências e consiste de uma coleção de paradigmas da forma: uma unidade
lingüística do tipo A é um A de sub-tipo funcional X ou um A de sub-tipo funcional
Y,..., ou um A de sub-tipo funcional Z. Esse tipo de organização enfatiza declarações
de alternativas possíveis em formas de expressão relacionadas e, explicitamente,
representa as escolhas disponíveis no ambiente daquelas escolhas que já foram
realizadas.
2
Vale a pena ressaltar que “o sistema é a forma de representação das relações paradigmáticas, a
estrutura é a forma de representação das relações sintagmáticas” (Halliday, 1978, p.41).
61
Um sistema consiste de “(1) uma ‘condição de entrada’ (onde a escolha é
feita); (2) o conjunto de opções possíveis, e (3) as ‘realizações’ (o que deve ser feito –
isto é, quais são as conseqüências estruturais de cada uma das opções)” (Halliday,
1994, p.xxvi).
Por sistema, define-se um conjunto de opções de significado interrelacionadas que formam uma rede de sistemas. Cada sistema dessa rede representa a
realização de escolhas potenciais e paradigmáticas que o falante/escritor pode fazer
em diferentes níveis para a criação de significados na interação.
Halliday (1985 [2002], p.262; Halliday & Matthiessen, 2004, p.22) define
sistema como “qualquer conjunto de alternativas, juntamente com sua condição de
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entrada”, ou seja,
um conjunto de opções, um conjunto de possibilidades A, B ou C, juntamente com a
condição de entrada. A condição de entrada estabelece o ambiente: no ambiente X,
há uma escolha entre A, B e C. A escolha é obrigatória; se as condições existem, uma
escolha deve ser feita. O ambiente é, de fato, uma outra escolha (Halliday, 1978, p.
41).
Em termos de realização, pode-se afirmar que a ordem na oração expressa
significado e, assim sendo, devemos
investigar quais são as possibilidades de escolhas relevantes, tanto nos tipos de
significados que desejamos expressar (ou funções que desejamos desempenhar)
quanto nos tipos de fraseados que podemos usar para expressar esses significados; e
combinar esses dois conjuntos de opções. Para identificar as escolhas de significado,
temos de olhar para fora, para o contexto: o que, no tipo de sociedade em que
vivemos, tipicamente necessitamos ou desejamos dizer? Quais são os fatores
contextuais que fazem com que um conjunto de significados seja mais apropriado ou
mais provável de ser expresso do que um outro? Mas, ao mesmo tempo,
necessitamos identificar as opções lingüísticas (i.e. as possibilidades lexicais e
estruturais que o sistema lingüístico oferece para o uso) e explorar os significados
que cada opção expressa (Thompson, 2004, p.7-9).
Este é um pressuposto teórico fundamental desta teoria, o qual determina que
é o uso que cada falante faz da linguagem que modela o sistema lingüístico. Assim, a
descrição do sistema lingüístico deve procurar perceber, por um lado, como é que os
falantes usam a linguagem para interagir e, por outro, como é que a linguagem está
estruturada para o uso. O produto de uma seqüência de escolhas é um texto,
62
estruturado em fraseados (wordings)
3
que codificam o significado da interação
lingüística.
Essa compreensão de linguagem como sistema é diferente da noção de langue
de Saussure. As pessoas, em geral, usam a linguagem para fazer uma variedade de
coisas em contextos diferentes, realizando escolhas simultaneamente em cada um dos
sistemas. As escolhas semânticas realizadas pelo falante/escritor são expressas pela
gramática e pelo léxico e estão relacionadas com a função ou a necessidade social a
ser desempenhada pela linguagem dentro de um determinado contexto. Portanto, a
situação extra-lingüística é a que motiva as combinações das escolhas semânticas
léxico-gramaticais (léxico e gramática)4 e fonológicas, as quais são expressas como
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estruturas lingüísticas.
A LSF lida então com contexto, significado e fraseado de uma forma
unificada, modelando-os em redes de sistemas; descreve o uso da linguagem “como
recurso para a construção de significado” (Halliday, 1994, p.xxvi), com referência ao
contexto ou situação de uma interação (Halliday & Hasan, 1985, p.5-7); interessa-se
63
1978, p.32). Contexto aqui se refere ao Contexto de Situação e ao Contexto de
Cultura, ambos entram no texto influenciando as palavras e estruturas que os usuários
produzem em seus textos. Enquanto o primeiro está relacionado com as variáveis de
registro5 (Campo, Tenor e Relações do discurso), o último é descrito em termos de
gêneros.
Vista dessa forma, a noção de registro é ao mesmo tempo muito simples e
muito poderosa e fornece meios de investigar as fundações lingüísticas das interações
sociais a partir de um ângulo que é complementar aos anteriores. Dito de outra forma,
é possível investigar a linguagem com relação à variação de seu uso de acordo com o
tipo de situação. É nesse sentido que a LSF nos motiva a buscar quais as
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características da linguagem que são determinadas pelo Contexto Social e Cultural e a
ligação delas com esses contextos.
É possível dizer então que o contexto, como ativador das escolhas semânticas
que o falante faz, é o ambiente no qual o que o falante diz tem significado. É por essa
razão que cada escolha lingüística adquire relevância quando comparada às outras
opções potenciais que poderiam ter ocorrido, mas que foram preteridas. Martin &
Rose (2006, p.29) apontam que as
relações-chave entre os elementos da linguagem são as relações de escolha –
basicamente entre o que se diz e o que poderia ter sido dito se não se tivesse decidido
por o que se realmente disse.
Os sistemas paradigmáticos definem as escolhas lingüísticas disponíveis para
os usuários para o objetivo de atuar no contexto, sendo a possibilidade de escolha “a
essência de uma orientação paradigmática para a descrição lingüística” (Hasan, 1996,
p.107). Isto equivale a dizer que “uma implicação importante da visão funcional da
linguagem é que contexto e linguagem são interdependentes” (Thompson, 1996, p.79).
5
O termo ‘registro’ é descrito por Halliday como “uma variedade relativa ao uso, no sentido de que
cada falante tem uma gama de variedades e escolhe entre elas em momentos diferentes” ou ainda “a
configuração de recursos semânticos que o membro de uma cultura tipicamente associa com um tipo
de situação. É o potencial de significado que é acessível em um determinado contexto social” ou seja,
o que você está falando (naquele momento) determinado por o que você está fazendo (natureza da
atividade social em que está envolvido) (Halliday, 1978, p.35;p.111).
64
O significado não é simplesmente uma questão de como os signos estão
relacionados uns com os outros paradigmaticamente em um sistema único que pode
ser concebido fora do contexto no qual a linguagem é usada (langue de Saussure),
mas do ponto de vista funcional, o significado é algo que as pessoas podem fazer e
não algo que a linguagem tem.
Nesse sentido, uma análise lingüística inserida em um constructo sistêmicofuncional observa dois aspectos, a saber, o aspecto funcional, isto é, o que o falante
está querendo dizer e significar e a opção formal estrutural escolhida para realizá-lo,
ou seja, ‘o potencial e o atual’.
Essa teoria considera, portanto, que a linguagem é fruto do contexto, moldada
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por ele, tendo como resultado o fato de que toda a produção lingüística está atrelada
às necessidades e funções sociais desempenhadas e todos os enunciados realizados
são fruto da operacionalização de significados, regulados pelo contexto. Nas palavras
de Halliday ([1970]2002, p.173),
a natureza da linguagem está intimamente relacionada com as demandas que fazemos
a ela, as funções que ela tem de servir. Em termos mais concretos, essas funções são
específicas de uma cultura...
Nesse sentido, interpretar a linguagem em um contexto é também interpretar a
cultura, porque
usamos a linguagem para fazer sentido de nossa experiência e para pôr em prática
nossas interações com outras pessoas. Isto significa que a léxico-gramática (ou
gramática apenas) tem de interfacear com o que está fora da linguagem, ou seja, com
os acontecimentos e condições do mundo e com os processos sociais em que nos
engajamos. Ao mesmo tempo, a gramática tem de organizar a construção da
experiência e a atuação nos processos sociais de forma que possam ser transformados
em fraseados (Halliday & Matthiessen, 2004, p.24).
A construção da realidade à qual Halliday refere-se está relacionada à idéia de
que
não só usamos a linguagem para moldar a realidade, mas a usamos também para
defender essa realidade, contra qualquer um cujos valores diferentes possam ameaçar
os nossos. Mas, se a linguagem pode ser usada para defender uma realidade, então,
[...] ela pode ser usada para examinar essa mesma realidade criada por ela (Hasan,
1996, p.34).
O que se tenciona aqui é mostrar que não se pode realizar uma análise
lingüística sem, além de levar em conta a relação da semântica com a léxico-
65
gramática, reconhecer também as relações que o contexto estabelece com ambas. Para
Hasan,
o contexto está envolvido como o ativador das escolhas semânticas de um falante; a
léxico-gramática entra como o recurso para a construção dessas escolhas
semânticas..... [...] os contextos – os aspectos relevantes da situação extra-lingüística
– são desconhecidos sem a referência ao significado: são as escolhas semânticas que
constroem grande parte do contexto para o ouvinte; (Hasan, 1996, p.106).
Isso significa que as habilidades e as estratégias comunicativas são abordadas
e analisadas tendo como pano de fundo o contexto sócio-cultural em que ocorrem.
Vale ressaltar que a LSF trata “a linguagem e o contexto social como abstrações
complementares, relacionadas pelo importante conceito de realização” (Halliday,
[1992]2002, p.352-68; Halliday & Matthiessen, 2004, p.24; Halliday & Martin, 1993,
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p.23; Hasan, 1995;1996, p.105-110), porque entende que a construção da realidade é
inseparável da construção do sistema semântico lingüístico no qual a realidade está
codificada, uma vez que o “nosso ambiente é moldado pela cultura e as condições nas
quais aprendemos a linguagem são, de forma geral, culturalmente determinadas”
(Halliday, 1978, p.1-3;p. 23).
Vista dessa forma, a realidade é um constructo social, pois ao ser construída
através de uma troca de significados na interação, torna os significados constitutivos
da realidade. No entanto, a construção da realidade depende de que a percepção, o
foco individual e o ponto de vista dos participantes estejam definidos por códigos
semióticos, um sistema de convenções, compartilhado entre os indivíduos,
os quais podem ser vistos como seres moldados pela soma de suas próprias
interações e, sobretudo, pela natureza dos códigos semióticos prevalecentes na sua
comunidade. O conjunto total dos códigos semióticos em uma comunidade servem
para definir a natureza do ‘mundo’ para seus membros (Hasan, 1996, p.38).
Nesse sentido, a linguagem é vista como uma parte natural do processo de
viver e, portanto, também usada para armazenar a experiência construída no curso
desse processo, tanto pessoal quanto coletivo. A linguagem é, entre outras coisas, um
meio para representar o conhecimento, um recurso sistemático para construir
significado em contexto, um meio de representação do mundo percebido ou
imaginado, pois
[...] não há nenhuma ordem para a experiência diferente da ordem dada pela
linguagem. Na realidade, poderíamos definir experiência em termos lingüísticos:
66
experiência é a realidade que construímos para nós mesmos por meio da linguagem
(grifo do autor) (Halliday & Matthiessen, 1999, p.1-3).
De acordo com o exposto, há uma reciprocidade indivíduo-meio social, na
qual a linguagem desempenha um papel central no desenvolvimento do homem, pois
ela é o meio através do qual os padrões de vida são transmitidos, através do qual o
homem aprende a agir como um membro de seu grupo, adotando os modos de
pensamento e ação, as crenças e valores do grupo, estando, dessa forma, relacionada
com o aspecto social da experiência humana (Halliday, 1978, p.10-14). Então, ao
produzir um discurso, o falante se apropria da linguagem,
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instituindo-se como EU e constituindo, ao mesmo tempo, como interlocutor, o outro,
que é por sua vez constitutivo do próprio EU, por meio do jogo de representações e
de imagens recíprocas que entre eles se estabelecem (Kock, 2004, p.19).
Nesse sentido também, pode-se dizer que “a linguagem exige e pressupõe o
outro” (Benveniste, [1974]1989, p.93).
Isto porque o outro (o interlocutor)
desempenha um papel fundamental na constituição do significado, pois não é um
elemento passivo nessa constituição, uma vez que ao usarmos a linguagem para fazer
sentido de nossa experiência e interagir com os outros, construímos nossa realidade
(Halliday & Matthiessen, 2004, p.24).
Seguindo essa linha de pensamento, estamos à mercê da linguagem, uma vez
que ao interagir linguisticamente, atuamos no outro, permitindo que o outro também
atue em nós. Dessa forma, podemos afirmar que a natureza do indivíduo é forjada no
social, pois os sujeitos são constituídos pelos discursos que estão ligados às estruturas
sociais, uma vez que “o falar sobre nossas experiências (e a forma como ouvimos
outras pessoas falarem sobre elas) influencia a forma como as vemos;” (Thompson,
2004, p.10).
Ao optar por um determinado fraseado, o falante está construindo
“experiência como um recurso, como um potencial para a compreensão,
representação e atuação na realidade” (Halliday & Matthiessen, 1999, p.1). Essa
experiência não deve ser tratada como conhecimento, mas como significado que é
construído na linguagem.
67
É nessa perspectiva que é possível dizer que a compreensão de um enunciado
depende não só do dito, mas da situação do discurso, das práticas, hábitos e valores
de um determinado contexto cultural e social, pois “Toda a linguagem funciona em
contextos de situação e está relacionada a esses contextos” (Halliday, 1978, p. 32) e,
portanto,
se conhecemos a situação, o contexto social de uso lingüístico, podemos pré-dizer
uma grande parte sobre a linguagem que ocorrerá, com razoável probabilidade de
estarmos certos (Halliday, 1978, p.32).
Por permear a vida social e desempenhar um papel central na formação sóciopolítica e nos sistemas ideológicos (Halliday & Martin, 1993, p.22; Hasan, 1996,
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p.133), a linguagem traz consigo o elemento ideológico, visto tratar-se de uma marca
que regula as relações de linguagem e da própria vida social, que é repleta de jogos de
poder, estratégias de controle etc.
A ideologia se encontra nas ações diárias, verbais e não-verbais e conduz aos
princípios essenciais que governam a estrutura social na qual está inserida e para a
qual fornece suporte. Para Hasan (1996, p.104-105),
se a ideologia tem algo a ver com a linguagem – e hoje o consenso parece ser o de
que o sistema de signos lingüísticos é totalmente ideológico – então, é certo que a
natureza do significado lingüístico – isto é a semântica – desempenha um papel
importante para que essa relação exista.
Martin, em seu livro ainda a ser publicado Genre Relations – Mapping
culture, afirma que a ideologia regula as categorias de gênero, etnia, classe etc. para
condicionar de forma distinta nosso acesso ao poder e ao controle, uma vez que “a
ideologia é entendida [no modelo de discurso em contexto social], em termos mais
gerais, como relações que permeiam todo o nível da semiose; não há significado fora
do poder” (Martin, rascunho datado de 24/02/2006).
Com relação à linguagem e à ideologia, o autor acrescenta ainda que
a ideologia está presente no conjunto total da linguagem no contexto social,
diferenciando os sujeitos sociais em hierarquias de poder, controle, posição social,
autoridade e importância (Martin, 2006).
Isto significa que para ser cúmplice na criação e manutenção das ideologias, o
sistema da linguagem
68
deve, por um lado, ter algum recurso para construir significados, e, por outro, os
significados construídos pela linguagem devem referir-se a uma realidade extralingüística que pode ser contestada em alguma medida (Hasan, 1996, p.105).
A partir dessa visão, a linguagem e a sociedade apresentam a mesma
necessidade: a da interação; “a sociedade é dada com a linguagem” e “a linguagem é
dada com a sociedade”, uma implicando a outra (Benveniste, [1974]1989, p.93). Isto
porque a linguagem como fato e produto do processo social expressa e “simboliza
ativamente [grifo do autor] o sistema social” (Halliday, 1978, p.3), porque
é através dos atos de significado que as pessoas apresentam a estrutura social,
afirmando suas próprias posições e papéis e estabelecendo e transmitindo os sistemas
compartilhados de valor e de conhecimento (Halliday, 1978, p.2),
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numa dialética natural entre o sistema social e a linguagem.
Da mesma forma pensa Lemke (1998, p.5) ao afirmar que
a linguagem, seja falada ou escrita, é explícita ou implicitamente dialógica; ou seja,
ela é dirigida a alguém, e o faz e ao seu próprio conteúdo temát
69
tempo, incluindo ela mesma, em um modo teórico ‘rico’: isto é, tanto construindo-o
(nossa base ideacional), quanto atuando nele (nossa base interacional). Em terceiro
lugar, ela é uma metáfora para o mundo material: a forma que a linguagem em si é
organizada, como um sistema estratificado e metafuncional, recapitula – representa,
assim dizendo – tanto a construção desse ambiente em sistemas & processos (nossas
metafunções) naturais (físicos-biológicos), sociais e semióticos, quanto as
contradições internas, complementariedades e padrões, através dos quais todos esses
sistemas & processos são caracterizados (nossa estratificação) (grifo dos autores).6
Pode-se inferir da afirmação de Halliday e da contribuição de van Dijk
mencionadas acima que, em algum sentido, o discurso (ou texto) internaliza o que
ocorre em outros momentos das práticas sociais e as “práticas são parcialmente
discursivas (falar, escrever etc. é uma forma de ação)” (Chouliaraki &
Fairclough,1999, p.37).
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Ao dizer que a linguagem é ação, coloca-se o uso da linguagem como a
realização de atos que deverão estar em conformidade com as regras, convenções e
práticas sociais, pois dessa conformidade depende o sucesso da interação. Isso quer
dizer que a linguagem é interpretada como um ‘recurso’ para alcançar um fim
(Halliday, [1970]2002, p.174).
Nesse sentido, o discurso pode ser entendido como os elementos semióticos
das práticas sociais, pois os usuários da linguagem falam como membros das
categorias, grupos e organizações, comunidades, sociedades ou culturas. Para van
Dijk (2000, p.5),
a noção de prática social [grifo do autor], em geral, implica uma dimensão social
mais ampla do discurso do que os diversos atos realizados pelos usuários da
linguagem em interação interpessoal.
É possível dizer então que a linguagem é um potencial de significados
compartilhados, isto é, que as convenções e práticas lingüísticas que regulam os
contextos de usos da linguagem são estabelecidos pela sociedade. É porque há essas
convenções e práticas lingüísticas e porque elas estão relacionadas a valores e
interesses, que é possível verificar a possibilidade e o sucesso da interação.
Como é através das operações lingüísticas que se dá a organização mental,
pode-se afirmar também que o pensamento é determinado pelo social. Logo, na
perspectiva sistêmico-funcional, a linguagem é um ‘potencial de comportamento’ em
6
Os conceitos de metafunção – ideacional, interpessoal e textual – assim como o de estratificação
serão definidos com mais detalhes nas seções a seguir.
70
um ‘potencial de significado’, isto é, a linguagem é o meio de expressar o que o
indivíduo ‘pode fazer’ na interação com outros indivíduos através da transformação
no que ele ‘pode significar’, o que é, por sua vez, codificado no que ele ‘pode dizer’
(Halliday, 1978, p.21-28).
Para Halliday (1985, p.4), o termo ‘social’ sugere duas coisas simultâneas:
uma é ‘social’ usada no sentido do sistema social, o qual tomo como sinônimo de
cultura. Dessa forma, quando digo ‘semiótica-social’, simplesmente refiro-me à
definição de um sistema social, ou uma cultura, como um sistema de significados.
Mas também quero dizer uma interpretação mais específica do mundo ‘social’ para
indicar que estamos interessados particularmente nas relações entre linguagem e
estrutura social, considerando a estrutura social como um aspecto do sistema social.
Resumindo, a linguagem não existe fora dos sujeitos que a falam e fora dos
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eventos discursivos nos quais intervêm e nos quais constituem seus conhecimentos e
saberes do mundo. O contexto de situação (ambiente imediato) e o contexto de
cultura (referência mais ampla) são determinantes para a compreensão do que é dito
pelos interlocutores (Halliday, 1985, p.46-7), pois “[...] a linguagem é vista como a
fundação da experiência humana e o significado como o modo essencial de ordem
mais alta de consciência humana” (Halliday & Matthiessen,1999, p.3).
Segundo os autores, o significado pode ser pensado como um tipo de valor
social, como foi considerado por Saussure, mas valor
significativamente
diferente,
pois
o
significado
só
pode
em um sentido
ser
construído
simbolicamente, uma vez que essa “consciência de ordem mais alta é constituída
sócio-semioticamente” (Halliday & Matthiessen, 1999, p.609).
Em outras palavras, a significação não se baseia numa relação entre símbolos
e dados de um mundo real de vida independente, mas no fato de que as palavras e as
orações constroem seus significados no contexto, o que implica a noção de que os
conceitos decorrem de padrões criados culturalmente. Os sistemas semióticos são
sistemas sociais onde o valor foi transformado em significado (Halliday &
Matthiessen, 1999, p.509).
Os significados são construídos e reconstruídos dentro das diversas situações
de discurso e podem levar a mudanças significativas, sendo atualizados nas novas
situações discursivas (Arrojo, 1992). Essa troca é um processo criativo no qual a
linguagem é um dos recursos simbólicos. Posto dessa forma, “não há significados
71
esperando para serem decodificados;” (Halliday, 1994, p.xii; Halliday & Matthiessen,
2004, p.23), ou seja, os significados não são prévios, mas elaborados no interior das
relações sociais e cognitivas, dos sistemas semióticos sociais, dos quais a linguagem é
um deles.
2.1.1
A estratificação da linguagem
Para a LSF, a linguagem é um “complexo sistema semiótico que possui vários
níveis ou estratos” (Halliday & Matthiessen, 2004, p.24). Este é um ponto importante
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que torna o modelo sistêmico-funcional um arcabouço teórico-metodológico
potencial para a análise lingüística, pois concebe a linguagem organizada em
diferentes níveis – estratos –, os quais vão desde um estrato mais abstrato – a
ideologia – até o nível concreto da expressão (fonético).
O sistema da linguagem se apresenta organizado em três estratos
diferenciados pela ordem de abstração, nos níveis Fonológico, Léxico-gramatical e
Semântico. Embora não se conecte diretamente com o social, a léxico-gramática é
historicamente moldada através de processos de semogêneses7 – a produção e
mudança histórica da semiótica – os quais abrem o sistema da linguagem para a
modelagem social (Halliday & Matthiessen, 1999, p.17-22; Tench, 2003, p.209-234).
Cada nível é uma rede de opções inter-relacionadas em som, fraseado e
significado, os quais são realizados como estruturas. Esses três estratos relacionam-se
por meio da realização,
a semântica, ou o sistema de significado, é realizado pela realização da léxicogramática, ou o sistema de fraseado (isto é, as estruturas gramaticais e os itens
lexicais); e a léxico-gramática é realizada pela realização da fonologia, ou o sistema
de som (Halliday & Matthiessen, 2004, p.4-5),
7
Semogêneses é o termo que Halliday & Matthiessen (1999, p.17) criaram para referirem-se à criação
de significado. Os autores sugerem que há, pelo menos, três dimensões ou períodos para tal processo.
A primeira é a dimensão filogenética que refere-se à evolução na linguagem e nas línguas
individualmente. A segunda é a dimensão ontogenética que refere-se ao desenvolvimento lingüístico
individual, isto é, refere-se ao aumento do repertório ou armazenamento individual. A terceira é a
dimensão logogenética que refere-se ao desenvolvimento do significado no discurso. Esses são os três
processos pelos quais os significados estão continuamente sendo criados, transmitidos, recriados,
ampliados e mudados.
72
sendo que a léxico-gramática e a semântica, constituindo o plano do conteúdo,
permitem que o potencial de significados da linguagem seja expandido
indefinidamente.
O conceito de realização refere-se à relação entre os diferentes tipos de
fenômenos abstratos. Na LSF, a especificidade da semiótica e da relação entre a
semiótica e o social são discutidas em termos do princípio da ‘realização’. A relação
entre camadas é uma relação de ‘realização’, ou seja, cada camada define um
potencial, um conjunto de possibilidades – um potencial de significado (semântica),
um potencial de fraseado (léxico-gramática), um potencial de expressão. O potencial
de significado é realizado não só no potencial de fraseado, mas na realização do
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potencial de fraseado no potencial de expressão (Halliday & Matthiessen, 1999).
O termo ‘realização’ refere-se, portanto, a “uma relação de um tipo muito
diferente, [...], onde os dois só podem existir e permanecer existindo,
simultaneamente” (Halliday & Martin, 1993, p.17). Isto significa que um sistema
resulta ou redunda em outro. Trata-se, portanto, de uma determinação mútua, uma
relação dialética.
A realização envolve também uma perspectiva dupla de construção e ativação:
opções semânticas constroem opções contextuais e estas são, elas mesmas,
construídas pelas opções léxico-gramaticais. Ao mesmo tempo, as opções semânticas
são ativadas pelas contextuais; e, por sua vez, elas mesmas ativam as opções léxicogramaticais (Hasan, 1996, p.110).
Trata-se de um relacionamento intra-estratos,
relação de um stratum com outros strata (em qualquer sistema estratificado, com
linguagem como prototípica); quando mudamos a atenção do semântico ‘para cima’
– para o contexto – ou ‘para baixo’ – para a léxico-gramática e a
fonologia/grafologia, estamos nos movendo na realização (Halliday & Matthiessen,
1999, p.327).
Por exemplo, a linguagem – um sistema semiótico – é a realização de um
outro sistema semiótico mais abstrato – contexto social –, ou ainda, a cultura é mais
abstrata do que um texto, os significados que compõem um texto são, por sua vez,
mais abstratos do que os fraseados que os expressam.
Podemos dizer então que a realização é um tipo de re-codificação ou
simbolização, pois há uma mútua determinação, o que significa que “um sistema
73
redunda em outro; a linguagem constrói, é construída por e reconstrói e é reconstruída
pelo contexto social” (Halliday & Martin, 1993, p.24).
A realização também é interpretada como uma cadeia de meta-redundância –
uma redundância em um nível é redundante em parte de uma redundância em um
outro nível, o qual é, por sua vez, redundante em parte de uma redundância em um
outro nível e assim por diante. Na LSF, o termo realização também refere-se à
instanciação de sistema em processo (Halliday & Martin, 1993, p.42).
Os dois tipos de realização (instanciação e meta-redundância) são importantes
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para a promoção do “diálogo entre o mom[3(H-230(t)o)4(mca)4(nco e)4 T*[(pe)4(l)-2(o c)4(oet)-2(r)3(ó T*[(pe
74
como um processo, no sentido de “um processo contínuo de escolhas semânticas, um
movimento pela rede de potencial de significados, com cada conjunto de escolhas
constituindo o ambiente para o conjunto a seguir” (Halliday & Hasan, 1985, p.10).
No processo contínuo de escolhas semânticas, há uma relação de troca de
significados constante entre o texto e seu ambiente, resultando então em uma ação
social porque os significados são criados e trocados no social, o que constitui o texto
como “forma lingüística de interação social” (Halliday, 1978, p.122), cuja função é a
da sociabilização, isto é, a de conhecer uns aos outros, manter as relações sociais. Por
conseguinte, o texto também é, freqüentemente, um local de contestação, onde os
participantes se esforçam para impor seus modos de interpretação nos outros ou para
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negociar os significados.
Essa ‘troca espontânea de significados’ é onde se dá a construção da
realidade, por meio da qual “a cultura é transmitida aos indivíduos ou recriada por
eles” (Halliday, 1978, p.140). Como Halliday explica:
em sua significação mais geral, um texto é um evento sociológico, um encontro
semiótico através do qual os significados que constituem o sistema social são
trocados. O indivíduo é, devido a sua associação, um ‘significador’, aquele que
significa. Por seus atos de significar, e pelos de outros indivíduos, a realidade social
é criada, mantida em boa ordem e continuamente moldada e modificada (Halliday,
1978, p.139).
Nesse sentido, o texto, como produto do seu ambiente e funções nesse
ambiente, é um processo social que necessita ser analisado como manifestações da
cultura que em grande parte constrói, pois os textos são influenciados não só pela
visão de mundo de seus autores, como também por suas ideologias e por fatores no
contexto de situação.
O texto é então um processo de instanciação das escolhas léxico-gramaticais
de acordo com as funções que a linguagem desenvolve para estar a serviço das
necessidades sócio-culturais de comunicação humana, em um determinado contexto
de situação – canal para as mudanças socialmente orientadas no sistema lingüístico –
sendo uma forma de troca de significados, escrita ou oral (Halliday & Hasan, 1985,
p.11). O texto é “o que se quer significar, selecionado em um conjunto de opções que
constituem o que pode ser significado” (Halliday, 1978, p.109).
75
Por instanciação, entende-se uma dimensão abstrata que se refere “ao
movimento do potencial semântico no sistema geral para as instâncias desse potencial
em um texto particular” (Halliday & Matthiessen, 1999, p.14). Trata-se de um
processo de movimento contínuo de significação entre diferentes estratos do sistema,
ou seja, “a relação entre sistema (o potencial) e instância” (Halliday & Matthiessen,
1999, p.327). Instância entendida como “um conjunto de características (tipos
semânticos) selecionadas, com especificações realizacionais associadas – um padrão
instancial sobre o potencial semântico” (Halliday & Matthiessen, 1999, p.45).
A partir da visão de que o texto é interação, “uma instância de significado
social em um contexto particular de situação” (Halliday & Hasan, 1985, p.11), é
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possível realizar uma análise e descrição das instanciações do verbo ‘ser’, nas quais
se ultrapassem as palavras e as estruturas e se interpretem os objetivos sociais nelas
realizados como um evento ativo, pois a LSF estuda textos como comportamento
comunicativo, como produção de significado no contexto de uma cultura, na qual
toda a interação social ocorre.
Nessa perspectiva, o texto inclui o contexto no qual se desenvolve por meio
de “uma relação sistemática entre o ambiente social por um lado, e a organização
funcional da linguagem por outro”. Ambos, o texto e o contexto, são, portanto,
‘modos de significado’ (Halliday & Hasan, 1985, p.10-11). Sendo a relação entre o
texto e o contexto uma relação de inclusão, na qual “os participantes em uma cultura
fazem uso dessa relação de proximidade [...] como uma base para suas interações”
(Halliday & Hasan, 1985, p.36), isto é, em virtude dessa relação, os falantes podem
fazer inferências sobre os tipos de significados que serão trocados.
Halliday, no sub-título de seu livro Language, context, and text: aspects of
language in a social-semiotic perspective [Linguagem, contexto e texto: aspectos da
linguagem em uma perspectiva semiótica-social] (1985, p.5), justifica o estudo da
linguagem em contextos afirmando que
[...] a forma para compreender a linguagem reside no estudo de textos. Os termos,
CONTEXTO e TEXTO, colocados lado a lado dessa forma, servem como um
lembrete de que esses são aspectos do mesmo processo. Há texto e há outro texto que
o acompanha: texto que está ‘com’, denominado com-texto. Essa noção do que é
‘com texto’, no entanto, vai além do que é dito e escrito: ela inclui outros
acontecimentos não-verbais – o ambiente total no qual um texto se desenvolve.
76
Portanto, ele serve para fazer uma ponte entre o texto e a situação na qual os textos
ocorrem na realidade.
Na LSF, o texto é visto como um evento sociológico, que por sua vez é
determinado por outros fatores tais como: o Contexto de cultura, o Contexto de
situação, a estrutura social, os códigos, os sistema léxicos e semânticos, os quais
constituem uma rede de escolhas de significados. É dessa forma que o texto reflete a
“persistência e a mudança no sistema social” (Halliday, 1978, p.133-135), insere-se
no contexto situacional resultando no produto do ambiente e funcionando nesse
ambiente onde a linguagem expressa e simboliza em seu sistema semântico a
realidade social.
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Vista como potencial semiótico, potencial de significados compartilhados, a
descrição da linguagem deve ser uma descrição das escolhas que os usuários fazem
em um determinado cenário para construir um determinado significado. As estruturas
lingüísticas são consideradas ‘naturais’ porque expressam os significados exigidos
por um determinado contexto e as escolhas disponíveis dependem dos aspectos nos
quais a linguagem está sendo usada.
As diferentes redes codificam diferentes
espécies de significado que se ligam às diferentes funções da linguagem. O
significado é a função da linguagem.
A partir dessa visão, passo a considerar a linguagem como interação social
que “toma tipicamente a forma lingüística” (Halliday, 1978, p.125) de texto que, por
sua vez, torna-se os “dados usados para as análises lingüísticas” (Halliday &
Matthiessen, 2004, p.33), ou seja, a forma para a compreensão e análise lingüística,
nesta tese, reside no estudo de textos e contextos e, neste arcabouço teóricometodológico, a descrição lingüística está baseada na teoria de significado como
escolha, “através da qual a linguagem, ou qualquer outro sistema semiótico, é
interpretado como redes de opções entrosadas: ou isto ou aquilo, ou o outro, ou mais
como este ou mais como aquele, assim por diante” (Halliday, 1994, p.xiv).
Contexto para o autor significa o ambiente total no qual o texto se desenvolve,
precedendo “os textos. A situação é anterior ao discurso que se relaciona a ela”
(Halliday & Hasan,1985, p.5).
77
Em Text semantics and clause grammar: How is a text like a clause?
[Semântica do texto e gramática da oração: de que forma um texto é semelhante a
uma oração?] ([1981]2002, p.219-60), Halliday argumenta sobre a natureza do texto e
da oração. Para o autor, o primeiro é definido como um elemento funcional mais
abstrato, ou seja, de caráter semântico, estando relacionado às variações do Contexto
de situação: Campo, Relações e Modo; o segundo é definido como estrutura léxicogramatical. Halliday faz uma comparação entre os dois conceitos mostrando que o
texto, mesmo estando em um nível diferente (estrato), possui muitos elementos em
comum com a oração. Isto significa que ambos possuem propriedades semelhantes
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como estrutura, função e desenvolvimento.
2.2
O contexto sócio-lingüístico – Contexto de Cultura e Contexto de
Situação
Segundo Halliday (1978, p.109; Butt et Allii, 1997, p.11), a linguagem está
incrustada em dois contextos. Um é o Contexto de Cultura, definido como um
sistema semiótico, realizado pela linguagem, o qual tanto cria quanto é criado por ela.
O outro, o Contexto de Situação.
A idéia de Contexto de Cultura e Contexto de Situação, defendida por
Halliday, originou-se nas pesquisas desenvolvidas pelo antropólogo Bronislaw
Malinowski (1923-1935) com os habitantes primitivos de um grupo de ilhas no
Pacífico Sul. Malinowski necessitava de um termo que expressasse o ambiente total,
incluindo o ambiente verbal, pois era necessário fornecer informações a respeito do
que estava acontecendo no momento e sobre o antecedente cultural, porque envolvido
em qualquer tipo de interação lingüística, em qualquer tipo de troca de conversação,
estavam os sinais e sons imediatos que circundavam o evento e a história cultural por
trás dos participantes. A cultura é importante para a compreensão da história que
subjaz aos eventos discursivos e, vista dessa forma, refere-se aos valores e normas de
uma comunidade.
78
O estudo da linguagem como uma expressão do comportamento social em
contextos culturais foi originalmente sugerido por Malinowski (1960, p.5):
a cultura, como o mais amplo contexto de comportamento humano, é tão importante
para o psicólogo como para o estudante de Ciências Sociais, tão importante para o
historiador como para o lingüista. Acredito que a lingüística do futuro, especialmente
no tocante à ciência do significado, tornar-se-á o estudo da linguagem no contexto da
cultura.
Por cultura, o autor entende “o todo global consistente de implementos e bens
de consumo, de cartas constitucionais para os vários agrupamentos sociais, de idéias e
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ofícios humanos, de crenças e costumes” (Malinowski, 1960, p. 36),
um amálgama global de instituições em parte autônomas, em parte coordenadas. Ela
integra-se numa série de princípios tais como a comunhão de sangue por meio da
procriação; a contigüidade em espaço relacionada com a cooperação; a
especialização em atividades; e, [...] o uso do poder na organização política. Cada
cultura deve sua integridade e sua auto-suficiência ao fato de que satisfaz toda a
gama de necessidades básicas, instrumentais e integrativas (Malinowski, 1960, p.40).
A idéia é a de que os seres humanos organizam-se em grupos permanentes
que se relacionam por alguma lei, acordo ou costume e que cooperam por meio da
obediência às regras sociais, considerações de hábitos, assim como aos costumes
legais, religiosos e morais que formam seu comportamento.
Ao mencionar o fato de que a cultura mantém-se íntegra e auto-suficiente ao
satisfazer suas necessidades básicas, instrumentais e integrativas, Malinowski
desenvolve a noção de função, estabelecendo que ela sempre significará a satisfação
de uma necessidade, “seja ela um simples ato de comer até a ação de comungar que
está relacionada a todo um sistema de crenças determinadas por uma necessidade
cultural de unificação com o Deus vivo” (Malinowski, 1960, p. 159).
Essa noção de função como satisfação de uma necessidade é identificada na
concepção de Halliday ([1970]2002, p.173) de que “a natureza da linguagem está
intimamente relacionada às demandas que fazemos a ela, as funções que ela tem de
servir” (Halliday, [1970]2002, p.173). Portanto, se função é necessidade e ambas
culturais e, se a linguagem para satisfazer as diferentes necessidades tem de servir a
determinadas funções, a linguagem é funcional e é daí que é possível constatar a
inter-relação entre cultura e linguagem.
79
Logo, a concepção de cultura como portadora de crenças, ideais e ideologias,
visão de mundo e valores que são construídos na linguagem revela que as funções da
linguagem são específicas da cultura. Daí serem a linguagem e
a cultura
inseparáveis, uma está imbricada na outra.
A palavra função para Halliday (1985, p.15) é sinônimo de uso e as funções
da linguagem são as formas como as pessoas usam a linguagem para fazer coisas,
para atingir objetivos, enfim para a satisfação de alguma necessidade, conceito este,
como vimos acima, elaborado por Malinowski. Esse conceito é tão importante para
Halliday que ele chega a declarar que a “função será interpretada como uma
propriedade fundamental da linguagem” (Halliday, 1985, p.17).
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O conceito de Contexto de Cultura (o contexto geral que dá significado às
atividades reconhecidas culturalmente), foi ampliado por J. R. Firth, lingüista
britânico, fundador da lingüística britânica e o primeiro professor de Lingüística
Geral do Reino Unido.
Firth ([1935]1964) estava interessado na formação cultural da linguagem e,
portanto, assumindo a noção de Contexto de Situação, continuou a ênfase de
Malinowski na abordagem social e funcional da linguagem, construindo sua própria
teoria. Firth necessitava de um conceito de contexto que pudesse ser construído
dentro de uma teoria de lingüística geral. Sendo assim, estabeleceu um arcabouço
para a descrição do Contexto de Situação que pudesse ser usado para o estudo de
textos como parte dessa teoria, levando em consideração como ponto de partida para
a caracterização do Contexto de Situação os seguintes aspectos:
- os participantes da situação – as pessoas, correspondendo mais ou menos ao
que os sociólogos considerariam como o status e os papéis dos participantes;
- a ação dos participantes – o que eles estão fazendo, incluindo tanto sua ação
verbal como suas ações não verbais;
- outras características relevantes da situação – os objetos e eventos
circundantes da situação, na medida em que eles tinham alguma relação com o que
estava acontecendo;
80
- os efeitos da ação verbal – alterações causadas pelo que os participantes na
situação disseram (Halliday, 1985, p.8). Forneço abaixo uma representação da idéia
de contexto na perspectiva da LSF.
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Figura 1 – Representação do conceito de contexto
Para Firth ([1935]1964, p.27), o conceito central da semântica é o Contexto de
Situação, no qual estão “o participante humano ou os participantes, o que eles dizem
e o que está acontecendo”. Como, também segundo o autor, “o homem carrega sua
cultura e muito de sua realidade social para onde quer que vá”, é possível inferir que
o Contexto de Situação compartilha significados comuns aos participantes, desde que
os mesmos pertençam à mesma cultura, o que pode ser comprovado na citação a
seguir:
durante o crescimento, somos progressivamente incorporados em nossas
organizações sociais e a condição e meios principais dessa incorporação é aprender a
dizer o que os outros companheiros esperam que digamos em determinadas
circunstâncias (Firth, [l935]1964:28).
Isto porque para Firth ([1935]1964:7), “o significado completo de uma
palavra é sempre contextual, e nenhum estudo de significado separado de um
contexto completo pode ser levado a sério”.
O que Firth pretende defender é que o contexto determina o que podemos
dizer para que possamos ser compreendidos pelos nossos ouvintes e, dessa forma,
“nos estabelecermos em termos discursivos com nosso ambiente” (Firth, [1935]1964,
81
p.29) e, para que possamos representar os diversos papéis para satisfazer nossas
necessidades, devemos saber qual é o nosso papel e o que dizer pois, “a
multiplicidade de papéis sociais que temos para representar como membros de uma
raça, nação, classe [...] envolve também um determinado grau de especialização
lingüística” (Firth, [1935]1964, p.29).
A LSF segue a tradição firthiana de estudar a linguagem como uma expressão
do comportamento social nos contextos situacionais e, assim sendo, a partir dessas
concepções, Halliday (1985, p.9-10) escolheu uma forma apropriada para descrever o
contexto de situação de um texto, relacionando-o a sua importância na compreensão
do que é dito na interação. Para o autor, causava-lhe curiosidade entender como,
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apesar do ruído que sempre envolve as interações, os interactantes conseguem se
entender. Sua sugestão era a de que um sabia o que o outro ia dizer e, portanto, fazia
previsões sobre o que o outro diria a seguir. Essas previsões eram feitas a partir do
Contexto de Situação.
Essencialmente, o que isso significa é que a linguagem ocorre em algum
ambiente, em relação a alguma experiência, ações e eventos dos quais o que é dito
deriva seu significado (Halliday, 1978, p.109). Isto porque
todo o ato de significado tem um Contexto de Situação, um ambiente no qual ele é
desempenhado e interpretado. Para que a comunicação possa acontecer, é necessário
para aqueles que estão interagindo que eles sejam capazes de fazer previsões
inteligentes e informadas sobre que tipos de significados provavelmente estão sendo
trocados. Eles o fazem com base na sua interpretação do significado – a estrutura
semiótica – da situação (Halliday, [1970]2002, p.201).
As inferências feitas pelo falante e seu interlocutor sobre os tipos de
significados prováveis de serem trocados partem da situação na qual o texto se realiza
e também das inferências a partir do texto para a situação.
Por Contexto de Situação então deve-se entender “uma representação abstrata
do ambiente em termos de determinadas categorias gerais que têm relevância para o
texto” (Halliday, 1978, p.109; Halliday & Matthiessen, 1999, p.375). Em outras
palavras, o Contexto de Situação não se refere ao ‘contexto real’, mas trata-se de uma
abstração teórica, uma vez que ele pode ser “totalmente remoto do que está
acontecendo durante o ato de fala ou escrita” (Halliday, 1978, p.109).
82
Nas palavras de Halliday (1978, p.109), o Contexto de Situação é “uma
estrutura semiótica”, uma “constelação de significados derivados do sistema
semiótico que constitui a cultura”.
Represento abaixo, em termos gráficos, esse constructo semiótico que aborda
o texto inserido nos Contextos de Cultura e de Situação.
Figura 2 – Representação gráfica de Texto em Com-texto
Contexto de cultura
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Contexto de situação
Texto
O Contexto de Situação está encapsulado no texto, não de uma forma
fragmentada, mas através de uma relação sistemática entre o ambiente social por um
lado e a organização funcional da linguagem por outro. Logo, a linguagem existe em
dois níveis: nível não-lingüístico e nível lingüístico.
O Contexto ativa os significados – a semântica – que são ralizados na e pela
léxico-gramática, que atua na “organização interna da linguagem, sendo o sistema de
relações das formas lingüísticas” (Halliday, 1978, p.114), e que, por sua vez, se
expressa em sons/símbolos. O conjunto de opções léxico-gramaticais que realizam
tais significados encontram-se no nível lingüístico.
Verifica-se, portanto, que há uma circularidade entre significados e gramática
quando dizemos que os significados são realizados ou construídos na e pela
83
gramática, o que significa que eles são acessíveis aos falantes somente via gramática
e que a gramática tem um papel criador interno de significados.
Vejamos abaixo uma representação gráfica da realização lingüística com
relação às concepções de Contexto de Cultura e Contexto de Situação, onde as setas
são representadas com duas pontas para expressar essa circularidade.
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Figura 3 – Representação gráfica do processo de expressão de significado.
As razões acima justificam a afirmação de Halliday (1994, p.xv) de que
“qualquer avaliação de um texto exige uma interpretação também de seu contexto”.
Portanto, para uma análise e descrição do verbo ‘ser’, devem ser considerados o texto
e o contexto, tanto situacional – que pode ser a cidade do Rio de Janeiro, a cidade de
São Paulo e o Brasil em geral, quanto o cultural – a cultura brasileira.
A estrutura semiótica do Contexto de Situação é constituída de três conjuntos
de sistemas sócio-semióticos – campo, relações e modo oracional –, os quais
“especificam as solicitações que podem ser feitas à linguagem, assim como os papéis
que ela pode desempenhar para corresponder a tais solicitações” (Halliday &
Matthiessen, 1999, p.375) e nos levam a compreender como as pessoas fazem
previsões sobre os tipos de significado que estão sendo trocados. Essa relação
84
realizacional está organizada de acordo com o princípio da diversificação funcional,
ou seja, ela é diversificada funcionalmente em três domínios ou parâmetros gerais.
São eles, conforme Halliday, 1978, p.33; 1993, p.32-33:
1.
Campo do discurso – a ação social - “refere-se ao cenário
institucional no qual um evento lingüístico ocorre, e inclui o
assunto em si, o que está acontecendo, a natureza da ação social:
em que é que os participantes estão envolvidos (a atividade total
dos participantes)...”
2.
Relações do discurso – a estrutura de papel - “refere-se à relação
entre participantes, seus papéis e status... Quem está participando.
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Que tipos de relação de papéis ocorrem entre os participantes,
incluindo questões tais como, se a relação é permanente ou
temporária,
os
papéis
discursivos
que
os
participantes
desempenham no diálogo e a conexão total de relações
significativas nas quais estão envolvidos, inclusive o grau de carga
emocional na relação”.
3.
Modo oracional – a organização simbólica - “refere-se ao canal de
comunicação adotado: não somente a escolha entre meio falado e
escrito, mas escolhas muito mais detalhadas, como as relacionadas
com o papel da linguagem na situação”... “O que é que os
participantes estão esperando que a linguagem faça para eles na
situação: a organização simbólica do texto, o status que ele tem e
sua função no contexto, incluindo o canal (falado ou escrito ou a
combinação dos dois).
Os constructos teóricos hallidianos acima enfatizam o aspecto social que
permeia as escolhas lingüísticas dentro de um sistema simbólico léxico-gramatical,
o campo – a natureza da atividade social – determina os significados ideacionais; as
relações – os status sociais e os papéis dos participantes na situação – determinam os
significados interpessoais; enquanto o modo oracional – a parte atribuída à interação
lingüística na situação total – determina os significados textuais (Halliday,
[1970]2002, p.201).
85
A linguagem, como sistema, oferece uma gama de padrões potenciais dentro
de um Contexto Social, que molda e determina essas mesmas escolhas de acordo com
a motivação ou, ainda, a função a ser desempenhada. Para que possam ser
concretizados, esses padrões dependem do Contexto de Situação, da função a ser
desempenhada, do tipo de relação entre os indivíduos e das características
individuais, tendo em vista que a linguagem é
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[...] a habilidade de ‘significar’ nos tipos de situação, ou contextos sociais, que são
gerados pela cultura. Quando falamos sobre os usos da linguagem, estamos
interessados no potencial de significado que está associado com tipos de situação
particular; e provavelmente estamos interessados de forma especial naqueles que são
de alguma importância social e cultural [...]. A forma como consideramos o estudo da
linguagem e o homem social, por meio do conceito de ‘potencial de significado’,
deve ser entendida como um tipo de ‘sócio-semântica’, no sentido de que é o estudo
do significado em um arcabouço social ou sociológico (Halliday, 1978, p.34).
O potencial de significado pode ser entendido, portanto, como
[...] o âmbito paradigmático de escolha semântica que está presente no sistema, e ao
qual os membros de uma cultura têm acesso na sua linguagem, [...] Interpretado no
Contexto de Cultura, ele é o sistema semântico total da linguagem. [...] Interpretado
no Contexto de Situação, ele é o sistema semântico particular, ou o conjunto de subsistemas, que está associado a um tipo particular de situação ou Contexto Social
(Halliday, 1978, p.109).
O gênero8 textual, na perspectiva sistêmico-funcional, é definido como uma
atividade orientada por um objetivo específico, organizada em estágios, na qual os
participantes se engajam como membros da cultura, portanto está ligado ao Contexto
de Cultura. Este determina a natureza dos códigos, entendidos como princípios
semióticos abstratos que, quando organizados, governam as escolhas entre os
falantes.
O registro textual, por sua vez, refere-se ao contexto imediato do evento de
uso da linguagem. Halliday (1978, p.64) considera o conceito de ‘registro’ “uma
8
A noção de gênero na LSF difere do significado que o uso tradicional lhe atribuiu, em que o gênero
designa tipos de produções literárias, em dois aspectos importantes: primeiro, as definições de gênero
originam-se da identificação de gêneros discursivos do teórico literário Bakhtin como ‘tipos
relativamente estáveis’ de enunciados. Na LSF, o gênero foi expandido para incluir gêneros do dia a
dia, assim como os literários, tanto nos modos escritos quanto orais. Em segundo lugar, os lingüistas
sistêmicos definem gênero funcionalmente em termos de seu objetivo social. Então, gêneros diferentes
são diferentes formas de usar a linguagem para executar diferentes tarefas estabelecidas culturalmente,
e textos de diferentes gêneros são textos que estão alcançando objetivos diferentes na cultura.
86
abstração útil que liga variações de linguagem a variações de conteúdo social” e
sugere que “há três aspectos em qualquer situação que têm conseqüências
lingüísticas, as três dimensões-chave, as chamadas variáveis de registro: campo,
relação e modo e, portanto, elas estão ligados ao Contexto de Situação.
Em outras palavras, um registro é constituído pelas “características
lingüísticas que estão tipicamente associadas com uma configuração de características
situacionais” (Halliday, 1976, p.22). Essas três variáveis do registro delineiam as
relações entre a função e a forma da linguagem.
Os aspectos do discurso relacionados ao Contexto de Situação definidos pelos
componentes semióticos acima descritos associam-se a redes de opções relativamente
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independentes, as quais correspondem às diferentes funções que a linguagem deve
desempenhar para satisfazer as necessidades humanas.
Em outras palavras, em análises de textos realizados com base na LSF, todos
os significados têm uma conexão direta com o Contexto Social – estrato acima –, pois
para a LSF, o contexto tem implicações cruciais para a análise da linguagem em uso
e, também, uma conexão direta com os elementos léxico-gramaticais – estrato abaixo.
Portanto, não se analisa um texto unicamente em termos dos elementos léxicogramaticais, mas cada significado deve ser relacionado simultaneamente a rotinas
sociais e a formas lingüísticas.
2.3
O Sistema Semântico da linguagem: o Sistema Léxico-gramatical
O Sistema Semântico da linguagem engloba todas as possibilidades de
escolhas semântico-lingüísticas para um falante em situações de interação. O sistema
de opções disponíveis para as escolhas lingüísticas é a ‘gramática’ (Halliday,
[1970];2002, p.174), o potencial de significado, no qual “o falante ou escritor faz sua
seleção”, mas ele não o faz ‘no vácuo’, e sim no contexto das situações discursivas. A
gramática é o mecanismo lingüístico que organiza as opções em conjuntos, dentro dos
quais o falante faz seleções de acordo com o uso que deseja no momento do evento
de fala, ligando uma escolha a outra e realizando-a em uma forma estruturada e
unificada.
87
Para Halliday ([1970]2002, p.174-5), quando examinamos a gramática,
verificamos que há opções que se combinam em redes que correspondem às funções
básicas da linguagem. Isto significa que o Sistema Semântico é organizado em
componentes de potencial de significado que se relacionam com essas funções mais
gerais que a linguagem deve servir (Halliday, 1978, p. 21), que são:
1.
A linguagem serve para a expressão do ‘conteúdo’: isto é, da
experiência do falante no mundo, incluindo o mundo interno de sua
própria consciência. Isto porque usamos a linguagem para falar
sobre nossa experiência do mundo, incluindo os mundos na nossa
mente, para descrever eventos e estados e as entidades envolvidas
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nelas. Chamamos a isso de função ideacional.
Ao servir essa função, a linguagem também dá estrutura à experiência, e ajuda a
determinar nossa forma de olhar para as coisas, de forma que é necessário algum
esforço intelectual para vê-las de maneira diferente do que ela nos sugere (Halliday,
[1970]2002, p.175).
2.
A linguagem serve para estabelecer e manter as relações sociais:
para a expressão dos papéis sociais, que incluem os papéis de
comunicação criados por ela, como por exemplo, os papéis que
assumimos para perguntar ou responder a perguntas. Isto porque
usamos a linguagem para interagir com outras pessoas, para
estabelecer e manter relações com elas, para influenciar seu
comportamento, para expressar nosso ponto de vista sobre as coisas
do mundo, e para sugerir ou mudar o dos outros. Chamamos a isso
de função interpessoal.
Por meio dessa função, os grupos sociais são delimitados, e o indivíduo é
identificado e fortalecido, uma vez que, ao capacitá-lo para interagir com os outros, a
linguagem também serve à expressão e ao desenvolvimento de sua própria
personalidade (Halliday, [1970]2002, p.175).
3.
Finalmente, a linguagem tem de estabelecer as ligações com ela
mesma e com as características da situação na qual é usada. Isto
porque, ao usarmos a linguagem, organizamos nossas mensagens de
uma forma que indica como elas combinam com as outras
mensagens e com o contexto maior no qual estamos falando ou
88
escrevendo. Chamamos a isso de função textual, uma vez que essa é
a que capacita o falante ou autor a construir ‘textos’; e capacita o
ouvinte ou leitor a distinguir um texto de um conjunto aleatório de
sentenças. Um aspecto da função textual é o estabelecimento de
relações coesivas entre uma sentença e outra no discurso
(Thompson, 1996, p.28).
A metafunção textual é uma metafunção capacitadora; ela está relacionada à
organização dos significados ideacionais e interpessoais como discurso – como
significado que está contextualizado e compartilhado (Halliday & Matthiessen, 1999,
p.7-8).
Na LSF, a gramática e o léxico são tratados como perspectivas
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complementares que se relacionam em termos de generalidade – o léxico, como
gramática mais delicada, ou gramática como léxico menos delicado, isto porque
a região lexical ou léxico não é um componente separado, mas simplesmente a
extremidade mais ‘delicada’ da léxico-gramática (unificada). Há uma
complementariedade aqui. O léxico e a gramática não são dois fenômenos diferentes;
eles são formas diferentes de se olhar para o mesmo fenômeno. Alguns aspectos
desse fenômeno de ‘fraseado’ na linguagem são destacados ao serem vistos como
gramaticais; outros ao serem vistos como léxico (Halliday & Matthiessen, 1999, p.5).
O conceito de delicadeza (delicacy) refere-se a uma escala abstrata que
consiste em “uma ordem uniforme do mais geral para o mais delicado” (Halliday &
Matthiessen, 1999, p.83). Trata-se de uma “relação entre as características mais gerais
e as mais específicas” (Halliday & Matthiessen, 1999, p.327). Ao longo dessa escala,
“os sistemas semânticos diferem tanto no número de distinções em qualquer grau de
delicadeza quanto na delicadeza geral que é alcançada” (Halliday & Matthiessen,
1999, p.83). Em geral, o movimento na escala de delicadeza é construído léxicogramaticalmente como um movimento da gramática para o léxico da seguinte forma:
a parte inicial da escala de delicadeza é construída na ‘zona’ gramatical. Essa zona
fornece os recursos da esquematização gramatical para construir categorias mais
delicadas: essas categorias são realizadas lexicalmente, mas construídas de acordo
com os parâmetros sistêmicos da gramática (Halliday, 1999, p.87).
O conceito de léxico-gramática é o de “uma rede de escolhas de significados
inter-relacionadas” (Halliday & Matthiessen, 2004, p.31), ou ainda “uma rede de
opções [...] de ambientes nos quais escolhas específicas estão disponíveis” (Butt,
89
1996, p.xvii), que atua na organização das relações das formas lingüísticas e
juntamente com o Sistema Semântico compõem o plano de conteúdo da linguagem.
Nesse sentido, a gramática de uma língua natural é uma “teoria da experiência” (Butt,
1996, p.xxv), porque “a gramática tranforma experiência em significado, impondo
ordem em forma de categorias e suas inter-relações” (Halliday, 1996, p. 390), sendo,
portanto, “a unidade central processadora da linguagem, a casa de força onde os
significados são criados” (Halliday & Matthiessen, 2004, p.21).
O conceito organizador – a gramática – não é a estrutura descrita por regras,
mas por sistemas. A gramática é uma gramática de escolhas e não de regras porque a
estrutura gramatical depende do uso da linguagem, isto é, a estrutura é motivada pela
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situação comunicativa. A partir dessa visão, pode-se dizer que
com a noção de sistema, podemos representar a linguagem como um recurso, em
termos das escolhas que estão disponíveis, a inter-conexão dessas escolhas e as
condições que afetam seu acesso. Podemos, então, relacionar essas escolhas aos
contextos sociais reconhecíveis e significativos, usando redes sócio-semânticas. [...]
Os dados são os fatos observados de ‘texto-na-situação’: o que as pessoas dizem na
vida real (Halliday, 1978, p.192).
Isto significa que devemos “direcionar a atenção para o real e potencial,
interpretando tanto o discurso quanto o sistema lingüístico que a ele subjaz em termos
de uma rede infinitamente complexa de potenciais de significado que é a cultura”
(Halliday, 1978, p.4-5), uma vez que se
a linguagem é como é por causa das funções que desenvolve para servir na vida das
pessoas, é de se esperar que as estruturas lingüísticas possam
90
Cada uma das três metafunções diz respeito a um aspecto diferente do mundo,
está relacionada a um modo diferente de significado na oração e apresenta seu próprio
sistema de escolhas. Portanto, “quando juntamos as estruturas resultantes das
escolhas em todos os sistemas relevantes em cada um dos três componentes,
terminamos com um fraseado, uma mensagem” (Thompson, 1996, p.29).
Em outras palavras, pode-se afirmar que a gramática é um componente
constitutivo da linguagem, cujo funcionamento é textual-discursivo.
No nível semântico, cada um dos componentes da situação – campo, relações
e modo – realiza um tipo de significado: ideacionais, interpessoais e textuais, os quais
são realizados no nível léxico-gramatical pelos sistemas de transitividade, modo e
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tema. Abaixo um quadro ilustrativo dos níveis de realização do registro no modelo
hallidiano.
Quadro 1 – Níveis de realização do registro no modelo hallidiano (1994;2004)
Contexto
de
situação
Semântica
Léxico-gramatical
Campo
Ideacional
Transitividade
Relação
Interpessoal
Modo oracional
Modo
Textual
Tema
(registro)
2.3.1
As metafunções da linguagem
No plano semântico-discursivo, a linguagem está funcionalmente organizada
em torno de três componentes funcionais – as metafunções. As três metafunções são
complementares e simultâneas e relacionam-se sistematicamente com a léxicogramática.
Os significados em determinados contextos podem ser analisados (i) enquanto
reflexo da experiência e da visão que os falantes têm da realidade, da sua própria
consciência e do modo como as representam linguisticamente em termos
experiênciais e em termos lógicos – a metafunção ideacional; (ii) enquanto expressão
91
da interação entre falantes e de suas formas de ação em sociedade – metafunção
interpessoal; e (iii) como produção textual, falada e/ou escrita, organizada de forma
coerente e coesa de modo a que cumpra as exigências de operacionalidade da
linguagem – metafunção textual.
2.3.1.1
A Metafunção Ideacional
O Sistema Semântico da linguagem é organizado em componentes distintos,
tipos diferentes de potencial de significado. Um desses componentes ou potenciais de
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significado do Sistema Semântico da linguagem é a base ideacional – a Metafunção
Ideacional. Trata-se da linguagem como representação, isto é, o sistema semântico
como expressão da experiência interna e externa do falante – o significado no modo
reflexivo, pois
a linguagem contém um conjunto de recursos para referir-se a entidades no mundo e
às formas nas quais essas entidades atuam ou relacionam-se umas com as outras. No
nível mais simples, a linguagem reflete nossa visão do mundo consistindo de
‘acontecimentos’ (verbos), envolvendo coisas (substantivos) que podem ter atributos
(adjetivos) [...] (Thompson, 2004, p.86-7).
Isto porque
não há uma só faceta da experiência humana que não possa ser transformada em
significado. Em outras palavras, a linguagem fornece uma teoria da experiência
humana, e determinados recursos da léxico-gramática da linguagem cotidiana são
dedicados a essa função (Halliday & Matthiessen, 2004, p.29).
Ao componente que representa a experiência, Halliday deu o nome de
Metafunção Ideacional, a qual refere-se à ideação e está dividida em duas subcategorias – a experiencial e a lógica (Halliday, [1979]2002, p.198-199; Halliday &
Matthiessen, 2004, p.29):
a experiencial onde representamos a experiência ‘diretamente’ em termos de
acontecimentos (ações, eventos, estados, relações), entidades que participam nesses
acontecimentos (pessoas, objetos animados e inanimados, instituições, abstrações) e
figuras circunstanciais (extensão, localização, tempo e espaço, causa, modo etc); a
lógica, onde representamos a experiência ‘indiretamente’ em termos de determinadas
relações lógicas fundamentais na linguagem natural – ‘e’, ‘digamos’, ‘é
subcategorizado como’ etc. – as quais não são as da lógica formal, mas as que a partir
das operações da lógica formal são basicamente derivadas.
92
A Metafunção Ideacional diz respeito à forma “como os fenômenos de nossa
experiência são construídos como categorias9 e relações de significado” (Halliday &
Matthiessen, 1999, p.48). Os significados ideacionais referem-se ao que está
acontecendo no mundo, o que está sendo representado. Trata-se de como nosso
quadro mental do mundo (eventos, estados etc.) é codificado na linguagem, pois
“tendemos a codificar tal experiência em termos de configurações de elementos cada
um dos quais tem um significado especial e distinto em relação ao outro” (Halliday,
[1979]2002, p.202).
Isto significa que a Metafunção Ideacional é a habilidade dos sistemas
semióticos de representarem objetos e suas relações com o mundo, ordenando “nossa
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experiência da realidade quando desejamos transformá-la em significado” (Halliday,
[1979]2002, p.204). É por essa razão que a Metafunção Ideacional pode ser
considerada “um recurso para a construção de nossa experiência do mundo” (Halliday
& Matthiessen, 1999, p.13). O componente ideacional ou experiencial é
a expressão lingüística da experiência do falante do mundo externo, incluindo o
mundo interno de sua própria consciência – suas emoções, percepções etc. Esse
componente da gramática fornece um modelo conceitual para a codificação da
experiência em termos de processos, objetos, pessoas, qualidades, estados, abstrações
e relações; por vezes, é denominado ‘cognitivo’ e significado experiencial como
‘significado cognitivo’, embora como sugerido antes todos os componentes supõem
um nível cognitivo de organização... O termo ‘experiencial’ torna claro que a função
subjacente é vista não como a expressão da ‘realidade’ ou ‘o mundo externo’, mas
como a expressão dos padrões de experiência; o conteúdo dado para um enunciado
por essa porção do sistema da linguagem derivar da experiência compartilhada
daqueles que participam na situação discursiva (Halliday, 1968, p.209).
Tal construção da experiência dá-se de forma paradigmática, pois “a base
ideacional é na realidade organizada como uma rede de tipos inter-relacionados de
fenômenos” (Halliday & Matthiessen, 1999, p.13), e de forma sintagmática. Um
fenômeno é “a categoria experiencial mais geral – qualquer coisa que possa ser
construída como parte da experiência humana” (ibid., p.13). O fenômeno da
experiência pode ser considerado em três ordens de complexidade: elementar (um
9
Para Halliday & Matthiessen (1999, p.68), “categorizar é um ato criativo: ele transforma nossa
experiência em significado, e isso significa impor uma ordem categorial e não colocar rótulos em uma
ordem que já existe”.
93
elemento apenas), configuracional (configuração de elementos – uma figura) e
complexo (um complexo de figuras – uma seqüência).
Os elementos são partes constituintes das figuras, preenchem os papéis das
figuras, que, por sua vez, formam seqüências. Uma figura é “uma representação da
experiência na forma de uma configuração, consistindo de um processo, participantes
envolvidos no processo e circunstâncias associadas ao processo” (Halliday &
Matthiessen, 1999, p.52;p.106). As partes ou elementos de uma configuração são: (1)
um processo nuclear; (2) um a dois participantes de tipos diferentes participando no
processo; e (3) até aproximadamente sete circunstâncias de tipos diferentes
associadas a ele.
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Uma seqüência se diferencia pelos tipos de relações cujas figuras resultantes
(1) expandem a outra, reiterando-a, adicionando algo a ela ou qualificando-a; (2)
projetam (reportam, citam) a outra dizendo ou pensando-a. Como estão organizadas
por relações interdependentes, as seqüências podem ser expandidas indefinidamente.
Em ambos os casos, (1) e (2), pode haver igualdade ou não, no que se refere ao peso
semântico. A seguir, forneço os exemplos apresentados por Halliday & Matthiessen
(1999, p.51), traduzidos e adaptados por mim, os quais ilustram a lógica da
organização de seqüências:
(1) expansão: adição & desigualdade
A onda de calor no sudeste da Flórida enfraquecerá, permanecerá quente,
ligeiramente.
(2) expansão: adição & igualdade
As altas ficarão em torno de 80 a 90 graus, mas partes do Texas poderão
alcançar os 100.
(3) expansão: reiteração & desigualdade
O restante do sul ficará na maior parte seco e ensolarado, com somente chuvas
isoladas na Flórida.
Como o texto é linguagem “que é funcional no contexto” (Halliday &
Matthiessen, 1999, p.122), ele traz consigo a base de significado ideacional (assim
como a base de interação), o que faz com que as seqüências sejam “um princípio
para a organização do texto”. Isto significa que os recursos lógicos para a formação
94
de seqüências se desenvolvem no ambiente do significado ideacional como
seqüências de figuras, pois a semântica e a gramática se desenvolvem juntas.
Abaixo uma representação gráfica de seqüências, figuras e elementos na
gramática.
Figura 4: Realização típica de seqüências, figuras e elementos (Halliday &
Matthiessen, 1999, p.49).
Semântica
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seqüência
figura
elemento
Léxico-gramática
Léxico-gramática
complexo
oracional
Complexo
oracional
oração
Oração
elemento
Elemento
da da estrutura
oracional:grupo/sintagma
estrutura
No nível da oração, a transmissão do quadro da realidade é um dos
significados da Metafunção Ideacional que é chamado de significado de
representação (de nossa experiência do mundo): a oração na sua função experiencial.
A oração desempenha um papel central, porque ela incorpora um princípio
geral para modelar a experiência – o princípio de que a realidade é constituída de
processos, pois ela é
“basicamente ‘sobre’ o evento ou estado no qual os
participantes estão envolvidos” (Thompson, 2004, p.87). Na sua estrutura, a oração
expressa um modo de ação, de fornecer ou solicitar produtos, serviços e informações,
mas também um modo de reflexão, de impor uma mudança a variações e fluxos de
eventos.
Experiencialmente,
95
a oração constrói um quantum de mudança como uma figura ou configuração de um
processo, participantes envolvidos nele e quaisquer circunstâncias relacionadas”
(Halliday & Matthiessen, 2004, p.169).
Os conceitos de processo, participante e circunstância são categorias
semânticas que explicam de forma mais geral como os fenômenos de um mundo real
são representados como estruturas lingüísticas.
No ato da elaboração de um enunciado lingüístico, do qual a oração é parte, o
falante ou escritor ativa a Metafunção Ideacional e, nesse momento, o que está em
foco são as relações semântico-funcionais da oração para que ela represente a
realidade. Dessa forma, ao tentar organizar sua perspectiva de um determinado
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evento, o falante/escritor realiza mudanças na interpretação semântica da estrutura
oracional relativamente ao elemento central, o verbo, estendendo as conseqüências
aos elementos imediatamente à esquerda – Participante 1 (P1) e à direita dele –
Participante 2 (P2), o que acarreta diferenças na análise e interpretação dos elementos
pertinentes.
Dependendo da intenção no momento do evento de fala, o falante/escritor
seleciona, de acordo com sua perspectiva, um novo verbo e os elementos oracionais
que devem acompanhá-lo. É oportuno chamar a atenção para o fato de que
Participantes não precisam ser necessariamente ‘humanos’ ou ‘concretos’, mas se
referirem ao(s) elemento(s) envolvido(s) no processo de alguma forma.
A base ideacional é traduzida como um espaço semântico, multidimensional,
organizado como um potencial de significados, com um sistema extenso de
alternativas semânticas, que estão ordenadas e podem ser constituídas estruturalmente
como uma configuração de papéis semânticos. O potencial de significado é
diferenciado axialmente em (i) sistemas de opções no significado e (ii) configurações
estruturais de papéis pelos quais essas opções são constituídas (Halliday &
Matthiessen, 1999, p.32-33).
A Metafunção Ideacional ou experiencial manifesta-se através do sistema de
Transitividade, que é o recurso de construir nossa experiência, o fluxo de
acontecimentos, como configurações estruturais, consistindo de um processo que se
desencadeia ao longo do tempo, com um ou mais participantes envolvidos no
96
processo e as circunstâncias associadas ao processo, com tipos de participantes
diferentes para cada tipo de processo. A oração, por exemplo, tem uma estrutura
formada a partir de elementos tais como: agente, processo, extensão e essa estrutura
deriva do Sistema de Transitividade.
Em outras palavras, o sistema de Transitividade é um conjunto de opções que
diz respeito ao Processo, mais os papéis a ele associados – os participantes, que são
representados pelos grupos nominais. Todos os elementos da oração estão
relacionados, pois fazem parte de uma rede de sistemas, onde cada elemento depende
do outro, numa relação sintagmática e paradigmática (Halliday, 1994, p.106-109).
Os Processos são expressos por grupos verbais, servem no papel mais central
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ou nuclear na figura e são o centro do Sistema de Transitividade, principal elemento
da mensagem, do ponto de vista experiencial. A escolha do tipo de processo e papéis
de participante realiza uma codificação por parte do falante/escritor de sua realidade
experiencial. Portanto, o Sistema de Transitividade é um sistema viável de tipos de
processos. Processo, neste sentido, agrupa ‘ação’ ou ‘fazer’, incluindo ‘percepção’ e
‘atribuição’, ou ‘ser’, incluindo atribuição e identificação.
A seguir forneço uma representação gráfica do componente semântico
integrado à léxico-gramática, realizado pelo Sistema de Transitividade.
97
Figura 5 - Representação gráfica do componente semântico integrado à
lexico-gramática e realizado pelo Sistema de Transitividade (Halliday & Matthiessen,
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1999:55).
A categoria lógica da Metafunção Ideacional se expressa em nível léxicogramatical no tipo de interdependência que diz respeito à forma como as orações
relacionam-se em termos de parataxe e de hipotaxe. As relações lógico-semânticas
explicitam o tipo de ligação existente entre as orações de um complexo oracional, que
pode ser de expansão ou projeção. Estas relações serão mais detalhadas na seção 2.5.
A Metafunção Ideacional, mais especificamente o Sistema de Transitividade,
é a fundamentação teórico-metodológica usada para a análise e descrição das
ocorrências do verbo ‘ser’ nos artigos selecionados para esta tese. Meu interesse
localiza-se em verificar como os autores dos artigos construíram suas experiências a
partir da gramática ao escolherem o verbo ‘ser’ para expressá-las em seus artigos,
entendendo experiência como um recurso para a compreensão, representação e
atuação na realidade, ou seja, experiência como significado e daí “algo que é
construído na linguagem” (Halliday & Matthiessen, 1999, p.1).
98
Os quadros abaixo fornecem uma visualização de funções típicas de grupos e
suas possíveis realizações.
Quadro 2 – Funções típicas de grupos
Tipo de elemento
Tipicamente realizado por
(i)
Processo
Grupo verbal
(ii)
participante
Grupo nominal
(iii)
circunstância
Grupo
adverbial
ou
Sintagma
preposicional
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Quadro 3 – Exemplo da expressão da figura
O leão
perseguiu
o turista
lentamente
pelos arbustos
Participante
Processo
Participante
Circunstância
Circunstância
Grupo nominal Grupo verbal
Grupo nominal Grupo
adverbial
Sintagma
preposicional
A Metafunção Ideacional proposta por Halliday assemelha-se a outras
abordagens baseadas em papéis de casos semânticos, mas um traço importante do
trabalho de Halliday é sua classificação extensa dos tipos de processo e das relações
semânticas existentes entre o verbo e os outros elementos em uma oração. Halliday
adota a distinção tesnièriana básica e sugere alguns critérios semânticos e sintáticos
para a decisão entre actantes, os quais foram por ele chamados participantes e
circunstâncias, estas realizadas por sintagmas preposicionados ou advérbios.
Halliday propõe dois níveis adicionais de descrição oracional (metafunções),
os quais operam em paralelo com a estrutura ideacional: a interpessoal e a textual.
Essas metafunções não serão abordadas em profundidade nesta tese.
Como a Metafunção Ideacional é a perspectiva a partir da qual serão
analisadas as ocorrências do verbo ‘ser’ nos artigos jornalísticos selecionados para
esta tese, dedicarei a seção 2.4.4 para maior aprofundamento do seu principal sistema,
o da Transitividade.
99
2.3.1.2
A Metafunção Interpessoal
No processo de construção da experiência, usamos a linguagem para “atuar:
atuar nas nossas relações pessoais e sociais” (Halliday, & Matthiessen, p.29), logo, a
oração não só representa um processo – algum acontecimento, afirmação, percepção,
ser ou ter, com seus participantes e circunstâncias – mas também uma proposição ou
proposta, através da qual
informamos ou perguntamos, damos uma ordem ou fazemos uma oferta e
expressamos nossa avaliação e atitude com quem quer que nos relacionemos e sobre
o que quer que falemos (Halliday & Matthiessen, 2004, p.29).
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A Metafunção Interpessoal diz respeito ao mundo social, no que se refere à
expressão das relações sociais e pessoais dos papéis desempenhados nas interações –
a linguagem como interação – especialmente em relação à interação entre falante e
ouvinte(s) e, especificamente, aos recursos gramaticais para desempenhar papéis
sociais em geral e papéis discursivos em particular, na interação dialógica, com o
objetivo de estabelecer, mudar e manter relações interpessoais. Halliday ([1970]2002,
p.199) define a Metafunção Interpessoal como a que
expressa a intromissão do falante no evento discursivo: suas atitudes, avaliações e
julgamentos; suas expectativas e demandas; e a natureza da troca durante sua atuação
– o papel que ele assume para si no processo de comunicação, e o papel, ou melhor a
escolha do papel, que ele está atribuindo ao ouvinte.
Em outras palavras, na Metafunção Interpessoal, a estrutura dialógica de um
texto assume particular relevo e a sua percepção semântica deve ter em conta dois
fatores principais: o papel assumido pelos interlocutores na troca de significados,
neste caso, a oração é ‘troca’ de significados, que é concretizada no sistema de Modo
Oracional, refletindo o engajamento e o envolvimento do falante no seu enunciado e
dos participantes na interação. Logo, o falante espera de seu interlocutor uma
resposta, concordante ou contrária as suas expectativas, mas sempre adequada ao
papel discursivo que lhe foi atribuído. Neste intercâmbio, o falante troca dois tipos de
utilidades – bens e serviços ou informações.
100
Na troca de bens e serviços, o falante usa a linguagem como meio para atingir
um determinado fim ou influenciar o comportamento de seu interlocutor. É nessa
situação que se pode afirmar que a linguagem é um instrumento de ação, servindo
como agente de concretização. A troca de bens e serviços define duas funções
discursivas fundamentais, a saber, a oferta e a ordem. Na interação, o interlocutor
pode aceitar ou rejeitar a oferta ou, se for uma ordem, obedecer ou não.
O significado interpessoal constrói nossa postura social, avaliativa e efetiva
com relação ao conteúdo temático de nosso discurso, em relação aos destinatários e
interlocutores reais ou potenciais e em relação aos pontos de vista alternativos. Ele
inclui a linguagem da formalidade/intimidade, relações de posição social e poder,
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relações de papéis.
Já a troca de informações só existe na forma de linguagem, ou seja, o que é
trocado é a própria linguagem. Neste caso, o interlocutor pode apenas ouvir e realizar
uma ação (física ou oral), mas também pode desempenhar um papel verbal de
afirmar, negar ou fornecer informação. A linguagem “torna-se algo que pode ser
questionado – algo que pode ser afirmado ou negado e também duvidado, insistido,
aceito com reservas, qualificado etc” (Halliday, 1994, p.70).
As funções discursivas essenciais na troca de informação são a afirmação e a
interrogação. Apesar da expectativa ser a de que o interlocutor tome conhecimento do
que é dito ou responda a uma pergunta, ele poderá optar por refutar a informação
dada ou recusar-se a responder. A função semântica de uma oração na troca de bens e
serviços é a proposta e na troca de informações, a função semântica da oração é a da
proposição.
Abaixo forneço um quadro com o resumo conceitual, com as respectivas
funções discursivas e realizações gramaticais.
101
Quadro 4 – Resumo da organização semântica da oração como troca
Natureza do que é
Função
Realização
Função
discursivo
trocado
discursiva
gramatical
semântica
Oferta
Vários
Pedir
Pedir
Informação
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Dar
de
Proposta
tipos
oração
Ordem
Oração imperativa
Afirmação
Oração declarativa
Oração
Interrogação
interrogativa
(sim/não
e
iniciadas
por
Proposição
Dar
Bens e serviços
Papel
pronome
interrogativo)
A Metafunção Interpessoal concretiza-se no sistema Léxico-gramatical pelo
sistema de Modo Oracional. O Modo Oracional está relacionado com os elementos do
Sujeito Gramatical, que indica as pessoas que ocupam as posições de sujeito; com o
Elemento Finito10, que integra o grupo verbal da oração e indica o tempo e o modo
verbal, a polaridade e os modais, possibilitando negociar a sua validade ao permitir
configurá-la em termos de polaridade, tempo e modalidade; e, finalmente, com o
Predicador que abrange os processos verbais, seus complementos e adjuntos.
A Modalidade está diretamente ligada aos diversos níveis de certeza,
probabilidade e possibilidade e de obrigação e tendência encontrados no sistema
10
Na língua inglesa, o Finito “torna possível questionar a validade da proposição.[...] Através do
Finito, o falante sinaliza três tipos de reivindicação sobre a validade da proposição[...]” (Thompson,
2004, p.53), a saber, a validade com relação ao tempo, à polaridade e à modalidade. A questão da
polaridade em inglês é expressa por um Finito, no caso do, can, could etc., caso que não se apresenta
na língua portuguesa, mas pode vir também amalgamado com o verbo lexical, como no caso do verbo
to be + not, no presente e no passado simples.
102
expressos pelo uso de diferentes finitos, modais, adjuntos modais e expressões
modais.
O tipo de papéis discursivos e a natureza daquilo que é trocado estão
gramaticalmente expressos na seleção dos constituintes funcionais que se realizam no
nível léxico-gramatical. Neste sistema, a organização das orações consiste do Modo
Oracional e do Resíduo, com o elemento Modo Oracional analisado posteriormente
em Sujeito e Finito.
Os operadores verbais que funcionam como Finito podem ser Finitos de
tempo, que são verbos que circunscrevem o enunciado temporariamente, indicando o
tempo passado, presente ou futuro no momento do discurso; e os Finitos modais, que
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expressam a modalidade da oração, isto é, determinam o maior ou menor grau de
certeza probabilidade, obrigação etc. relativamente ao que é dito.
Vale ressaltar que o Finito pode vir fundido com o verbo lexical, caso em que
se apresentam conjugados no presente ou passado simples, na voz ativa e com uma
polaridade positiva. Esta é a situação do verbo ‘ser’ que será analisado nesta tese,
portanto, sendo considerado por mim como Finito.
Quanto ao elemento interpessoal Resíduo do sistema de Modo oracional, na
língua inglesa, temos o Predicador – a parte lexical do grupo verbal, depois de
retirado o operador temporal ou modal – o Finito – o qual é o portador do significado
lexical da oração como troca, caso específico da língua inglesa (Halliday, 1994, p.79).
Como esta metafunção não será usada para a análise e descrição do uso do
verbo ‘ser’ nos artigos selecionados para esta tese, minha pretensão foi apenas a de
fornecer um resumo para fins de ilustração, sem esgotamento do tema, portanto,
encerrarei a síntese neste ponto.
2.3.1.3
A Metafunção Textual
A Metafunção Textual diz respeito ao mundo verbal, aos recursos lingüísticos
disponíveis para a organização especialmente do fluxo de informações em um texto, à
criação do texto e à apresentação dos significados ideacionais e interpessoais como
103
informações que podem ser compartilhadas pelo falante/escritor e ouvinte/leitor,
fornecendo estratégias para guiá-los em sua interpretação do texto. Para Halliday
([1970]2002, p.199; Halliday & Matthiessen, 1999, p.11-15),
o sistema semântico capacita o falante para estruturar significado como texto,
organizando cada elemento como uma informação e relacionando-a
significativamente ao que veio antes.
Isto porque “é somente através da codificação da interação semiótica como
texto que os componentes ideacional e interpessoal de significado podem tornar-se
operacionais” (Halliday, 1978, p.145), ou seja, a linguagem só pode expressar
efetivamente os significados ideacionais e interpessoais criando textos. Essa
metafunção reflete a importância ou o realce de uma informação (nova ou já
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conhecida) na posição que esta ocupa na sentença (Halliday, 1978, p. 113). Isto
significa que a Metafunção Textual reflete como as escolhas lingüísticas são
construídas e organizadas na mensagem dentro de um sistema determinado pelo
contexto e pela intenção do autor da mensagem. Portanto, ela concretiza-se no nível
léxico-gramatical na estrutura temática e está relacionada com as orações como
mensagens, através do sistema de Tema-Rema, o recurso para estabelecer um
contexto local para uma oração pela seleção de um ponto de partida no fluxo de
informações (Halliday, [1985]2002, p.268).
Na Metafunção Textual, uma oração é analisada em Tema e Rema. Os
sistemas de Tema e Informação contribuem para a derivação da estrutura: as opções
temáticas contribuem para a estrutura léxico-gramatical e os sistemas de informação
contribuem para a estrutura da informação.
O componente textual é um componente do significado assim como os
componentes ideacional e interpessoal. O sistema não gera primeiro uma
representação da realidade, depois a codifica como um ato de fala e finalmente a
recodifica como um texto. Ele incorpora todos esses tipos de significado em redes
simultâneas de opções, de cada uma das quais derivam estruturas que são
condensadas no curso da sua realização léxico-gramatical. A léxico-gramática age
como o sistema integrativo, tomando as configurações de todos os componentes da
semântica e combinando-as para formar composições estruturais.
104
O significado textual ou também chamado organizacional refere-se a como a
linguagem cria o todo e as partes, que palavras ocorrem com que palavras. Portanto,
ele é criado através da estrutura coesiva ou ‘textual’, na qual cadeias de relações
semânticas unem as unidades (Halliday, 1978; Halliday & Hasan,1985).
O Tema é o primeiro elemento da oração com valor ideacional, está
relacionado com a forma como a informação é organizada nas orações e, através
destas, em textos, sendo sua escolha fundamental para a organização da mensagem,
assim como na forma do discurso. O Rema integra os elementos restantes da oração
que desenvolvem o Tema. A análise do sistema Tema/Rema permite o
reconhecimento das unidades lingüísticas em termos de co-texto11 ou contexto
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lingüístico.
Nas palavras de Halliday ([1981]2002, p.237), “cada um desses componentes
[ideacional, interpessoal e textual] faz sua contribuição para a construção total da
oração. O que identificamos como uma oração é o produto conjunto dos processos
semântico-funcionais desses três tipos”.
A oração é uma realização complexa das três metafunções semânticas da
linguagem, a saber, o componente ideacional, baseado na transitividade – os
processos, os participantes e os elementos circunstanciais que compõem a semântica
do mundo real; o componente interpessoal, consistindo de modo, modalidade, pessoa;
e o componente textual, a ‘perspectiva funcional da oração’ (sistemas temáticos e
dado-novo) e os recursos coesivos de referência, elipse e conjunção. A
simultaneidade implica ambos os eixos de organização – o sistêmico e o estrutural.
Sistemicamente, isso significa que o Modo Oracional (interpessoal), a
Transitividade (ideacional) e o Tema/Rema (textual) são simultaneamente partes
11
O texto funciona como um todo no que se refere ao enquadramento relevante para o funcionamento
dos sistemas temático e de informação (aquilo que sobre eles é dito). O co-texto é a criação de um
mundo de referências coerente no interior de si próprio, ou seja, a nível interno. O con-texto é o texto
no mundo, as referências para além de si próprio, a uma realidade exterior, a nível externo. O co-texto
reflete parte do nosso conhecimento do mundo tal como foi codificado pela estrutura conceitual da
nossa memória semântica. O co-texto dá conta da intervenção das unidades verbais que fixam a
significação das outras formas lingüísticas presentes num mesmo texto. Distingue-se da noção de
contexto, utilizada para designar as instâncias enunciáveis e os elementos extra-lingüísticos relevantes
para a compreensão de um texto ou de um discurso. Uma das funções mais importantes do co-texto é a
criação de efeitos intra e intertextualidade, e, deste modo, conferindo a um texto a unidade de sentido
indispensável a sua constituição como um todo.
105
integrantes na rede de sistemas da oração. Estruturalmente, a simultaneidade
metafuncional é manifestada como três partes integrantes ou camadas simultâneas na
estrutura da oração. As funções estruturais das partes integrantes metafuncionais
estão amalgamadas (Halliday, [1985]2002, p.268).
Como vimos, o componente semântico da gramática estabelece diferenças
entre os significados potenciais representados por cada uma das Metafunções da
linguagem.
Para facilitar a visualização da inter-relação Contexto de Situação, Sistema
Semântico e Sistema Léxico-gramatical dentro do constructo socio-semiótico,
apresento abaixo um quadro com o resumo das idéias apresentadas.
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Quadro 5 – Inter-relação Contexto de Situação, Sistema Semântico e Sistema
Léxico-gramatical
SITUAÇÃO
Características do Contexto
(realizado por)
TEXTO
Componentes funcionais do Sistema Semântico
de Situação
Campo do discurso
Significados
(o que está acontecendo)
Ideacional)
da
experiência
(Metafunção
(Transitividade)
Relações do discurso
Significados
(quem está participando)
Interpessoal)
interpessoais
(Metafunção
(modo, modalidade)
Modo do discurso
Significados textuais (Metafunção Textual)
(o papel dado à língua)
(tema, informação, relações de coesão)
Vejamos um exemplo abaixo de como as três metafunções emergem em uma
oração:
106
Quadro 6 – Exemplificação das três metafunções na oração
Metafunção
Sistema
Na floresta
o coelho
Textual
Tema
Tema
Rema
Interpessoal
Modo
Adjunto
Sujeito
dança
sozinho.
Finito/
Adjunto
Predicador
Ideacional
Transitividade
Resíduo (1)
Modo
Localização
Ator
Resíduo(2)
Processo
Acompanhamento.
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Em resumo, a gramática é concebida como um recurso para a criação de
significados na forma de fraseados através de duas Metafunções – Ideacional e
Interpessoal – as quais se relacionam aos fenômenos extra-lingüísticos. A primeira, a
Metafunção Ideacional, refere-se aos recursos gramaticais de ideação para a
construção – tanto paradigmática quanto sintagmática – de nossa experiência do
mundo.
A segunda, a Metafunção Interpessoal, diz respeito à interação entre
falante/escritor e ouvinte/leitor. É o recurso gramatical para atuar os papéis sociais e
pessoais na interação dialógica. (Halliday & Matthiessen, 1999, p.7- 11-13).
Halliday & Matthiessen (1999, p.11-15) chamam a atenção para o fato de que
há uma relação direta entre a base de ideação e a base textual, uma vez que o nível
semântico do discurso é o nível mais alto de organização dos textos e, assim sendo,
sua unidade de análise é o texto como um todo. Esse nível refere-se à coesão do texto
(o aspecto do discurso) e o significado do texto (o aspecto semântico).
Nos artigos de opinião e editoriais jornalísticos selecionados para a análise e
descrição do verbo ‘ser’, constata-se que as escolhas temáticas estão associadas aos
usos retóricos. Os temas organizam as orações de forma que o conteúdo de cada
oração pode ser visto como uma unidade relevante no conteúdo em desenvolvimento
do texto como um todo. A escolha de colocar constituintes na posição temática ou
remática é retoricamente significante. O caráter retórico das escolhas temáticas reside
no poder organizador das configurações de tema-rema.
107
Esta discussão acerca da questão retórica e sua relação com a organização da
oração é de interesse desta tese, uma vez que a retórica está mais ligada aos textos
persuasivos, tais como os analisados aqui. A retórica é um processo discursivo
através do qual os autores fazem escolhas textuais baseados nos efeitos que gostariam
de alcançar e na relação que estabelecem com seus leitores.
É através das escolhas retóricas que um autor objetiva aumentar a
credibilidade de determinadas proposições na mente do leitor. Como a teoria
sistêmico-funcional é uma “teoria de significado como escolha, através da qual a
linguagem, ou qualquer outro sistema semiótico, é interpretada como redes
interligadas” (Halliday, 1994, p.xiv), o que se destaca aqui como de importância
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central na teoria da linguagem de Halliday é o objetivo de explicar a relação entre as
opções apresentadas em um texto e os Contextos de Situação e de Cultura.
Em outras palavras, “como as características (opções) lingüísticas de um texto
relacionam-se sistematicamente com as características (opções) de seu ambiente”
(Halliday, 1994, p.xv-xvi). Portanto, a tematização – “a seqüência de elementos em
uma oração” (Halliday, 1967) – é uma das escolhas textuais que o falante/escritor faz
no nível da oração e que, particularmente, me interessa aqui.
Nesta tese, os Temas e Remas das orações nos textos serão analisados por seu
conteúdo ideacional, ou melhor dizendo, em termos de seu conteúdo ideacional, seu
papel no desenvolvimento da oração, uma vez que a estrutura temática “dá à oração
sua característica de mensagem” (Halliday, 1994, p.379), e “é somente porque
podemos selecionar a forma desejada da mensagem que também podemos usar a
linguagem efetivamente, tanto para representar uma experiência (experiencial),
quanto para interagir (interpessoal) com outros”.
Não está no propósito desta tese analisar as orações nos seus conteúdos
interpessoal e textual, mas examinar as escolhas significativas no conteúdo ideacional
na relação com sua configuração contextual, ou seja, dentro da Metafunção
Ideacional, examinar as noções de Tema e Rema, o que exige uma interpretação de
minha parte. Portanto, por vezes, a análise será subjetiva, dado que não há uma
correspondência um-a-um entre forma e função na linguagem.
108
É minha convicção de que há um lugar para um estudo como este, que analisa
as orações que contêm o verbo ‘ser’ em artigos de opinião e editoriais jornalísticos,
uma vez que acredito que ele possa contribuir para a descrição do português. Além
disso, uma análise das escolhas ideacionais das orações que contêm o verbo ‘ser’
fornecerá uma representação composicional de seu potencial comunicativo, que pode
então ser interpretado com relação ao Contexto de Situação.
2.3.1.3.1
Tema
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Em 1967 e 1968, Halliday iniciou sua proposta sobre o conceito de ‘tema’,
afirmando que “o tema é o que está sendo falado a respeito, o ponto de partida para a
oração como uma mensagem” (Halliday, 1967, p.212). Em 1994, o autor continuou
afirmando que “...o Tema é o ponto de partida da mensagem; é sobre o que a oração
será” (Halliday, 1994, p.37).
Um problema que identifico na definição de Tema elaborada por Halliday
para a língua inglesa, exposta acima como “ao que a sentença refere-se” é que os
temas experienciais incluem adjuntos e seria muito difícil dizer que uma sentença
“refere-se” a um adjunto. Portanto, os únicos pontos de partida que poderiam ser “a
que a sentença refere-se” seriam os participantes e os processos.
Para Halliday (1994, p.37; Halliday & Matthiessen, 2004, p.65-67), é a
estrutura temática a que dá à oração a característica de mensagem, elevando-a “ao
status de um evento comunicativo”, porque a oração representa “alguma forma de
organização”, o que permite que se encaixe no discurso e “contribua para o seu
fluxo”. O Tema é “o que localiza e orienta a oração em seu contexto” (Halliday &
Matthiessen, 2004, p.65), logo, caso ele não apareça “a oração carecerá de uma
ancoragem no cerne da experiência” (Halliday, 1994, p.53).
Essa posição é corroborada por Lemke (1998:1) que afirma que as relações
interpessoais são criadas “pela forma como o texto é fraseado”, o que revela o
posicionamento do autor em “relação ao conteúdo ideacional e proposicional dos
próprios textos”. Isso significa que cada texto representa uma fatia da realidade,
109
revela e constrói traços identitários dos participantes da interação e estabelece
relações entre os participantes do evento discursivo.
Em 2004, Halliday & Matthiessen mencionam claramente que “o tema é
indicado pela posição na oração” (2004, p.64), sendo então “o elemento que serve
como ponto de partida da mensagem”, aquele que “estabelece a cena para a oração
em si e a posiciona em relação ao texto em desenvolvimento” (2004, p.66). Acrescido
à definição e à posição que o Tema ocupa na oração, Halliday & Matthiessen (2004,
p.67) afirmam ainda que o “Tema de uma oração é o primeiro grupo ou sintagma que
tem alguma função na estrutura experiencial da oração”. A definição de Tema é
funcional, como ocorre com os demais elementos na interpretação estrutural
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gramatical.
Os significados temáticos são escolhas do falante/escritor, semelhantes às
realizadas nos Sistemas de Transitividade, Sistema de ‘Modo’ etc. Para Halliday &
Matthiessen (2004, p.162), o Tema “leva adiante o desenvolvimento do texto como
um todo”. A estrutura temática significa por causa das seleções a partir de uma
quantidade de opções léxico-gramaticais disponíveis para a primeira posição.
Considerando-se que o português é basicamente uma língua SV e, a menos
que critérios tais como peso semântico e dependência contextual sejam trazidos à
baila, a ordem canônica tenderá a ser seguida. Acrescentando-se a idéia de que o
Tema inicia a jornada semântica da oração, então, em português o Sujeito estará,
quase sempre, combinado com o Tema. Essa será a forma mais não-marcada.
Vale chamar a atenção para o fato de que a observação acima levanta a
questão sobre as línguas pro-drop tais como o português, nas quais há a elipse do
Sujeito, sem a necessidade de preenchimento de seu lugar. Além disso, também
destaco o fato de que o português é uma língua mais flexível quanto à ordem de seus
elementos oracionais, podendo se apresentar como VS, o que pode significar que se o
critério for o de posição inicial, qualquer elemento nessa posição poderá ser
considerado como Tema. Acrescento ainda que, se considerarmos que o início da
‘jornada semântica da oração’ em português também pode ser realizado pelo verbo,
pode-se contemplar a possibilidade dele ser Tema oracional.
110
Acrescento ainda que o verbo contém dois marcadores, a parte lexical (o
significado) e a parte morfológica que funciona como o Sujeito, carregando o tempo,
o aspecto e a identificação de pessoa. Este é o Sujeito gramatical, recuperável a partir
do contexto (no texto ou no contexto do mundo real). Dado o fato de que a situação
não é suficiente para identificar que entidade corresponde à pessoa incluída no verbo,
um substantivo ou pronome é adicionado, constituindo um Sujeito explícito. Daí, é
possível afirmar que não há Sujeito oculto, mas sim a omissão de um pronome ou
substantivo nessa função. Logo, se a função Sujeito está codificada no verbo, então
não há elipse do Sujeito e, sim, ausência de explicitação de um pronome ou
substantivo.
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Alguns estudiosos afirmam que o Tema é o Sujeito elíptico e que sua elípse é
anaforicamente recuperável, sendo, portanto, mesmo ausente, o ponto de partida da
mensagem e o ponto a partir do qual a mensagem ‘decola’. No entanto, eles mesmos
afirmam que o verbo carrega na sua flexão as noções de tempo, número e pessoa, o
que confirma o fato de que o Sujeito já está implícito no verbo.
É interessante observar o caso dos verbos que expressam fenômenos da
natureza, como o caso de chover, trovejar etc. que ambém não apresentam de forma
alguma Sujeito, nem implícito, nem explícito, nem co-referenciado. Logo, só nos
resta atribuir a esses verbos a função de Tema das orações em que se instanciam. A
referência aos verbos que expressam fenômenos da natureza não é o foco desta tese,
tendo sido apenas feita para fins ilustrativos da especificidade da língua portuguesa
com relação à elípse do Sujeito em algumas construções.
Um outro fator para a não-ceitação do verbo como o Tema da oração por
alguns pesquisadores pode ser a insistência em vê-lo atrelado ao Sujeito,
independente de sua função, da especificidade da língua portuguesa e da escolha
consciente ou inconsciente que os autores realizam ao selecionar outros elementos. O
fato dos pesquisadores só o verem atrelado ao Sujeito das orações, me parece
dificultar a associação da identificação com a função em português, pois na língua
portuguesa, o Sujeito nem sempre se instancia na primeira posição. Talvez esse fato
se deva à persistência por parte dos pesquisadores em manter a separação de Sujeito e
Predicado realizada pela tradição gramatical e a não-contemplação das intenções e
111
objetivos no uso da linguagem, o que também revela uma resistência a analisar e a
descrever a língua portuguesa à luz de uma perspectiva semântica e pragmática.
A origem dessa polêmica talvez possa estar no fato de a definição de Tema
fornecida por Halliday, a saber, ‘a que a oração refere-se’ poder ter induzido os
pesquisadores a compará-la com a definição de Sujeito na tradição gramatical,
segundo a qual o Sujeito é o ser sobre o qual se faz uma declaração ou, ainda, ser
aquele a propósito do qual se declara alguma coisa.
Bloor & Bloor (1995) definem Tema como “a idéia representada pelo
constituinte no começo da oração” – a função da relação entre o pensamento na
mente do falante e sua expressão no discurso. O princípio do Tema flui da relação
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entre o objeto de pensamento do falante e sua expressão no texto, realizando,
portanto, a conexão entre o pensamento e a continuação do discurso. Falantes e
escritores escolhem um elemento para a posição temática baseados no pensamento
que desejam expressar e baseados em como desejam conectar aquele pensamento ao
texto que o circunda. O Tema tem duas funções, a saber, expressar o pensamento do
falante e indicar a relação daquele pensamento com o co-texto.
A abordagem de Bloor & Bloor acima parece ser a que mais faz sentido para a
análise e descrição a que me proponho nesta tese, visto que meu interesse é no
engajamento dessas escolhas temáticas feitas pelos autores dos artigos. Ao mesmo
tempo, considero bastante interessante desenvolver um tipo semelhante de estudo a
partir da perspectiva do leitor, analisando os processos cognitivos que ocorrem
durante a leitura realizada por mim com relação à organização textual a partir da
organização oracional e no texto. Através da análise do texto em si e de sua estrutura
temática, “podemos obter uma compreensão de sua textualidade e compreender como
o autor tornou claro para nós a natureza de seus interesses subjacentes” (Halliday,
1994, p.67).
O Tema da oração contém somente um elemento experiencial, seja ele um
participante, uma circunstância ou um processo, isto é, um elemento do Sistema de
Transitividade (Halliday, 1994, p.52), que é o
conjunto de opções relacionadas ao conteúdo cognitivo, a representação lingüística
da experiência extra-lingüística, seja dos fenômenos do mundo externo ou do mundo
dos sentimentos, pensamentos e percepções (Halliday, 1967, p.199).
112
Partindo-se da concepção de que toda a expressão lingüística é uma forma
peculiar de verbalizar o mundo, a escolha da ordem das palavras é a expressão da
experiência e, portanto, importante na discussão da escolha temática. A motivação da
seleção temática inclui fatores semânticos, pois a realidade percebida de um evento
ou eventos é uma das formas que é trazida à baila pela escolha temática.
Nesse sentido, a noção de Tema usado aqui para referir-me à expressão da
percepção do falante/escritor sobre a realidade combina funcionalmente com a
expressão do falante/escritor sobre a realidade e seus interesses para comunicar essa
percepção ao ouvinte. É, portanto, tanto cognitivo, no sentido de que se refere ao
mundo da experiência, quanto comunicativo, no sentido de que tem um papel
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discursivo.
A escolha temática manifesta um número diferente de pressões discursivas
que incluem o desejo de relacionar o ponto de partida de uma oração com algo que
veio antes, e pressões experienciais, que incluem o desejo de representar
iconicamente o padrão de experiência na oração. Adicionado a estas, há também a
noção da necessidade que os falantes/escritores têm de colocar os interesses
prioritários, discursivos ou oracionais, como ideacionais.
Nesse sentido, o Tema é uma unidade funcional cuja estrutura é dependente
do ato de comunicação, que é determinado pelo conteúdo lingüístico da mensagem,
pelo contexto e pela atitude do falante/escritor com relação à mensagem e com
relação ao ouvinte/leitor. O Tema é, portanto, uma noção oracional e discursiva, e os
autores dos artigos aqui analisados lidam com ambas as considerações na elaboração
de seus textos. Alguns temas são escolhidos para fornecer o fluxo do discurso, e partir
da oração para pedaços maiores do texto, às vezes para uma outra oração ou para
muitas outras, daí tomando uma parte maior na coerência global do texto.
Considerado sob a perspectiva integrada das três metafunções hallidianas
(ideacional, interpessoal e textual),
o tema é um elemento significativo no nível da oração ou do complexo oracional.
Então, deveríamos pensar que os tipos de significados que são temáticos variariam
dependendo dos objetivos dos autores (Hasan & Fries, 1995, p.319).
113
Dessa forma, os autores sugerem que os falantes/autores manipulam as
reações dos ouvintes/leitores aos seus textos, mudando o conteúdo dos Temas dos
seus textos, da mesma forma que manipulam as reações dos leitores e ouvintes aos
textos mudando as palavras.
Após realizar algumas investigações em um número pequeno de textos, Fries
(Hasan & Fries, 1995, p.327) levanta as seguintes hipóteses:
A)
padrões diferentes de progressão temática se correlacionam com
gêneros diferentes, i.e., padrões de progressão temática não
ocorrem aleatoriamente, mas são sensíveis ao gênero;
B)
o conteúdo experiencial dos Temas se correlaciona com o que é
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percebido como sendo o método do desenvolvimento de um texto
ou segmento do texto, i.e., a forma na qual um texto desenvolve
suas idéias;
A noção de método de desenvolvimento do texto não é uma idéia estrutural,
mas uma idéia semântica.
C)
o conteúdo experiencial dos Temas se correlaciona com gêneros
diferentes; e
D)
o conteúdo experiencial dos Temas de um texto se correlaciona
com elementos genéricos da estrutura no texto.
Os resultados em Editoriais examinados por ele revelaram uma alta
percentagem de processos relacionais tematizados, com distribuição entre Equativas
Temáticas, Temas predicados e orações encaixadas.
Para o autor, esses tipos de construções envolvem marcação, a qual em todos
os casos “esse tipo de marcação está associado com graus de intervenção do autor”
(Fries, 1995, p.328), como é o caso dos Editoriais examinados por ele.
Nesse sentido, a organização temática é considerada um recurso do qual o
autor do texto lança mão para “manipular localmente a contextualização de cada
oração” (Matthiessen, 1995 apud Hasan & Fries, 1995, p.xxix), sendo que essas
escolhas temáticas locais contribuem para a articulação global dos significados no
texto.
114
Nesta tese, o Tema é visto como refletindo as intenções dos autores de atar
suas percepções da realidade, do campo, a um ponto de partida de seus leitores.
Portanto, farei a minha análise a partir do Tema ideacional/experiencial, o qual
contém dois sistemas básicos: seleção de tema e predicação.
O Tema experiencial constitui o primeiro elemento experiencial da oração
como representação – participante, processo ou circunstância. O segmento temático
vai do começo da oração até e inclusive o primeiro componente experiencial. Esse
constituinte “é indicado pela posição na oração”. Portanto, “um item tem status
temático” quando colocado em primeiro lugar na oração (Halliday & Matthiessen,
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2004, p.65-67).
2.3.1.3.1.1
Tema Predicado
O sistema de Tema Predicado envolve “uma combinação de escolhas
temáticas e informacionais” (Halliday & Matthiessen, 2004, p.95), ou seja, um Tema
Predicado é selecionado através do uso de construção onde há um processo
identificativo com o Tema como identificador e como o foco da informação. A
estrutura tematizada é aquela na qual o falante/escritor escolhe um único elemento
para dar-lhe status temático enfático. A opção predicada é a marcada no Sistema de
Tema. Em português, as estruturas VS, em geral, são consideradas como
pragmaticamente motivadas, o Sujeito está deslocado, pós-posto ao verbo, e não
apresentam a necessidade de preenchimento do lugar do Sujeito no início da oração.
Esse tipo de construção também possibilita identificar e expressar algo como
exclusivo em um determinado ponto da oração, o que se assemelha ao sistema de
Identificação de Tema. Segundo Halliday & Matthiessen (2004, p.95), “ambas são
construções equativas”, no entanto, embora tanto as Equativas Temáticas quanto as
orações de Tema Predicado compartilhem a característica equativa, elas diferem na
escolha do Tema e no mapeamento do Tema + Rema em Dado + Novo. Vejamos um
exemplo proposto por Halliday & Matthiessen (2004, p.97):
115
A – O pai de João queria que ele desistisse do violino. Sua professora o
convenceu a continuar.
Neste caso, observa-se um contraste entre desistir e continuar.
B – O pai de João queria que ele desistisse do violino. Foi sua professora
quem o convenceu a continuar. (= Sua professora o convenceu a continuar.)
Aqui, o fato de João continuar com o violino é considerado como dado e o
contraste é entre a atitude de sua professora e a do seu pai.
Observa-se que há uma ‘certa’ interrupção da expectativa criada pelo verbo
‘ser’ que inicia a segunda oração para destacar uma informação que virá a seguir e
que apresenta um significado do tipo ‘dedique atenção especial para algo que é
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improvável ou contrário à expectativa’. A segunda oração quem o convenceu a
continuar é uma oração que apresenta um pronome relativo, portanto, uma oração
relativa, que funciona como pós-modificadora.
Em inglês, as construções do tipo ‘Tema Predicado’ apresentam o pronome it
vazio no lugar do Sujeito, como em It was Jane that started it [Foi Jane que
começou].
2.3.1.4.1.2
Comentário Tematizado
Há uma outra estrutura que parece com a predicação de Tema, na qual o
sujeito ocorre na posição final da oração. Neste caso, também há em inglês o
preenchimento do local original do Sujeito pelo pronome ‘vazio’ it, o que em
português, como vimos acima, não se apresenta da mesma forma. Trata-se das
orações que “permitem que o falante/escritor comece sua mensagem com seu próprio
comentário sobre o valor ou a validade do que está prestes a dizer” (Thompson, 2004,
p.152). Essas orações podem expressar modalidade objetiva explícita.
Em geral, ao nos expressarmos sobre o mundo, não criamos apenas relações
com nossos interlocutores, mas criamos significados que ao serem tematizados
destacam nossos objetivos na interação (Fries, 1995, p.319), pois usamos a linguagem
116
não só para oferecer, solidarizar, distanciar etc., mas também para emitir avaliações
ou opiniões sobre nossas proposições.
Em outras palavras, podemos, no mesmo enunciado dizer aos nossos
interlocutores “até que ponto acreditamos que o que dizemos é provável, desejável,
importante, permissível, sério, surpreendente etc.” (Lemke, 1998, p.1-2). Ao realizar
essas avaliações de proposições, colocamos nossos discursos no abrangente mundo
dos pontos de vista sociais disponíveis com relação a nossa questão e definimos nossa
identidade como criadora de significados com valores e crenças particulares.
Nesse sentido é que se pode afirmar que a linguagem é um recurso social para
a construção de significado (Halliday, 1994; Halliday & Matthiessen, 2004) e que “o
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social é construído nos tecidos gramaticais da linguagem, de forma que a constituição
semiótica pelo social e do social está constantemente em questão na análise
lingüística” (Chouliaraki & Fairclough, 2002, p.140).
Acrescento a isto a afirmação de Fries (1995, p.319) de que os padrões de
tematização não ocorrem aleatoriamente, ao contrário, os conteúdos experienciais
tematizados estão relacionados com os objetivos dos autores e as percepções dos
leitores, razão pela qual o autor afirma também que os padrões de tematização estão
relacionados ao gênero, pois os conteúdos experienciais se relacionam com a forma
como as idéias são desenvolvidas em um texto. Para Fries (1995, p.323), “o método
de desenvolvimento de um texto afeta as reações de seus ouvintes e leitores”. Isto
significa que os conteúdos experienciais que são tematizados podem ser usados pelos
autores para manipular as reações dos leitores.
Vejamos um exemplo:
A – É importante que você compareça à reunião.
Aqui, a informação principal é ‘você comparecer à reunião’, uma proposição
que é avaliada como ‘importante’. A segunda oração que você compareça à reunião
é o Sujeito do verbo ‘ser’, que está na primeira oração, na GT. O Comentário
Tematizado não faz parte do componente significativo da segunda oração, sendo
apenas um comentário expresso pelo autor da proposição.
Os artigos de opinião e os editoriais jornalísticos apresentam uma linguagem
argumentativa que revela ser de grande densidade de avaliações de proposições. Ao
117
analisar a estrutura temática das orações, verificarei para qual elemento foi atribuído
o status temático e a partir de que ponto de vista o autor está posicionado.
A avaliação refere-se aos elementos léxico-gramaticais de um texto para
avaliar um ou mais elementos. Verifica-se que há uma diversidade considerável de
meios léxico-gramaticais para avaliações, o que me parece ser o caso específico dos
editoriais, sobre os quais Fries realizou uma investigação e verificou que o conteúdo
experiencial das tematizações se relaciona com o método de desenvolvimento do
texto. Vale lembrar que a noção de método de desenvolvimento do texto é uma noção
semântica.
Fica bem claro que as avaliações de proposições não são independentes no
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texto de avaliações de participantes, processos e circunstâncias, pois as avaliações
incluem as que avaliam mais diretamente um elemento semântico de uma proposição,
assim como o seu todo.
O fenômeno que ocorre nos textos jornalísticos – o de tematização do verbo
‘ser’ – pode ser comparado ao que Halliday chama de ‘cadeia referencial’. Trata-se
de uma combinação de coesão lexical e referencial que pode ser realizada por
“qualquer elemento que possa ter o papel de participante em uma estrutura transitiva”
(Halliday, 1994, p.337).
Cabe ressaltar que o verbo ‘ser’, no modelo hallidiano, não é classificado
como Tema experiencial, mas apenas como um operador que funciona como um tema
interpessoal, isto porque o modelo hallidiano foi desenvolvido para a língua inglesa, a
qual exige que a posição inicial da oração seja preenchida pelo pronome impessoal it
todas as vezes que o Sujeito seja deslocado para outra posição. Isto não ocorre em
português, visto que seus verbos flexionam em número e pessoa, o que permite
recuperar o sujeito em questão.
2.3.1.3.1.3
Equativas Temáticas
O Tema de uma oração também pode consistir de mais de um elemento
estrutural formando um único elemento estrutural. Tal grupo de elementos ou
118
sintagmas funcionam como um Tema, o qual ainda assim se inclui na categoria de
Temas simples. Há um recurso temático através do qual dois ou mais elementos
separados são agrupados de forma a constituir um constituinte único de estrutura
Tema + Rema, resultando o Tema em uma oração de um tipo particular – as
Equativas Temáticas.
As Equativas Temáticas são um tipo de oração em que o Tema e o Rema são
estabelecidos em termos de uma equação, ou seja, o Tema é igual ao Rema, o que
resulta em uma oração identificativa. Em uma equativa temática, todos os elementos
da oração estão organizados em dois constituintes; esses dois são então ligados por
um relação de identidade, expresso por alguma forma do verbo ‘ser’.
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Vejamos um exemplo de Equativa Temática extraído de Halliday &
Matthiessen (2004, p.69).
O que o Duque deu a minha tia
Tema
foi
Processo
aquela chaleira.
Rema
O ponto de partida em uma Equativa Temática é um tipo de pergunta que o
falante/escritor imagina que o ouvinte/leitor deseja fazer naquele estágio do texto.
Halliday & Matthiessen (2004, p.69) denominam ‘o que o Duque deu a minha
tia’ como uma “instância de uma característica estrutural conhecida como
nominalização”, processo pelo qual um elemento ou grupo de elementos destina-se a
funcionar como um grupo nominal na oração, passando a servir a um objetivo
temático. Esta possibilidade permite a
distribuição das partes da oração em Tema e
Rema, onde o Tema é o que aconteceu, significando ‘Eu quero contar a você algo que
aconteceu’, e cada componente do acontecimento é colocado no Rema (Halliday, &
Matthiessen, 2004, p.69).
Uma oração Equativa Temática é uma oração identificativa que apresenta uma
nominalização temática, cuja função é expressar a estrutura Tema-Rema. Essa
estrutura realiza duas características semânticas, as quais correspondem a dois
sentidos da palavra ‘identidade’. Por um lado, ela identifica (especifica) o que o Tema
é; por outro, ela o identifica (o iguala) ao Rema, o que neste caso adiciona-lhe um
componente semântico de exclusividade, significando ‘isto e somente isto’.
119
Uma área de grande interesse em uma análise de Tema no português é a de
processo como Tema. O português permite construções iniciadas com verbo em uma
diversidade de contextos. Um é quando o verbo de uma oração subseqüente refere-se
ao Sujeito de uma oração anterior. Nessa situação, ocorre um movimento obrigatório
de elipse. Caso o pronome seja incluído nesse caso, considera-se um tema marcado,
pois o falante/escritor teria de ter uma intenção especial para incluir o pronome.
Um outro caso é aquele em que há inversões e construções impessoais.
Inversões, como o próprio nome diz, consiste de uma construção de verbo inicial
seguido do Sujeito. Então o Sujeito aparece no Rema da oração, e o verbo no Tema.
Os verbos impessoais, que em português não permitem a inclusão de um
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Sujeito explícito, incluem verbos que se referem aos fenômenos metereológicos. Os
verbos ‘ser’ e ‘estar’ também na referência temporal e metereológica não permitem
um Sujeito explícito. Este também é o caso do verbo ‘haver’ e referências temporais.
As orações substantivas, como caso de inversão, funcionam como o Sujeito da
oração e nenhum pronome pode ser usado para preenchimento do lugar do Sujeito,
portanto, o processo em si é temático.
2.3.1.3.2
Rema
Para Halliday (1994, p.37), enquanto o Tema serve como ponto de partida da
mensagem, “o restante da mensagem, a parte na qual o Tema é desenvolvido, é
chamada Rema”.
É importante esclarecer aqui que os sistemas de estrutura de informação
(Dado-Novo) e a estrutura temática (Tema-Rema) são estruturas separadas, embora
estejam relacionadas. Na correspondência, os falantes “localizarão o foco, o clímax
do Novo, em algum lugar no Rema” (Halliday, 1994, p.299). O Novo elabora o
campo, desenvolvendo-o em termos experienciais.
A parte relativa ao Rema não será aqui apresentada por fugir ao escopo desta
tese.
120
Para facilitar a visualização da inter-relação Contexto de Situação, Sistema
Semântico e Sistema Léxico-gramatical dentro do constructo sócio-semiótico,
apresento abaixo dois quadros com o resumo das idéias apresentadas até então. Em
seguida, forneço uma representação gráfica sobre o processo de criação do texto.
Quadro 7 – Metafunções da linguagem e suas respectivas caracterizações
Metafunções
Caracterização
Ideacional
‘ideação’ – interpretação e representação
do mundo dentro de nós e ao nosso
redor.
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Interpessoal
Interação
entre
atribuição
de
falante
papéis
e
ouvinte;
discursivos
e
comentários modais-atitudinais.
Textual
Apresentação da informação ideacional e
interpessoal como texto em contexto.
Quadro 8 – O Contexto de situação e a realização no texto
SITUAÇÃO
(realizado por)
TEXTO
Características do Contexto de
Componentes funcionais do Sistema
Situação
Semântico
Campo do discurso
Significados
da
experiência
(o que está acontecendo)
(Metafunção Ideacional)
(Sistema de Transitividade)
Relações do discurso
Significados
interpessoais
(quem está participando)
(Metafunção Interpessoal)
(Sistema de modo oracional)
Modo do discurso
Significados textuais (Metafunção
(o papel dada à linguagem)
Textual)
(Sistema
de
Tema,
Relações de Coesão)
Informação,
121
Figura 6 – Representação gráfica do processo de criação do texto.
Ativa
Contexto de Situação
é realizado na + por
Semântica
Léxico-gramática
(significados)
(fraseados)
I – Campo
Ideacional
“O
Falante como
Observador
que
está
acontecendo?”
Significados
experienciais
Estrutura da
transitividade
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Significados
lógicos
II – Relações
“Quem
participando?”
III – Modo
“Como
significados
Interdependência
oracional
Interpessoal
está
os
são
Oração como
Representação
Falante como
Participante
Textual
Falante como produtor
do texto
Oração como
troca
Modo, modalidade,
sistemas de avaliação
Oração como
mensagem
Estrutura temática +
informação
trocados?
Nessa linha, usarei a LSF e a GSF de Halliday (1994; Halliday &
Matthiessen, 2004) como arcabouço teórico-metodológico para a análise e descrição
das ocorrências do verbo ‘ser’, focalizando de modo especial na Metafunção
Ideacional,
mais
especificamente
os
significados
ideacionais,
realizados
semanticamente através do Sistema de Transitividade. Usarei o complexo oracional –
o nível mais alto da organização ideacional – para definir o escopo da representação
ideacional-semântica do verbo ‘ser’.
Para melhor visualização do modelo hallidiano de linguagem como ‘semiótica
social’, forneço abaixo um quadro resumitivo.
122
Quadro 9 – Resumo do modelo hallidiano de linguagem como semiótica
social
Ideologia
Contexto
Contexto
De Cultura
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Texto
Contexto de
Situação
Gênero
Registro
Campo
Modo
Relações
Discurso
(Nível
semântico)
Significado experiencial
Significado textual
Significado interpessoal
Léxicogramática
Sistema de transitividade
- participantes
- processos
- circunstâncias
Sistema temático
- tema e rema
- dado e novo
Sistema de modo
- modo
- modalidade
Expressão
Grafologia / fonologia
2.3.1.4
A coesão textual
A análise de coesão, juntamente com os outros aspectos da textura, não adicionará,
em geral, nada novo à interpretação de um texto. O que ela fará é mostrar por que o
texto é interpretado de uma determinada forma...” (Halliday & Hasan, 1976, p.328).
A coesão, como definido por Halliday & Hasan (1976, p.4), “ocorre onde a
interpretação de algum elemento no discurso depende de um outro”. A coesão entre
as orações é de grande relevância para os objetivos desta tese e para a discussão da
estrutura discursiva, pois investigar a coesão em um texto é pensar em um processo.
Trata-se da ligação dos elementos que constituem o texto; é a interdependência
interna organizada.
Cabe lembrar que Halliday & Hasan (1976, p.10) consideram que a coesão
refere-se à extensão de possibilidades que existem para ligar algo com o que veio
antes. Uma vez que essa ligação é alcançada através das relações de significado
(estamos excluindo os efeitos dos recursos formais tais como paralelismo sintático,
métrica e rima), o que está em questão é o conjunto de relações de significado que
funcionam dessa forma: os recursos semânticos que são ocasionados para o objetivo
de criar um texto.
123
Acrescento ainda que “toda a oração, exceto a primeira, exibe alguma forma
de coesão com uma oração anterior, em geral com a imediatamente anterior. Em
outras palavras, toda oração contém pelo menos um elo anafórico conectando-a com
o que veio antes” (Halliday & Hasan, 1976:293).
Para Halliday (Halliday & Hasan, 1976; Halliday, 1994, p.17), a coesão é um
conceito semântico e refere-se às relações de significado no texto, as quais o definem
como texto. Assim, a coesão ocorre a partir da dependência de elementos no discurso.
Os laços de coesão [coesive ties] (Halliday & Hasan, 1976, p.9;Halliday,
1994, p.311; Halliday & Matthiessen, 2004, p.532) podem ocorrer em qualquer lugar
na oração. No entanto, a parte inicial de uma oração presta-se mais facilmente às
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funções coesivas, porque trata-se de um lugar onde as relações discursivas podem ser
marcadas mais explicitamente, como por exemplo, por meio das conjunções.
Por outro lado, para Halliday (1994, p.308-11), a organização textual é
semântica e não formal, e assim sendo, a coesão tão pouco é textual, isto é, trata-se de
uma parte da estrutura semântica do texto. A coesão textual é um dos aspectos do
texto por onde “um processo contínuo de significados é canalizado” (Halliday, 1994,
p.311). Os laços coesivos marcam relações semânticas no texto, independentemente
da estrutura gramatical das orações que constituem o texto e podem ocorrem em
qualquer lugar na oração, não somente na parte temática. No entanto, dado que o
papel do Tema é determinar a relevância de uma mensagem para seu ambiente
textual, há mais chances de interação entre o Tema e a coesão, uma vez que ambos
pertencem à Metafunção Textual, a qual é descrita como uma função capacitadora, ou
seja, aquela que permite que os significados ideacionais e interpessoais sejam
expressos lingüisticamente.
Segundo Halliday & Matthiessen (2004, p.532-5), a Léxico-gramática possui
um conjunto de sistemas léxico-gramaticais chamado Sistema de Coesão, o qual torna
possível ultrapassar os limites da oração.
Aqui chamo a atenção para a interação da estrutura temática e da coesão como
componentes da textura – “qualidade de ser reconhecidamente um texto e não uma
coleção de palavras e frases desconectadas” (Thompson, 2004, p.179), ou seja, trata-
124
se da estrutura de continuidade do texto e relaciona-se com o contexto de situação. A
textura é o que mantém as frases de um texto juntas para dar unidade a ele.
Segundo Thompson (2004, p.179-80), coesão e coerência são quase que
intercambiáveis, havendo apenas uma diferença que considera importante, a saber o
fato de que a coesão “refere-se às ferramentas lingüísticas através das quais o falante
pode “sinalizar a coerência experiencial e interpessoal do texto”, sendo, portanto, um
fenômeno textual; a coerência, por outro lado, “está na mente do escritor e leitor: é
um fenômeno mental e não pode ser identificado ou quantificado da mesma forma
que a coesão”.
Enquanto a coesão refere-se às propriedades internas do texto, a coerência
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refere-se à forma como um grupo de orações relaciona-se com o contexto. A
coerência argumentativa dá-se a partir do raciocínio, numa relação lógica entre as
idéias, mostrando o pensamento numa opinião progressivamente construída, como
veremos nos artigos de opinião e nos editoriais jornalísticos analisados no Capítulo
IV.
Nesses artigos, verificaremos que a argumentação é responsável pelos
encadeamentos discursivos, articulando entre si enunciados ou parágrafos,
transformando-os em texto. Verificaremos que essa progressão do discurso dá-se
através das articulações da argumentação com o uso do verbo ‘ser’, usado em posição
inicial de oração, referindo-se ao dito anteriormente, proporcionando, dessa forma, a
coesão textual. Chamei à atenção para este tipo de ocorrência como coesiva por
perceber nela essas características e por acreditar que haja uma estreita relação entre
esse tipo de uso para fins coesivos e referenciais e a construção dos significados
ideacionais realizados pelo verbo ‘ser’.
Considero
que
o
verbo
‘ser’
contribui
significativamente
para
o
desenvolvimento do discurso, pois usado dessa forma ele é uma âncora no cerne da
experiência.
Ao afirmar que a tematização do verbo ‘ser’ realiza uma coesão entre os
parágrafos, estou embasada em Halliday & Hasan (1976, p.6-7) que abordam a
coesão como um conceito semântico que se refere às relações de sentido existentes
no interior do texto e que o definem como um texto. E mais uma vez, cito os autores
125
no que se refere ao tipo específico de relação de significado que eles consideram
crítica para a criação da textura: “aquela em que UM ELEMENTO É
INTERPRETADO POR REFERÊNCIA A OUTRO” [grifo dos autores] (Halliday &
Hasan, 1976, p.11).
Nesse sentido, chamo também a atenção para o fato de que esses fatores
reunidos, a saber, a construção dos significados ideacionais e a coesão textual levam à
produção de um texto coerente. Portanto, acredito que a análise das escolhas
temáticas em um texto pode indicar os objetivos que o autor tinha no momento da
interação, o que significa que as escolhas temáticas estão relacionadas ao contexto e
referem-se aos objetivos comunicativos em um contexto particular.
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Um dos recursos de coesão textual é a Referência (uma relação entre coisas,
ou fatos) endofórica. A coesão referencial realiza-se pela referência a elementos do
próprio texto, como nos explicam Halliday & Hasan (1976, p.31;Thompson, 2004,
p.180-181):
o que caracteriza esse tipo particular de coesão, aquele que estamos chamando de
REFERÊNCIA, é a natureza específica da informação que está sinalizada para ser
recuperada. No caso da referência, a informação a ser recuperada é o significado
referencial, a identidade da coisa particular ou da classe de coisas que está sendo
referida; e a coesão reside na continuidade da referência, onde a mesma coisa entra
no discurso uma segunda vez.
Quanto à referência, Halliday & Matthiessen (2004, p.551) apresentam-na em
dois tipos: a exofórica (aquela que aponta para fora) e a endofórica (aquela que
aponta para dentro). A referência endofórica é a que sinaliza como a linguagem
encaixa-se especificamente em seu contexto textual (o co-texto). A referência
endofórica mais coesiva é a anafórica (aquela que aponta para trás), ou seja, aquela
em que “o significado que está sendo repetido já foi mencionado antes no texto”.
Halliday & Matthiessen (2004, p.552) explicam que
uma vez que um novo significado tenha sido introduzido, ele torna-se parte daquele
sistema, [...] podendo ser presumido pela referência endofórica. [...] A referência
endofórica pode apontar para trás para a história do texto em desenvolvimento, isto é,
para um referente que já foi introduzido e é então parte do sistema de significados do
texto. [...] Este tipo de referência endofórica é chamada de anáfora, ou referência
anafórica, e o elemento para o qual a referência é feita é chamado de antecedente.
126
Mas, a referência endofórica também pode apontar para frente, para o futuro
do texto em desenvolvimento, isto é, para um referente que ainda não foi introduzido.
Esse tipo de referência endofórica é chamada ‘catáfora’, ou referência catafórica
(Halliday & Matthiessen, 2004, p.552; Halliday & Hasan, 1976, p.72) e sinaliza que o
significado do item de referência será especificado mais adiante no texto.
Ambos os usos da referência servem à função de mostrar como a mensagem
amolda-se em seu contexto. A coesão de um texto depende de um certo grau de
redundância, na qual retomam-se as idéias e parte delas.
Para o objetivo de desenvolver uma análise a partir da descrição dos padrões
gramaticais de transitividade que permita alcançar qual sentido está sendo construído
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nos artigos selecionados para esta tese, o resumo acima é satisfatório.
2.4
A Transitividade
Nesta seção, tenho por objetivo fornecer um histórico de trabalhos, a título de
contribuição para os estudos lingüísticos em português, na área dos estudos sobre
transitividade à luz da LSF, atribuindo maior destaque aos trabalhos elaborados por
Halliday, assim como também pretendo resumir outras contribuições de alguns
estudiosos da mesma teoria e de outras sobre o tema. O histórico aqui apresentado
não será utilizado na análise, servindo apenas como referência histórica.
Dado o escopo desta tese, o resumo das outras contribuições fora da LSF
abarcou apenas algumas abordagens sobre transitividade, sendo que essa seleção está
baseada no fato de que os teóricos aqui mencionados interessam-se pela classificação
semântica dos verbos e/ou dos papéis temáticos associados a eles em uma oração.
Ao apresentar essas abordagens, estabeleço os critérios que justificam a opção
pelo tratamento da transitividade na LSF como o arcabouço teórico-metodológico
mais adequado para analisar e descrever as ocorrências do verbo ‘ser’, pois com esse
arcabouço pretendo estabelecer os significados instanciados por esse verbo, quando
expresso em artigos de opinião e editoriais jornalísticos, os quais serão apresentados
no capítulo IV. Esclareço mais uma vez que embora apresente um histórico sobre a
127
transitividade à luz da LSF, os conceitos usados na análise dos dados serão apenas os
contemplados em An Introduction to Functional Grammar (1994), Construing
Experience Through Meaning (1999) e An Introduction to Functional Grammar
(2004).
Nas palavras de Halliday e Matthiessen (1999, p.416), a orientação para o
estudo do significado deve ser aquela que o localiza em relação à interpretação intracamadas da linguagem: o significado dever ser visto como
algo que é construído na linguagem e, portanto, é parte dela. A interpretação
imanente do significado é característica da orientação retórica-etnográfica, incluindo
nossa própria abordagem.
A partir da perspectiva de que a ‘base de conhecimento’ é uma ‘base de
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significado’, o significado passa a ser concebido como imanente, algo construído na
linguagem em si, algo que faz parte dela.
A maioria dos estudos sobre transitividade concentraram-se no nível da
oração descontextualizada. Embora muitos desses estudos tenham fornecido uma
grande quantidade de informação com relação à comparação de línguas,
especialmente no nível sintático, apenas alguns contemplaram o texto como “unidade
básica de linguagem em uso” (Halliday, [1970] 2002, p.160) como a LSF.12
Dessa forma, entendo que a linguagem não pode ser tratada apenas no seu
aspecto sintático, concebendo o significado como algo transcendente, isto é, algo que
reside fora dos limites da linguagem. Conseqüentemente, se entendemos
conhecimento como significado, a linguagem é o único sistema semiótico “cuja base
de significado pode servir para transformar significados construídos em outros
sistemas (incluindo os relativos à percepção) e, em seguida, integrar nossa
experiência oriunda de todas as outras fontes” (Halliday & Matthiessen, 1999, p.444).
É por essa razão que a transitividade não pode ser considerada um sistema
conceitual extra-semântico, pois a base de significado tem de ser realizada em textos,
isto é, tem de ser considerada léxico-gramaticalmente, e a relação entre o significado
e o fraseado, ou seja, a relação entre o Sistema Semântico e o Sistema Léxico12
Para justificar citar Halliday aqui, lembro que entendo texto como o reflexo de um ato de comunicação que o
torna a unidade básica da linguagem, podendo ser constituído de uma palavra ou de uma frase.
128
gramatical, tem de ser considerada de ordem natural, uma vez que ambas são estratos
do conteúdo (Halliday & Matthiessen, 1999, p.444).
Já as teorias que buscam uma universalidade lingüística consideram que o
significado está fora dos limites da linguagem, portanto, de natureza diversa,
transcendente. Elas interpretam o significado em termos de algum sistema fora da
linguagem, que pode ser o ‘mundo real’ ou qualquer outro sistema semiótico. Tentam
identificar o significado de uma sentença ou texto com sua condição de verdade, as
condições no mundo real que são necessárias para assegurar sua veracidade, ou
tentam identificar o significado com uma representação mental intrinsecamente
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significativa.
2.4.1
Histórico
Dando continuidade ao que expus no início da seção 2.4, começo por
apresentar a abordagem de Charles Fillmore em The Case for Case (1968a).
2.4.1.1
The Case for Case [Em favor do Caso] – a abordagem de Charles
Fillmore (1968)
Fillmore desenvolveu uma teoria funcional de sintaxe baseado na noção de
que havia um conjunto universal de papéis sintático-semânticos que as línguas
poderiam codificar de diferentes formas. O autor buscava estabelecer um sistema
universal de relações de Casos13 na estrutura profunda das sentenças, pois postulava
que essas noções de Caso eram inatas. O autor analisa os casos gramaticais sugeridos
13
Caso em seu sentido mais tradicional refere-se aos meios morfológicos pelos quais algumas línguas
indicavam a relação gramatical de cada sintagma nominal com o verbo em uma frase.
No sentido mais estrito do termo, Caso refere-se ao tipo de marcação de flexão dos sintagmas nominais
encontrados no alemão, no latim e em outras línguas.
129
pela gramática gerativa transformacional (Chomsky 1965) presentes na estrutura
superficial, tendo, portanto, sua abordagem uma origem na visão mais mentalista14.
A Gramática de Casos de Fillmore é uma teoria para representação semântica
baseada nas relações existentes entre a ação (ou estado), denotada pelo verbo e seus
demais constituintes. Fillmore não postula tipos diferentes de processos verbais,
como o faz Halliday, focando-se nas relações de Caso particulares existentes entre o
verbo e o sintagma nominal associado ao verbo. Essas relações são chamadas de
‘relações de casos’, ou ‘casos conceituais’. Relações de casos constituem o conjunto
de papéis temáticos.
Fillmore difere de Chomsky ao fornecer uma descrição das funções
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gramaticais que inclui um aspecto semântico e ao propor que a ‘atribuição de caso’
ocorre na estrutura profunda da sentença e não na estrutura de superfície. Portanto,
sua Gramática de Casos contempla não só os casos de origem sintática, como também
os de origem semântica.
A noção gramatical de caso que está no componente de base da gramática de
todas as línguas opunha-se ao pressuposto comum vigente à época de que o Caso era
uma variedade de “relacionamentos semânticos que podem existir entre substantivos
e outras partes das orações” (Fillmore, 1968, p.2).
Em outras palavras, o que o autor chamava de ‘Caso’ eram aqueles
relacionamentos sintáticos semanticamente relevantes que envolviam substantivos e
as estruturas que os contêm e que, embora não-manifestos, em grande parte, pois não
apresentavam ‘realizações morfêmicas óbvias’, constituem um conjunto finito
específico que pode ser descoberto empiricamente, uma vez que essas realizações
morfêmicas “possuem uma realidade que pode ser observada na base de restrições de
seleção e possibilidades transformacionais” (Fillmores, 1968, p.3).
Fillmore argumenta ainda que os estudos até então careciam de ‘enfoques
válidos a respeito dos relacionamentos de Caso’, havendo, portanto, no seu entender,
a necessidade de se conceber “a estrutura de base na qual os relacionamentos de Caso
sejam primitivos da teoria”, omitindo-se, dessa forma, conceitos como o de ‘sujeito’ e
14
A visão mentalista está interessada em descobrir uma realidade mental subjacente ao compartamento
real.
130
‘objeto direto’, pois “a relação ‘sujeito’, em outras palavras, é enfocada agora
exclusivamente como um fenômeno de superfície” (1968, p.2-3).
Para a sustentação de seu argumento, Fillmore considera que um estudo que
segue a tradição da gramática gerativa deve conceber como uma de suas premissas a
centralidade da sintaxe, onde “as palavras são especificadas com referência a
conceitos sintáticos e não inversamente” (1968, p.3).
O que Fillmore propõe como ‘Gramática de Casos’ refere-se às relações
sintáticas envolvidas na seleção de formas de caso, que denominou ‘puras’ ou
‘configuracionais’, as quais referem-se às relações estabelecidas entre “constituintes
gramaticais expressáveis em termos de domínio (imeditato)” (Fillmore, 1968, p.15-
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16), ou seja, entre o Sujeito e o constituinte – o sintagma nominal – e o Objeto e o
constituinte – sintagma nominal na oração.
As ‘rotuladas’ referem-se às relações que se estabelecem entre o sintagma
nominal e o sintagma verbal, as quais são mediadas por um rótulo pseudo-categoria,
tais como: modo, extensão, agente (Fillmore, 1968, p.15-16), para as quais o autor
atribuiu as ‘formas de caso’ e que envolvem uma determinada função semântica.
Entendo que isto significa que
onde a relação de ‘sujeito de’ é compreendida como existindo entre elementos da
estrutura profunda, fala-se de sujeito de estrutura profunda; onde ela é compreendida
como existindo entre elementos da estrutura superficial (pré-estilística), fala-se de
sujeito de estrutura de superfície. Essa distinção parece corresponder à distinção
tradicional de ‘sujeito lógico’ e ‘sujeito gramatical’ (Fillmore, 1968, p.16), 15
pois para Fillmore a conclusão é de que
todas as relações sintáticas semanticamente relevantes entre SNs e as estruturas
sintáticas semanticamente relevantes entre SNs e as estruturas que os contêm devem
ser do tipo ‘rotulado’ (id.,p. 17).
Fillmore afirma ainda que
... a estrutura profunda de (o componente proposicional de) toda sentença simples é
uma combinação consistindo em um V mais um certo número de SNs mantendo
relações rotuladas especiais (casos) com a sentença. Estas relações, estatuídas em
categorias, incluem conceitos como os de Agentivo, Instrumental, Objetivo,
15
Embora o texto utilizado nesta tese tenha sido o original The Case for Case in Bach. E. & Harms.
R.T (orgs), Universals in linguistic theory, Nova York, Holt, Rinehart and Winston, 1968, pages: 1-88,
as traduções foram extraídas da tradução de Lobato, Semântica: o léxico, por tratar-se de uma
reprodução já traduzida e autorizada pelo autor e pela editora original.
131
Factitivo, Locativo, Benefativo e, talvez, diversos outros. Sentenças complexas
envolvem recorrência à categoria Sentença, sob a categoria de caso Objetivo. Os
verbos são subclassificados segundo as ambiências de caso que os aceitam e as
caracterizações semânticas de verbos os relacionam seja a elementos específicos de
caso na ambiência, seja a elementos que contenham traços (como animação)
introduzidos como acompanhamentos obrigatórios de determinados casos (1968,
p.31-2).
Por interpretar o ‘sujeito’ como um aspecto da estrutura de superfície,
Fillmore aborda a questão de línguas que contêm sentenças ‘sem sujeito’ (como o
Latin), alegando que deveria ser estabelecida uma distinção entre “não ter um
constituinte que pudesse, com propriedade, ser denominado ‘sujeito’ e perder tal
constituinte por cancelamento anafórico” (Fillmore, 1968, p.17).
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A partir de então, Fillmore declara sua posição diante da validade da estrutura
profunda da divisão tradicional entre sujeito e predicado,
uma divisão que é defendida por alguns como subjazendo à forma básica de todas as
sentenças em todas as línguas. A posição que tomo parece se alinhar com a de
Tesnière (1959, p.103-105) que sustenta que a divisão sujeito/predicado é uma
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133
mas que apresentam também diferenças, uma vez que, para a LSF, através da análise
de papéis de participantes podemos depreender a visão de mundo que o autor de um
texto falado ou escrito possui.
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A gramática de casos de Fillmore a sentença como possuindo na sua estrutura
134
casos. Alguns casos são obrigatórios, outros opcionais. Um caso será obrigatório se,
ao ser omitido, a frase tornar-se agramatical ou anômala semanticamente.
O conjunto de papéis que qualquer sistema de papéis apresenta é sempre uma
abstração: um papel para cada argumento para cada uso de cada verbo. O inventário
de casos para Halliday, como a classificação dos tipos de processo, é tratado como
específico de uma língua, em contraste com a Gramática de Casos onde os Casos são
universais, mas a classificação do verbo é específica de uma língua.
A partir do exposto acima, meu entendimento é que embora parta de
Chomsky, Fillmore diferencia-se dele ao entrar nos domínios da ‘semântica’ e ao
propor que a atribuição de caso, na realidade, ocorra na estrutura profunda da
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sentença e não na estrutura de superfície, como afirmava Chomsky. Por outro lado,
Fillmore mantém os mesmos princípios fundamentais ao afirmar que
as noções de caso constituem um conjunto de conceitos universais, presumivelmente
inatos (Fillmore, 1968, p. 24).
Enquanto Fillmore está interessado nos universais inatos e na natureza dos
seres humanos, a LSF também está interessada no que acontece em instâncias do
texto produzido pelos falantes/escritores. Fillmore não postula tipos diferentes de
processos verbais, como o faz Halliday, que enfoca as relações de Caso particulares
que existem entre o verbo e o sintagma nominal associado ao verbo.
Embora Halliday e Fillmore não tivessem a mesma motivação, há uma
semelhança nas categorias de Caso e de abordagem transitiva. Halliday (1968) referese aos trabalhos de Fillmore em vários exemplos, quando descreve o componente
‘ideacional’ da estrutura gramatical em termos de ‘funções transitivas’, dizendo que
há muitas semelhanças com as de Anderson (1968a) e as de Fillmore (1968), muito
embora esses autores as tenham tratado em termos de ‘Casos profundos’.
Halliday considera que
cada um dos três elementos principais da estrutura da oração, predicador, sujeito e
complemento, expressa uma variedade de noções diferentes [...]: S pode ser ator,
objetivo ou atribuinte, P pode ser ação ou atribuição, C pode ser objetivo ou atributo.
Isto é refletido na falta de correspondência direta entre as descrições sistêmicas e as
estruturais (Halliday, 1968, p.41).
135
O modelo de Fillmore está baseado em verbos de ‘ação’, em processos que
são dinâmicos e não estativos, o que representa um problema para a análise a que me
proponho neste trabalho.
Para os propósitos desta tese, no meu entender, é suficiente o exame resumido
da proposta de Fillmore, sobretudo da descrição das relações de caso, mostrando que
é no nível da estrutura profunda que ele tenta a descrição semântica, o que prova seu
reconhecimento pela necessidade de descrever a semântica. Esse reconhecimento
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pode ser percebido no parágrafo onde afirma:
se for possível descobrir uma teoria sintática semanticamente justificada ao longo das
linhas que sugeri, é possível por regras... transformar essas ‘estruturas profundas
semânticas’ em formas de superfície de sentenças, depois é provável que a estrutura
profunda sintática do tipo conhecido no trabalho de Chomsky e seus alunos seguirá o
caminho dos fonemas. É um nível intermediário artificial entre a ‘estrutura profunda
semântica’ empiricamente descoberta e a estrutura de superfície observacionalmente
acessível, um nível de propriedades das quais têm mais a ver com os compromissos
metodológicos dos gramáticos do que com a natureza das línguas humanas (1968,
p.88).
2.4.1.2
Introdução à Lingüística Teórica – Lyons (1968)
Dentro do arcabouço teórico gerativista, Lyons ([1968] 1979, p.353), no
capítulo 8 intitulado Funções gramaticais, começa reconhecendo e aceitando o ponto
de vista tradicional que distingue a estrutura sintática sujeito/predicado e atribui a ela
a posição nuclear da frase, apontando o paralelismo gramatical entre o nome que
ocupa a posição de sujeito de uma oração transitiva e o nome que ocupa a posição de
sujeito de uma oração intransitiva, e a concordância entre o substantivo que exerce a
função de sujeito e o verbo como a razão para tal distinção. Para o autor, a oração
declarativa simples contém dois constituintes maiores obrigatórios – sujeito e
predicado – e “constituintes facultativos, ou estruturalmente dispensáveis, da frase”,
como os adjuntos.
Vale ressaltar que Lyons está influenciado pela doutrina aristotélica das
categorias de predicação que deu uma base filosófica à concepção de que o mundo é
povoado por pessoas, animais e coisas (substâncias) e que essas substâncias são ou os
autores ou as vítimas (agentes ou pacientes) de atividades e processsos, são dotadas
136
de certas qualidades, estão situadas em lugares particulares num determinado tempo,
sujeitas a mudanças etc. No princípio da teoria lógica e da gramática tradicional, o
sujeito e o substantivo estão indissoluvelmente associados, denotando pessoas ou
coisas.
A doutrina aristotélica das categorias de predicação indentifica termos
universais como os que podem ser encontrados na posição de sujeito e na de
predicado em proposições bem formadas. Trata-se de sintagmas, inclusive os
substantivos ‘comuns’ indefinidos e os substantivos ‘abstratos’, assim como os
verbos, os adjetivos e os advérbios que não denotam por si substâncias individuais,
uma classe de indivíduos ou qualidades, estados, ações etc., que podem ser
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associados a indivíduos. Os termos particulares ou singulares denotam alguma
substância definida, individual. Esses termos são encontrados apenas na posição de
sujeito. O exemplo fornecido pelo autor é o seguinte: Sócrates é um homem
(genérico), portanto universal; Sócrates é sábio (caracterizador), portanto particular;
Os homens são sábios, composto de dois termos universais. No último exemplo, dos
dois termos considerados universais o mais específico é o sujeito homens e o menos
específico é o predicado sábios.
Na seção Concordância dos critérios lógicos com os critérios gramaticais,
Lyons afirma que se substituirmos o nome João e Guilherme pelos pronomes ele e o,
respectivamente, nos exemplos João mata Guilherme e João foge, o pronome ele
“terá a mesma forma (caso “nominativo”), tanto na frase transitiva como na
intransitiva [...]”. Entendo que isto significa que essa substituição permitiria-nos
mostrar João como o caso nominativo ele, e Guilherme como o caso acusativo –o,
como em João o mata. Dessa forma, ao coordenarmos as duas frases, a segunda
ocorrência de João desapareceria nas frases resultantes.
Lyons (p.360) afirma também que
tanto as frases intransitivas como as transitivas em inglês e português podem
responder à pergunta implícita ‘o que é que X faz?’ em que X é uma expressão
nominal e faz é um ‘pró-verbo’ que substitui verbos intransitivos, por um lado, e
transitivos e seus objetos por outro.
Portanto, para Lyons, todas as vezes que essa condição for satisfeita, “o
sujeito pode ser descrito como ator (ou ‘agente’); o substantivo-objeto em frases
137
transitivas é a ‘meta’ (ou ‘paciente’)”. No entanto, o autor reconhece que essa
“interpretação nocional do sujeito como ‘ator’ e do objeto como ‘meta’,
freqüentemente, entra em conflito com alguns dos outros critérios referidos nos
parágrafos anteriores”.
Lyons está referindo-se aos exemplos A riqueza atrai assaltantes e Os ricos
atraem assaltantes, onde os sujeitos são A riqueza e Os ricos de acordo com o critério
de concordância sujeito-verbo. No entanto, sabe-se que A riqueza não poderia
preencher o papel de ‘ator’. Com isso o autor chega à conclusão de que a distinção
entre sujeito e predicado só poderia ser aplicada “a frases cujos núcleos consistem de
uma expressão nominal e de um predicado intransitivo” (id., p.363).
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Mais adiante, Lyons disserta sobre a semelhança entre adjuntos de tempo e de
lugar e complementos de tempo e de lugar no nível da palavra e do sintagma. Para o
autor, o termo complemento aplica-se “a expressões nominais ou adjetivas que se
combinam com a ‘cópula’, como no exemplo Maria é (cópula) bonita
(complemento)” (id., p. 365).
Esta posição difere da posição da gramática tradicional que atribui a
designação de complemento a qualquer palavra ou sintagma, diferente do verbo, que
seja um constituinte obrigatório do predicado e que é requerido para ‘completar’ a
estrutura do predicado. A diferença entre adjuntos e complementos é, em princípio, a
de que adjuntos são os constituintes facultativos (extranuclear) e complemento o
constituinte obrigatório (nuclear) da frase.
Lyons discorda da clareza dessa distinção demonstrando que “a mesma classe
de palavras ou de sintagmas pode ocorrer como um adjunto de lugar ou de tempo
num conjunto de frases, e como um complemento (da cópula) em outro” (ibid.,
p.365). Seu exemplo é o seguinte: A demonstração ocorreu no domingo, onde o
verbo ocorrer é intransitivo, por definição, portanto, não exige complemento, o que
torna o sintagma no domingo um adjunto.
No entanto, se considerarmos a relação semântica da frase anterior com a
frase A demonstração foi no domingo, poderíamos dizer que os verbos ser e ocorrer
são do mesmo tipo e como no domingo, neste último exemplo, é complemento
predicativo, pode-se dizer então que no domingo é adjunto ou complemento
138
predicativo em ambos os exemplos e que o verbo ocorrer também pode ser
considerado então como cópula de tempo e de lugar como no exemplo acima.
Para os propósitos específicos desta tese, interessa-me ressaltar as abordagens
do autor quanto ao verbo ‘ser’ e, com relação a ele, o autor declara, na seção
Construções existenciais, locativas e possessivas (p.408-9) que, com relação aos
verbos ‘ser’ e ‘ter’, trata-se de “um elemento gramatical, desprovido de sentido, que
serve apenas como ‘suporte’ dos marcadores de tempo, modo e aspecto na estrutura
superficial das orações.”
Essa posição difere da de Halliday (1968, p.66) que não vê justificativa para
negar a to be (verbo ‘ser’) o status de um verbo lexical. O autor defende que o verbo
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‘ser’ pode ser atribuído a um conjunto de classes verbais reconhecido no Sistema de
Transitividade. Portanto, no meu entender, não se trata de um verbo ‘sem
significado’, mas trata-se de mais de um significado construído pelas realizações com
esse verbo.
É interessante observar que, embora Lyons considere esse verbo desprovido
de significado, ao distinguir seus usos ‘predicativos’ define-os da seguinte forma: a
identificação de uma entidade com outra (a=b), também chamada de equativa; o
pertencimento a uma classe (João é católico, ou seja, João é um membro da classe de
pessoas caracterizadas como católicas) e a inclusão numa classe (Católicos são
Cristãos, ou seja, “os membros da classe de pessoas caracterizadas como católicos
estão incluídos entre os membros da classe de pessoas caracterizadas como
cristãos.”), os quais podem ser considerados significados diferentes construídos pelo
verbo ‘ser’.
Vale ressaltar que ao introduzir conceitos como os acima para os usos
‘predicativos’ do verbo ‘ser’, Lyons reflete uma certa influência das propostas de
Halliday (1968), embora se diferencie dele ao afirmar que a transitividade
está, pois, ligada à distinção entre expressões nominais animadas e não-animadas, e,
no sistema ‘ideal’, as primeiras podem ser ou ‘agentivas’ ou ‘não-agentivas’, tanto
em frases transitivas como em intransitivas, e as não-animadas são sempre nãoagentivas.
E com essa definição de transitividade, elimina de vez a possibilidade de
incluir o verbo ‘ser’ na acepção de verbos transitivos.
139
Enquanto para Halliday, a transitividade é definida
em termos de relações sintagmáticas e paradigmáticas na oração, não pela
classificação de verbos como ‘transitivos’ ou ‘intransitivos’. [...]; as classes de verbos
representam a potencialidade da parte de cada verbo de entrar em cada um dos
conjuntos de relações envolvidas (1968, p.52).
A diferença entre os dois está no fato de que para Halliday a classificação de
qualquer verbo é feita de acordo com sua potencialidade de operar em cada um dos
tipos de oração identificados pelo autor. Na realidade é a “categorização derivada do
Sistemas de Transitividade que é responsável pelas potencialidades do to be [verbo
‘ser’] assim como o é para os outros verbos” (Halliday, 1968, p. 71). No meu
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entender, Lyons trata a transitividade como verbal e Halliday como oracional.
2.4.1.3
Functionalism and Grammar – Talmy Givón (1995)
Na introdução de Functionalism and Grammar (1995, p.7), Givón afirma que
o funcionalismo ao qual está associado tem sua descendência direta de Aspects (1965)
de Chomsky, livro que inicia a concepção do isomorfismo entre a estrutura sintática
profunda e o significado proposicional.
A definição de transitividade elaborada por Givón parece bastante semelhante
à adotada pela gramática tradicional, apresentando a diferença da definição
semântica. Já com relação ao tratamento dado aos ‘verbos de ligação’ ou ‘cópula’, o
autor também os considera não-nocionais, depositando em seu predicativo o núcleo
do predicado como o faz a gramática tradicional. Para Givón, o verbo ser é um verbo
cópula estativo, semanticamente empobrecido, carregando pouco ou quase nenhum
sentido. A carga da informação nas frases com verbo cópula é fornecida pelo
predicativo que o segue. Para o autor, as frases com esses verbos codificam um
estado ou um dativo.
Nessa perspectiva, Givón (1993, p.99-105; 1995, p.76) define que a frase
simples – e os verbos – são transitivos ou intransitivos. Para o autor, a transitividade
é um fenômeno complexo que envolve componentes semânticos, pragmáticos e
sintáticos, ou seja, há uma definição semântica e uma sintática. Cada um desses
140
traços enfoca as propriedades do sujeito, do objeto ou do verbo da frase. Juntos, os
três componentes definem o prototipo da frase semanticamente transitiva. Uma frase
transitiva prototípica apresenta três dimensões semânticas, cujas definições são as
seguintes:
a)
Agentividade: O sujeito de uma frase transitiva prototípica é um
agente deliberadamente ativo, ou seja, é um agente intencional,
responsável pelo evento.
b)
Afetação: O objeto direto de uma frase transitiva prototípica é um
paciente concreto visivelmente afetado, isto é, não intencional,
inativo que registra as mudanças de estado do evento.
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c)
Perfectividade: O verbo transitivo prototípico codifica um evento
perfectivo (não durável), completo, que acontece em tempo real.
Cada uma dessas dimensões corresponde a um aspecto central do evento
transitivo prototípico.
Observa-se que alguns desses traços apresentam uma determinada graduação,
de forma que a transitividade semântica é, pelo menos em princípio, escalar.
A definição sintática da frase transitiva prototípica – e dos verbos – é a
seguinte:
a) os verbos (e frases) que têm um objeto direto serão considerados
transitivos;
b) verbos (e frases) que não têm um objeto direto serão considerados
intransitivos.
A perspectiva adotada pelo autor parece concentrar aspectos da teoria
gramatical tradicional quando define como transitivos os verbos que têm um objeto
direto e alguns traços da teoria valencial quando admite que há exigências e restrições
de ordem semântica, sintática e pragmática sobre a transitividade verbal e que esta
pode ser expandida à frase.
141
2.4.1.4
Gramática Funcional – Simon Dik – (1981)
Com relação à proposta de Simon Dik em Gramática Funcional (doravante
GF)(1981), seu objetivo é explicar as regras da língua em termos de sua
funcionalidade com respeito a seus modos de utilização e às finalidades desses usos.
No entanto, Dik busca os universais lingüísticos, explicando-os em termos das
relações inerentes às metas da comunicação, à constituição biológica e psicológica
dos usuários da língua e às circunstâncias e contextos nos quais eles as utilizam.
Dik esclarece que a teoria da GF tem como objetivo proporcionar meios e
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princípios que possibilitem o desenvolvimento das gramáticas das línguas
individuais. A gramática funcional de uma língua individual deveria, para o autor, ser
capaz de especificar todas as expressões lingüísticas dessa língua por meio de um
sistema de regras em que estejam incorporadas as generalizações mais significativas
sobre a língua. Nesse sentido, essa GF deveria adaptar-se aos padrões de adequação
correspondentes aos
que Chomsky (1965) formulou para as
Gramáticas
Transformacionais.
Dik (1981, p.33-41) estabelece que a interação verbal constrói-se em torno de
uma expressão lingüística. Essas expressões lingüísticas organizam-se em uma
estrutura de predicado com a intervenção de três tipos de funções: (i) semânticas –
papéis dos referentes dos termos nos ‘estados de coisas’ designados pela predicação;
(ii) sintáticas – especificação da perspectiva a partir da qual o ‘estado de coisas’ é
apresentado na expressão lingüística; e (iii) pragmáticas – estatuto informacional de
um constituinte dentro do contexto comunicativo mais amplo em que ocorrem.
O autor considera as expressões lingüísticas independentes, isto é, essas
expressões não dependem de modo algum do contexto que as precede ou segue,
sendo regidas pelas regras da Gramática. Dessa forma, a GF tem por finalidade cobrir
qualquer tipo de expressão lingüística, abordando a função dos constituintes
sentenciais de modo tal que as generalizações de ordem formal sejam decorrentes de
generalizações nos níveis pragmático e semântico. Na prática, o autor se ocupa da
142
estrutura interna das orações, ou seja, um número selecionado de aspectos dessa
estrutura. Um desses aspectos é a Predicação.
A estrutura abstrata da oração, subjacente às expressões lingüísticas, é
considerada não ordenada ou, pelo menos, a ordem de apresentação na estrutura
subjacente não é diretamente relevante para a ordem linear em que os constituintes
aparecem atualizados nas expressões lingüísticas. As estruturas subjacentes são vistas
como estruturas relacionais em que o estatuto dos constituintes é codificado em seus
rótulos funcionais.
A descrição das expressões lingüísticas na GF começa com a construção das
predicações. Para Dik, há uma ‘predicação nuclear’ que se refere à aplicação de um
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predicado a um número apropriado de termos que funcionam como argumentos desse
predicado. Esses termos são expressões com potencial referencial, isto é, expressões
que podem ser usadas para referir a entidades no mundo. Portanto, os predicados
designam propriedades de tais entidades ou relações entre elas. Uma predicação
nuclear é obtida mediante a inserção dos termos apropriados nas lacunas argumentais.
Seguindo um critério semântico, as predicações nucleares podem ser interpretadas
como designando ‘estados de coisas’, isto é, o conjunto de ‘estados de coisas’ em que
a propriedade ou relação que designa o predicado é válida para os termos específicos
aos que se aplica o predicado.
Nesse sentido, os predicados podem ser básicos ou derivados. Um predicado
básico vem dado no léxico, ou seja, os lexemas simples de sentido pleno como os
verbais, adjetivais e nominais são tratados como predicados básicos que contêm toda
a informação apropriada para seu comportamento sintático e semântico nas
expressões lingüísticas. Essa informação está contida nos chamados ‘marcos
predicativos’. Cada ‘marco predicativo’ proporciona a seguinte informação sobre um
predicado:
a) sua forma léxica;
b) a categoria sintática a que pertence;
c) o número de argumentos que exige;
d) as restrições de seleção que estabelece o predicado sobre seus argumentos;
e) as funções semânticas que realizam os argumentos.
143
Um predicado derivado forma-se mediante regras de formação de predicação.
A Gramática Funcional propõe um componente separado para a formação de
predicados derivados. Os exemplos de predicado derivado são ((ser)extremamente
interessante), ser um professor, deixar ir etc. O resultado das regras de formação de
predicados é um conjunto de predicados derivados, apresentados de novo sob a forma
de marcos derivativos do tipo geral.
Dada uma predicação que defina um ‘estado de coisas’, podemos construir
uma predicação expandida adicionando um ou mais satélites à predicação nuclear. Os
satélites são constituintes que não funcionam como tais na definição do ‘estado de
coisas’, mas ampliam a informação relativa ao ‘estado de coisas’ considerado como
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um todo, especificando o tempo ou a localização do ‘estado de coisas’, explicando a
razão ou a causa de sua existência e proporcionando qualquer outro tipo de
informação adicional.
Esses argumentos nucleares são necessários para a definição do ‘estado de
coisas’, embora possam deixar de ser especificados em certas circunstâncias devido
ao contexto ou à situação. A função semântica de um argumento nuclear define sua
contribuição específica à definição de um ‘estado de coisas’. Por outro lado, a função
semântica de um satélite define o modo como o ‘estado de coisas’ modifica-se ou
expande-se mediante informação adicional.
Nesse sentido, Dik argumenta que as funções semânticas dos satélites podem
também caracterizar os argumentos de certos predicados como A discussão durou três
horas. Para o autor, três horas é um argumento essencial do predicado ‘durar’.
Portanto, esse predicado designa uma relação entre um acontecimento e um período
de tempo.
É interessante observar que a abordagem de Dik sobre a formação de
predicação apresenta uma base semelhante à da Gramática de Valências expandida
pela formação de predicados derivados. Em outras palavras, todos os itens lexicais de
uma língua têm de ser analisados dentro da predicação e todos os predicados básicos
de uma língua compõem o seu léxico, constituindo o estoque completo das estruturas
predicativas básicas.
144
Para a construção de predicações subjacentes são necessários um conjunto de
estruturas de predicado e um conjunto de termos. As estruturas de predicado são
esquemas que especificam um predicado juntamente com um esqueleto de estruturas
nas quais ele pode aparecer.
Como vimos acima, nem todas as teorias lingüísticas são orientadas
funcionalmente no sentido de estudar a linguagem em termos de como ela é usada e
como é estruturada para o uso. Ao contrário, algumas teorias lingüísticas são
orientadas para descreverem a linguagem como sistemas formais.
Embora tenha conhecimento de que outros pesquisadores como Berry (1975)
e Fawcett (1980;1987) tenham discutido o sistema de transitividade a partir dos
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trabalhos desenvolvidos por Halliday, não apresentarei aqui seus trabalhos para não
tornar esta seção longa demais.
2.4.1.4
A história da ‘transitividade’ na LSF
Em Categories of the Theory of Grammar ([1961]2002, p.37-94) [Categorias
da Teoria da Gramática], Halliday antecipa a visão de gramática como
essencialmente uma rede de sistemas de escolhas. Embora ainda não se encontrem
indicações explícitas de como seria a rede de sistema para a transitividade, pode-se
depreender algumas indicações do que seria transitividade na parte onde descreve a
categoria de estrutura. Ao tratar dos arranjos lineares na seqüência de elementos da
estrutura oracional, reconhece que a oração é composta de quatro elementos – sujeito,
predicador, complemento e adjunto –, e que as estruturas oracionais podem ser
combinações desses quatro elementos, havendo a ocorrência de todos ou de apenas
alguns.
Halliday tem como interesse principal o que a oração poderia fazer
sintagmaticamente,
sem
nenhuma
alusão
sobre
transitividade
em
termos
paradigmáticos. Embora não contemple a transitividade como a unidade da oração,
introduz a idéia de sistema e delicadeza.
145
Halliday começa apresentando duas abordagens sobre a descrição lingüística
que reinava nos estudos lingüísticos da época, a ‘textual’ e a ‘não-textual’ ou
‘exemplificatória’.
A
estas,
ele
acrescenta
uma
terceira,
a
‘gerativa’
(‘transformacional-gerativa’). Sua opinião é a de que embora tenham objetivos
diferentes, as três abordagens têm um lugar fundamental na lingüística. No entanto,
para Halliday, descrição não é teoria.
O objetivo a que se propõe é o de sugerir o que para ele pareciam ser as
categorias fundamentais da parte da teoria da Lingüística Geral que está interessada
em como a linguagem funciona no nível da gramática, fazendo referência breve às
relações entre gramática e léxico e entre gramática e fonologia ([1961]2002, p.37).
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A descrição lingüística deveria ter quatro categorias e três escalas diferentes,
através das quais essas categorias seriam relacionadas. Nas palavras de Halliday,
a teoria relevante consiste de um esquema de categorias interrelacionadas que são
estabelecidas para dar conta dos dados, e um conjunto de escalas de abstração que
relacionam as categorias aos dados e uns aos outros ([1961]2002, p.38).
O autor refere-se aos dados como eventos lingüísticos, observados oralmente
ou codificados na escrita, considerados como ‘texto’. A descrição consistiria em
relacionar o texto às categorias da teoria. Os eventos lingüísticos deveriam ser
considerados em um número de níveis diferentes devido ao tipo de processos de
abstração envolvidos. O contexto seria
a relação da forma com as características não-lingüísticas das situações nas quais a
linguagem opera, e com as características lingüisticas diferentes daquelas do item sob
observação: sendo essas características ‘extra-textuais’ (Ibid., p.40).
Quanto ao significado, a linguagem teria um significado formal e um
significado contextual. O significado formal seria a informação da teoria da
informação e o significado contextual de um item seria sua relação com as
características extra-textuais, já o significado formal de um item seria “sua operação
na rede de relações formais”. O significado contextual seria dependente do
significado formal.
Halliday chama atenção para as categorias fundamentais de uma teoria de
gramática, a saber, ‘unidade’, ‘estrutura’, ‘classe’ e ‘sistema’ estabelecidas e
interrelacionadas na teoria e da mais alta ordem de abstração. Como são categorias
146
primárias da teoria, dão conta, de forma coerente, do que é a gramática e de seu lugar
na linguagem,
cada uma das quais [categorias] está especificamente relacionada, e logicamente
derivada, umas das outras. Não há nenhuma relação de precedência ou prioridade
lógica entre elas (Ibid., p.41)
Elas são mutualmente definidas, uma vez que “nenhuma categoria é definida
até que todas as outras o sejam, na totalidade da teoria”. Essas categorias também
acarretam “três escalas distintas de abstração – ‘nível’, ‘expoência’ e ‘delicadeza’”. A
noção de sistema, especialmente quando considerada juntamente com a escala de
delicadeza, fornece uma indicação importante da direção da teoria. Pode-se observar
também que ao escrever que “o que ainda falta ser considerado é a ocorrência de um
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em detrimento de um outro entre um número de eventos parecidos...” e que “ a
categoria estabelecida para esse objetivo é o sistema” (Ibid., p.52), Halliday enfatiza a
noção de sistema como escolhae4( )-212 0 Td [(s)-1(i)-2(s)-1(t)4(or)3(i)as
147
sonho dos gramáticos é (e deve ser, tal como é a natureza da gramática) a constante
expansão territorial. Eles gostariam de transformar toda a forma lingüística em
gramática, esperando mostrar que o léxico pode ser definido como ‘gramática mais
delicada’. A saída para o léxico seria então fechada, e todos os exponentes dispostos
em sistemas (Ibid., p.54).
Neste artigo, Halliday limita-se a tratar a gramática e o léxico como duas
partes separadas da teoria. Ele diferencia os ‘sistemas fechados’ da gramática e os
‘sistemas abertos’ do léxico, afirmando que a teoria tem de tratá-los [gramática e
léxico] como dois tipos distintos de padrões que exigem categorias diferentes, e
parece satisfeito com o fato de haver uma teoria de léxico para dar conta daquela
parte da forma lingüística com que a gramática não lida.
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Em seu artigo Some notes on ‘deep’ grammar ([1966]2002, p.106-117)
[Algumas observações sobre a gramática ‘profunda’], Halliday inicia fazendo uma
divisão no que anteriormente havia sido referido como ‘estrutura’, estabelecendo que
há uma seqüência linear de classes e uma configuração não-linear de funções. Cabe
chamar a atenção para a mudança de posição do autor nessa divisão da estrutura.
O autor adota no texto o termo ‘realização’ (em substituição ao anterior
‘expoência’), que virá a ser usado em conjunto com a descrição das redes de sistema
na teoria.
A definição de Halliday é a de que a estrutura é vista “como a realização de
complexos de traços sistêmicos” (Halliday, [1966]2002, p.112) cuja escolha é feita
em um sistema – aqui especificamente no Sistema de Transitividade – levando à
estrutura de superfície.
A ordem que é atribuída à estrutura pode ser pensada em termos de dependência, ou
em termos de constituência como uma seqüência subjacente que não corresponde
(necessariamente) à seqüência sintagmática, ou como mera co-ocorrência ou ausência
de ordem. Em todos os casos é de natureza diferente da seqüência sintagmática, na
qual os componentes são funções, não conjuntos de itens ([1966]2002, p.108).
Nos termos de Hjelmslev (apud Halliday [1966]2002, p.110), o ‘sistema’, da
mesma forma um conceito paradigmático, é definido como uma hierarquia
correlacional, a noção subjacente sendo a da comutação. Um sistema é então uma
representação das relações no eixo paradigmático, um conjunto de traços contrastivos
em um determinado ambiente. A função no sistema é definida pela configuração
total: por exemplo, ‘passado’ por referência a ‘presente’ e ‘futuro’ em um sistema de
148
tempo de três termos, como função estrutural é definido por referência à configuração
estrutural total, por exemplo, ‘modificador’ por referência a ‘núcleo’.
A noção de uma descrição sistêmica seria uma representação do item em
termos de um conjunto de traços, cada traço estando em contraste com um conjunto
estabelecido de um ou mais outros traços. A descrição sistêmica representaria uma
seleção entre as possibilidades reconhecidas pela gramática.
Para qualquer conjunto de sistemas associados com um determinado
ambiente, é possível construir uma rede de sistemas na qual cada sistema, diferente
daqueles simultâneos no ponto de origem, é hierarquicamente ordenado com relação
a pelo menos um outro sistema. O ponto de origem é especificado sintagmaticamente,
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de forma que todos os traços sejam associados com um ambiente sintagmático; ao
mesmo tempo, a rede de sistema fornece um ambiente paradigmático para cada um
dos traços, especificando ambos seu status contrastivo e suas possibilidades de
combinação.
Apresentar a descrição sistêmica de um item lingüístico como a representação
gramatical subjacente daquele item parece implicar que sua relação paradigmática
para outros itens da linguagem é de alguma forma sua propriedade mais fundamental,
da qual sua estrutura (sintagmática) interna é considerada derivada.
Em Notes on Transitivity and Theme, Parte 1 (1966) [Observações sobre
Transitividade e Tema], Halliday descreve os traços da rede de sistemas e as
possíveis funções que podem ocorrer com os vários tipos de oração que seus traços
definem. Publicado apenas seis anos após Categories of the Theory of Grammar
(1961), onde Halliday especifica que a oração pode ter zero, um ou dois
complementos, este trabalho representa um grande avanço.
Halliday inicia estabelecendo Processos de ‘fazer’ (relacionados com ação e
percepção) e Processos de ‘ser’ (relacionados com descrição e identificação),
especificando três tipos: processo de ação direcionada, processo de ação nãodirecionada e processo de atribuição. Quanto aos participantes, estes também são de
três tipos: ator, objetivo e atribuinte; e um atributo.
Nas palavras do autor, “estruturalmente, o processo está associado com o
elemento oracional P (predicador).” Os Participantes reconhecidos nesses Processos
149
estão “associados com os elementos S (sujeito) e C (complemento); atributos e
circunstâncias com o elemento C” (1966, p.39).
Halliday faz uso de sobreescritos para sobrepor os Papéis de Participantes
(PP) aos elementos na oração e, dessa forma, distingue os tipos semânticos nesse
segundo grau de delicadeza na estrutura. Esses papéis não são gerados por meio da
rede como outros aspectos do Sistema de Transitividade o são e parecem não estar
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baseados semanticamente, como afirma Halliday,
os elementos primários S e P são inseridos na oração como realizações dos traços
fora do Sistema de Transitividade, embora possam ser especificados depois
(sobreescritos) por determinados traços de transitividade. O elemento C, no entanto,
é inserido pela rede de transitividade; não é obrigatório, mas estará presente ou
ausente de acordo com os traços selecionados. Os termos ‘intransitivo’, ‘transitivo’,
‘transitivo simples’ e ‘transitivo duplo’ são usados para referência a orações com
nenhum C, pelo menos um C, um C e dois Cs respectivamente; são, portanto,
estruturais e não termos sistêmicos, e não figuram na descrição sistêmica subjacente.
Em termos de traços gramaticais da oração, a rede permite que esses traços
possam ser organizados em sistemas ordenados na seguinte ordem de delicadeza: se o
Processo escolhido for [extensivo], então o Processo será de ‘ação’, como no
exemplo sugerido pelo autor com o verbo ‘lavar’ Ela lavou as roupas. Neste
exemplo, o Processo será de ‘ação’ (lavar) direcionada a um ‘objetivo’ (as roupas)
com Sujeito Ator (Ela). Nesta opção, há duas outras entradas. A primeira é a de
[efetivo] e de [descritivo], a segunda é de [operativo], de [receptivo]. Se o Processo
escolhido for [intensivo], então o Processo expressará ‘atribuição’ de algum ‘atributo’
a um determinado Participante, como sugerido no exemplo Ela parecia feliz. No
caso de ser escolhido [descritivo], o Processo será de ‘ação’ não-direcionada, como
no exemplo Os prisioneiros marcharam., onde não há um ‘objetivo’.
O segundo sistema pode ser tanto efetivo quanto descritivo. Portanto, se
[efetivo] e [operativo] forem escolhidos, então o Sujeito da oração representará o
Ator como em Ela lavou e Ela lavou as roupas. Se as opções escolhidas forem
[descritivo] e [operativo], então o Sujeito representará o ‘Iniciador’ de uma ação nãodirecionada, realizada por um outro Participante, como no caso de Ele passeou o
cachorro. Se [efetivo] e [receptivo], então o Sujeito representará o Objetivo como em
As roupas foram lavadas. Caso as opções tenham sido feitas por [descritivo] e
150
[receptivo], então o Sujeito representará o Ator que realiza a ação não-direcionada
como em O arroz foi cozido.
Se [efetivo] e [médio] forem escolhidos, então o Ator e o Objetivo
representam a mesma coisa, produzindo dessa forma uma oração reflexiva, como em
Ela se lavou. Se [descritivo] e [médio] forem as opções, então o Ator e o Iniciador
representam a mesma coisa, como em Os prisioneiros marcharam.
Vale observar que o Predicador, o Sujeito e o Complemento expressam uma
variedade de noções diferentes, a saber,
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S pode ser ator, objetivo ou atribuidor, P pode ser ação ou atribuição, C pode ser
objetivo ou atributo. Isso é refletido na falta de correspondência direta entre as
descrições sistêmicas e estruturais (1966, p.41).
Em resumo, teríamos:
a oração principal pode ser [extensiva] (ação) ou [intensiva] (atribuição); se
extensiva, há duas outras entradas [efetiva] (ação direcionada) e [descritiva] (ação
não-direcionada); ou [operativa] (ação direcionada com S=ator), [média] (ação
direcionada com S=ator e objetivo ou S=iniciador e ator); [receptiva] (ação
direcionada com S=objetivo).
Um fator importante sobre transitividade é que um Participante pode estar
oculto, isto é, uma função ou papel pode ser obrigatório para o Processo, mas não
abertamente realizada na estrutura e, portanto, “a expressão de um determinado Papel
de Participante não é obrigatória” (1966, p.44). Isto conduz a uma outra rede com
escolhas entre “a presença e a ausência de um complemento como objetivo” (1966,
p.46), e também a distinção entre [processo-orientado] e [agente-orientado] como em
Esse produto vende fácil.
Se [objetivo-transitivo] é escolhido, então o Objetivo é explícito, como em
Ela lavou as roupas. E se [objetivo-intransitivo] for escolhido, então o Objetivo é
oculto como em Ela lavou.
Da mesma forma, se [processo-orientado], então o Processo será ‘ativo’ como
no exemplo Esse tecido lava fácil ou se [agente-orientado] for escolhido, então o
Processo será ‘passivo’ como em As roupas foram lavadas.
151
Após discutir quais os traços que poderiam ocorrer para tipos de processos
como os acima, Halliday sugere outros tipos de Participante, os ‘circunstanciais’. O
primeiro ‘circunstancial’ como Participante é o ‘beneficiário’, que é descrito como o
‘beneficiário’ que ganha algo do Processo, como em Ele recebeu um livro. Esse
Participante é
realizado como um elemento que está na relação estrutural direta com o Predicador:
como um elemento nominal na oração, sem a intervenção de uma preposição como
‘predicador menor’. Ele também pode ser realizado como o sujeito; (1966, p.53).
De acordo com Halliday, o ‘beneficiário’ é o objeto indireto da oração que
muda de lugar dentro da oração: pode ocorrer no Complemento como em Ele deu a
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João um livro, como Sujeito em João ganhou um livro, ou como Adjunto (nos termos
de Halliday) em Ele deu o livro a João.
Ao reconhecer a ocorrência de um Participante no papel de ‘beneficiário’ na
oração, Halliday estabelece a noção de que
a atribuição de classe de qualquer verbo é na realidade uma especificação daqueles
traços oracionais que determinam sua potencialidade de ocorrência. Dessa forma, os
verbos podem ser encontrados agrupando-se em conjuntos relacionados
semanticamente (1966, p.52).
Esse conceito de conjuntos relacionados ‘semanticamente’ é muito importante
para a formulação da teoria de transitividade de Halliday.
O próximo elemento ‘circunstancial’ Participante reconhecido por Halliday é
o de ‘extensão’, que é descrito como ‘especificando a extensão do escopo ou
relevância do processo’ (1966, p.58). Ao contrário do ‘beneficiário’, a ‘extensão’ será
tipicamente ‘inanimada’. Halliday declara que a distinção entre ‘extensão’ e
‘objetivo’ não está clara. A função ‘beneficiário’ é um elemento facilmente
reconhecível na oração, e um rótulo semântico que descreve a função do papel. No
entanto, a ‘extensão’ é diferente porque ela é – como a ‘meta’ – uma extensão da
relação de ‘ator’ e ‘processo’.
Encontra-se a ocorrência da ‘extensão’ tipicamente com o tipo de Processo
‘descritivo’, ou de ação não-direcionada. Em alguns casos, ela pode ser uma
nominalização do processo como em Ela cantou uma canção. Em tais casos, há uma
152
expectativa de ‘ocorrência’ entre o verbo e o substantivo. A descrição de ‘extensão’ é
até então um papel opcional na oração (típico dos processos descritivos).
No entanto, Halliday sugere que uma ‘extensão’ obrigatória ocorre na oração
Ele tomou um banho, “na qual o processo[...] é completamente expresso no evento
nominal, o verbo meramente especifica que há um processo envolvido” (1966, p.60).
Ao ‘objetificar’ o processo – com a introdução de uma ‘extensão’ – um
‘beneficiário’ pode ocorrer, como em Ela cantou para João uma canção (1966, p.6061). Para Halliday, a ‘extensão’ é como um Participante ou, em suas palavras, um
‘pseudo-participante’.
Os dois últimos elementos Circunstâncias descritos são ‘atributivo’ e
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‘condicional’.
Com ambos, o ‘Sistema de Transitividade’ fornece os meios para ‘objetificar’ tais
elementos circunstanciais como propriedades dos Participantes na oração. [...] O
atributo é obrigatório nas orações intensivas; e o elemento estrutural pelo qual o
atributo é expresso é então referido como um ‘complemento intensivo’ [...]. O
sentido de ‘intensivo’ aqui é ‘ter, por definição’, o mesmo referente de um outro
elemento na oração’ (1966, p.62-3).
Esses dois papéis só podem ocorrer na posição de Complemento na oração (ao
contrário de outros papéis que podem ocorrer na posição de Sujeito). Além disso, eles
não podem ser grupos nominais com um nome próprio, um pronome ou um
determinante no núcleo.
Com relação ao verbo to be (‘ser’), Halliday afirma claramente ser possível
atribuí-lo ao conjunto de classes de verbos reconhecidos nos sistemas de
transitividade, pois “parece não haver nenhuma justificativa para negar a to be [o
verbo ‘ser’] o status de um verbo lexical na linguagem, sendo que a “complicação é
meramente que – juntamente com diversos outros verbos – ele deve ser atribuído a
mais de uma classe” (1966, p.66).
Para o autor, há, na realidade, três verbos lexicais, um classe 0 – significa
‘pode ser caracterizado como, tem o atributo de ser’; um classe 1 – significa ‘existir,
acontecer, é encontrado ou localizado’16; e um classe 2 – significa ‘identifica ou é
identificado como, pode ser equiparado com’.
16
Este é o caso da língua inglesa.
153
Orações com o verbo ‘ser’ intensivo como em João é um professor, João é
muito rico, respondem perguntas referentes a atributos ou qualidades de um
Participante, sendo o que recebe o atributo João, o sujeito, e o atributo, o adjetivo
muito rico ou o substantivo um professor, o complemento.
As orações efetivas extensivas com o verbo to be respondem a perguntas
identificativas podendo, portanto, ser chamadas de ‘equativas’. Aqui o complemento
pode ser um pronome ou nome próprio, mas não um adjetivo. Esse tipo de oração é
reversível, apresentando a característica de oposição operativa/receptiva das orações
efetivas. Segundo Halliday, “a ausência de uma passiva morfológica não parece razão
suficiente para negar ao verbo to be o status de um verbo classe 2, ou a tais orações o
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status de orações efetivas (1966, p.68).
Halliday afirma que é de se esperar que “um verbo será, freqüentemente,
atribuído a mais de uma classe de transitividade;”, portanto, dar ao verbo to be [‘ser’]
o status de verbo não deve ser considerado incomum. O autor prossegue afirmando
que
nesse nível de abstração é, na realidade, a categorização derivada dos sistemas de
transitividade que dá conta das potencialidades do verbo to be como o faz para
aquelas dos outros verbos (1966, p.71).
Halliday encerra o trabalho afirmando que
atributivo é muito mais claramente um traço de transitividade, como sugerido não
somente por ser obrigatório em uma classe de oração, mas também pelo fato de que
ele define um participante ‘pivô’: em qualquer oração há somente um participante
que pode aceitar como atributo o que é, na realidade, uma propriedade da oração
como um todo (1966, p.80-1).
Halliday retorna ao tópico transitividade em Notes on Transitivity and Theme,
Parte 3 (1968) [Observações sobre Trasitividade e Tema]. Esta parte é uma revisão e
um refinamento das descrições sobre transitividade realizadas na Parte 1, com
acréscimo da noção de ‘causação’ na transitividade.
Halliday inicia definindo a transitividade “relacionada ao componente
experiencial do significado (ou ‘cognitivo’, embora este termo não seja realmente
apropriado uma vez que todos os componentes envolvem uma camada cognitiva);”
(1968, p.179). O autor alega que a questão da transitividade ficou limitada à
“expressão de processos e os participantes nos processos”.
154
Com relação à noção de Tema, o autor o relaciona “ao discurso, ou ao
componente informacional”, reconhecendo
que embora haja uma relativa
independência entre esses dois conjuntos de opções [transitividade e tema], se
comparada [a dependência] “com o alto grau de interdependência entre as opções
dentro de cada conjunto, os dois não podem ser isolados inteiramente”, pois a relação
entre eles não pode deixar de ser contemplada, “em uma descrição da sintaxe da
oração” (1968, p.179).
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Nas palavras do autor,
uma vez que a transitividade é tratada como um sistema da oração, ou de preferência
um conjunto de tais sistemas, ela pode ser vista como parte de um domínio maior
estendendo-se sobre o todo do componente experiencial da organização oracional e
abarcando o conjunto todo de funções estruturais: não somente ator e objetivo, ou
seus equivalentes, mas também beneficiário, extensão, atributo, instrumento, modo,
tempo, lugar ou quaisquer generalizações que sejam consideradas apropriadas e mais
úteis. A pergunta se o termo ‘transitividade’ é então usado para cobrir o todo desse
domínio, ou é limitado à área de processos e participantes, ou até mais estreitamente
ao processo, ator e objetivo, é uma pergunta terminológica; a linha entre participantes
e circunstâncias não é tão determinada, e é quase certamente específica a uma
determinada língua (1968, p.180-1).
Após iniciar com uma breve referência à Parte 1 de Notes, Halliday escreve:
sugiro que a forma subjacente da organização oracional em inglês, na dimensão da
transitividade, deva ser a da ergatividade preferencialmente a, ou ao menos também,
do tipo transitivo (1968, p.182).
E Halliday prossegue dizendo que o ‘ergativo’ é o padrão predominante no
inglês.
Até então, as descrições feitas por Halliday envolviam construções
‘transitivas’ (no sentido tradicional), ou seja, relativas a um ‘ator’ realizando uma
tarefa, ou um ‘ator’ com a tarefa estendida a alguma ‘meta’. A importância da
introdução da noção de ergatividade pode ser compreendida ao se perceber que
alguns Participantes são inadequados (como, por exemplo, os acima) para a descrição
de todos os tipos de Processos em todos os contextos.
Halliday afirma que ‘ator’ e ‘meta’ nem sempre são apropriados como rótulos
para Participantes, e ressalta o valor de introduzir o traço ‘causativo’, e alguns outros
tipos de papéis relevantes, sendo o mais importante a introdução do termo ‘afetado’,
que parece ser um rótulo apropriado para descrever o papel semântico envolvido em
155
diversos tipos de Processo, pois diz respeito ao que acontece ao Participante. Halliday
atribui o termo ‘afetado’ a Fillmore (1966, p.4-5), e declara que é a função ergativa
de Fillmore “para a qual usei – e retenho aqui – o termo afetado” (1968, p.185).
Halliday afirma também que a entidade ‘afetada’ é obrigatória nas orações
ergativas, e como tal é ‘função obrigatória exclusiva’. O segundo Participante de tal
oração é o ‘causador’ opcional. Um Processo ‘ergativo’ pode ocorrer em dois tipos de
oração: um com apenas um ‘afetado’, como no exemplo A porta abriu, e um com um
‘afetado’ e um ‘causador’, como no exemplo João abriu a porta. 17
Logo, a diferença entre a abordagem transitiva para a transitividade, descrita
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na Parte 1, e a abordagem ergativa para a transitividade é que:
ao invés de uma forma ‘transitiva’ de organização, baseada na extensão, onde a
pergunta é se a ação extende-se ou não além do ator, a alternativa a ser considerada é
uma forma ‘ergativa’ de organização, baseada na causação, onde a pergunta é se a
causa é externa ou não à ação (p.185)
Halliday acrescenta que não se trata de afirmar que não há validade na
abordagem ator-objetivo, mas que as formas ergativa e transitiva de organização coexistem, sendo que
alguns padrões parecem mais facilmente explicáveis em termos ergativos do que em
termos ator-objetivo. Sugere, portanto, em seguida, que há exemplos ‘onde não há
causador externo’ (1968, p.188),
e a entidade obrigatória ‘afetada’ e o ‘causador’ opcional combinam com o resultado
dos dois papéis a serem realizados por um Participante, como em João sentou.
Uma outra diferença que Halliday apresenta entre a abordagem transitiva e a
ergativa é a de que
as funções transitivas são fundamentalmente aquelas das orações de ação,
especificando o papel de um Participante em relação ao tipo de ação; enquanto as
funções ergativas parecem ser comuns a todos os tipos de processo e, na realidade, a
todos os tipos de oração, incluindo processos relacionais e mentais. A abordagem
ergativa, em outras palavras, representa a forma mais geral de organização da oração
em Processos e Participantes, destacando o sistema de voz (média/não-média) e os
principais tipos de oração (1968, p.188-9).
17
Fillmore (1966, p.4-5): “Parece-me que... há uma relação semanticamente relevante entre ‘a porta’ e
‘abrir’ que é a mesma nas duas frases ‘a porta abrirá’ e ‘o diretor abrirá a porta’, apesar do fato de que
‘a porta’ é o Sujeito do assim chamado verbo intransitivo e o Objeto do assim chamado verbo
transitivo... É essa função para a qual uso o termo ‘afetado’”.
156
Vale ressaltar que é a primeira vez que o autor discute a distinção entre
ergativo/transitivo, o que parece apontar para uma tentativa de desenvolvimento de
um conceito ‘mais semântico’ da rede de Sistema de Transitividade. Nesse sentido,
Halliday propõe tentar interpretar a estrutura de outros tipos de orações, como as cujo
Processo usa o verbo to be [‘ser’].
O autor inicia a discussão estabelecendo uma distinção entre as orações
‘intensivas’, discutidas na Parte 1, onde o Processo é o de atribuição, isto é, a
designação de um atributo, como no exemplo Maria é feliz, onde o Participante
designado para Maria é Portador; e as orações ‘equativas, “as quais foram tratadas
como um tipo de oração efetiva com o processo sendo sintaticamente o de ação e não
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o de atribuição” (1968, p.190).
As orações intensivas, como a do exemplo acima, não são reversíveis,
apresentam um tipo de participante e o verbo pertence à classe copulativa (classe 0:
‘ser’, ‘tornar-se’, ‘parecer’ (física e emocionalmente), ‘soar’ etc.). O complemento de
tais orações tem a função transitiva de ‘atributo’ e o sujeito tem como único papel o
de portador de um atributo. Halliday afirma que
esse papel ... é considerado simplesmente como aquele de ‘afetado’ no ambiente
especial do traço ‘intensivo’: onde o processo é atribuição, o afetado é o participante
para o qual o atributo é atribuído (1968, p.190).
Isto significa dizer que o ‘afetado’ (referido como o participante ‘pivô’) é
simultaneamente o portador de um atributo. Nessas orações, o traço distintivo é a
obrigatoriedade do atributo. A relação estabelecida nas orações intensivas é a de
inclusão.
As orações equativas, como João é o líder, são reversíveis, apresentam dois
tipos de participantes e o verbo pertence à classe equativa (classe 2: ‘ser’, ‘equivaler’,
‘representar’ etc.). Essas orações relacionam um ‘identificador’ a uma “coisa a ser
identificada”, como no exemplo acima. A relação estabelecida nas orações equativas
é a de determinação com um identificador. Segundo Halliday, há duas interpretações
para as orações equativas; uma decodificadora e uma codificadora.
É interessante observar que a descrição realizada por Halliday aponta para
uma noção ‘relacional’: “atribuição é uma relação de inclusão, equação uma relação
157
de identidade” (1968, p.190), sugerindo que elas estão envolvidas em um tipo de
‘relação codificadora/decodificadora’ (1968, p.191).
Nesse sentido, há duas estruturas simultâneas no ambiente de uma oração
equativa, identificado – identificador e valor – variável, sendo que onde o
identificador for mais abstrato do que (é realizado por) o identificado, há uma
equativa decodificadora; já quando o identificador for menos abstrato do que (é uma
realização de) o identificado, há uma equativa codificadora. Portanto, a interpretação
em termos de funções (a saber ‘valor’ e ‘variável’ seriam ‘meta’ e ‘ator’,
respectivamente no ambiente do tipo de oração equativa) ressalta uma natureza
direcional da relação codificadora/decodificadora.
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Essa interpretação codificadora/decodificadora estabelece dois significados
para o verbo ‘ser’: um codificador (‘identifica pela realização’ ou ‘é identificado por
ser realizado por’) e um decodificador (‘é identificado pela realização’ ou ‘identifica
por ser realizado por’). A analogia entre variável/valor e ator/meta, mostra a relação
intensiva como decodificadora (1968, p.190-1).
A relação equativa significa ‘realiza’ ou ‘é realizada por’, onde o Processo é
simplesmente “a relação de níveis diferentes de abstração”, e “uma forma altamente
codificada de comunicação”.
Halliday afirma ainda sobre as orações com o verbo
158
decodificador ‘ser’ uma formação de par, relacionando um ao outro como transitivo/
intransitivo.
O identificador na oração decodificadora funcionaria como um elemento do tipo
‘extensão’[...]. As equativas com outros verbos [diferentes de to be], que parecem ser
todas do tipo decodificador, também seriam médias na voz, com identificador como
‘extensão’ (1968, p.202).
As orações de atribuição, cujos participantes não apresentam papel na
transitividade mas apresentam um atributo obrigatório, poderiam ser consideradas
orações relacionais, dada a noção de um participante ‘afetado’. Essas orações
carregam uma função ‘atributiva’, na mesma distribuição complementar da
‘identificadora’ nas orações equativas, sendo em ambas o complemento predicativo
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(complemento não-objeto).
Nesse sentido, Halliday sugere agrupar as orações intensivas e equativas como
‘relacionais’.
Ao final do artigo, Halliday aborda os quatro componentes que representam as
quatro funções que a linguagem, como um sistema comunicativo, deve transportar: o
experiencial, o lógico, o discursivo e o funcional-discursivo ou interpessoal. Dos
quatro, o que para o autor é o mais central é o componente experiencial: “a expressão
lingüística da experiência do falante do mundo externo, incluindo o mundo interno de
sua própria consciência – suas emoções, percepções etc. (1968, p.209).
Nesse sentido, o componente experiencial “fornece um arcabouço conceitual
para a codificação da experiência em termos de processos, objetos, pessoas,
qualidades, estados, abstrações e relações”. O componente experiencial também pode
ser chamado de ‘cognitivo’ ou de ‘conteúdo’, cuja função subjacente é a da
expressão dos padrões de experiência; o conteúdo dado a um enunciado por essa
porção do sistema lingüístico deriva da experiência compartilhada daqueles que
participam na situação discursiva.
É o sistema de transitividade o que representa o elemento experiencial na
oração.
Por defender a noção de transitividade como o sistema que representa a
construção da experiência humana é que Halliday afirma que análises lingüísticas do
tipo ‘sujeito-predicado’, isto é, aquelas que contemplam preocupações estruturais
159
somente, têm sido limitadoras nos estudos lingüísticos, deixando de contemplar a
criação de significados existentes no uso da linguagem, observando por fim que esse
tipo de análise “não tem nada a ver com transitividade” (1968, p.212).
Neste artigo, Halliday contempla a interação entre transitividade e tema,
observando que no sistema de identificação, a opção não-identificadora é
normalmente a não-marcada, mas se a oração for uma oração equativa
decodificadora, pode ser a forma identificadora a que deveria ser considerada como a
não-marcada. A escolha entre ativa e a passiva, a opção operativa/receptiva no
sistema de voz, também é dos exemplos mais significativos de uma opção que está
relacionada com a transitividade e o tema.
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No artigo Language Strutucture and Language Function ([1970]2002)
[Estrutura da Linguagem e Função da Linguagem], Halliday introduz uma mudança
na descrição de transitividade. Começa relacionando a natureza da linguagem às
funções que ela deve servir e, portanto, afirma que
uma abordagem da estrutura lingüística que não dedica atenção às demandas que
fazemos da linguagem é carente em perspicácia, uma vez que não oferece princípio
algum para explicar por que a estrutura da linguagem é organizada de uma forma e
não de outra ([1970]2002, p.173-4).
É nesse sentido que o autor defende que a forma do sistema gramatical da
linguagem está relacionada com as necessidades pessoais e sociais dos falantes, sendo
necessário, dessa forma,
olhar tanto para o sistema da linguagem quanto para suas funções; pois, de outra
forma, deixaríamos de contemplar bases teóricas para generalizações sobre como a
linguagem é usada ([1970]2002, p.174).
Nesse sentido, Halliday apresenta a noção de que um ato de fala é o potencial
de significado da linguagem no sentido de que ao interagirmos optamos, pois
estamos interessados não nos atos deliberados de escolha, mas no comportamento
simbólico, nos quais as opções podem expressar nossos significados apenas muito
indiretamente ([1970]2002, p.174).
Neste ponto, o autor introduz a noção de que o potencial de significado de
uma linguagem é modelado pelas escolhas em uma ‘rede de sistemas’. As opções que
fazemos representam o potencial de significado da linguagem. O sistema de opções é
160
a ‘gramática’ da linguagem e o falante faz suas escolhas nesse sistema, dentro de um
contexto de situações discursivas.
Ao descrever as funções da linguagem, Halliday reconhece como atos de fala
aqueles que “envolvem o exercício criativo e repetitivo de opções nas situações e
ambientes sociais e pessoais”. Portanto, o exame do potencial de significado da
linguagem pode revelar que as diversas opções “agrupam-se em umas poucas ‘redes’
relativamente independentes; e essas redes de opções correspondem a determinadas
funções básicas da linguagem”.
Vale ressaltar que ao chamar a atenção para o fato de que modelar o potencial
de significado em um sistema ajuda-nos a compreender a estrutura, Halliday está
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enfatizando a importância do que a Escola de Praga também advogou, isto é, a
‘síntese das abordagens estrutural e funcional’ ([1970]2002, p.141), carregando essa
visão holística por toda a sua descrição de transitividade.
Nos primeiros trabalhos de Halliday (1964, 1967 e 1968), o foco para discutir
transitividade era sobre qual estrutura oracional seria produzida a partir dos sistemas.
Neste trabalho de 1970, o autor enfatiza a semântica da oração, descrevendo-a em
termos de tipos de Processo e Participantes. É neste trabalho que claramente
estabelece a importância da descoberta das funções da linguagem através do exame
de seu uso. Contesta a necessidade de observar a dicotomia entre ‘competência’ e
‘desempenho’, reconhecendo que o que necessitamos para a compreensão da
linguagem é estudá-la “na relação com as situações nas quais é usada” ([1970]2002,
p.174-5).
Em mais de um momento neste trabalho, Halliday chama a atenção para o fato
de que a
lingüística não é como uma regra interessada na descrição dos eventos discursivos
particulares em ocasiões individuais [...]. De forma diferente, ela está interessada na
descrição dos atos de fala, ou textos, uma vez que somente através do estudo da
linguagem em uso é que todas as funções da linguagem, e conseqüentemente todos
os componentes do significado, são enfocados ([1970]2002, p.176-7).
Halliday ressalta também que as metafunções estão refletidas na estrutura da
oração e
como ela [a oração] serve para a realização de um número de significados muito
gerais, ou opções semânticas, relacionadas com as funções interpessoal, ideacional e
161
textual da linguagem; e como elas são expressas através de diversas configurações de
‘papéis’ estruturais – elementos funcionais tais como ‘processo’ e ‘ator’ que derivam
dessas funções básicas ([1970]2002, p.175).
O autor chama a atenção também para como os tipos de Processo e
Participantes estão localizados no centro do que ele chama Metafunção Ideacional,
dando maior ênfase ao Sistema de Transitividade, e afirmando que é com essa parte
da linguagem que o usuário é capaz de construir experiências, pois
ao servir a essa função
estrutura
[ideacional],
à experiência,
a linguagem também dá
inar nossa forma de olhar para as coisas, de forma que ela exige
ntelectual para vê-las de outra forma diferente da que a nossa
gere ([1970]2002, p.175).
e Processo que Halliday reconhece são ‘ação’, ‘mental’ e
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sidera esses tipos como classificações nos termos de papéis
cima, os papéis de ‘ator’ e ‘meta’ não englobam tudo que
162
semântica do que está ‘acontecendo’ na oração. Na descrição dos papéis tradicionais
de ‘ator’, ‘meta’ e ‘beneficiário’, Halliday sugere que o papel ‘beneficiário’ seja
dividido em dois tipos de ‘recebedor’: ‘recebedor de um objeto’, como em Dei a
Oliver uma gravata e ‘recebedor de um serviço’, como em Fiz uma jaqueta para
Frederico.
Quanto ao verbo, este “pode ocorrer em orações de mais de um tipo”
([1970]2002, p.182), com diferentes conjuntos de participantes, e diferentes
alinhamentos, o que constitui a função do sistema de voz da oração, no qual pode-se
escolher entre voz média e voz não-média. A voz da oração refere-se aos papéis de
‘ator’ e ‘meta’, ambos papéis inerentes e atualizados. A voz média apresenta um
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participante inerente, como em Ele espirrou. No caso da voz não-média, pode haver
dois participantes: ‘ator’ e ‘meta’, que podem ou não estar atualizados. A voz nãomédia pode ser ativa ou passiva; se ativa, pode não haver ‘meta’; se passiva, pode
não haver ‘ator’ explícito.
Em resumo,
os elementos básicos da estrutura da transitividade são os diversos papéis associados
aos processos, sendo que dois ou mais papéis podem estar combinados em um único
participante como nas orações reflexivas: João está lavando-se, onde João é tanto
‘ator’ quanto ‘meta’ ao mesmo tempo.
Portanto, para Halliday, a combinação de papéis em “um único elemento
complexo da estrutura é fundamental para a organização total da linguagem”, e a
escolha de uma em detrimento de outra opção de combinação reside na função textual
da linguagem. No entanto, as opções disponíveis para a escolha dependem do sistema
de transitividade.
Quanto ao Processo Relacional, questão desta tese, Halliday o define como
sendo “simplesmente uma forma de relação entre dois papéis”, e estabelece
subclasses, sendo o primeiro tipo a que apresenta “uma relação de associação de
classe”, chamando-a de ‘atributiva’ (‘intensiva’ em Halliday 1968, p.190). Seu
exemplo é Margarida é uma poeta, onde Margarida pertence à classe de poetas.
Trata-se de “uma relação entre entidades da mesma ordem de abstração, mas que
diferem em generalidade”.
163
O segundo tipo apresenta duas funções, semelhantes aos termos de uma
equação, onde “um [papel] serve para identificcar o outro”. Neste tipo, “as duas
entidades são parecidas na generalidade, mas diferem na abstração: o elemento
identificativo pode ser de uma ordem mais alta de abstração”. O exemplo é
Templecombe é o tesoureiro, onde o tesoureiro expressa a função de Templecombe.
A diferença entre os dois tipos reside na reversibilidade do segundo e na
impossibilidade de reversão do primeiro. No caso dos Processos do tipo ‘atributivo’,
o papel ‘Atributo’ pode ser um adjetivo, em geral indefinido, expressando inclusão
em uma classe. Este papel é inerente ao processo. Os tipos ‘equativos’ são
reversíveis, apresentando o papel ‘Identificador’, também inerente, expresso por um
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substantivo, definido, significando identidade de classe.
A introdução de títulos baseados semanticamente para os Processos
Relacionais nas orações possibilita uma análise mais detalhada de como a oração está
funcionando. Halliday propõe o que poderia ser compreendido como uma rede de
sistema de Voz e a escolha de [não-média] conduzindo à possibilidade de uma oração
ativa ou passiva.
Com relação ao componente ideacional da gramática, este artigo apresentou
três tipos principais de processos – ação, mental e relacional – associado aos quais há
um conjunto de papéis inerentes diferentes ou funções estruturais. Halliday ressalta
também a importância de se verificar se essas funções estruturais podem ser
generalizadas nos diversos tipos de oração. O autor observa que um ‘Ator’ em uma
oração de ação pode não ser equivalente a um Pensador (o que pensa) em uma oração
mental, propondo, dessa forma, “uma reconsideração do que tais orações exigem”.
Nesse sentido, Halliday propõe duas formas de representar os processos, a
transitiva e a ergativa. O Sistema de Transitividade pergunta se “a ação se estende
além do participante ativo ou não”, o Sistema de Ergatividade se “a ação é causada
por um participante afetado ou não”. Este sistema apresenta um Processo que é
acompanhado de um participante obrigatório ‘Afetado’ e um opcional ‘Causador’. Os
exemplos Paulo teme fantasmas e Fantasmas amedrontam Paulo, embora não sejam
idênticos no significado, os papéis de transitividade são os mesmos. No Sistema de
164
Ergatividade, pode-se dizer que Paulo é o participante ‘Afetado’ em ambos os
exemplos.
Em The Grammarian’s Dream: Lexis as Most Delicate Grammar
([1987]1996) [O Sonho do Gramático: Léxico como Gramática mais Delicada],
Hasan objetiva fazer uma reflexão sobre a observação de Halliday de que “o sonho
dos gramáticos é ....a transformação de toda a forma lingüística em gramática”
(Halliday, [1961]2002, p.69) e, portanto, está interessada em explorar a possibilidade
desse projeto de ‘expansão territorial’ da rede de léxico-gramática até a descrição e
generalização do léxico, verificando quais seriam suas implicações.
Com esse propósito, Hasan posiciona-se rejeitando as visões de que “léxico
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não é forma” e de “que sua relação [do léxico] com a semântica É única” [grifo da
autora] (Hasan, [1987]1996. p.73).
O trabalho de Hasan está baseado no modelo postulado em Halliday (1977),
do qual realça o fato de que está trabalhando a partir da máxima dele de que a
linguagem consiste de semântica e léxico-gramática, que combinados criam um
sistema para a realização de escolhas que produzem estrutura lingüística. A autora faz
algumas observações a partir dessa base, as duas primeiras são particularmente
relevantes:
(1) A linguagem consiste de três camadas: semântica, léxico-gramática e fonologia.
(2) Essas camadas estão relacionadas pela ‘realização’: significados são codificados
como fraseados, fraseados são codificados como padrões de sons. (3) Cada camada é
descrita como uma rede de opções; a descrição é, conseqüentemente, paradigmática,
com ambientes para opções também sendo definidos paradigmaticamente (Hasan,
[1987]1996, p.73).
Partindo do princípio de que o modelo sistêmico-funcional adota a visão de
que “a gramática de uma língua é vista como uma rede de relações paradigmáticas”,
nas quais as opções sistêmicas contribuem para a “realização da estrutura” e sua
descrição é o que “caracteriza a gramática”, então para a autora “tais redes de
sistemas SÃO a gramática” [grifo da autora] (id., p.74).18
18
Para a autora, “uma opção pode ser vista como instrução(ões) [chamada por Hasan de “declaração
de realização” – mecanismo mediador entre redes e estruturas] para operar de uma determinada forma;
uma estrutura específica deve seguir essas operações” (ibid., p.74).
165
Hasan assume essa visão da linguagem como sua base e, portanto, cria redes
de sistemas delicados para uma única área da gramática de transitividade,
demonstrando como é possível realizar ‘o sonho do gramático’. No entanto, podemos
detectar desde o início, neste artigo, que a delicadeza semântica é superior ao seu
‘léxico como gramática mais delicada’. Isto porque a autora está interessada em um
grupo pequeno de verbos semanticamente relacionados, que constrói a área semântica
descrita como “atividades cuja conclusão resulta em ganho/perda de acesso a coisas”
([1987]1996, p.76).
A rede de sistemas utilizada por Hasan é a rede de transitividade, cuja
condição de entrada é a oração maior, as opções de voz são [efetiva:ativa] e a parte a
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ser discutida é a de Processos, apresentados como subcategorias do tipo Processo
‘ação’. A noção de subcategorização expande a rede, com a subcategorização dos
traços possibilitando mais distinções semânticas delicadas. Hasan afirma que sua
subcategorização “não deveria ser confundida com as regras de restrição de seleção
de Chomsky (1965)”, as quais cita (ibid., p.77), porém não define claramente o que a
sua subcategorização envolve.
Sua
descrição
começa
com
como
os
Processos
[transmissão/concessão/disposição] podem ser gerados. Ela introduz o uso de três
sistemas adicionais que devem ser considerados para futuras especificações de um
item lexical a ser alcançado através da rede [transmissão/concessão/disposição].
Esses sistemas são [acesso], [característica] e [benefício].
As opções “Acesso” estão relacionadas com o resultado da atividade ou
Processo de conduzir a [aquisição] ou a [privação] do Meio. A seleção de [aquisição]
resulta no ganho de acesso do Agente ao Meio, já a seleção de [privação] resulta o
contrário – o Agente perde acesso ao Meio. A ‘declaração de realização’ fornece a
especificação para Processos através dos quais algum tipo de ganho ou perda de
acesso a coisas é realizado: “subcategoriza Evento como/ (ação material de dispor
envolvendo mudança na localização do Meio) conduzindo ao ganho de acesso do
Agente ao Meio/” (Hasan, [1987]1996, p.78).
O sistema para Processos de [aquisição] de Hasan conduz a subcategorias de
‘reunir’, ‘juntar’ e ‘acumular’ e à eventual realização deles como itens lexicais.
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167
O autor afirma que cada sistema é o resultado da seleção de traços em um
sistema anterior, resultando em um conjunto mais delicado de escolhas que são
léxico-gramatical e semanticamente possíveis. A seleção em um nível afeta ou limita
a seleção em outro nível. A rede de sistemas é constituída pela configuração total dos
sistemas e em sua totalidade representa o potencial de significados da linguagem.
Portanto, Tucker defende que ao atravessar a rede fazendo escolhas nos sistemas ao
longo do caminho, pode-se ter uma completa especificação léxico-gramatical de um
determinado enunciado, concluindo que a rede de sistema não é somente uma
descrição do potencial lingüístico, mas também um instrumento gerativo poderoso,
baseado na noção de escolha (Ibid., p.149).
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Um outro ponto abordado por Tucker é a escala de delicadeza, considerada
também como um instrumento descritivo, ligada à noção de dependência sistêmica.
Por dependência, entende-se que as escolhas feitas em um sistema dependem das
escolhas feitas em outros sistemas. A dependência controla a co-ocorrência de
escolhas em uma rede ou entre redes. Um exemplo desse tipo de dependência é a
tematização. Para o autor, há uma relação de dependência entre a organização
temática de uma oração e sua escolha em outros sistemas da gramática, tais como
modo e transitividade, conforme ressaltam Halliday & Matthiessen (1999). Portanto,
o número de elementos de estrutura que têm o potencial para tematização dependem
do tipo de processo no Sistema de Transitividade.
A dependência permite que as conseqüencias léxico-gramaticais de qualquer
opção na rede possam ser expressas, e “se, na realidade, a escolha lexical determina
seu ambiente gramatical, temos uma forma de expressá-lo” (Tucker, 1996, p.151),
porque qualquer caminho em uma rede gera ou descreve alguma realização, seja
lexical ou estrutural, na linguagem.
‘Escolha’ em um sistema significa que se em algum lugar no conteúdo
comunicativo o elemento A1, por exemplo, está presente, então selecionar traço X do
sistema, se A2 estiver presente, então, selecionar traço Y, e assim por diante.
Portanto, ao atravessar uma rede com um número de traços semânticos específicos
em mente podemos determinar a possibilidade de realização de tais traços
lexicalmente.
168
Nesse sentido, “a escolha lexical pode ter repercussões no resto da gramática,
em termos de co-seleção gramatical e lexical” (Tucker, 1996, p.161). Logo, a
aceitação dessa interdependência revela que o léxico é completamente integrado na
gramática, resultando então em uma única léxico-gramática. A seleção no sistema de
transitividade acarreta seleção prévia de traços relacionados a significados mais
gerais, os quais capturam as generalizações que realmente se mantêm nas áreas do
léxico.
Tucker termina dizendo que se os sentidos lexicais, tais como tipos de
processos realizados como verbos principais, determinarem outras escolhas, então,
estas serão mais delicadas. Mas se a seleção criar outras dependências léxico-
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gramaticais, teremos a confirmação ou uma re-interpretação da noção de Halliday de
“léxico como gramática mais delicada”.
Concluo este artigo de Tucker, entendendo que sua proposta capacita a
geração lingüística através de um sistema que não exige um componente lexical
separado, mas é, de fato, a realização do “léxico como gramática mais delicada”.
Kristin Davidse, em Ditransitivity and Possession [Bitransitividade e
Possessão] (1996, p.85-144), fornece sua explicação para a alteração semântica ou
‘experiencial’ das construções dativas, oferecendo comentários críticos às explicações
fornecidas anteriormente para a questão.
A autora fornece também uma nova
explicação experiencial das alterações dativas em termos de causação de possessão.
Nas palavras de Davidse,
os argumentos que favorecem essa explicação dependem de uma compreensão das
construções [possessivas:identificativas] como um submodo específico de
construções relacionais identificativas [...] (1996, p.86).
A partir de uma análise das codificações [possessivo:identificativa], a autora
retorna à gramática das construções bitransitivas para mostrar como as mesmas nos
capacitam a revelar algumas variáveis experienciais importantes envolvidas nas
formas de alteração dativa.
A autora afirma que o uso de alteração não-dativa indica que o referente está
“mais diretamente envolvido no evento” do que no caso de uso do dativo
preposicionado.
169
A partir dessas reflexões, a autora conclui que
o fenômeno da alteração dativa claramente ilustra a necessidade de uma análise
gramático-semântica a partir das três perspectivas metafuncionais, não somente a
textual e a experiencial, [...], mas também da metafunção interpessoal, que motiva a
organização da oração em termos de Sujeito, Finito, Predicador, Complemento,
Adjunto,... (1996, p.91).
Embora sabedora de que a questão deva ser analisada a partir da pespectiva
das três metafunções, Davidse explica que não o fará porque isto exigiria mais do que
um artigo para fazê-lo. Dessa forma, ela seleciona a metafunção experiencial e
propõe uma nova explicação da alteração dativa, focando especificamente na relação
entre dativo e paciente.
Para a realização da análise, a autora propõe que a mesma seja feita em termos
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de duas dimensões experienciais, a saber: (1) a de causação ou transitividade – a
relação entre um processo (causativo) e os participantes ‘causados’ ou ‘que causam’,
para capturar a relação entre Agente e Dativo e Paciente; (2) a de possessão ou a
gramática de ‘ter’, submodo do processo relacional (Halliday, 1994), para capturar a
170
Com relação mais especificamente às construções de transitividade relacional
(Halliday, 1967, p.66-71; 1967, p.227-236; 1968, p.190-193; Lyons, 1977, p.469481), Halliday, em “Notes on transitivity and theme’ (Partes I, II e III), propõe um
paradigma gramatical para orações de oito células e um de quatro células em An
Introduction to Functional Grammar (1994). Davidse defende que o paradigma de
oito células é o correto porque estabelece os vetores gramaticais das orações de uma
forma internamente coerente e porque permite que as ambigüidades possam ser
mostradas por essas orações.
A partir de então, a autora propõe-se a explicar em termos teórico-descritivos
a semântica das principais oposições envolvidas na gramática das orações
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identificativas e como essas oposições semânticas e gramáticais perdem-se no
paradigma de quatro células, defendendo a posição de que o paradigma de oito
células
também
tem
de
ser
estendido
à
gramática
das
orações
[possessivas:identificativas], posição essa contrária a Halliday (1994) .
Halliday (1967, p.227) propõe que o paradigma de oito células para a
estrutura gramatical das orações [codificando:identificativas] envolve relações entre
sobreposições de papéis funcionais de duas dimensões: (1) a dimensão identificativa;
e (2) a dimensão codificadora. As configurações identificativas e codificadoras
definem um paradigma de oito diferentes estruturas relacionadas. Para ele, a
dimensão representativa ou codificadora deve ser realizada pelos papéis funcionais de
Característica, que é o elemento representante, e o elemento representado deve ser
realizado pelo papel funcional de Valor. Isto porque o Identificado e o Identificador e
a Característica e o Valor podem ser em princípio redistribuídos pelos dois termos da
identificação e podem ser sobrepostos em cada um em ambas as direções. A
‘Identificação’ constitui a opção pela qual um participante, o Identificado, é
identificado em termos de outro participante, o Identificador, como no exemplo, Alec
Guinness é Smiley.
Pelas razões expostas acima, para o autor, a oração [cod:id] apresenta direções
de identificação diferentes, porque entre as duas entidades que estão sendo
identificadas uma pela outra, há divergência no grau de abstração entre a designação
do Identificado e a designação do Identificador. Nas palavras de Halliday (1967,
171
p.228), “um elemento é a realização do outro”. Essa diferença se apresenta porque a
realização é a relação entre termos que são de diferentes ordens de representação ou
diferentes ordens de abstração de codificação.
A sobreposição entre as funções identificativa e codificadora definem uma
distinção experiencial,
se o Identificado é sobreposto na Característica, esse participante
(Característica/Identificado) é decodificado em um Valor/Identificador. Se, por outro
lado, a função Identificador é sobreposta na Característica, o Valor/Identificado é
simbolicamente
re-interpretado
e
identificado
em
termos
de
Característica/Identificador – isto é a oração identificativa estabelece pelo que
Característica e Valor estão sendo codificados (Halliday, 1967, p.228).
Tomando como ponto de partida a noção de que a configuração permanece
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ambígua mesmo quando a direção da representação é estabelecida pela escolha
Característica-Valor, a autora retoma o exemplo Gramática é semântica, apontando a
abigüidade em duas leituras. A primeira, a de que a semântica serve para identificar
sua
realização
gramatical,
isto
é,
ativo
decodificador:
Gramática
(Característica/Identificado) é semântica (Valor/Identificador); e a segunda, a de que
a gramática serve para identificar a semântica representada, isto é, ativo codificador:
Gramática (Característica/Identificador) é semântica (Valor/Identificado).
As duas leituras constroem perspectivas diferentes na mesma inter-relação
semiótica. Para Halliday (1967, p.67), essas construções são equativas, portanto
codificam relações cujas constantes e variáveis devem ser especificadas para que a
ambigüidade possa ser resolvida. Somente com a escolha das funções IdentificadoIdentificador é que a direção da identificação é fixada.
A possibilidade de inversão é inerente na relação de representar. A
gramaticalização de representação ou paradigma gramatical da transitividade
relacional deve permitir a re-atribuição das funções Característica-Valor aos dois
termos da identificação, fixando a direção da representação. A possibilidade de
inversão da relação de representar e a ambigüidade constante-variável são as
dimensões experienciais fundamentais do paradigma das orações [cod:id].
Um
outro
tipo
de
oração
analisada
por
Davidse
é
a
oração
[possessiva:identificadora]. Para estas, a autora estabelece uma afinidade entre a
172
gramática de ‘ser’ e a gramática de ‘ter’, tentando encontrar as contra-partes dessas
duas dimensões e sua possível aplicação à codificação lingüística de possessão.
Continuando na linha do funcionalismo lingüístico, ressaltando que a
linguagem não pode ser descrita como um fenômeno autônomo, uma vez que não se
pode compreender a gramática sem que se considere a atuação de parâmetros
relacionados à cognição e a necessidades discursivas, chamo a atenção para esta
última revisão de estudos sobre a transitividade que forneço nesta seção antes de
passar ao tratamento da transitividade em An Introduction to Functional Grammar
(1994 e 2004).
Trata-se do estudo realizado por Hopper & Thompson (1980) intitulado
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Transitivity in Grammar and Discourse [A transitividade na gramática e no discurso].
Neste trabalho, os autores reinterpretam o conceito tradicional de
transitividade, associando a transitividade a uma função discursivo-comunicativa,
sendo a forma como o discurso é estruturado a que revela o maior ou menor potencial
de transitividade. Segundo os autores,
a transitividade é uma relação crucial na linguagem, tendo um número de
conseqüências universalmente previsíveis na gramática e as propriedades definidoras
da transitividade são determinadas pelo discurso (Hopper & Thompson, 1980).
Universalmente, as orações de maior potencial de transitividade são aquelas
em que um agente animado, intencionalmente causa uma mudança física e
perceptível de estado ou locação em um objeto individuado. Segundo Hopper &
Thompson, a transitividade é uma propriedade discursiva, presente no continuum de
significados sustentados por dez traços sintático-semânticos:
1 – o número de participantes em uma determinada oração: há a necessidade
de pelo menos dois participantes estarem envolvidos para que a ação possa ser
transferida;
2 – cinese – refere-se à ação poder ser transferida de um participante para o
outro, ou seja, se o verbo denota uma ação; os estados não estariam contemplados,
neste caso.
173
3 – aspecto – refere-se à completude da ação transferida, podendo ser uma
ação télica, vista como acabada – perfectiva, ou uma ação não-télica, vista como não
acabada – imperfectiva.
4 – punctualidade – refere-se à duração de uma ação; quanto maior for a
distância entre a ação e o efeito dela, menor será o grau de punctualidade.
5 – volição – refere-se à intencionalidade, ou seja, se o agente controla a ação.
6 – polaridade – refere-se à oposição entre orações afirmativas e negativas.
7 – modo – refere-se à codificação dos eventos nos planos realis e irrealis, ou
seja, “uma ação que não ocorreu ou que é apresentada como ocorrendo em um mundo
não-real (contingente), é obviamente menos efetiva”.
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8 – agentividade – refere-se ao potencial de agentividade de um participante
(sujeito) na transferência da ação para outro participante (objeto), isto é, o agente é
altamente potente, o objeto é totalmente afetado e o objeto é altamente individuado.
Os dois últimos componentes dizem respeito ao objeto (O).
9 – afetamento do objeto – refere-se ao grau de afetamento do paciente, isto é,
quão completamente o paciente é afetado, e está relacionado com a individuação do
objeto.
10 – individuação – refere-se à possibilidade de transferência mais efetiva de
uma ação para um paciente individuado do que para um não individuado, estando,
portanto, relacionado ao traço de afetamento do objeto.
Vista da forma mais convencional e tradicional, ou seja, como uma
transferência de ação de um participante para um outro, a transitividade pode ser
dividida em suas partes componentes, cada uma das quais foca em uma faceta
diferente dessa transferência em uma parte diferente da oração. Tomados em seu
conjunto, esses traços permitem caracterizar as orações como mais ou menos
transitivas, isto é, quanto mais traços uma oração tiver na coluna de alta
transitividade, mais transitiva será.
Abaixo, forneço um quadro com a visualização do exposto acima.
174
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Quadro 10 – Caracterização das orações, segundo Hopper & Thompson
Traços
Alta transitividade
Baixa transitividade
1 – no. de participantes
Dois ou mais
Um
2 – cinese
Ação
Não-ação
3 – aspecto
Télico
Não-télico
4 – punctualidade
Punctual
Não-punctual
5 – volição
Volitivo
Não-volitivo
6 – modo
Realis
Irrealis
7 – agentividade
Agentivo
Não-agentivo
8 – polaridade
Afirmativa
Negativa
9 – individuação do objeto
Individuado
Não-individuado
10 – afetamento do objeto
Afetado
Não-afetado
Observa-se na apresentação do trabalho de Hopper & Thompson (1980) que é
óbvio que uma oração exige uma valência de pelo menos dois participantes para
poder estar no nível de transitividade. Os autores relembram ao leitor da sua visão
particular de transitividade defendida no trabalho, a saber, a de que se trata de “uma
relação que é obtida na oração”, não estando restrita “a um constituinte ou a um par
de constituintes”. Isso implica uma correlação entre valência e os outros
componentes, ou seja, o fato de haver um objeto (O) explícito é apenas “um traço de
uma oração transitiva” que “co-existe com outras propriedades definidoras” como
agentividade, cinese etc.
Um outro fator a ser observado é que os autores buscam os universais
lingüísticos pois afirmam que “as línguas possuem universalmente estruturas morfosintáticas que refletem o grau de transitividade de uma oração” (Hopper &
Thompson, 1980, p.280). Nas palavras dos autores,
a penetrabilidade desses esquemas [as estruturas morfo-sintáticas] e suas
semelhanças nas línguas parecem exigir uma explicação em um modelo funcional de
nível mais alto. Em outras palavras, assumimos que um universal lingüístico originase em uma função pragmática geral e que o universal não é explicado até que essa
função tenha sido isolada e relacionada a ele. Sem a conexão a uma função
comunicativa, os componentes separados da relação de transitividade têm apenas
uma relação arbitrária um com o outro;
175
2.4.2
O Sistema de Transitividade
Antes de iniciar a seção que aborda o Sistema de Transitividade propriamente
dito, como concebido em An Introduction to Functional Grammar (1994),
Construing Experience Through Meaning (1999) e An Introduction to Functional
Grammar (2004), cabe ressaltar que estas obras foram escritas para fornecer um
modelo para a análise gramatical de textos, especificamente relativos à lingua inglesa,
de forma que a discussão concentra-se na análise estrutural, lembrando que as
estruturas no modelo hallidiano são realizações das características sistêmicas.
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É essa a diferença fundamental entre as gramáticas que são essencialmente
sintagmáticas na orientação, basicamente as que têm suas raízes na lógica e na
filosofia, e aquelas que são essencialmente paradigmáticas, basicamente as que são
funcionais, com suas raízes na retórica e na etnografia.
Em An Introduction to Functional Grammar (1994) [Uma Introdução à
Gramática Funcional] (doravante IFG), podemos encontrar a descrição mais
detalhada da teoria, embora ela deixe de contemplar as redes para modelar o potencial
de significado. Nesta obra, o tratamento de transitividade de Halliday apresenta
algumas diferenças dos trabalhos anteriores.
Em primeiro lugar, e mais obviamente, os maiores tipos de Processos, de
‘ação’ – que a partir desta publicação passam a se chamar ‘material’ –, ‘relacional’ e
‘mental’, são tratados mais explicitamente. Em segundo lugar, nesta publicação,
encontramos a inclusão de dois tipos principais, Processo ‘comportamental’ e
Processo ‘existencial’, sendo que o Processo ‘verbal’ foi introduzido em 1977.
Será útil recapitular o que tem sido feito por Halliday sobre os tipos diferentes
de Processo para avaliar que novos aspectos são introduzidos nesta obra. Nas suas
descrições, os tipos de Processo de ‘ação’/’material’ sempre têm sido centrais e é por
essa razão que eles são aqueles para os quais são fornecidos maiores detalhes.
Halliday afirma que o Processo ‘material’ é de um tipo de ‘fazer’, e pode ser testado
se perguntarmos ‘O que ele fez?’ ou ‘O que aconteceu a ele?’. O Processo ‘Material’
tem as funções de ‘ator’ e ‘meta’ associados a ele.
176
Com relação ao Processo ‘mental’, Halliday afirma que as razões para
considerá-lo como um tipo de Processo separado são, primeiramente, que o Processo
exige um Participante consciente, isto é, um Participante que está dotado de
propriedades conscientes. Este não é o caso do Processo ‘material’. Em segundo
lugar, o Processo ‘mental’ tipicamente se realiza no presente simples, e o Processo
‘material’ tipicamente se realiza no presente contínuo. Ele explica que uma das razões
para isso é que o tipo de tempo verbal carrega significados diferentes. Ele afirma que
o presente contínuo, ou ‘o ‘presente no presente’ é mais focado no tempo; daí ele
ocorrer com Processos que têm começo e fim claros, como é típico do Processo
‘material’. O Processo ‘mental’, que, em geral, não está claramente limitado no
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tempo, está associado com a forma de tempo menos focada, o presente simples’ (IFG,
p.112-6).
Em terceiro lugar, e importante do ponto de vista da semântica, Halliday
distingue Processo ‘mental’ como não sendo Processo de ‘fazer’. Conseqüentemente,
os papéis de ‘ator’ e ‘meta’ são abandonados em favor das funções de
‘experienciador’ e ‘fenômeno’ – o Participante que é ‘sentido’.
Finalmente, ele reconhece subclassificações semânticas maiores de Processos
‘mentais’, isto é, traços ao invés de nomes de redes: ‘percepção’, ‘afeição’,
‘cognição’.
A apresentação do Processo ‘relacional’ é mudada nesta descrição. Uma das
abordagens foi apresentada em uma rede de sistemas em Halliday 1977 (apresentada
acima), mas na IFG há uma abordagem diferente e mais detalhada. Talvez a
explicação mais útil do funcionamento do Processo do tipo ‘relacional’ pode ser
deduzida da seguinte tabela que Halliday apresenta:
177
Quadro: 11 – Os tipos principais de processo relacional (Halliday, 1994,
p.119)
1) intensiva
(i) atributivo
(ii) identificativo
Sara é inteligente
Tomás é o líder;
O líder é Tomás.
2) circunstancial
A feira é no domingo
Amanhã é 10.
O livro está na estante
10 é amanhã.
O menino está doente
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3) possessivo
Pedro tem um piano
O piano é de Pedro.
Como mostra esta tabela, três tipos principais de Processo ‘relacional’ são
identificados: 1. ‘intensivo’ (x é a), 2. ‘circunstancial’ (x está y; x é em y; x está em y)
e 3. ‘possessivo’ (x tem a). Além disso, cada tipo é classificado com os dois outros
tipos de significado; tanto ‘atributivo’ quanto ‘identificativo’.
Halliday (1994, p.120-138) apresenta as opções para Processos Relacionais de
uma forma que poderia facilmente ser reconhecida como uma rede de sistema, sendo
os seguintes:
Intensivo
Atributivo
Identificativo
Circunstancial
Atributivo
Circunstância como atributo
Circunstância como processo
Identificativo
Circunstância como participante
Circunstância como processo
Possessivo
Atributivo
Possessão como participante
178
Possessão como processo
(um) possuidor como Portador
(dois) possuídos como Portador
Identificativo
Possessão como participante
Possessão como processo
Halliday afirma que os três tipos de Processo – Processo ‘verbal’ (primeiro
reconhecido em Halliday, 1977), e os dois novos tipos de ‘comportamental’ e
‘existencial’ – são, na realidade, tipos de Processo ‘subsidiário’.
O Processo ‘comportamental’ é descrito relacionado ao comportamento
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psicológico – Processos tais como ‘respirar; tossir; sorrir; sonhar e olhar’. Este tipo de
Processo é limítrofe entre o ‘material’ e o ‘mental’. O Participante que está ‘se
comportando’ tem o papel de ‘comportante’. Halliday compara esse papel com o de
‘experienciador’ em um Processo ‘mental’.
O tipo de Processo ‘verbal’ se relaciona a ‘qualquer tipo de troca simbólica de
significado’, como no exemplo: O que você disse: eu disse que está barulhento aqui.
É interessante observar que Halliday indica que esse Processo não exige um
Participante consciente. É possível ter um Participante como ‘um observador’ como
no exemplo Meu relógico diz que são dez horas.
Em exemplos como esses, o Participante tipicamente esperado – ou mais
provável – neste lugar seria um ser animado, e tipicamente humano. No entanto, este
caso não é único, e há muitos lugares na transitividade onde a linguagem nos capacita
para ‘metaforizar’ um tipo de processo, e portanto, para incluir Participantes nãoconscientes. O Participante atribuído por Halliday a este tipo de Processo é ‘dizente’.
Três outros Participantes possíveis são sugeridos como capazes de ocorrer com esse
tipo de Processo: ‘receptor’ sendo a pessoa ‘para quem a verbalização é dirigida’;
‘verbiagem’ sendo o que é dito; e ‘alvo’ sendo o alvo dos ‘verbos tais como insultar,
louvar, caluniar, abusar, elogiar’ (1994, p.140-2).
O tipo de Processo ‘existencial’ é a representação de algo que existe ou
acontece, como no exemplo Há um pequeno porco da guinea. Halliday afirma que o
tipo de Processo ‘existencial’ também inclui a categoria especial de Processos
179
‘metereológicos’ (1994, p.143), nos quais o Sujeito envolve o Sujeito não-referencial
como em Está chovendo. O autor considera que essas orações podem ser analisadas
como envolvendo nenhum Participante – “essas orações podem ser analisadas
consistindo de um elemento único” (1994, p.144).
A descrição de Halliday de transitividade na IFG então prossegue para discutir
outros Participantes que são tipicamente esperados pelos tipos de Processo. Isso
inclui os Participantes discutidos nos artigos de 1967/8.
Talvez o aspecto mais interessante de sua descrição nesta obra seja a
discussão da existência da perspectiva ‘ergativa’ juntamente com a perspectiva
transitiva. Na perspectiva ‘ergativa’, ele fundamenta a visão de que todos os
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processos são estruturados da mesma forma, com base em uma variável. Acrescenta
que “a variável não é a de extensão, mas a de causação. Algum Participante está
envolvido em um Processo; o Processo é originado por esse Participante ou alguma
outra entidade?” (1994, p.161-175).
Este
conceito
de
não
reconhecimento
da
distinção
tradicional
‘transitiva’/’intransitiva’, e sim o de ‘ergatividade’ foi apresentado em primeiro lugar
por Halliday em 1968 e em 1970, e a nova ênfase na IFG é na centralidade dos papéis
de ‘Meio’ e ‘Agente’ nas construções ergativas. A noção central para a descrição na
IFG é a de ‘causa e efeito’, o que é descrito em termos da noção de que todo o
processo tem um Participante e que esse Participante é o ‘Meio’ através do qual o
‘Processo’ é atualizado (Halliday, 1994, p.163).
Halliday sugere que o Processo e o Meio “juntos formam o núcleo de uma
oração...; e esse núcleo então determina a quantidade de opções que estão disponíveis
para o resto da oração” (1994, p.165). O Meio funciona como um Participante na
oração, e funciona diferentemente de acordo com o Processo:
A função ergativa Meio é equivalente a:
no processo material
a Ator (médio), Meta (efetivo)
no processo comportamental
a Comportante
no processo mental
a Experienciador
no processo verbal
a Dizente (médio), Alvo (efetivo)
no processo atributivo
a Portador
180
no processo identificativo`
a Identificado
no processo existencial
a Existente
Em resumo, em sua discussão sobre transitividade na IFG, Halliday consolida
as
visões
exploradas
nas
discussões
anteriores.
Essa
obra
conclui
os
desenvolvimentos do trabalho de Halliday sobre transitividade no arcabouço da LSF
nos quase 30 anos de estudos sistêmicos.
Construing Experience Through Meaning – A Language-based Approach to
Cognition (1999) [Construindo experiência através do significado – uma abordagem à
cognição baseada na linguagem] é uma obra elaborada por Halliday e Christian
Matthiessen que conceitualizam e localizam a questão da ‘transitividade’ a partir do
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contexto, ou seja, o que as pessoas podem fazer com a linguagem, seja ela modelada
como ação social, como processo cognitivo ou como forma de sistema de valor
abstrato. Na concepção dos autores, a cognição é significado, explicando que “o mapa
‘mental’ é na realidade um mapa semiótico e a ‘cognição’ apenas uma forma de falar
sobre a linguagem”.
O que os autores querem dizer é que consideram o conhecimento como
significado e o tratam como um constructo lingüístico e como tal construído na
léxico-gramática, explicando a cognição com referência aos processos lingüísticos.
Dito de outra forma, compreender algo é transformá-lo em significado e “conhecer é
ter desempenhado essa transformação” (Halliday & Matthiessen, 1999, p.x). A ênfase
é dada no que a linguagem faz e não no que ela é pois a base de ideação é a da
construção da experiência através do significado.
A partir desse ponto de vista, a linguagem teve sua evolução atrelada a duas
funções complementares, a saber, a de construir experiência e atuar os processos
sociais, sendo que o foco para os autores é a função da construção da experiência, à
qual se referem como a base de ideação. Nesse sentido, esclarecem que as categorias
e as relações de experiência não são dadas, mas construídas pela linguagem, com a
léxico-gramática como a força direcionadora.
A propriedade singular de ser um sistema estratificado torna possível que a
linguagem transforme experiência em significado. Portanto, nesta obra, os autores
estão interessados em como os falantes constroem experiência como recurso, como
181
um potencial para a compreensão, representação e atuação na realidade, porque
entendem que é “em termos desse potencial que as idiossincrasias da vida diária são
interpretadas: elas fazem sentido porque são instanciações desse potencial” (Halliday
& Matthiessen, 1999, p.1).
A partir dessa perspectiva, a experiência humana é interpretada como
significado, construído na linguagem, sendo esta portanto um sistema semântico; a
linguagem é tomada como a base interpretativa e a informação como significado que
é entendido como um processo social intersubjetivo.
Em resumo, a obra em questão foca na semântica ideacional, isto é, a
Metafunção Ideacional, na qual o ambiente experiencial da gramática é interpretado
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como significado e, assim sendo, chamado de base de significado. A linguagem é,
então, vista como “a fundação da experiência humana e o significado como o modo
essencial de consciência humana de ordem mais alta” (Halliday & Matthiessen, 1999,
p.3).
Para o desenvolvimento do objetivo a que se propõem, a saber, o de construir
a base de significado, Halliday & Matthiessen usam uma gramática sistêmica, a qual
definem como um gramática funcional, isto é, semanticamente motivada, em
oposição às gramáticas formais que são autônomas e, conseqüentemente,
semanticamente arbitrárias.
An Introduction to the Functional Grammar (2004) [Uma Introdução à
Gramática Funcional] é uma obra elaborada também com Christian Matthiessen.
Nela, Halliday dá mais proeminência às redes de sistemas que compõem a gramática
e maior ênfase à exemplificações com textos por que como ele mesmo diz em sua
introdução “o modelo sistêmico-funcional tem sido amplamente usado na análise do
discurso” (id., p.4-5).
O capítulo referente à oração como representação, ou seja, o Sistema de
Transitividade foi re-escrito para poder tornar “os aspectos da transitividade mais
acessíveis e fornecer mais apoio para as análises textuais” (Halliday & Matthiessen,
2004, p.x).
Como este é o modelo teórico-metodológico que embasará a análise e
descrição das ocorrências do verbo ‘ser’ no material selecionado para análise, abaixo
182
forneço o resumo dos principais aspectos do capítulo sobre Clause as representation
[Oração como representação].
Tenho conhecimento de que há outros trabalhos em LSF que abordaram o
Sistema de Transitividade no arcabouço da teoria, a saber, Lexicogrammatical
Cartography: English Systems (Matthiessen, 1995), Experiential Grammar (Davidse,
1992), entre outros, no entanto, encerro aqui este histórico, pois minha intenção foi a
de apenas ilustrar o assunto com alguns estudos referentes à Transitividade.
2.4.2.1
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A oração como representação
Os significados experienciais no nível gramatical da oração são aqueles que
refletem ou representam processos, participantes e circunstâncias – as figuras. Na
análise de Halliday (1994, p.102-137), os significados experiênciais são considerados
nas orações pelo Sistema de Transitividade. O sistema gramatical da transitividade
inclui escolhas de tipos de processo e a configuração de possíveis participantes e
circunstâncias que podem estar associados com um determinado tipo de processo, o
que constrói o mundo de experiências internas e externas dentro de um conjunto de
tipos de transitividade: material, comportamental, mental, verbal, relacional e
existencial.
A transitividade está relacionada com a construção de um domínio particular
de nossa experiência, do fluxo de acontecimentos, como configurações de processos,
participantes envolvidos, podendo ser Ator, Meta, Experienciador, Fenômeno,
Portador, Atributo etc., e as circunstâncias do processo como Causa, Localização,
Modo (incluindo meios e instrumentos) etc. Esta rede de sistemas constrói um espaço
semiótico contínuo, onde a linguagem é utilizada e organizada em configurações
semânticas, que fornecem modelos ou esquemas para construir nossas experiências
do que acontece ao nosso redor (Halliday & Matthiessen, 2004).
Halliday (1970;1994; Halliday & Matthiessen, 2004) define transitividade
como um sistema que traduz o mundo da experiência – mundo ideacional – em um
conjunto viável de tipos de processos. Processo, nesse sentido, agrupa ‘ação’ ou
183
‘fazer’, incluindo percepção e atribuição, ou ‘ser’, incluindo atribuição e
identificação. Os processos são centrais para a transitividade e são realizados pelos
predicadores. Há os Processos que expressam a experiência ‘externa’, isto é, ações e
eventos; os que manifestam a experiência ‘interna’, ou seja, os estados cognitivos e
afetivos; e há um terceiro tipo de processo que é o de relacionar um fragmento da
realidade a outro. Portanto, a oração se estrutura como uma representação,
construindo um tipo de processo na experiência humana e representando a realidade
de formas específicas.
A oração desempenha um papel central, porque ela incorpora um princípio
geral para modelar a experiência – o princípio de que a realidade é constituída de
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processos. A Metafunção Ideacional é a parte da semântica que ‘controla’ e põe em
ordem todas as ‘atividades’ ou processos na gramática da oração.
A linguagem na função experiencial impõe uma ordem ao fluxo dos eventos,
isto é, o Sistema de Transitividade é o sistema da gramática no qual e pelo qual os
falantes/autores realizam os significados experienciais, no qual e pelo qual codificam
suas experiências do mundo. Portanto, além de ser um modo de ação, de dar e
solicitar bens e serviços e informações, a oração também é um modo de reflexão, de
impor ordem na variação e no fluxo ilimitado de acontecimentos, o que é chamado de
‘mundo ideacional’ (Halliday,1994: xxxiv).
Os conceitos de processo, participantes do processo (animados e nãoanimados) e circunstâncias são categorias semânticas que explicam da forma mais
geral como os fenômenos do mundo real são representados em estruturas lingüísticas.
Participantes são inerentes ao processo; eles originam sua ocorrência ou a medeiam.
Concretamente, eles podem realizar o processo, senti-lo, recebê-lo ou serem afetados
por ele, falar sobre ele, etc. As diferentes configurações de participantes são as bases
para uma tipologia de tipos de processo.
Isto significa que os fenômenos de nossa experiência são construídos como
unidades de significado que podem ser nivelados em hierarquias e organizados em
configurações de funções (papéis) em níveis diferentes na hierarquia. Da mesma
forma, as metas podem variar de abstrações intangíveis (tais como as possibilidades)
184
a realidades concretas (tais como um livro). É função do Sistema de Transitividade
realizar essas distinções de significado.
É nesse sentido que a transitividade é um sistema e diz respeito à gramática da
oração em seu aspecto ideacional, projetando traços na oração e estabelecendo
relações
paradigmáticas
e
sintagmáticas.
Os
predicadores
representam
a
potencialidade de estabelecer relações em cada um dos conjuntos de relações
envolvidos. Então, a especificação de classe de qualquer predicador é, na realidade,
uma especificação daqueles traços das orações que determinam sua potencialidade de
ocorrência. Todos os elementos que compõem a estrutura da oração estão
relacionados pois fazem parte de uma rede de sistemas, onde cada elemento depende
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do outro, numa relação paradigmática e sintagmática.
O Sistema de Transitividade oferece uma rede de opções inter-relacionadas
para representar tipos diferentes de experiência: nossa experiência do mundo
material, do mundo de nossa consciência interior, do mundo de simbolização etc.
Como disse acima, o Sistema de Transitividade construirá a experiência em
um pequeno conjunto de significados que diferirá de acordo com o processo em si e a
natureza dos participantes envolvidos. Os processos podem ser: Materiais, Mentais,
Verbais, Relacionais. Os processos são obrigatórios na maior parte das orações e
tipicamente realizados por um grupo verbal. Cada tipo de processo é caracterizado
por configurações de participante-processo onde as funções são particulares a cada
tipo. Os participantes, na maioria das frases, são tipicamente realizados por grupos
nominais. As circunstâncias são opcionais em muitos casos e tipicamente realizadas
por grupos adverbiais e preposicionais.
Ao tratarmos dos processos devemos ter em mente quatro perguntas:
1. Qual é o tipo de processo?
2. Quantos participantes devem/podem estar envolvidos?
3. Que papéis os participantes devem/podem representar?
4. Que estruturas realizam as respostas a essas perguntas?
Em termos mais abstratos, cada processo é estruturado da mesma forma, sob a
base de apenas uma variável. Essa varíavel diz respeito à fonte do processo: o que o
ocasionou? O que ocasionou o processo partiu de dentro ou de fora dele? Alguns
185
participantes estão envolvidos no processo: o processo foi ocasionado por esses
participantes ou por outra entidade?
Em síntese, cada experiência é estruturada como uma configuração semântica,
onde cada processo consiste, em princípio, de três componentes:
(i)
o processo em si;
(ii)
participantes no processo;
(iii)
circunstâncias associadas com o processo.
Essa interpretação dos processos é o que reside por trás da distinção
gramatical de classes de palavras em verbos, substantivos e o resto, um padrão que de
alguma forma é provavelmente universal entre as línguas humanas.
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Pela transitividade pode-se identificar que ações e atividades humanas são
representadas no discurso e que realidade está sendo retratada, através de três
componentes básicos: os participantes do discurso (os agentes ou pacientes afetados),
os processos (os tipos de verbos) e as circunstâncias (locuções adjetivas ou
adverbiais). Trata-se da análise de quem faz o quê a quem e em quais circunstâncias.
Ao investigar o significado experiencial, estudamos a realização no nível da oração
como representação.
De acordo com Halliday & Matthiessen (2004, p.170), “a experiência consiste
de um fluxo de eventos ou ‘acontecimentos’” e a linguagem na função experiencial
impõe uma ordem no fluxo de eventos. Esses eventos são divididos pela gramática da
oração, sendo que cada um é moldado como uma ‘figura’. Em outras palavras, o
sistema de transitividade “constrói o mundo da experiência em um conjunto de tipos
de processos” (Halliday & Matthiessen, 2004, p.170). A oração representa a
experiência através desses tipos de processos, que Halliday, inicialmente e
formalmente, divididiu em “acontecer, fazer, sentir, significar e ser e tornar-se”
(Halliday, 1994, p.106; Halliday & Matthiessen, 2004, p.170). “A transitividade é a
gramática de processos: ações e eventos, processos materiais e relacionais. É essa
parte da gramática que constitui uma teoria de ‘acontecimentos’” (Halliday &
Matthiessen, 1999, p.11).
O sistema de transitividade ajuda-nos a reconhecer e codificar nossa
experiência de mundo, pois compreendemos que algumas coisas funcionam como
186
atores que realizam diferentes tipos de ações com metas ou objetivos diferentes. Esses
atos – ou processos – podem ser materiais (tais como Pegue um livro) ou mentais
(tais como Considere as possibilidades).
As experiências de significado interno são as da percepção, emoção e
imaginação, enquanto que as de significado externo são as de ação, identificação e
reação. Esta rede de sistemas constrói um espaço semiótico contínuo, onde a
linguagem é utilizada e organizada em configurações semânticas, que fornecem
modelos ou esquemas para construir nossas experiências do que acontece ao nosso
redor (Halliday & Matthiessen,2004, p.172-3).
Como tipos de processos entende-se um espaço semiótico cujas regiões são
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contínuas, ou seja, trata-se de categorias indistintas. Esse é o princípio fundamental
no qual o sistema está baseado – “o princípio do indeterminismo sistêmico” (Halliday
& Matthiessen, 2004, p.173). O que o autor quer dizer com esse indeterminismo é
que ele é a própria essência do mundo de nossa experiência, o qual é altamente
indeterminado, razão pela qual
um e o mesmo texto pode oferecer modelos alternativos do que poderia parecer ser o
mesmo domínio de experiência, construindo, por exemplo, o domínio da emoção
tanto como um processo na oração ‘mental’[...] quanto como um participante na
oração relacional” (Halliday, 2004, p.173)ioe
187
Quadro 12 – Exemplo de realização
O leão
perseguiu
o turista
lentamente
pelos arbustos
Participante
Processo
Participante
Circunstância
Circunstância
Grupo nominal Grupo verbal
Grupo nominal Grupo
adverbial
Sintagma
preposicional
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Figura: 7 – Representação gráfica do Sistema Lingüístico
A partir dessa perspectiva, pretendo verificar as funções específicas do verbo
‘ser’ que possam ser reveladas em uma análise e descrição de suas ocorrências no
discurso. Ao analisar e descrever as ocorrências do verbo ‘ser’ nos artigos
jornalísticos selecionados para esta tese, levarei em conta uma combinação de senso
comum e gramática: senso comum para distinguir os tipos diferentes de
‘acontecimentos’ que podem ser identificados e a gramática para confirmar que essas
diferenças intuitivas estão refletidas na linguagem.
188
Pretendo reconhecer funções mais específicas do verbo ‘ser’ que possam
revelar uma análise e descrição de um determinado fenômeno na língua portuguesa
denominado pela GSF como Processos Relacionais. Este é o que será descrito com
detalhes na seção seguinte, ficando os demais fora do escopo desta tese.
2.4.2.1.1
O Processo Relacional
Halliday & Matthiessen (2004, p.211-212) referem-se às orações relacionais
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como
prototipicamente construindo mudança ao desenvolverem-se ‘inertemente’, sem um
estímulo de energia – tipicamente como um fluxo uniforme sem fases de
desenvolvimento distintas (diferente do contraste nos processos materiais entre a fase
inicial e a final do desenvolvimento de um processo).
O Processo Relacional é o terceiro maior tipo de processo identificado por
Halliday (1994, p.119; Halliday & Matthiessen, 2004, p.210-48) – as orações
relacionais. O processo relacional é aquele que usamos para identificar nossas
experiências para nossos interactantes ou para conferir atributos a elas. Isto significa
que classificamos o mundo utilizando processos relacionais, ou seja, relacionamos
uma coisa a um atributo ou uma pessoa a um nome (uma identidade) ou a um
atributo.
As orações relacionais servem para caracterizar e identificar. São, em geral,
realizadas pelo verbo ‘ser’ (e ‘estar’ entre outros) no presente ou passado simples, as
quais apresentam a impossibilidade de transformação para a voz passiva. A principal
característica dessas orações é relacionar um Participante (doravante P) a sua
identidade ou descrição, ou seja, há uma relação que é estabelecida entre duas idéias.
As orações relacionais requerem dois Ps inerentes – P1 e P2 – e envolvem ‘estados de
ser’ (incluindo ter).
Estas orações expressam a seguinte pergunta: que tipo de experiência está
sendo construída? As orações relacionais tanto podem construir experiências externas
quanto internas, modelando-as como ‘ser’ ao invés de ‘fazer’ (caso das orações
materiais) ou ‘sentir’ (caso das orações mentais), através de um desdobramento do
189
tempo e configuradas com um processo mais seus participantes. Portanto, essas
orações apresentam “uma gramática própria que se desenvolveu para servir a usos
distintos no discurso” (Halliday & Matthiessen, 2004, p.211). Elas então constroem
mudanças sem dispêndio de energia –
tipicamente como um fluxo sem fases distintas de desdobramento (diferentemente
dos processos materiais que apresentam uma fase inicial e uma fase final do
desdobramento de um processo). Dessa forma, a localização estática no espaço é
construída relacionalmente – Ela está na sala de jantar. Mas o movimento dinâmico
no espaço é construído materialmente – Ela está andando na sala (Halliday &
Matthiessen, 2004, p.212).
As orações relacionais constroem um desdobramento através do tempo de um
ato ou fato entre seres participantes, ou seja, “não somente coisas, mas também atos e
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fatos podem ser construídos como participantes em uma oração relacional” (Halliday
& Matthiessen, 2004, p.213). É o caso de, por exemplo: É importante que ele faça os
exercícios regularmente.
Neste caso, as orações relacionais assemelham-se às mentais e ao mesmo
tempo diferenciam-se por construir as coisas, atos e fatos como “um elemento em
uma relação de ser”, sendo que essas coisas, atos e fatos que são construídos como
participantes são configurados com um outro participante relacional que tem de vir do
mesmo domínio de ‘ser’, ou seja, que tenham a mesma propriedade semiótica que
possa ser atribuída a um fato, ato ou coisa.
Nas orações relacionais, há duas partes de ‘ser’, a saber, algo é dito ser algo
mais, ou seja, “uma relação de ‘ser’ é estabelecida entre duas entidades separadas”
(Halliday & Matthiessen, 2004, p.213). O verbo ‘ser’ configura o processo que “cria
o potencial para a construção de relações abstratas de associação de classe em todos
os domínios de experiência” (Halliday & Matthiessen, 2004, p. 214).
Os processos relacionais constroem orações atribuitivas, semioticamente, pois
atribuem filiação ou classificação a uma determinada classe ou categoria. As relações
abstratas de filiações ou associações são construídas pelas orações atributivas que
apresentam seus participantes – o Portador e o Atributo, pois neste caso uma entidade
tem um atributo imputado a ela. As relações abstratas de identidade são construídas
pelas orações identificativas.
190
Em orações identificativas, a entidade é utilizada para identificar outra e,
geralmente, encontram-se em orações que servem para construir conhecimento, que
trazem nomes técnicos, que interpretam e que evidenciam algo, principalmente da
ciência ou melhor em discursos técnicos. Essas orações são importantes porque
representam uma estratégia para expandir os recursos de nomeação da linguagem nos
gêneros científicos e nos discursos técnicos, sendo muito utilizadas em dicionários
técnicos.
Os participantes diretamente envolvidos nesse processo são: o identificado e o
identificador. Esses participantes se diferenciam na estratificação semântica como
característica de expressão ou conteúdo e são utilizados para identificar um ao outro,
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codificando ou decodificando, mas de forma estruturalmente distinta.
O terceito tipo de processo relacional é o possessivo, que se configura pelo
uso de verbos de posse como: ter, possuir e compor. Este processo não será detalhado
pois foge ao escopo desta tese.
2.4.2.1.1.1
Os principais tipos de oração relacional
A gramática da transitividade acomoda construções sistemáticas de Processos
Relacionais.
O verbo principal desse tipo de processo é o verbo ‘ser’, o qual expressa uma
relação entre um substantivo (ou expressão substantiva) e um outro elemento em
relação ao momento de fala por meio de desinências modo-temporais. Ele também
sinaliza o primeiro elemento da relação quando está oculto ou anafórico, através das
desinências número-pessoais e imprime a essa relação o traço aspecto implícito no
caráter aspectual do verbo.
A função do processo relacional é a de opor a uma relação substantivo/outro
elemento (substantivo, adjetivo ou advérbio e pronomes equivalentes) os traços
gramaticais de aspecto (representado primariamente pelo caráter aspectual do verbo e
secundariamente pelo tempo verbal), modo, número e pessoa.
191
Há três tipos de relações: intensiva, possessiva e circunstancial, sendo que
cada uma apresenta dois modos de ser distintos – atributivo e identificativo, os quais
estão dispostos como dois sistemas simultâneos na rede de Sistema de Transitividade
que se cruzam definindo seis categorias de orações relacionais.
Segundo Martin (1993, p.219), “as definições são um tipo especial de oração
relacional que na realidade traduzem o senso comum em conhecimento
especializado”. O texto codifica a realidade em um conjunto de relações entre coisas
e
o efeito da abstração na gramática de um texto é para colocar em primeiro plano as
orações relacionais em detrimento das materiais e para, ao mesmo tempo, colocar em
primeiro plano os grupos nominais em detrimento dos complementos oracionais.
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É de se esperar, portanto, que haverá processos relacionais e um determinado
número de tipos de participantes relacionais nos artigos de opinião e editoriais
jornalísticos, uma vez que estes envolvem descrição de fatos, eventos,
acontecimentos, assim como a interpretação dos mesmos por seus autores.
Martin (1993, p.204) aponta diferenças entre os tipos de texto e seus
processos. Ele ressalta que “o senso comum, como conhecimento especializado, faz
uso de grupos nominais e orações relacionais para classificar a experiência”. A
gramática dos relatórios em ciência, os quais classificam e descrevem, depende mais
das orações relacionais.
Vejamos um quadro ilustrativo.
192
Quadro 13 – Processos Relacionais.
Classes de Processos Relacionais
Tipo\modo de relações
(a) atributivo
(b) identificativo
(1) intensive
Sarah é inteligente.
Paulo é o líder. O líder é
Paulo.
(2) circunstancial
A feira é no sábado.
Sábado é dia 24. 24 é
amanhã.
(3) possessive
Pedro tem um piano
O piano é de Pedro.
.
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Portador Atributo
Identificado
Característica
1 – intensivo:
‘x é a’
2 – circunstancial:
‘x está em, no, sobre etc’
3 – possessivo:
‘x tem a’
(a) atributivo:
‘a é um atributo de x’
(b) identificativo:
‘a é a identidade de x’
Identificador
Valor
Semanticamente, os verbos do processo relacional intensivo (atributivos e
identificativos) expressam uma relação intensiva entre o Participante 1 (P1) e o
Participante 2 (P2). A relação é intensiva porque esses verbos permitem que P2
expresse algum tipo de Atributo ou Característica que o qualifica ou identifica e essa
relação se dá de tal forma que P1 serve de suporte dessa qualidade ou identidade,
estabelecendo, dessa forma, uma relação intensiva. Devido a sua relação com P1,
pode-se dizer também que esse elemento frásico P2 está codificado como parte do
significado do verbo.
Os Processos Relacionais são os que usamos quando atribuímos uma
qualidade, classificação ou descrição a um Participante. Os argumentos formam com
seu verbo relacional um conjunto semântico significativo, ou seja, uma configuração
ou figura de expressão significativa. O conjunto semântico expresso pela realização
193
dos verbos relacionais mostram valores significativos que podem ser da ordem (a)
atributiva ou (b) identificativa.
Uma diferença importante entre o modo atributivo e o identificativo é que as
orações identificativas são reversíveis; as atributivas não são reversíveis.19
(a) orações relacionais intensivas atributivas
Na oração atributiva do modo intensivo, “uma entidade tem alguma classe
imputada ou atribuída a ela” (Halliday & Matthiessen, 2004, p.219). Estruturalmente,
essa classe é chamada de Atributo e a entidade para a qual tal atributo é imputado é o
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Portador – o Portador do Atributo. O verbo representativo desse tipo de oração é o
verbo ‘ser’ e seus dois participantes são expressos por grupos nominais em uma
relação do tipo x é a.
Para a língua inglesa, os autores definiram quatro características que diferem
as orações atributivas das identificativas. São elas:
(i)
o grupo nominal que funciona como Atributo constrói uma classe
de coisas e é tipicamente definido: tem ou um adjetivo ou um
substantivo comum como Núcleo e, se apropriado, um artigo
indefinido. Não pode ser um nome próprio ou um pronome, uma
vez que esses não constroem classes;
(ii)
o verbo lexical no grupo verbal que realiza o Processo é o da classe
dos ‘atributivos’. Se o atributo for realizado por um grupo nominal
com um substantivo comum como Núcleo sem um adjetivo prémodificador, ele é, em geral, expresso como se fosse uma
circunstância (com uma preposição pós-verbo);
(iii)
19
as orações não são reversíveis.
É importante lembrar que a GSF foi desenvolvida para a descrição da língua inglesa, o que significa
que há especificidades dessa língua que podem não ser as mesmas da língua portuguesa, material de
análise desta tese. As possíveis diferenças serão apresentadas, caso ocorram, no desenvolvimento da
análise e descrição do corpus.
194
Nos tipos de orações intensivas atributivas são identificados três contrastes, a
saber:
1 – especificação de filiação: a classe é especificada pela nomeação da classe
em si por referência à entidade que constitui a classe. Ex.: Ele é um arquiteto; ou pela
nomeação de um critério para a filiação à classe por referência à qualidade ou
qualidades da entidade que constitui a classe, como em Os cariocas são muito
alegres.
Atributos entidade são expressos por grupos nominais com substantivos como
Núcleo – arquiteto; Atributos qualidade são expressos por grupos nominais com
Epíteto como Núcleo – muito alegres. Neste caso, o substantivo está implícito, ou
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seja, a norma da qualidade denotada pelo Epíteto depende do contexto que poderia
ser, por exemplo, a classe das pessoas alegres. Halliday & Matthiessen (2004, p.220)
chamam a atenção para o fato de que há
uma variante metafórica onde o Atributo é expresso por de + um grupo nominal com
uma nominalização como Substantivo/Núcleo. Por exemplo: [...] suas aspirações são
de crucial importância. A versão congruente seria ... é crucialmente importante.
Um outro ponto interessante da abordagem é o fato de haver um número de
qualidades que podem ser construídas por Processos qualitativos ao invés de
Atributos qualitativos, como por exemplo: ser importante = importar; ser diferente =
diferenciar, entre outros.
2 – fase de atribuição: neutra e faseada – refere-se ao desdobramento do
processo de atribuição no tempo. Se o desdobramento não for especificado, ele será
tratado como neutro; caso contrário, se especificado em termos de tempo, aparência
ou sentido-percepção, faseado. Aqui estão incluídos os exemplos com outros verbos
relacionais, diferentes de ‘ser’, como tornar-se, por exemplo.
3 – domínio da atribuição – as orações relacionais podem construir tanto a
experiência externa quanto a interna. Logo, os dois modos de experiência estão
incluídos nesses domínios de atribuição de uma oração atributiva. O contraste nos
domínios de atribuição não é o entre material e mental mas entre material e semiótico,
ou seja, os atributos imputados ao portador em uma oração atributiva são materiais ou
195
semióticos e o substantivo que serve como portador tem de ser da mesma ordem do
atributo.
Por exemplo, com um Atributo como verdade, o Portador tem de ser uma
‘meta-coisa’ – representado por uma oração fato: É verdade que ele saiu cedo.
Abaixo um quadro ilustrativo dos domínios semânticos e dos Atributos
correspondentes.
Quadro 14 – Domínios semânticos e Atributos correspondentes.
(adaptado de Halliday & Matthiessen, 2004, p.223)
Tipo de domínio semântico
Atributo
Emoção/atitude
triste, trágico; prazeroso, prazer; uma alegria, um
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alívio, extraordinariamente bom, uma boa coisa;
ruim, uma coisa ruim.
Cognição/probabilidade
duvidoso, certo, provável, improvável, possível etc.
Obrigação/desejo
desejável, aceitável, apropriado, importante etc.
As orações relacionais podem apresentar também uma qualidade de sentir
como no seguinte exemplo: Não estou mais tão satisfeito com o que consegui, estou
muito preocupado, você não está feliz de ter terminado?, nos quais os Atributos são
avaliativos na natureza. Esses exemplos mostram uma sobreposição das orações
mentais e relacionais, segundo Halliday & Matthiessen (2004, p.224).
Aqui chamo a atenção para o fato de que a língua portuguesa expressa as
construções acima com o verbo ‘estar’ e não com o verbo ‘ser’, fato distinto na língua
inglesa que tem o verbo to be cumprindo os dois papéis.
A segunda figura que aparece representando a fonte ou a origem da condição
mental pode aparecer como ‘fato’ com uma oração mental, mas como ‘causa’ com
uma oração relacional.
As orações relacionais atributivas com Atributos desse tipo são, em geral,
construídas com orações ‘fato’, como por exemplo: É uma pena que você não sabia.
No outro domínio de atribuição, o domínio material, há uma situação análoga
à descrita acima, na qual o Atributo denota uma qualidade material equivalente ao
196
Processo de uma oração material. Este domínio não será descrito aqui por estar fora
do escopo desta tese.
(b) orações relacionais intensivas identificativas
O principal significado expresso pelas orações relacionais intensivas
identificativas é o de que “uma entidade está sendo usada para identificar uma outra”
(Halliday & Matthiessen, 2004, p.227). O elemento que deve ser identificado é
chamado Identificado, e o que serve como identidade é chamado Identificador.
As orações relacionais intensivas identificativas estabelecem singularidade, ou
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seja, o uso desse tipo de oração é importante porque ela representa uma estratégia
para expandir os recursos nomeadores da linguagem, tanto no discurso diário quanto
no científico.
Na perspectiva da GSF, as orações intensivas identificativas apresentam as
seguintes características:
A – o grupo nominal que realiza a função de Identificador é tipicamente
definido: tem um substantivo comum como Núcleo, com o artigo definido ou outro
determinador ou um nome próprio ou pronome. A única forma de ter um adjetivo
como Núcleo é o superlativo.
B – o verbo lexical do grupo verbal que realiza o Processo é o da classe das
orações ‘equativas’. Nesta tese, trata-se do verbo ‘ser’.
C – essas orações são reversíveis, sem alteração na forma do verbo e sem
marcar o participante não-Sujeito.
Nas orações identificativas, ambas as expressões referem-se à mesma entidade
do mundo. Essencialmente, a identificação é uma questão de relacionar uma
realização específica a uma categoria mais generalizável.
A razão pela qual os processos relacionais intensivos identificativos têm uma
variável adicional relacionada às funções dos participantes é devido ao fato de que
esses processos não somente têm uma entidade que identifica um ao outro, mas o que
o Identificador identifica pode ser tanto uma Característica pela qual é representado
(direção decodificadora) ou um Valor que ele representa (codificador).
197
É importante dar conta da direcionalidade codificadora, da voz do processo
intensivo identificativo e também de sua direcionalidade simbólica. Esta diz respeito
a ir do menos abstrato para o mais abstrato simbólico, ou seja, da
Característica/Identificado para o Valor/Identificador (neste caso, identificativo &
intensivo: ativo & decodificador), ou do mais para o menos abstrato simbólico, isto é,
Valor/Identificado para Característica/Identificador (neste caso, identificativo &
intensivo: passivo & codificador).
Embora, segundo a GSF, as orações do tipo acima possam ser classificadas
como Processos Relacionais Intensivos Identificativos, Halliday sugere que as
orações Relacionais Intensivas Identificativas e as orações Relacionais Intensivas
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Atributivas sejam vistas como algo mais contínuo, ou seja, “como um continuum no
continuum geral dos tipos de processo”, acrescentando que
o tipo de oração identificativa onde o Identificador é o Valor (isto é, a identidade é
dada pela função [neste caso a de Sujeito]) é intermediária entre a atributiva e o outro
tipo de identificativa, aquela onde o Identificador é a Característica (a identidade é
dada pela forma) (Halliday & Matthiessen, 2004, p.236).
Uma diferença entre atribuição e identificação levantada por Halliday &
Matthiessen (2004, p.236) é a de que, na ‘atribuição’, um participante tem um
“atributo, [...], ele é indicado a uma classe”, ou seja, embora os dois elementos da
relação, o atributo e a entidade que o ‘carrega’, difiram na generalidade (um inclui o
outro), os dois estão no mesmo nível de abstração.
Nas orações identificativas
“ambas as expressões referem-se à mesma entidade do mundo real” (Thompson,
2004, p.97), mas trata-se da questão da relação entre uma realização específica e uma
categoria mais generalizável. Com Halliday corrobora Thompson (2004, p.100) ao
afirmar que
há casos em que pode ser muito difícil distinguir os dois tipos [identificativo e
atributivo] [...] (mantendo em mente que haverá uns poucos casos indeterminados
que poderiam bem ser analisados igualmente como ambos os tipos).
É interessante observar que a sugestão de Halliday parece deixar entrever
também uma possível dificuldade que, muitas vezes, apresenta-se de se distinguir
uma oração identificativa de uma atributiva. Por vezes, embora algumas orações
198
apresentem as características estruturais das orações Relacionais Intensivas
Identificativas, o contexto nos leva a entendê-las como atributivas.
Um outro fator que chama a atenção é a diferença vista por Thompson (2004,
p.98) entre os papéis de Identificado e Identificador daqueles de Valor e
Característica que para Halliday são usados para nomear os mesmos participantes.
Para Thompson (2004, p.120),
Valor e Característica dependem de propriedades semânticas pré-existentes das duas
formas de referir-se à entidade: a forma que é mais generalizada é o Valor, enquanto
a incorporação mais específica é a Característica.
Já Identificado e Identificador, por outro lado, dependem do desenvolvimento
do evento lingüístico, mostrando como um determinado texto está se desenvolvendo,
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ou seja,
o Identificador está sendo tipicamente mencionado pela primeira vez. O Identificado,
por outro lado, é tipicamente um participante que já foi mencionado ou cuja
existência é presumida (Thompson, 2004, p.120).
A classificação dos participantes de orações Relacionais Intensivas
Identificativas em papéis de Identificado e Identificador e Característica e Valor é
uma das mais complexas, pois embora usadas para nomear os mesmos participantes,
como exposto acima, elas apresentam perspectivas diferentes. Nas palavras de
Halliday & Matthiessen (2004, p.234),
a estrutura de Característica-Valor é provavelmente a mais difícil de se chegar a uma
conclusão no sistema de transitividade total. É também, certamente, a mais
importante, pois ela tende a dominar em determinados registros de grande
valorização (tais como o discurso científico, comercial, político e burocrático), onde
os significados que estão sendo construídos são inerentemente simbólicos.
(c) orações possessivas
Nas orações possessivas, a relação entre os dois participantes é a de posse, isto
é, “uma entidade possui uma outra” (Halliday & Matthiessen, 2004, p. 244-245). Essa
posse pode ser em termos de uma relação de parte com o todo, como é o caso da
posse de partes do corpo, conteúdo, envolvimento etc., assim como posse de idéias.
Nas palavras de Halliday & Matthiessen (2004, p.245), “a posse deve ser interpretada
199
de forma muito abrangente, no sentido de ‘expansão’: uma entidade é construída
como sendo expandida por uma outra”.
Essas orações podem ser construídas no modo ‘atributivo’ e no modo
‘identificativo’. No modo atributivo, as orações possessivas podem ser construídas
ainda como ‘atributo’, por exemplo, O piano é de Pedro, ou como processo, por
exemplo, Pedro tem um piano, O piano pertence ao Pedro.
Se a relação for construída como o Atributo, a coisa possuída é o Portador e o
possuidor é o Atributo. Essas orações assemelham-se às orações identificativas, pois
a coisa possuída tanto pode ser analisada como um membro da classe das possessões
de um possuidor e, neste caso, seria atributiva, quanto como pertencendo ao
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possuidor e, neste caso, seria identificativa.
No modo ‘identificativo’, “a posse toma a forma de uma relação entre duas
entidades”. Aqui, a relação também é organizada de duas formas:
a) como um traço dos participantes, estes incorporam a noção de possessão,
significando propriedade do possuidor: O piano é de Pedro. Neste caso, a
relação é de identidade, pois tanto o ‘piano’ quanto ‘de Pedro’ expressam
‘aquilo que Pedro possui’. A Característica é ‘o piano’ e o Valor é ‘de Pedro’;
b) como processo, a posse é codificada como um processo, tipicamente
realizada pelo verbo ‘possuir’.
As características das orações possessivas construídas como processo não
serão resumidas aqui por não terem relação com a questão desta tese.
Cabe chamar a atenção para o fato de que Halliday & Matthiessen (2004,
p.246) usam o mesmo exemplo O piano é de Pedro tanto como Atributivo quanto
Identificativo.
2.5
As relações lógico-semânticas
Halliday & Matthiessen (2004, p.367-369) explica a formação dos complexos
oracionais como relações que se manifestam da mesma forma semântica (através da
expansão e da projeção) que as circunstâncias no sistema de transitividade da oração,
200
sendo que, nas configurações de processo + participantes, “os elementos
circunstanciais são parte da organização ‘configuracional’ da oração” (Halliday &
Matthiessen, 2004, p.369), por exemplo Todos os dias, ela reza com toda a sua fé. O
elemento circunstancial com toda a sua fé não constrói uma figura, não representa
uma proposição/proposta, nem apresenta uma mensagem.
Já a projeção e a expansão, ao se manifestarem como relações lógicosemânticas, unem orações, formando complexos oracionais e têm o completo
potencial gramatical experiencial, interpessoal e textual de uma oração. Dito de outra
forma, a projeção e a expansão são orações no complexo oracional, formando parte
de uma cadeia.
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A oração pode, então, ser aumentada internamente, por meio de um elemento
circunstancial ou externamente por meio de uma outra oração, ficando a decisão no
âmbito de quanto “‘peso’ semiótico textual, interpessoal e experiencial deve ser
atribuído à unidade” (Halliday & Matthiessen, 2004, p.369).
A relação entre as orações é, então, realizada em termos do componente
‘lógico’ da Metafunção Ideacional do sistema lingüístico: as relações semânticofuncionais que constituem a lógica da linguagem (Halliday & Matthiessen, 2004,
p.472). Essas orações apresentam “especificamente uma relação inter-oracional – ou
melhor, uma relação entre processos expressos na gramática como um complexo de
orações” (Halliday, 1994, p.194-5; p.216; Halliday & Matthiessen, 2004, p.331-485).
Uma das relações envolvidas nos complexos oracionais analisados nesta tese é
a do tipo encaixada (representada por [[ ]]), na qual uma das orações funciona como
um constituinte na estrutura de um grupo oracional (Halliday & Matthiessen, 2004,
p.426). O encaixamento é uma “mudança de nível”, ou seja, a oração é um
participante. Para Halliday, “a categoria de encaixamento compreende, além das
orações que funcionam como pós-modificadores, apenas aquelas denominadas atos e
fatos” (Braga, 2001, p.26). Essa oração encaixada pode projetar atos ou fatos, os
quais são, no nível da gramática da transitividade, o segundo participante de um
processo que representa fenômenos encaixados.
O tipo de projeção que interessa aqui é a oração Fato. O ambiente típico para
uma oração Fato é uma oração de processo ‘relacional’ do tipo ‘intensivo’, atributivo
201
ou identificativo. As orações Fato são orações encaixadas, normalmente finitas e
iniciadas pela conjunção que, que surgem com processos relacionais, agindo como se
fossem nomes. Em português, essas orações são as que classificamos de oração
subordinada substantiva subjetiva, reduzidas ou não.
A construção de estruturas projetadas como as acima são importantes para
ajudar a compreender o ponto de vista dos autores dos artigos opinativos e editoriais,
pois uma proposição como um Fato é entendida como uma forma de realização de
modalidade explícita objetiva.
Tendo exposto os principais conceitos relativos à teoria que fundamenta esta
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tese, passo, no capítulo seguinte, a descrever a metodologia da pesquisa.
3
METODOLOGIA
A retórica é a face significante da ideologia
Roland Barthes
3.1
Introdução
Nesta tese, adotei a perspectiva da Lingüística Sistêmico-Funcional (LSF) como
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arcabouço teórico-metodológico para a análise e descrição do uso do verbo ‘ser’ como
verbo principal, em artigos de opinião e editoriais jornalísticos. A escolha pela LSF está
relacionada com minha intenção de verificar o aspecto funcional da linguagem, no que se
refere ao uso do verbo ‘ser’, porque me alinho com a concepção de que a linguagem
é como é por causa das funções que desenvolveu para cumprir na vida das pessoas: é de
se esperar que as estruturas lingüísticas possam ser compreendidas em termos funcionais
[...]. Essa compreensão envolve a difícil tarefa de focar a atenção simultaneamente no
atual e no potencial, interpretando tanto o discurso, quanto o sistema lingüístico que o
subjaz em termos de rede infinitamente complexa de potencial de significado [meaning
potential] que é o que chamamos de cultura (Halliday, 1978, p.4-5).
Isto significa dizer que investigarei o que acredito que o falante/escritor esteja
querendo dizer e significar com base na opção formal estrutural escolhida para realizá-lo.
Dessa forma, o enfoque analítico será, portanto, na investigação do uso da linguagem em
condições reais de ocorrência, ou seja, em textos, pois, na perspectiva aqui adotada, devese estudar textos em contextos de situação. Nas palavras de Halliday & Matthiessen
(2004, p.33-36),
o texto é a forma de dados usados para a análise lingüística; toda a descrição de gramática
está baseada em texto.[...] O corpus é fundamental para o empreendimento de teorização
da linguagem.
E, ainda, segundo esse autor, a descrição lingüística se baseará na teoria de
significado como escolha,
através da qual a linguagem, ou qualquer outro sistema semiótico, é interpretado como
redes de opções entrosadas: ou isto ou aquilo, ou o outro, ou mais como este ou mais
como aquele, assim por diante (Halliday, 1994, p.xiv).
203
A descrição lingüística considerará a estrutura da linguagem como uma opção da
relação entre a semântica e a léxico-gramática1, mostrando-a ancorada como um todo na
realidade de seus usuários (Hasan, 1996, p.105), ou seja, ancorada no contexto de cultura
e no contexto de situação desses usuários. Isto significa que as ocorrências do verbo ‘ser’
serão analisadas em relação ao sistema de significados ligados à função ou à necessidade
social – intenção – a ser desempenhada, pois na GSF, a estrutura “é analisada em termos
funcionais, explicando a parte desempenhada por cada elemento na configuração
orgânica do todo” (Halliday & Matthiessen, 2004, p.33).
Partindo então da perspectiva de linguagem desenvolvida no Capítulo II, o
ambiente teórico em que se insere esta tese exige que se enfoque a linguagem neste
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arcabouço teórico-metodológico para a análise e descrição do verbo ‘ser’, nos artigos de
opinião e editoriais jornalísticos, pois ela desata a reflexividade entre o social e o
semiótico, entre o contexto de situação e a léxico-gramática e fornece as ferramentas para
desembaraçar a realização e o mapeamento de significados no sistema léxico-gramatical.
As habilidades e estratégias comunicativas são abordadas e analisadas tendo como
pano de fundo o contexto sócio-cultural em que ocorrem, pois o texto é criado dentro
desse contexto.
A abordagem escolhida buscará descrever e analisar as realizações lingüísticas do
verbo ‘ser’ no corpus escolhido para esta tese. Eu o farei em termos de combinações de
constituintes gramaticais motivados funcionalmente na gramática e seu uso como
estratégias para a expressão de configurações semânticas particulares, manifestações
discursivas experiênciais, pelas quais os autores comunicam sua visão de mundo..
Desse modo, ao realizar os objetivos gerais a que me proponho, analisarei o verbo
‘ser’, como verbo principal, no material que constitui o corpus – artigos de opinião e
editoriais jornalísticos.
Artigos de opinião e editoriais jornalísticos “possuem particularidades que
acentuam ou distendem procedimentos persuasivos” (Citelli, 2004, p.77). Aqui, estamos
no centro do campo, particularmente, no centro do campo da construção da realidade
1
Vale lembrar que “na GSF, a gramática e o léxico são tratados como perspectivas complementares [...];
elas estão relacionadas em termos de generalidade – o léxico como gramática mais delicada ou a gramática
como léxico menos delicado” (Halliday & Martin, 1993, p.32; Hasan, 1996, p.73-103). A léxico-gramática
é tanto sistêmica quanto estrutural, tanto paradigmática quanto sintagmática.
204
através da troca de significados na interação social. Nossas mentes não refletem a
realidade diretamente. Percebemos o mundo através de redes de convenções, as quais
variam de uma cultura para outra. Essas convenções são transmitidas de gerações a
gerações através da linguagem.
Assim, reitero que as abordagens da LSF e da GSF mostram-se adequadas aos
propósitos desta pesquisa na medida em que o conceito de uso é crucial na definição da
teoria, a concepção de significado oracional abordada por ela favorece a identificação de
relações semânticas realizadas pelo verbo ‘ser’ e também na medida em que sua
descrição funcional tem como base a unidade semântica textual e a unidade de
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significação oracional.
3.2
O Corpus – artigos de opinião e editoriais jornalísticos
O interesse pela narração de fatos confunde-se com a própria história do homem e
do uso da linguagem. Antes mesmo de o homem poder escrever, ele já contava histórias,
haja vista as pinturas nas cavernas que descreviam a vida cotidiana dos homens daquele
tempo. Portanto, desde as narrativas mais antigas até os jornais online da Web estaríamos,
em princípio, testemunhando e desenvolvendo tal interesse. O contar histórias, ficcionais
ou reais, sempre acompanha as culturas e desenvolve-se com elas.
Entre as atividades humanas, nenhuma responde tanto a uma necessidade do
espírito e da vida social quanto os textos jornalísticos, isto porque o jornalismo assume a
condição de intermediário entre a sociedade e os acontecimentos da sociedade, tornandose um dos instrumentos de participação do público na vida social. Pode-se dizer então
que o jornalismo é uma atividade para a construção social da realidade porque ao
construir a realidade no texto, constrói, além da opinião pública, seu próprio referente (os
sujeitos – personagens das notícias, e o objeto – informação propriamente dita).
Os artigos jornalísticos de opinião e os editoriais mostram traços importantes dos
acontecimentos, interpretando-os e mostrando suas relações entre eventos passados e
eventos em andamento. O que acontece é descrito e explicado em termos de seu contexto,
em termos de quando aconteceu e o que aconteceu ao redor dele. Essa contextualização
205
inclui explicar por que tais coisas ocorreram e como ocorreram, através da revelação das
relações específicas que originam para outros eventos.
A interferência dos textos jornalísticos é indiscutível, uma vez que os indivíduos
são produtos das relações sociais estabelecidas e sustentadas por meio do discurso. A
construção social da realidade resulta em implicações na percepção e no conhecimento da
prática política, da vivência das relações de poder e da experiência de cada um. Assim, o
jornal pode ser entendido como um meio de distribuição social do conhecimento que
altera os sistemas sociais e a apreensão da realidade, assim como a interpretação que os
indivíduos fazem dos estados de coisas (Lage, 2004).
Uma simples consulta aos jornais diários mostrará como muitos termos são
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criados para facilitar o entendimento de fenômenos socialmente difíceis de serem
tratados. Desde a escolha das palavras até a organização das frases, passando pela escolha
e disposição dos temas ao longo do texto, percorre-se um caminho de inúmeras
possibilidades.
É, portanto, através da linguagem jornalística que se constroem os sentidos que
operam na formação de identidades individuais e sociais, na produção social de inclusões
e exclusões. Nesse sentido, um jornal, um dos meios fundamentais de expressão do
jornalismo, comporta-se como um complexo sígnico e é, por isso, um espaço privilegiado
de convívio de linguagens. Trata-se de uma mídia portadora de linguagem e finalidades
características, formando, portanto, um gênero discursivo. Nas palavras de Lage (2004,
p.35),
o jornalismo não é, porém, um gênero literário a mais. Enquanto, na literatura, a forma é
compreendida como portadora, em si, de informação estética, em jornalismo a ênfase
desloca-se para os conteúdos, para o que é informado.
Debora Howell, colunista do The Washington Post, em sua coluna de 17/09/2006,
revela que para ela o que mais provoca reações nos leitores são os artigos de opinião do
jornal, e não as matérias noticiosas. Segundo a autora, muitos dos colunistas e jornalistas
que escrevem editoriais são idealistas que querem que seu trabalho contribua para um
mundo melhor. Dessa forma, o trabalho deles tem por objetivo levar os leitores a pensar
de maneira mais crítica, seja para apoiar uma causa ou refletir sobre o que o autor
206
escreveu. Howell qualifica os colunistas e editorialistas ferramentas poderosas para gerar
opinião – para o bem ou para o mal.
As colunas de artigos de opinião e os editoriais são independentes pois nelas seus
autores tentam explicar sua argumentação para o que acham que é bom para o país,
cidade ou região em determinado assunto, instigando, dessa forma, os leitores e até seus
editores a sentirem-se estimulados e provocados pelo que escrevem. Suas observações
sobre os fatos são baseadas em apurações, e não apenas em sua opinião.
É assim que se dá a interação dialógica entre o texto jornalístico e o leitor que ao
lê-lo credita-lhe a função de dizer-lhe o que é verdade e o que não é, o que está certo e o
que não está. É dessa forma que o leitor participa da construção de sentido do texto,
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utilizando-se de valores ideológicos do grupo a que pertence, assim como de suas
experiências de vida.
A credibilidade do leitor no jornal de sua preferência é requisito básico para que
ele lhe delegue a incumbência de opinar, e para que haja entre ambos uma relação de
cumplicidade. Um jornal é capaz de criar no espírito do público o clima necessário para o
efeito que pretende causar. O jornal, ao apresentar fatos positivos ou negativos a respeito
de idéias, de instituições ou de indivíduos, através das escolhas lingüísticas que faz,
exerce uma forte influência sobre a opinião pública.
Nesse sentido, os textos jornalísticos de opinião e os editoriais, como expressão
do discurso de membros da sociedade, não podem ser vislumbrados como elementos
isolados, mas como elementos interacionais que influenciam e são influenciados pelo
discurso semiótico social como um todo. Isto porque a subjetividade é uma característica
inerente da atividade da linguagem que não se restringe à recepção apenas, mas que está
presente na produção de toda construção discursiva, realizada sempre por um sujeito
interessado em alcançar determinados fins.
Além disso, vale ressaltar que “um texto é uma unidade da linguagem em uso. [...]
207
Dessa forma, os artigos de opinião e os editoriais assumem um papel
significativo, pois ao criar realidade, explicando o que acontece, e ao ser a imagem do
poder da opinião pública, levam os sujeitos sociais a tomar partido, a alterar os rumos de
atuação com relação às instâncias políticas, as quais constituem o verdadeiro destinatário
dos artigos de opinião, que apresentam um discurso persuasivo, e de alguma forma
eficaz.
É por isso que os artigos de opinião e os editoriais apresentam um poder
performativo pois constituem entidades que criam e re-criam o real, através dos discursos
que produzem, os quais mobilizam e convocam à ação. Numa perspectiva social, o
discurso de opinião constitui-se no nível lingüístico como uma pluralidade de modos de
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significação, re-escrevendo o discurso social ao constituir-se como discurso terceiro,
transportando para a estrutura da linguagem dimensões do seu uso, contribuindo para o
acompanhamento das mudanças sociais com as quais se confunde.
Segundo Pereira & Bastos (1995, p. 27-47), “O artigo é um tipo de texto comum
ao discurso jornalístico”, produzido em contexto social e que lida
com a apresentação de declarações e com argumentos que sustentam as declarações.
Artigos são assinados, o autor do texto é, portanto, socialmente responsável pelas idéias e
posições veiculadas. O fato de uma pessoa poder ser autor de um artigo significa que
esta pessoa tem voz/poder na comunidade; é um profissional devidamente legitimado
para tal finalidade.
É nesse sentido que o jornal funciona como mediador sócio-cultural, através da
opinião, onde o poder evocativo da linguagem jornalística cria a realidade, na medida em
que condiciona a apreensão e compreensão dos fatos de opinião pública.
Essa possibilidade remete-nos para o poder do jornalismo que se traduz na
reavaliação do poder dos grupos, ao fixarem a forma como devemos pensar e os temas
sobre os quais devemos pensar. Isto explica-se pelo fato de que as pessoas tendem a
orientar suas opiniões por aquelas que elas crêem serem dominantes, o que verifica-se
estar ligado à influência mediática da comunicação jornalística.
Os editoriais possuem particularidades que acentuam procedimentos persuasivos.
Eles têm o status de um avaliador informal (opinante) de desempenho social, ao passo
que os seus principais interlocutores (Governos, representantes classistas e organismos
208
instituicionais ou civis) são os agentes sociais de gerenciamento de instituições diversas
cuja atuação é avaliada.
Os jornalistas estão, portanto, envolvidos na unificação dos eventos, isto é, em um
processo para explicar os eventos à luz de sua relação com cada um desses eventos e com
o processo como um todo.
Nesse sentido, uma análise da transitividade da oração que apresenta o verbo ‘ser’
como processo relacional pode refletir a tendência persuasiva desse tipo de discurso, pois
pode iluminar os participantes envolvidos e nos dizer se eles são indivíduos ou eventos,
condições, processos etc. Pode-se verificar também se os autores estão envolvidos mais
na descrição como um meio de explicação ou se usam mais ligações causa/efeito através
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do processo e a conexão que o processo proporciona entre os participantes na oração ou
entre orações.
A análise em termos da transitividade do verbo ‘ser’ aqui proposta é interessante
do ponto de vista da determinação de que aspecto da realidade os autores tematizam e de
que tipo de intenção persuasiva suas escolhas revelam. Isto porque a linguagem ao refletir
a realidade, a desvia, interpreta, reformula, de modo a criar condições para que o leitor
venha a interpretar a realidade sob o mesmo prisma.
O que me parece interessante também aqui é a relação da função do verbo ‘ser’
com o texto todo. Em Português, o verbo pode ser colocado na posição temática, o que
enfatiza a idéia de que os autores têm opções com relação a qual parte do componente
experiencial do sistema de transitividade escolhem para colocar na posição temática.
Segundo Martin (1993, p.204), há diferenças entre os tipos de texto e seus
processos. Ele ressalta que “o senso comum, como conhecimento especializado, faz uso
de grupos nominais e orações relacionais para classificar a experiência”. A gramática dos
relatórios em ciência, que apresenta classificação e descrição, depende mais das orações
relacionais. A diferença entre taxonomias do senso comum e as taxonomias
especializadas é que a classificação do senso comum está baseada no que pode ser
diretamente observado com os sentidos.
Como relatório, Martin entende como o mundo é organizado na escrita técnica, e
como explicação, por que ele é organizado dessa forma. A diferença principal
estabelecida pelo autor é a de que os “relatórios enfocam coisas enquanto as explicações
209
enfocam processos”. Os relatórios são comumente usados para estabelecer relações entre
as partes e o todo.
Ainda segundo Martin (1993, p.219), “as definições são um tipo especial de
oração relacional que na realidade traduz o senso comum em conhecimento
especializado”. O texto codifica a realidade em um conjunto de relações entre coisas e
o efeito da abstração na gramática de um texto é para colocar em primeiro plano as
orações relacionais em detrimento das materiais e para, ao mesmo tempo, colocar em
primeiro plano os grupos nominais em detrimento dos complexos oracionais (Martin,
1993, p.219).
Os textos selecionados para compôr o corpus são chamados de textos de Opinião2
e Editoriais3 jornalísticos. Aqui cabe uma apresentação sobre a distinção que Shi-xu
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(2000) faz ao investigar a natureza paradoxial do texto de opinião.
O autor inicia o artigo com a definição filosófica ortodoxa de Hermans (1991;
Weddle, 1988) sobre ‘opinião’, isto é, trata-se de “uma crença mental e subjetiva em
oposição a um fato objetivo”. Em seguida, Shi-xu apresenta mais algumas noções como a
noção científica-cognitiva-psicológica nos tempos modernos, segundo a qual “a opinião é
um mecanismo cognitivo (às vezes chamado ‘atitude’ ou ‘crença avaliativa’) que
influencia o comportamento” (Allport, 1935;Eiser & Van der Plight, 1988).
A partir de então, o autor conclui que o termo tem sua definição circunscrita no
âmbito do discurso pessoal-avaliativo e, portanto, para ele a opinião “é um tipo distinto,
ou uma dimensão mais precisa, de discurso no qual os indivíduos ou grupos apresentam
uma crença mental, subjetiva e pessoal” que para Shi-xu é ‘discurso de opinião’ ou
‘discurso opinativo’ (2000, p.264), o que significa dizer que trata-se de um processo de
construção de significado na interação discursiva, sendo também um componente
significativo dessa interação.
Um dos objetivos de seu artigo é explorar algumas peculiaridades, complexidades
e paradoxos do discurso opinativo. Entre elas o fato de que se a opinião é uma dimensão
2
Os Editoriais são textos de um jornal em que o conteúdo expressa a opinião da imprensa, da direção ou da
equipe de redação, sem a obrigação de se ater a nenhuma imparcialidade ou objetividade. Geralmente,
grandes jornais reservam um espaço predeterminado para os editoriais em duas ou mais colunas logo nas
primeiras páginas internas. Os boxes (quadros) dos editoriais são normalmente demarcados com uma borda
ou tipologia diferente para marcar claramente que aquele texto é opinativo, e não informativo. Editoriais
são artigos de opinião (normalmente curtos) escritos pelo conselho editorial do periódico. Eles refletem a
posição do periódico e não são assinados. (Wikipédia).
210
da linguagem e da interação social, “então como ele [o discurso opinativo] pode ser
conectado ao outro social, especialmente àqueles que têm as mesmas idéias, mas também
idéias diferentes?”. Acrescido a esta investigação, o autor apresenta um outro
questionamento sobre a opinião, considerando que “se a opinião também é uma estratégia
discursiva, então de que maneiras ela está relacionada com o agente ou o ‘eu’ discursivo?
Para realizar os objetivos acima, Shi-xu descreve um modelo teórico no qual as
noções de linguagem e mente são ressaltadas. Ao final do artigo, há uma noção proposta
pelo autor de três conjuntos diversos de dados, realizada empiricamente que apresento a
seguir.
Para o autor, as opiniões formam-se e funcionam no contexto social e cultural,
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revelando os problemas sociais-interacionais de manter e dar opiniões. Ao revelar a
relação entre os indivíduos e as opiniões sociais no discurso, há um aumento de nossa
conscientização das forças sociais, culturais e institucionais que subjazem ao discurso de
opinião.
Os artigos jornalísticos de opinão e os editoriais definem-se e pronunciam-se por
apresentarem relações de consenso e conflito, refletindo, sobretudo, uma parte da relação
de poder, desvelando e explorando sentimentos de desconforto ou desagrado com a
autoridade política, resultando em um discurso de conflito e de persuasão.
O que define o discurso polêmico é que o conjunto de suas propriedades
semânticas, enunciativas e argumentativas encontra-se a serviço do objetivo de
desqualificar o objeto que constitui o seu alvo. Essa identificação é dada com a rubrica
própria dos jornais onde os textos aparecem com o título: ‘Opinião’ e ‘Editoriais’.
A linguagem nos artigos de opinião e nos editoriais não é apenas um campo de
ação, mas a sua dimensão constitutiva, através da qual a realidade é construída, uma
realidade mediatizada, sem a qual dificilmente formaria-se a opinião pública.
Ao afirmar que os textos jornalísticos de opinião desempenham o papel de
mediadores, quero dizer que eles aproximam, provocam diálogos entre os poderes
públicos e os leitores – membros da sociedade. O processo de construção da realidade é,
portanto, dinâmico, pois não se encontra pronto, independente do sujeito social. A
sociedade pensa, redefine e reconstrói seus modos de agir, novas ligações com o social,
211
novas realidades. Tudo isso mediado pela linguagem, e neste caso específico, pela
linguagem jornalística, nos artigos de opinião e nos editoriais.
O discurso de opinião no jornal e a discussão que provoca realizam diversas
funções de mediação cultural, de re-criação do real, de intervenção na vida social e
política do país e de consagração de líderes de opinião. O jornal funciona como mediador
cultural, porque torna o espaço público mediatizado. Através da opinião expressa nos
artigos4, é criado um efeito do real e é esse poder evocativo da linguagem que constrói a
realidade.
A noção de que esses discursos construídos no social servem como meios através
dos quais as ideologias são comunicadas na sociedade é corroborado por Van Dijk (2000,
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p.25), quando afirma serem os discursos aqueles que “ajudam a reproduzir o poder e a
dominação dos grupos ou classes específicos”.
Em textos com uma estrutura que envolve argumentos como os jornalísticos aqui
analisados, verifica-se uma estrutura constituinte característica na qual tipos esperados de
informações são apresentados de uma forma convencionalmente acordada, constituindo
um padrão de Temas oracionais. Isso porque os colunistas valem-se de maior liberdade
para escrever suas matérias, comentando e avaliando os fatos, com a intenção de
construir um quadro da realidade para seus leitores para que eles venham a obter uma
maior compreensão dos eventos históricos, dos processos sociais, das mudanças sociais
etc.
Vale ressaltar que a linguagem é um sistema de produção de significados, o que
nos permite afirmar que o discurso não é neutro, a linguagem não é só a representação da
realidade. Portanto, uma vez que os discursos persuasivos objetivam a formação e a
conformação de pontos de vista e perspectivas colocadas em movimento por
falantes/escritores, os artigos jornalísticos de opinião e editoriais apresentam uma
linguagem persuasiva, isto é, a construção do texto visa a convencer o leitor sobre
determinada realidade, o que poderá ser verificado nas escolhas léxico-gramaticais
realizadas pelos autores.
4
Segundo Pereira & Bastos (1995, p.27-47), “artigos são textos planejados para um público leitor definido,
no sentido de que são construídos em consideração direta pelo receptor, diferente de textos literários.
Artigos são textos escritos, publicados em jornais e revistas; são também textos breves, quando comparados
a outros gêneros textuais de cada área de discurso.”
212
O indivíduo, por estar inserido em uma sociedade, sofre influências dela e das
experiências que vive. Assim, todo o discurso sofre influências ideológicas do próprio
autor, do interlocutor e do contexto discursivo em que se manifesta, pois segundo
Halliday & Martin (1993, p.10),
a história humana é muito mais uma história da atividade semiótica do que da atividade
sócio-econômica. A experiência é reconstruída continuamente durante a evolução das
sociedades; tal reconstrução não só é uma condição necessária para a sua evolução, como
também uma parte integrante dela.
As questões da ideologia estão presentes na linguagem jornalística, porque não se
faz jornalismo fora da sociedade. E como nos diz Bakhtin,
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um produto ideológico faz parte de uma realidade (natural ou social) como todo corpo
físico, instrumento de produção ou produto de consumo; mas, ao contrário destes, ele
também reflete e refrata uma outra realidade, que lhe é exterior (Bakhtin, 1979, p.17).
E, se a vida social e política rege-se por relações de consenso e conflito, também
o jornal define-se e pronuncia-se nesses termos, resultando daí a presença do discurso
polêmico, enquanto discurso do conflito e da persuasão, o que em sentido amplo, pode
ser atribuído como característica de todo o uso da linguagem. É nesse sentido que podese afirmar que o uso da linguagem em artigos de opinião e editoriais não é ingênuo, e os
recentes modos de dizer podem estar escondendo novas formas de organizar a sociedade.
Ao mesmo tempo, a linguagem estabelece relações dinâmicas e complexas que se
materializam nos discursos, que são sentido. Logo, só se poderá explicar por que um
texto significa o que significa, se o relacionarmos com o sistema lingüístico como um
todo, uma vez que entender é construir o sentido de uma forma no contexto em que
aparece.
Constata-se, então, que não existem textos objetivos, mas estratégias discursivas
que constroem tanto o efeito de objetividade como o de subjetividade e o conjunto de
opções lingüísticas utilizadas pelos autores revela os significados criados. Nesse sentido,
o texto jornalístico exerce grande influência sobre a constituição social de uma
determinada comunidade, até porque todo o discurso é carregado de ideologia, e,
portanto, possui uma carga de interferência social (Halliday & Hasan, 1985, p.5-7).
Portanto, pode-se dizer que a linguagem jornalística “transcende o idioma em que
estão escritas as matérias” (Lage, 2004, p.5). Isto quer dizer que os acontecimentos
213
sociais só ganham existência pública se mediados pelos textos jornalísticos, que os
constroem através da produção de sentido e estes definidos somente na relação entre o
artigo e o leitor, que mobiliza estratégias próprias de interpretação a partir de sua cultura,
história de vida, ideologias, desejos etc.
O corpus aqui utilizado, a saber os artigos jornalísticos de opinião e os editoriais,
é apropriado ao estudo desenvolvido nesta tese porque o autor do texto jornalístico, para
exercer de maneira completa a sua função, precisa conhecer as funções e as distorções
possíveis na construção discursiva, para estar em conformidade com o senso comum,
com o saber compartilhado por todos e socialmente aceito. O texto jornalístico configurase numa atividade de produção de sentidos e não numa mera reprodução da realidade
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social. Essa produção de sentidos é orquestrada pela linguagem que não reproduz a
realidade, mas a constrói.
Nesse sentido, o texto jornalístico contribui para a reflexão sobre o meio sóciocultural, pois não é neutro, uma vez que podemos identificar as diferentes escolhas
lingüísticas realizadas para a construção textual empregadas de acordo com intenções e
objetivos diversificados. Essas escolhas são as que resultam na produção dos sentidos,
estes definidos na relação entre o autor do texto e o leitor, pois o leitor precisa mobilizar
sua cognição, seus conhecimentos, valores, culturas, para estabelecer novos sentidos. A
construção dessa realidade é condicionada pelo contexto cultural e social, de forma que o
artigo jornalístico de opinião e os editoriais acabam por ser o lugar em que se constroem
os significados coletivos.
Os artigos jornalísticos aqui analisados e descritos enfocam desde questões
relacionadas com o cenário político imediato, a homenagens a personalidades ou análises
de valores e comportamentos. Seu objetivo é colocar em discussão temas de interesse da
sociedade, de natureza polêmica, em evidência na sociedade. Há artigos que apresentam
denúncia de algum tipo de situação, proposta de soluções para alguns dos problemas que
afligem a sociedade de forma geral etc.
Publicados em destaque na página opinativa, os artigos selecionados configuramse como artigos opinativos, ou seja, artigos jornalísticos nos quais foi definido e
manifestado o ponto de vista oficial dos jornais (de onde foram extraídos) ou pessoais,
quando assinados, sobre os temas e ocorrências de maior repercussão no momento em
214
que foram abordados. Seu caráter é eminentemente persuasivo, pois visam a instigar os
indivíduos e a coletividade em geral, a posicionarem-se e agirem de acordo com o que foi
opinado.
Foi, portanto, essa a motivação que determinou a escolha do corpus – textos
jornalísticos de opinião e editoriais, retirados dos jornais O Globo5 e O Estado de São
Paulo. A opção por tal fonte de dados deve-se ao fato de que esses jornais nacionais
apresentam-se como o local estratégico da constituição do discurso político-social por
serem de grande divulgação em cidades como o Rio de Janeiro, capital e interior e São
Paulo, capital e interior. São jornais tradicionais em ambas as cidades como também no
interior, voltados para as camadas mais cultas da população, podendo ser, portanto,
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considerados representativos do português brasileiro padrão.
As colunas escolhidas para a extração dos textos foram os Editoriais e as colunas
de Opinião, colunas que dão voz aos diversos porta-vozes e líderes de opinião mais ou
menos formalmente instituídos, cuja estrutura narrativa, com seus múltiplos enunciados e
sentidos manifestados, revela um uso de linguagem argumentativo, ou seja, são expressas
opiniões.
Garcia (1995, p.370-371) afirma que a argumentação visa, sobretudo, a
convencer, persuadir ou influenciar o leitor ou ouvinte. Segundo o autor, além de
expressar opinião sobre o que é ou parece ser, na argumentação, procura-se
principalmente formar a opinião do leitor ou ouvinte, tentando convencê-lo de que a
razão está conosco, de que nós é que estamos de posse da verdade.
Para Pereira & Bastos (1995, p.27-47), no artigo jornalístico “o autor procura
construir algum tipo de identificação e cumplicidade com seu leitor”. Essa intenção busca
estabelecer uma ligação com o leitor mediante valores que o autor compartilha referente a
alguma situação da realidade, para despertar emoções. Para tal, faz uso de expressões de
emoção com relação ao fato focalizado e/ou uso do pronome nós que adiciona a voz do
autor à voz do leitor. Nos textos jornalísticos, “a argumentação é vinculada aos fatos e ao
senso comum, havendo mais espaço para a argumentação de cunho emocional” (Pereira
& Bastos, ibid., p.27-47).
5
O jornal O Globo é lido por mais de 4 milhões de leitores só no Estado do Rio de Janeiro. (Dados
divulgados no próprio jornal, em propaganda de pé de página).
215
Por argumentar entendo convencer ou tentar convencer mediante a apresentação
de razões, diante da evidência das provas e à luz de um raciocínio coerente e consistente.
Incluindo também considerar o outro como capaz de reagir e de interagir diante das
propostas e teses que lhe são apresentadas. A argumentação deve ser construtiva na sua
finalidade, cooperativa em espírito e socialmente útil (Garcia, 1995, p.370).
Sendo a linguagem concebida como o lugar da interação, a interação através
desses artigos tem como objetivo efeitos que o autor pretende causar no leitor, isto é, o
autor pretende atuar sobre o leitor para obter dele determinadas reações. Isso nos revela
que o elemento persuasivo6 está no discurso e que há graus de persuasão, alguns mais
visíveis. Para este fim, a proposição deve ser, de preferência afirmativa e específica para
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permitir que o leitor tome uma posição favorável ou não.
Nessa perspectiva, a linguagem está a serviço na vida das pessoas e segundo
Halliday & Matthiessen (2004, p.30), “toda a mensagem é tanto sobre algo quanto
dirigida a alguém”, portanto, pode-se afirmar que a linguagem textual jornalística é
dirigida aos leitores com fins à formação de opinião, gerando, por vezes, conceitos e
atitudes no leitor, influenciando na formação da opinião pública, enfim, construindo
significado.
A opinião pública forma-se e conforma-se na leitura de fatos e versões
construídos a partir dos tipos jornalísticos e, nesse processo, de produção de informação a
mensagem é plena de sentidos. Portanto, o discurso não é neutro, pois todo o texto
apresenta uma carga de significação implícita a ser recuperada pelo leitor, por ocasião da
atividade de produção de significados diretamente vinculada a seu contexto.
As colunas do tipo Editoriais e do tipo Opinião evocam implicitamente outros
discursos, diferenças de pontos de vista, de objetivos, de visões de mundo, pois estão
inseridos no contexto de situação e no contexto de cultura, os quais determinam o texto
pois “constroem o ambiente não-verbal de um texto” (Halliday & Hasan, 1985, p.47).
Essa relação entre texto e contexto é uma relação de troca de significados, ou seja, uma
relação dialética, um processo criativo no qual a linguagem é um dos recursos
6
Por persuação entendo, sobretudo, a busca de adesão a uma tese, perspectiva, entendimento, evidenciado a
partir de um ponto de vista que deseja convencer alguém sobre a validade do que se está apresentando. “O
ato de persuadir procura atingir a vontade, o sentimento dos interlocutor(es), por meio de argumentos
plausíveis ou verossímeis e tem caráter ideológico, subjetivo, temporal, dirigindo-se, pois a um ‘auditório
particular’” (Kock, 2004, p.18).
216
simbólicos, um ‘potencial de significados compartilhados’7, e o “significado surge da
fricção entre os dois” (Halliday & Hasan, 1985, p.47).
Nesses artigos, os fatos são arrolados, os eventos indicados, pretende-se dizer
tudo quanto ilustra o assunto ou prove que o fato se deu, que constitui um dano ou uma
injustiça, ou seja, que ele tem a importância que o autor lhe atribui. Há uma organização
discursiva que constrói os mecanismos persuasivos do discurso. Por vezes, a
argumentação é realizada com tal grau de fechamento que não resta ao leitor qualquer
dúvida quanto à verdade do autor. Um exemplo desse tipo de fechamento é o uso do
verbo ‘ser’, o qual torna indiscutível o enunciado. O leitor fica, por vezes, impedido de
esboçar qualquer questionamento. É um raciocínio fechado em si mesmo que não dá
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margem a discussão. Vejamos um exemplo a título de ilustração:
Artigo 61: “Reale aos 95”, publicado no jornal O Estado de S.Paulo, por Celso
Lafer – 930 palavras – 14 ocorrências do verbo ‘ser’.
“Em novembro, o professor Miguel Reale completará 95 anos. É um aniversário
para ser comemorado”.
[...]
“O poder, como diz Bobbio, é um tema que juristas e cientistas políticos
compartilham, mas a cujo respeito, regra geral, se ignoram, uns aos outros”.
Segundo Garcia (1995, p.371), a argumentação consiste de dois elementos
principais: a consistência do raciocínio e a evidência das provas ou o critério de verdade,
como certeza manifesta. O objeto em questão é considerado como um todo de
significação, assumindo como referência central a noção de competência de
comunicação,
tomada como um complexo heterogêneo de recursos dominados pelos falantes para a
produção e a recepção-interpretação de discursos – recursos esses em que se inscrevem
os estritamente lingüísticos, mas também outros, que com eles entretêm interações fortes,
integrantes de diversos sistemas semióticos.
O artigo será considerado na sua globalidade o lugar onde se entrelaçam relações
entre as suas diversas partes e entre cada uma delas com o todo, reconhecendo o papel da
dimensão enunciativa e do contexto particular em que ocorre. De alguma forma, a própria
7
Por significados compartilhados entende-se que as convenções e práticas lingüísticas que regulam os
contextos de uso da linguagem são estabelecidas pela sociedade.
217
existência desse lugar é justificada pela possibilidade e necessidade de conflito. Para se
afirmar, o discurso de cada autor deve procurar e conquistar o seu lugar no seio do
discurso social, procurando sobrepôr-se a outros.
Mesmo que sejam referidos aspectos positivos do alvo, tal fato estará a serviço de
uma estratégia argumentativa que terá sempre por fim a sua desqualificação, assim como
a construção de uma imagem de imparcialidade e justiça para o autor. Para que o autor
possa de alguma forma influenciar o leitor, este deve estar disposto a conceder algum
crédito. O autor procurará recorrer a argumentos para ganhar a adesão voluntária de seu
leitor.
Os artigos aqui analisados giram em torno de assuntos de política nacional e/ou
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econômica, assuntos de interesse social geral e religiosos, de um determinado período,
sendo um elemento de significação por estabelecer ligação entre o escrito e o universo de
conhecimentos compartilhados pelo leitor. O leitor, por sua vez, identificará o assunto
tratado nos artigos de Opinião e nos Editoriais por tratarem-se de artigos referentes a um
passado recente e por atualizarem os acontecimentos e, eventualmente, orientarem as
repercusões diretas de um futuro próximo.
Os artigos de Opinião e os Editoriais baseiam-se na realidade, nos acontecimentos
reais externos ao texto para, a partir deles, tecerem comentários, explicarem causas,
relações e conseqüências, criarem casos políticos. Vale ressaltar que para que esse
discurso persuasivo seja reconhecido e aceito pelo leitor, algum tipo de autoridade,
decorrente de uma posição de sensatez e de justiça deve permear a relação interativa
autor-leitor.
O autor do artigo deve evocar aquilo que, aos olhos da opinião pública, é
razoável, evidente, necessário etc.. O objetivo do discurso persuasivo é induzir a classe
dirigente a determinada ação, tendo como propagador de seu discurso o público leitor,
sabendo que atingirá diretamente os políticos, enquanto dependentes do julgamento
público sobre o seu desempenho.
Toda a argumentação consiste, em essência, numa declaração seguida de prova
(fatos, razões, evidências). Embora a discussão aprofundada sobre a estrutura narrativa de
textos argumentativos fuja ao propósito desta tese, apresento um pequeno resumo do
exposto em Garcia (1995, p.375-381).
218
O autor apresenta o plano padrão da argumentação em estágios. O primeiro trata
da proposição: a declaração, tese, opinião, seguida de uma concordância parcial, ou seja,
o autor da argumentação reconhece o ponto de vista do outro em certos casos. Garcia usa
o termo concordância parcial por entender que existe sempre um outro lado dependendo
se se partir de um ponto de vista geral ou particular. Para este propósito, verificam-se
enunciados introduzidos por estruturas como: é verdade, é certo, é evidente, é possível, é
discutível etc. Essas estruturas introdutórias apresentam como função a indicação da
extensão da concordância com o que está declarado antes e a preparação do espírito do
leitor para a contestação ou discordância que se seguirá.
O segundo estágio refere-se à formulação dos argumentos onde o autor do artigo
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apresenta as provas ou as razões que são o suporte de suas idéias. A ordem deve ser
gradativa e crescente. O último estágio refere-se à conclusão. Não se trata de um resumo
ou recapitulação, mas de esclarecer a essência da proposição.
Em resumo, o texto argumentativo deve tratar de uma só matéria, a qual deve ser
comprovada com citações de outros exemplos que constituirão o argumento da
autoridade. Deve ter argumentação lógica, com exemplificação de dados da realidade
observável que dão peso a afirmações corretas, e refutar os argumentos contrários. O
texto argumentativo deve explicitar a tese a ser defendida, apresentando os argumentos
que a confirmam, os contra-argumentos que a negam, exemplos e conclusões de forma
direta e categórica.
Dessa forma, desaparecem as dúvidas, predominando a posição adotada pelo
autor. Para este fim, na introdução do artigo, os autores utilizam informações de impacto,
como forma de apelo à atenção do leitor, de forma emocional. Na conclusão, os autores
também fazem uso de apelo emocional.
Por fim, baseada no acima exposto, justifico a utilização de artigos jornalísticos
de Opinião e os Editoriais como corpus para a análise e descrição das instanciações do
verbo ‘ser’ à luz da LSF e da GSF, por serem artigos que se referem a uma instância da
linguagem que faz sentido para aqueles que a concebem como ação. Isto porque ao
substituirem as instâncias oficiais, dando voz e acesso direto à opinião pública, aos
políticos eleitos e aos diversos porta-vozes e líderes de opinião mais ou menos
formalmente instituídos, esses artigos constituem-se em discursos que “são ferramentas –
219
eles fazem coisas” (Halliday & Martin, 1993, p.221). Assumem-se como entidades de recriação do real, constituindo, ao nível sócio-político, uma rede de poderes, e ao nível
lingüístico, uma pluralidade de modos de significação, de códigos e de competências,
consagrando os seus agentes como interventores privilegiados na relação do cidadão com
as instâncias do poder, como decodificadores e comentadores dos fatos políticos, ao
mesmo tempo que permitem, reproduzem e ampliam a discussão e a defesa de pontos de
vista.
Essa posição vem ao encontro do que Shi-xu defende com relação aos discursos
opinativos serem “um mecanismo cognitivo” que exercem influência no comportamento
social, uma vez que a mediatização encontra nos grandes jornais nacionais o local
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estratégico da constituição do discurso político-social.
Em virtude do acima exposto, os artigos de opinião e editoriais são aqui
enfocados como instrumentos (Halliday & Matthiessen, 2004, p.3), como prática social
que mobiliza outros sistemas simbólicos além da comunicação lingüística. O que se quer
enfocar aqui é o fato de que a mídia é o lugar privilegiado de criação, reforço e circulação
de sentidos e, nessa perspectiva, os artigos de opinião e os editoriais prestam-se à análise
das formas de linguagem e suas implicações na configuração dos sentidos expressos no
texto.
Isso sintetiza a posição da escolha motivada pelo contexto e pela posição sóciocultural, tendo em vista que a linguagem é a habilidade de ‘significar’ nos tipos de
situação ou contextos sociais que são gerados pela cultura. Quando falo em ‘usos da
linguagem’, estou interessada no potencial de significados que está associado com tipos
de situações particulares e, provavelmente, de forma especial, interessada naqueles que
são de alguma significação social e cultural.
A forma como penso o estudo da linguagem e o homem social, através do
conceito de potencial de significado, levou-me a escolha dos artigos aqui analisados e
descritos, resultando em uma investigação que deve ser vista como sócio-semântica, no
sentido de que é o estudo do significado realizado pelo verbo ‘ser’ em um arcabouço
social ou sociológico (Halliday, 1978, p.34).
220
Dessa forma, os artigos escolhidos para análise fornecem os dados necessários
para que se extrapole a análise sintática convencional, possibilitando observar diferentes
tipos de criação de significado, presentes em uma interação.
Vale ressaltar que embora o processo seja o foco deste estudo, os participantes
também serão identificados, pois o tipo de processo determina as funções distribuídas nos
papéis de participantes. Chamo a atenção também para o fato de que a análise funcional a
que me proponho aqui não destina-se à troca de rótulos; os rótulos refletem uma
interpretação semântica e gramatical de um texto, ou seja, são “rótulos que indicam o
papel desempenhado por cada elemento da representação” (Thompson, 2004, p.87).
A imputação de rótulos servirá apenas para ilustração e para mostrar as funções
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de participante nos Tema e Rema das orações, uma vez que serão analisados os
elementos que ocupam a posição temática.
3.3
A elaboração da análise
Foram utilizados artigos das colunas de ‘Editoriais’ e de ‘Opinião’ do jornal O
Estado de S.Paulo, e das colunas assinadas do jornal O Globo, num total de 70 artigos,
ambos online, selecionados aleatoriamente, entre 1 de setembro de 2005 a 30 de outubro
de 2005. Desse total, 32 textos são do jornal O Globo online e 38 do jornal O Estado de
S.Paulo online. A preferência por artigos retirados dos jornais online deve-se ao fato da
facilidade de já estarem digitados e, portanto, poderem ser utilizados por ferramentas
computacionais de análise lingüística. De outra forma, seria necessário digitá-los ou
convertê-los para o formato eletrônico através de scanning. Apenas como informação
adicional, os artigos publicados online são absolutamente os mesmos publicados nos
jornais impressos.
O corpus é composto de uma coleção de artigos que representam uma mostra do
uso da linguagem escrita, totalizando 53.782 palavras, das quais 24.929 palavras nos
artigos do jornal O Globo e 28.853 palavras nos artigos do jornal O Estado de S. Paulo.
Cada artigo apresentou uma média de 700 palavras.
221
Os artigos selecionados no jornal O Globo foram extraídos das colunas que
apresentam a fotografia do autor, são assinados e destacados em um box (quadro),
distribuídos em páginas diversas do jornal, dependendo do assunto de que tratavam.
Os autores dos artigos são jornalistas que compõem o quadro de funcionários dos
jornais ou personalidades com destaque na vida pública – políticos, religiosos etc – e
também intelectuais, especialistas que são reconhecidos por outras instituições e
legitimados pela imprensa. Dentre eles, destacam-se os jornalistas Ali Kamel, Tereza
Cruvinel, George Vidor, entre outros. Três textos selecionados foram escritos por Don
Eugênio Sales, que escreve como colaborador do jornal e não como funcionário. Os
artigos assinados encontram-se na página ao lado dos editoriais na versão impressa. Tais
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artigos expressam as opiniões de seus autores, não as do periódico.
Os textos extraídos do jornal O Estado de S.Paulo totalizam 37 artigos, dos quais
24 publicados na coluna intitulada “Notas e Informações” 8, coluna esta que expressa a
opinião dos editores do periódico, e 14 assinados por colaboradores do jornal publicados
na coluna “Opinião”.
A escolha também levou em conta o fato de que os autores dos artigos
selecionados são nativos do português, evitando-se artigos que poderiam ter sido
traduzidos e, dessa forma, poderiam criar variáveis para a análise. Não houve
preocupação em evitar artigos que contivessem poucas ocorrências do verbo ‘ser’, porque
observei que a menor quantidade de ocorrências foi de 5 em quatro artigos. É importante
informar que não houve necessidade de autorização para o uso, divulgação e reprodução
de tais artigos, uma vez que eles estão disponibilizados na internet para domínio público,
por constituírem artigos de divulgação.
A análise realizada não enfatiza aspectos quantitativos. No entanto, uma primeira
observação vale ser registrada quanto à ocorrência do verbo ‘ser’. Foram coletas 419
ocorrências, nos artigos analisados do jornal O Globo e 463 ocorrências nos artigos
analisados do jornal O Estado de S.Paulo, independente do tempo verbal em que estavam
8
A mais antiga de todas as seções, conhecida como ‘Notas e Informações’, sempre localizada na página 3,
manteve a tradicional postura do jornal de unir, em seus editoriais, conservadorismo político e liberalismo
econômico, sendo uma das colunas mais emblemáticas de O Estado de São Paulo, identificado com o
pensamento de direita no Brasil. Entretanto, ultimamente, o jornal vem tomando posições liberais também
no âmbito social e político, como a defesa em editorial da legalização do aborto no Brasil e as críticas ao
presidente dos EUA George W. Bush. (Wikipédia).
222
sendo usadas, no conjunto de todos os textos jornalísticos argumentativos selecionados
para esta análise. Vale a pena ressaltar que foram extraídas apenas as ocorrências em que
o verbo ‘ser’ se apresentou como verbo principal, ou seja, ficaram de fora da análise as
ocorrências de voz passiva, onde o verbo ‘ser’ é auxiliar, expressões do tipo, isto é, ou
seja, e o uso do expletivo é que.
Embora todos os 70 artigos tenham sido analisados e descritos, na tese foram
selecionados apenas 13 para apresentação da análise e descrição em função da
necessidade de um exame mais detalhado do contexto situacional e cultural de cada texto,
o que tornaria impraticável fazê-lo com o total de textos.
Em compensação, pude observar mais detidamente características genéricas
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comuns aos artigos de opinião e editoriais jornalísticos de fontes jornalísticas diferentes.
Os 13 exemplos escolhidos ilustram com maior riqueza de detalhes a minha contribuição
de um novo olhar para a análise e descrição do uso do verbo ‘ser’, à luz da LSF e da GSF.
3.3.1
A extração dos dados
Os dados foram extraídos através da utilização da ferramenta Corpógrafo. Tratase de uma plataforma destinada à análise e ao trabalho sobre corpora com o objetivo de
produzir diversos recursos lingüísticos. Esta ferramenta apoia os pesquisadores da língua
portuguesa num conjunto de tarefas que vão desde a compilação de corpora, à extração e
organização do conhecimento gerado a partir deles. O Corpógrafo ainda está em
desenvolvimento, portanto apresenta algumas restrições, mas quando o usei já pude
realizar algumas tarefas interessantes, como upload dos artigos, seleção das ocorrências
do verbo ‘ser’, compilação e organização do corpus, o que possibilitou que eu os
estudasse.
O Corpógrafo é uma ferramenta disponibilizada na internet, portanto, sem ônus
para o pesquisador, através do site www.linguateca.pt. Há apenas que se solicitar o
cadastramento e passa-se a usá-lo sem restrições.
(a) critérios externos – características extra-lingüísticas
223
Os artigos selecionados para a análise e descrição nesta tese apresentam
características tais como: são textos escritos em português cujos autores, como dito acima
são jornalistas ou colaboradores do jornal tais como professores, sociólogos, todos
nativos do português.
(b) critérios internos – características essencialmente lingüísticas
Tais artigos enquadram-se no gênero jornalístico. São artigos opinativos, alguns
assinados, sendo que os não-assinados são os das colunas dos Editoriais. A combinação
dos dois critérios, externos e internos, demonstra que os textos estão em relação estreita
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com o contexto de situação, refletindo, portanto, o objetivo desta tese.
3.3.2
Procedimentos da análise e descrição dos dados
Dos 70 textos, extraí todas as ocorrências do verbo ‘ser’ em todos os tempos
verbais, na voz ativa. Após selecionar as ocorrências, verifiquei que as mesmas
apresentavam-se da seguinte forma:
1 – em estruturas P1-V-P2 (Participante1-Verbo-Participante2);
2 – em estruturas V-P1-P2 (Verbo-Participante1-Participante2); e
3 – em estruturas V-P2 (Verbo-Participante2).
Ao analisar e descrever essas ocorrências, separei-as em outros dois grupos: as
que se apresentavam como P1-V-P2, e as que se apresentavam como V-P1-P2 e V-P2.
Parti da hipótese de que essas estruturas constituíam o resultado das escolhas dos
autores – “o que as pessoas significam” – cada uma das quais correspondente a um feixe
específico de traços semânticos que as singularizavam em relação às demais opções
disponíveis – “o que as pessoas podem significar” – para o falante de português
(Halliday, 1978, p.114). As ocorrências selecionadas foram assim analisadas em seus
respectivos co-textos, com base no Sistema de Transitividade da Metafunção Ideacional,
o qual enfoca a escolha dos processos verbais juntamente com a escolha dos participantes
desses mesmos processos, escolhas essas que refletem as representações de mundo de um
falante.
224
O relato nos textos jornalísticos de opinião e nos editoriais está fortemente
condicionado pelo que a LSF nomeia de significados ideacionais, por aqueles
significados através dos quais a linguagem constrói uma representação da realidade
externa. Trata-se de um constructo essencialmente ideacional, o qual dita os termos do
relato. O texto organiza o fluxo de significados ideacionais, assim como os valores
interpessoais associados, no tempo experiencial.
Dirigi meu interesse então à “expressão do conteúdo de acordo com a experiência
do falante inserido em uma comunidade de fala” (Halliday, 1973, p.37), pois entendo que
a Metafunção Ideacional está relacionada com a natureza do evento social. Passei a
verificar que tipo de significado a escolha pelo uso do verbo ‘ser’ construía e a que
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funções tal escolha estava a serviço. As funções seriam as motivações que possivelmente
subjazem à escolha do autor, uma vez que os artigos jornalísticos representam uma
matéria-prima para a reflexão sobre o meio sócio-cultural, sobre as diferentes estratégias
de construção textual empregadas de acordo com intenções e objetivos diversificados,
tudo permeado pela linguagem. A leitura dos artigos realizada por mim visou a atribuição
de um sentido ao texto e não a extração do sentido do texto, pois como nos diz Shi-xu
(2000, p.264),
[...]a opinião é um tipo distinto, ou uma dimensão mais precisa, de discurso no qual os
indivíduos ou grupos representam uma crença mental, subjetiva e pessoal; denomine-a
‘discurso de opinião’, ou ‘discurso opinativo’. Como tal, é um processo de criação de
significado na interação discursiva e um componente significativo dela.
Escolhi os artigos que apresentavam estruturas que apareciam, por vezes, mais de
uma vez, para que a amostragem pudesse ser mais representativa e para evitar uma
exemplificação muito extensa. Nesse sentido, a análise começa com alguns exemplos
mais expressivos das ocorrências P1-V-P2, seguindo-se a elas as ocorrências V-P1-P2 e
V-P2. Foram transcritos apenas os parágrafos em que tais ocorrências apareciam, sendo
que, nas que iniciavam parágrafos, por vezes, foi necessário transcrever o parágrafo
anterior para que não houvesse prejuízo na interpretação do artigo. Em algumas
transcrições, o leitor encontrará o símbolo [...], o qual significa que houve omissão de
algum ou alguns parágrafos, sem, no entanto, causar prejuízo à leitura e à compreensão
da mensagem.
225
Pude observar que os artigos de opinião e os editoriais na imprensa escrita
apresentam regularidades sistematizáveis no nível textual/discursivo, no que se refere ao
uso do verbo ‘ser’. Dessa forma, uma análise e descrição à luz da LSF e da GSF permitiu
que eu levantasse hipóteses a respeito das intenções e motivações que geraram uma
escolha léxico-gramatical em detrimento de outra, em um contexto sócio-cultural
específico, já que, em última análise, a linguagem está a serviço das funções a serem
desempenhadas e significadas pelo indivíduo em seu contexto social (Halliday, 1973,
p.22).
Além disso, por estar privilegiando aspectos do significado, em um contexto de
análise sistêmico-funcional, a leitura pode levar a uma interpretação subjetiva e com
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relação a tal, gostaria de acrescentar aqui a visão de Halliday & Matthiessen (1999,
p.504) ao que se refere à descrição de um sistema semiótico que vem ao encontro do que
acabo de dizer. Para os autores, “não há uma ‘única descrição correta’ de um sistema
semiótico, ou de qualquer fenômeno que tenha a ver com significado”. Acredito que essa
afirmação revela que ao dirigirmos nossa atenção para a análise e descrição de um
determinado fenômeno lingüístico, ou seja,
226
1. O campo do discurso:
Como já mencionado, os artigos de opinião e os editoriais jornalísticos gravitam
em torno das manifestações sobre assuntos sócio-políticos, encaminhamento de propostas
políticas, posicionamento dos governos federal e estadual, desempenho dos governantes
etc.
2. As relações do discurso:
Interactantes envolvidos: dirigentes da nação e de organismos governamentais ou
não, representantes do governo e a população em geral.
Em todos os artigos analisados, os jornais têm o status de um avaliador informal
(opinante) de desempenho social, ao passo que os seus interlocutores (acima descritos)
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são os agentes sociais de gerenciamento de instituições diversas cuja atuação é avaliada.
E os papéis interacionais exercidos pelos actantes constituem uma díade hierárquica, já
que os primeiros têm um certo poder sobre os segundos quanto à censura ou aprovação
de seu desempenho social.
3. O modo do discurso:
A linguagem verbal é expressa em textos pelo meio escrito, canal gráfico, razão
pela qual não obtêm um retorno imediato por parte do destinatário no processo interativo.
Publicados em destaque, alguns assinados e outros não assinados, os textos
analisados configuram-se como opinativos, ou seja, artigos jornalísticos em que se
definiram e manifestaram o ponto de vista dos autores e dos jornais (de onde foram
extraídos) sobre as questões de maior repercussão no momento em que foram publicados.
Com intenção pretensamente objetiva, os artigos de opinião e os editoriais
jornalísticos são escritos com predominância da 3ª pessoa do singular. Além disso, têm
caráter eminentemente persuasivo, pois visam a instigar os indivíduos e a coletividade em
geral a posicionar-se e agir de acordo com o que foi opinado.
B) Relações entre as opções temáticas e os significados originados
Apesar dos componentes contextuais poderem refletir-se em várias áreas
lingüísticas do texto, como por exemplo no léxico, envolvendo as múltiplas funções
semânticas da linguagem, analisarei e descreverei apenas as relações existentes entre
227
aqueles componentes e as características específicas das escolhas relacionadas com o
verbo ‘ser’, atendo-me sobretudo àqueles aspectos que proporcionem algumas visões
para a caracterização da função do verbo ‘ser’ nos artigos aqui analisados.
Nesse sentido, a utilização dos artigos que compõem o corpus para a análise e
descrição das ocorrências do verbo ‘ser’ mais uma vez se justifica por prestar-se à análise
das formas da linguagem e suas implicações na configuração do sentido do texto, e por
representarem uma forma mais espontânea de uso da linguagem, onde há uma liberdade
maior de expressão lingüística.
No capítulo seguinte, verificarei então como o verbo ‘ser’ é usado no material de
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análise.
4.
O verbo ‘ser’ no discurso
4.1
Introdução à análise do corpus
A análise desenvolvida aqui está embasada pela LSF nos moldes em que Halliday
& Matthiessen (1999) definem como semântica ideacional. A semântica ideacional é a
que está relacionada com a construção da experiência como um recurso e um potencial de
significados para a compreensão, representação e atuação na realidade. A construção da
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experiência é considerada significado que é construído na linguagem, sendo esta
interpretada como ‘um sistema semiótico’ (Halliday & Matthiessen, 1999, p.2).
É nesse sentido que a construção da experiência é entendida como a construção da
realidade, o que vem ao encontro da minha escolha pela Metafunção Ideacional como
norteadora da análise. A Metafunção Ideacional toma a linguagem como uma teoria da
realidade, como um recurso para refletir sobre o mundo (Halliday & Matthiessen, 1999,
p.7), construindo a experiência da realidade, material e simbólica, no discurso.
Com relação à construção da realidade no discurso, Martin & Rose (2001, p.66)
destacam que a ideação “foca no ‘conteúdo’ de um discurso” e que o autor de um texto
“representa um pedaço de sua própria experiência, ou a experiência mais geral de sua
sociedade e suas instituições” em seus discursos. E Halliday (2004, p.211) afirma que
tanto “a experiência do mundo material”, ou seja, nossa experiência de como ‘fazer’,
quanto a “experiência do mundo de nossa própria consciência”, a experiência de como
‘sentir’, podem ser representadas como ‘ser’.
Cabe lembrar que, ao se referir à estrutura semântica do texto, Halliday (1994,
p.336-337) declara que a “escolha de Tema, oração por oração, é o que leva adiante o
desenvolvimento do texto como um todo”, pois estabelece uma relação com o que foi
dito antes, projetando o leitor para o que virá depois, sendo “a proeminência orientada
pelo falante”, ou seja, é o autor que escolhe o ponto de partida de sua mensagem,
dependendo da sua intenção no momento da interação.
229
Nesse sentido, minha hipótese é a de que a escolha que o falante realiza quanto a
posição do verbo ‘ser’ na oração – P1-V-P2 (Participante1-Verbo-Participante2), VP1,P2 (Verbo-Participante1- Participante2) ou V-P2 (Verbo-Participante2) – e, por
conseguinte, para os demais participantes, é uma das possibilidades exploradas pelos
autores dos artigos aqui analisados para a veiculação dos significados ideacionais, como
forma de fornecer um esquema estrutural que contribua para a construção de sua
experiência, entendida como significado, e para o desenvolvimento de seus textos, tanto
do ponto de vista semântico quanto do pragmático.
Com base nessa constatação, pergunto:
1 - que tipo de construção ou interpretação da experiência podemos inferir nas
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seqüências semânticas em que o verbo ‘ser’ ocorre?
2 - qual a contribuição desse processador para a construção dos significados?
A partir daí, analisei as orações, descrevendo como a construção da experiência é
realizada através do uso do verbo ‘ser’, nos 70 artigos, nas duas posições em que
ocorrem nos textos, e apresento abaixo alguns exemplos dessas análises.
4.2
A instanciação do verbo ‘ser’ na ordem P1-V-P2 (Participante-VerboParticipante)
O objetivo nesta seção é expor as principais características sintáticas, semânticas e
pragmáticas das orações identificadas pela ordem (P1-V-P2), à luz da GSF. Para tanto,
apresento, abaixo os exemplos extraídos da análise do corpus selecionado para esta tese.
Exemplo (1): Artigo 20 – “Sofro como todo brasileiro”, por Dom Eugenio Sales,
publicado no jornal O Globo – 771 palavras – 9 ocorrências do verbo ‘ser’ como verbo
principal, sendo 8 na posição canônica.
Destaco os seguintes trechos desse texto para minha análise:
“E fico a pensar em tantos discursos, buscas de culpados e de soluções, lágrimas
que indicam o sofrimento, a angústica e creio que podem ser fruto de arrependimento ou
de decepção. (a) O mais ausente, porém, é o único capaz de dar uma solução.
230
Raramente se ouve o apelo ao Senhor. A raiz de tudo o que nos aflige tem sua explicação
no afastamento de Deus. Cristãos ou não, somos parte de um desmoronamento da
sociedade.
[...]
Há tempo para denunciar o mal, mas fica no esquecimento a oração pelo
fortalecimento dos que trabalham em favor de um futuro autenticamente cristão para o
Brasil.
(b) De grande valia é a recitação do Terço do Rosário, de modo particular, em
família. Nas conclusões da Reunião do Episcopado Latino-Americano, em Puebla,
México, em 1979, está o pedido de “que se redescubra o valor do Rosário” (número 728).
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(c) A atual situação por que passa o nosso país é uma oportunidade de retorno ao
Terço onde foi relegada, posta de lado essa prática religiosa de grande valor. (d) E,
com a devida antecedência, relembro que o mês de outubro é o mês consagrado ao
Rosário.
[...]
Cada Sucessor de Pedro estimula a prática e louva suas benemerências. (e) Para
quem tem fé, essa posição constante do Magistério Pontifício é de grande valor.
[...]
“A igreja no Brasil”, no volume III, referente aos anos de 1700 a 1822 (pág. 267),
informa-nos: “As tradicionais festas e devoções dos tempos anteriores aumentaram
extraordinariamente (...)(f) as devoções mais do gosto dos cristãos da época eram a
reza do Terço cantado.”
[...]
Logo no início de seu pontificado, em 29 de outubro de 1978, por ocasião do
“Angelus”, falando para 100 mil pessoas na Praça de São Pedro, recorda o 30 dia da
morte de seu antecessor e assim se expressou: (g) “O Rosário é a minha oração
predileta.”
231
Análise:
Os extratos acima revelam a ocorrência de 8 instanciações do verbo ‘ser’, sendo 7
no presente do indicativo e uma no pretérito imperfeito do indicativo, seis na terceira
pessoa do singular, uma na primeira do plural e uma na terceira do plural.
O assunto principal tratado no texto é a volta à recitação do Terço do Rosário
como um retorno às práticas familiares de oração, em favor de nossa pátria e da família
brasileira, vítimas das dificuldades pelas quais passam, devido à “convulsão que sacode a
nação há meses”.
O autor do texto, ao colocar a situação por que passa o país, atribuindo essa
situação a causas e soluções que embora apontadas esvaziam-se, já estabeleceu que está
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interessado na categoria de ‘ausência’ de alguém que julga ser o único capaz de dar uma
solução para tal situação. Ele o identifica, portanto, em termos da entidade1 específica
que realiza ou incorpora essa categoria: o único capaz de dar uma solução. Essa sentença
poderia ser parafraseada como: O papel de mais ausente é desempenhado pelo único
capaz de dar uma solução.
Ao referir-se ao que acredita ser o que coloca a nação em tal situação – o
afastamento de Deus –, Dom Eugenio Sales expressa tal significação escolhendo uma
oração (a) instanciada pelo verbo ‘ser’ e dois constituintes oracionais – P1 (O mais
ausente) e P2 (o único capaz de dar uma solução).
A oração é iniciada com o participante – o mais ausente – que estabelece uma
referência semântica com o afastamento referido na oração anterior. Ao colocar em
primeiro plano P1, Dom Eugenio resgata o ‘afastamento’ a que se referiu, dando maior
ênfase a sua argumentação, e leva adiante o desenvolvimento do texto, mantendo em foco
a sua intenção de chamar a atenção dos brasileiros de que eles estão afastados daquele
que é a única solução para os problemas que enfrentam, ou seja, de que o Senhor está
ausente porque os brasileiros se afastaram dele.
Essa escolha pela disposição dos participantes na oração revela o modo como a
mensagem foi manipulada, de acordo com a intenção de manter em foco no artigo, ‘o
afastamento’, ‘a ausência do apelo ao Senhor’, e de dar continuidade ao que seria
1
É importante observar que ‘entidade’ é uma noção semântica; sua realização léxico-gramatical é efetuada
na seleção de algum grupo nominal que tenha um papel funcional na oração (Hasan & Fries: 1995, p.372).
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233
o caso da tematização dos constituintes oracionais. Portanto, as versões invertidas teriam
a mesma referência das originais, mas difeririam no plano funcional.
Estas observações fazem-se necessárias na análise das estruturas, uma vez que o
ordenamento oracional aparece subordinado a necessidades comunicativas do falante.
Vejamos por quê em um fenômeno descontextualizado:
Sergio Cabral é o governador do Rio. Esta oração está ordenada para ser a
resposta da pergunta: Quem é o governador do Rio? A intenção de quem pergunta é saber
o nome do governador, portanto a informação nova deve vir em primeiro lugar na oração,
no caso Sérgio Cabral.
Já a oração O governador do Rio é Sérgio Cabral é a resposta apropriada para a
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pergunta: Quem é Sérgio Cabral? Em primeiro lugar está novamente a informação que o
questionador deseja saber O governador do Rio.
Como podemos observar, a escolha pelo falante do nome de Sérgio Cabral e O
Governador do Rio na primeira posição aponta para uma diferença no plano funcional.
Verifica-se, portanto, que as orações relacionais de identificação funcionam como
um recurso de co-referencialidade, no sentido de que permitem integrar, mediante o
verbo ‘ser’, duas expressões de idêntica referência extra-lingüística. Em uma oração
Relacional Intensiva Identificativa, os dois constituintes sintáticos têm um mesmo
referente extra-lingüístico e o verbo admissível é o ‘ser’.
Embora em uma oração Relacional Identificativa ambos os participantes refiramse à mesma entidade no mundo real, essa oração não é uma tautologia, isto é, aquela em
que um membro de uma classe está no mesmo nível de abstração do seu par. Há uma
diferença entre as partes relacionadas, pois ao fazer sua escolha, o autor relacionou uma
realização específica e uma categoria mais generalizável, ou seja, estreitou a classe em
questão à classe de um membro só, identificando um participante pelo outro.
O Participante 2 o único capaz de dar uma solução é posicionado em uma
perspectiva mais ampla, identificando-o como o portador específico de um papel, o de ser
o mais ausente, que poderia, em princípio, ser destinado a outros. A realização específica
está relacionada ao Participante1 – o mais ausente – que pode ser classificado como
‘Valor’ e a categoria mais generalizável ao Participante2, que pode ser classificado como
‘Característica’.
234
A estrutura de uma oração Relacional Identificativa pode apresentar-se como
Identificador/Valor
e
Identificado/Característica
ou
Identificado/Valor
e
Identificador/Característica. A direção da identidade – do geral para o específico ou do
específico para o geral – depende de qual entidade está em destaque. Como nos indica o
exemplo acima, o autor está identificando O único capaz de dar uma solução,
designando-lhe um Valor – o mais ausente.
Nesse sentido, verifica-se que Dom Eugênio privilegiou o que para ele é mais
importante chamar a atenção do seu leitor, pois ao colocá-lo em primeiro lugar,
estabelece a direção dessa identidade.
A classificação dos Participantes em Valor e Característica diz respeito ao
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significado pragmático existente em tal seleção, a saber, revela os interesses e valores do
autor e a cultura da qual faz parte: Dom Eugenio é Arcebispo da Igreja Católica e,
portanto, expressa seus valores pessoais e culturais através de construções em que coloca
em primeiro plano sua crença, seus ensinamentos, sua visão de mundo. A estrutura ValorCaracterística tende a aparecer onde os significados que estão sendo construídos são
inerentemente simbólicos, como no caso acima.
No segundo parágrafo do texto selecionado, exemplo (b) – De grande valia é a
recitação do Terço do Rosário, de modo particular, em família – o verbo ‘ser’ está
instanciado no presente do indicativo, na terceira pessoa do singular. Semanticamente, ele
relaciona um participante (P1) – De grande valia – a um outro participante (P2) – a
recitação do Terço do Rosário.
Trata-se de uma ocorrência em que o autor escolheu inverter a ordem canônica da
oração para dar maior destaque à propriedade que atribui à recitação do Terço do Rosário
em família, a saber, a de ser de grande valia. A ordem canônica seria a seguinte: A
recitação do Terço do Rosário é de grande valia.
No português, a ocorrência típica consiste na seleção do Sujeito para a posição
inicial e esta é a configuração que o ouvinte/leitor espera que aconteça. Logo, a seleção
de outro constituinte para esse fim alerta o ouvinte de imediato para um significado que
está sendo colocado em destaque de forma especial.
O fato de haver uma oração com a presença do verbo ‘ser’ + um participante cujo
núcleo do grupo nominal é um adjetivo indica a sua classificação como uma oração
235
Relacional Intensiva Atributiva e, dessa forma, teríamos a seguinte análise: O
Participante 1 – de grande valia – pode ser classificado como o Atributo do Participante
2 – a recitação do Terço do Rosário em família, que tem como função ser o Portador
desse atributo.
É interessante observar que, nesse exemplo, os constituintes podem ser invertidos
e embora haja essa possibilidade, essa oração não pode ser classificada como uma oração
Relacional Intensiva Identificativa, porque o grupo nominal em P1 apresenta um adjetivo
como núcleo, característica das orações Relacionais Intensivas Atributivas. Por outro
lado, embora apresente um adjetivo como núcleo de um de seus participantes, essa oração
também não pode ser considerada uma oração Relacional Intensiva Atributiva, porque ela
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apresenta a possibilidade de reversão de seus constituintes.
A classificação dessa oração parece estar diante de um impasse entre seguir as
características estruturais sugeridas pela GSF ou analisar a oração apenas do ponto de
vista semântico. Este impasse entre uma e outra classificação, a meu ver, aponta para
uma forte influência do aspecto funcional da linguagem, ou seja, essa possibilidade
devenvolveu-se para atender à necessidade do falante de chamar a atenção para o que
considera mais importante. Logo, o fato de ter sido possível tematizar o P1, demonstra
uma possibilidade dentre as oferecidas pelo sistema de transitividade da língua
portuguesa, com relação às diversas opções de significação proporcionadas pelo verbo
‘ser’.
Cabe chamar a atenção para o fato de que a GSF foi desenvolvida
especificamente para a descrição da língua inglesa, fato que deve ser levado em conta
quando se tem como objetivo verificar as especificidades de uma outra língua orientada
por tal gramática. Além disso, a própria concepção de linguagem defendida pela
abordagem sistêmico-funcional, a de que a linguagem desenvolve-se para atender a
necessidade do falante no momento de sua interação, determina o que é possível em
algumas línguas e em outras não, uma vez que tal possibilidade está relacionada às
especificidades lingüísticas disponíveis em uma determinada língua.
O exemplo acima demonstra a diferença entre as línguas portuguesa e inglesa, o
que dificulta a tentativa de classificação em orações Relacionais Atributivas ou
Identificativas, segundo as características definidas pela GSF. Vale mencionar aqui
236
também o fato de que, por vezes, a tentativa de uma classificação dos fatos da língua não
resiste à potencialidade da mesma.
A sugestão que proponho é a de que, em estudo futuro, sejam verificadas mais
ocorrências desse tipo de estrutura em outros gêneros discursivos para que se possa
chegar a uma sistematização quanto à classificação dessas orações em Orações
Relacionais Intensivas Atributivas, com possibilidade de inversão dos constituintes, em
Orações Relacionais Intensivas Identificativas, com a possibilidade de escolha de um
adjetivo para o Participante 2, ou, ainda, considerá-las como orações que transitam entre
uma atribuição e uma identificação.
Outrossim, ressalto ainda que se substituirmos o grupo nominal de grande valia
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pelo adjetivo valiosa, teremos a seguinte produção: A recitação do Terço do Rosário em
família é valiosa. Se invertermos essa ordem, teremos uma construção de mesmo valor
significativo: Valiosa é a recitação do Terço do Rosário, a qual inserida no contexto
mantém a significação original.
Experiencialmente, a oração constrói uma relação de significação entre um
Participante – o Portador – e um outro Participante – o Atributo, isto é, há uma
configuração de um processo e participantes, o que constitui o centro da experiência. O
processo é o de ‘ser’. Os dois Participantes do trecho (b) De grande valia e A recitação
do Terço do Rosário são elementos na relação de ‘ser’, os quais configurados um com o
outro fazem parte do mesmo domínio de ‘ser’.
De grande valia é uma propriedade semiótica que pode ser atribuída ao
Participante 2 – A recitação do terço do rosário, estabelecendo-se assim uma relação de
‘ser’ entre duas entidades separadas, o que se poderia chamar de dois verbos ‘ser’ (‘ser1’
– A recitação do Terço do Rosário e ‘ser2’ – de grande valia). Dessa forma, a oração
relacional é uma configuração de ‘ser’ + ‘ser2’. O significado experiencial está na relação
dos dois participantes, tendo o verbo ‘ser’ configurado o processo que os relaciona
abstratamente, pois a configuração do Processo + ser1+ser2 cria o potencial para a
construção de relações abstratas de associação de classe nos domínios da experiência.
A entidade – a recitação do Terço do Rosário – que denominamos Portador do
Atributo tem uma classe imputada ou atribuída a ela, ou seja, o Atributo – de grande
237
valia. O grupo preposicionado com um adjetivo grande como núcleo, funciona como o
Atributo.
O domínio de atribuição dessa oração inclui os modos de experiência externa e
interna que são da mesma ordem do Atributo. Portanto, com de grande valia, como
Atributo, o Portador tem de ser uma meta-coisa – representada por um fato – a recitação
do Terço do Rosário, para que possam ser relacionados estando no mesmo nível de
abstração simbólica.
A opção pela forma vista acima foi uma das opções entre outras escolhidas para a
construção de atribuição qualitativa – de grande valia – que poderia ter sido construída
como um Processo qualitativo, a saber: A recitação do Terço do Rosário vale muito.
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Antes de seguir para o trecho (c), gostaria de chamar a atenção para o exemplo (e)
Para quem tem fé, essa posição constante do Magistério Pontifício é de grande valor.
Neste caso, há uma oração de estrutura semelhante a analisada acima. No entanto,
o autor escolheu seguir a ordem canônica em detrimento da inversão dos participantes
que seria Para quem tem fé, de grande valor é essa posição constante do Magistério
Pontifício, como o fez no exemplo anterior.
A escolha pela construção canônica revela a natureza da
relação semântica
estabelecida entre a oração (e) e a oração anterior, Cada Sucessor de Pedro estimula a
prática e louva suas benemerências.
Dom Eugenio inicia a oração (e) dirigindo a
atenção do leitor para o fato de que se o leitor considera-se incluído no grupo dos que têm
fé, tomará a posição de cada sucessor de Pedro – os Papas – de estimular a prática e
louvar suas benemerências como valiosa e a seguirá, pois eles são os chefes da igreja
católica, maior autoridade religiosa. O que o autor quer manter na mente do leitor é quem
está fazendo a sugestão e, portanto, a repete no início da oração (e) com o objetivo de
despertar no leitor o fato de que se ele tem fé, dará valor a sua sugestão de rezar o rosário,
daí ter sido mantida a ordem canônica, para a aproximação e reforço dos significados
propostos.
No decorrer do mesmo parágrafo, há outras instâncias do verbo ‘ser’, que são
singulares, nas quais cada verbo ‘ser’ refere-se a uma única ocorrência de um processo
de ‘ser’. Vejamos então as ocorrências seguintes.
238
No trecho (c) A atual situação por que passa o nosso país é uma oportunidade de
retorno ao Terço onde foi relegada, posta de lado essa prática religiosa de grande valor,
o Processo é realizado pelo verbo ‘ser’ no presente do indicativo e dois participantes – P1
– A atual situação por que passa o nosso país e P2 – uma oportunidade de retorno ao
Terço.
O autor do texto refere-se à atual situação do país atribuindo-lhe a característica
de ser uma oportunidade de retorno à recitação do Terço do Rosário. Vale observar que a
inversão dos participantes nesse processo seria inadequada ao contexto, uma vez que
expressa significado diferente da estrutura anterior – Uma oportunidade de retorno ao
Terço onde foi relegada, posta de lado essa prática religiosa de grande valor é a atual
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situação por que passa o nosso país, ou ainda, Uma oportunidade de retorno ao Terço é
a atual situação por que passa o nosso país.
Como podemos observar nas inversões sugeridas acima, o Participante1, agora –
Uma oportunidade de retorno ao Terço está seguido de uma oração longa que interrompe
a relação com o Participante 2, agora – A atual situação por que passa o nosso país – e
dificulta o entendimento. Mesmo que retirássemos a oração iniciada por onde foi
relegada, posta de lado essa prática religiosa de grande valor, a oração no todo não faz
sentido no co-texto em que está sendo usada.
É interessante observar também que o verbo ‘ser’, neste exemplo, pode ser
substituído pelos verbos representar, constituir, indicar, entre outras possibilidades, o
que poderia caracterizar a oração como Relacional Intensiva Identificativa. Vejamos a
substituição:
1 – A atual situação por que passa o nosso país representa uma oportunidade de
retorno ao Terço onde foi relegada, posta de lado essa prática religiosa de grande valor;
2 – A atual situação por que passa o nosso país constitui uma oportunidade de
retorno ao Terço onde foi relegada, posta de lado essa prática religiosa de grande valor;
3 – A atual situação por que passa o nosso país indica uma oportunidade de
retorno ao Terço onde foi relegada, posta de lado essa prática religiosa de grande valor.
No entanto, mesmo com essas substituições, a ordem de seus participantes não
pode ser invertida, mais uma vez sob pena de alterar sua direcionalidade e significado,
239
vejamos: Uma oportunidade de retorno ao Terço representa a atual situação por que
passa o nosso país.
Com base no exposto acima, o exemplo analisado poderia ser classificado como
uma oração Relacional Intensiva Identificativa por apresentar a característica típica de
poder ter seu processo de ‘ser’ substituído pelo verbo representar, mas ela não aceita a
reversibilidade como teste principal para sua classificação. Por outro lado, esse exemplo
não pode ser uma oração Relacional Intensiva Atributiva por poder ter seu processo de
‘ser’ substituído pelo verbo representar.
Este é mais um exemplo de impasse identificado por mim que sugiro seja
aprofundado em um outro trabalho, pois merece um tratamento mais detalhado, o qual
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foge ao objetivo específico desta tese.
Vale chamar a atenção para o fato de que a possibilidade de substituição do verbo
‘ser’ por diferentes formas lexicais verbais como representar, constituir, indicar etc.
significa que há escolhas específicas realizadas pelo autor para construir sua própria
experiência do mundo e transmití-la ao seu leitor entre outras possibilidades. E as orações
relacionais são as que possibilitam construir tanto a experiência externa quanto a
experiência interna, moldando-as como ‘sendo’ ao invés de ‘fazendo’ ou ‘sentindo’,
processos material e mental, respectivamente. Dessa forma, um e o mesmo texto pode
oferecer modelos alternativos do que seria o mesmo domínio de experiência.
A instanciação seguinte do verbo ‘ser’, o trecho (d) – E, com a devida
antecedência, relembro que o mês de outubro é o mês consagrado ao Rosário – é um
processo de ‘ser’ em que há o Participante 1 – o mês de outubro – e Participante 2 – o
mês consagrado ao Rosário – expressos por grupos nominais iniciados pelo artigo
definido o.
Cabe informar que este artigo foi publicado no dia 1 de outubro, razão pela qual o
autor inicia a oração dizendo E, com a devida antecedência, o mês de outubro....
referindo-se em primeiro lugar à informação para a qual ele deseja chamar a atenção,
para em seguida identificá-la com uma outra informação.
O objetivo neste artigo é o de argumentar a favor da importância da oração e da
retomada da recitação do Terço do Rosário em família, razão pela qual o autor inicia
descrevendo problemas sociais que poderiam ser solucionados se os brasileiros se
240
aproximassem mais do Senhor através da oração do Terço em família. Como seu artigo
será publicado naquele mês, sua escolha está relacionada à natureza do significado que
deseja construir, a saber, o de chamar a atenção para o fato de que como o mês de
outubro está se iniciando, esta é a oportunidade de se retomar a oração do Terço em
família, já que aquele é o mês consagrado ao Rosário, e de se aproximar do Senhor, o
único capaz de solucionar os problemas que enfrenta o país.
Observa-se que há uma equivalência entre os dois participantes: o mês de outubro
é equivalente a uma igualdade, ou seja, o mês de outubro é equivalente
ao mês
consagrado ao Rosário. Essa equivalência torna possível a inversão dos participantes: O
mês consagrado ao Rosário é o mês de outubro, o que nos leva a concluir que ambas as
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entidades referem-se à mesma entidade simbólica do mundo real. A função desse
processo é identificar uma entidade o mês de outubro em termos de uma outra entidade o
mês consagrado ao Rosário.
No entanto, essencialmente, a identificação relaciona uma realização específica e
uma categoria mais general. O mês de outubro foi colocado na posição inicial, uma
perspectiva maior, e identificado como o mês consagrado ao Rosário.
No exemplo em questão, como a categoria mais geral, o mês de outubro, já havia
sido estabelecida em termos de contexto de situação, Dom Eugenio identifica seu
interesse em termos da entidade específica que o realiza ou incorpora: o mês consagrado
ao Rosário. A categoria mais geral é o mês de outubro, portanto o Valor, e a entidade que
o realiza ou incorpora, a Característica, o mês consagrado ao Rosário. O mês consagrado
ao Rosário está identificando o participante o mês de outubro.
O mês de outubro é o Identificado, ou seja, a entidade a ser identificada; o mês
consagrado ao Rosário é o Identificador, a forma como o mês de outubro é identificada.
Logo, em termos de direcionamento da identidade, temos Identificado/Valor e
Identificador/Característica.
Dessa forma, foi atribuída uma identificação ao mês de outubro como o portador
da característica de ser o mês consagrado ao Rosário, que poderia ter sido atribuída a
outros meses. Essa oração poderia ser parafraseada da seguinte forma: O mês de outubro
representa o mês consagrado ao Rosário.
241
O exemplo (f) As tradicionais festas e devoções dos tempos anteriores
aumentaram extraordinariamente (...) as devoções mais do gosto dos cristãos da época
eram a reza do Terço cantado.
Nesse caso, temos o verbo ‘ser’ relacionando o Participante 1 as devoções mais
do gosto dos cristãos da época ao Participante 2 a reza do Terço cantado. O Participante
1 é o Identificado e o Participante 2, o Identificador, relacionados pelo processo de ‘ser’.
Trata-se de uma oração em que o Participante 2 está identificando o Participante1, ou
seja, há uma atribuição de identidade a um dos participantes, podendo então ser
classificada como uma oração Relacional Intensiva Identificativa.
Logo, se um participante está sendo identificado pelo outro, eles estão em uma
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situação de igualdade e tanto um quanto o outro poderiam ocupar a primeira posição na
oração. A escolha desse constituinte a ocupar a posição inicial é, portanto, significativa e
funcional, pois está a serviço da função da construção da experiência que o autor deseja
comunicar.
Como estamos verificando nas análises até então, em uma análise de perspectiva
semântica, a ordem dos participantes está relacionada com a intenção do falante/escritor
de colocar em destaque o que para ele é um valor e, assim sendo, está diretamente
relacionada com suas crenças e ideologias.
Na minha leitura, verifico que o objetivo é chamar a atenção do leitor para o fato
de que se há fé, então o leitor deve valorizar o que sugerem os sucessores de Pedro, se o
leitor segue os dogmas da igreja no Brasil desde os séculos XVI, se ele é um devoto, deve
rezar o terço, que naquela época era até cantado. Isto porque Don Eugenio está tentando
convencer seus leitores a retomarem essa prática religiosa no mês que a ela é dedicado e
que está iniciando-se.
Acrescento a última oração deste artigo a ser analisada aqui como mais uma
colaboração para o que acabo de dizer.
A oração (g) O Rosário é a minha oração predileta é o fecho que Dom Eugenio
coloca na sua argumentação para que os leitores rezem o Rosário. Neste ponto, ele
posiciona-se de forma direta, adicionando mais essa informação para persuadir o leitor a
concordar com ele e seguir o que sugere.
242
Nessa construção, temos o Participante 1 O Rosário como o Identificado, o
processo expresso pelo verbo ‘ser’ e o Participante 2 a minha oração predileta, como o
Identificador. A relação estabelecida é a da identificação e, dessa forma, a ordem dos
participantes poderia ter sido revertida, o que resultaria na seguinte oração: A minha
oração predileta é o Rosário, o que não alteraria o sentido no texto. Mas, essa seleção
pela posição inicial da oração com o Participante O Rosário está relacionada com o fato
de essa categoria mais geral já ter sido mencionada e, então, passa a ser identificada em
termos de sua incorporação específica a minha oração predileta. Logo, a oração pode ser
classificada como oração Relacional Intensiva Identificativa.
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Exemplo (2): Artigo 12 – “São Paulo mostra o caminho” – publicado no jornal O
Estado de S.Paulo – Editorial – 656 palavras – 12 ocorrências do verbo ‘ser’, sendo 9 na
posição canônica.
Os trechos escolhidos para a análise foram:
“(a) A proposta de Orçamento do Estado de São Paulo para 2006 é uma
prova de que austeridade e seriedade na gestão de recursos públicos, às vezes causas
de descontentamentos políticos no curto prazo, produzem grandes benefícios tanto
para o governo como, sobretudo, para a população.
[...]
(b) Renegociar sua imensa dívida em bases tecnicamente aceitáveis foi o
grande problema que o governo paulista enfrentou entre 1995 e 1997, quando se
concluiu o acerto com a União. Outros governos estaduais também tinham sérios
problemas financeiros, mas (c) o de São Paulo era de longe, o maior deles. Do total de
R$ 130 bilhões renegociados pela União, (d) R$ 46 bilhões eram de responsabilidade
do governo paulista.
(e) Os termos da renegociação foram duros para os devedores.
[...]
(f) O objetivo do governo é reduzir o saldo devedor, por meio do aumento do
superávit primário no próximo ano. Em 2005, o superávit primário do Estado (que exclui
os juros da dívida) chegará a R$ 3,2 bilhões; em 2006, será de R$ 3,8 bilhões. Mesmo
com superávit maior, o governo paulista terá mais recursos para investir no ano que vem.
243
(g) Os investimentos previstos são de R$ 9,1 bilhões, praticamente 20% mais do que o
valor orçado para este ano. (h) Do total, R$ 2,8 bilhões serão das empresas estatais
paulistas e R$ 6,3 bilhões de recursos do Tesouro estadual.
Análise:
O trecho (a) apresenta uma configuração de dois participantes, o Participante 1,
expresso pelo constituinte A proposta de Orçamento do Estado de São Paulo para 2006,
um processo, expresso pelo grupo verbal é e o Participante 2, expresso pelo constituinte
uma prova de que austeridade e seriedade na gestão de recursos....
Verifica-se que os participantes podem ter sua ordem invertida e, por
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apresentarem essa característica, essa oração pode ser classificada como uma oração
Relacional Intensiva Identificativa, na qual um participante está sendo identificado pelo
outro, isto é, o Participante 2 está sendo usado para identificar o Participante 1.
Essa oração de relação de identidade ilustra o uso do processador ‘ser’ em orações
identificativas na construção de conhecimentos como os de estabelecer a singularidade da
proposta de Orçamento como uma prova de que austeridade e seriedade na gestão de
recursos públicos produzem grandes benefícios. Esse significado construído pela
configuração acima revela que o autor quis destacar a austeridade e a seriedade como
características identitárias do Orçamento e o fez igualando-as através do verbo ‘ser’.
Pode-se então classificar o Participante 1 como o Identificado, aquele que será
identificado, e o Participante 2 como o Identificador, aquele que dará identidade. Há uma
tendência para que o Identificador seja o segundo participante e a razão se dá pelo fato de
o Identificador conter a informação nova.
Como observar-se no trecho (a), o artigo foi iniciado por uma informação que já é
conhecida do leitor A proposta de Orçamento do Estado de São Paulo para 2006, em
seguida, o autor a identifica como uma prova de que austeridade e seriedade na gestão
de recursos públicos produzem grandes benefícios .., informação esta que é nova para o
leitor, pois trata-se da opinião do autor do artigo.
A seleção da ordem temática da oração (a) revela-nos a natureza dos significados
que são colocados em destaque e a sua importância na estrutura informacional. Aqui, a
categoria mais geral é a que já é do conhecimento do leitor, podendo ser recuperada no
244
conjunto de suas informações de mundo, e a entidade específica com a qual o autor quer
identificá-la está sendo realizada pelo Participante 2 uma prova de que austeridade e
seriedade na gestão de recursos públicos produzem grandes benefícios ...
Em termos de uma análise da direção da identidade, temos Identificado/Valor e
Identificador/Característica. Esse tipo de análise revela-nos os significados ideacionais
intencionados pelo autor do texto nesse tipo de discurso.
No trecho (b) Renegociar sua imensa dívida em bases tecnicamente aceitáveis foi
o grande problema que o governo paulista enfrentou entre 1995 e 1997, verificamos que
há dois constituintes oracionais que podem ter sua ordem invertida. A inversão resultaria
na seguinte oração: O grande problema que o governo paulista enfrentou entre 1995 e
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1997 foi renegociar sua imensa dívida em bases tecnicamente aceitáveis.
Como foi possível reverter os constituintes sem prejuízo do significado criado no
texto, a relação estabelecida pelo verbo ‘ser’ é a de igualdade e, dessa forma, temos uma
oração Relacional Intensiva Identificativa, na qual o processo relacional está expresso
pelo verbo ‘ser’ no pretérito perfeito do indicativo.
O Participante 1 Renegociar sua imensa dívida em bases tecnicamente aceitáveis
pode ser classificado como o Identificado e o Participante 2 o grande problema que o
governo paulista enfrentou entre 1995 e 1997, como o Identificador.
A análise das escolhas efetuadas para a ordem oracional revela-nos que o autor
seleciona para a posição inicial a entidade de categoria mais geral Renegociar sua imensa
dívida em bases tecnicamente aceitáveis, que já foi estabelecida no texto e a identifica em
termos de uma entidade específica que a incorpora o grande problema que o governo
paulista enfrentou entre 1995 e 1997. Em termos da direção da identificação, temos
Identificado/Valor e Identificador/Característica.
O autor poderia ter selecionado uma outra forma de elaboração estrutural e
substituído o verbo ‘ser’ pelo verbo ‘representar’, o que resultaria na seguinte estrutura:
Renegociar sua imensa dívida em bases tecnicamente aceitáveis representou o grande
problema que o governo paulista enfrentou entre 1995 e 1997. No entanto, a reversão
neste caso não seria possível.
O trecho (c) Outros governos estaduais também tinham sérios problemas
financeiros, mas o de São Paulo (c) era de longe, o maior deles, apresenta um
245
Participante 1 expresso pelo grupo nominal o [problema financeiro] de São Paulo, o
processo expresso pelo grupo verbal era e o Participante 2 expresso pelo grupo nominal o
maior deles.
Neste trecho, pode-se verificar que há uma identificação do Participante 1 pelo
Participante 2. Os dois participantes referem-se à mesma questão e apresentam uma
igualdade no significado, ou seja, o [problema financeiro] de São Paulo = o maior deles.
Nesse caso, então, é possível fazer uma inversão da ordem dos constituintes sem que haja
perda do sentido expresso pela oração original, vejamos: O maior deles era o de São
Paulo. Essa oração pode ser classificada como uma oração Relacional Intensiva
Identificativa. O Participante 1 é o Identificado e o Participante 2, o Identificador.
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Como já foi mencionado nos exemplos acima, embora os constituintes refiram-se
à mesma coisa, não se trata de uma tautologia, há uma diferença entre eles e, como
vimos, essa diferença pode ser caracterizada como uma diferença de expressão e
conteúdo, ou seja, em termos de seus rótulos na gramática, uma diferença de
Característica e Valor – e ambos podem ser usados um para identificar o outro.
Nesta contrução o de São Paulo era o maior deles, está-se identificando o de São
Paulo atribuindo-lhe uma Característica o maior deles. Dessa forma, a direção da
identificação pode ser classificada como Identificado/Valor e Identificador/Característica.
O trecho (d) Do total de R$130 bilhões renegociados pela União, R$46 bilhões
eram de responsabilidade do governo apresenta um Participante 1 expresso pelo
constituinte R$46 bilhões, um processo expresso pelo verbo ‘ser’ na 3ª pessoa do plural
do presente do indicativo e um Participante 2 expresso pelo constituinte de
responsabilidade do governo.
Este caso apresenta o Participante 2 iniciado pela preposição de que se for omitida
não afeta o significado original: R$ 46 bilhões eram (a) responsabilidade do governo. No
entanto, o uso da preposição de deu ênfaze à identidade responsabilidade atribuída
àquela soma de dinheiro, ou seja, do volume total de R$ 130 bilhões, uma parte está
sendo identificada como responsabilidade do governo. Se invertermos a ordem de seus
constituintes, essa frase resultaria na seguinte estrutura: A responsabilidade do governo
era R$ 46 bilhões ou ainda A responsabilidade do governo era de R$ 46 bilhões.
246
Em termos de construção dos significados na estrutura informacional, podemos
atribuir ao Participante 1 o rótulo de Valor, pois trata-se de uma informação que já foi
mencionada antes, para a qual o autor atribui uma identificação em termos de
Característica.
Nos trechos (g) e (h) ocorre o mesmo fenômeno verificado no trecho acima (d),
razão pela qual não serão aqui descritos.
O trecho (e) Os termos da renegociação foram duros para os devedores apresenta
um Participante 1 Os termos da renegociação seguido do verbo ‘ser’ na 3ªpessoa do
plural do pretério perfeito do indicativo e um Participante 2 expresso pelo grupo nominal
duros para os devedores.
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O Participante 2 apresenta um grupo nominal que tem como núcleo o adjetivo
duros, característica que indica a classificação da oração como Relacional Intensiva
Atributiva. A configuração de processo ‘ser’ (foram) + dois verbos ‘ser’ (P1 e P2) abre o
potencial para a construção de uma relação abstrata de associação de classe, ou seja, a
associação de classe é construída pela oração atributiva.
As orações como a do trecho (e), verbo ‘ser’ + um adjetivo, foram, até o presente
momento, interpretadas como um modelo de oração Relacional Intensiva Atributiva,
guardadas as devidas diferenças entre as línguas inglesa e portuguesa. O Participante 1
Os termos da renegociação é o Portador do Atributo expresso pelo Participante 2 duros.
Nesses tipos de processo, explica-se o que é anunciado, no caso Os termos da
renegociação pela sua inclusão em uma classe/conjunto formado por uma série de outros
‘termos’ da mesma espécie. Assim, ao classificar ‘os termos da renegociação’ como
‘duros’, através do verbo ‘ser’, o autor os está diferenciando dos demais tipos de termos
que possam apresentar outras características diferentes de duros. A função do processo
nesse tipo de oração é a de classificação pela imputação de um Atributo, o qual inclui seu
Portador em uma classe específica.
A classificação dos ‘termos da renegociação’ exige um certo conhecimento do
leitor, uma vez que, se ele não compartilhar a representação sugerida pelo autor, ele pode
não ser a pessoa para quem esse artigo faria sentido ou deveria ser dirigido. Espera-se que
o leitor faça parte da comunidade que sabe o que o conceito de ‘duros’ nesse contexto
significa.
247
No trecho (f) O objetivo do governo é reduzir o saldo devedor, temos uma
configuração de Participante 1 O objetivo do governo, um processo expresso pelo verbo
‘ser’ na 3ª.pessoa do singular do presente do indicativo é e um Participante 2 reduzir o
saldo devedor.
Aqui o autor do artigo escolheu a forma de uma oração reduzida de infinitivo para
o P2, em que P1 O objetivo do governo é o Identificado e P2 reduzir o saldo devedor, o
Identificador. Neste caso, pode-se também fazer o teste da reversibilidade da ordem dos
constituintes oracionais: Reduzir o saldo devedor é o objetivo do governo, o que não
causa prejuízo à construção ou criação dos significados na estrutura informacional, o que
possibilita classificar tal oração como Relacional Intensiva Identificativa.
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A seleção do autor por esse tipo de construção deu-se em detrimento de outras
possibilidades, a saber, A redução do saldo devedor é o objetivo do governo, ou ainda, O
objetivo do governo é a redução do saldo devedor. Essas possibilidades também não
prejudicariam o entendimento do texto.
Em termos de uma análise das escolhas efetuadas para preencher a posição inicial
na oração, podemos inferir que diante do exposto no texto de que o governo de São Paulo
vinha negociando suas dívidas, o autor seleciona para aquela posição o Participante O
objetivo do governo pois esse significado já estava sendo construído ao longo do texto e o
identifica em termos de uma entidade específica reduzir o saldo devedor.
Dessa forma, o autor está fazendo uma distinção do que para ele em uma relação
de igualdade merece destaque, no caso, a redução do saldo devedor. Esse objetivo
poderia ser qualquer outro, mas está identificado por essa característica específica, ou
seja, por uma singularidade. Em uma oração identificativa, o que está sendo anunciado,
no caso, O objetivo do governo é colocado em uma posição distinta em relação aos
demais de seu grupo pela atribuição de sua identidade reduzir o saldo devedor.
O último trecho deste artigo (i) Do total, R$ 2,8 bilhões serão das empresas
estatais paulistas apresenta um P1 R$ 2,8 bilhões, um processo expresso pelo verbo ‘ser’
na 3ª.pessoa do plural do futuro do indicativo e um P2 das empresas estatais paulistas.
Aqui, observa-se que o P2 inicia com a preposição de + o artigo definido
feminino plural as que expressa uma relação de posse, ou seja, uma entidade possui a
outra. Neste caso, essas orações podem ser consideradas Relacionais Possessivas que, por
248
sua vez, podem ser de dois tipos: (a) possessão como Atributo e (b) possessão como
Processo.
O exemplo acima enquadra-se no tipo (a) possessão como Atributo. Esse tipo de
oração pode ser construída tanto como atributivas quanto identificativas. No modo
Atributivo, a relação é construída como o Atributo e toma a forma de um grupo nominal
possessivo que no exemplo em questão é das empresas estatais paulistas, sendo a coisa
possuída R$ 2,8 bilhões, o Portador e o Possuidor das empresas estatais paulistas, o
Atributo.
No entanto, esse tipo de oração não é de todo sintagmaticamente diferente das
orações identificativas; a oração acima poderia ser tanto atributiva – R$ 2,8 bilhões é um
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membro da classe das possessões das empresas estatais paulistas – ou identificativa – R$
2,8 bilhões é identificado como pertencendo às empresas estatais paulistas. No caso do
modo identificativo, a posse toma a forma de uma relação entre duas entidades, podendo
ser organizada com a relação expressa como uma característica dos participantes.
Nesse caso, possessão como participante, o participante incorporará a noção de
posse, significando propriedade do possuidor – das empresas estatais paulistas, o outro
significando a coisa possuída – R$ 2,8 bilhões. Essa seleção foi realizada em detrimento
de uma outra possibilidade de instanciação, a saber, R$ 2,8 bilhões pertencem às
empresas estatais paulistas.
A semelhança entre a oração instanciada pelo verbo ‘ser’ e a instanciada pelo
verbo ‘pertencer’ pode ser resultado do tipo de função a que o autor deseja que a
linguagem de seu texto sirva, pois tanto os processos materiais como os relacionais
trazem informações sobre a possessão.
Vale a pena chamar a atenção novamente para o fato de que estamos diante de
outra impossibilidade de determinar exatamente se se trata de processo identificativo ou
atributivo de acordo com as definições da GSF. Meu entendimento é que ao nos
concentrarmos em aspectos semânticos contextualizados, nos deparamos, por vezes, com
a dificuldade de classificação estrita.
249
4.3
A instanciação do verbo ‘ser’ na ordem V-P (Verbo-Participante)
Nos exemplos abaixo, o verbo ‘ser’ ocorre instanciado na posição inicial da
oração, tematizado, em intervalos razoavelmente regulares, indicando o modo como o
conteúdo foi organizado para atender à criação dos significados.
Exemplo (3): Artigo 5 – “A grande onda”, por Paulo Guedes, publicado no jornal
O Globo – 597 palavras – 7 ocorrências do verbo “ser”, sendo 4 iniciando a oração.
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Ilustrarei e analisarei apenas 3 das 4 ocorrências no início da oração.
“As estradas que levam à catedral estão entupidas por multidões de peregrinos. (a)
São fiéis que desejam agradecer preces atendidas. (b) São comerciantes que vieram
comprar e vender na capital da mais rica província da Europa, centro comercial e
industrial de têxteis, armas e couros.
[...]
Os preços elevados mais rapidamente eram os de energia, comida e insumos
básicos, itens demandados mais fortemente durante período de crescimento populacional.
(c) São também produtos com baixa elasticidade de oferta.
[...]
Mas a grande onda derrubou um papa, seu sucessor foi assassinado, o papado
removido para Avignon e o rei Edward II, da Inglaterra, foi empalado em ferro quente.
Hoje (d) seria tudo mais simples.”
Análise
O autor inicia a oração do primeiro parágrafo estabelecendo o contexto
situacional onde se dá o fato que relatará. Localiza o lugar, o processo e os participantes
daquele processo específico, ou seja, o de haver uma estrada entupida de peregrinos.
No primeiro trecho, o participante – peregrinos – na oração As estradas que
levam à catedral estão entupidas por multidões de peregrinos – é identificado e
250
recuperado pelas orações seguintes (a) e (b), iniciadas pelo verbo ‘ser’ na terceira pessoa
do plural do presente do indicativo.
No segundo parágrafo do texto, a sentença (c) também identifica os partipantes –
energia, comida e insumos básicos – na anterior, sendo que, nesse caso, há uma
identificação de forma resumitiva, expressa lexicalmente como produtos, o que retoma o
anteriormente dito dando posseguimento ao discurso.
Neste parágrafo também, o autor utilizou-se do mesmo recurso, a saber, a
tematização do verbo ‘ser’, como em (c), como recurso para estabelecer uma referência
anafórica que proporcionou a coesão textual e a possibilidade de continuar adicionando
mais informações aos participantes – peregrinos e energia, comida e insumos básicos –
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das orações anteriores.
Ao tematizar o verbo ‘ser’ nas orações (a) e (b) que se seguem à primeira, o autor
estabelece uma ligação de ordem lógica e coerente com o dito anteriormente,
acrescentando características identitárias aos participantes mencionados na oração
anterior.
Como em português os verbos podem ser flexionados em número e pessoa, a
flexão do verbo ‘ser’ é suficiente para estabelecer a referência léxico-gramatical,
possibilitando, através da interdependência das orações, que o texto se desenvolva.
O discurso está constituído pela sucessão de informações, o que constrói o texto
de forma gradual. O resultado da instanciação da adição de informações relacionadas
pelo verbo ‘ser’ é um aspecto coesivo, marcando a textura lingüística do artigo, pois
percebe-se a interligação semântica entre os elementos lingüísticos do texto.
Neste artigo, o tipo de relação representada pelas orações iniciadas pelo verbo
‘ser’ é a intensiva identificativa; ou seja, ideacionalmente temos uma oração Relacional
Intensiva Identificativa: Participante 1 – Identificado: grupo nominal multidões
de
peregrinos; energia, comida e insumos básicos, um Processo: grupo verbal são e um
Participante2 – Identificador: grupo nominal fiéis e comerciantes; produtos com baixa
elasticidade de oferta.
Os Identificadores fiéis e comerciantes servem como identidade do Identificado
multidões de peregrinos. Multidão de peregrinos é construído identitariamente, assim
como produtos com baixa elasticidade de oferta serve como identidade do Identificado
251
energia, comida e insumos básicos, que também é construído identitariamente. Em cada
caso, o Participante 1 está sendo identificado de uma forma única.
Ao fazer sua seleção, ao realizar um significado, o autor realiza uma escolha entre
outras possíveis, de forma paradigmática e sintagmática. Na construção paradigmática,
construímos um fenômeno como sendo de um tipo particular, fazendo uma seleção a
partir de um conjunto de tipos potenciais. É a esse potencial da linguagem que o autor
recorre para construir sua experiência do mundo, privilegiando, como no exemplo acima,
a identificação em detrimento de outras possibilidades, construindo um fenômeno com
composição específica, a saber, o da relação de identidade.
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Nesse mesmo viés, apresento abaixo outros exemplos do corpus, como o
do Artigo 1 – Nós a imprensa – de Ali Kamel, publicado no jornal O Globo, de que
transcrevi quase na integra para que pudéssemos verificar as várias ocorrências de
tematização do verbo ‘ser’. – 1.172 palavras – 32 ocorrências do verbo ‘ser’, sendo 12 na
posição inicial da oração, das quais apenas 6 serão apresentadas aqui para ilustração.
Vejamos os detalhes:
Exemplo (4):
“No
meio da crise política, a imprensa virou alvo. Os que aparecem como
acusados falam em massacre e em conspiração. Alguns acusadores falam em
benevolência e falta de firmeza. Ninguém, fala em espelho.
(a) É muito comum. Mesmo entre os maiores defensores da liberdade, muitas
vezes ouvi coisas do tipo: “Como é que vocês abrem espaço para um assunto como
esse?”
[...]
“A cada minuto, os jornalistas devem estar prontos para ter acesso ao que
acontece no Brasil e no mundo. Devem ser capazes de captar os fatos, escolher aquele
com relevância para ser divulgado, entendê-lo, decodificá-lo e recodificá-lo numa
linguagem acessível a multidões. (b) É um processo contínuo, sem tréguas, até o
fechamento.
[...]
252
Não, não se trata de democratismo. Nada em jornalismo é decidido por maioria.
Não se vota. A maioria nem sempre ganha. Aliás, a maioria nem sempre se materializa.
Eu me refiro à natureza mesma do processo de trabalho: trata-se de um trabalho coletivo,
imperativamente coletivo, necessariamente coletivo. Depende-se do repórter, do
fotógrafo, do redator, do diagramador, do subeditor, do editor, do editor-chefe, do diretor
de redação. Tudo depende sempre de uma coleção de cabeças.
A vacina funciona também graças a outra característica das redações: não existe
filtro ideológico.
Eu sei, o leitor agora deve estar achando que exagerei. (c) Mas é a pura verdade.
Evidentemente, um jornal procura se cercar dos melhores profissionais: daqueles que
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apuram bem, daqueles que escrevem bem, daqueles que são criativos, daqueles que são
éticos, daqueles que têm uma boa história profissional.
[...]
O que um não disse, seja por erro, seja por incompetência, seja por omissão, o
outro dirá. O que um disser de errado, o outro dirá de certo. Mesmo que um jornal erre
por muitas semanas, outros acertarão. (d) E será sempre o público a julgar.
[...]
Com isso, o meio, privado, deformaria a mensagem segundo seus interesses. (e) É
uma visão que infantiliza o público: para se manterem, as empresas de mídia devem
satisfazer os anseios do público, e este demanda informação de qualidade, correta, isenta,
abrangente. Eu poderia dizer que a crítica de Chaúi revela um saudosismo de
experiências como o “Pravda”. Mas (f) seria injusto: ela sabe que ali não se tratava de
jornalismo, mas de propaganda”.
Análise
Neste artigo, Ali Kamel argumenta em favor da imprensa, defendendo-a como um
trabalho imparcial e correto, que está a serviço da opinião pública, não conspira contra
ninguém e tampouco é benevolente, mas sim o espelho do que acontece. Kamel parece
estar dando uma resposta a uma crítica da parte de Marilena Chauí de que a imprensa
estaria deformando “a mensagem segundo seus interesses”.
253
Ao invés de começar o artigo respondendo a esse posicionamento, o autor o inicia
deixando entrever que os que criticam a imprensa por expor os fatos são os que se sentem
feridos em suas suscetibilidades. A partir de então, vai construindo seus argumentos
ressaltando as características identitárias do jornalismo.
Após uma breve contextualização da questão a ser abordada – o fato de que a
imprensa virou alvo de críticas – no primeiro parágrafo do texto, Kamel inicia o
parágrafo seguinte com uma oração em que o verbo ‘ser’ está tematizado, seguido do
adjetivo comum, modificado pelo advérbio muito.
Por estar iniciada pelo verbo ‘ser’, essa oração estabelece uma relação com o
parágrafo anterior, de forma coesiva e referencial, pois refere-se ao conteúdo semântico
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do parágrafo anterior, a saber, a crítica à imprensa, estabelecendo, dessa forma, o foco em
um objeto anafórico. O objeto anafórico é a informação contida no parágrafo anterior.
Não há necessidade de repeti-lo, pois o uso do verbo é suficiente para o estabelecimento
da relação semântica.
O autor selecionou o verbo ‘ser’ para expressar as características inerentes da
imprensa, estabelecendo-as, dessa forma, como irrefutáveis. Em sua escolha pela
tematização do verbo ‘ser’, o autor posiciona-se diante do exposto anteriormente,
apresentando seu ponto de vista em uma argumentação que quer convocar o leitor a
interagir, pois cria seus significados de forma opinativa.
O uso de tal estrutura tem como objetivo funcionar como uma síntese, um resumo
da idéia apresentada no parágrafo anterior, como se fosse uma opinião do autor. Dessa
forma, com essa elaboração argumentativa, Kamel objetiva efeitos pragmáticos, ou seja,
o autor deseja mostrar ao leitor que a crítica que ora é feita à imprensa não é algo
excepcional, mas um fato comum, e a construção desse significado é obtida através da
tematização do verbo ‘ser’ mais o adjetivo comum.
A oração É comum pode ser considerada uma oração Relacional Atributiva, pois
através do adjetivo comum, o autor designa um atributo ao que foi dito anteriormente,
expressando um julgamento sobre a normatividade da questão.
Ideacionalmente, a oração é considerada uma oração Relacional Intensiva
Atributiva com um Participante 1 – Portador, realizado pelo significado construído ao
longo do parágrafo anterior), um Processo expresso pelo grupo verbal é e um Participante
254
2 – Atributo, expresso pelo grupo nominal muito comum. Isto é, o Atributo muito comum
é conferido ao Portador – parágrafo anterior.
No segundo exemplo, a sentença (b) É um processo contínuo, sem trégua, até o
fechamento, verifica-se uma oração que caracteriza os procedimentos que envolvem o
trabalho jornalístico como sendo o de um processo que não tem intervalo. Ao tematizar o
verbo ‘ser’, o autor relaciona as várias orações anteriores em um único significado,
realizando uma coesão textual referencial, o que proporciona que o desenvolvimento do
fluxo de eventos discursivos dê-se de forma evolutiva.
A leitura indica que Kamel, ao escolher tematizar o verbo ‘ser’, tenciona fazer
com que o leitor chegue à conclusão de que o trabalho dos jornalistas, como exposto
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antes, não é um trabalho autoritário, mas um trabalho que merece elogios pelo que revela
ser de tão intenso. Isto significa que o leitor é levado a elaborar as diversas informações
anteriormente fornecidas a cerca de como ocorre o trabalho dos jornalistas – um trabalho
que não se interrompe até que seja concluído – e a considerá-lo de outra forma e não com
críticas.
Ele acrescenta a isso também a idéia de que se trata de um trabalho coletivo, a
serviço do público, que dá oportunidade a todos e que, portanto, uma notícia que afeta de
forma negativa a alguém não é algo pessoal e sim um trabalho profissional de espelhar os
acontecimentos.
As informações, como as localizadas na oração (b) É um processo contínuo, sem
trégua, até o fechamento, realizam-se como uma mensagem que pode ser trocada entre
autor e leitor. Isso envolve relações no desenvolvimento do texto e a atribuição de status
textual diferente, como a tematicidade, o valor da informação, a continuidade e o
contraste de idéias. Essas relações e status capacitam a troca de informações: o autor guia
o leitor para a interpretação do texto em desenvolvimento.
Em termos da base semântica ideacional, temos uma oração Relacional Intensiva
Identificativa, constituída de um Participante 1, o Identificado, realizado pelo significado
construído no parágrafo anterior – processo da construção da informação jornalística –,
um Processo expresso pelo grupo verbal é e um Participante 2, o Identificador, realizado
pelo grupo nominal um processo contínuo. Isso significa que o Identificado está sendo
255
singularizado ao ser identificado como um processo contínuo – uma construção que está
em oposição aos processos não-contínuos.
Ao estabelecer a identificação da imprensa como um processo contínuo,
relacionando as orações anteriores através da tematização do verbo ‘ser’, o autor faz com
que ‘esse pedaço da linguagem’ seja ‘operacional’, funcionando como uma unidade no
contexto de situação, constituindo um texto.
Isto significa que o autor utiliza-se da linguagem que é funcional no sentido de
que ela está a serviço da argumentação a favor da imprensa para defender sua
imparcialidade.
A oração (c) Mas é a pura verdade reforça a idéia acima exposta ao expressar a
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tentativa do autor de convercer o leitor de que o que disse anteriormente é verdadeiro. Ao
apresentar os detalhes de como se dá o processo do trabalho jornalístico, o autor informa
que uma das características das redações é a de não haver filtro ideológico. Como pensa
que o seu leitor até aquele momento pode não estar convencido de seus argumentos,
inicia o parágrafo seguinte dirigindo-se diretamente ao leitor, acrescentando a afirmação
Mas é a pura verdade.
Essa oração, como a anterior, por estar iniciada pelo verbo ‘ser’ estabelece a
relação com o anteriormente dito, mantendo o fluxo do desenvolvimento do discurso. A
identificação do que foi dito com a oração seguinte mais uma vez revela o
posicionamento do autor quanto aos fatos por ele expostos de forma argumentativa e
persuasiva.
O autor iguala tudo que disse anteriormente à verdade e esse uso da linguagem é
importante para o desenvolvimento argumentativo, uma vez que visa a convencer o leitor
de que está sendo imparcial, está espelhando os fatos, dizendo a verdade.
Como pode-se observar, nesse exemplo, a coesão de um texto depende de um
certo grau de redundância, na qual retomam-se as idéias e parte delas, utilizando-se de
palavras já ditas, significados já construídos, expressões equivalentes etc., pois o
potencial para a coesão reside nos recursos sistemáticos de referência.
Verifica-se, portanto, que há um processo relacional expresso pelo verbo ‘ser’ do
tipo Intensivo Identificativo, onde o Particiante 1, o Identificado é realizado pelas
256
informações fornecidas anteriormente, o Processo é expresso pelo grupo verbal é e o
Participante 2, o Identificador, pelo grupo nominal a pura verdade.
Em resumo, P1, o Identificado, é identificado por P2, o Identificador. Embora a
oração (c) inicie-se com a conjunção mas, o significado referencial se estabelece pela
relação que o verbo ‘ser’, nessa oração, realiza com as orações anteriores.
A oração (d) E será sempre o público a julgar apresenta o verbo ‘ser’ no futuro
do indicativo, em posição inicial. Essa oração refere-se ao significado construído nas três
orações antecedentes a ela e realiza a coesão de significados. O desenvolvimento do texto
dá-se pela opção de tal construção estrutural.
Kamel poderia ter escolhido uma outra organização estrutural, como por exemplo
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O público será sempre aquele que julgará ou ainda O público julgará sempre. No
entanto, escolheu o verbo ‘ser’ e, ao posicioná-lo no início da oração, faz referência a sua
afirmação de que tudo que a imprensa fizer de certo ou de errado será julgado pelo
público.
Assim, o uso de um verbo, como no caso o verbo ‘ser’, cujas características
estabelecem algo como permanente e não estável, é um recurso favorável e de grande
utilidade na argumentação. Esse tipo de construção é a que origina os encadeamentos
discursivos, ou seja, a progressão do discurso, através da relação estabelecida entre os
parágrafos para fins de produção de um texto. É dessa forma também que se pode dizer
que sempre há uma argumentatividade subjacente ao uso da linguagem.
A organização temática selecionada pelos autores acima identifica um elemento
como sendo exclusivo naquele ponto na oração. Essa construção mostra que o verbo ‘ser’
carrega a posição temática e também o foco da informação que se seguirá e exerce a
função de coesão e referência discursiva.
Exemplo (5): Artigo 68 – “As brasas dormidas”, por Tereza Cruvinel, publicado
no jornal O Globo. – 869 palavras – 7 ocorrências do verbo “ser”, sendo 2 na posição
inicial da oração, para as quais apresento a descrição a seguir.
“Apressou-se e pode levar chumbo grosso na CPI dos Bingos, onde a oposição
nada de braçada e os tucanos, com a ajuda do PFL, ameaçam investigar o caso Gamecorp
257
(a empresa do filho do presidente Lula que recebeu aporte de R$ 5 milhões da Telemar),
convocar seu irmão Vavá e investigar o uso de caixa dois na campanha presidencial e nas
campanhas estaduais de 2002. (a) É a luta política, para a qual já se animam os petistas
com a recuperação de Lula, e os tucanos com a pesquisa Ibope mostrando que Serra
bateria Lula num segundo turno em 2006.
Mas para os que de fato desejam saber toda a verdade sobre o mundo escuro do
financiamento de campanhas no Brasil e sobre a ação eleitoral de Marcos Valério,
conhecer sua experiência inaugural pode ser importante. Pode ajudar inclusive os
membros da CPI dos Correios a vencer o maior desafio, que é demonstrar a origem dos
recursos do valerioduto.
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Recapitulando: Cláudio Mourão foi secretário de administração no primeiro
governo Azeredo. (b) Foi ele quem indicou sua ex-funcionária Simonete Vasconcelos
para trabalhar com Valério na SMP&B. Como coordenador da campanha, recebeu do
então candidato uma procuração para tomar as providências necessárias, relativas
inclusive ao financiamento da campanha. E uma delas foi a tomada de um empréstimo
junto ao Banco Rural, por Marcos Valério, no valor de R$ 9,5 milhões.”
Análise
A oração (a) É a luta política apresenta o verbo ‘ser’ tematizado, no presente do
indicativo. A tematização do verbo foi usada com a intenção de estabelecer uma relação
com o anteriormente dito, ou seja, as informações contidas na oração anterior à oração (a)
são identificadas como sendo a luta política. Vale ressaltar que a autora fornece várias
informações na oração anterior e ainda quer identificá-las com sua opinião, a saber, a de
que se trata da luta política.
A tematização do verbo ‘ser’ tornou possível retomar os fatos relatados e dar
continuidade ao texto. Isto nos revela como a autora fez suas escolhas para a organização
textual, pois a escolha dos temas das orações desempenha uma parte fundamental na
forma como o discurso é organizado. A escolha da autora estabelece a coesão e a
referência com o anteriormente dito de forma identitária, ou seja, a autora identifica os
acontecimentos relatados e dá continuidade ao texto.
258
Em termos de construção do significado ideacional, na oração É a luta política
temos um Participante 1, o Identificado realizado pelos significados construídos na
oração anterior, um Processo expresso pelo grupo verbal é e o Participante 2, o
Identificador, expresso pelo grupo nominal a luta política.
A partir do que Halliday (2004, p.579) ressalta sobre o fato de que o status
temático atribuído aos componentes da mensagem pelos falantes “produz textos e ajuda
seus ouvintes a interpretá-los”, retorno à oração (a). Quando a autora usa É a luta
política, ela dá ao verbo ‘ser’, no caso em questão É, o status de Tema, tratando-o como
uma síntese da informação que já foi dada e que é recuperável (identificável) por seus
leitores. Por outro lado, ela dá ao grupo nominal a luta política um status de informação
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nova, portanto, não-recuperável.
Esse tipo de escolha realiza um sentido textual, pois é recuperável
referencialmente, o que comprova como o tipo da oração Relacional Intensiva, tanto
Identificativa quanto Atributiva, acomoda esse padrão neste tipo de texto, pelo uso do
verbo ‘ser’ tematizado.
Na oração (b) Foi ele quem indicou sua ex-funcionária Simonete Vasconcelos
para trabalhar com Valério na SMP&B, verifica-se que pós-posto ao verbo ‘ser’, que
inicia a oração, está o pronome pessoal do caso reto ele que substitui a repetição do nome
de Cláudio Mourão, mencionado na oração anterior, mas que não é imprescindível no cotexto, pois se o omitíssemos, não haveria prejuízo do significado. Portanto, a opção de
usar o pronome ele na oração teve por objetivo apenas dar ênfase ao sujeito em questão.
Isso vem corroborar a defesa de que o verbo ‘ser’ relaciona os significados
construídos anteriormente e os transporta adiante no texto e, por estar flexionado na 3ª.
pessoa do singular, estabelece a referência com a pessoa em questão – Cláudio Mourão.
A tematização do verbo ‘ser’ não só estabelece claramente uma coesão textual, pois
marca a continuidade entre uma parte do texto e a outra, como também cria pontos de
contato com o que veio antes.
Ao fazer a ligação da oração (b) com a anterior, via uma relação de significados,
ou melhor dizendo, via um par de orações ligadas por uma relação de significados, nossa
atenção é dirigida para conhecermos mais informações sobre quem ele (que já sabemos
ser o Cláudio Mourão) foi. A relação fica estabelecida e mantida pela projeção da atenção
259
do leitor anafórica e cataforicamente, através do verbo ‘ser’, pois só saberemos mais
sobre quem Cláudio Mourão (ele) foi após seguirmos lendo a frase.
Isso significa que há relações de significados que revelam uma abordagem
recursiva, como afirmam Mann & Thompson (1992, p.42) ao explicarem que os textos
apresentam-se como pares de orações-irmãs. Mann & Thompson definem tal ocorrência
como a que se estabelece entre duas orações se a anterior apresentar um objeto, isto é, se
a anterior mencioná-lo e a subseqüente apresentar um atributo ou uma identificação desse
objeto. Essa ocorrência é o que estou chamando de relação coesiva e que estou atribuindo
como função discursiva do verbo ‘ser’.
Já o que os autores definem como objeto não está claro no artigo referido, mas
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pode-se inferir que a relação tem uma interpretação muito ampla, a saber, permitir que
duas orações sejam relacionadas sempre que elas referirem-se à mesma entidade.
Neste exemplo, a autora está identificando o participante ele (Cláudio Mourão)
em termos de suas realizações no mundo escuro do financiamento de campanhas no
Brasil e sobre a ação eleitoral de Marcos Valério. A escolha por posicionar o verbo ‘ser’
como o elemento inicial da oração cria uma convocação argumentativa, preparando o
leitor para o que está por ser identificado, direcionando as expectativas dos leitores com
relação ao que está sendo dito. A tematização do verbo ‘ser’ é o recurso para a
organização dessa oração como uma mensagem, pois o verbo ‘ser’ está em destaque em
um ponto exclusivo da oração, resultado da escolha no sistema de Predicação de Tema, o
que indica que a oração (b) pode ser classificada como uma oração de Tema Predicado,
uma vez que segundo Halliday (2004, p.95), “qualquer elemento que tenha uma função
representacional na oração pode ser marcado pela predicação dessa forma”.
Tipicamente, a informação nova vem no final da mensagem. Para deixar claro de
que é isso e nada mais o valor novo dessa unidade particular de informação, o autor tende
a usar a forma predicada É .......que/quem. Isto tem o efeito de criar uma estrutura local
que tem a função adicional de direcionar o leitor para interpretar a estrutura que contém a
informação na forma intencionada pelo autor, resultando em uma estrutura temática na
oração como tema predicado.
Os constituintes referenciais em orações iniciadas pelo verbo ‘ser’ como os
exemplos acima apresentam uma função dupla, ou seja, é o elemento pós-verbo ‘ser’ na
260
oração inicial e o antecedente para a oração subordinada. A oração subordinada tem o
pronome da oração inicial como um tipo de co-referência pronominal. O papel desse tipo
de estrutura é especificar, ou identificar.
Ao iniciar a oração pelo verbo ‘ser’, o autor chama a atenção para a relação entre
Cláudio Mourão e Marcos Valério ao atribuir-lhe uma identificação de sua atuação na
indicação da funcionária que foi trabalhar com Marcos Valério, identificação essa
possível pelo uso do verbo ‘ser’. Dessa forma, essa oração é parte da oração anterior, com
sua estrutura temática própria.
Ideacionalmente, temos uma oração constituída do Participante 1, o Identificado,
expresso pelo grupo nominal ele, um Processo expresso pelo grupo verbal foi e o
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Participante 2, expresso pela oração adjetiva quem indicou sua ex-funcionária Simonete
Vasconcelos. Segundo a GSF, essa oração pode ser classificada como uma oração
Relacional Intensiva Identificativa. Em termos de mensagem, a oração (b) pode ser vista
como a escolha no sistema de Tema Predicado, pois envolve uma combinação distinta de
escolhas temáticas e informacionais. Essa oração compartilha algumas das características
das equativas temáticas, a saber, os elementos da oração estão organizados em dois
constituintes, ligados por uma relação de identidade, expressa por alguma forma do verbo
‘ser’.
A oração (b) apresenta detalhes adicionais sobre Cláudio Mourão – quem indicou
sua ex-secretária para trabalhar para Valério, o qual nos é apresentado na oração anterior.
Isso significa que reconhecemos a situação apresentada na oração (b) como fornecendo
detalhes adicionais para a oração anterior. A relação estabelecida pela tematização do
verbo ‘ser’ identifica o participante para o qual os detalhes são fornecidos. Dessa forma,
o elemento inicial – foi - funciona como modelador do que está por vir e forma
expectativas nesse sentido. Se essas expectativas não forem correspondidas, o leitor será
forçado a revisar a expectativa anterior ou rejeitar a construção inteira, sendo, portanto,
esse tipo de estrutura fortemente coesiva e contribuinte para a coerência textual a que me
referi antes.
Vale ressaltar que a autora inicia o parágrafo anterior dizendo que irá relatar toda
a verdade para aqueles que a desejam saber, estabelecendo, dessa forma, o contexto em
que se insere tal afirmação. No parágrafo seguinte, começa com a palavra Recapitulando,
261
partindo para a identificação de Cláudio Mourão. Ao fazer isso, a autora mostra uma
preocupação em fundamentar bem seus argumentos.
A tematização do verbo ‘ser’ contribui para o objetivo da autora de alcançar um
efeito único, que é o de manter no processo semântico algumas entidades ou traços
relevantes do argumento de um momento para o outro, enquanto os significados
desenvolvem-se. Neste exemplo específico, o verbo ‘ser’ direciona a atenção do leitor
para interpretar a estrutura informacional da forma pretendida pela autora, ou seja, a de
indentificar Cláudio Mourão, por meio de tornar explícito o processo ‘ser’ – foi. O
conhecimento que o leitor adquiriu anteriormente contribui para que se torne ciente de
fatos adicionais, como o de Cláudio Mourão ter indicado sua ex-secretária para trabalhar
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com Valério.
A partir dessa perspectiva, pode-se afirmar que a organização temática dessa
oração é um fator significativo no desenvolvimento do texto. A análise da estrutura
organizacional revela o que a autora quis marcar como a natureza de suas intenções
subjacentes, ou seja, identificar Cláudio Mourão associando-o a sua atuação na questão
abordada. O uso desse tipo de construção possibilita a interação dialógica de forma
contínua, através da referência anafórica estabelecida pelo verbo ‘ser’ que, por sua vez,
também proporciona novas produções.
Vale ressaltar que as escolhas temáticas de um texto não ocorrem no vácuo, mas
num contexto específico em que o texto desempenha uma determinada tarefa
comunicativa, pois segundo Halliday (1994, p.61), “a contribuição importante vem da
estrutura temática das orações independentes”.
Em português, esta sentença é, em geral, uma opção bi-oracional sintática que
forma uma unidade semântica. Uma abordagem abrangente desse tipo de construção
necessita também levar em conta a forma como construções como essa exploram o verbo
‘ser’ e sua relação com a oração posposta. A abordagem sobre a posição inicial do
processo, no caso o verbo ‘ser’ – processo relacional –, foca na natureza do verbo e trata
a oração posposta como relacionada ao pronome ou como modificando o pronome ou
nome que a antecede, no caso o pronome ele. Juntas, as duas orações formam uma
unidade semântica e o constituinte que precede a oração posposta, no caso o pronome
pessoal ele, é identificado, ou igualado a essa unidade, através do uso do verbo ‘ser’.
262
A estrutura bi-oracional apresenta uma organização oracional sintática com o
verbo ‘ser’ na oração principal, expressando exclusividade. Por exemplo, Foi ele e
ninguém mais quem indicou sua ex-funcionária Simonete Vasconcelos, ou seja, Ele
indicou sua ex-funcionária Simonete Vasconselos e ninguém mais. A oração posposta à
principal é referencial, pois cria um significado pragmático que inclui a existência no
discurso de um referente para o qual é fornecida uma identidade. A escolha de iniciar tal
construção com o verbo ‘ser’ vem também estabelecer com o leitor uma interação,
deixando o papel semântico para o constituinte antecedente à oração posposta preencher.
Este papel é referencial no sentido de que ele expressa a existência de alguém que
indicou Simonete Vasconcelos.
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Pode-se dizer que a oração posposta é informativa, pois informa que alguém
existe e que fez algo exclusivo naquele contexto, constituindo uma expressão referencial.
A oração posposta serve para identificar e adicionar informações sobre o referente. Isto
explica por que o constituinte antecedente da oração posposta é interpretado como
existindo.
O padrão estrutural desse tipo de construção apresenta um elemento que tem uma
função representacional na oração, no caso um processo – processo relacional. A unidade
de informação serve para estruturar o texto em dois componentes, de acordo com o status
que o autor deseja que o leitor concorde como informação e para a qual o autor deseja
direcionar a atenção do leitor. Uma parte são as novidades: o que o leitor está sendo
convidado a perceber como novo, ou inesperado, ou importante. A outra parte são as
coisas já conhecidas: o que está representado como já sendo conhecido pelo leitor.
O verbo ‘ser’ está de forma sintática diretamente relacionado com a oração
restritiva e também de forma semântica e pragmática diretamente relacionado com o
pronome ele. Em termos sintáticos, a oração restritiva é uma oração complementar, cujo
verbo indicar atribui um papel semântico ao elemento compartilhado ele. A oração é uma
combinação de duas relações semânticas associadas com as duas construções que
compõem a sentença. O verbo ‘ser’ estabelece a relação semântica entre as duas
construções, assim como a relação com os significados construídos anteriormente.
263
Exemplo (6): Artigo 45 – “Só crescendo mais”, por George Vidor, publicado no
jornal O Globo – 929 palavras – Embora este artigo apresente apenas 1 ocorrência do
verbo “ser” na posição inicial num total de 13 ocorrências, o artigo foi selecionado por
apresentar uma construção diferente das analisadas até então, representando mais uma
contribuição para a análise.
“A geração de empregos com carteira assinada só começa a ser expressiva no
Brasil quando o crescimento econômico passa de 3,5% ao ano (e a renda média dos
brasileiros evolui pelo menos 2,5%). (a) É o que mostram as estatísticas do IBGE e do
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Ministério do Trabalho desde que o país conseguiu domar a inflação.
Análise
A oração (a) em destaque inicia-se com o verbo ‘ser’ seguido de pronome
demonstrativo na função de objeto do verbo mostrar. O autor poderia ter escolhido um
ponto de partida diferente, a ordem canônica, mas consciente ou inconscientemente
escolheu tematizar o verbo ‘ser’. Caso tivesse optado pela ordem canônica, a oração
poderia ter sido elaborada da seguinte forma: As estatísticas do IBGE mostram aquilo [o
dito na oração anterior].
Porém, ao optar pela construção iniciada pelo verbo ‘ser’, o autor enfoca o objeto
do verbo mostrar, verbo da oração subordinada, tematiza o processo, o qual estabelece a
relação com o parágrafo anterior, e dá continuidade ao fluxo de desenvolvimento do
texto, de forma coesiva e coerente.
Quando faço referência ao conceito de fluxo do discurso, baseio-me no fato de
que o verbo ‘ser’ tematizado cria relações semânticas coesivas e referenciais.
Os
diferentes padrões de escolha do que pode vir antes é um recurso textual de construção de
significados através dos quais a escolha pode ser manipulada e explorada, consciente ou
inconscientemente, pelo autor do texto para produzir seu ponto de vista.
A escolha pelo verbo ‘ser’ como iniciador da oração, ajuda a organizar a
mensagem e desempenha um papel importante no fluxo do discurso. Essa escolha
também ajuda a construir a interpretação da oração e do texto pretendida, contribuindo
264
para a construção dos significados, para a organização das idéias em um texto e para a
interpretação da mensagem pelo leitor.
A escolha com relação ao que tematizar é feita com referência ao que foi dito e ao
que aconteceu antes. Esse ambiente cria as condições para que a tematização do verbo
‘ser’ ocorra. No conjunto de condições contextuais, o autor pode explorar esse potencial
que a linguagem oferece, usando estruturas temáticas como as produzidas para construir
as variedades de efeitos retóricos desejados. Esse tipo de construção identifica apenas um
elemento como sendo exclusivo naquele ponto da oração, no caso o verbo ‘ser’.
As orações com objetos clíticos pré-verbais (deslocados à esquerda), em geral,
mostram uma função conectiva do verbo ‘ser’, desempenhando uma função introdutória
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do referente do sujeito pós-verbal na posição final da oração.
A oração (a) É o que mostram as estatísticas do IBGE e do Ministério do
Trabalho desde que o país conseguiu domar a inflação apresenta um Participante 1, o
Identificado realizado pela oração anterior, um Processo expresso pelo grupo verbal é e
um Participante 2, o Identificador expresso pela oração o que mostram as estatísticas do
IBGE e do Ministério do Trabalho desde que o país conseguiu domar a inflação.
Exemplo (7): Artigo 32 – “Nova ofensiva da Receita”, publicado no jornal O
Estado de S. Paulo – Editorial – 663 palavras – 8 ocorrências do verbo “ser”, sendo 1 na
posição inicial da oração.
“As cinco mais importantes entidades representativas de firmas de serviços
contábeis e de escritórios de assessoria e perícia fiscal do País divulgaram uma
contundente nota de protesto contra a mais nova ofensiva da Receita Federal para saciar
seu insaciável apetite fiscal. Trata-se do envio, pelo correio, de autos de infração para 75
mil empresas de pequeno, médio e grande portes. Como foram autuadas sem aviso
prévio, diz a nota, elas não puderam se defender, o que viola os princípios do devido
processo legal e da ampla defesa consagrados pela Constituição.
[...]
“(a) É a prepotência autoritária dos métodos empregados para isso o objeto
da nota de protesto das entidades representativas dos escritórios de contabilidade.
265
Na autuação indiscriminada de 75 mil empresas, afirma a nota, parte do montante
cobrado se refere a valores já liquidados em pagamento de outros autos de infração.”
Análise
Neste exemplo, o autor escolheu inverter a direção canônica para chamar a
atenção para o que considera importante e novo para o leitor. Podemos entender melhor
por que o autor utilizou a possibilidade de tematizar o verbo ‘ser’ se re-escrevermos a
oração de forma que o verbo não seja tematizado: O objeto da nota de protesto das
entidades representativas dos escritórios de contabilidade é a prepotência autoritária
dos métodos empregados para isso. Essa construção canônica apresenta algo que já foi
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mencionado no início do artigo e que não chamaria a atenção do leitor. Além disso,
considero que essa escolha pela construção canônica interrompe a coesão e o fluxo do
desenvolvimento dos significados textuais.
A abordagem acima ilustra a idéia de Halliday (1994: 36; 2004:64) de considerar
a oração um evento comunicativo, que se estrutura em torno de uma questão para
construir uma mensagem. O tema, constituinte inicial da oração ou da sentença, é algum
item gramatical (sujeito, verbo, complemento ou adjunto) tomado como ponto de
referência do enunciado.
A forma
determinada sobre os métodos empregados para a arrecadação de
impostos, ou seja, o fato de as empresas terem sido autuadas sem aviso prévio, o que
viola os princípios do devido processo legal e da ampla defesa consagrados pela
Constituição, é a questão identificada no texto como uma prepotência autoritária da
Receita. É esse o significado que o autor deseja construir e convencer o leitor a concordar
com ele, isto é, o de que se trata de uma prepotência autoritária o que a Receita está
fazendo com os contribuintes.
O que ocorre no texto em questão é que a nota de protesto é mencionada no final
da oração que inicia o artigo e retomada, alguns parágrafos após, por uma oração iniciada
pelo verbo ‘ser’, o qual realiza uma relação semântica referencial e coesiva. Nos
parágrafos intermediários, são relatados detalhes dos passos da autuação da Receita.
Portanto, essa escolha temática revela aquilo em que o autor está realmente interessado
266
ou sobre o que deseja falar, e isso está intimamente relacionado com o canal e o papel da
linguagem no evento da comunicação.
Ideacionalmente, os significados construídos nessa oração estão expressos da
seguinte forma: um Participante 1, o Identificador, expresso pelo grupo nominal a
prepotência autoritária dos métodos empregados para isso, um Processo, expresso pelo
grupo verbal é e um Participante 2, o Identificado, expresso pelo grupo nominal o objeto
da nota de protesto das entidades representativas dos escritórios de contabilidade. Tratase de uma oração Relacional Intensiva Identificativa.
Cabe mencionar ainda que os dados revelaram também haver um ponto no qual as
escolhas temáticas analisadas manifestam uma atitude pessoal subjacente ao comentário e
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atribuem maior valor de verdade aos enunciados. É o caso verificado em alguns artigos,
entre eles o Artigo 22 – “O norte é o nosso interesse nacional”, por Rubens Barbosa2,
publicado no jornal O Estado de S. Paulo – 901 palavras – 12 ocorrências do verbo ‘ser’,
sendo 2 na posição inicial.
Exemplo (8):
“No campo econômico, os propósitos da Csan incluem o avanço e consolidação
do processo de convergência rumo ao estabelecimento de uma zona de livre comércio
sul-americana, com vista ao seu aperfeiçoamento, assim como a promoção do
crescimento econômico e a redução das assimetrias, quando possível, mediante a
complementação das economias dos países da América do Sul.
A grande questão é saber como fazer avançar concretamente essas nobres
intenções. (a) É bom recordar que os países andinos, Colômbia, Equador e Peru
estão mais interessados em negociar um acordo de livre comércio com os EUA do
que em se integrar com o Brasil.
[...]
Talvez fosse mais conveniente, segundo nosso interesse, utilizar esses recursos,
no contexto da Comunidade de Nações, para a criação do Banco de Desenvolvimento da
América do sul. (b) É preciso fazer política de sua geografia, como dizia De Gaulle.
2
Rubens Barbosa é consultor, presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp. Foi
embaixador do Brasil nos EUA e na Grá-Bretanha.
267
Análise
A tematização do verbo ‘ser’, juntamente com os itens lexicais os adjetivos bom e
preciso, formando a estrutura É bom e É preciso, revelam temas avaliativos ou
comentários tematizados com diferentes significados ideacionais. Em geral, a escolha
temática serve para orientar o leitor, mantendo sua atenção nos argumentos expostos pelo
autor. Portanto, o comentário tematizado ocorre em ponto de transição chave no texto, ou
seja, a tematização do comentário é um recurso que permite ao autor chamar a atenção de
seu leitor para o valor ou a validade do que está prestes a dizer, e é por isso que “a
organização temática das orações é o fator mais significativo no desenvolvimento do
texto” (Halliday, 2004:105). A partir da observação do que foi tematizado podemos
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inferir o que o autor quis tornar claro para nós sobre a natureza de seus interesses.
No exemplo (a) e (b), verifica-se que Rubens Barbosa interrompe o que vem
relatando, a saber, como avançar para a consolidação de um acordo de livre comércio sulamericano, para fazer lembrar ao leitor que os países andinos têm mais interesse em um
acordo com os EUA do que com o Brasil. A interrupção para introduzir esse comentário é
importante para que o leitor mantenha em mente que o Brasil pode ficar de fora desse
acordo e passe a concordar com os argumentos do autor em defesa da inclusão dos
interesses do Brasil no acordo. Já no exemplo (b), o autor emite uma opinião que é uma
sugestão de que o Brasil amplie seus horizontes. Essa é uma das formas de usarmos a
linguagem, a saber, a de tomar uma posição ou de comentarmos sobre algo, orientandonos socialmente.
Uma outra ocorrência do verbo ‘ser’ tematizado em que se verifica uma avaliação
usada através da escolha de uma construção encaixada, pode ser constatada no exemplo
abaixo:
Exemplo (9): Artigo 13 – “Para além da crise”, por Fernando Henrique Cardoso,
publicado no jornal O Estado de S.Paulo – 1122 palavras – 22 ocorrências do verbo
“ser”, sendo 7 ocorrências na posição inicial da oração e 2 ocorrências seguidas de
adjetivo.
268
“Não era útil governar a Itália, assim como, no nosso caso, a inação do governo e
do Congresso terá repercussões. (a) [É verdade que a excepcional conjuntura
econômica internacional impulsiona as exportações e o crescimento da economia.]
[...]
O mercado, no entanto, não resolve os problemas coletivos, da sociedade e das
pessoas, nem a desigualdade. (b) [É preciso fortalecer outras instituições, do Estado e
da sociedade civil, que se possam contrapor ou complementar a lógica implacável
dos mercados.]”
Análise
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As sentenças entre colchetes apresentam uma estrutura bi-oracional que integra a
estrutura sintática, a semântica e a informação que vinculam. Verifica-se em tais
construções que, embora apresentem uma função pragmática e semântica semelhante a
outras sentenças realizadas com o verbo ‘ser’, a forma de tais construções é
significativamente distinta: no primeiro caso, há uma oração subordinada substantiva
subjetiva – a excepcional conjuntura econômica internacional impulsiona as exportações
e o crescimento da economia; e, no segundo caso, há uma oração subordinada
substantiva reduzida de infinitivo – fortalecer outras instituições.
Ao fazer uso do verbo ‘ser’ tematizado seguido de um adjetivo, o autor tenta
convencer pelos seus enunciados; não é ele quem diz, mas os fatos, cuja veracidade é
irrefutável.
A tematização do verbo ‘ser’ seguido de um adjetivo chamou à atenção pela
expressiva ocorrência não só em diferentes textos como a ocorrência repetidas vezes em
um só texto. Tal forma de construção envolve a separação da informação em duas partes.
Na gramática tradicional do português, são classificadas como orações principais – as
orações que se iniciam pelo verbo ‘ser’ na 3ª pessoa do singular seguido de algum
adjetivo – e como orações subordinadas substantivas subjetivas – as que se seguem às
principais iniciadas pela conjunção que ou quando reduzidas de infinitivo, gerúndio ou
particípio.
A partir do acima exposto, percebe-se que o discurso é socialmente construído e
que o status e as relações são refletidas na linguagem. O texto escrito pode ser muito
269
influente na determinação da identidade social e nas relações entre o autor e o leitor. O
leitor reagirá ou não à identidade construída pelo autor.
No exemplo a seguir, o tipo de estrutura que se apresenta como comentário
tematizado permite que o autor possa avaliar algo de forma incisiva, em geral “em
contraste com uma outra coisa que tenha sido dita” (Lock1996, p.239), chamando sua
atenção para o leitor, como por exemplo: É, de fato, importante construir uma estratégia
de oportunidades, porém é preciso fazê-lo no contexto de um projeto de visão estratégica
do futuro cuja consistência seja a medida do retorno social obtido em qualidade de vida,
a ocupação de um espaço internacional compatível com o potencial agrícola brasileiro
e, por fim, o fortalecimento do agronegócio e de suas numerosas conexões com o
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processo de desenvolvimento do País como um todo. O contexto que precede esse
exemplo é o seguinte:
Exemplo (10): Artigo 4 – “Agronegócio e desenvolvimento”, por José Tadeu,
Jorge3, publicado no jornal O Estado de S. Paulo – 874 palavras – 18 ocorrências do
verbo “ser”, sendo 3 ocorrências tematizadas, das quais duas serão descritas abaixo.
“Voltando ao tema das reformas, apesar da atmosfera positiva que cerca uma das
áreas mais sadias do governo, a da agricultura, creio que se trata de reformar, sobretudo,
certas concepções ultrapassadas que dificultem as ações políticas do agronegócio, como a
ênfase do imediatismo e uma excessiva preocupação com o próprio quintal. (a) É, de
fato, importante [[construir uma estratégia de oportunidades]], porém (b) é preciso
[[fazê-lo no contexto de um projeto de visão estratégica do futuro cuja consistência
seja a medida do retorno social obtido em qualidade de vida, a ocupação de um
espaço internacional compatível com o potencial agrícola brasileiro]] e, por fim, o
fortalecimento do agronegócio e de suas numerosas conexões com o processo de
desenvolvimento do País como um todo”.
3
José Tadeu Jorge, engenheiro de Alimentos, é reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicam).
270
Análise
Neste exemplo, a oração iniciada pelo verbo ‘ser’ está ligada à oração iniciada
pelo verbo ‘construir’ por meio de uma relação lógico-semântica que Halliday classifica
como ‘encaixamento’, formando um complexo oracional (Halliday, 2004, p.154-157), o
qual faz parte da seqüência semântica de figuras realizada pelos demais complexos
oracionais do texto.
Ao ser construído dessa forma, o complexo oracional sob análise revela não
somente a importância de se construir uma estratégia de oportunidades, para a reforma
de concepções ultrapassadas, mas também a tentativa do autor de estabelecer a
necessidade e, portanto, sua importância no contexto dos eventos do texto.
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Por exemplo, o fluxo de eventos construídos neste artigo é realizado pelo
julgamento do autor quanto à importância de serem construídas estratégias de
oportunidades. Para tal, o autor escreve em primeira pessoa, lançando mão de escolhas
léxico-gramaticais do tipo do verbo ‘crer’, usando creio. Em seguida, faz uso de
complexos oracionais em que tematiza o verbo ‘ser’.
Ao tematizar o verbo ‘ser’ seguido de um adjetivo de grau de valor – importante –
a força avaliativa de importante carrega um significado ideacional de relevância e de
julgamento social que o autor pretende colocar em foco ou enfatizar para chamar a
atenção de seu leitor para o que irá dizer depois, ou seja, aquele fato que é significativo
para a sociedade, o de oportunizar ações na área da agricultura que revertam em benefício
não só para o agricultor, mas também para a agricultura como um todo no Brasil.
Vale lembrar que a escolha entre algumas das formas lingüísticas em detrimento
de outras apresenta-se como o fato que sempre determina a função para a qual aquelas
formas lingüísticas estão a serviço, as funções que a linguagem deve servir na sociedade.
Dessa forma, o autor selecionou o verbo ‘ser’ na posição temática e adiou a
oração nominal que expressa o sujeito para o final do complexo oracional, isto é, adiou
uma parte importante da mensagem para dar proeminência a ela. Há, portanto, uma
transferência da dimensão esperada para o final, como uma forma de controle e
transmissão da mensagem e há uma proeminência temática no início da oração.
Aqui as orações estão relacionadas estruturalmente pela gramática; a ligação
estrutural é marcada pela forma infinitiva do verbo ‘construir’. Essa estruturação ilustra
271
os recursos do complexo oracional usados para ‘coreografar’ o desenvolvimento retórico
do texto (Halliday, 2004, p.363-365). Isto significa que há um grau de integração e
interdependência gramatical na realização do encaixamento, que relaciona os elementos
em uma estrutura que pode ser caracterizada como segmental a partir de um ponto de
vista, mas persuasiva a partir de outro ponto de vista.
Em termos do significado metafuncional, o complexo oracional está organizado
pelo modo lógico da metafunção ideacional. O Tema [É, de fato, importante] e seu
significado ideacional são a entrada para uma transferência da dimensão esperada de
significação à avaliação real da normatividade. Há claramente uma escolha envolvendo a
determinação da seqüência e essa escolha é temática. Aqui, verifica-se também uma
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carga interpessoal4 pelo uso do complemento que expressa modalidade/comentário: É
importante.
Em termos de nível, o complexo oracional está localizado no nível mais alto da
gramática – nível oracional – e relacionado à oração em termos de constituinte oracional.
Há uma escolha aqui em detrimento de outras; o autor poderia ter escolhido a oração a
seguir dentro de outras possibilidades: Construir uma estratégia de oportunidades é, de
fato, importante. Mas a inversão expressa o ponto de vista do autor, que o coloca em
primeiro plano de uma forma determinante.
Em termos de uma análise léxico-gramatical, a oração construir uma estratégia de
oportunidades pode ser considerada uma oração atributiva com um Atributo avaliativo
importante. O processo atributivo é realizado na forma do verbo ‘ser’. A segunda
expansão encaixada [[fazê-lo no contexto de um projeto de visão estratégica do futuro
...]] pode ser classificada como Portador do Atributo avaliativo. Temos uma oração de
processo Relacional Intensivo Atributivo. O grupo oracional inicia-se com o verbo ‘ser’
seguido do adjetivo ‘preciso’ que pode ser considerado um Atributo Avaliativo. A oração
encaixada é o Portador de tal Atributo.
A característica de combinar as orações em complexos oracionais resulta em um
efeito de integração mais intensa de significado, ou seja, há uma construção de subseqüências na seqüência total dos eventos que compõem o texto. Por exemplo, a escolha
4
Embora haja uma menção à metafunção interpessoal em algumas passagens desta análise, foge ao escopo
da tese um enfoque mais específico de tal metafunção.
272
de um complexo oracional em que o autor privilegia colocar em primeiro plano [É, de
fato, importante] e [é preciso] demonstra uma integração maior dos significados que
deseja construir, a saber a expressão de seu ponto de vista com relação ao assunto tratado.
O parágrafo é realizado por uma série de outros complexos oracionais que
também expressam o ponto de vista do autor, o qual começa fazendo uma retomada de
experiências passadas, com o uso do verbo ‘crer’, já mencionado antes. A tematização do
verbo ‘ser’ é usada para enfatizar algo que o autor quer que o seu leitor mantenha em
mente e verifique a seguir em que consiste a opinião dele, o que parece ilustrar a idéia de
Lemke (1988, p.2) de que a linguagem nos fornece os recursos para que as proposições
possam ser posicionadas “em um espaço semântico multi-dimensional”. É dessa forma
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que o autor expressa sua opinião para o leitor.
Esse tipo de construção realiza claramente o tipo de significado – significado
ideacional temático – no qual o autor dá ao leitor uma avaliação de um evento que é
realizado na oração – um comentário tematizado. O comentário tematizado permite que o
autor inclua um comentário pessoal ou um ponto de vista na posição inicial.
O autor escolheu expressar seu ponto de vista de uma forma que pudesse parecer
ser mais objetiva e factual. Em outras palavras, os fatos são uma forma de indicar para o
leitor que está havendo uma ordenação e interpretação dos dados. Essa escolha sugere
uma opção para apresentar algo como já decidido.
Esse tipo de comentário tematizado – É preciso e É importante – ilustra a noção
de modulação afirmada por Halliday, onde alguma forma de obrigação ou inclinação é
encaixada na oração projetada (Hallilday, 1994, p.354-357:). A obrigação ou inclinação
expressa nesse exemplo representa, de uma forma ou de outra, uma decisão. A oração
declara que algo necessita de ação – É preciso – de uma forma subjetiva, a qual é
declarada a partir da perspectiva do autor, através dessas escolhas lingüísticas.
Exemplo (11): Artigo 15 – “Atrasado e suspeito”, publicado no jornal O Estado
de S.Paulo – Editorial – 1993 palavras – 15 ocorrências do verbo “ser”, sendo 6
ocorrências na posição inicial da oração, das quais apenas 1 será descrita aqui.
273
“O plano, conforme declarou a ministra ao jornal Valor, contém obras que
deverão ser inauguradas ou estar em avançado estágio de execução até o fim do mandato
do presidente Lula, em dezembro de 2006. (a) É possível [[que uma ou outra dessas
obras registre algum avanço até lá]], mas as mais importantes delas, se tiverem saído
do papel, quando muito estarão ainda nos prolegômenos.”
Análise
Neste exemplo, há uma expressão lingüística resultante da conjunção semântica
de duas orações, combinadas pelo recurso gramatical de combinação oracional
denominado complexo oracional de ‘encaixamento’. Esse complexo é aqui analisado
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como sendo composto de uma oração iniciada pelo verbo ‘ser’, seguido do adjetivo
‘possível’, o qual pode ser considerado como um epíteto avaliativo5.
A oração encaixada representa uma possibilidade irrealis6 (Halliday, 2004,
p.425). O item lexical ‘possível’ atribui à oração encaixada uma possibilidade. Pode-se
dizer que possível é o Atributo da oração encaixada que uma ou outra dessas obras
registre algum avanço até lá, e esta o Portador de tal Atributo.
Com relação às dimensões avaliativas, estas poderiam ser elaboradas em um
conjunto maior de epítetos avaliativos semanticamente relacionados. Por exemplo, o item
lexical possível traz a dimensão da possibilidade, o importante, o da significação etc.
Essa análise também revela uma relação entre a semântica das avaliações proposicionais
e a análise de modalidade na oração.
A escolha por tal estrutura convida o leitor a participar no processo
argumentativo. Portanto, a análise de comentários tematizados é importante para a
compreensão do ponto de vista do autor em um texto e para a comprovação do uso de
determinadas escolhas como recurso de argumentação e persuação.
O exemplo abaixo chamou a atenção pela quantidade expressiva de comentários
tematizados e que, portanto, pode reforçar a hipótese de que esse tipo de construção é
usada para a expressão do ponto de vista do autor em artigos desta natureza. Trata-se do
5
Para a GSF, “o epíteto indica alguma qualidade ao subconjunto. Isso pode ser uma propriedade objetiva
da coisa em si; ou pode ser uma expressão da atitude subjetiva do falante com relação a ela” (Halliday,
2004, p.318).
6
Processos irrealis são os que não aconteceram e não estão acontecendo agora. Isso inclui expectativas do
futuro, declarações de obrigação, negações etc.
274
Artigo 67 – “O fracasso do favela-bairro”, por Ali Kamel, publicado no jornal O Globo.
– 944 palavras – 25 ocorrências do verbo ‘ser’, sendo 11 ocorrências na posição inicial da
oração.
Exemplo (12):
“A solução não será fácil. (a) É preciso [[investir recursos]] de modo que bairros
populares dignos sejam construídos com infra-estrutura de saneamento, com escolas, com
hospitais e, fundamentalmente, com transporte rápido e barato. O que importa não é a
distância em quilômetros dos centros de trabalho, mas a distância em minutos.
......
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No Rio, há terrenos fartos e com boa estrutura ao longo de 40 quilômetros da
Avenida Brasil e na Zona Portuária. Tais áreas já são servidas por trens, que, hoje, têm
serviços melhores e grande capacidade ociosa. (b) É preciso [[construir bairros
populares ali]], que fujam do estigma dos conjuntos habitacionais de antigamente, cuja
monotonia arquitetônica transformava tudo em depósito de gente. (c) É preciso [[criar
bairros]] com cara de bairros, com prédios e casas diferentes, que tenham vida. (d) É
preciso [[investir na melhoria do transporte já existente]] e criar novos.
......
(d) É preciso [[encontrar soluções]], não paliativos. (e) É preciso [[que a
sociedade se indigne com a paisagem]], com a vida que leva uma multidão de
conterrâneos e se decida a mudar o quadro. Sem aceitar culpa de quem deveria se sentir
culpado.”
Análise
Nas gramáticas tradicionais, esse tipo de estrutura é classificada como um período
composto por uma oração principal – É preciso – e uma oração subordinada substantiva
subjetiva reduzida de infinitivo – investir recursos; construir bairros populares ali;criar
bairros;investir na melhoria do transporte já existente;encontrar soluções;que a
sociedade se indigne com a paisagem – estas na função de sujeito da oração principal.
Essa estrutura tem sistematicamente o sujeito pós-posto ao verbo e é utilizada com certa
freqüência.
275
O autor poderia ter escolhido usar outros recursos para representar a mesma
informação, mas nesse exemplo, ele escolheu começar a mensagem com o verbo ‘ser’
seguido de um adjetivo, o que expressa um grau de modalidade objetiva, pois revelam
explicitamente o ponto de vista do autor – É preciso.
O uso do comentário tematizado expressa um significado de conselho verificado
no desenvolvimento do texto que demonstra que o autor acredita que, ao desempenhar a
ação recomendada, os moradores das favelas terão uma vida digna. O autor é, portanto, o
conselheiro e o leitor o aconselhado e beneficiário. O autor poderia ter escolhido dar o
conselho de forma implícita, tornando explícitos apenas os fatores sociais.
Em português, a expressão É preciso tem uma implicação maior de urgência no
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conselho. O não atendimento ao sugerido pode resultar em danos para a sociedade ou
para os moradores das favelas.
Em termos pragmáticos, a linguagem fornece diversos mecanismos para a
expressão da importância da ação no conselho. Verifica-se que há um contínuum que vai
da importância média à mais alta. O autor selecionou esse tipo de construção em
detrimento de outras disponíveis. Ele poderia ter escolhido uma nominalização do
processo na posição de Sujeito, como por exemplo: O investimento de recursos de modo
que bairros populares dignos sejam construídos com infra-estrutura de saneamento, com
escolhas, com hospitais e, fundamentalmente, com transporte rápido e barato é preciso.
No entanto, essa construção é pouco comum.
Caso a opção tivesse sido essa, a importância da ação no conselho se perderia,
uma vez que o sujeito é demasiadamente extenso, razão adicional para ser deslocado para
a posição final na oração. Um outro ponto a ser ressaltado é o fato de que é a ação que é
importante.
A natureza do conselho, o benefício da ação para a sociedade e para os moradores
das favelas e a importância da ação podem todos ser considerados como certos,
permitindo ao leitor focar nas ações a serem realizadas. O que é importante é a
especificação e a obrigatoriedade da ação. O uso de um adjetivo como preciso permite ao
autor ser mais explícito com relação ao tipo de obrigação:
determinadas ações sejam tomadas.
a necessidade de que
276
Vemos neste exemplo que o grupo oracional É preciso seguido das orações
reduzidas de infinitivo (a),(b),(c),(d) e (e) apresenta uma oração encaixada que pode ser
considerada como Intensiva Atributiva de processo relacional. A oração encaixada
representa um fato ou proposição e pode-se dizer que se trata do Portador do Atributo
‘preciso’.
No nível semântico, a escolha de uma oração iniciada pelo verbo ‘ser’ seguida do
atributo preciso, epíteto que nos informa que algo é necessário, indica uma avaliação
típica dos editorias e artigos jornalísticos. Essa avaliação demonstra que o autor
posiciona-se, apresentando sua opinião com relação ao que vem depois.
A forma de tematizar o verbo ‘ser’ é para chamar a atenção do leitor para o que
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vem depois como algo com que o autor espera que seu leitor concorde. Há uma variedade
de outras possibilidades de escolhas lingüísticas que o autor poderia ter selecionado para
construir esse significado, mas parece que o autor desejou colocar a responsabilidade
modal, em parte se não totalmente, no epíteto avaliativo – preciso.
No nível léxico-gramatical, a escolha do adjetivo preciso demonstra a avaliação
de seu autor quanto à proposição que virá a seguir. Os meios léxico-gramaticais e os
mecanismos discursivos para a expressão dessa avaliação foram a escolha do adjetivo
preciso e a tematização do verbo ‘ser’, os quais conectados ao texto direcionam o leitor
ao desenvolvimento das idéias apresentadas, em termos argumentativos.
Nessa perspectiva, ao usar o comentário tematizado, o autor escolheu usar esse
recurso, e não qualquer outro, com o objetivo de expressar o seu ponto de vista.
Como mencionei nos exemplos acima, as orações de Tema Predicado e as
Equativas Temáticas apresentam semelhanças e diferenças. Quanto ao Tema Predicado,
apresentei um exemplo o (12) para ilustração, no a seguir, exemplo (13), verifiquei uma
oração que em português apresenta a estrutura O que... seguida do verbo ‘ser’.
Apresento essa ocorrência observada no corpus que chamou a atenção por sua
estrutura diferenciada, por envolver uma nominalização que transforma um processo nãoidentificativo em um processo identificativo e, portanto, apresenta características
semelhantes às orações classificadas como Equativas Temáticas.
277
Exemplo (13): Artigo 68 – “As brasas dormidas”, por Tereza Cruvinel, publicado
no jornal O Globo – 1.122 palavras - 23 ocorrências do verbo ‘ser’, sendo que apenas 1
foi selecionada para os propósitos de análise que expliquei nos dois parágrafos anteriores.
“A crise estava se dissipando, PT e governo vinham até recuperando a
desenvoltura. As chamas, entretanto, podem subir novamente a partir de quarta-feira,
sopradas pelo PT ao aprovar a convocação de Cláudio Mourão, o tesoureiro da campanha
do senador tucano Eduardo Azeredo ao governo de Minas, em 1998. A vingança tucana
está vindo a galope.
Erros dos outros não desculpam o PT, não justificam a ambição de poder de seus
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dirigentes, a montagem do valerioduto ou o suborno a aliados, para financiar campanhas
ou garantir votos na Câmara. [O que o PT busca ao tentar levar os tucanos para o olho
das investigações] [é mostrar não apenas que eles inventaram o valerioduto], mas
que o PT “fez o que sistematicamente se faz”.
Análise
A primeira oração corresponde a uma construção enfática cujo foco se extrai do
predicado da oração o PT busca mostrar é sua invenção do valerioduto e mostrar que fez
o que sistematicamente se faz, o qual se denota como de maior relevo informativo. Essa
oração funciona como um recurso de co-referencialidade, no sentido de que permite
integrar, mediante o verbo ‘ser’, dois participantes de idêntica referência extralingüística, verificando-se, dessa forma, uma identificação entre os participantes.
O uso do verbo ‘ser’ proporciona uma propriedade estável entre os participantes,
tornando fácil para o leitor construir uma ponte inferível entre uma situação de má
conduta política do PT na busca pelo poder e o que o PT está tentando fazer para se
defender.
Com relação à realização dos significados experienciais/ideacionais, este tipo de
estrutura oracional constrói uma configuração de um processo e participantes envolvidos
no processo, onde a organização da oração é apresentada no modelo de uma oração
identificativa. Em outras palavras, em uma oração identificativa, os dois constituintes
referem-se à mesma entidade. Isto permite-nos classificar este tipo de oração como
278
Relacional Intensiva Identificativa, caracterizada como a que apresenta a possibilidade de
intercâmbio da posição e da função de seus participantes.
Nessa oração, o constituinte temático é explicitamente identificado com o
constituinte remático. A organização oracional é uma organização de constituência
alternativa e esse tipo de oração é classificada como Equativa Temática, por estabelecer
a estrutura Tema – Rema na forma de uma equação, onde Tema = Rema.
Nesse tipo de oração – a equativa temática – há uma relação de identidade, o que
a constitui como uma oração que se apresenta sempre organizada em dois constituintes
cuja identificação é expressa pelo verbo ‘ser’.
A construção O que o PT busca ao tentar levar os tucanos para o olho das
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investigações é uma escolha que serve ao propósito de expressar uma proposição como
um fato que permite que o autor comente sobre ele e que neste caso parece ter o
significado de ‘quero contar a vocês o que o PT busca’, e cada componente do objetivo é
colocado no Rema mostrar não apenas que eles inventaram o valerioduto, mas que o PT
“fez o que sistematicamente se faz” (Halliday, 1994, p.41-42;2004, p.69-70; Thompson,
2004, p.213-214).
Cabe chamar a atenção para o fato de que a motivação para esse tipo de
construção é textual, isto é, a configuração em uma oração identificativa constitui uma
alternativa textual para a distribuição da informação na oração, a qual, neste caso
específico, resultou em uma equação entre os dois termos. Esse fenômeno é denominado
metáfora gramatical experiencial (Halliday & Matthiessen, 1999, p.399).
Embora esteja fora do escopo desta tese, esclareço sucintamente a que se refere a
metáfora gramatical experiencial ou ideacional. As metáforas gramaticais ideacionais têm
uma função discursiva, pois são ‘pressionadas’ pela metafunção textual para fornecer
“grupos alternativos de quanta de informações” (Halliday & Matthiessen, 1999, p.398403), ou seja, a metafunção textual pode motivar a metáfora ideacional como um meio de
transportar a organização textual.
O sistema textual é o de Predicação de Tema, o qual emprega o tipo identificativo
de oração para obter um equilíbrio de significados no discurso. Esse tipo de organização
produz estruturas nas quais os processos Relacionais Identificativos são usados para
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280
A primeira parte deste tipo de construção, em geral, carrega a informação
conhecida; por outro lado, como disse acima, a segunda parte da oração após o verbo
‘ser’ é a parte nova e, portanto, tem o foco. Esse tipo de construção pode ser visto como
uma interrogação indireta, onde a resposta se encontraria na parte pós-verbo ‘ser’:
Pergunta: O que o PT busca?
Resposta: Mostrar não apenas que eles inventaram o valerioduto, mas que o PT
“fez o que sistematicamente se faz”.
Nesse tipo de construção há a realização de dois traços semânticos distintos, dois
sentidos para a identificação, ou seja, ela identifica (especifica) o que o Tema é, e o
identifica com o Rema (iguala).
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Dito de outra forma, nesse tipo de estrutura, uma oração é identificada com uma
outra. O segundo sentido para a identificação é um componente semântico de
exclusividade nesse tipo de construção. Portanto, o significado de O que o PT busca ao
tentar levar os tucanos para o olho das investigações é mostrar não apenas que eles
inventaram o valerioduto mas que o PT “fez o que sistematicamente se faz” é “Eu vou
contar o que o PT busca ao tentar levar os tucanos para o olho das investigações: mostrar
não apenas que eles inventaram o valerioduto, mas que o PT “fez o que sistematicamente
se faz” – e nada mais”, ou seja, exclusivamente isso.
Em outras palavras, a nominalização O que o PT busca ao tentar levar os tucanos
para o olho das investigações carrega o significado ‘e isso é tudo que ele busca’, no
contexto do que está sendo discutido no texto. Portanto, essa estrutura identificativa
contribui para o significado da mensagem pois serve para expressar o componente
semântico de exclusividade. Essa escolha foi feita, possivelmente em detrimento da
seguinte: “O PT busca mostrar não apenas que eles inventaram o valerioduto, mas que o
PT “fez o que sistematicamente se faz”, ao tentar levar os tucanos para o olho das
investigações”.
Nessa outra opção, o significado seria ‘Eu vou contar algo sobre o PT: o PT busca
mostrar não apenas que eles inventaram o valerioduto, mas que o PT “fez o que
sistematicamente se faz”. O foco foi mudado para o PT, enquanto na outra opção o foco é
no que busca o PT.
281
Essa oração, no modo ‘identificativo’, expressa ‘algo que tem uma identidade
atribuída a ele’. O que isso significa é que uma entidade está sendo usada para identificar
uma outra.
Nessa perspectiva, essa construção significa dois traços semânticos distintos: [O
que o PT busca ao tentar levar os tucanos para o olho das investigações] é o elemento que
está sendo identificado por [mostrar não apenas que eles inventaram o valerioduto, mas
que o PT “fez o que sistematicamente se faz”.], sendo então o Participante 1 o
Identificado ou Valor e o Participante 2 o Identificador ou Característica. ‘
Essa estrutura pode ser classificada como uma Equativa Temática que identifica o
que o Tema é, e, por outro lado, se identifica (se iguala) com o Rema. Essa identificação
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é possível somente pelo uso do verbo ‘ser’, pois uma relação de igualdade pressupõe
sempre uma relação de permanência.
Quanto à reversibilidade de tais elementos, baseada no fato de que seriam
equativos (Halliday, 2004, p.68-71), embora de idêntica referência extra-lingüística,
reflete uma diferença, mesmo que pequena e subjacente à argumentação.
Verifica-se que a posição dos participantes influi de alguma maneira na função
que cumprem, principalmente em se tratando de estruturas com predicação pragmática,
cujo ordenamento aparece subordinado a necessidades comunicativas do autor do texto.
A tematização de um participante ou de outro origina-se da intenção que o autor
tem ao fazer tal escolha. No exemplo aqui analisado, a inversão dos participantes
prejudicaria a coesão textual. O autor ao escolher iniciar pelo participante [O que o PT
busca ao tentar levar os tucanos para o olho das investigações] teve por objetivo fazer
com que o leitor retomasse o dito anteriormente no primeiro parágrafo e dar continuidade
aos seus argumentos para expressar seu ponto de vista com relação ao assunto abordado.
Ao fazê-lo, o autor elabora o fluxo dos eventos textuais de forma coesiva.
Seguindo essa perspectiva, verifica-se que existe uma intenção na escolha do
Tema da oração, o que comprova que a reversibilidade reflete diferenças de significado,
uma vez que há uma distinção relativa ao fato de a informação contida no Tema já ser de
conhecimento do leitor, ou seja, mais referencial, e o que é apresentado pós-verbo, no
Rema, é a informação nova, portanto menos referencial.
282
A referencialidade é uma condição que interfere na possibilidade de um
constituinte ocorrer topicalizado, uma vez que essa marcação está atrelada a uma
informação nova, expressa preferencialmente por constituintes com interpretação de
especificidade. Vejamos a inversão da oração deste exemplo.
[Mostrar não apenas que eles inventaram o valerioduto, mas que o PT “fez o que
sistematicamente se faz”] é [o que o PT busca ao tentar levar os tucanos para o olho das
investigações.]
Neste caso, o fluxo dos eventos discursivos sofreria uma ruptura em sua evolução,
pela introdução de uma informação nova, que por ser nova não tem referencialidade
contextual e, portanto, precisa ser introduzida com algo que já é do conhecimento do
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leitor e que o levará ao passo seguinte que é o de conhecer algo novo.
Nas interações, os falantes/autores tentam elaborar o que estão dizendo de uma
forma compreensível, o que significa criar elos no ambiente lingüístico e extra-lingüístico
para o ouvinte/leitor, para que estes possam usá-los como uma base para a compreensão
da informação que é nova para eles.
O tipo de construção verificada neste exemplo é um recurso gramatical para fazer
essa divisão em informação dada e informação nova para o leitor. A oração pré-verbo
‘ser’ contém a informação conhecida e a pós-verbo ‘ser’ contém a parte nova da
comunicação.
Conhecido: O PT busca algo.
Novo: Esse algo é mostrar que eles não apenas inventaram o valerioduto, mas que
o PT “fez o que sistematicamente se faz”.
Uma outra perspectiva que poderíamos usar para analisar o exemplo acima seria a
da realidade semiótica, ou seja, a da realidade na forma de significado. Essa dimensão da
realidade é construída pela Metafunção Ideacional, a qual constrói uma realidade natural,
e pela Metafunção Interpessoal, a qual desempenha uma realidade intersubjetiva.
Nas palavras de Halliday (1978, p.145), “é somente através da codificação da
interação semiótica como texto que os componentes ideacionais e interpessoais de
signficado podem se tornar operacionais no ambiente”. Mas, como mencionei
anteriormente, este tema foge ao objetivo específico proposto nesta tese.
Com base na análise realizada, passo agora às conclusões finais desta tese.
5
Conclusão
O estudo da linguagem em relação às situações nas quais ela é usada – aos tipos de
situação, isto é, o estudo da linguagem como ‘texto’ – é uma busca teórica, não menos
interessante e central para a lingüística do que as investigações psicolingüísticas que
relacionam a estrutura da linguagem à estrutura do cérebro humano (Halliday,
[1970]2002, p.177).
Orientada pela visão acima, analisei as ocorrências das realizações expressas pelo
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verbo ‘ser’ nos artigos de Opinião e Editoriais dos jornais O Globo e O Estado de S.
Paulo, a partir da perspectiva da Metafunção Ideacional do componente semântico, tendo
como arcabouço teórico-metodológico o Sistema de Transitividade na gramática
sistêmico-funcional. Em virtude desse modelo de análise, as ocorrências coletadas foram
analisadas em seus respectivos contextos e co-textos.
Para explorar as ocorrências do verbo ‘ser’, tive de estudar a oração como uma
mensagem no texto em desenvolvimento – uma mensagem ajustada e que ajuda a criar o
fluxo de informações no texto – que reflete a visão de mundo do seu autor e a criação de
significados que ele deseja para que seu texto surta os efeitos intencionados sobre os
leitores.
Das relações estabelecidas entre as opções de uso do verbo ‘ser’, destaco que elas
resultam da natureza persuasiva dos artigos de opinião e editoriais jornalísticos, pois
serviram mais diretamente ao propósito comunicativo da argumentação.
À luz da GSF, foi possível analisar a estrutura oracional das instanciações do
verbo ‘ser’ e reunir a noção de pragmática e de semântica. A pragmática, na intenção de
uso da linguagem, e a semântica, no sentido do significado do texto, o que permitiu a
visão de que não só estruturamos textos, mas fazemos essas estruturações com
determinadas intenções, as quais foram verificadas na escolha do verbo ‘ser’.
A partir da perspectiva sistêmico-funcional da oração, abordei a estrutura
oracional como sendo determinada pelo uso e pelo contexto comunicativo no qual ocorre.
Como resultado, a oração foi analisada em partes, mas com uma função no processo total
284
da comunicação. As informações conhecidas são as que estão centradas nos elementos
que já aparecem em algum ponto anterior do texto, que são inferíveis pelo leitor a partir
do texto (ou co-texto) ou da situação extra-lingüística ou que se referem ainda a coisas
que são únicas e que são conhecidas de todos pela experiência comum de mundo. As
informações novas são aquelas que não aparecem antes de um determinado ponto no
texto, que não são inferíveis pelo leitor a partir do texto ou da situação extra-lingüística.
Nesse sentido, uma análise ou explicação funcional envolveu explicar por que um
determinado fenômeno ocorre, mostrando qual a sua contribuição para o texto em
questão ou para um sistema maior do qual essa análise ou explicação é em si um subsistema. O fenômeno a que me refiro é oriundo das escolhas que os autores fazem para
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expressar suas visões de mundo e da organização interna e externa de suas experiências.
Por ocultarem no co-texto a subjetividade do autor, essas opções criam como
efeito de sentido a objetividade, que mascara a atitude pessoal subjacente ao comentário e
que atribui maior valor de verdade aos textos. Desta forma, o autor distancia-se de seu
comentário para melhor convencer pelas suas escolhas estruturais, ou seja, não é ele
quem diz, mas os fatos cuja veracidade é irrefutável.
Em vista disso, uma vez que a gramática é realizada em conformidade com uma
determinada intenção de comunicação e uma vez que a linguagem que é realizada
depende completamente das jtae.z l
285
nossa experiência, pois toda a expressão lingüística é uma forma peculiar de verbalizar o
mundo.
Dado que a estrutura temática é a forma básica da organização da oração como
mensagem, ao contemplar as instanciações do verbo ‘ser’, a partir do ponto de vista de
como o fluxo de eventos é construído no desenvolvimento do texto no nível da
semântica, enfoquei também a organização temática da estrutura oracional, a partir do
Sistema de Transitividade. Isso porque as escolhas temáticas em um texto ocorrem num
contexto específico em que o gênero de que participam desempenha uma determinada
tarefa comunicativa e o Tema experiencial não é somente uma categoria oracional, mas
desempenha outros papéis na estruturação e no desenvolvimento do discurso.
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Os processos sintáticos em que verifiquei o uso do verbo ‘ser’ na ordem P1-V-P2
dos elementos oracionais e em outros que apresentaram a tematização do verbo ‘ser’
foram usados como uma forma de transmitir as mensagens, as quais podem ser de
expressão de ponto de vista dos autores à persuasão sobre um determinado fato ocorrido
ou em desenvolvimento.
Observei também que a posição do verbo ‘ser’ permite uma maior visibilidade
dos autores dos artigos no discurso, conforme o propósito comunicativo dos mesmos. A
posição pode apresentar-se caracteristicamente impessoal ou interacional, o que permite o
distanciamento ou o engajamento pessoal com os leitores.
Respondendo à primeira pergunta de pesquisa que indaga se o verbo ‘ser’ é vazio
de significado ou não-nocional, verifiquei que os autores dos artigos utilizaram o verbo
‘ser’ em suas argumentações para expressar significados de atribuições e de
identificações em estruturas P1-V-P2 e o utilizaram também em uma orientação diferente
dessa, com outras intenções. As estruturas diferentes referem-se às escolhas relativas ao
elemento a ser tematizado, revelando um tema marcado ou não-marcado, entendendo
tema marcado como qualquer constituinte ocupando a primeira posição na oração, exceto
o Sujeito.
A orientação diferente, a saber, V-P1 e V-P1,P2 ou V-P2, refere-se a uma seleção
temática que expressa significados específicos, os quais foram aqui contemplados.
Refiro-me às escolhas feitas pelos autores para atingir um objetivo comunicativo, ou seja,
os temas selecionados nas orações desenvolvem uma estratégia textual que constitui uma
286
reflexão da realidade percebida pelo autor, isto porque a linguagem está inter-relacionada
com a percepção humana, baseada na experiência do mundo e na forma como o
percebemos e o conceitualizamos.
Sendo assim, ao analisar as ocorrências instanciadas pelo verbo ‘ser’ à luz da
GSF, a partir da constatação de que os artigos de opinão e os editoriais jornalísticos
possuem particularidades que acentuam ou distendem procedimentos persuasivos e,
portanto, apresentam estruturas que revelam pontos de vista argumentativos, verifiquei
que, no que se refere à organização temática das orações no corpus que se diferenciam
por apresentarem uma ordem diferente de SV, há orações que apresentam Tema
Predicado, outras Comentário Tematizado e outras ainda podem ser consideradas
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Equativas Temáticas. Essas estruturas apresentam diferenças sintáticas, semânticas e
pragmáticas.
Embora minha pesquisa não esteja voltada para dados quantitativos, forneço
abaixo, apenas a título de curiosidade, um quadro de distribuição quantitativa das
estruturas temáticas no corpus.
Quadro 15 – resultado da avaliação quantitativa das estruturas temáticas no
corpus.
Tipo
de Número de Porcentagem
estrutura
ocorrências
Tema
38
49%
Comentário 37
48%
Predicado
Tematizado
Equativa
2
3%
Temática
Total
77
100
Forneço abaixo uma representação gráfica da avaliação quantitativa das estruturas
temáticas no corpus.
287
Figura 8 – Representação gráfica da avaliação quantitativa das estruturas
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temáticas no corpus
288
Esses padrões temáticos revelaram algumas categorias de orações, dentre as quais
destaco as que considero de maior relevância para esta pesquisa:
1 - orações iniciadas pelo verbo ‘ser’ + adjetivo – como Comentário tematizado 37 ocorrências;
Tipos de ocorrências: É fácil; É vedado; É preciso; É difícil; É impossível; É bom;
É certo que; É bom que; É normal que; É bem verdade que; É possível que; É pouco
provável que; É irônico que; É verdade que; É evidente que; É natural que; É impossível
que; É importante que; É muito comum que.
2 – orações iniciadas pelo verbo ‘ser’ como Tema predicado – 38 ocorrências;
3 – orações com o verbo ‘ser’ – não iniciante de oração – 957 ocorrências;
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Quanto à segunda pergunta de pesquisa, a qual refere-se aos traços semânticos
apresentados pelas instanciações do verbo ‘ser’ no material aqui analisado, contemplei a
ocorrência do verbo ‘ser’ em estruturas P1-V-P2, V-P1,P2, V-P1 e V-P2, ou seja, a
instanciação do verbo ‘ser’ na posição canônica e na inicial das orações, verificando sua
articulação comunicativa, isto é, a organização das orações como mensagem.
Constatei que as escolhas de temas resultam da natureza persuasiva do tipo de
texto analisado. Logo, os temas marcados aparecem na discussão do assunto abordado
nos artigos, por servirem mais diretamente ao propósito comunicativo de argumentação.
Por outro lado, os temas não-marcados aparecem na introdução e na conclusão dos
textos.
A escolha das tematizações decorre do fato dos artigos centrarem-se no
evento/questão que abordam, pretendendo destacar o conteúdo de suas informações e
avaliações, portanto destinados à discussão argumentativa do assunto/fato abordado. Isso
significa que a estrutura temática orienta o leitor que procura a informação e o ajuda a
resumir ou a inferir informações do texto.
Ao analisar ideacionalmente a estrutura temática, pude inferir como os autores
realizaram a natureza de suas intenções, mostrando como essa organização temática foi
expressa para servir a essas intenções. Como o Tema deve sempre incluir um constituinte
que desempenha um papel na transitividade: um participante, um processo ou uma
circunstância, a tematização refere-se não só à forma como aqueles componentes
289
individuais são expressos, mas à estruturação da oração em si – a ordem na qual os
elementos aparecem na oração como um recurso para a criação de significados.
Nesse sentido, observei que há um ponto de partida, a partir do qual o leitor
interpreta a mensagem. Nessas condições, o autor especifica o lugar e a rede de
significados do leitor onde a mensagem deve ser incorporada como relevante. Como
todas as orações que expressam transitividade, sejam independentes ou não, apresentam
uma estrutura temática, a escolha dos temas das orações desempenha uma parte
fundamental na forma como o discurso é organizado, pois este reflete-se no método de
desenvolvimento do texto. Há algumas orações que pressupõem o todo da oração
anterior, outras pressupõem somente parte dela, com sua estrutura temática própria, e
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outras ainda que se referem a todo o conteúdo significativo do parágrafo anterior.
Em português, a forma de organização da oração como uma mensagem tem como
orientação básica a disposição SV, ou seja, o Sujeito se apresenta como o elemento inicial
da oração que seguido de seu predicado constituem a mensagem.
No entanto, a língua portuguesa permite a mudança de sua ordem de palavras na
oração, o que resulta em um elemento inicial diferente do Sujeito. A partir dessa
perspectiva, verifiquei que os autores ao iniciar a oração escolhendo outro elemento
diferente do Sujeito estão fazendo uma opção entre outras disponíveis e que, portanto,
têm uma intenção ao fazê-lo.
Prestando-se à veiculação dos significados ideacionais, tais escolhas são
exploradas pelos autores para fornecer um esquema estrutural que indica o
desenvolvimento de seus textos e o modo como o conteúdo foi organizado. Por
introduzirem informações sobre a questão abordada, o uso do verbo ‘ser’ tematizado
alterna retomadas de itens lingüísticos com ou sem alteração semântica e permite a
manutenção do assunto.
A interpretação da função desse elemento tematizado foi considerada e o
tratamento da ordem de constituintes revelou a função dos elementos oracionais que
ocupam a posição inicial da oração, de tal forma que as generalizações de ordem
estrutural temática foram necessariamente decorrentes de generalizações nos níveis
pragmático e semântico e nas características das especificidades da língua portuguesa.
290
Nas orações em que observei que havia a inversão da ordem canônica, constatei
que o autor selecionou tal estrutura pois tinha o objetivo de iniciar sua mensagem pelo
processo, atribuindo-lhe uma determinada função, a qual pode ser a de coreferencialidade, referência, comentário, foco. Portanto, o elemento oracional nessa
posição é o que está tematizado, independente de sua função sintática. A função do
elemento que é o ponto de partida da oração é funcional, o que significa dizer que pode
ser sintática, semântica e pragmática.
A partir do exposto acima, pude inferir que a ordem de palavras na oração
desempenha uma parte relevante na definição de Tema como noção gramatical, porque o
Tema experiencial é realizado pela primeira posição. Portanto, o uso de determinados
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padrões temáticos é funcionalmente relevante, porque o emprego especial de uma ou
mais estratégias de tematização revelam motivação comunicativa, uma vez que o desejo
do autor de transmitir uma percepção específica de realidade, juntamente com o assunto
específico do texto, é determinante na seleção das opções temáticas em cada texto.
No entanto, não foi só o Tema como ponto de partida da mensagem que mereceu
atenção ao considerar a oração como mensagem, mas também a investigação das relações
entre o Tema e as orações precedentes e subseqüentes, na medida em que essa relação
pôde revelar o método de desenvolvimento do texto e os significados oriundos de
escolhas relacionadas ao verbo ‘ser’.
No material que serviu de base ao corpus, segundo revelou minha pesquisa, os
autores utilizam-se dessa seleção ora para, ocultando-se, obter mais efeito de objetividade
e, por conseguinte, maior credibilidade para o que afirmam, ora para envolver seus
leitores e convencê-los ou a prosseguir a leitura do texto ou a aderir ao ponto de vista
adotado, enquadrando seu procedimento nos objetivos estipulados.
As informações conhecidas foram recuperadas anaforicamente, por meio de
referência. Com o verbo ‘ser’, o autores puderam reverter a posição dos elementos
oracionais que apareceriam comumente mais tarde na sentença. Esse recurso serviu para
marcar com força extra a conexão entre a informação conhecida e aquela à qual a
informação conhecida está conectada. A organização temática está intimamente
conectada com a coesão e a coerência discursiva, porque o autor faz a escolha do que irá
tematizar para desenvolver seu discurso e construir os significados a que se propõe.
291
Ao fazer a inversão Verbo-Participante, os autores selecionaram tal estrutura com
o objetivo de iniciar sua mensagem pelo Processo, atribuindo-lhe uma determinada
função no discurso. A função do verbo ‘ser’ é a de exercer um determinado papel no
discurso, o que significa dizer que pode ser um papel sintático, semântico e pragmático.
Isso quer dizer que a escolha pela tematização do verbo ‘ser’ mostrou que o autor
do texto selecionou o elemento a tematizar e rearranjou os demais com a intenção de
facilitar a interação com o que foi dito antes e para que o restante da mensagem pudesse
ser aí também encaixado, criando uma coesão discursiva.
A função discursiva, nesses tipos de construções examinadas, pode ser
considerada uma técnica utilizada pelos autores para mover o participante focal da
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posição inicial e colocá-lo o mais à direita possível, dadas as limitações do padrão SV em
português, ou até nem explicitá-lo.
Em outras palavras, o verbo ‘ser’ reune a função sintática do Sujeito, quando
implícito, na marcação morfológica da conjugação verbal. Essa é a razão pela qual, em
português, o verbo ‘ser’ – o componente morfológico juntamente com o componente
lexical do verbo – pode constituir o Tema experiencial quando aparece na primeira
posição devido à ausência da explicitação morfológica do sujeito em pronome ou
substantivo. A flexão verbal, como parte do Tema, estabelece a relação com a sentença
anterior e sua parte lexical ajuda a desenvolver o discurso para a parte seguinte da oração,
a qual constitui toda a informação nova. O verbo ‘ser’ é temático e, nesse caso,
ideacional.
Como os falantes do português parecem não ver diferença semântica ou funcional
em orações que apresentam a característica pro-drop (não realização do pronome ou
substantivo quando na função de Sujeito da oração), pode-se afirmar que isso corrobora
para sustentar a idéia de que a função discursiva fica preservada quando da junção do
verbo com o Sujeito. Os sujeitos pro-drop, em geral, são usados em orações
contextualizadas ou em textos onde o Sujeito pode ser recuperado em orações anteriores.
Além disso, o Sujeito elíptico está codificado na morfologia do verbo.
O componente morfológico é ideacional pois contém informações sobre o Sujeito,
diferentemente do inglês que ao deslocar o Sujeito para outra posição necessita preencher
o seu lugar vazio com um pronome.
292
O verbo ‘ser’ transporta tanto a informação recuperável quanto a irrecuperável no
sentido de que contribui para seu desenvolvimento – a progressão para a meta
comunicativa real da oração. Pode-se afirmar, então, que o verbo ‘ser’ apresentou uma
função discursiva, significativa em termos de coesão e coerência oracional e textual, com
significados diversos dependendo de sua realização oracional.
A partir do exposto, defendo que o verbo ‘ser’ em posição inicial na oração tem
como função principal realizar a coesão com o que o precedeu, ligando-o ao discurso
prévio, mantendo um ponto de vista coerente, e servindo para o contínuo
desenvolvimento do fluxo do discurso, nos artigos aqui analisados.
Ao estabelecer a coesão e a coerência da mensagem oracional em relação ao todo
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discursivo, ou seja, ao texto, proporcionando o desenvolvimento do fluxo discursivo, o
verbo ‘ser’ provou apresentar em todos os exemplos extraídos para a análise, uma função
discursiva. Baseada nessa assunção, essa função do elemento tematizado dá conta das
instâncias da realização temática aqui discutidas. Mantenho a concepção de Tema
experiencial – um elemento oracional – como um dos temas ideacionais da oração.
O verbo ‘ser’ instanciou-se como o primeiro elemento experiencial nas orações –
Tema experiencial – informando ao leitor, enquanto o texto se desenvolvia, como
relacionar a informação que estava recebendo à que já é de seu conhecimento, fornecendo
o ponto de conexão para a nova informação do texto. O verbo ‘ser’ agiu como um sinal
de orientação ou estratégia estruturadora do texto, sendo o elemento que estabeleceu um
contexto local para a oração como mensagem.
Com base no acima dito, pode-se então afirmar que o verbo ‘ser’ é o Tema
experiencial em orações V-P1 e/ou P2, porque em português há a possibilidade de
reversão da ordem dos elementos oracionais, podendo também apresentar o amalgamento
de seu Sujeito ao Verbo, o Sujeito gramatical está codificado no verbo ‘ser’, o qual
carrega na flexão a co-referencialidade.
O Sujeito também pode ser recuperável no co-texto, além do que, pode-se
adicionar o fato de que a elipse do pronome ou substantivo que explicita o Sujeito
contribui em alguns casos para a textura do texto, uma vez que sua explicitação causaria
redundância. O Tema experiencial é o amalgamento da função sintática, semântica e
pragmática do verbo ‘ser’.
293
Em vista do acima exposto, respondo por fim à última pergunta de pesquisa que
refere-se à classificação do verbo ‘ser’ como Processo Relacional. Nesse aspecto, posso
afirmar que o verbo ‘ser’ representa um Processo Relacional com características
específicas da língua portuguesa. Quanto à classificação em Atributivo ou Identificativo,
como já exposto aqui, é necessária uma investigação mais abrangente em outros gêneros
discursivos para que se possa determinar as características de cada uma dessas
classificações.
O trabalho aqui desenvolvido constitui uma abordagem sistêmico-funcional para
o estudo do verbo ‘ser’, porque apresentei o fenômeno observado em uso, em uma visão
de contexto na análise dos principais processos sintáticos de tematização, pelo estudo da
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língua em relação à sociedade e à análise das principais razões para a escolha entre
algumas formas lingüísticas.
A abordagem desta tese mostra ser potencialmente promissora para outras
pesquisas que visem a investigar como o uso do verbo ‘ser’ em diferentes tipos de textos
é caracterizado e para possível aplicação no processo de ensino/aprendizagem de tipos
de uso, como o da tematização, conforme sua adequação à natureza da tarefa escrita a ser
empreendida, acarretando maior coerência do discurso.
6
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