Fibromialgia: histeria da atualidade?

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UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA
MESTRADO EM PSICANÁLISE, SAÚDE E SOCIEDADE
JULIANI BITTENCOURT COSTA
FIBROMIALGIA: HISTERIA DA ATUALIDADE?
Rio de Janeiro
2013
Juliani Bittencourt Costa
FIBROMIALGIA: HISTERIA DA ATUALIDADE?
Dissertação apresentada ao Curso de
Mestrado em Psicanálise, Saúde e
Sociedade da Universidade Veiga de
Almeida por JULIANI BITTENCOURT
COSTA, como requisito para obtenção do
grau de Mestre.
Área de concentração: Psicanálise e saúde.
Orientadora: Profª Drª Vera Pollo
Rio de Janeiro
2013
DIRETORIA DOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTU SENSU
E DE PESQUISA
Rua Ibituruna, 108 – Maracanã
20271-020 – Rio de Janeiro – RJ
Tel.: (21) 2574-8871 - (21) 2574-8922
FICHA CATALOGRÁFICA
C837f Costa, Juliani Bittencourt.
Fibromialgia: histeria da atualidade? / Juliani Bittencourt Costa,
2014. 102 f; 30 cm.
Dissertação (Mestrado) – Universidade Veiga de Almeida,Mestrado
Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade, Rio de Janeiro, 2014.
Orientação: Profa. Dra. Vera Pollo.
1. Psicanálise. 2. Fibromialgia. 3. Histeria. 4. Dor. I. Pollo, Vera. II.
Universidade Veiga de Almeida, Mestrado Profissional em Psicanálise,
Saúde e Sociedade. III. Título.
.
CDD – 616.8917
Decs
Ficha Catalográfica elaborada pelo Sistema de Bibliotecas da UVA
Biblioteca Maria Anunciação Almeida de Carvalho
Juliani Bittencourt Costa
Fibromialgia: Histeria da Atualidade?
Dissertação apresentada ao Curso de
Mestrado em Psicanálise, Saúde e
Sociedade da Universidade Veiga de
Almeida, para obtenção do título de Mestre,
tendo como orientadora a Professora Dra.
Vera Pollo.
Área de concentração: Psicanálise e saúde.
Data de Defesa: 17/01/2014
Banca Examinadora
_______________________________________________________________
Prof.ª Dr.ª Vera Pollo
Universidade Veiga de Almeida
_______________________________________________________________
Prof.ª Dr.ª Rosane Braga de Melo
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
_______________________________________________________________
Prof.ª Dr.ª Sônia Xavier de Almeida Borges
Universidade Veiga de Almeida
DEDICATÓRIA
“Nunca deixe que lhe digam que não vale a
pena acreditar em um sonho que se tem”.
(Renato Russo)
AGRADECIMENTO
Agradeço ao pai superior, Deus, que me auxilia com todo seu amor e me leva
aos caminhos necessários à realização dos sonhos que reservou para mim.
A minha mãe Izabeti Bittencourt da Costa, quem, através de seu trabalho, foi
a grande incentivadora para que eu nunca desistisse dos meus estudos e lutasse
sempre pelos meus sonhos. Ao meu pai, Juarez Lopes da Costa, cujo “jeito durão” é
sua forma diferente de amar e cuidar de mim.
Ao meu namorado, Jeison Martins, que esteve durante quase todo o percurso
do curso ao meu lado, ajudando-me sempre que o assunto era impressão. Obrigada
por me ouvir nos meus momentos de desespero.
Às minhas amigas de mestrado, Laura, Martha, Daniele e Ana, fundamentais
para que eu não desistisse.
À professora Sônia Borges, que foi a grande incentivadora na escolha do
tema da minha dissertação e à professora Rosane Melo pelo seu jeito doce de tentar
ajudar.
À minha querida orientadora, Vera Pollo, que hoje tenho como uma mãe.
Muito, muito e muito obrigada pela paciência, por seus conselhos e conhecimentos.
A Universidade Veiga de Almeida por me proporcionar mais informações e
conhecimentos junto ao seu corpo docente: Antônio Quinet, Maria Anita Carneiro,
Sônia Borges, Vera Pollo, Joana Novaes, Beth Fuks e Maria Helena Martinho.
Obrigada pelas novas descobertas, vocês são maravilhosos!
Enfim, agradeço à vida por ser tão bacana comigo.
RESUMO
A presente dissertação aborda os conceitos psicanalíticos de histeria e dor
histérica. Utilizando como referência as obras de Sigmund Freud e de Jacques
Lacan, procuramos os embasamentos necessários à articulação da histeria com
a fibromialgia. Nesse percurso, trabalhamos os conceitos psicanalíticos de
inconsciente, pulsão, sintoma e gozo. Apresentamos um caso clínico de nossa
experiência profissional como fisioterapeuta: uma paciente que sofria dores fortes
no corpo e chegou para tratamento fisioterápico com o diagnóstico de
fibromialgia. Em seguida, cotejamos o seu caso com o “Caso Dora” e de outras
mulheres histéricas que foram pacientes de Freud. Nosso objetivo foi propor uma
nova visão do diagnóstico de “dor fibromiálgica”, salientando a contribuição da
psicanálise. Acreditamos ter confirmado a hipótese que a psicanálise, com seus
próprios conceitos de sintoma conversivo, dor, corpo, pulsão e gozo, pode
contribuir no trabalho de decifração dos “enigmas” da dor da fibromialgia. Se, no
decorrer de um tratamento psicanalítico, os histéricos encontram alguma forma
alívio para suas dores e seus sofrimentos, por que não dar a mesma chance aos
sujeitos que sofrem de “fibromialgia”?
Palavras- chave: fibromialgia; psicanálise; histeria; dor.
ABSTRACT
This essay broaches the psychoanalytic concepts of hysteria and hysterical pain.
Referring to Sigmund Freud and Jacques Lacan’s works, we aim at the basis needed
to articulate hysteria to fibromyalgia. During this process, we dealt with the concept of
unconscious, urge, symptom and enjoyment. We present a clinical case from our
professional experience as physiotherapist: a patient who suffered from severe pains
in her body and was introduced to physiotherapeutic treatment related to a
fibromyalgia diagnosis. Then, we confronted her case to the “Dora’s Case” and to
other hysterical women who were Freud’s patients. Our objective was to propose a
new view to the diagnosis of “fibromyalgia pain”, pointing out the contributions of
psychoanalysis. We believe we have confirmed the hypothesis that psychoanalysis,
with its own concepts of conversion symptom, pain, body, drive and enjoyment, can
contribute to the work of deciphering the "puzzles" of fibromyalgia pain. If, in the
course of psychoanalytic treatment, hysterical somehow find relief for their pain and
suffering, why not give the same chance to subjects suffering from "fibromyalgia"?
KEY-WORDS: fibromyalgia; psychoanalysis; hysteria; pain.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO........................................................................................................9
CAPÍTULO 1– FIBROMIALGIA........................................................................14
1.1HISTÓRICO E DEFINIÇÃO..................................................................................14
1.2 QUADRO CLÍNICO..............................................................................................16
1.2.1Etiologia.............................................................................................................20
1.3 TRATAMENTOS PROPOSTOS..........................................................................22
1.4 UMA PACIENTE EM MEU CONSULTÓRIO.......................................................27
CAPÍTULO 2 – HISTERIA..................................................................................29
2.1 O CASO DORA....................................................................................................29
2.2 HISTERIA NO DECORRER DA HISTÓRIA........................................................40
2.2.1 Freud encontra Charcot....................................................................................42
2.3 ESTUDOS DE FREUD SOBRE A HISTERIA......................................................46
2.4 A DESCOBERTA DO INCOSCIENTE.................................................................52
CAPÍTULO 3 – O CORPO COMO LOCAL DE EXÍLIO PARA A DOR
HISTÉRICA............................................................................................................59
3.1 O CORPO............................................................................................................59
3.1.1 O Corpo Histérico.............................................................................................65
3.2 A DOR..................................................................................................................67
3.2.1 Elizabeth Von R................................................................................................71
3.2.2 (IN) Satisfação da dor histérica.......................................................................74
CONCLUSÃO........................................................................................................82
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...............................................................87
APÊNDICE A.........................................................................................................98
10
INTRODUÇÃO
Atualmente, tem sido comum, em consultórios médicos e fisioterapêuticos o
surgimento de pessoas com queixa de dor. Algias que aparecem em pontos
diferentes sem alguma causa comum ao paciente, e que geralmente vem
acompanhado por fadiga, depressão e insônia. Para a existência desses estados
dolorosos foi dado o nome de fibromialgia, reconhecida pela OMS (Organização
Mundial de Saúde) em 1992, sob a identificação M790 na Classificação Internacional
das Doenças (CID). (BESSET et al, 2010, p. 1246). E o presente estudo tem por
objetivo pesquisar até que ponto o diagnóstico médico de “Síndrome de
Fibromialgia” pode ser aproximado do diagnóstico psicanalítico de histeria,
particularmente, daquilo que se define como “envoltório formal” do sintoma.
A fibromialgia caracteriza-se por uma dor muscular crônica em pontos
diferentes do corpo, e apresenta como sintomas: fadiga, sono, depressão psíquica,
ansiedade, dor de cabeça. É uma síndrome que muitas vezes fica difícil de definir se
a dor é articular ou muscular. Os pacientes costumam a relatar que não há um só
lugar do corpo que não doa. Estudos comprovam que esses pacientes tem uma
sensibilidade maior em relação às pessoas que não apresentam esta síndrome.
Etiologicamente não existe uma causa definida, mas acredita-se que pode surgir
após um trauma físico, psíquico ou por eventos graves na vida da pessoa. Os
motivos pelos quais alguns adquirem a fibromialgia e outras não, ainda são
desconhecidos. É bastante comum acometer mulheres entre 30 e 55 anos, porém
existem dados em crianças, adolescentes e pessoas mais velhas. (KEISERMAN,
2001, p.45).
Curiosamente, o aumento do quadro álgico não age na evolução da doença,
nem no comprometimento articular ou muscular como no caso de um reumatismo
tradicional, o que dificulta um possível diagnóstico. A fibromialgia tem sido discutida
pela mídia e especialmente em publicações de artigos. Estas nos indicam que os
sintomas desta síndrome foram no passado considerado pelos médicos como
próprios de pacientes hipocondríacos, histéricos ou reumatológicos (RANGEL,
11
2008). Mas o caminho mudou, a subjetividade foi deixada de lado e o espaço para
as comprovações científicas foi ganhando lugar.
Alguns autores reconhecem o papel dos fatores psíquicos no surgimento da
fibromialgia, mas ao mesmo tempo, rejeitam a assimilação desta a qualquer doença
psiquiátrica. Outros autores discutem a ideia que esta síndrome pode intervir na
economia psíquica do sujeito como função de apelo, uma lógica de dependência do
outro, mas também como mecanismo de defesa em relação a um possível conflito
inconsciente. “Assim, a fibromialgia pode comparecer no sintoma, na neurose, como
modo de gozo ou como um fenômeno psicossomático em qualquer estrutura clínica”.
(BESSET et al, 2010, p. 1260).
Para Teixeira, a fibromialgia não pode ser compreendida como uma visão
atualizada de episódios de conversão, nem reduzida ao campo psicossomático. Em
função disso, entramos em um caminho contraditório no qual alguns representantes
da medicina e pesquisadores se afirmam reticentes em legitimar um estatuto oficial
da doença. Os textos médicos sobre o assunto referem-se a tratamentos
medicamentosos e à psicoterapia devido ao quadro de depressão e ansiedade, sem
mencionar a psicanálise como possível procedimento de tratamento. Apesar de uma
parte da classe médica considerar apenas a dor física do paciente e não os fatores
psíquicos, a multiplicação de reportagens e artigos a respeito do caráter subjetivo
dos transtornos relatados por quem vivencia essa doença vem sendo cada vez mais
lançados na mídia. (TEXEIRA, 2006, p. 30-35).
Não é uma síndrome progressiva, podendo durar por um longo tempo, ou
pela vida toda. Não causa danos a musculatura, órgãos internos e às
articulações. Não há uma cura definida, mas algumas pessoas melhoram
com o tempo. Não causa deformidades ou incapacidade física grave, mas
pode-se verificar uma alteração na qualidade de vida, 70% queixam-se de
alterações na vida sexual e no trabalho. (Sociedade Brasileira de
Reumatologia, 2011).
É muito intrigante um corpo são sentir tanta dor ao ponto de paralisar, assim
como era intrigante para Freud a histeria, que na sua grande maioria acometia
mulheres com sintomas físicos que não podiam ser explicados. Freud decide
estudá-las como se houvesse a intenção de mostrar a relação do estado mental com
o estado físico de suas pacientes. No final do século XIX, depara-se com mulheres
12
que são consideradas loucas. Em 1885, Freud, médico e estudante de
anatomopatologia, chega a Salpêtriére, após conseguir uma bolsa de estudos. Sua
intenção era de encontrar com Jean Martin Charcot, médico, cujas experiências
sobre a histeria o fascinavam. As demonstrações clínicas de Charcot, assistidas por
Freud até 1886 causaram-lhe interesse e impacto. (FREUD [1925-1926] 1996).
A respeito disso, (JORGE; FERREIRA, 2010, p.18) comentam que ao retornar
de Paris, Freud se estabelece em Viena como médico especialista em doenças
nervosas. Durante anos dedicando-se a ouvir e a estudar as histéricas, Freud abriria
uma via nova de prática clínica: a psicanálise. Descobre que o homem é regido por
forças que escapam à consciência: o inconsciente. Indo contra o cogito cartesiano
“PENSO, LOGO SOU”, então, não penso, “SOU PENSADO”. Freud lança com o
conceito de inconsciente uma nova concepção de sujeito. O inconsciente é fundado
pelo recalque, e recalcar significa negar, manter o que foi negado afastado da
consciência. O recalcado sempre retorna, resultado do conflito psíquico entre
consciente e inconsciente, ainda que sob forma de disfarce. (RANGEL, 2008).
Segundo Freud ([1915] 2006) é nas histéricas que ele percebe que há uma
defesa contra as recordações de um evento traumático de natureza sexual. Sujeito e
consciência não conseguem suportar essa ideia, ficando estas, recalcadas e ativas
no inconsciente, e quem sabe, uma vez na vida adulta por conta de algum
acontecimento, essas recordações sejam despertadas, e assim, convertidas em
sintomas no corpo.
Após seus estudos e a partir dos casos atendidos, Freud conclui que os
sintomas referentes aos casos de histeria eram uma expressividade no corpo de
tudo o que está aprisionado na “alma”, e que usando a fala esses sintomas
apresentavam melhora. Em seu texto Estudos Sobre a histeria ([1893-1895], 2006),
diz que: “nenhum sintoma pode emergir de uma única experiência real, mas que em
todos os casos a lembrança de experiências antigas despertada em associação com
ela, atua na causa do sintoma”. Descreve também alguns sintomas histéricos, tais
como: angústia, choro, dor de cabeça, depressão, distúrbio no andar, fadiga,
insônia, tremores, parestesia. Sintomas que se assemelham tal quais as descrições
dos estudos já citados. Afirma que estes sintomas desapareciam de forma
13
permanente e imediata quando se conseguia trazer a luz as lembranças do fato que
o havia provocado e despertar o afeto que o acompanhara.
Certamente, as mulheres que Freud ouvia e identificava seus sintomas como
algo que foi recalcado pelo inconsciente, não são as mesmas dos tempos atuais.
Afinal, muita coisa mudou. Cada vez mais novas patologias vêm surgindo, como se
o sintoma estivesse novamente roubando o lugar da palavra. Mas será que são
novas as patologias, ou apenas as mesmas com a nova cara do século XXI? Temos
aqui semelhanças entre as duas patologias: a fibromialgia como uma doença ligada
a traumas físicos e psíquicos para suas dores corporais, e a histeria a traumas
psíquicos. Outro ponto comum é o descrédito que ambas provocam a alguns
médicos, pois o diagnóstico se dá pelas sensações e experiências relatadas pelos
pacientes, não havendo nenhum exame que possa comprovar o que é descrito
verdadeiramente. Os sintomas histéricos ainda continuam sendo tratados sem
nenhuma simpatia e interesse por alguns médicos, e assim ocorre com a
fibromialgia, vale ressaltar que não são por todos, pois hoje em dia já existe uma
nova especialidade que já converge para a clínica da dor. Texeira (2006, p. 40)
relata que: “pessoas que apresentam dor generalizada ou queixas mal definidas não
eram levadas a sério”. Será que as histórias de vida dos pacientes de hoje
diferenciam-se tanto das histéricas ouvidas por Freud? O resultado do corpo
dolorido não passa de uma metáfora da “surra” que levara da vida?
A histeria é mais comum em mulheres, a fibromialgia também. Freud, assim
quando começou a cuidar de suas histéricas indicava tratamentos de relaxamento e
exercícios físicos, e segundo Bennett (1993) além de medicamento, sugerem-se
também caminhadas, hidroterapia e relaxamento para a fibromialgia.
Os estudos dos pontos dolorosos da fibromialgia faz lembrar outros pontos
que eram estudados por um médico neurologista na França (1870), Jean Martin
Charcot. Ele chamava esses pontos de zona histerógena, local que havia muita
sensibilidade ao toque e fricção, e gerava dor, desconforto e reações semelhantes a
carícias voluptuosas ao serem tocados. Já Freud, médico e aluno de Charcot,
acreditava que essas reações são frutos de um ataque conversivo, sendo
equivalente a um orgasmo. A zona histerógena seria então uma região do corpo que
se tornaria erógena. Outra característica que lembra os estudos dos pontos
14
dolorosos da fibromialgia é que essas zonas histerógenas podem aparecer também
em qualquer lugar do corpo. Mais uma vez um ponto intrigante da fibromialgia: a
relação dos seus pontos dolorosos com as zonas histerógenas. Seria então esse
ponto doloroso um local de conversão histérica? Uma zona erógena?
No que se diferenciam as pacientes histéricas de Freud com as de hoje?
Afinal, é um corpo que fala, que dói. O pensar, o sentir, e a dor da vida, podem
então ser curados com medicamentos? Medicação esta que serve para dopar ou
“calar o corpo”. O foco para o presente trabalho de mestrado concerne à posição
subjetiva daquele que sofre de fibromialgia, apostando que além da dor, há um ser
humano, um sujeito em questão, e que pode haver um novo diagnóstico para a
fibromialgia à luz da psicanálise.
No campo da fisioterapia e da psicanálise, o estudo objetivou a pesquisa
bibliográfica da fibromialgia, da histeria, assim como alguns casos histéricos
vivenciados na prática psicanalítica por Freud. Utilizar livros, artigos científicos,
internet, revistas. Foram consultados obras de Lacan e Freud: “Estudos sobre a
histeria”, “Um estudo autobiográfico, inibições, sintomas e ansiedade, análise leiga e
outros trabalhos”, “Interpretação dos sonhos”, “Três ensaios sobre a teoria da
sexualidade”, “Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise”, “As formações do
inconsciente” e outras obras para a formulação da dissertação.
E para melhor concepção do tema, traremos durante a dissertação a
descrição da fibromialgia, seu meio de tratamento na área médica e um caso vivido
pela autora da dissertação, em seguida faremos relação com casos vividos na
prática psicanalítica por Freud e suas descobertas com as histéricas. Se a dor marca
o corpo da paciente com fibromialgia, mostraremos como a dor é interpretada no
corpo psicanalítico e histérico cartografado pelo desejo.
Se para alguns médicos o diagnóstico se firma nos fenômenos comprovados,
a psicanálise busca modos de enfrentar as singularidades do sofrimento. “O traço de
cada um dirá mais sobre aquele que sofre e sobre o uso que se faz de sua dor.”
(BESSET et al, 2010, p.1250).
15
CAPÍTULO I - FIBROMIALGIA
1.1 HISTÓRICO E DEFINIÇÃO
Em 1824 e 1841, Balfour e Vallux apontaram e descreveram pacientes com
pontos musculares sensíveis e passíveis de desenvolver dores irradiadas. Já em
1904, Stockman encontrou,por meio de biópsias, processos inflamatórios do tecido
conectivo. No mesmo ano, o termo “fribrosite” foi defendido por Willian Gowers. Ele
acreditava haver alterações inflamatórias no tecido fibroso do dorso que geravam
um reumatismo muscular, havendo ou não história de sintoma. (MARTINEZ, 1997).
Em 1940, Collins definiu fibrosite como “um estado doloroso agudo, subagudo
ou
crônico
dos
músculos,
tecidos
subcutâneos,
ligamentos,
tendões
ou
aponeuroses, independente da lesão anatomopatológica que tenha originado a dor.”
(IBID, p.100).
Ferreira et al (2005, p.149) aponta que o desenvolvimento de pesquisas
clínicas sobre a fibromialgia só foi possível em 1972. Martinez (1997) afirma que, em
1977,Smythe e Moldosfsky restringem o uso da palavra fibrosite à sintomatologia de
pacientes que “apresentam dores musculoesqueléticas difusas acompanhadas de
pontos dolorosos a digita-pressão, fadiga e distúrbio do sono”. A fibromialgia foi por
muito tempo conhecida, inicialmente, como fibromiosite, fibrosite, miofascite e
reumatismo muscular. Em 1981, Yunus (apud Hall, Body, 2007) indica o termo
fibromialgia, que vem sendo usado pelos autores até hoje.
Consideramos que o estudo de pesquisas clínicas sobre a fibromialgia sofreu
um grande atraso, por conta da denominação fribrosite (inflamação, reumatismo
muscular). Preferiu-se o nome fibromialgia, pois a inflamação não é predominante
nessa doença. A nomenclatura fibromialgia primária surge para designar os casos
em que nenhum outro distúrbio era encontrado como causa ou contribuição para o
quadro. Já a fibromialgia secundária era considerada uma síndrome parecida com a
16
primária, porém só acontecia em determinadas condições secundárias, fossem elas
reumáticas ou não.
Os estudos liderados por Wolfe, em 1990, representaram um marco na
pesquisa dessa síndrome. Foi a partir daí que se solidificou o termo fibromialgia,
abandonada a distinção entre fibromialgia primária e secundária e estabelecidos
critérios de avaliação. “Fica sendo definida como uma síndrome de dor difusa e
crônica, caracterizada pela presença de pelo menos 11 dos 18 pontos
anatomicamente específicos chamados de tender points, dolorosos a palpação de
cerca de 4kgf.” (FERREIRA et al, 2005, p. 149)
Marques et al (2002) a definem como uma síndrome reumática, ou seja, a
fibromialgia seria de origem reumatológica e não ortopédica, que acomete,
preferencialmente, as mulheres e de etiologia desconhecida, caracterizada por dor
musculoesquelética difusa e crônica. Apresenta locais anatômicos específicos
dolorosos à palpação (tender points). Além disso, há sintomas associados, como o
distúrbio do sono, fadiga, distúrbios psicológicos, rigidez matinal, depressão e
ansiedade. Provenza et al (2004, p. 104) publicaram na Revista Brasileira de
Reumatologia:
Sua definição constitui motivo de controvérsia, basicamente pela ausência
de substrato anatômico na sua fisiopatologia e por sintomas que se
confundem com a depressão maior e a síndrome da fadiga crônica. Por
estes motivos, alguns ainda consideram-na uma síndrome de somatização.
A síndrome da fadiga crônica, por sua vez, é caracterizada por cansaço
profundo.
Com ela, 25% dos pacientes ficam acamados ou são incapazes de
trabalhar. (HALL, BRODY, 2007).
Já a definição de fibromialgia apontada pela Sociedade Brasileira de
Reumatologia (2011, p. 19) é: “uma síndrome clínica que se manifesta com dor no
corpo todo. Fica difícil definir se a dor é muscular ou articular. Uma grande
sensibilidade ao toque e à compressão de pontos nos corpos”.
Para Besset et al (2010), a classificação dessa patologia como uma síndrome
não resolve a polêmica entre os especialistas no assunto sobre seu estatuto de
doença. Seu diagnóstico permanece em discussão, em virtude da falta de
causalidade orgânica detectável e das características subjetivas dos transtornos
17
dela resultantes. Diferentes de outras doenças reumatológicas como a artrite
reumatoide que se tem uma comprovação diagnosticada por exames e tratadas com
excelência pelo corpo médico.
1.2 QUADRO CLÍNICO
A síndrome da fibromialgia (SFM) é crônica. Seus sintomas se intensificam e
melhoram com o passar do tempo, sem haver um comprometimento articular
avançado. O American College of Rheumatology (ACR) lista a SFM como uma
doença reumatológica que apresenta distúrbio extra-articular.
Para a Sociedade Brasileira de Reumatologia (2011), a dor generalizada é o
sintoma principal, uma vez que é muito difícil para os pacientes definir o local correto
onde ela se dá. Além da dor espontânea, eles se queixam também do dolorimento
ao toque. Alterações no sono, cansaço, “sono não reparador”, distúrbio no humor,
depressão e ansiedade são comuns a essa patologia.
A depressão encontra-se em 50% dos pacientes que apresentam essa
síndrome, piorando cada vez mais esse quadro. As sensações ruins podem gerar
um desconforto maior para a dor, que pode ser explicado pelo mecanismo da
serotonina e noradrenalina (neurotransmissores). Segundo Hall e Brody (2007,
p.251), a “modulação da dor pode estar alterada na SFM no nível medular ou nos
centros superiores do SNC”.
Yunus (1981) (apud HALL, BODY, 2007), por sua vez, propõe uma hipótese
para unificar muitas das teorias da fisiopatologia da fibromialgia. Ele enfatiza uma
possível disfunção neuro-hormonal, que resulta em dor e mecanismos centrais, os
quais são propostos como sendo responsáveis por fadiga, depressão, ansiedade e
estresse mental, o que altera ainda mais a atividade simpática e amplifica a
percepção da dor.
Não é uma síndrome progressiva, podendo durar por um longo tempo ou pela
vida toda. Não causa danos a musculatura, aos órgãos internos e às articulações.
Não há uma cura definida, mas algumas pessoas melhoram com o tempo. Não
causa deformidades ou incapacidade física grave, mas pode-se verificar uma
alteração na qualidade de vida. De acordo com a Sociedade Brasileira de
18
Reumatologia (2011): 70% queixam-se de alterações na vida sexual e no trabalho.
Desse modo, é intrigante uma síndrome sem uma causa definida que aparece e
some em alguns casos e que gera tantos danos na vida do ser humano e no seu
cotidiano, mas que, fisicamente, não cria nenhuma deformidade ou progride.
Recentemente, foi avaliada a população brasileira, questionando-se diferentes
culturas, economias, etnias e grupos sociais que poderiam influenciar no
reconhecimento da síndrome e de suas manifestações clínicas. Estudos da ACR
mostraram que a combinação de dor difusa em 9 ou mais pontos dolorosos dos 18
apresentou sensibilidade de 93,2%, especificidade de 92,1% e acuaria de 92,6%. Os
distúrbios de sono e fadiga ocorreram em mais de 80% da população.
Dor difusa: dor no lado esquerdo do corpo, dor no lado direito do corpo, dor
acima da linha da cintura. Além disso, uma dor no esqueleto axial
(segmento cervical, torácico ou lombar da coluna vertebral) deve estar
presente. A dor difusa deve estar presente pelo menos por três meses.
Dor a palpação: com uma pressão de aproximadamente 4Kgf
em pelo
menos 11 dos 18 tendes points.(FERREIRA et al, 2005, p.150)
Pode ocorrer a dor nos seguintes pontos:

Occipital: inserção dos músculos suboccipitais.

Cervical Inferior: anteriormente, entre os processos transversos C5 – C7.

Trapézio: ponto médio das fibras superiores do músculo trapézio.

Supra-espinhal: inserção do músculo supra-espinhal, acima da espinha
da escápula, próximo ao ângulo medial.

Segunda articulação costocondral: lateral e superior à articulação.

Epicôndilo lateral: 2 cm distalmente ao epicôndilo.

Glúteo: quadrante superior e lateral das nádegas.

Trocânter maior: posterior à proeminência trocantérica.

Joelho: coxim gorduroso medial, próximo à linha articular.
Para Hall e Brody (2007, p. 252), o diagnóstico pode ser feito inclusive quando
não estão presentes 11 dos 18 pontos sensíveis, pois também existem outras
características encontradas. Há para eles uma discussão acerca dos critérios
19
diagnósticos considerarem somente no início as características subjetivas como a
própria dor. Nesse caso, não existe nenhum exame laboratorial que exclua ou afirme
o diagnóstico.
Para a Sociedade Brasileira de Reumatologia (MARIANO, 2011), o diagnóstico
é essencialmente clínico. Durante a avaliação do paciente, o médico obterá
informações que sejam semelhantes ao quadro patológico, utilizando estes
questionários: Índice de Dor Generalizada, o Índice de Severidade dos Sintomas e o
Questionário de Impacto da Fibromialgia. Na verdade, não existem exames para a
fibromialgia, o médico pode pedir exames apenas para excluir a possibilidade de
doenças que se assemelhem à SFM, tais como uma ressonância magnética ou uma
radiografia do local da dor.
Os estudos dos pontos dolorosos fazem lembrar outros pontos que eram
estudados por um médico neurologista na França em 1870: Jean Martin Charcot. Ele
chamava esses pontos de zona histerógena, local em que havia muita sensibilidade
ao toque e à fricção. Em função disso, gerava dor, desconforto e reações
semelhantes a carícias voluptuosas ao ser tocado.
Já Freud, médico e aluno de Charcot, acreditava que essas reações são frutos
de um ataque conversivo, sendo equivalente a um orgasmo. A zona histerógena
seria, então, uma região do corpo que se tornaria erógena. Freud ([1901-1905],
2006) em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, afirma que as duas têm a
mesma característica. Esse processo é ativo em indivíduos que apresentam
complacência somática (expressão introduzida por Freud para explicar a "escolha da
neurose” escolha histérica e de órgão do corpo ou aparelho em que ocorre a
conversão), que pode converter em sintoma no corpo.
Outra característica que lembra os estudos dos pontos dolorosos da
fibromialgia é que essas zonas histerógenas podem aparecer também em qualquer
lugar do corpo. Mais uma vez, um aspecto curioso da fibromialgia: a relação dos
seus pontos dolorosos com as zonas histerógenas.
Segundo a Revista Brasileira de Reumatologia (MARIANO, 2011, p. 5), a
“questão do diagnóstico, porém, ainda deve ser mais explorada. A utilização dos
critérios de classificação do ACR foi um grande avanço em termos de inclusão em
estudos científicos. Mas para uso individual, ainda deixa muito a desejar.”.
Essa falta de diagnóstico atrapalha o cuidado ao paciente, afetando seu
relacionamento com o médico e a sociedade. É fato que existe uma dor, entretanto
20
não se apresenta nenhum resultado laboratorial. Com isso, outros profissionais de
outras áreas, como psicólogos e psicanalistas, vêm brigando para um possível
diagnóstico voltado para a subjetividade do paciente, acreditando que um corpo que
dói é também um corpo que fala. (MARTINEZ, 1997).
Diante desse quadro, conclui-se que diagnóstico correto da fibromialgia não é
definitivo, pois sua etiologia ainda se encontra sem definição clara, ou seja, temos
duas questões apresentadas, a etiologia indefinida que gera a dificuldade do
diagnóstico
da
patologia.
Além
disso,
essa
síndrome
apresenta
outras
manifestações associadas.
Segundo Besset et al (2010), alguns pacientes sofrem com a falta de
adaptação à doença e com as manifestações clínicas. Isso, de modo geral, leva-os a
valorizar sua dor e culpar as pessoas próximas pela sua limitação e dificuldade para
realizar as tarefas. Apresentam quadros de irritabilidade e sentem-se desiludidos por
não conseguir uma resposta firme e ideal para o que sofrem. Por conta da
complexidade dessa síndrome, muitos pacientes procuram por médicos de diversas
áreas, sendo, muitas vezes, submetidos a vários tipos de exame.
[...] Procuram o neurologista, apresentando queixas de cefaleia tensional
crônica e recebem o rótulo de enxaqueca. Buscam o otorrino em razão da
tontura e do zumbido e recebem o diagnóstico de labirintite. Vão ao
cardiologista por dor toráxica e palpitações e, após exames de
eletrocardiografia e ecocardiografia normais, recebem diagnóstico de
costocondrite. Procuram um gastroenterologista e são submetidos a
exames invasivos, não demonstrando qualquer anormalidade. Além dos
múltiplos diagnósticos de tendinites, tenossinovite, bursite e neuropatias
associadas. (CHIARELLO, 2005, p.152).
Como podemos perceber, algumas terapias e tratamentos acabam sendo
inapropriados com o que o paciente verdadeiramente sofre. Não há como deixar de
citar a quantidade de medicamentos que alguns profissionais da área médica
utilizam para “dopar” os que se mostram com depressão, angústia e irritabilidade,
sem, ao menos, mostrar algum interesse pelo lado da subjetividade.
21
Outro fator intrigante é o porquê da incidência da fibromialgia em mulheres,
principalmente na faixa da menopausa, ou seja, os 50 anos. Alguns estudos
comprovam essas informações.
Wolf et al (apud CHIARELLO et al, 2005) mostra que a fibromialgia acomete
2,0% da população acima de 18 anos, ambos os sexos; 3,4% para o sexo feminino e
0,5% para o sexo masculino, com maior prevalência em mulheres acima dos 50
anos. Dados apontados pela Sociedade Brasileira de Reumatologia (MARIANO,
2011) apontam, contudo, que há casos em crianças, adolescentes e pessoas mais
velhas.
Chiarello et al (2005, p.152) relata que, entre 160 indivíduos, a predominância
é de 99,5% para as mulheres, com idade média de 52 a 57 anos. Cerca de 25% dos
pacientes relatam que os sintomas dolorosos começam na infância.
1.2.1 Etiologia
A fibromialgia tem por característica assemelhar-se com outras patologias,
como, por exemplo, doenças reumáticas, malignidades, anemia e esclerose múltipla.
Por isso, é necessária uma avaliação médica completa, para que toda dúvida seja
retirada.
Nela, há como característica uma ausência de achados laboratoriais positivos.
Seu início pode ser dito como insidioso, pode ocorrer após um traumatismo ou
infecção viral, não descartando a ideia de relação com o estresse, o distúrbio do
sono ou o SNC (Sistema Nervoso Central) (HALL; BODY, 2007).
Devido ao fato de a dor muscular ser considerada um dos primeiros sintomas
da
fibromialgia,
iniciou-se
uma
pesquisa
das
alterações
do
sistema
musculoesquelético. Foi pesquisada a força muscular voluntária dos membros
inferiores dos pacientes, mas não foi encontrada nenhuma anormalidade no
metabolismo dos músculos. Acredita-se que pode ocorrer uma vasoconstrição na
pele sob os tender points (locais de dor na região muscular), gerando hipóxia local, o
que geraria os pontos de dor.
22
Os recentes estudos a respeito dos neurotransmissores voltam a
atenção à serotonina. A serotonina tem papel na modulação da dor,
agindo como um neurotransmissor inibitório da liberação da substância P
pelos neurônios aferentes. O estudo nessa área tem demonstrado uma
diminuição do nível de serotonina, além de seus precursores e
metabólitos no soro sanguíneo dos pacientes com fibromialgia,
comparados a indivíduos-controle. (CHIARELLO et al, 2005, p. 154)
Para avaliar a função cerebral desses pacientes, utiliza-se tomografia
computadorizada. Com ela, é possível demonstrar a diminuição do fluxo sanguíneo
em partes cerebrais.
Outra hipótese para a causa da fibromialgia é o distúrbio funcional do sistema
neuroendócrino que, por conta do estresse, apresenta uma perturbação. Alguns
estudos mostram que há uma disfunção no eixo hipotálamo-hipófise-adrenal,
responsável pela coordenação das respostas fisiológicas ao estresse mental ou
físico.
A modulação da dor pode estar modificada na fibromialgia no nível medular
ou no SNC. Alterações nos hormônios hipofisários já foram encontradas, assim
como nos do crescimento, por conta da privação do sono. Segundo Yunnus (apud
HALL, BODY, 2007, p.251).
O descondicionamento físico, os traumatismos, o estresse vertebral devido
a uma postura incorreta e os estímulos ambientais podem amplificar ainda
mais a dor. Pode haver uma predisposição genética para a fibromialgia, pois
os parentes de primeiro grau dos pacientes com essa enfermidade exibem
uma frequência mais alta que a esperada da síndrome.
Em síntese, não há evidências científicas de que a fibromialgia seja gerada
por problemas no SNC e nem sequer de que sejam geradas por problemas
emocionais. Na verdade, o que pode ter de concreto é que as crises dessa síndrome
podem ser provocadas pelas tensões emocionais, o que não as torna a causa, mas
sim um fator desencadeador.
23
1.3 TRATAMENTOS PROPOSTOS
Lima & Carvalho (2011) afirmam que atribui-se como missão do médico tocar,
olhar, confortar e estudar o paciente. Isso é esperado como o atendimento mais
humanista já pregado por Hipócrates. O modelo mais indicado para a cura é o que
envolve o lado humano-científico. Para estabelecer um relacionamento médicopaciente, é necessário que haja compreensão do comportamento humano e um
olhar que leve em conta a subjetividade, acima de tudo, ouvir o outro. Para que
possa falar à alma do paciente, o médico deve compreender a linguagem da dor, do
medo, da angústia e do sofrimento. Infelizmente, porém, o modelo organicista tem
grande predomínio.
Maeda et al (2009) desenvolve uma pesquisa qualitativa para verificar o
discurso do médico residente sobre o paciente portador de fibromialgia. Trata-se
de uma pesquisa realizada em três hospitais-escola do setor público, com
residentes do segundo ano de reumatologia. Ela relata ser um estudo da
compreensão do atendimento. O tema utilizado foi: “O que é isto para você:
atender ao fibromiálgico?”. A resposta de um residente foi:
Bom, é um paciente complexo, você tem que ver vários parâmetros, não só
reumatológico, principalmente psicológico. [...] parece que o médico tem a
obrigação de melhorar. Quando eles percebem que eles estão fazendo
exercícios físicos, tomando a medicação, fazendo as atividades que a gente
manda, eles se motivam mais a fazer isto. O aspecto psicológico é
fundamental. (IBID, s/p).
Nota-se que esse residente acredita na complexidade dessa síndrome e na
dificuldade de elaborar um diagnóstico e tratamento eficaz. Ele acredita no auxílio
psicológico, mas se sente responsável único pela cura. Maeda at al (2009) conclui,
após sua pesquisa, que só haverá um resultado efetivo quando os médicos
24
desenvolverem a capacidade de escuta, quando juntarem seus conhecimentos
técnicos e teóricos aos aspectos sociais e afetivos
Outros relatos de residentes presentes no estudo não indicaram a menor
preocupação com a doença, pois ela não compromete o organismo e não se mostra
grave. Acreditam até que existam vários laudos e diagnósticos errados, pois não há
comprovação laboratorial satisfatória. Seria necessária uma boa anamnese, mas,
para eles, conversar, ouvir e dar conta do emocional do doente não seria sua
responsabilidade. Sua função é apenas medicar e aliviar a dor do paciente.
O “achado” da fibromialgia, de certa forma, acalmou os médicos, visto que
precisavam de um termo para explicar aos pacientes e validar seus sintomas como
reais, e não simulados. Para incluir os aspectos psicossociais como influenciadores
da formação da doença, haveria de mudar o modelo tradicional das consultas
médicas, que separam em pedaços a avaliação de cada indivíduo.
Mas temos que ressaltar que nem todos os médicos agem sobre essa
patologia da mesma forma. Cito o doutor Antônio Carlos Althoff, médico
reumatologista, como um exemplo de uma nova visão sobre a fibromialgia, em que
relata em seu artigo. Trabalha com a hipnose e programação neurolinguística, que é
uma remodelagem do pensamento humano. Usa a hipnose com o seguinte efeito:
Em termos práticos, seria a atenção focalizada através de uma indução ou
de uma auto-indução, absorvendo a atenção da mente consciente; isso
daria a oportunidade à mente inconsciente de se manifestar através dos
fenômenos hipnóticos. É neste transe hipnótico que a mente inconsciente
se manifesta em diversos níveis, sendo possível, através de sugestões,
produzir as mudanças necessárias no paciente. (2000, s/p).
Com essas duas técnicas trabalhadas, o médico, em dois anos, constatou
que se manteve mais próximo de seus pacientes, e o doente ficou melhor. Ele
declara que o resultado é fantástico, uma vez que há uma diminuição na quantidade
do medicamento, e o paciente fica mais centrado e independente emocionalmente.
25
É importante ressaltar que o doutor Althoff fez formações nas áreas em que atua no
tratamento.
Para Nogueira et al, (2005), há três grupos de classificação da fibromialgia.
1. Sentem dores musculares, sem ligação nenhuma com os aspectos cognitivos
e psicológicos.
2. Grupo intermediário apresenta dor muscular moderada, mas sem alteração no
humor.
3. Compostos por fatores cognitivos e psicológicos, influenciando os sintomas
de dor.
O grupo 3 é visto como pacientes de fibromialgia refratária, ou seja, não
tiveram uma boa resposta aos tratamentos convencionais. Com esse grupo,
Nogueira et al (2005) realizou dois tipos de tratamento: a hipnose + 250 ml de
solução fisiológica e hipnose + 250 ml de solução fisiológica contendo 100 mg de
cetoprofeno (anti-inflamatório não-esteroide). O resultado foi igual para os dois
grupos, comprovando, assim, que a hipnoterapia por si só foi eficiente ao controle
da dor do paciente.
A hipnose é uma alternativa eficaz de tratamento para pacientes portadores
de fibromialgia refratária ao tratamento convencional. A mensuração do
fluxo
sanguíneo
cerebral
por
emissão
de
posítron
e
tomografia
demonstraram que, em pacientes portadores de fibromialgia durante a
realização de sessão de hipnose, ocorria diminuição da intensidade de dor
associada com aumento do fluxo sanguíneo cerebral nas regiões ortofrontal
e cortexcingulatosubcalosial, na região direita do tálamo, na região inferior
esquerda do córtex parietal, além da diminuição do fluxo sanguíneo cerebral
bilateral no córtex cingulado. Enquanto essas alterações eram evidenciadas
sob hipnose, as mesmas não eram detectadas durante fisioterapia ativa.
Essa modificação do padrão serve de suporte para os efeitos analgésicos
obtidos sob hipnose, em pacientes com fibromialgia refratária. (2005, s/p).
Esse tipo de tratamento, contudo, ainda é desconhecido ou não aceito entre
os médicos e alguns pacientes, que procuram apenas o tratamento medicamentoso,
26
confiando ao médico o “dever” de encontrar sua cura. É de suma importância relatar
aqui que a hipnose já era utilizada em um tempo anterior ao advento da psicanálise.
Freud e seu mestre Charcot já faziam uso dessa prática em suas pacientes
histéricas. Com o passar do tempo, surge a psicanálise com a associação livre,
deixando de lado esse tipo de terapia. Em casos que o médico acredita que, além da
patologia, há algo que pertence ao inconsciente, é necessário que ele passe a
adotar formas mais novas de tratamento e encaminhe ao profissional com formação
adequada, como um psicanalista.
Alguns pacientes são encaminhados para a medicina alternativa, a
comportamental, a fisioterapia etc. Quando não há resposta positiva ao tratamento
farmacológico,
alguns
profissionais
procuram
agrupar
outros
tratamentos.
Lembramos que nem todos se utilizam somente dos medicamentos, mas já iniciam
com o auxílio de outras equipes de profissionais. O tratamento requer vários
remédios. Entre eles, temos: anti-inflamatórios, aspirina, antidepressivos tricíclicos,
inibidores da receptação da serotonina, benzodiazepínicos, medicações para o
sono,
medicações
tópicas,
miorrelaxantes,
analgésicos,
derivados
de
anticonvulsivantes e outras medicações (MARQUES et al, 2012). O que nos faz
indagar, mais uma vez, sobre essa síndrome: como, mesmo sem saber a etiologia
definida dessa doença, ela consegue ser medicada? Ou melhor, medicam o
sintoma, que certamente voltará, porque a causa real não foi atacada.
Para entender a função de cada medicamento, é significativo sintetizá-los. Os
anti-inflamatórios têm ação bloqueadora sobre as prostaglandinas, as quais têm por
função veicular a dor e a inflamação. Eles têm resultado benéfico junto com outros
medicamentos. Os antidepressivos tricíclicos são sempre utilizados como primeira
escolha para o tratamento, pois causam alívio da dor de forma indireta. Aumentam a
formação de dopamina, norepinefrina e serotonina, levando ao sono mais profundo e
ao relaxamento muscular. Os inibidores da receptação da serotonina aumentam a
serotonina entre os neurônios, gerando ânimo, relaxamento e redução da fadiga.
Aumentam também o número de endorfina, reduzindo a dor. Benzodia tem efeito
analgésico, porque aumenta a quantidade da serotonina, bem como a do
neurotransmissor ácido gama-amido-bultírico, que inibe as transmissões dos
estímulos excitatórios para o cérebro. As medicações para o sono são utilizadas
quando os antidepressivos tricíclicos não fazem o efeito desejado, deixando ainda o
27
sono perturbado. As medicações tópicas são eficazes por um espaço curto de
tempo. Em forma de gel, temos a capsaicina. Os miorrelaxantes e analgésicos vão
servir para o relaxamento muscular e diminuição da dor para que, ao menos, os
pacientes consigam realizar suas tarefas. Os derivados anticonvulsivantes serão
somente utilizados em casos extremos da fibromialgia (KEISERMAN, 2012).
Em síntese, o tratamento medicamentoso visa à indução de um sono mais
profundo e de melhor qualidade, além de inibir a receptação de serotonina. Todavia
o tratamento não farmacológico deve ser lembrado sempre; entre eles, destaca-se: a
fisioterapia,
o
recondicionamento
muscular,
a
acupuntura,
a
ioga
e
o
acompanhamento psicológico, o qual, muitas vezes, só é indicado para o tratamento
de ansiedade, pânico e depressão, e não da fibromialgia. (WEIDEBACH, 2002).
A medicina alternativa tem sido bastante utilizada nos últimos anos pelos
portadores dessa síndrome, pois a terapia convencional tem se mostrado
necessitada de ajuda multiprofissional (BRAZ et al, 2011).
A fisioterapia é utilizada como tratamento auxiliar para a fibromialgia, não
tendo apenas como objetivo aliviar a dor com o uso da eletroterapia, mas também
melhorar a capacidade funcional. Para Rocha et al (2006), esse tipo de trabalho
fisioterapêutico proporciona benefícios, visto que o sono diminui a dor e a tensão
gerada pelos Tender Points. Dessa forma, há um ganho de flexibilidade muscular,
bem-estar e qualidade de vida.
Outro meio de tratamento é o acompanhamento psicológico. Ele tem por objetivo
ajudar o paciente a lidar com sua ansiedade e seu estresse doloroso. Utilizam-se
técnicas de relaxamento, sensibilização, visualização e orientação familiar. Muitas
vezes, os profissionais dessa área são indicados quando o quadro fibromiálgico leva
o paciente a desenvolver depressão e síndrome do pânico.
É de suma importância relatar que outras doenças reumatológicas são
diagnosticadas e o tratamento medicamentoso e terapêutico tem bons resultados
para a cura de tais patologias. Nem todos os médicos anulam a ideia de haver
subjetividade por trás da fibromialgia e a tratam fazendo um link com os psicólogos e
psicanalistas.
Lima & Carvalho (2011), após prestarem assistência psicológica a uma paciente
com fibromialgia e alguns sintomas psicossomáticos, constataram que a dor gerada
28
pôde ser amenizada por meio de psicoterapia. Segundo as autoras, “a paciente saiu
da condição de dependência em que se encontrava, da condição de passividade
ante a doença, para a condição de uma pessoa ativa e ajudando-se a controlar, por
si só, alguns sintomas”. (IBID, s/p).
1.4 UMA PACIENTE EM MEU CONSULTÓRIO
Após alguns anos trabalhando com fisioterapia, notei que era grande o
número de pacientes encaminhados pelos médicos com o diagnóstico de
fibromialgia. Os primeiros levaram-me a prescrever um tratamento mais voltado
para o relaxamento e alívio do local onde sentiam mais dor. Com o passar do tempo,
comecei a notar que eles sumiam da clínica e surgiam tempos depois com as
mesmas queixas. Queixavam-se de dor em todo o corpo, além de cansaço.
Relatavam que não conseguiam mais ter atividades diárias normais e que suas
vidas já não eram como antes.
Comecei a questionar o porquê do desaparecimento ao tratamento. Eles me
diziam que se sentiam bem, por isso paravam o tratamento e voltavam a realizar
suas tarefas. Depois de algum tempo, porém, a dor retornava.
Fiquei intrigada sobre tal patologia que surge e some de forma “estranha”,
que não gera nenhum avanço patológico ou deformidade, que se mostra em um
corpo aparentemente são. Buscando em meus estudos, vi que sua etiologia ainda
era indefinida. A partir do dia em que comecei a entender e a ouvir falar sobre a
histeria e suas representações sintomáticas, notei que havia certa ligação ou
“aparentemente” lembrava algo muito familiar com a fibromialgia.
Certo dia, em meu consultório, recebi uma jovem senhora de 48 anos, com o
diagnóstico de fibromialgia. Queixava-se de dor em todo o corpo e, principalmente,
em seus braços e ombros. Ela dizia que não era constante, mas que, quando surgia,
a impossibilitava de trabalhar.
O tratamento começou na piscina com o intuito de relaxar sua musculatura,
que se encontrava rígida. Assim que a sessão começou, comecei a conversar com a
senhora para que ela se sentisse mais tranquila. Com o passar da nossa conversa,
29
fui tomando mais liberdade e a indaguei sobre seu passado. Foi quando ela levantou
a cabeça e suas lágrimas correram antes mesmo de me contar qualquer coisa.
Perguntei se estava se sentindo bem e comentei que não era necessário que falasse
sobre o assunto; mesmo assim ela quis me contar. Começou, dizendo que ela é a
segunda irmã de sete filhos, morara na roça em sua infância e que seus pais eram
muito pobres. Nesse período, vivia com sua mãe, seu pai e seis irmãos, e todos
trabalhavam na roça, mas apenas ela, na época com 14 anos, ficava em casa,
cuidando dos afazeres. Depois de um tempo, quando sua irmã mais velha foi
tomando formas de mulher, as obrigações foram trocadas: ela passou a ir para a
roça, e sua irmã ficava em casa.
Um dia, voltando mais cedo da roça, chegou a casa e viu seu pai tendo
relações sexuais com sua irmã de forma “forçada”. Ela tentara defender sua irmã,
procurando empurrar seu pai, contudo não conseguira. A seguir, ainda fora
ameaçada para não contar nada. Meses depois, sua irmã ficou grávida, e seu pai
expulsou todos de casa, o que os levou a morar embaixo de uma ponte no Rio de
Janeiro, por um ano. Hoje, ela encontra-se casada e com duas filhas e afirma que,
toda vez em que passa por algum aborrecimento, essas dores voltam.
Continuei o tratamento fisioterapêutico e, como mestranda em Psicanálise,
Saúde e Sociedade, ficava intrigada com o caso. Passei a estudar mais sobre os
sintomas histéricos e a encaminhei a um psicanalista. Suas dores faziam-me lembrar
das histéricas de Freud, Dora e Elizabeth Von R., uma situação tão atual relacionada
com casos tão antigos. Como já estava estudando psicanálise, comecei a indagarme.
Será que a paciente portadora de fibromialgia não se sentia substituível à sua
mãe quando ficava em casa para cuidar das coisas do lar? Será que sentia um amor
Edipiano pelo seu pai? Talvez tentasse fazer uma identificação feminina com sua
irmã? Afinal, o que ela tem para que “papai” a preferisse? Um sintoma que aparece
no seu corpo pelo trauma de ver seu pai tendo relações com sua irmã? Ou por um
recalcamento de um desejo sexual? Com base nessas perguntas dei início aos
próximos capítulos no qual responderão minhas suspeitas.
A histeria vem demarcando séculos, aparecendo nas histórias no decorrer
dos
tempos.
Para
entendermos
melhor do
que
se
trata, é
necessário
acompanharmos sua evolução. uma situação tão atual relacionada com casos tão
antigos.
30
CAPÍTULO II – HISTERIA
2.1 O CASO DORA
Em Dora, encontramos traços de uma estrutura histérica. Destacarei os traços
ao desenrolar de seu caso que assinalam a abordagem histérica da questão dos
sintomas (FREUD [1901-1905], 2006].
Dora é uma paciente de dezoito anos, que, em seu ciclo familiar, incluía seus
pais e seu irmão mais velho. Seu pai era o homem que mandava na casa; sua
inteligência e traços interferem no suporte para a história infantil e patológica da
paciente. Quando Freud aceita pegar o caso dessa jovem, seu pai já tinha por volta
dos cinquenta anos de idade. Ela era muito apegada a ele, e todo esse carinho
vinha de uma preocupação que a moça tinha com seu pai desde os seis anos de
idade, pois ele apresentava um quadro grave de doença. A primeira doença foi uma
afecção pulmonar, o que levou a família a se mudar de cidade. Depois, houve um
deslocamento da retina e, dois anos mais tarde, uma crise confusional, seguida de
paralisia e perturbações psíquicas. Um amigo resolveu levar o pai de Dora a Viena
para ser tratado por Freud. Por conta desse encontro que, quatro anos mais tarde,
ele leva sua filha a qual, nesse meio tempo, ficara neurótica.
Dora tinha uma tia a qual ela, depois de adoecer, tomou como exemplo. Sua
tia era uma senhora que, segundo Freud, sofria de uma forma grave de
psiconeurose sem nenhum sintoma característico de uma histérica. Levou uma vida
dura em seu casamento e morreu de um “marasmo” que ninguém sabia decifrar os
sintomas. Como dito anteriormente, a jovem de dezoito anos era muito ligada à
figura paterna. Em função disso, tampouco causava admiração a Freud que essa
moça tivesse, derivado dessa família, seu quadro patológico.Sua mãe era muito fútil
e não se mostrava interessada nos assuntos de sua família. Após o adoecimento de
seu marido, tornou-se mais inculta e concentrada nos afazeres domésticos; passava
o dia todo limpando e arrumando a casa. Sua relação com sua filha era muito
distante; a jovem costumava criticar sua mãe.
Seu irmão, um ano e meio mais velho que a moça, era, para ela, antes um
modelo a seguir, porém, nos últimos anos, se tornara distante. O rapaz procurava
31
não se envolver com os problemas familiares e, quando tomava partido da situação,
apoiava sua mãe. “Assim, a atração sexual aproximara pai e filha, de um lado, e
mãe e filho, de outro”. (Freud [1901-1905], 2006 p. 31). Dora, nome dado por seu
analista Freud, apresentava, desde os oito anos, sintomas neuróticos. Começou
com uma dispneia crônica, porém, com bastante repouso e cuidados, esse quadro
foi sumindo. O médico da família considerou apenas ter sido provocado por um
esforço excessivo que a jovem fizera ao subir montanhas, descartando qualquer
distúrbio nervoso. Por volta dos doze anos, a jovem sofria de enxaquecas e tosse
nervosa, separadamente. Aos dezesseis anos, a enxaqueca desapareceu, mas a
tosse nervosa – “tussis nervosa” – continuou por todo tempo até entrar em
tratamento com Freud. O que a deixava mais incomodada era a perda de voz.
Vários tratamentos foram tentados naquela época, como a hidroterapia e aplicação
local de eletricidade, os quais não geravam nenhum resultado positivo na jovem.
Dora já se encontrava sem vontade de estar com médicos, pois algumas de
suas crises sumiam por vontade própria, e os tratamentos e medicamentos
passados nada adiantava mais, inclusive sua ida a Freud só aconteceu por
autoridade de seu pai. Já era uma adulta que sabia o que queria e em quem
acreditar, mas era fonte de grave preocupação para seu pai.
Um dia, seus pais encontram uma carta em que ela se despede da família, pois não
podia mais suportar a vida. Para Freud, ela se mostrou assustada na análise diante
do fato de o rascunho de sua carta ter chegado à mão de seus pais. Segundo ele,
Dora, de fato, queria que o texto caísse nas mãos deles. Seu pai, então, decidiu
levar a moça para se tratar com Freud.
Ela conta para o médico que, quando moravam na cidade B (assim chamada
por Freud), fizeram amizade íntima com um casal, senhor e senhora K. A Sra. K.
cuidara de seu pai por um longo tempo. O Sr. K era muito amável com Dora e
sempre a levava para passear, sem que ninguém encontrasse nenhum mal nisso.
Além disso, a jovem dedicava-se aos dois filhinhos do casal; parecia até mãe das
crianças.
Dora costumava passar semanas na casa dos K, mas, em uma de suas idas,
declarou que não queria mais estar na casa deles e que queria ir embora com seu
pai. Somente depois de algum tempo, ela contou à sua mãe que teve essa atitude,
pois o Sr. K havia lhe feito uma proposta amorosa durante uma caminhada, depois
de um passeio pelo lago.
32
Seu pai aceitou as informações do casal, que se defendeu, contando que a
jovem estava com ideias sexuais muito afloradas e que, com certeza, havia
imaginado tudo aquilo. O pai de Dora afirma que sua filha queria que ele rompesse
laços de amizades com o casal, mas que ele não poderia fazer isso, porque tinha
grande carinho pela Sra. K. Para o pai, os dois eram pobres coitados, que se
apoiavam um ao outro com o intuito de consolação.
Outra situação contada por Dora a seu analista foi que, ao quatorze anos de
idade, o Sr. K convidou-a e sua esposa para irem à sua loja e assistir de lá a uma
procissão religiosa. Ele, porém, havia convencido sua esposa de não ir e pediu que
seus empregados fossem embora. Lá, fechou a loja e pediu que a moça o
esperasse e, ao sair pela porta estreita, trouxe a jovem contra si e a beijou. Tal
situação despertaria uma sensação de excitação sexual em uma mocinha virgem.
Na verdade, contudo, ela sentiu uma verdadeira repugnância. Mesmo assim,
continuou mantendo contato com o Sr. K e nunca contou a ninguém o acontecido.
O comportamento dessa menina de quatorze anos já era total e
completamente histérico. Eu tomaria por histérica, sem hesitação, qualquer
pessoa em quem uma oportunidade de excitação sexual despertasse
sentimentos
preponderantes
ou
exclusivamente
desprazerosos.
[...]
Esclarecer o mecanismo dessa inversão do afect é uma das tarefas mais
importantes. [...] nossa paciente Dora ainda não fica suficientemente
caracterizada como inversão de afeto; é preciso dizer que houve um
deslocamento da sensação. Ao invés da sensação genital que uma jovem
sadia não teria deixado de sentir, ela foi tomada da sensação de desprazer
própria da membrana mucosa do tubo digestivo. (FREUD [1901-1905] 2006,
p.38)
Dora passou a se alimentar mal e sentir repugnância por alimentos, Inclusive,
relata a seu analista que conseguia lembrar e sentir, na parte superior de seu corpo,
a pressão daquele abraço. Freud crê que, durante o abraço, ela não sentiu apenas o
beijo em seus lábios, mas também a pressão do pênis ereto contra seu ventre. Essa
passagem foi eliminada de sua memória, recalcada e assim substituída pela
lembrança da pressão do tórax. Ele ressalta três sintomas estabelecidos pela jovem:
•
repugnância;
•
sensação de pressão na parte superior do tórax;
•
evitar homens em conversas afetuosas.
33
Para ele, isso era resultado de uma só experiência e, somente fazendo a
ligação desses três signos, tornaria possível entender a formação dos sintomas. O
nojo vai corresponder ao sintoma do recalcamento da zona erógena dos lábios. O
pênis ereto levou à excitação da zona erógena, clitóris, e foi fixada no tórax, por um
deslocamento, para uma sensação de pressão no peito. O horror aos homens que
pudessem ficar em estado de excitação era uma fobia por poder voltar a viver esse
momento novamente.
Dora continuou a afirmar que não queria mais manter relações com o Sr. K e
que estava muito magoada com o pai por não ter tomado a frente da situação
ocorrida durante o passeio no lago. Para ela, não havia nenhuma dúvida de que o
que ligava seu pai à Sra. K era mais que uma amizade; era um relacionamento
amoroso. Essa certa “amizade” se fixou mais ainda quando a senhora passou a
cuidar do pai da jovem, já que sua mãe nada fazia. Era de se suspeitar algo
estranho entre eles, e a jovem indagava à sua mãe o porquê de tanta harmonia e
cumplicidade entre eles. Seu pai costumava visitar a senhora quando seu marido
estava na loja, e isso todos da cidade B comentavam.
Certa vez, sua mãe explicou à moça que seu pai estava no bosque, tentando
se suicidar, mas que a Sra. K chegou na hora e conseguiu salvá-lo. Ela não aceitou
essa explicação e entendeu que foi uma simulação para que os dois se
encontrassem. Para Freud, a jovem utiliza da mesma simulação de suicídio para
que, assim, talvez expresse o anseio por um amor similar.
Mesmo se mudando da cidade B, o seu pai costumava dizer que precisava
voltar até lá para ver sua fábrica. Na verdade, seu intuito era encontrar com a jovem
senhora. Dora, por ver que seu pai mantinha uma relação amorosa com a Sra. K e
nada fazia por ela quando expressava terror pelo senhor K, começa, então, a se
sentir usada e trocada. Era como se fosse um prêmio que o seu pai dava ao Sr. K
por total tolerância da parte dele em relação ao caso extraconjugal de sua mulher.
Mesmo Dora tendo razão de tudo isso, ela mesma fazia-se, durante um bom
tempo, de despercebida do caso entre seu pai e a senhora. Sua governanta tenta
avisá-la, mas a jovem não quer saber. Mesmo sabendo que sei pai estava na casa
dos K, ela preferia não aparecer por lá e pegava os filhos da Sra. K para passear
durante esse tempo, ou seja, a jovem também acobertava essa relação por um
tempo. Essa governanta, na realidade, era apaixonada pelo seu pai e contava à
34
Dora coisas sobre a vida sexual de um modo em geral, mas pedia à moça que não
contasse a ninguém.
Outro sintoma que surge em Dora é a dor de estômago. Quando ela viaja
para a casa de sua tia, descobre que sua prima mais velha estava sofrendo de dores
no estômago e precisava sair daquele local para ser tratada. Na verdade, Dora
percebe que sua prima mais velha precisava se sentir assim para que não estivesse
presente em casa para presenciar a felicidade de sua irmã mais nova que estava se
casando. Freud consegue notar que a jovem imitava alguém. Ela também nota que a
Sra. K usava do mesmo argumento, pois, quando o senhor K estava em viagem, a
sua esposa sentia-se sempre muito bem, porém, quando ele retornava, ficava
doente, podendo, assim, se livrar de sua obrigação matrimonial.
Com Dora ocorria o inverso. Lembrando o início do texto em que a jovem
apresentava tosse e perda de voz e que sumiam de forma natural, Freud liga esse
sintoma à ausência do homem amado. Pergunta por quanto tempo costumava durar
essa crise, e ela responde que por três semanas. Em seguida, indaga sobe quanto
tempo o Sr. K ficava fora de casa em suas viagens. Sua resposta de que também
era por volta de três semanas confirma sua suposição inicial.
Tal comportamento demonstra o seu amor pelo Sr. K, e a aversão da senhora
por ele.
A afonia de Dora, portanto, admitia a seguinte interpretação simbólica:
quando o amado estava longe, ela renunciava à fala; esta perdia seu valor,
já que não podia falar com ele. Por outro lado, a escrita ganhava
importância como único meio de se manter em relação com o ausente.
(FREUD [1901-1905] 2006, p.47)
O que Freud também consegue notar é que a “simulação” de sua doença
também seria usada para afastar seu pai da Sra. K, pois, com isso, ele se
compadecia de seu quadro e destinava todo sua atenção à sua filha. Esses quadros
sintomáticos da jovem só desapareceriam quando seu pai renunciasse à sua
“amante”. Ela, por sua vez, não estava disposta a renunciar à sua doença tão
facilmente assim.
Para o analista, é necessário que a pessoa entenda que existe nela a
intenção de adoecer. Não basta atacar o material patogênico ou a constituição do
sintoma, é necessário eliminar o motivo do adoecimento. A situação de grande amor
35
de seu pai pela senhora K e a sua falta de atitude diante da situação do lago
deixavam Dora muito revoltada e a Freud muito intrigado. Isso decorria do fato de a
moça se fazer amiga da senhora e encobrir o relacionamento com seu pai. Ela
mantinha contatos com o senhor K e, mesmo assim, o esbofeteia no lago. Isso,
entretanto, será solucionado na discussão do segundo sonho da jovem.
Em relação às suas tosses espasmódicas, que tinha como estímulo cócegas
na garganta, representava, para Freud, uma cena de satisfação sexual entre duas
pessoas cuja ligação amorosa a ocupava tão incessantemente. Para ele, a tosse
prosseguia e poderia estar ligada também ao pai, e não somente ao Sr. K. O
sintoma surgiria como realização de uma fantasia de conteúdo sexual, uma situação
sexual. Os sintomas têm vários significados para representar diversos cursos do
inconsciente.
A jovem achava que seu pai era impotente, portanto incapaz de produzir
qualquer prazer sexual à senhora K. Ela, contudo, sabia que havia várias maneiras
de se obter prazer sexual, ou seja, por meio do uso de outros órgãos. Nesse caso,
ela poderia estar pensando nas partes do corpo que a irritavam, a garganta e a
cavidade bucal. Tempos depois, o sintoma de Dora desaparece, após aceitar,
silenciosamente, essa condição.
Uma pergunta, entretanto, surge: qual a relação da tosse e da afonia com o
seu pai e o Sr. K? Freud nos diz o seguinte:
Não é necessário que os diversos significados de um sintoma sejam
compatíveis entre si, ou seja, que se complementem num todo
articulado. Basta que a interarticulação seja constituída pelo tema
que deu origem às diversas fantasias. Em nosso caso, além disso, tal
compatibilidade não está excluída; um dos significados se relaciona
mais com a tosse, e o outro, com a afonia e o caráter cíclico do
distúrbio. (FREUD[1901-1905] 2006, p.58)
Era óbvio, no entanto, para Freud, que Dora estava apaixonada pelo seu pai,
mas não queria admitir. Identificava-se com as duas mulheres da vida dele,
substituía o lugar da mãe para tentar impor ao pai que largasse sua amante e
também fazia-se de amiga da Sra K., pois tinha a necessidade de saber o que essa
mulher tinha que atraía seu pai. Mais uma vez, a tosse entra como uma fantasia, se
36
colocando no lugar da senhora K tendo relações e prazer sexual com seu pai,
provando, assim, a lenda do Édipo. Não foi sua mãe que “roubou” seu pai, mas sim
a jovem senhora.
Freud, a respeito da ligação da Sra. K com Dora, suspeita de um possível
caso de homossexualidade. Para ele, era normal essa identificação na adolescência
e poderia estar acontecendo o mesmo com Dora. O caso, porém, não vai adiante, e
ele não pode prosseguir com sua suspeita.
Antes de romper qualquer ligação com a senhora, a moça era muito sua
amiga, a elogiava, gostava dos presentes que seu pai escolhia, pensando ser ela
que indicava. Dormiam no mesmo quarto, mas ela também nota na senhora o
mesmo comportamento da governanta, que somente lhe fazia as coisas por
interesse em seu pai. Percebe que o Sr. K sabe das revistas que ela andava lendo,
pois sua esposa o contara.
Creio que os pensamentos de Dora, que a fazia ocupar-se das relações
entre seu pai e a Sra. K, destinava-se não apenas a suprir seu amor pelo
senhor K, que antes fora consciente, mas também ocultar o amor pela
senhora K, que era inconsciente no sentido mais profundo. [...] a moção de
ciúme feminino estava ligada, no inconsciente, ao ciúme que um homem
sentiria. Essas correntes de sentimentos masculinos, ou melhor, dizendo,
ginecofílicos, devem ser consideradas típicas da vida amorosa inconsciente
das moças histéricas. (FREUD [1901-1905] 2006, p. 66).
Por meio da Sra. K, encontra o amor de seu pai. Dora conclui que gostaria de
ser amada por um homem, seu pai, como a jovem senhora é amada por ele e
também pelo Sr. K; afinal, o que essa mulher tem que consegue o amor dos dois
homens? Havia uma circunstância de identificação feminina e, por outro lado, a
identificação masculina, à medida que ela se identifica à posição do Sr. K e de seu
pai para contemplar a Sra. K. A identificação histérica expressa o desejo de se
colocar no lugar da outra, da mulher amada, para se apropriar de sua feminilidade.
(O PRIMEIRO SONHO DE DORA) – após Freud achar que estava solucionando de
vez o caso da jovem, ela começa a contar um sonho que vinha tendo repetidas
vezes. Ela relata que a casa estava em chamas. Seu pai estava ao seu lado e a
acorda para que saia da casa, mas sua mãe quer ficar para pegar a caixa de joias.
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Seu pai, contudo, não a deixa ficar. Quando a jovem sai da casa, ela acorda do
sonho.
Lembrava que havia tido esse sonho por três vezes quando estava no lugar L
(lugar próximo à cena do lago) e voltara a ter esse mesmo sonho em Viena. Freud,
interrogando a moça, nota que, depois da cena do lago, ela se sentia ameaçada
pelo Sr. K. Tinha medo de que, com a ausência do pai, ele fizesse algo com ela. Por
isso, se tranca no quarto e passa a ter o sonho. Seu pai a salva, e ela acorda do
lado de fora da casa. Sua caixinha de joias é como sua genitália: está em perigo. O
sonho se apresenta como a realização do seu desejo. Mostra que ela está evocando
seu antigo amor pelo seu pai para se proteger do seu amor pelo Sr. K. Teme ceder à
tentação a ele, a dar de volta o que ele lhe deu: uma caixinha de joias.
Lutava para não ceder ao homem que a desejava, assim como à aversão à
sexualidade a que estava predisposta e que se enraizava na sua história infantil. O
amor pelo pai, para protegê-la da tentação. De acordo com as formações do sonho,
o que foi fantasiado serve de modo a reproduzir uma situação infantil. O sonho
mostra o propósito de fugir para o pai, mas, no seu inconsciente, há o desejo
realizado de que seu pai a salvasse do perigo.
•
Para Freud, o sonho faz despertar uma lembrança de quando foi beijada e
sentiu nojo do Sr. K. O beijo, sem dúvida, tinha gosto de fumaça (fumo), associandoo ao cheiro de fumaça.
•
O elemento caixa de joias foi um produto da condensação e do deslocamento.
•
No momento em que seu pai a acordava, estava de frente para sua cama de
quando criança, para que ela não “molhasse” a cama. O oposto de “molhar” e “água”
pode ser “ardente” e “fogo”: havia um incêndio e seu pai estava em frente à sua
cama para salvá-la.
•
Dora também sabia que havia um “molhar” na relação sexual e que o homem
oferece à mulher um líquido. O perigo estaria exatamente nisso, e ela tinha que
proteger sua genitália para não ser molhada.
Algumas semanas depois do primeiro sonho, veio o segundo, mas não houve
uma resolução tão clara quanto o primeiro, pois a análise foi interrompida, mas
permitiu entender melhor seus sintomas. Segue o sonho contado pela Dora e que
Freud expõe em seu livro:
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Eu estava passeando por uma cidade que não conhecia, vendo ruas e
praças que me eram estranhas. Cheguei então a uma casa onde eu
morava, fui até meu quarto e ali encontrei uma carta de mamãe. Dizia que,
como eu saíra de casa sem o conhecimento de meus pais, ela não quisera
escrever-me que papai estava doente. Agora ele morreu e, se quiser, você
pode vir. Fui então para a estação [Bahnhof] e perguntei umas cem vezes:
Onde fica a estação? Recebia sempre a resposta: cinco minutos. Vi depois
à minha frente um bosque espesso no qual penetrei, e ali fiz a pergunta a
um homem que encontrei. Disse-me: mais duas horas e meia. Pediu-me
que o deixasse acompanhar-me. Recusei e fui sozinha. Vi a estação à
minha frente e não conseguia alcançá-la.[...] Depois, eu estava em casa,
nesse meio tempo, tinha de ter viajado, mas nada sei sobre isso. Dirigi-me à
portaria e perguntei ao porteiro pela nossa casa. A criada abriu para mim e
respondeu: a mamãe e os outros já estão no cemitério. [Friedhof]. (FREUD
[1901-1905] 2006, p.93).
Freud relata que, por esse sonho, sente que sua reprodução foi um pouco
confusa, pois, como disse acima, a análise foi interrompida. Ainda assim, ele dá sua
dedução.
Ela relata que essa praça e local em que andava não era B e se lembra de
ver um monumento e sua fonte. Isso, seu analista associa ao presente que ganhou
de um jovem engenheiro que estava interessado em cortejar a moça, mas só seria
possível se ele conseguisse melhorar sua condição financeira. Ele é, então,
chamado para trabalhar na Alemanha e deixa para a jovem um álbum com
paisagens de uma estação de águas alemã. E justamente na véspera do sonho, a
moça procurava pelo álbum de fotografias para mostrar aos hóspedes que estavam
em sua casa. Pergunta à sua mãe: “Onde está a caixa?”.
Outro fator do sonho em que ela anda por um local estranho e prefere seguir
sozinha, Freud destina à lembrança que seu primo trouxe quando veio para sua
casa. Recordou-se de quando esteve em Dresden e não conhecia nada por lá, e seu
outro primo queria servir de guia, mas ela não aceitou e preferiu seguir só.
Se Dora pensava no engenheiro, seria associativo o sonho com a busca e
posse de uma mulher, no caso, ela mesma, mas era uma estação que aparece na
procura o tempo todo do sonho. Nele, ela também diz que perguntou umas cem
vezes. Isso levou a Freud outra causa do sonho. Na noite da véspera, seu pai pede
39
para que ela pegue um conhaque, e ela solicita à sua mãe a chave do bufê. Sua
mãe, porém, não lhe dá atenção, e ela diz: “Já lhe perguntei cem vezes, onde está a
chave?” Isso parece ao analista ser o equivalente masculino da pergunta: “Onde
está a caixa?”. Para ele, são perguntas pelos órgãos genitais. Seu pai mostrava-se
cansado e com olhar de desanimado pela vida.
A carta do sonho fez com que Freud também se lembrasse da carta de
despedida que a jovem fizera aos seus pais. Na verdade, ela tinha por motivo dar
um susto em seu pai, e ele largasse a Sra. K. Tratava-se de uma fantasia que, se
ela saísse de casa, deixaria seu pai com o coração partido, estando, assim, vingada.
Ele volta a indagar a jovem sobre a cena do lago, e ela não fala nada muito
diferente, apenas que o Sr. K começou a falar, mas que ela não deixou terminar,
pois já sabia do que se tratava. Lembra-se de uma frase dita por ele: “Sabe, não
tenho nada com minha mulher”. Dora quis sair daquele lugar a pé, foi então que
encontrou um homem e perguntou quanto tempo demoraria a chegar a casa. Ele
respondeu: “Duas horas e meia”. O bosque do sonho é muito semelhante ao bosque
do lago. Ele aparece, na véspera de seu sonho, em um dos quadros que estavam
em exposição, e, ao fundo do quadro, se viam ninfas. Ninfas são, como os médicos
chamam, os pequenos lábios que ficam no fundo do “bosque denso” dos pelos
pubianos (fantasia de defloração). Somente saberia disso quem faz leitura de livros
anatômicos ou enciclopédias. Dora, portanto, se sente à vontade no sonho para ler
essa leitura proibida, pois todos estavam no cemitério.
Dora achava que, lendo essas enciclopédias, estaria fazendo algo errado.
Lembra que, nessa mesma época, seu tio manda uma carta, avisando que seu
primo estava sofrendo de apendicite. A jovem vai até a enciclopédia e descobre o
que é isso. A partir daí, começa a ter os mesmos sintomas que estavam escritos no
texto e passa a puxar a perna para caminhar. Tratava-se de um sintoma histérico:
ela conseguia trazer para si um modo de se punir pela culpa que sentia por ler
artigos mais sexualizados.
Sua menstruação começou a ficar irregular após a apendicite, e, ao indagá-la
sobre a cena do lago, responde que isso começou nove meses após o acontecido, o
que representava a fantasia de um parto. E o que isso tem a ver com puxar a perna?
Na verdade, ela deu um “passo em falso”, e era perfeitamente correto que desse à
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luz nove meses depois da cena do lago. Freud começa a crer que sua fantasia do
parto é, de fato, algo que aconteceu, vivenciou algo visto na enciclopédia e seu amor
pelo Sr. K permanece, até o momento, em seu inconsciente.
Fantasia defloração --- aplicar senhor K--- a recusa no sonho, o bosque, as duas
horas e meia, se ligam com a cena do lago --- presume-se ter lido nas enciclopédias
sobre partos, gravidez e virgindade --- era impedida de ler ---precisava se afastar
dos pais --- morte e cemitério --- culpa --- sintomas.
Algumas sessões ainda foram realizadas com a jovem. Ela decidiu avisar que
não faria mais nenhum tratamento. Nesse mesmo dia, começa a contar sobre a
governanta que trabalhava na casa dos K e que, dois dias antes da cena do lago,
lhe havia contado que seu patrão havia feito uma proposta indecente, falando para
ela que não tinha nada com sua mulher. A governanta decide ceder a ele. Depois
disso, o Sr. K não deu mais atenção nenhuma para ela. A jovem mandou cartas para
sua família que vivia na Austrália, e eles pediram para que ela retornasse para casa,
mas, como não fez o que fora ordenado, seus pais decidiram que ela nunca mais
poderia voltar para casa.
Freud, que até então não entendia o motivo da bofetada de Dora, passa a
entender que foi fruto de ciúme e vingança, pois estava fazendo com ela o mesmo
que fizera com a governanta. Ele começa a relacionar as identificações que Dora faz
com a empregada. Ela conta aos seus pais quatorze dias após o ocorrido, como a
governanta fez, e espera esse tempo, pois queria ainda ver a reação do senhor K.
O que frustrava a jovem era, na verdade, ter sempre achado que o senhor
estava esperando que ela completasse seus dezessete anos, se separasse da
esposa e a pedisse em casamento. Na cena do lago, porém, em vez de vir um
pedido sério, ele faz uma proposta indecente, não toma nenhuma atitude para
mudar a situação e ainda a desmente sobre o ocorrido.
A incapacidade para o atendimento de uma demanda amorosa real é um
dos traços mais essenciais da neurose; os doentes são dominados pela
oposição entre a realidade e a fantasia. Aquilo por que mais intensamente
anseiam em suas fantasias é justamente aquilo de que fogem quando lhes
é apresentado pela realidade, e com maior gosto se entregam a suas
41
fantasias quando já não precisam temer a realização delas. (FREUD [19011905] 2006, p.106)
Dora nunca mais voltou para o tratamento. Seus sintomas eram frutos de um
desejo insatisfeito. Freud sente-se descontente pelo abandono do caso, mas a
jovem usa isso para se vingar do senhor K por meio de seu analista.
Temos que ser gratos a essa jovem, que trouxe bastante conteúdo em seu
caso. Vimos o amor Edipiano por seu pai, a tomada de lugar da mãe. Os sintomas
de conversão por conta de um desejo sexual recalcado e a identificação feminina e
masculina. Dora é um clássico caso de histeria e que se assemelha com tantos
outros casos em que se é diagnosticado como qualquer patologia, menos histeria.
Nos leva a lembrar do caso contado anteriormente da minha paciente e os
questionamentos que faço.
2.2 HISTERIA NO DECORRER DA HISTÓRIA
Os relatos sobre a histeria aparecem em vários períodos da civilização. A
palavra histeria provém de hystera, que significa útero, doença do hystera. Sua
história será contada, passando pelos períodos da Antiguidade até o Renascimento
(RANGEL, 2008).
Hipócrates (460-377 a.C.) acreditava que o deslocamento e a mobilidade do
útero na mulher mais “madura” explicaria todas as manifestações histéricas. Esse
deslocamento ocorreria, pois sua matriz (útero) encontrava-se mais ressecada e
vazia por conta de desuso sexual e gestacional. Por causa da vacuidade do ventre,
ficaria mais fácil haver movimentação, o que levaria a sufocar todos os órgãos. Com
essa hipótese, ele conseguia explicar os sintomas como dores de cabeça, perda da
fala, resfriamento das pernas, vômitos e etc. (IBID, 2008).
Platão (428-347 a.C.) afirmava que o útero era como um ser vivo; quando
resolvia criar vida, agitava-se perigosamente até gerar vários transtornos corporais
na mulher. No século I, Celso (30 a.C. – 38 d.C.) e Ariteu (120 -180) também
acreditavam que o útero fazia grande mal, que se agitava feito um animal. A solução
para isso seriam as substâncias odoríferas, visto que, com odores fétidos, o útero
42
abaixaria. Levantavam a seguinte ideia: a histeria estava ligada ao desejo de ter
filhos (IBID, 2008).
No século II, Galeno (131-201) associa o termo histeria com a sufocação
uterina. Mudando sua forma de pensar, passa a acreditar que o que gera todo esse
desconforto são os espermas que ficam após a relação sexual, ou seja, devido à
ausência de escoamento.
No século III, Jesus Cristo torna-se o médico do corpo e da alma. Com isso,
não se falará mais em histeria, pois o poder religioso discorrerá sobre tudo, até
mesmo sobre a medicina. Daí para frente, todas as manifestações estariam
associadas com os demônios ou as intervenções divinas.
Já no Renascimento, a possessão demoníaca será aceita por todos. A caça
às bruxas começa, e também se inicia a seleção de quem vai para a fogueira. Mais
à frente, será comprovado que esses fenômenos não são demoníacos, mas sim
histéricos, e que sempre existiram (IBID, 2008).
Lange (1689) propõe a expressão “tratado dos vapores”, ou seja, quando o
sémen se acumula no útero e a mulher não tem atividade sexual, os
espermatozoides sobem até o cérebro, provocando convulsões e palpitações. Já
Thomas Sydenham (1964-1689) trata a histeria como uma doença “enganadora”.
Segundo ele, ela imita quase todas as doenças, levando o médico a se confundir e
tratá-la como uma patologia comum (QUINET, 2011). Mais à frente, quando
estudarmos Freud, será possível observar sua afirmação de que a histérica se
impõe como objeto de pesquisa, usa-se para desbancar o saber do seu mestre.
Segundo (IBID, p.113), “o sujeito histérico, se coloca como esfinge a ser decifrada”.
No século VIII, Phillipe Pinel (1745-1826), médico de Salpêtrière, foi o
primeiro a querer tratar os loucos com a medicina. Para isso, retirava-os da corrente
e tentava entendê-los. Ele distingue a histeria da ninfomania, mas a classifica como
neurose.
No século XIX, Wilhenlm Griesinger (1817-1868), fundador da psiquiatria
alemã, acreditava que havia comprometimento psíquico nas histéricas e que o
comportamento não era nada adequado. Considerava que eram seres insuportáveis
de conviver. Tal pensamento era completamente contraditório ao que Lacan
apresentaria tempos depois, ao afirmar que a histeria desperta laços sociais.
Paul Briquet (1796-1881), médico francês, encara a histeria como uma
doença, a qual deve ser levada a sério. Estaria ligada às paixões e aos sentimentos,
43
por isso somente as mulheres conseguiriam sentir. Suas manifestações estariam
intimamente ligadas às cenas e aos sentimentos vivenciados.
James Braind (1795-1860), médico inglês, sugere a hipnose como forma de
reprodução dos sintomas histéricos. A partir daí, Jean Martin Charcot (1825-1893)
foi o primeiro a fazer da histeria uma verdadeira entidade clínica. Ele, então, insiste
na ideia de uma lesão, mas, como não encontra nada, define-a como lesão
dinâmica.
Josehp Babinski (1857-1933), aluno de Charcot, vai contra as ideias do seu
mestre. Afirma que, com as histéricas, o que acontece são pitis, “pitiatismo”. Não
acreditava ser uma doença e até desconfiava de simulação. Seria ainda necessária
a vinda de Freud para falar sobre o inconsciente. (QUINET, 2011)
2.2.1 Freud encontra Charcot
Baseando-se nos estudos de Longo (2006), Sigmund Freud, aos dezessete
anos, ingressa no curso de medicina na Universidade de Viena e, em 1881,
consegue graduar-se, obtendo menção honrosa. Freud, durante o período
universitário, torna-se estagiário em laboratórios de biologia. Sentia-se satisfeito com
suas pesquisas, mas, após se formar e se apaixonar por Martha, decide aumentar
sua renda e vai trabalhar no Hospital Geral de Viena, na área de clínica geral. No
ano seguinte, consegue transferência para o setor de psiquiatria, ficando ali durante
três anos.
Por volta de 1884, a cocaína estava sendo utilizada nos Estados Unidos e na
Europa como analgésico e para tratamento de dependentes de álcool e ópio. Freud
fica fascinado com tamanho efeito que essa substância trazia. Decide, então,
receitar e passar a fazer uso próprio. Em torno dessa pesquisa, havia um interesse
pessoal, pois uma amiga encontrava-se com dores por conta do abandono da
morfina, e Freud acreditava que a cocaína iria ajuda-la.
Não leva adiante a sua pesquisa, pois, por estar muito apaixonado por
Martha, sua futura esposa, e como fazia dois anos que não a via, decide encerrar
suas pesquisas e ir ao encontro de sua noiva. Em 1885, recebe a notícia de que fora
escolhido para ganhar uma bolsa de estudos no Hospital Salpêtriere, em Paris.
44
Nesse local, havia o famoso neurologista Jean Martin Charcot e um grande acervo
de material clínico.
Aos trinta anos, abandona a anatomopatologia e chega a Paris. Inicialmente,
estuda apenas anatomia do sistema nervoso. No final daquele mesmo ano, contudo,
abandona a neurologia e se volta para a psicopatologia, pois já se encontrava
fascinado com o hipnotismo e os problemas histéricos. Freud passa a assistir às
demonstrações clínicas de Charcot, e elas lhe causam grande impacto.
Seu mestre Charcot, o famoso neurologista, a partir de 1870, decide se
dedicar a estudar os casos histéricos. Ele, junto com seus alunos que se
interessavam pelo assunto, aprofunda-se nos estudos dos ataques histéricos, das
contraturas e da paralisia. Iniciam suas pesquisas na verificação das perturbações
da pele e no comportamento dos órgãos do sentido.
Charcot recupera e revive o termo histeria, que estava tão abandonado, e, em
1878, inicia a prática do hipnotismo. A sociedade científica fica um pouco
desconfiada, pois tal técnica só era usada entre os mágicos e os charlatões. Sendo
assim, descreve três ensaios hipnóticos:
No cataléptico e no letárgico, o sujeito é inapto à sugestão. Já no
sonâmbulo, a submissão do sujeito é total aos caprichos do
hipnotizador.
O
conteúdo
é
introduzido
facilmente
pelos
procedimentos habituais de sugestão magnetizadores. O sonâmbulo
é escravo da vontade de um outro. Charcot (2003, p.9) apud (Rangel
2008, p.60).
Freud ([1893]1996) descreve Charcot como pensador que costumava olhar e
rever tudo o que não compreendia até conseguir total entendimento. Portanto não
seria diferente com suas histéricas. Por ter esse diferencial, em 1881 assume a
função de neuropatologista em Salpêtrière. Passa a identificar que, por trás da
histeria, há um fator traumático: “descreve e nomeia a histeria traumática, provocada
a partir da auto-sugestão derivada de um evento traumático, como os acidentes de
trem” (QUINET,2011, p.99).
Ele encontra nos homens sintomas de histeria, principalmente nas classes
trabalhadoras. Seleciona os pacientes do ambulatório e passa a usá-los em suas
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aulas públicas. Começa a ser reconhecido internacionalmente, o que atrai a
curiosidade de Freud.
Charcot foi um grande incentivador para que Freud desenvolvesse um estudo
mais aprofundado da histeria e desse surgimento à psicanálise. Seu maior objetivo,
entretanto, não era utilizar seus conhecimentos e a hipnose para tratar suas
pacientes, e sim ganhar informações para dar mais fundamentos a suas ideias. Para
ele, a histeria seria apenas um fator da neuropatologia. Seria necessário esperar
Freud para falar sobre a etiologia sexual da histeria.
Freud, aluno de Charcot, sente-se interessado em assistir às suas aulas e
demonstrações e relata a experiência. “Tive, assim, oportunidade de ver grande
número de pacientes, de examiná-los e de ouvir a opinião de Charcot a respeito
deles” Freud ([1886] 2006 p. 43). Ele, porém, nota que não havia um interesse de
seu mestre no histórico de vida de suas pacientes e passa a observar sinais de
sintoma nas histéricas, até então, não notados.
Freud passa a dar mais ênfase à hipnose, confiando que seria o meio mais
fácil de eliminar os distúrbios que incomodavam às jovens, ou seja, removeria as
fontes psíquicas que estimulavam os sintomas. Acreditava que o paciente conseguia
chegar até a pré-história da doença, levando-o a reconhecer e relembrar da ocasião
psíquica que originou tal sintoma. Freud ([1888] 1996).
Retorna a Viena em 1886 e firma-se como especialista de doenças nervosas,
mas continua usando a hipnose. Passa a notar algo diferente durante suas sessões.
Por meio das sugestões, havia algo além da consciência, outro tipo de memória a
que ele daria o nome de “inconsciente”. Era o local onde estavam guardadas as
informações necessárias para o verdadeiro desvendamento dos sintomas histéricos,
ficando mais claro a conexão entre o trauma psíquico e a patologia apresentada.
Freud iria muito além do que Charcot descobriu. Ele queria mais e, em cada
caso, trazia mais indagação sobre os fenômenos. Queria desvendar o que se
escondia no inconsciente de suas histéricas.
Nem sempre era fácil usar a hipnose com suas pacientes. Um dia, Anna O.,
uma jovem histérica que era tratada por Breuer, amigo de Freud e médico,
apaixona-se por Breuer, e, em uma de suas crises, se apresenta em uma cena de
parto, como se estivesse grávida. Freud passa a assumir o caso, enquanto seu
amigo vai viajar. Freud, ao atender Anna O, tenta hipnotizá-la para descobrir o que
seu inconsciente trazia, mas a jovem não se deixa hipnotizar e pede para que a
46
deixe falar. Surgia, naquele momento, uma ideia que substituiria a hipnose: a
associação livre, a “cura pela fala” ou limpeza da chaminé.
Por meio da fala da paciente, ela conseguiria expor tudo o que a incomodava,
ou seja, convocou uma escuta por parte de Freud e nele encontrou acolhida na
palavra. Ele passa a perceber que seus pacientes tinham um tipo de fala sem
sequência de causalidade, esperava que falassem sobre seus desejos mais
profundos e obscuros e que, por intermédio da fala, o paciente pudesse trazer à tona
conteúdos inconscientes.
Diante disso, Freud constatou que a hipnose servia apenas para provar que
conteúdos podem ser armazenados em um local da mente, o inconsciente, o qual
poderia ser alterado. Nota também que alguns pacientes tinham resistência em se
fazer hipnotizar
No artigo Comunicação preliminar no livro Estudos sobre a Histeria, Freud e
Breuer reconhecem a importância da linguagem. No caso das histéricas, eles
notaram que seus sintomas individuais desapareciam quando a paciente descrevia
em palavras a lembrança do fato que provocara tal conflito.
Freud, em seu livro Estudos sobre a histeria ([1893-1895] 2006, p.39), relata
sobre seu novo método e de sua dificuldade em implantá-lo com alguns de seus
pacientes.
Na grande maioria dos casos não é possível estabelecer o ponto de origem
através da simples interrogação do paciente, por mais minunciosamente
que seja levada a efeito. Isso se verifica, em parte, porque o que está em
questão é, muitas vezes, alguma experiência que o paciente não gosta de
discutir; mas ocorre principalmente porque ele é de fato incapaz de recordála e, muitas vezes, não tem nenhuma suspeita da conexão casual entre o
evento desencadeador e o fenômeno patológico. ( IBID, p.39)
Para ter um resultado positivo, era necessário que o paciente conseguisse
chegar até sua ideia intolerável, que estaria guardada no seu inconsciente como
resultado do recalcamento. O termo recalque só será usado por Freud mais à frente.
Com a prática da associação livre, Freud chega a dois fenômenos que se tornarão
conceitos importantes da teoria psicanalítica: a transferência e a resistência.
A maneira diferente que Freud e seu amigo Breuer enxergavam o mecanismo
psíquico das histéricas lhes traz contradição e divergência. Freud passa a acreditar
47
na divisão mental – consciente e inconsciente – como forma de defesa. Breuer
acreditava em vários estados conscientes. Outra situação que deixou Breuer mais
afastado de seu amigo foi quando Freud lançou a ideia de que há sexualidade na
etiologia das neuroses, ou seja, a etiologia da histeria seria sexual.
Ele tenta mostrar essa situação a Breuer e exemplifica o caso da Anna O. A
jovem havia feito transferência com Breuer, pois conseguiu entender o desejo do
seu mestre, que era engravidar sua esposa. Havia nessa jovem uma paixão
erotizada pelo seu médico. Surgia, assim, a nova descoberta de Freud: a
psicanálise.
2.3 ESTUDOS DE FREUD SOBRE A HISTERIA
O início da psicanálise provém de um olhar diferenciado de Freud sobre os
sintomas. Em 1899, traz para área médica um novo saber, um novo modo de ouvir
seu paciente. Nesse mesmo ano, lança seu livro A Interpretação dos Sonhos, no
qual relata todos os mecanismos do inconsciente para a formação dos sonhos.
Solicita ao editor Franz Deutike que a data impressa fosse de 1900, para que fosse
um novo marco para o século.
Quando Freud inicia os estudos nos casos histéricos, ele se firma na ideia de
origem traumática, ou seja, o histérico, em sua infância, sofrera algum tipo de
sedução sexual, uma experiência traumática. A histeria agiria como forma de defesa
para que acontecimentos traumáticos de natureza sexual na infância não viessem à
tona, ou seja, saíssem do inconsciente para o consciente. Para isso, utiliza o termo
histeria de defesa: defende-se de uma representação sugerida no plano sexual que
é inconciliável, ou seja, o sexual apresenta-se como traumático para o psiquismo.
O sexual é traumático porque o que ele encobre é a morte, a natureza brutal
da coisa real que é o corpo sem um revestimento imaginário e simbólico,
reduzindo a uma matéria próxima da imundice. O sexual é a marca da
passagem da coisa real, puramente orgânica do corpo, para sua apreensão
no universo da significação, campo do processamento humano. É pela via
do sexual, da sexualidade, que o real do corpo transforma-se em corpo
significante. O recalque faz a fronteira entre o sexual e o não sexual, mas a
dimensão recalcada da destinação do corpo como carne, como cadáver,
48
como puro objeto destinado à selvageria é o que retorna, causando horror,
traumatizando. (RANGEL, 2008, p. 36)
Na vida adulta, a recordação de um trauma pode ter sido despertada por
algum evento, e esse trauma pode ser convertido em sintoma no corpo. Outro termo
utilizado é histeria de conversão.
As histéricas sempre foram vistas como falsas, simuladoras e mentirosas.
Freud denomina a metáfora da simulação, uma mentira que substitui a verdade.
Para melhor entendimento, cito o exemplo da histérica Ema, que sente fobia ao
entrar em lojas, alegando que, aos 13 anos, foi motivo de risos entre os rapazes que
estavam numa loja. Na verdade, seu motivo real foi aos 8 anos. Ao entrar em uma
loja, um senhor se aproxima de Ema e apalpa suas partes íntimas. Na primeira cena
contada, Ema tenta se passar como vítima. Assim, Freud percebeu que o processo
de vítima nas histéricas acontecia, e deixou de lado a noção de que todos os pais de
suas pacientes eram perversos, sedutores e abusavam sexualmente de suas filhas.
“Ela tem uma participação no gozo do qual se queixa e que atribui ao Outro, porque
experimenta o desejo como o desejo do outro” (QUINET, 2011, p.117).
Em A história do movimento psicanalítico (FREUD [1914] 2006),
Freud
escreve que em sua ida a Paris, esteve presente numa recepção na casa de
Charcot, onde o ouviu falar a um colega sobre uma paciente: “mas em casos como
esse, é sempre a coisa genital, sempre... sempre... sempre”. Freud passa, então, a
rever sua teoria sobre o trauma. Nela, a sedução ganha o lugar central.
Freud, em 06 de abril de 1887, escreve uma carta para seu amigo Wilhelm
Fliess (carta 59), dizendo o seguinte: “[...] o que tenho em mente são as fantasias
histéricas, que, habitualmente, segundo me parece, remontam a coisas ouvidas
pelas crianças em tenra idade e compreendidas somente mais tarde [...]”. Já não
acreditava mais em suas pacientes, pois, por várias vezes, elas narravam episódios
de sedução que envolvia quase sempre os pais. Na carta 69 para Fliess, ele afirma:
“[...] Não creio mais na minha Teoria da Neurose [...]” (FREUD, 21 de setembro de
1887).
A partir daí, ele debate a ideia de que nem sempre houve cena traumática e
que, possivelmente, foram fantasiadas pelas jovens, porém mantendo uma carga
traumática. Em 1900, abandona sua antiga teoria e passa a acreditar que a origem
da histeria está em uma fantasia inconsciente. A fantasia ganha uma função na
49
etiologia da histeria, o que antes era visto como ação perversa de um adulto, a
criança passa a ter o próprio corpo erógeno como produtor de eventos psíquicos. “A
etiologia das neuroses passa a ser baseada nas experiências sexuais da infância
devido à vida sexual da criança e não em função de uma experiência real de
sedução” (RANGEL, 2008, p. 70). Freud confessa, em sua autobiografia [1924], que
essa descoberta lhe deu descrédito entre os médicos, pois ia contra a crença de que
a infância é a idade da inocência. Por meio dos cuidados e desejos da mãe, a
criança será introduzida no campo da sexualidade, seu corpo será erogeneizado.
Em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade [1905], a criança torna-se um ser
perverso-polimorfo, com pulsões emanando de zonas erógenas. Chupar o dedo para
o bebê seria a substituição do seio materno, ele consegue se satisfizer com seu
corpo.
A criança começa a notar que há diferença em seu corpo, inicia o processo do
complexo de Édipo, que vai ser diferente para o menino e para a menina. Em 1909,
quando Freud publica a análise do pequeno Hans, descobre o complexo da
castração e estabelece uma articulação com o complexo de Édipo. O complexo da
castração se dá quando as crianças notam que no menino há um pênis e na menina
não. O menino nota que outros seres foram castrados, e a menina percebe que
existe uma falta em seu corpo. O falo torna-se um significante da falta.
O menino entra no complexo de Édipo, masturba-se com seu pênis e tem
suas fantasias ligadas à mãe; ela passa a ser seu objeto de amor. Para a menina, é
diferente: ao perceber a falta do pênis, cria uma grande decepção em relação à mãe
e a culpa por tê-la castrado. Segundo Lacan, não se trata da falta do órgão sexual,
mas da falta do símbolo específico do seu sexo. Na fase fálica, ao notar que foi
vítima de uma castração, ela larga seu laço pré-edipiano com sua mãe e se
aproxima de seu pai, seu objeto de amor, com o objetivo de obter o pênis que sua
mãe lhe negou. Nesse momento, tem início o seu complexo de Édipo. O estádio
fálico só se estabelece no artigo A organização genital infantil (FREUD, 1923).
A etiologia sexual da histeria remete ao fato de que há natureza sexual no
inconsciente. Há metáfora e metonímia. Um exemplo disso é o caso de Elizabeth
Von R. A histérica de Freud sentia fortes dores na coxa direita, local onde seu pai
apoiava a perna para que ela fizesse o curativo. Sua coxa dolorida era a metáfora de
amor edipiano proibido. “Os sintomas têm uma significação que é sexual,
50
apresentam um valor simbólico, expressam a realização de um desejo” (QUINET,
2011, p. 103).
Freud em 1908 escreve o artigo Fantasias histéricas e sua relação com a
bissexualidade, destacando a relação da fantasia com o sintoma. Seu propósito é
mostrar que o sujeito do inconsciente está tanto no sintoma quanto na fantasia.
Destaca também que há uma natureza bissexual dos sintomas histéricos, que
configuram tanto ao homem como para a mulher. Para ele, encontram-se
realizações de duas fantasias sexuais no sintoma, sendo uma feminina e outra
masculina. Isso prova que o inconsciente não nota diferenças anatômicas no
processo de identificação com o corpo, mas se verifica em um modo muito mais
complexo: sou mulher ou sou homem? Dessa forma, traz à luz a complexidade da
sexualidade humana.
Outra ideia trazida à tona por Freud sobre a histeria era a transferência com
os ditos e a identificação com os desejos do Outro. Esse outro poderia influenciar
nos seus ataques histéricos, como vimos o caso da Anna O. anteriormente com seu
médico Breuer. Lacan (1901-1981) faz da histeria uma maneira especial de desejar,
ou seja, o desejo inconsciente do histérico é o desejo do Outro, pois não deseja sem
desejar o desejo do Outro no qual seu próprio desejo está amarrado.
Freud, em seu livro A Interpretação dos sonhos, comenta sobre um traço
diferencial nas histéricas: a insatisfação do desejo. Isso é notado no caso de uma
paciente que conta sobre um sonho e que Lacan chama de “bela açougueira”, um
bom exemplo de insatisfação do desejo histérico. Sua paciente conta que queria
oferecer um jantar, mas não havia salmão defumado suficiente para oferecer, e,
além de tudo, era domingo e todas as lojas estavam fechadas. Leva até seu analista
essa história com o intuito de contestar a teoria freudiana de que os sonhos eram a
realização de um desejo, pois, para ela, não havia nada de realização em seu
sonho. Freud, contudo, sabiamente conseguiu desmascarar o desejo não realizado,
evidenciando a satisfação de manter o desejo insatisfeito pela histérica. “Um desejo
não realizado vai indicar, ainda assim, a realização de outro” (MAURANO, 2010,
p.114).
A bela açougueira relata a Freud que seu marido a havia proibido de comer
caviar, proibição que ela mesma pedira ao marido, pois queria emagrecer. Seu
esposo sentia atraído por mulheres mais cheinhas, mas, ao mesmo tempo, tinha um
51
olhar diferencial para sua amiga, que era magra. Uma amiga linda que era magra,
mas queria engordar comendo em sua casa, e seu prato favorito era salmão.
Freud
encontra
dois
sentidos
para
esse
sonho.
Primeiramente,
a
impossibilidade de a açougueira poder oferecer o jantar à sua amiga que queria
engordar e que poderia chamar mais a atenção do seu marido. A segunda ideia
mostra a identificação da histérica com o desejo insatisfeito. Há a identificação no
sonho com a renúncia de comer caviar e a renúncia de oferecer salmão para a
amiga engordar. A histérica se identifica com a amiga, busca ser amada pelo marido
e se identifica com o desejo do marido pela amiga. O desejo renunciado se revela no
sonho, e sua insatisfação é o que caracteriza o sintoma da histérica.
O desejo de alguma coisa revela-se no sonho como algo que se substituiu
ao ser do sujeito. Isso faz com que o sujeito se perca na busca disso que,
colocando-se sempre como inacessível, confirma a indestrutibilidade do
desejo. (MAURANO, 2010, p.115)
Na verdade, o desejo de dar o jantar não se realizou no sonho, porém não foi
para não agradar à amiga, mas para mantê-lo como desejo insatisfeito, sustentando
seu próprio desejo numa identificação histérica. Essa insatisfação (satisfação)
histérica será mais bem abordada no próximo capítulo.
Lacan consegue ver o histérico como o próprio sujeito do inconsciente, um
sujeito dividido em relação ao sexo. No complexo de Édipo, a mulher, em sua versão
de inveja do pênis, consegue gozar da privação, além de sofrer amor pelo seu pai.
A histérica, por vezes, foi vista por querer sexo o tempo inteiro, que só estaria
satisfeita se estivesse realizada sexualmente. O próprio ginecologista Chorobak
receita como tratamento para os sintomas histéricos penisnormalisdosisrepetatur
(pênis normal em doses repetidas). Ao contrário disso, elas recusam o sexo para
poder sentir a falta e a necessidade, se sentir desejadas e sustentar seu desejo na
insatisfação. A histérica necessita demandar o tempo todo. Nunca se encontra
satisfeita, pois está sempre atrás do objeto perdido, fica rodando em torno do furo. A
falta da falta lhe causa angústia, e é justamente pela falta que ela deseja.
Estaria sempre se privando de algo, um desejo insatisfeito, tolhendo-se
daquilo que lhe traria imenso gozo. “Freud não define a histeria pelo tipo de sintoma,
e sim pelo tipo de reação experimentada em matéria de gozo: o desprazer”
52
(QUINET, 2011, p. 113). Sendo assim, o sintoma é o parceiro sexual da histérica,
que marca seu corpo com uma cena de gozo.
Quinet traz o exemplo de uma jovem cujo sintoma histérico era a ginástica na
academia. Ela não usava isso para ter um corpo bonito e nem como um transtorno
somatoforme, mas para apagar do seu corpo as marcas de gozo do seu pai, traços
das cenas de sedução sexual efetuada pelo seu genitor.
O sintoma pode apresentar dois aspectos: o que se constitui como mensagem
cifrada e o de conflito pulsional, que pode causar desprazer para o sujeito. Freud,
em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade ([1901-1905] 2006), sugeriu que os
sintomas substituíssem os impulsos sexuais que, por meio do recalque, teriam sido
impedidos de chegarem à consciência. O conflito entre pulsões sexuais e recalque
daria origem aos sintomas.
A satisfação de uma pulsão é sempre prazerosa para o inconsciente. O eu
nem sempre sente essa satisfação como prazer. É justamente assim que
Lacan chama de gozo: uma satisfação onde o sujeito não a conhece como
tal. Apesar de satisfazer a pulsão, o sujeito sente seu sintoma como
desprazeroso, mas mesmo no desprazer há também uma satisfação.
(GOMIDE, 2010, p.71).
Uma das formas sintomáticas da histeria é a histeria de conversão. O conflito
psíquico é simbolizado nos sintomas corporais. Uma fantasia que foi reprimida se
desprende da psiquê para instalar-se em uma zona erógena, a libido será
convertida. No caso da jovem Dora, é isso que ela faz com sua tosse espasmódica:
usa a garganta como local do corpo para realizar sua fantasia e goza com seu
sintoma. Isso representaria, para ela, uma cena de satisfação sexual.
Os sintomas sensoriais e motores estão inclusos na histeria de conversão,
pois, geralmente, não seguem as costumeiras inervações do sistema nervoso.
Lacan ensina que a histeria, além de um quadro ou entidade clínica, é
também um discurso, ou seja, um laço social. Histéricos são sujeitos que se
identificam facilmente com o drama de seus semelhantes, que procuram levá-los a
desejar, mas que se furtam de objeto sexual. Histéricos desejam permanecer como
objeto do Outro da linguagem.
53
2.4 A DESCOBERTA DO INCONSCIENTE
Voltemos às descobertas de Freud. Durante anos dedicando-se a ouvir e a
estudar as histéricas, Freud abriria uma via nova de prática clínica: a psicanálise.
Descobre que o homem é regido por forças que escapam à consciência: o
inconsciente. Com isso, vai de encontro com o cogito cartesiano “PENSO, LOGO
SOU”, então, não penso, “SOU PENSADO”.
O inconsciente é fundado pelo recalque, recalcar significa negar, manter o
que foi negado afastado da consciência. O recalcado sempre retorna resultado do
conflito psíquico entre consciente e inconsciente, ainda que sob a forma de disfarce.
(RANGEL, 2008)
A teoria do recalcamento é, para Freud, onde está grande parte da estrutura
da psicanálise. Após bater de frente com os fenômenos de resistência e ao
empreender a revisão da teoria do trauma, ele chega ao conceito de recalcamento.
Em A interpretação dos sonhos, o termo recalque começa a substituir o que antes
era usado como defesa. O termo defesa era utilizado para explicar uma censura
sobre um conjunto de ideias que despertam vergonha e dor. Em 1925, Freud relata,
em Inibição, sintoma e angústia, que recalque só será utilizado como sinônimo de
defesa para as histéricas.
“O recalcamento é um processo cuja essência consiste no fato de afastar
determinada representação do consciente mantendo-a a distância” (FREUD [1915],
artigo Die Verdrängung) apud (GARZIA-ROZA, 2011, p.154). Ele só pode surgir
quando houver uma cisão entre a atividade mental consciente e inconsciente.
Em 1915, no texto O Recalque, Freud ratifica que recalque é uma vicissitude
da pulsão. A satisfação de uma pulsão recalcada pode produzir prazer em um lugar
e desprazer em outro. Para ocorrer o recalque, é necessário que o desprazer seja
maior que o prazer. O recalque está a serviço da satisfação pulsional, não é um
mecanismo defensivo.
Freud dividiu o recalque em originário (primário) e propriamente dito
(secundário). Na formação do recalque originário, o pré-consciente e o inconsciente
ainda não estão formados. Existem experiências vividas que não têm significação
para o sujeito, mas que estão inscritas no inconsciente e que não têm acesso à
consciência. Essas inscrições permanecem no registro do imaginário até atingir um
54
significado, ou seja, quando o sujeito consegue verbalizar. “É somente por receber
significação por parte do sistema simbólico que seu caráter traumático vai ser
experenciado pelo sujeito e ocorrerá o recalcamento propriamente dito” (GARCIAROZA, 2011, p. 159).
A fim de entender melhor o recalcamento originário, voltamos a Freud com
mais um caso: o Homem dos lobos (FREUD [1925-1926], 2006). É a história de um
jovem que, quando era menino, não conseguia se sociabilizar bem com as outras
pessoas e que, por meio de um sonho, começou a sentir medo de ser devorado por
um lobo. Sua infância foi marcada por uma histeria de angústia que se iniciou aos
quatro anos e se transformou em neurose obsessiva, que durou até seus dez anos.
Aos três anos e três meses, iniciou sua prática sexual conduzida por sua irmã, pois
ela brincava com seu pênis. Em vez de tentar seduzir sua irmã, o menino tenta
seduzir sua babá, que o despreza. Ele, então, transfere sua zona genital a uma
etapa sádico-anal.
Desprezado por sua babá, volta-se para seu pai, por quem queria ser
castigado e, assim, obter uma satisfação sexual masoquista. Foi em seu sonho
contado que Freud conseguiu dar um significado completo. Ele narra, em sua
análise, que, em seu sonho, via lobos que pareciam raposas e cães-pastores, que
olhavam fixamente para ele. Freud chega à conclusão de que o que surgiu, por meio
do inconsciente do sonhador, foi a cena de uma cópula entre seus pais: o pai em pé
e por trás de sua mãe, e ela se dobrava para frente feito um animal. O medo de ser
devorado pelo lobo nada mais era que o desejo de ser copulado pelo seu pai, mas
ele rejeitava ver sua masculinidade castrada para ser sexualmente satisfeito pelo
seu pai.
Na época em que a cena foi vista quando criança, na sua pouca idade não
houve valor traumático. O que aconteceu foi a inscrição em um inconsciente não
recalcado, não pode dar significação, pois a criança não tem o sistema simbólico. A
inscrição ou fixação no inconsciente irá constituir o recalcamento originário e tornará
possível o recalcamento secundário.
O recalcamento secundário provém do conflito entre inconsciente e o préconsciente. Tem como função de recalque impedir que certas cenas, representações
e conflitos existentes no inconsciente passem para o sistema pré-consciente
consciente. Aquilo verdadeiramente recalcado é o representante da pulsão, e não a
pulsão em si. O representante pulsional é o ideativo; o afetivo é outro elemento da
55
pulsão, mas somente o primeiro será recalcado. Quando é recalcado, terá uma vida
independente, produzindo novas conexões, pois estará livre da influência
consciente.
É evidente que se o recalcamento é uma defesa do sistema pré-consciente
consciente, ele vai afetar não só o representante ideativo da pulsão, mas
também seus derivados, e estes serão tanto mais afetados quanto mais
próximos se encontrarem do representante em questão [...] se alguns
desses derivados se encontram suficientemente afastados do representante
original, eles conseguem escapar à censura e ter acesso à consciência.
(GARCIA-ROZA, 2011, p 163).
Para Freud, o retorno do recalcado é a última fase do recalcamento. Seja qual
for a maneira ou condição que leve ao retorno do recalcado, ele nunca se dá sem
conflitos. Freud lista condições para que haja o retorno:
1.
por um esforço de pressão pulsional;
2.
enfraquecimento do contrainvestimento por parte do eu (uma defesa contra o
excesso de excitação proveniente do exterior);
3.
uma experiência recente, que apresenta uma semelhança com o que está
recalcado, consegue despertá-lo.
Segundo Freud ([1915] 2006, p.19), é nas histéricas que ele percebe que há
uma defesa contra as recordações de um evento traumático de natureza sexual. O
eu da consciência não consegue suportar essa ideia, ficando tais recordações
recalcadas e ativas no inconsciente. Quem sabe, uma vez na vida adulta, por conta
de algum acontecimento, elas sejam despertadas e, assim, convertidas em sintomas
no corpo.
E o que seria pulsão? Já que falamos anteriormente que o recalque é uma
vicissitude da pulsão. Em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade [1905], Freud
aborda, pela primeira vez, a pulsão. A sexualidade da criança é perversa, goza em
seu próprio corpo, que é polimorfo.
Quando o bebê nasce, não é um sujeito do inconsciente. Ele se constitui, é
apenas alguém que quer mamar, entretanto, por estar no campo da linguagem, ele
quer além do alimento, precisa de um adulto que vá cuidar dele. Freud, em seu texto
Projeto para uma psicologia científica [1886-1899], a essa condição deu o nome de
56
desamparo fundamental (Hilflosigkeit) do ser humano, em que é necessária a
assistência de um adulto (Nebenmensh).
Já Lacan (1969) utiliza o Outro, não apenas para substituir o adulto de que
Freud fala, mas também a função que esse adulto encarna para o recém-nascido,
no caso a mãe (ou alguém que represente a função materna). Ela vai enviar valores,
ideologias, princípios, significações, ou seja, encarna uma ordem de significantes, e
não de significados. O que chega ao bebê é um conjunto de marcas materiais e
simbólicas, significantes, introduzidos pelo Outro materno, que suscitarão, no corpo
do recém-nascido, um ato de resposta que se chama sujeito.
O bebê passa a ir além de sua necessidade e começa a demandar: não quer
somente o leite, mas o leite e a linguagem. Após a primeira mamada, o bebê
acredita ter encontrado algo que o satisfizesse por completo, mas é apenas uma
alucinação. Logo, vai passar a vida em busca do objeto que lhe trouxe aquela
satisfação plena, o objeto perdido.
Lacan tenta dizer que esse bebê vai se constituir como sujeito no campo do
Outro, nos tesouros dos significantes. O desejo é o desejo do outro. Ele abre mão do
ser e vai para o campo do Outro em busca de sentido. Abrindo mão do ser, ele abre
um furo, que leva ao desejo (objeto do desejo e o objeto que causa desejo). Esse
quadro é comum na neurose, pois a histérica demanda o tempo todo; nunca está
satisfeita, quer que seu desejo continue insatisfeito para ficar em busca do objeto
perdido.
Freud, em 1915, vai tratar de pulsões e diferenciá-las de instinto. O ser
humano é um ser pulsional, pois tem demanda e desejo. Como citado antes: o bebê
quer leite e linguagem (= pulsão). Para Freud, existem quatro componentes da
pulsão e quatro destinos. Toda pulsão tem fonte, que constitui as zonas erógenas do
corpo: boca, ânus, ouvido e olho.
Lacan em Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1963-1964),
1992, vai além. Ele afirma que a pulsão sai por todos os “buracos” do corpo. Para
cada zona erógena, há um objeto pulsional.
Boca = seio
Ânus = fezes
Olho = olhar
Ouvido =voz
57
E, consequentemente, pulsões:
Boca = oral
Ânus = anal
Olho = escópica
Ouvido = invocante
Na histérica, é comum uma fixação oral. Um exemplo é o caso de Dora. A
jovem tem pulsão oral, fixação de gozo oral (afonia e tosse). Ela trouxe, por
intermédio de seu sintoma, um gozo (= desprazer). É o sofrimento que o sintoma
traz e o prazer que o sujeito teve que abrir mão e recalcou no inconsciente.
Pressão/ força, força da libido: essa energia sexual precisa sair, no caso,
pelas zonas erógenas.
Meta: encontrar sempre a satisfação; mas há um paradoxo na pulsão: sempre
se satisfaz e nunca se satisfaz, pois vem outra e outra exigência de satisfação.
Objeto da pulsão: o sujeito está o tempo todo atrás do objeto, substituindo um
pelo o outro, na busca da satisfação plena que ele alucinou.
O sujeito vai estar sempre procurando o objeto que lhe causou satisfação
plena (objeto causa do desejo e objeto do desejo) para tentar tapar o furo que existiu
a partir do momento em que o ser escolheu o Outro.
Voltando ao caso Dora, a jovem deseja ter relações com o pai, mas é algo
que não pode ser vivenciado e colocado na consciência da jovem, pois, para ela,
seria um “pecado”; ainda assim, ela deseja isso, tem pulsão sexual. Precisa
esconder esse desejo e, portanto, recalca, em seu inconsciente, os representantes
pulsionais, gera em seu corpo sintomas que causam desprazer e, ao mesmo tempo,
seus representantes pulsionais gozam com o prazer do seu sintoma, que é de
pulsão oral. Sua libido precisa encontrar uma zona erógena para que a energia
sexual saia, e esse local é a boca.
Enquanto a realidade não oferece algo de melhor, a pulsão sexual também
não renuncia à satisfação. Os neuróticos têm a realidade como insatisfatória e, por
isso, mantêm uma vida de fantasia, em que há o recalcado. Eles gozam na fantasia,
e os conteúdos de moléstia se transformam em sintoma. São os desejos recalcados
da infância que emprestam a força da formação dos sintomas. No texto Inibição,
58
sintoma e angústia [1926], o sintoma é o substituto de uma satisfação pulsional que
não se firmou, e sim sofreu o processo de recalque.
Além do sintoma, outra forma de expressão do recalque é o sonho (Freud
[1900] 2001, p.276-303): “as leis que regem a histeria são as mesmas que
comandam a formação dos sonhos”. Os sonhos são a via régia para o inconsciente,
pois representam a realização de um desejo recalcado. Apresentam uma linguagem
cifrada e “disfarçada”, que não visa a comunicar nada a ninguém. Quanto maior e
rigorosa for a censura, melhor será o disfarce.
Existem dois mecanismos que tentam distorcer o desejo do recalcado: a
condensação e o deslocamento, mas, para falar dos dois, é preciso considerar o
conteúdo manifesto – o modo pelo qual o sonho se apresenta quando despertamos
– e o conteúdo latente – se refere aos “pensamentos do sonho” ou aos pensamentos
do inconsciente.
Retomando a condensação e o deslocamento, a primeira tem como principal
atributo a síntese, assim o relato de um sonho de apenas um parágrafo pode ter
várias interpretações. O segundo se caracteriza por retirar a intensidade de
elementos que possuem alto valor psíquico, criando, com base em elementos com
baixo valor, novos valores que vão penetrar no conteúdo manifesto. Em toda a
produção do inconsciente, estão presentes essas duas operações.
A respeito dos sonhos (JORGE, FERREIRA, 2010, p. 24), por meio deles
Freud abre portas para o inconsciente e suas formações – sonhos, chistes, atos
falhos e sintomas –, que são as manifestações do recalque. Os sonhos são as
realizações do desejo do inconsciente, são atos psíquicos que têm sentido e
intenção para o sonhador. Em suma, a linguagem dos sonhos é o caminho pelo qual
o que estava “escondido” se expressa.
Retornando às histéricas, mais especificamente ao caso de Anna O., a
paciente pede a Freud: “Me deixe falar!”, convocando-o a uma escuta, sentindo-se
acolhida na palavra. Nasce um propósito: o levantamento do recalque pela fala,
“esta põe em exercício o mecanismo que rege o funcionamento da linguagem,
similar ao sonho, a condensação (metáfora) e o deslocamento (metonímia)” estando,
assim, o homem submetido a essas leis (LONGO, 2006, p.18).
Anos após tantas descobertas, Lacan vai reler Freud. Desse modo, ele
verificará os vários níveis de estruturação do simbólico, assim como a formação do
inconsciente pela linguagem.
59
Outra fonte linguística é a de Ferdinand de Saussure. Em suas aulas na
Universidade de Genebra, tratava das questões da linguagem, da fala e da língua,
considerando a língua um sistema com sincronia. Ele rompe o clássico do signo, a
coisa; o nome não precisava mais estar ligado à coisa. A respeito de Saussure
(GARCIA-ROZA, 2009), uma de suas ideias centrais é o conceito de signo
linguístico, composto por duas partes: o significado e o significante. Com isso, o
signo constitui a união de um conceito e uma imagem acústica. Para ele, as duas
partes não existiriam caso não houvesse uma ligação entre elas. Aponta dois
princípios que regem o signo: arbitrariedade e linearidade.
Após estudar a ideia de Saussure sobre os signos linguísticos, Lacan
apresenta uma concepção diferente a respeito dos signos. Em A Instância da Letra
no Inconsciente ou a Razão desde Freud Lacan ([1969], 2002), representa
Significante/significado = S/s, onde o primeiro ganha autonomia sobre o segundo,
ficando, dessa maneira, quebrada a unidade do signo definida por Saussure.
A cadeia significante torna-se uma produtora de significado. Somente as
correlações do significante com o significante fornecem o padrão de qualquer busca
de significação. “Donde se pode dizer que é na cadeia do significado que o sujeito
insiste, mas que nenhum dos elementos da cadeia consiste na significação de que
ele é capaz nesse momento”.
Afinal, estamos sempre deslizando em significantes durante a fala e sem
conseguir, muitas vezes, entender o que é dito ou expressar o que realmente está
recalcado. De forma inconsciente, substituímos o verdadeiro significante recalcado
por outro significante. O que essa estrutura da cadeia significante revela é a
possibilidade que eu tenho, justamente na medida em que essa língua me é comum
com outros sujeitos, isto é, em que essa língua existe, de me servir dela para
expressar algo completamente diferente do que ela diz.
É essa cadeia que vai fornecer o substrato topológico ao signo lacaniano, em
que nenhum significante possa ser pensado fora de sua relação com os demais, e
que não tem por função representar o significado. Fica certo que o inconsciente é
constituído pelo desfilamento de significantes, que deslizam sem se deter aos
significados.
Lacan também chama a atenção para a linguagem do sonho, considerando-o
um verdadeiro enigma. Há um deslizamento contínuo do significante sobre o
significado, e é a rede de significante que constituirá a significação do sonho.
60
Como já falamos anteriormente, Freud, no texto a Interpretação dos Sonhos,
aponta como leis do inconsciente a condensação e o deslocamento. Lacan utiliza a
metáfora para mostrar o que Freud chama de condensação, ou seja, a substituição
de um significante por outro significante. Metonímia (deslocamento) é uma
articulação de um significante a outro, por deslizamento. Lacan, em O seminário 5
([1957-1958] 1999), exemplifica a metáfora no caso do “familionário”, em que
mostra, claramente, a condensação entre “milionário” + “familiar” – atos falhos.
Lacan (1969) encontra, enfim, um suporte metodológico para uma teoria do
inconsciente: só o significante é material – imagem sonora – e simbólico – sua
articulação em cadeia produz uma ordem capaz de produzir efeitos de sentido.
Podemos, então, aplicar essas condições estruturais ao processo de constituição do
sujeito. O ser humano chega ao mundo e se insere em uma ordem social, que se
chama família. A psicanálise afirma a dimensão social com valores essenciais à
constituição do sujeito do inconsciente. Sem a ordem familiar e social, o ser da
espécie humana morrerá.
Agora com uma noção maior de metáfora e metonímia, podemos entender o
sintoma de acordo com os estudos avançados de Lacan, o qual o coloca estruturado
como uma linguagem. “O sintoma, portanto, é o significante de um significado
recalcado da consciência do sujeito” (1953, p.282). Metáfora é aquilo que constitui o
sintoma, e a metonímia o que caracteriza o desejo, e o corpo histérico será palco
para esses sintomas e conflitos pulsionais. E como se comporta esse corpo? É
diferente do corpo estudado pela anatomia?
61
CAPÍTULO III – O CORPO COMO LOCAL DE EXÍLIO PARA A DOR HISTÉRICA
3.1 O CORPO
Procurando a palavra corpo no dicionário, encontramos as seguintes
definições: tudo o que tem extensão e forma, a estrutura física do homem ou do
animal, existência real e sensível e porção de matéria (DICIONÁRIO DO AURÉLIO
ONLINE, 2013, s/p). O corpo visto ainda como um pedaço de matéria ou de “carne”
foi apropriado pela cultura ocidental recentemente. No passado, o corpo era tido
como obra de Deus, algo intocável. Havia aversão, hostilização e negação do
prazer. Para Hipócrates o esperma ou sêmen trazia ao corpo muita energia, era
necessário que o sexo fosse praticado em menor quantidade, e para a Igreja, o sexo
serviria apenas para procriação. Masturbar-se, sentir prazer, tocar o corpo do outro
era pecado.
As doenças apareciam de forma enigmática, e os cristãos viam-nas como
castigos, cuja cura só viria da graça ou de um milagre. A Igreja passa a contar aos
seus fiéis sobre a expulsão do paraíso, o pecado original, e o ser humano passa a
se sentir culpado pelo seu desejo. A sexualidade era considerada apenas corporal,
não possuindo nada de psíquico. O corpo não era odiado apenas por ser sede da
sexualidade, mas também pelo medo que o homem tinha de não resistir à tentação
(CECCARELI, 2011).
Na Renascença, o corpo é apropriado pelos artistas, passa a se tornar um
corpo cartesiano, deixa de lado o rótulo “sagrado” para ser sentido, dessecado,
auscultado e manipulado. Ao longo do século XIX, o corpo dor e o corpo prazer
passam a ser diferenciados do científico. Em cada época e cultura ele foi ganhando
um significado diferente. Com tantas descobertas o sujeito passa a ser informado de
que tem um corpo, que possui características, órgãos e doenças orgânicas, e então
a partir da verdade que a medicina lhe apresenta, ele passa a “possuí-lo”, ser dono
de si (IBID, 2011).
O corpo que os médicos procuram estudar e tratar com medicamento e que a
anatomia disseca, é o biológico, não nos informa sobre o discurso que anima cada
sujeito, e que se diferencia do corpo erógeno trazido por Freud. Mas, vale ressaltar
62
que Freud nunca destruiu as pontes que o ligavam à biologia, o que ele guardou da
biologia não foram os mecanismos experimentais mensuráveis, mas sim os
esquemas funcionais e gerais do sistema nervoso, que serviam para a criação da
metapsicologia.
Apesar de todo nosso esforço para não deixar os termos e os pontos de
vista biológicos chegarem a dominar o trabalho psicanalítico, não podemos
deixar de utilizá-los para a descrição dos fenômenos estudados por nós.
Não podemos deixar de considerar a pulsão como conceito limite entre a
concepção psicológica e a concepção biológica. Eu me consideraria
satisfeito se essas poucas observações chamassem a atenção para a
importante mediação edificada pela psicanálise entre a biologia e a
psicologia. (FREUD [1913], 2006, p.204).
Freud passa a descrever o corpo de forma diferente do que estudava em sua
faculdade de medicina. Havia para ele uma via dupla, o inconsciente, o que trouxe
para ele uma compreensão maior do eu/ corpo. Ele vai além do biológico. O corpo
freudiano passa sobre o discurso da fé religiosa, pois se torna um corpo que se
constitui de pulsão e desejo. Abomina a separação do corpo e da alma.
Em Projeto de uma psicologia para neurologistas [1895], Freud abre uma via
na lógica da subjetividade corporal. Tem uma difícil tarefa de utilizar referências do
campo da neurologia para descobrir o percurso dessa nova via. Em 1905, traz a
sexualidade infantil e o corpo erógeno da criança. Em 1924, a dimensão do gozo
apenas com o que está sob o princípio do prazer, pois a dor também podia vir
prazerosa, e o corpo deixa apenas de atuar sob o biológico para obedecer às regras
das demandas subjetivas que se distanciam do discurso médico e religioso.
Portanto, os discursos sobre o corpo, sejam tomados pelo plano da saúde
ou do limite do prazer moralizado, capitulam diante da construção de uma
saída sustentada pelo sujeito para dar conta da desrazão que o Outro lhe
causou. Este é o espaço da tensão que o sujeito há de suportar, isto é, o
corpo com todo o complexo funcional dos órgãos, porém, revestido do
sentido que pode paralisá-lo, seja pela via da perecibilidade inscrita quando
o biológico entra em cena ou simplesmente pelo destino que a subjetividade
o submete. (CARNEIRO, 2009, p.66).
63
Em Freud, não vamos encontrar um conceito definido de corpo, pois ele é ao
mesmo tempo local de conflitos pulsionais. O Eu é antes de tudo o Eu corporal, para
o Eu ser formado ele precisa ser informado pelo corpo dos limites que marcam sua
fronteira. O Eu é formado a partir de outros “EUS”, que atuam na história da
identificação do sujeito, ou seja, os ideias e valores culturais podem interferir na
organização simbólica do sujeito e repercutir no corpo.
O corpo freudiano vai aparecer como local de gozo ou como ser de
linguagem. Freud aborda em suas obras o corpo histérico, com seus sintomas que
se dissolvem e se deslocam por meio da fala, e é marcado por identificações e
fantasias edipianas inconscientes.
Segundo Freud [1933] é a mãe que vai estar diretamente relacionada com a
representação psíquica que a criança criará do seu corpo. A anatomia fantasmática
que o sujeito trará para si mostrará o imaginário dos que lhe deram vida psíquica,
assim como o lugar que o bebê ocupa na economia libidinal da família. Em cima
disso, Mc Dougall (1996) relata a grande importância das trocas de significantes
entre a mãe e o bebê, são significantes que agem na construção da
psicossexualidade da criança. Para Freud [1914], os pais podem imaginar e criar
antes mesmo do nascimento um corpo unificado para esse bebê, onde eles
depositam todos os seus desejos e suas curas narcísicas.
Em Projeto para uma psicologia científica [1895], Freud aponta a constituição
do aparelho psíquico, voltando à ideia da constituição corporal ao longo do
nascimento do bebê. Ao vir ao mundo, ele recebe várias informações, apesar do
caos pulsional, ele tenta se reorganizar com as experiências do mundo à sua volta,
tenta se afastar do que lhe causa desprazer e se aproximar do que lhe causa prazer.
O desamparo do bebê o coloca como dependente da mãe que garante a satisfação
de sua necessidade. Sem isso, ele seria incapaz de cessar a tensão interna de que
se ressente. É a mãe, ou alguém que represente esse lugar, que vai dar ao bebê
meios de entender os estímulos do mundo que chegaram até ele através de
sensações corporais, gerando um corpo de sensações.
Quando ele chora ou grita, sua mãe vai tentar resolver sua demanda e aliviar
o que lhe causa desprazer. A mãe irá interpretar os sinais desse bebê, ao tentar
tocá-lo para descobrir o que ocorre. Ela vai conseguir transformar aquele “corpinho”
em um corpo falado ou erógeno. É necessário que a mãe sinta seu corpo como
“local de prazer” para fazer com que o bebê se permita saber da existência de seu
64
corpo ao ser tocado, e, mais tarde, veja seu corpo como sendo um espaço unificado.
“Portanto, a função materna não se restringe unicamente a assegurar a conservação
da vida, mas simultaneamente, a permitir o acesso ao prazer por meio da promoção
da sexualidade”. (IBID, p.90)
Em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade [1905] Freud relata que a
satisfação dada à zona erógena a princípio está associada à necessidade que o
bebê tem do alimento, e que o sexo está primeiramente ligado às necessidades de
preservação da vida, só depois ganham independência. Existe sexualidade infantil, a
criança sente prazer ao ser tocada pela sua mãe, passa a ter seu corpo como fonte
de excitação, pulsão e zona erógena.
Freud relata que os órgãos fornecem excitação, uma dessas áreas
excitatórias é a zona erógena privilegiada da pessoa que é destinada
especificamente ao conteúdo sexual. Essas zonas funcionam como se fizessem
parte do aparelho sexual, que pode ser percebido no corpo das histéricas. Suas
mucosas se tornam sede de novas sensações. A propriedade erógena pode estar
ligada a partes do corpo, a todas as partes e a todos os órgãos interno.
Para Lacan, existe o corpo imaginário, simbólico e real. O primeiro se
apresenta de forma imaginária, quando o sujeito se identifica no Estágio do espelho.
O corpo simbólico é habitado pela linguagem que o desloca do gozo, e o real é o
que resta após a incorporação da linguagem. Em 1949, Lacan em seu texto O
estágio do espelho como formador da função do eu, traz a ideia de um corpo
fragmentado e unificado pela identificação a uma imagem. O estágio do espelho
deve ser visto ou entendido como algo que transforma o sujeito quando ele assume
a imagem. A mãe, ao colocar a criança em frente ao espelho, faz com que ela veja
seu corpo de forma unificada, se alucina com a quantidade de gestos e movimentos
assumidos pela imagem do seu corpo. “Esse ser ainda mergulhado na impotência
motora e na dependência da amamentação, parecer-nos-á, pois manifestar, numa
situação exemplar, a matriz simbólica em que o eu se precipita numa forma
primordial.” (IBID, p. 97). O Eu surge pela sustentação do corpo unificado visto pela
primeira vez.
É no espelho e na relação com a imagem do Outro que o sujeito perceberá
que lhe falta algo, existe algo para além. Desde a infância, a posição de um corpo
masculino ou feminino dependerá da castração, e antes de tudo da castração da
mãe. A menina terá que escolher entre seu pai e o falo para desprende-se de sua
65
mãe, e o menino vai prender-se ao falo por um tempo até perder o medo de sua
virilidade ser ameaçada. Para Lacan as identificações sexuais estão ligadas ao falo.
Freud [1923], coloca que a fase fálica vai dividir os seres em duas classes: seres
masculinos que tem o falo, e os seres femininos que estão castrados.
Lacan fecha dizendo que essa diferenciação entre homem e mulher vai além
do cromossomo, mas tem a ver com o modo como o ser falante diz gozar em
relação ao Outro. Segundo Pollo (2012, p.40) “a tosse de Dora permanece um
exemplo paradigmático, pois, embora expresse claramente o desejo sexual pelo seu
pai, genitor do sexo oposto, não é suficiente para fazer dela uma mulher”. Uma coisa
é a posição sexual e a outra é a escolha de objeto, e mesmo assim a identificação
sexual não é suficiente para dizer o sexo. O inconsciente não reconhece a diferença
dos sexos, somente o falo introduz nele uma dialética.
Outra ideia trazida por Lacan é um corpo de gozo. Um corpo é feito para
gozar, gozar de si mesmo, coloca sempre em relevo a incidência do significante
sobre ele. Então o corpo é para pulsão a sua fonte, ela está integrada ao processo
pulsional.
Freud em A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão
[1910] relata com grande certeza que os fenômenos psíquicos se baseiam nos
fenômenos físicos. Segundo ele, os órgãos serviriam tanto para a pulsão sexual
como para a pulsão do ego, ou seja, a boca que se alimenta e que fala, serve
também para ser beijada. Essa função duplicada dos órgãos pode servir tanto para
sexualidade recalcada como para o eu consciente. Ela é facilmente encontrada em
órgãos motores, como as pernas da Elizabeth Von R. que serviam para continuar a
caminhar com seu cunhado, pois o desejava, mas serviam também para expressar
sua culpa por sentir esse sentimento pelo marido de sua irmã. Algum tempos depois,
sua perna paralisa. “É parte da essência da pulsão reencontrar o impossível de
satisfazer do objeto, ela é tentada a se fazer apresentar por sua fonte”.
(MENDONÇA, 2006, p.67).
Freud considera a pulsão um pilar fundamental para a psicanálise. Em seu
livro Além do princípio do prazer [1925-1926] aparece a hipótese de pulsão de vida e
de morte. Com essa descoberta será mais fácil entender a relação de dor e prazer
que opera no sintoma.
Quando a pulsão é construída, ela tende a ir atrás da satisfação, mas a
defesa incide sobre os representantes psíquicos da pulsão (ideativo e afetivo). Os
66
caminhos do representante ideativo são: sublimação, recalcamento, reversão ao seu
oposto e retorno em direção ao próprio eu. Já com o afeto, seus destinos seriam:
transformação do afeto (histeria de conversão) troca de afeto (neurose de angústia e
melancolia) e deslocamento do afeto (obsessão).
O corpo histérico é um corpo trauma que tem excitação pulsional indizível, já
que no corpo há algo que vai além da significação. Há uma necessidade de se
manter uma satisfação auto-erótica, para a busca de um gozo total. O sujeito
encontra no sintoma uma via de escoamento, transformação de uma excitação
psíquica em excitação somática. Nesse caso, há a teoria do trauma e Freud introduz
nela a função da fantasia, que contém um desejo que não pode ser suportado no
consciente e se recalca no inconsciente e que poderá “chicotear” seu corpo com
uma cena de satisfação pulsional inconsciente (FERNANDES, 2011).
3.1.1 O Corpo Histérico
Desde a Antiguidade, as histéricas tinham seu corpo sendo estudado, seu
útero era visto como causa de seus sintomas.
A nova versão de corpo trazida pela psicanálise veio através dos estudos que
Freud fez com as histéricas e passa a notar nelas um corpo “falante” através de
seus sintomas. Freud passa a notar que os fenômenos histéricos estão sempre indo
para o excessivo, uma dor histérica é quase sempre muito dolorosa e contada ao
ouvinte de maneira muito exagerada. Outra situação percebida por ele foi que elas
quase nunca conseguiam dizer ao certo o local preciso de sua dor, diferente de uma
pessoa que sofre de dor orgânica, e que indica com certeza seu local dolorido, além
de conseguir mostrar através de exames e testes que há realmente um fundo
orgânico em seu quadro patológico. Uma histérica, quando é tocada no local que a
incomoda, demonstra uma expressão de prazer e não dor.
Nota-se que o sujeito histérico faz do seu corpo um palco para representar a
Outra cena, que é recalcada e tem ligação de ordem sexual. Como falado
anteriormente, a religião era o lugar do discurso do mestre. Este queria tapar todos
os “buracos” e orifícios corporais do sujeito, evitando assim que fosse penetrado, ou
que sentisse qualquer estímulo prazeroso. Porém as histéricas desbancaram o
67
discurso do mestre e mostram que ninguém pode calar o desejo, que fala não
somente pela construção significante, mas também através da linguagem muda de
um corpo que é palavra de sentido sexual.
Nas histéricas, a paralisia, a cegueira, a dor e a tosse, não se originam da
realidade biológica do corpo, ou seja, não existem como expressão de um
corpo doente, mas são material de uma narração visual, em que a imagem
é erigida como testemunho de um sofrimento de um corpo doente, trata-se
essencialmente de um sofrimento psíquico (FERNANDES, 2011, p.35).
O corpo histérico teria então uma anatomia imaginária, que é subvertida pela
ordem simbólica, ou seja, uma garganta secretiva como no caso de Dora seria uma
garganta sem causa orgânica, porém a casualidade estaria ligada ao valor erógeno
do órgão que se comportaria como um genital. Era o local de gozo de sua fantasia
erótica com o pai.
O corpo histérico deixa de estar a serviço da função orgânica e passa a estar
a serviço da função sexual. Esse corpo representado passa a ser alvo do
investimento libidinal.
Como o falo é o objeto perdido da histérica, ela produz para todo seu corpo
um investimento narcísico, para inibir a zona genital. Uma histérica usa seu corpo
para produzir sinais sexuais que raramente seguem para o ato sexual, pois deseja
que o ato, o corpo a corpo, seja insatisfatório. Oferece seu corpo, mas não o
entrega, o gozo sexual é para ela um risco, a penetração
significaria
inconscientemente pôr em risco o falo, pois, se fosse atingido, produziria a
desintegração do seu corpo.
Sua relação com sua imagem é problemática, pois não afirma sua
identificação feminina, buscando um olhar para além de sua voz e de sua postura.
Ela procura apelar para anéis, colares, roupas e brincos, pois seu corpo que está
incompleto pela ausência do falo necessita chamar atenção. Sempre lhe falta algo
nesse corpo fantasmático marcado pelas manifestações recalcadas.
Segundo Assoun (1996) não é o corpo que irá falar, mas sim as
representações que estão recalcadas e que se manifestarão através dele. O sintoma
histérico muitas vezes aparece ou anuncia-se no corpo, na verdade em um corpo de
representação ou simbólico, que é marcado pelas pulsões de vida e de morte.
68
Em 1894, Freud informa que o corpo com que a psicanálise trabalha é
diferenciado. A função do corpo nas psiconeuroses e nas neuroses atuais, será o
elemento que irá diferenciar a somatização e a conversão.
Na conversão a descarga de excitação se dá por uma via inadequada, no
caso uma inervação somática, enquanto na somatização, contrário, tem-se
um acúmulo de tensão que não consegue se descarregar psiquicamente e
que por este motivo fica retido no domínio físico (MENDONÇA, 2011, p.53).
A conversão histérica vai atestar cada vez mais para Freud o caráter
representacional e erógeno desse corpo tão diferenciado psicanaliticamente. A
conversão seria a “mutação” corporal da soma de excitação que é liberada do
recalcamento, seria uma característica da histeria.
Em 1915, Freud dirá que o recalque, é um dos destinos que a pulsão irá
sofrer. No caso das histéricas, a energia libidinosa que havia no seu desejo encontra
expressão através do sintoma conversivo, na maior parte das vezes. Em Fantasias
histéricas e sua relação com a bissexualidade [1908], Freud enfatiza a importância
da fantasia para a formação do sintoma histérico. Essas fantasias podem ser
resultado de pensamentos íntimos que sofreram recalque, e chegaram a se
expressar através da conversão.
O sintoma histérico surgiria então de uma conciliação entre tendências
afetivas opostas, em que uma tenta expressar o componente de constituição sexual,
enquanto a outra tenta fazê-lo sucumbir. Esses conflitos vão se converter nos
órgãos do sentido e no sistema nervoso, pois suas fantasias, depois de recalcadas,
encontrarão expressão em alterações de funções físicas, sendo estes sintomas
sensoriais, motores e convulsivos.
O sintoma conversivo costuma se apresentar no corpo como paralisia, fadiga,
tosses interruptas, cegueira e dor. Dor essa que, para o sujeito, representa um
desprazer, mas que para a pulsão representa sua satisfação.
3.2 A DOR
A dor é um sintoma muito comum nas crises da fibromialgia, ela marca o
corpo em diversos lugares, um sintoma ainda de etiologia duvidosa. Se falamos de
69
dor, podemos indagar qual seria para o Sistema de Saúde a sua definição. Existe
hoje uma Sociedade Brasileira para o estudo da dor (SBED). Segundo o site da
SBED, a dor seria uma sensação ruim e desagradável, que pode trazer um
desconforto leve, moderado ou grave e se expressa através de uma reação orgânica
e/ou emocional. A dor é subdividida em nociceptiva e neuropática. Ela é um estado
fundamental que alerta o sujeito para a ocorrência de alterações em seu corpo.
Atualmente a Associação Internacional para Estudos da Dor (IASP) classifica
a dor em três estados: aguda, com duração pequena e causa conhecida; crônica
com duração de mais de três meses e com etiologia indefinida; recorrente, que
aparece em período pequeno, porém pode aparecer por toda a vida do paciente.
Nos Estados Unidos havia cerca de 86 milhões de cidadãos com dores
crônicas em 2000. No Brasil, um estudo feito pela Universidade de São Paulo
concluiu que 13,6 milhões de brasileiros tinham quadros dolorosos e que 60%
sofriam de dores crônicas. (QUEIROZ et al, 2012).
O mecanismo da dor é dado através das vias periféricas nervosas e pelas
vias centrais. As causas da dor estão relacionadas a tecidos lesados, isquemia
tecidual, espasmo muscular e etc. Nesses locais, nervos periféricos e centrais
levaram toda a informação até chegar ao cérebro que reconhecem o ponto onde dói
no corpo. A serotonina e a endorfina são substâncias que podem inibir a ação da dor
na medula espinhal por algum tempo. No caso da fibromialgia, os pesquisadores
acreditam que há alguma alteração na serotonina, como relatado no primeiro
capítulo.
Existem pessoas que relatam sentir dor sem haver nenhuma lesão tecidual?
A dor é subjetiva e pessoal e também se apresenta quando há um transtorno
emocional. Quando perdemos alguém, vivemos a dor do luto, que é profundamente
sentida embora não haja nenhum dano tecidual.
Existem dores do campo afetivo que o sujeito consegue identificar de forma
consciente. Por exemplo, na perda de um amor, ele sabe a razão desse sentimento
que o deixa angustiado, mesmo que haja nisso algo inconsciente que ele
desconheça. Ele se conforma com o quadro que ele mesmo consegue definir: a
perda de um amor. Mas e as dores que o sujeito e o médico não conseguem definir
e traçar um diagnóstico, seriam essas dores de origem inconsciente?
Como falado no capítulo I, a algia da fibromialgia requer uma atenção maior,
ela realmente provoca dor em partes do corpo, há estímulo doloroso chegando ao
70
cérebro, porém ainda não se sabe de onde ela vem. A dor, quando estudada à luz
da psicanálise, recebe um novo olhar, sobretudo em quadros como estes da
fibromialgia. A psicanálise vê a dor além de uma dor física, exista a lesão tecidual ou
não.
Queiroz (2012, p.17), a partir do estudo da obra de Freud, Projeto para uma
psicologia científica, consegue relacionar o percurso da dor no corpo com aquilo que
a neurologia apresenta como a condução do estímulo nervoso .
Os neurônios do sistema psi são permeáveis à passagem de quantidade de
excitação. São neurônios condutores de excitação, correspondem ao que
em neurologia se indica como os nociceptores que liberam os mediadores
químicos. Eles compõem o sistema perceptivo, e o contato com o mundo
externo é feito pelos órgãos dos sentidos.Os neurônios do sistema psi estão
relacionados à memória e dizem respeito à inscrição sensitiva da
experiência. Eles são dotados de dispositivos de proteção – as barreiras de
contato –, que impedem a invasão de grandes quantidades de excitação,
tanto exógenas quanto endógenas. Podemos compará-los ao tálamo
cerebral que tem a função de filtro e não deixa passar para o córtex
sensitivo evitando que o sistema nervoso central tome conhecimento do
estímulo doloroso.
Ele dispara algumas respostas neuroplásticas. Freud [1895] diz, então, que "o
sistema nervoso tem a mais decidida propensão a fugir da dor" (p. 408), pois sua
tendência primária é evitar o aumento da tensão quantitativa. Já os neurônios do
sistema ômega produzem as sensações conscientes de prazer e de desprazer.
Estão relacionados à capacidade de perceber as qualidades sensórias de dor ou de
prazer. Do ponto de vista da neurologia, o hipotálamo – substância cinzenta do
córtex cerebral mais primordial e especializada, por onde caminham as informações
–, dá a dimensão afetiva e qualitativa da dor. Por meio dele os estímulos sensórios
são codificados e reconhecidos pelo sistema nervoso central. (QUEIROZ, 2012)
Esse três sistemas vão levar a três funções psíquicas importantes: o
reconhecimento da dor, o registro da experiência sensitiva e a inscrição da
excitação. Em O problema econômico do masoquismo [1924] o desprazer da dor é
feminino, erógeno e moral. Porém a dor que é desprazerosa para o corpo pode não
ser para o inconsciente.
71
Freud em Inibição, sintoma e angústia [1926] relata que há relação da dor
física com o corpo. Em Projeto de psicologia científica [1895] Freud parte do ponto
de vista médico para considerar a dor como fenômeno de excitação e é então que
ele nota que há um além dessa dor corporal e passa a relacionar com a dor
psíquica. Nesse mesmo trabalho chega a mencionar que a formação da dor psíquica
está relacionada a um excesso de estímulos endógenos ou exógenos e que o
psiquismo será sobrecarregado por esses estímulos além do que aguenta suportar.
Em 1914 em O narcisismo, Freud acrescenta que na dor física a libido vai em
direção ao órgão doente e causa um estado narcísico, ou seja, do físico para o
psíquico. A transmissão da dor física para a psíquica corresponde à passagem da
carga narcísica à carga psíquica, há um esvaziamento doloroso em direção à
imagem do objeto, com isso a imagem do objeto perdido e do local lesionado
passam a ter o mesmo estatuto metapsicológico.
Em Além do princípio do prazer [1915], Freud diz que quando há um
rompimento do escudo protetor, os estímulos periféricos conseguem chegar até a
mente, e que o aparelho mental reagirá contra esses estímulos. Já no caso da
formação dos sintomas conversivos o mecanismo funciona de maneira contrária, do
psíquico ao físico.
Segundo uma coletânea de autores sob a rubrica da Associação Científica do
Campo Lacaniano, 2002, a dor para Freud aparece em várias formas, seriam elas: a
dor representando o sujeito do inconsciente, dor do trauma lógico que funda o
inconsciente através do recalque primário, dor como objeto do gozo no narcisismo,
dor como afeto de perda real, dor como inibição das funções do eu.
O autor Nasio, 2008, relata em sua obra a dor inconsciente, fazendo um
estudo a partir de Freud. Essa dor seria algo que ocorreu no passado e está
guardada no inconsciente. Cada um tem sua primeira dor, que realmente é sua, as
outras dores sentidas podem despertar essa marca que ficou guardada no
inconsciente. Há também a dor psicogênica que representa a dor sintoma, é sentida
realmente pelo sujeito, há uma sensação dolorosa, porém sem haver causas
orgânicas que possam ter gerado tal desconforto. Exemplos para esses
acontecimentos aparecem no caso dos sintomas conversivos, que indicam o modo
como a pulsão recalcada encontrou para se expressar ou se satisfazer em algum
72
lugar do corpo, mesmo que em forma de dor. A dor psicogênica pode ser de caráter
histérico ou de caráter hipocondríaco. No primeiro caso, as histéricas vivenciam essa
dor, se colocam como coitadas, querem ser decifradas pelos médicos, querem
atenção a essa dor. Já os hipocondríacos se apresentam como se eles fossem a
dor.
Em 1925 em Inibição, sintoma e angústia, Freud descreve a circulação
pulsional em volta do local da dor, ou seja, a dor atuaria como um estímulo pulsional.
A dor representa a presença de pulsão no corpo. Freud chega a dizer que o sujeito
só se reconhece anatomicamente quando sente dor. A dor então indica que há a
presença de pulsão no corpo. Como a angústia, ela é sinal de perigo, e está a
serviço da pulsão de vida, porém nos casos em que a ação da pulsão de morte vem
a se sobrepor à de vida, a dor tende a ser inócua e transmudar-se em gozo.
Mas o que nos interessa no presente estudo é entender a dor histérica, e sua
satisfação (insatisfação) em manter esse quadro doloroso.
3.2.1 Elizabeth Von R.
Ao longo dos capítulos apresentados, pudemos conhecer um pouco sobre as
histéricas e como através delas Freud conseguiu conceber a noção de inconsciente,
como sede dos conflitos pulsionais que irão procurar alguma maneira de se
satisfazer. O corpo histérico é pulsional, erotizado e a pulsão se utiliza disso para
conseguir se descarregar. O que pode parecer desprazeroso e penoso tende a ter
uma máscara que esconde alguma satisfação. Vou utilizar o caso de uma jovem
paciente de Freud que sentia fortes dores em sua perna ao ponto de travá-las.
Abordaremos mais uma vez, só que de forma mais ampla, o caso da Srta. Elizabeth
Von R. Segundo (FREUD [1893] 1996), em 1882 um médico amigo lhe pediu que
examinasse uma jovem que, havia mais de dois anos, vinha sofrendo fortes dores
nas pernas e dificuldade de andar, acrescentando que se tratava de um caso de
histeria.
73
Elizabeth era uma jovem de 24 anos, parecia inteligente e mentalmente
normal. Sendo a mais jovem de três filhas, era muito apegada aos pais e passara
toda a juventude na companhia deles. A saúde de sua mãe era perturbada por uma
afecção dos olhos e por estados nervosos. Assim, seu contato com o pai tornava-se
mais forte. Ele era um homem alegre e costumava dizer que aquela filha ocupava o
lugar de um filho e de um amigo, afirmando, muitas vezes, que ela teria dificuldades
de encontrar um marido. Seu pai possuía uma afecção crônica do coração, o que o
deixou muito doente. Consequentemente, sua filha tornou-se responsável por seu
cuidado. Ela relata lembrar-se do dia em que seu pai apoiou a perna em sua coxa
direita. Todos os dias, a senhorita passou a dedicar-se somente ao seu pai, trocando
seus curativos todas as manhãs até o dia de sua morte. Era como uma enfermeira
para aquele homem, e não se permitia se divertir ou conhecer alguém, somente
cuidar do seu pai. Certa vez em que a jovem decidiu sair com um rapaz, seu pai
piorou e ela não estava presente para ajuda-lo, o que a fez sentir culpa e remorsos.
Um ano após a partida do pai, sua irmã mais velha casou-se com um homem
bem-dotado e dinâmico, mas que não entrosava bem com os familiares de sua nova
esposa. Já o casamento da sua segunda irmã pareceu prometer um futuro melhor à
família. Seu cunhado tratava todas muito bem, principalmente sua esposa, o que
causava em Elizabeth um desejo profundo de ter um casamento igual ao de sua
irmã ou, quem sabe, o marido dela. Sua segunda irmã encontrava-se grávida pela
segunda vez, e seu quadro de saúde era grave. Nesse período, Elizabeth, por
insistência de sua irmã, fazia algumas caminhadas com seu cunhado para se distrair
um pouco. Nesses passeios, os dois falavam de tudo, até dos assuntos mais
íntimos. Assim, aumentava a vontade de ter um homem como ele ao lado e um
desejo obscuro de que a sua irmã morresse. Nesse momento, ela sente a
necessidade de não ficar mais só.
Após a partida de sua irmã e seu cunhado, Elizabeth volta ao local onde
caminhava e sente algumas dores ao sentar-se; mas foi somente à tarde, depois de
ter tomado um banho quente, que as dores pioraram, principalmente na coxa direita.
E ela nunca mais se livrou delas, até o dia em que foi levada ao consultório de
Freud.
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Verificando o caso Elizabeth Von R., e assimilando ao presente estudo,
podemos notar que se tratava, realmente, de um caso de histeria.
Quando criança, o sujeito teve uma experiência sexual cuja carga de afeto
foi insuportável para o sujeito e lhe é inconciliável com a consciência. Desse
conflito resulta que a ideia é recalcada e permanece ativa no inconsciente.
Uma vez já na vida adulta, essa recordação, despertada por algum
acontecimento, é convertida em um sintoma no corpo, que é um memorial
do trauma. (QUINET, 2005, p.103)
Assim aconteceu com a senhorita Elizabeth Von R.. Ela cresceu, ouvindo os
significantes que advinham do lugar do Outro, no caso, sua mãe e seu pai, que
moldaram seu sujeito. Tornou-se uma moça distante dos paradigmas adequados
àquela época. Logo depois, Elizabeth recalca uma ideia erótica. Primeiro, recalca o
significante: a perna do pai em sua coxa direita – recalca um prazer sexual –;
sintoma: dor na coxa direita. Segundo, percebe, durante as caminhadas com o
cunhado, que não consegue ficar só, recalcando ficar só. Durante a análise com
Freud, fala que “não consegue ficar de pé”, querendo dizer “não consigo ficar só”.
Utiliza duplo sentido, metáfora (to stand ou em alemão, alleinsstehen = ergue-se
sozinha ou ficar de pé sozinha). Ela recalca esses significantes no inconsciente que
se transformam em sintomas, não conseguindo mais andar normalmente. Um círculo
de representações de natureza erótica entra em conflito com todas as suas
representações morais, há conflito entre consciente e inconsciente, a pulsão sexual
precisava se satisfazer, a libido encontrar um caminho para se fazer e os
significantes precisam se afastar da consciência.
O caso Elizabeth é um bom exemplo de tudo até aqui falado. Verifica-se a
influência dos significantes do Outro na formação do sujeito, os significantes
recalcados no inconsciente podem “furar” a barreira do recalque, transformando-se
em formações do inconsciente e, no caso estudado, formou-se o sintoma. Para a
psicanálise, trata-se de um sinal do sujeito; é um significante com significado sexual,
para o neurótico, é o lugar do sofrimento que proporciona a satisfação sexual.
Quinet (2005). A dor para essa histérica era a metáfora de um amor edipiano pelo
75
seu pai, para Freud é uma satisfação pulsional, um meio de “esvaziar” a tensão, é o
modo que faz a pulsão gozar.
Nesse caso a dor se apresenta como um sintoma conversivo histérico que
utilizou do corpo como local de gozo e, dependendo da fantasia que está por trás de
toda a situação o local em que essa dor vai se exiliar será uma zona erógena. Isto
para que a pulsão se descarregue e vivencie fantasia. Por isso que por mais que o
paciente reclame que a dor o incomoda, inconscientemente lhe traz benefícios.
3.2.2 (IN) Satisfação da Dor Histérica
A pulsão vai estar sempre atrás da satisfação, e estamos sempre atrás do
objeto perdido e tentando preencher esse furo. A pulsão vai contornar o furo
repetidas vezes para encontrar a melhor maneira de satisfazer, e isso pode acarretar
a repetição do sintoma. Isso é um quadro muito comum em alguns dos pacientes
com a fibromialgia, pois, se existem aqueles que têm a dor como constante, há
também aqueles que apresentam o caso doloroso de maneira intermitente. Relatam
que seu sintoma aparece, some e, de repente, quando acham que tudo está
resolvido, o sintoma reaparece.
Mendonça (2008) em seu artigo “As incidências da repetição no corpo, pela
via da dor” conta a história de sua paciente que sofria de fibromialgia e reclamava de
suas dores que se repetiam. No início, começou com uma leve dor de cabeça que
foi aumentando e, logo em seguida, passou para todo o corpo. A jovem relata à
Mendonça a seguinte situação: “O que eu faço para parar de sentir esta dor, por
todo o meu corpo. Mas o que eu faço para mudar isto? Estou cansada dessa
repetição” (2008 s/p).
Freud em 1915 relata que a procura da satisfação pulsional pode estar fadada
a fracassar. Como não se consegue capturar o objeto, a pulsão o contorna. A busca
em torno do objeto e em direção à satisfação leva a uma repetição e por meio dessa
repetição tenta apreender o objeto. “É a distancia entre o objeto faltoso e o objeto
para o qual a pulsão dirige que faz com que ela retorne em direção à fonte, e
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recomece em direção ao objeto” (MENDONÇA, 2008, s/p). A pulsão faz do corpo um
local de repetição que gera mal estar e sintomas.
O fato de considerar os caminhos da pulsão sobre o corpo como sendo
repetitivos possibilita entender que a pulsão se expressa no corpo de
acordo com as formas de manifestação da repetição, isto é, ora sob sua
faceta constitutiva, atuando a serviço do princípio de prazer, ora sob a forma
restitutiva da repetição, tentando inscrever no corpo algo que não encontrou
outra maneira de se fazer representar. Já os efeitos da repetição no corpo,
acredita-se ser viável verificá-los por meio da dor (IBID, 2008).
O sintoma doloroso pode ser para a histérica um mecanismo defensivo
inconsciente para impedir que algum conteúdo que cause desprazer chegue à
consciência. Nota-se o que Freud em Inibição, sintoma e angústia [1926] relata
sobre a “repressão”.
Importante elemento da teoria da repressão é a opinião de que a repressão
não é um fato que ocorre uma vez, mas que exige um dispêndio
permanente [de energia]. Se esse dispêndio viesse a cessar, o impulso
reprimido, que está sendo alimentado todo o tempo a partir de suas fontes,
na ocasião seguinte fluiria pelos canais dos quais havia sido expulso, e a
repressão ou falharia em sua finalidade ou teria de ser repetida um número
indefinido de vezes (FREUD [1926], 2006, p.97).
Nota-se que a pulsão vai tentar encontrar um caminho e, mesmo se
satisfazendo parcialmente, torna a buscar satisfação ou, procura um caminho para
que isso aconteça, “driblando” o recalque. Para a paciente de Mendonça que sofre
de fibromialgia, sua dor lhe aparece de maneira irritativa, porém se repete por que
se ganha com isso e se sacia. Cada vez que ela reaparece é uma satisfação a mais.
O gozo traz uma satisfação, de modo que fica difícil querer se livrar do sintoma,
embora doloroso. Querer ser livrar do gozo, já é um modo de gozar. Freud em 1920
trás o conceito de pulsão de morte, a satisfação não estará ligada somente ao
prazer, pode vir através de um desprazer. O prazer que existe no desprazer vai
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satisfazer a pulsão e por isso a resistência em resolver o sintoma ou impedir que ele
retorne ao corpo, pois há gozo.
O termo “prazer” é muito encontrado na obra de Freud, assim como “gozo” na
de Lacan. Em Elia (1995), o prazer para Freud está para o princípio do prazer, e o
sintoma neurótico é a resposta do sujeito à impossibilidade de realizar plenamente o
princípio do prazer, é a resposta da castração, a impossibilidade da relação entre os
sexos. O sintoma na psicanálise está como significante que representa o sujeito, e
por mais que pareça doloroso é antes um bem que um mal. Lacan abre a noção de
gozo, que vem relacionado com a satisfação, mas não coincide com ela, pois a
satisfação pode produzir experiências prazerosas, e o gozo não serve ao prazer,
pois ele está além do princípio do prazer, sempre a mais. O gozo pode estar próximo
ao prazer desde que a este associemos a dimensão da dor, o gozo pode ser prazer
na dor.
Diferenciando-se o gozo da satisfação da pulsão, o primeiro aparece como
efeito da subordinação da pulsão à linguagem e resíduo incomputável dessa
operação. Há sempre em torno do circuito do gozo a referência do objeto perdido.
Para Lacan, é o objeto a. O ponto de ancoragem do sujeito está em algo que falta ao
Outro, o objeto faltoso não é o objeto do desejo, mas o objeto que faltando causa o
desejo. Relacionando desejo e gozo, no plano dos dois, o objeto se encontra
implicado, é para o desejo sua causa e para o gozo objeto de fruição. O gozo vai
ligar o sujeito a sua condição de objeto através da fantasia, para além do
significante. Em Escritos (1901-1981), 2011 no capítulo A significação do falo,
encontra-se o gozo dividido por Lacan em três modos: o gozo fálico, o gozo sentido
e o gozo do Outro. O que nos interessa nesse momento é o gozo fálico “resulta da
incidência, na experiência do sujeito, da castração e da lei de interdição à
complementaridade sexual” (ELIA, 1995, p.140). O gozo fálico é sexuado, o gozo
enquanto marco da diferença sexual introduzida pela ordem do falo, ele marca a
perda.
Para entender tal funcionamento fálico vamos buscar o texto de Freud
Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos [1925]. O
menino, na fase pré-edipiana, ainda não reconhece seu pai como rival e sua
castração vai vir após o complexo de Édipo. Para o menino, sua mãe é objeto de
78
amor libidinal, e agora sim seu pai se tornará seu rival. Já a menina vai desejar ser o
objeto de amor de seu pai e tentar tomar o lugar de sua mãe. A descoberta da zona
genital ocorrerá de maneira diferente para ambos. O menino ao ver o órgão sexual
feminino não tem interesse, somente quando ele passa a se sentir ameaçado em se
sentir castrado é que vai dar valor a esse caso. Já a menina quando se depara com
o pênis acredita ser parecido com seu clitóris, porém o do menino é maior e isso
causa a ela uma inveja do pênis, e então nota que ela não tem o mesmo órgão que
o menino, mas quer tê-lo. De acordo com Freud o “reconhecimento da castração por
parte da mulher leva a um estado de insatisfação, a uma rebeldia que se instala
contra a superioridade do homem e sua própria inferioridade” (p.149, 2006). Para
isso a menina cria saída. A esperança de um dia seu clitóris se tornar um pênis foi o
que Freud denominou de “complexo de masculinidade”. Insatisfeita com seu clitóris
deixa de lado qualquer atividade sexual fálica (masturbação do gozo clitoriano) e
culpa sua mãe pela falta de um pênis, o qual lhe traz uma inferioridade perante o
homem, em sua própria interpretação.
O falo nesse momento para a menina aparecerá como imaginário, para
manter a fantasia de que ela terá um pênis, porém, para que chegue à feminilidade,
ela terá que abrir mão do falo imaginário e passar a ter o falo simbólico, e é aí que
ela deseja receber um filho do seu pai. Seu desejo de possuir um pênis passa para o
de possuir um filho, e seu pai passa a ser seu objeto de amor. “A ligação da menina
com o seu pai pode ceder lugar a uma identificação com ele, e pode ser assim que
ela volte ao seu complexo de masculinidade” (2006, p.51). A diferença entre ambos
os sexos corresponde à castração que foi executada e a que foi ameaçada.
No texto Fetichismo [1927], Freud relata que o fetiche é um substituto para o
pênis da mulher (mãe) em que o menino acreditou. Espera-se que os objetos ou
órgãos escolhidos pelas mulheres passem como substitutos do falo ausente. O
objeto fetiche tem por motivo proteger o sujeito do horror à castração e seria a
presença de uma ausência por remeter a algo que nunca se pode possuir realmente.
Freud declara que “o fetiche não é substituto para qualquer pênis ocasional, e
sim para um pênis muito específico e especial, que foi extremamente importante na
primeira infância, mas posteriormente perdido” (2006, p.126). Para o autor, o fetiche
está inteiramente ligado ao momento da castração feminina, e tanto a afirmação
79
quanto a rejeição da castração encontram caminho na construção do próprio fetiche.
Este tem por motivo preencher o que lhe falta, e por vezes, se fazer de fetiche do
homem. “O protótipo normal dos fetiches é um pênis de homem, assim como o
protótipo normal de órgãos inferiores é o pequeno pênis real da mulher, o clitóris”
(p.129, 2006).
Nos Escritos (1901-1981) Lacan comenta que no complexo de castração, a
experiência do desejo do Outro não é decidida pela presença ou não de um falo real,
mas implica que a criança note que sua mãe não o possui. O falo, para Lacan, não é
fantasia, objeto e menos ainda um pênis ou clitóris, ou seja, não é imaginário, nem
real e simbólico. É, então, um significante “cuja função na economia intrasubjetiva da
análise, levanta talvez o véu daquela que ele mantinha nos mistérios” (LACAN
[1901-1981] 2011, p. 267).
O falo como significante impõe que seja apenas no lugar do Outro que o
sujeito possa ter acesso a ele.
Mas esse significante aí estando apenas velado e com razão do desejo do
Outro, é esse desejo do Outro como tal que se impõe ao sujeito reconhecer,
isto é, o Outro no que ele é ele próprio sujeito dividido da spaltung
significante (IBID, p. 270).
Quando Lacan passa a notar a relação entre os sexos, relata que haverá a
falta do falo, por isso esta relação estará marcada em torno de um ser e de um ter o
que falta ao outro. A mulher passa a ser significante do desejo do Outro, o falo, e
deixa de lado uma parte da feminilidade. Por aquilo que ela não é, ela deseja ser
amada e desejada, porém ela encontra o significante do seu puro desejo no corpo
daquele a quem se destina sua demanda de amor. As histéricas vão desejar ser o
significante do desejo do Outro, esse falo que falta ao Outro e, assim, se fazem
desejadas.
Como falado anteriormente, vai haver sempre a busca do sujeito por alguma
coisa perdida e a tentativa de encontrar algo que tape seu furo e algo que o faça
80
desejar. O sujeito passa a escolher um objeto que vai lhe trazer satisfação, porém é
a demanda do Outro que vai determinar qual objeto será adotado.
A histérica prefere se manter como objeto de discurso do Outro do que ter um
gozo. E isso é notado muito facilmente quando ela adota para si o dito de
“coitadinha”, “penosa” e “sofredora”. Também noto em minhas pacientes de
fibromialgia que elas persistem em falar da dor, como forma de chamar atenção para
o seu problema e de se manterem insatisfeitas. Toda vez que tomam um
medicamento e não conseguem se livrar do que sentem, parecem querer serem
decifradas. Queixam-se de não haver resolução para o seu problema e de não
conseguirem ficar bem, curar-se.
Referente a essa situação vou lembrar novamente o caso já falado
anteriormente da Bela Açougueira que está contado por Freud em A interpretação
dos sonhos. Uma jovem senhora que desejava dar um jantar em sua casa, porém
não consegue realizar, pois não havia salmão em sua casa e, como era domingo,
não podia ligar para a mercearia para comprar o que precisava. Então não
conseguiria dar o jantar para a sua amiga. Seu marido havia dito que precisava
recusar os convites para jantar, pois necessitava emagrecer, e logo depois a Bela
Açougueira pede para que ele não dê caviar a ela. Freud interpreta seu sonho como
o desejo de não dar esse jantar para não engordar sua amiga e despertar o desejo
de seu marido, ou seja, seu desejo para a jovem se passa como insatisfeito, mas na
verdade, se mantém assim para que o desejo não se conclua.
Como desejo da histérica se constitui do desejo do Outro, tendo esse desejo
insatisfeito, ela mostra ao Outro que é incapaz de satisfazê-la. A Bela Açougueira
tem tudo para ter seu desejo satisfeito pelo seu marido, mas ela não quer se
satisfazer, seu desejo é ter seu desejo insatisfeito. Para Pollo (2003, p.114).
O tipo clínico da histeria apresenta como principais características um
desejo que se sustenta na insatisfação. E uma modalidade de gozo que diz
respeito a privação. Sua estratégia de evitar à castração unilateralizando-a
no Outro, ou seja, no parceiro, pois ele castrado é o que está no foco de
gozo para a histérica.
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A mesma autora também enfatiza o sonho da Bela Açougueira por Lacan
(1958a), considera que a “açougueira espiritual”, casada com um homem, quer
como mulher, porém deseja como homem. O desejo do seu marido era emagrecer.
Ele quer lhe dar caviar, mas ela não quer seu desejo de mulher saciado, abre mão
disso para manter-se junto ao marido como sendo o falo. O gozo do sujeito histérico
vem de uma privação, mesmo se, para isso, ela tenha que continuar com seu
sintoma. “O sujeito infere a existência de um desejo semelhante no Outro e passa a
apresentar o mesmo sintoma, podendo inclusive sonhar com o desejo do Outro, um
substituto do seu próprio” (IBID, p. 114).
O sintoma conversivo histérico doloroso traz para a histérica um gozo, seja
ele através da satisfação pulsional ou através do recalque. Encontra no corpo um
local para gozar desse sintoma através da repetição ou do retorno desse sintoma. A
dor pode ainda persistir para que a histérica se mantenha insatisfeita e goze dessa
privação para se manter como significante do desejo do Outro. Quanto mais
insatisfeita, mais se encontra protegida das ameaças de um gozo que, para a
histérica, pode ser um risco de desintegração imaginária, fantasiada.
Abre-se a possibilidade e uma nova visão para o diagnóstico da dor da
fibromialgia, pautada no estudo da histeria por Freud e Lacan. Acreditamos que a
psicanálise, com seus próprios conceitos de sintoma conversivo, dor, corpo, pulsão
e gozo, pode contribuir no trabalho de decifração dos “enigmas” da dor da
fibromialgia. Se, no decorrer de um tratamento psicanalítico, os histéricos encontram
alguma forma alívio para suas dores e seus sofrimentos, por que não dar a mesma
chance aos sujeitos que sofrem de “fibromialgia”?
82
CONCLUSÃO
Esta investigação teve por objetivo percorrer os conceitos que sustentam o
estudo da histeria e, assim, encontrar na psicanálise algumas definições que
permitissem dirigir um novo olhar para o diagnóstico da dor da fibromialgia. Calcada
nas obras de Freud e Lacan, ela teve como finalidade investigar de que forma os
sintomas histéricos se relacionam com os da fibromialgia. A partir da experiência
clínica como fisioterapeuta, vivida pela autora da dissertação, a mesma passou a
notar que havia algo diferente com os pacientes diagnosticados como fibromiálgicos
em relação aos outros pacientes que também faziam tratamentos fisioterápicos.
Com base em estudos da Sociedade Brasileira de Reumatologia e autores de
renome no campo médico como: Keiserman, Hall e Body, concluímos que a
fibromialgia é definida como uma síndrome de dor difusa e crônica, caracterizada
pela presença de dor em onze dos dezoitos pontos anatomicamente específicos. É
uma doença reumatológica, acomete preferencialmente as mulheres, e sua etiologia
é indefinida. Não é uma síndrome progressiva, pode durar um longo tempo ou por
toda a vida, não existe uma cura definida e nenhum dano ao corpo, somente a
qualidade de vida do paciente se vê prejudicada.
A falta de diagnóstico mais concreto prejudica o cuidado mais correto do
paciente. É fato que a dor existe, entretanto, não se apresenta nenhum resultado
laboratorial. Geralmente, a fibromialgia é tratada com antidepressivos e fisioterapia,
porém os pacientes encontram-se quase sempre insatisfeitos com os resultados. Por
isso, estão à procura de novos diagnósticos, mudando de médico sempre que
possível. Querem uma solução para o alívio dos seus pontos dolorosos.
Nos primórdios de seus estudos, junto a Charcot, Freud tentava analisar os
pontos dolorosos das pacientes histéricas, chamando-os de “zonas histerógenas”.
Uma zona desse tipo é um local que gera dor e desconforto ao simples toque no
corpo. O início da psicanálise veio de um olhar diferente de Freud sobre os sintomas
histéricos. Logo no começo de suas pesquisas e estudos, ele percebeu que esses
sintomas estavam relacionados com traumas vividos pelas jovens. Elaborou, então,
sua primeira teoria do trauma, acreditando que alguma experiência traumática, do
83
tipo de uma sedução ou mesmo um abuso sexual, estaria por trás do sintoma. De
modo que o agente do trauma teria sido, provavelmente, um pai abusador.
A partir de Berta Papenheim – que entrou para a história da psicanálise como
Ana O.- Freud abandona a hipnose e passa a sugerir a associação livre, “ a cura
pela fala”, e entende que existe um outro local na mente além da consciência, o
inconsciente. No artigo Comunicação preliminar [1893-1895], Freud e Breuer, então
colegas de trabalho, reconhecem a importância da linguagem. Em 21 de setembro
de 1897, Freud menciona sua nova descoberta em uma carta endereçada a Fliess,
inaugurando a teoria da fantasia alicerçada sobre o conceito de realidade psíquica.
A fantasia ganha uma função na etiologia da histeria, ocupando o lugar do que antes
era tido como uma ação perversa do adulto. Freud descobre a universalidade das
experiências sexuais da infância e o modo como a fantasia está vinculada ao
complexo de Édipo. Por isso ela é inconsciente.
Por meio dos cuidados de quem desempenha a função materna, a criança
será introduzida no campo da sexualidade, seu corpo será erogeneizado. Nos Três
ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud (1905) declara que a criança torna-se
um perverso polimorfo com pulsões emanando de diferentes zonas erógenas. Essas
zonas funcionam como parte do aparelho sexual, o que pode ser percebido no corpo
das histéricas. A propriedade erógena pode estar ligada a partes do corpo, ou em
todas as partes, incluindo os órgãos internos. O corpo será para a pulsão a sua fonte
permanente de estímulos.
Em a Concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão [1910],
Freud afirma que os órgãos servem tanto para a pulsão sexual quanto para as
pulsões egoístas. Em Além do princípio do prazer [1925-1926], ele diz que a pulsão
está para além da representação, ela não se faz representar em um corpo biológico,
mas no corpo cartografado pelo desejo. Em Os quatro conceitos fundamentais da
psicanálise (1963-1964), Lacan afirma que a pulsão sai por todos os “buracos” do
corpo. Para cada zona erógena, há um objeto pulsional. Essa energia libidinal
precisa sair e se satisfazer, pois o sujeito está sempre atrás do objeto faltoso, que
ele acha ter possuído e perdido, talvez na primeira mamada.
O corpo histérico deixa de estar a serviço da função orgânica e passa a estar
a serviço da função sexual. Em 1915, Freud dirá que o recalque é um dos destinos
84
que a pulsão irá sofrer. Nas histéricas, seu desejo tão fantasiado não pode vir à tona
no consciente, é necessário percorrer outros caminhos. O inconsciente é fundado
pelo recalque, e recalcar significa negar, manter o que foi negado afastado da
consciência. Em Fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade [1908],
Freud enfatiza a importância da fantasia para a formação dos sintomas histéricos.
Estes irão exprimir impulsos pulsionais recalcados e os conflitos irão converter nos
órgãos do sentido e no sistema nervoso, pois suas fantasias, depois de recalcadas
encontrarão expressão em alterações físicas, como a dor. Se a dor, para o sujeito,
representa desprazer, contudo, para a pulsão, ela representa satisfação. Vê-se,
então, que já não se trata apenas da pulsão sexual, nem mesmo daquela que Freud
chamara inicialmente de egoísta, mas de uma amálgama de pulsão de vida e pulsão
de morte ou de destruição.
Na tentativa de ilustrar os conceitos psicanalíticos apresentados, usamos na
dissertação dois casos vivenciados na prática psicanalítica de Freud, e, para concluir
os conceitos estudados, citamos rapidamente os casos de Elizabeth Von R. e de
Dora, duas pacientes histéricas de Freud.
Elizabeth Von R. sentia fortes dores em suas pernas ao ponto de paralisá-las
e, segundo Freud [1893], ela fora responsável por cuidar do pai doente. Em uma de
suas sessões a moça relata uma cena que a marcou, na qual seu pai estava com a
perna apoiada sobre a sua coxa direita, para que ela lhe trocasse os curativos. A
jovem não se permitia nenhuma diversão, apenas cuidar de seu pai. Ela relata
também que sua irmã se casara e, anos depois, ficara muito doente. Por insistência
da própria irmã, Elizabeth passara a fazer caminhadas com seu cunhado. Por fim,
ela ainda relata para Freud que estivera apaixonada por seu cunhado e que
desejara a morte de sua irmã, o que realmente acontecera. Ela sentia-se muito
culpada por tudo isso. Então, fica claro para Freud que a dor sentida por Elizabeth
era metáfora de um amor edipiano pelo pai e um modo de satisfação pulsional, A dor
se apresentou como um sintoma conversivo histérico, utilizando o corpo como local
de gozo. Em seus exames, nada era encontrado de errado, nada indicava que
houvesse alguma lesão, porém, após o tratamento analítico com Freud, suas dores
desaparecem.
85
Assim foi também com Dora. Sua tosse espasmódica persistente não cedia
com nenhum tratamento. Após entrar em análise com Freud, ele suspeita que a
jovem use sua garganta como local do corpo para realizar sua fantasia, e com isso,
gozar com seu sintoma. Numa só palavra, a dor representaria para ela uma cena de
satisfação sexual. Dora também era incumbida de cuidar de seu pai, e se sentiu
ameaçada quando notou que seu lugar estava sendo tomado pela senhora K.,
amiga da família e amante de seu pai. Dora precisava saber o que esta mulher tinha
para que ele desse tanta preferência a ela. Para Freud, a tosse entrara como uma
fantasia, em que Dora se colocara no lugar da senhora K tendo relações sexuais
com seu pai, do tipo de uma felação.
Esses dois casos nos mostram claramente sintomas que foram gerados por
conflitos psíquicos vivenciados por essas duas jovens, conflitos em que foram
recalcados alguns impulsos que encontraram pontos no corpo para sua satisfação,
zonas erógenas. A pulsão pode contornar o furo da representação faltosa repetidas
vezes, até encontrar a melhor maneira de se satisfazer, e isso pode acarretar em
uma repetição do sintoma.
Sem um diagnóstico laboratorial plausível, o sintoma pode permanecer
constante ou pode repetir-se indefinidamente, o que também é uma característica da
fibromialgia. Não é raro encontrarmos pacientes que tem uma dificuldade de se livrar
dos seus sintomas. Os dois casos freudianos se assemelham com o caso que
citamos no final do primeiro capítulo de nossa dissertação: da jovem senhora que foi
“substituída” pela sua irmã, a qual obteve o amor do seu pai. Nos três casos,
portanto, o desejo foi dado para outra pessoa que não a paciente. Elizabeth não
podia mais caminhar nem ficar em pé, Dora era acometida por afonia e tosse
nervosa, nossa paciente sofre de fibromialgia. Porém, como esta não foi levada à
análise, ficamos apenas com a comparação e uma forte suspeita de que sua dor
seja de origem conversiva.
Para essa repetição do sintoma, encontramos em Lacan a menção ao gozo.
O gozo traz uma satisfação pulsional, de modo que fica difícil para o sujeito querer
se livrar do sintoma, embora doloroso. Para Lacan, há sempre em torno do gozo a
referência a um objeto perdido, que é “o objeto a”. Em Escritos (1901-1981), ele traz
o gozo fálico, que é sexuado, o gozo enquanto marco do encontro do sujeito com a
86
diferença sexual, introduzida pela ordem do falo. O gozo fálico marca uma perda do
que teria sido da ordem da natureza, pois o falo, para Lacan, é sobretudo um
significante.
As histéricas vão desejar ser o significante do desejo do Outro, esse falo que
falta ao Outro. Assim, elas se fazem desejadas, mas preferem se manter como
objeto no discurso do Outro do que ter um gozo. Isso é notado quando trazem para
si o título de “coitadinhas”. O gozo do sujeito histérico vem de uma privação, mesmo
que para isso ele continue com seu sintoma. Falar do seu sofrimento é uma maneira
de gozar, é buscar ser decifrada e demandar. É sustentar o seu desejo na
insatisfação.
Assim, encontramos quadros histéricos semelhantes com os da fibromialgia.
Pacientes que se queixam sempre de sua dor e colocam em seus discursos frases
como: “Sou uma coitada, não sei o que fiz para merecer isso, sou uma sofredora!”
Algumas insistem em falar do seu problema sempre que podem, como forma de
chamar atenção para ele. Estão sempre pulando de médico em médico, quando não
ouvem o que esperam, buscam outro especialista. Cada medicamento tomado que
não alivia seu sintoma, soa como se quisessem ser decifradas, parecem querer se
livrar de seus sintomas, porém insistem em falar sempre dele.
Ao longo da pesquisa pudemos constatar que o sintoma conversivo histérico
doloroso traz para a histérica um gozo. Ela encontra no corpo um local para gozar
através da repetição, do retorno de um sintoma. A dor pode ainda persistir ajudando
a histérica a se manter insatisfeita e gozar da privação, para se manter como
significante do desejo do Outro. Quanto mais insatisfeita, mais se encontra protegida
das ameaças de sua própria fantasia, de um risco de desintegração imaginária,
fantasiada. Usamos a palavra “histérica” no feminino, em função dos casos que
trabalhamos, mas não estamos excluindo que os homens não possam ser
acometidos dos mesmos sintomas e pelas mesmas causas, ou causas equivalentes.
Abre-se a possibilidade e uma nova visão para o diagnóstico da dor da
fibromialgia, pautada no estudo da histeria por Freud e Lacan. Acreditamos que a
psicanálise, com seus próprios conceitos de sintoma conversivo, dor, corpo, pulsão
e gozo, pode contribuir no trabalho de decifração dos “enigmas” da dor da
fibromialgia. Se, no decorrer de um tratamento psicanalítico, os histéricos encontram
87
alguma forma alívio para suas dores e seus sofrimentos, por que não dar a mesma
chance aos sujeitos que sofrem de “fibromialgia”?
Fica, portanto, o convite de ampliarmos os debates sobre o tema pesquisado
que não está finalizado e ficam abertas as possibilidades para um recomeço.
88
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99
APÊNDICE A: CURSO DE EXTENSÃO: A DOR DA FIBROMIALGIA PODE TER
RELAÇÃO COM A HISTERIA?
Este curso se propõe a investigar o conceito de dor para a psicanálise, com
ênfase no estudo da histeria principalmente na obra de Sigmund Freud e Jacques
Lacan. Procurando os embasamentos necessários à articulação da histeria com a
fibromialgia. No percurso do curso, trabalharemos os conceitos psicanalíticos de
inconsciente, pulsão, sintoma e gozo.
Nosso objetivo é propor uma nova visão do diagnóstico de “dor fibromiálgica”,
salientando a contribuição da psicanálise. E tentar chegar a todos os públicos,
principalmente aos profissionais da área de saúde que estão constantemente
diagnosticando e tratando a fibromialgia. Temos por intuito dar ênfase à
subjetividade, principalmente quando o assunto é sujeito e patologia.
A ideia do curso partiu de uma vivência na prática clínica como fisioterapeuta
em um caso de fibromialgia. Após anos recebendo pacientes com dor fibromiálgica
comecei a notar que havia algo diferente naquela patologia. Notava que os
pacientes sentiam dores em pontos diferentes do corpo e que estavam
constantemente sumindo e reaparecendo no tratamento. Uma dor que marcava
locais no corpo, porém não era diagnosticada em nenhum exame laboratorial.
Certa vez recebi uma jovem senhora em meu consultório e notei que se
queixava de dores em partes diferentes do corpo. Veio com o diagnóstico médico de
fibromialgia. Como já era aula do curso de mestrado em Psicanálise, Saúde e
Sociedade, já tinha ouvido falar sobre os sintomas histéricos e passei a fazer relação
com os quadros apresentados pelos pacientes que sofriam de fibromialgia. Quando
essa jovem senhora chega para ser tratada comigo decido dar mais atenção ao que
ela tem a me dizer e passo a indagar a respeito do que estava sentindo.
No meio de nossa conversa, a paciente, começa a me contar que quando
adolescente, vivia na roça com seus pais e 6 irmãos e que todo o trabalho do lar era
dela. Após algum tempo, seu lugar é trocado com sua irmã, que passa a fazer as
tarefas do lar e a minha paciente vai para roça. De início todos achavam que foi uma
maneira do pai proteger a irmã mais velha, pois já estava ganhando formas de
mulher, porém, um dia quando minha paciente retorna para casa mais cedo se
100
depara com seu pai tendo relação sexual com sua irmã, e então, é ameaçada a não
contar nada. Sua irmã fica grávida e todos são expulsos de casa.
Temos por objetivo iniciar o curso utilizando esse caso, explicando por onde
iniciei minha suspeita. Explicar o conceito de fibromialgia e sua etiologia ainda
indefinida. Usar textos de Freud para descrever a histeria e as descobertas feitas por
ele com o estudo feito em suas pacientes histéricas. Abordaremos alguns casos de
histeria vivenciados por Freud, como o “Caso Elizabeth Von R.” e de outras
mulheres histéricas, visando focar seus sintomas histéricos, principalmente a dor, e
a (in) satisfação de mantê-la.
Nesse curso de extensão serão examinados os principais textos de Freud e
Lacan: “Estudos sobre a histeria”, “Um estudo autobiográfico, inibições, sintomas e
ansiedade, análise leiga e outros trabalhos”, “Interpretação dos sonhos”, “Três
ensaios sobre a teoria da sexualidade”,” Fantasia Histérica e sua relação com a
bissexualidade”, “Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise”, “As formações
do inconsciente”.
Local: Universidade Veiga de Almeida – Campus Cabo Frio.
Público Alvo: Estudantes e profissionais de fisioterapia, profissionais e estudantes
de enfermagem, psicologia, assistente social, médicos e áreas afins.
Programação: Exposição e discussão das obras freudiana e lacaniana que
elucidam o conceito de histeria e dor. Estudo comparativo das dores histéricas e
fibromiálgicas, através de vídeo retirado da internet e produzido pela autora.
I - Estudo teórico sobre o tema:
- Fibromialgia.
•
Será abordado esse tema no primeiro dia de curso, com duração de 3 horas.
Explicando o quadro clínico, a etiologia, incidência e tratamento proposto para a
patologia.
•
Pretendemos utilizar obras baseadas em estudos da Sociedade Brasileira de
Reumatologia e autores de renome no campo médico como: Keiserman, Hall e
Body, para abordarmos que a fibromialgia é síndrome de dor difusa e crônica,
caracterizada pela presença de dor em onze dos dezoitos pontos anatomicamente
específico. É uma doença reumatológica, acomete preferencialmente as mulheres, e
101
sua etiologia é indefinida. Não é uma síndrome progressiva, pode durar um longo
tempo ou por toda a vida, não existe uma cura definida e nem somente nenhum
dano ao corpo, somente a qualidade de vida do paciente.A falta de diagnóstico mais
concreto prejudica o cuidado mais correto do paciente. É fato que a dor existe,
entretanto, não se apresenta nenhum resultado laboratorial.
- Um caso de Fibromialgia em meu consultório.
•
Após 30 minutos de pausa, retornaremos para iniciarmos a segunda parte do
nosso estudo com duração de 3 horas.
•
Passar para os alunos presente o caso vivenciado por uma fisioterapeuta em
seu consultório com uma paciente de fibromialgia. Abrir ao público de fisioterapeutas
para que contem suas vivências com esse tipo de paciente e o que acham do
tratamento proposto pela medicina e fisioterapia na melhora do quadro patológico da
doença.
•
Passar aos alunos o Caso Dora, para fazer relação com o caso da
fibromialgia contado pela jovem senhora a sua fisioterapeuta.
- As Descobertas de Freud sobre a Histeria.
•
Segundo dia de curso, esse tema será abordado por 3 horas.
•
Será utilizado o livro do Freud Estudos sobre a histeria [1893-1895] para
relatar seus estudos sobre a histeria. O conceito de trauma e que depois é passado
para o de fantasia.
•
Três ensaios sobre a teoria da sexualidade [1905], onde Freud relata que a
criança torna-se um ser perverso-polimorfo, com pulsões emanando de zonas
erógenas.
•
O artigo Fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade [1908],
destacando a relação da fantasia com o sintoma.
- A dor à luz da Psicanálise.
•
Após intervalo de 30 minutos, os alunos retornam para aula para iniciarmos
um novo tema com duração de 2 horas.
•
Utilizando obras de Freud vamos tentar implantar uma nova forma de olhar a
dor, e como ela se comporta em um corpo histérico.
102
•
Projeto de psicologia científica [1895] Freud parte do ponto de vista médico
para considerar a dor como fenômeno de excitação e é então que ele nota que há
um além dessa dor corporal.
•
Levantar a ideia que por trás da dor que é tão insatisfatória ao sujeito, pode
ser uma maneira de satisfação para o inconsciente, uma satisfação pulsional. O
sintoma doloroso pode ser para a histérica um mecanismo defensivo inconsciente
para impedir que algum conteúdo que cause desprazer chegue à consciência.
- A (IN) Satisfação da dor Histérica.
•
Com duração de 3 horas, tentaremos fechar o curso mostrando qual o motivo
da histérica se manter com tal sofrimento, e relacionar isso ao discurso apresentado
pelo paciente que sofre de fibromialgia.
•
Utilizar Três ensaios sobre a teoria da sexualidade [1901-1905], no qual
Freud relata que o conflito entre pulsões sexuais e recalque daria origem aos
sintomas.
•
Abordar o caso da Bela Açogueira, no livro A Interpretação dos sonhos
[1900], em que Freud comenta sobre um traço diferencial nas histéricas: a
insatisfação do desejo.
•
Abordar a obra Escritos (1901-1981), para enfatizar a presença do gozo,
trazida por Lacan, na insatisfação histérica e na manutenção do seu sintoma.
•
E por fim, fazer uma relação do diagnóstico da fibromialgia com o estudo
abordado da histeria.
Lembrando que no final de cada tema abordado será aberto ao público para
perguntas e respostas.
II - Ilustração clínica sobre o tema da histeria a partir de um caso vivido por
Freud:
- O Caso Dora
- Utilização de algumas partes do filme “Freud Além da Alma”
Carga Horária: 15 horas
Certificado: O aluno que preencher de forma satisfatória os quesitos assiduidade e
aproveitamento terá direito a certificado.
103
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