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A Paixão de Cristo é racista? Devido processo legal, punição e responsabilidade
J. Angelo Corlett
A Paixão de Cristo é uma representação comovente dos últimos dias de Jesus de Nazaré, o
qual, muitos acreditam, era o Messias profetizado pelas Escrituras judaicas. A Paixão é para os filmes
sobre a morte de Jesus o que O Resgate do Soldado Ryan é para os filmes a respeito da chegada
dos aliados às praias da Normandia. Nunca antes a morte de Jesus foi dramatizada de forma tão
vívida. Nunca a tortura pela qual ele passou foi mostrada aos espectadores para que a entendessem,
por mais desconfortável que isso seja.
O filme levanta várias questões éticas relacionadas a suicídio, traição, liberdade de
expressão religiosa, separação política entre Igreja e Estado, racismo, devido processo legal,
responsabilidade e punição. Neste capítulo, enfoco principalmente as questões pertinentes aos
quatro últimos itens.
RAClSMO E A PAlXÃO DE CRISTO
A Paixão de Cristo é anti-semita e racista? Muitos acham que sim, talvez motivados pela
Idéia de que nenhum indivíduo judeu seria capaz de fazer um grande mal, ou pela noção de que
qualquer coisa que mostre algum judeu sob um ângulo negativo é anti-semita, ou ainda por um medo
de que qualquer coisa que se assemelhe de longe ao anti-semitismo possa desencadear uma fúria
contra os judeus que se equipararia ao genocídio de Hitler, ou ainda pela atitude de que os judeus
são um povo divinamente escolhido e - em seu relacionamento especial com Deus - nunca deveriam
ser tratados "injustamente", mesmo nas obras de arte, ou por alguma outra visão implausível. Mas
esse filme seria de fato racista em sua representação de Jesus? Entendo do que o que normalmente
querem dizer os espectadores que fazem essa pergunta é se os judeus são ou não mostrados no
filme como os "responsáveis” pela morte de Jesus, que, segundo qualquer versão plausível, foi
injusta e maligna.
Suponhamos, para um debate, que as Escrituras cristãs (mais notadamente os Evangelhos
de Mateus, Marcos, Lucas e João) estejam relativamente corretas na narrativa da vida e da morte de
Jesus. E consideremos também que a maior parte do que é visto no filme seja relativamente fiel a
esses registros. Ainda poderíamos discutir alguns detalhes, como, por exemplo, se os cravos
pregados nas mãos de Jesus (e não nos punhos) para a crucificação são um fato historicamente
correto, ou se Satanás realmente apareceu, como vemos no filme, ou se algumas mulheres são ou
não exageradamente fracas, ou se as línguas faladas pelos personagens no filme combinam
realmente com as verdadeiras línguas da época, e assim por diante. Mas, de um modo geral, o filme
parece se encaixar bem com uma interpretação comum, mas sensível, das Escrituras cristãs. Esses
outros detalhes, embora de interesse para aqueles que têm sérias preocupações quanto à correção
histórica, não têm grande importância para uma avaliação ética de algumas das principais questões
levantadas pelo filme. O enfoque em tais detalhes funciona como uma cortina de fumaça que cobre
as verdadeiras questões éticas levantadas pelo filme em sua tentativa de contar a história da morte
de Jesus.
Voltemos, então, à pergunta original: A Paixão de Cristo é anti- semita e racista? Há pelo
menos duas perguntas importantes a considerar aqui. A primeira é se o conteúdo ou a mensagem do
filme é anti-semita e racista. Nesse caso, estaríamos perguntando se, por exemplo, o diretor ou os
roteiristas do filme pretendiam enviar uma mensagem anti-semita aos espectadores, por qualquer que
fosse o motivo. Não estou em posição de julgar essa questão, pois não conheço as intenções ou as
posições deles. Assim, deixo que outros explorem esse ponto e, espero, com honestidade.
A segunda pergunta é se o filme poderia inflamar as paixões de algumas pessoas que
odeiam tanto o sumo sacerdote judeu (Caifás) por sua participação na violenta morte de Jesus a
ponto de, inconscientemente, generalizarem seu ódio a todos os judeus? Isso é uma possibilidade,
sem dúvida. As obras de arte tipicamente envolvem os observadores, levando-os a pensar
profundamente no tema apresentado por elas, mas às vezes as emoções são despertadas a tal ponto
que deixam a racionalidade para trás. Entretanto, a probabilidade de que isso aconteça não é motivo
suficiente para pensarmos que o filme em si (intencionalmente ou não) mostra todos os judeus como
pessoas negativas ou injustas. Na verdade, o filme mostra alguns líderes religiosos judeus
discordando veementemente da maioria (incluindo Caifás), alegando que Jesus era inocente das
acusações de blasfêmia e de destruir o Templo e exigindo que o deixassem em paz.
Igualmente importante é a exibição, no filme, de várias reações diferentes a Jesus, enquanto
ele era forçado a carregar a cruz pelas ruas de Jerusalém, onde alguns observadores caçoavam dele
e outros o saudavam. Na verdade, um dos heróis do filme é Simão Cireneu, o humilde judeu que o
ajudou a carregar a cruz, quando o próprio Jesus já não agüentava mais. Ele também defendeu
Jesus, repreendendo corajosamente os soldados romanos que abusavam dele verbal e fisicamente
ao longo do caminho. Tampouco podemos esquecer que os personagens retratados de maneira mais
positiva no filme (Maria, a mãe de Jesus, e o próprio Jesus) eram judeus.
Assim, nota-se que há uma espécie de equilíbrio no modo como os judeus são retratados no
filme. Alguns, dos líderes no Sinédrio e seus partidários, bem como os brutais guardas do Templo,
são mostrados como indivíduos realmente muito maus, enquanto outros membros do Sinédrio e
muitos judeus do povo apóiam Jesus. Se os Evangelhos dizem a verdade nesse sentido, os primeiros
eram maldosos enquanto os últimos eram bons, moralmente falando.
Não há nenhum anti-semitismo nesse filme detectável por uma mente aberta e um
entendimento plausível da natureza e da função do racismo. Hoje, os judeus deveriam sentir um
merecido orgulho pelo fato de muitos de seus antepassados terem sido dissidentes quanto ao
tratamento antiético dado a Jesus, enquanto nós, por outro lado, não devemos condenar todos os
judeus pelo que somente alguns covardes fizeram. Os males cometidos por Caifás e seu bando não
aconteceram porque eles eram judeus, mas por sua falta de caráter moral. Como A Paixão implica, os
judeus, como um grupo, não devem ser responsabilizados pela morte de Jesus. Os culpados são
aqueles indivíduos específicos que mais se envolveram com sua injusta execução.
Se A Paixão mostra anti-semitismo e racismo, talvez seja em sua representação do que
alguns chamam de ódio do judeu por si mesmo, no sentido de que alguns dos judeus mais influentes
daquela época e local tentaram destruir um dos maiores libertadores (e judeu) da história humana. No
entanto, seriam necessários mais argumentos e análises para definir essa afirmação.
JESUS TEVE O DEVIDO PROCESSO LEGAL?
Jesus recebe apenas uma farsa do que seria um processo legal no filme. Os sumos
sacerdotes judeus mais poderosos tramaram contra ele e realizaram uma "audiência" própria para
ouvir o profeta supostamente "blasfemo" diante do Sinédrio. Jesus foi acusado de destruir o Templo e
afirmar falsamente que era o Messias profetizado nas Escrituras judaicas. Em vez de sujar as
próprias mãos com sangue, a maioria dos sumos sacerdotes solicitou que os representantes do
governo romano o considerassem culpado e o condenassem à morte. Eles acabaram conseguindo a
condenação de Jesus, embora os romanos não encontrassem nenhum sinal da culpa nele. E quando
os líderes judeus e seus partidários tiveram a escolha de libertar Jesus ou Barrabás, um assassino
condenado, optaram pelo segundo.
Talvez tenha sido a pregação dura de Jesus a respeito da hipocrisia moral daqueles líderes
judeus ("Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!" - Mateus 23:23) que os fez desprezá-lo. Talvez a
vida e os ensinamentos de Jesus às multidões ameaçassem todo o modo de vida deles. Talvez tenha
sido sua purificação do Templo, um desafio flagrante à autoridade dos líderes religiosos judeus.
Talvez eles temessem que Jesus iniciasse uma revolta violenta e fútil contra os romanos. Qualquer
que fosse o motivo, os líderes judeus são vividamente retratados odiando-o a ponto de exigir sua
crucificação. E isso por causa de sua pregação de uma mensagem religiosa que, em certo sentido,
era uma antítese à vida, à mensagem e à estrutura de poder das autoridades religiosas judaicas da
época.
Mesmo que as palavras de Jesus inflamassem os ânimos de alguns a ponto de serem
incitados (talvez não intencionalmente) a derrubar o governo romano ou até a liderança religiosa
judaica em Jerusalém, não parece claro que a punição que lhe foi infligida fosse justa ou proporcional
ao dano possivelmente causado por suas palavras. Alguns estudiosos argumentam que Jesus fora de
fato um revolucionário, e assim era visto pelas autoridades religiosas. Isso explica, afirmam, por que a
e resposta de Jesus à pergunta de Pilatos, "És tu o rei dos judeus?" (Marcos 15:2; Mateus 27:11; e
Lucas 23:3), parecia um tanto evasiva: "Tu o dizes" (Marcos 15:3) ou "Vem de ti mesmo esta
pergunta ou to disseram outros a meu respeito?" (João 18:34). Afinal de contas, um dos seguidores
de Jesus, Simão, era membro de uma seita chamada "os Zelotes", que defendia a resistência violenta
à dominação romana (Lucas 6:15; Atos 1:13). Realmente, se os romanos viam em Jesus um
revolucionário potencial, Pilatos deve ter sido influenciado pelas autoridades religiosas judaicas a
silenciá-lo. Mas mesmo que as autoridades romanas e judaicas vissem Jesus como uma ameaça ao
seu poder, isso não justifica condená-lo à morte e de maneira tão violenta!
Aqueles dentre nós que valorizam a liberdade de consciência e de expressão, protegida pela
Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, consideram o tratamento dado a Jesus nada
menos que moralmente blasfemo e malévolo. É justamente por isso que a liberdade de expressão
deve ser protegida por uma separação total de religião e Estado. Lembremo-nos de que o próprio
Jesus teria dito que as pessoas deveriam dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.
Como se vê em A Paixão, essa instrução teria permitido ao governo romano que mandasse os lideres
religiosos judeus para o inferno. Pois qualquer religião que não consiga lidar com a liberdade de
expressão de seus membros adultos não é uma religião que valha a pena seguir. Quando o devido
processo legal e os direitos humanos fundamentais são tão flagrantemente violados, como no caso
de Jesus, é hora de questionar a própria moralidade dos indivíduos e das instituições diretamente
responsáveis pelo mal resultante. Nosso argumento seria o mesmo para Moisés, Maomé ou Bertrand
Russell, se eles fossem tratados do modo como Jesus foi no filme de Gibson.
Devido processo legal e liberdade de expressão são corretamente considerados direitos
humanos básicos, e a violação deles - como o fizeram os sumos sacerdotes em questão – não pode
ser permitida. Moralmente falando, somente podemos esperar que exista um Deus justo e honesto e
que os maiores responsáveis pela injusta morte de Jesus recebam precisamente o tratamento que
Jesus recebeu, mas para a eternidade.
Jesus teve o devido processo legal? Dispomos de poucas informações a respeito dos
procedimentos criminais judaicos na época de Jesus. Mas os pesquisadores indicam que muitos
procedimentos existentes dois séculos mais tarde não foram seguidos no julgamento de Jesus
perante o Sinédrio. Certamente, o julgamento em si foi manipulado por forças do mal que, nesse
caso, levaram à morte uma pessoa inocente. Além disso, o devido processo foi claramente violado
quando, como se vê no filme, Jesus foi surrado pelos guardas do Templo imediatamente após sua
prisão e a caminho da audiência perante o Sinédrio. Entretanto, ainda que Jesus tenha violado
alguma norma religiosa, isso não o tornaria culpado de qualquer erro moral - obviamente não seria a
mesma coisa, pois ele poderia muito bem estar do lado da verdade ao protestar contra uma norma
religiosa injusta. A prova não poderia condenar devidamente Jesus nem mesmo com bases
religiosas; assim, uma política que permitia aos representantes do governo romano libertar um
condenado por ano deu o direito aos detratores de Jesus de trocar sua morte pela liberdade de um
assassino. Justiça legal? Talvez. Ética? Absolutamente não! A trama do sumo sacerdote Caifás
contra Jesus é um caso de religião convertida para o mal. Nenhum judeu de respeito hoje em dia
aprovaria esse mal, não permitindo que pensassem que ele o aprovaria.
Em suma, de acordo com as escrituras cristãs, alguns sumos sacerdotes judeus foram os
principais responsáveis pela morte de Jesus. Se isso for verdade, e se Jesus era de fato inocente das
acusações feitas contra ele, então os líderes judeus em questão carregam a responsabilidade pela
morte de uma pessoa inocente, e são, portanto, culpados pelo mal. O que deixa mais óbvio ainda que
os líderes religiosos judeus de hoje devem se desassociar desse mal causado por alguns de seus
antepassados religiosos.
Não quero dizer com isso que "os judeus devem pedir desculpas por matar Jesus". As
verdadeiras apologias somente podem ser feitas por aqueles que cometem um erro ou por quem os
representa. E só podem ser verdadeiramente aceitas pelas vítimas dos que erraram ou por aqueles
que representam as vítimas. Os judeus só teriam de pedir desculpas aos cristãos se, como um todo,
ainda endossassem a atitude dos sumos sacerdotes que foram responsáveis pela morte de Jesus.
Por isso, a questão da dissociação é importante. Uma incapacidade dos judeus contemporâneos de
se desassociar do que aconteceu a Jesus faria muitas pessoas pensar, corretamente ou não, que os
judeus da atualidade são partidários do mal moral de ter condenado Jesus à morte injustamente. Em
tal caso, os judeus de hoje não estariam se desculpando pela morte de Jesus causada por alguns de
seus antepassados, pois não podem conscientemente se desculpar por algo que não fizeram. Eles
estariam, isto sim, se desassociando daquele mal para eliminar qualquer dúvida quanto ao fato de
apoiarem" ou não o que foi feito a Jesus por Caifás e seu bando de covardes. Somos freqüentemente
responsáveis por nossa omissão, ou falha, em agir, não apenas por nossas ações e tentativas.
Temos o dever de desaprovar, simbolicamente ou de outra maneira, todos os males, se não por outro
motivo, pelo menos para mostrar ao mundo que somos contra a injustiça, sempre que ela mostrar seu
feio rosto. Tal atitude também serve como um meio e afirmarmos nosso apoio à pessoa que foi
tratada injustamente, além de demonstrarmos nossa solidariedade com as comunidades com as
quais a vítima se identifica.
A PUNIÇÃO DE JESUS “CORRESPONDEU AO CRIME”?
Chegamos à questão da punição. A Paixão de Cristo mostra a morte de Jesus de uma
maneira extrema e graficamente dolorosa. A morte torturante e sangrenta de Jesus implicaria, de uma
forma ou de outra, algo a respeito da justificação da pena -particularmente capital? A brutalidade que
Jesus sofreu sugeriria que tal punição é desumana e nunca deveria ser aplicada por uma sociedade
relativamente justa?
Um princípio da pena poderia ser o de que aqueles que punem os outros injustamente
deveriam ser forçados a sofrer a mesma punição. Isso implicaria que muitos dos sumos sacerdotes
judeus deveriam ser forçados a sofrer as mais horrendas formas de tratamento desumano. Talvez
exista um Deus suficientemente justo que faça desse sofrimento a realidade deles em uma vida após
a morte. Consideremos Adolf Hitler, que não viveu para ser julgado e, se condenado, teria sofrido o
que merecia por seus crimes contra a humanidade. Alguns facínoras parecem escapar da justiça
nesta vida. Mas se existe um modo de sofrer nas mãos de um Deus justo, eles talvez recebam o que
merecem, afinal de contas, Eu digo "talvez", diante da possibilidade de Deus erroneamente perdoar
aqueles que merecem uma dura pena. Nesse caso, o universo estaria melhor sem um Deus. Não há
lugar em um mundo justo (ou um mundo no qual muitos estão tentando ser justos) para um Deus
injusto.
Mas a morte injusta de Jesus não implica que a punição em si, ou a severidade em sua
aplicação, seja necessariamente injusta. A pena de Jesus não foi errada por ser dura ou por culminar
em sua morte. Ela foi errada porque Jesus, pelo que saibamos, era completamente inocente de
qualquer coisa que justificasse essa forma de punição ou qualquer outra. Não é preciso ser um
cristão ávido para acreditar nisso. A tortura e a morte de Jesus não implicam que uma dura pena ou
condenação à morte sejam injustas, a menos que impostas a alguém que não as mereça. Pois existe
um princípio, o Princípio da Punição Injusta, sugerindo que aqueles que punem os outros
injustamente (ou mandam ser punidos injustamente) devem sofrer o mesmo mal que impuseram aos
inocentes. No caso em que alguém sofra tortura (como a crucificação) ou até uma morte injusta, os
maiores responsáveis pela pena injusta devem ser punidos da mesma maneira. Esse princípio, por
sua vez, pressupõe um princípio de punição proporcional, além de princípios de responsabilidade por
erros danosos que constituem um conceito plausível de merecimento. Como sabemos o que um
indivíduo merece? Calculando, embora de maneira imprecisa, sua responsabilidade por prejudicar os
outros erroneamente e o grau de sofrimento que lhes impôs. Isso remedia o risco de punir demais ou
de menos um facínora.
Em suma, mesmo que a blasfêmia fosse de fato moralmente erra. da, e que Jesus fosse um
blasfemo, que direito moral alguém teria - incluindo os líderes religiosos da comunidade judaica - de
puni-lo e ainda mais condená-lo à morte? O máximo permitido pela razão seria a censura na
comunidade religiosa judaica a que Jesus pertencia, ou talvez uma expulsão ou até uma multa do
Templo. Mas a punição administrada a Jesus pelos soldados romanos, insistida veementemente por
Caifás e suas cortes do mal, foi uma violação inquestionável do princípio moral da proporcionalidade
na punição. Aparentemente, embora as normas religiosas judaicas permitissem o apedrejamento até
a morte aos blasfemos, Caifás era covarde demais para matar Jesus ou mandar membros de sua
comunidade matá-Io. Isso, porém, é compreensível, uma vez que geralmente são os indivíduos mais
hipócritas que tentam esconder sua malignidade, mandando outros executar seus atos nefastos.
CONTRA A PENA DE MORTE?
A execução injusta de Jesus pode servir de argumento contra a moralidade da pena de morte
em si, como pensam algumas pessoas? A resposta a essa pergunta é "não". O abuso não nega o uso
devido. Mais especificamente, a punição injusta de Jesus (ou de qualquer pessoa, aliás) nunca depõe
moralmente contra a punição devida de pessoas que merecem ser punidas. A execução de Jesus foi
injusta porque ele era inocente de ter infligido equivocadamente qualquer dano aos outros; ele não
merecia ser punido. O fato de a pena capital ter sido injustamente administrada a Jesus de maneira
alguma implica que a pena de morte em si é moralmente justa. Sem dúvida, os líderes religiosos
judeus responsáveis pela punição injusta de Jesus mereciam a mais dolorosa e sangrenta forma de
morte, e eles servem de contra-exemplos para a afirmação simplista de que a pena capital é, em si,
moralmente errada. Eles, junto a Hitler, Andrew Jackson e muitos outros, são alguns dos seres
humanos mais malévolos de que se há registro.
Resumindo, A Paixão de Cristo não é anti-semita ou racista de nenhuma maneira
reconhecível. Mas posso compreender como um espectador que não presta atenção aos detalhes do
filme poderia erroneamente culpar todos os judeus pela morte injusta de Jesus. Assim como não se
pode culpar os artistas pela interpretação errada de sua obra, tampouco esse filme e seu diretor
devem ser responsabilizados por qualquer anti-semitismo e racismo resultantes da falta de
inteligência do público. Jesus recebeu o devido processo legal, pelo menos até certo ponto; embora
esse processo fosse violado, no sentido de ele ter sido considerado culpado até que se provasse
inocente. As pessoas que são presas, seja Jesus na antiga Jerusalém ou os afro-americanos nos
Estados Unidos hoje em dia, deveriam sempre ser tratadas como inocentes até que, por meio do
devido processo legal, comprovasse-se sua culpa sem grande dúvida (tribunais criminais) ou pela
preponderância da prova (tribunais civis).
E, por fim, o abuso sofrido por Jesus depõe contra a pena capital? Não, a não ser que o
modo como ele foi tratado, embora injusto, deponha contra várias outras formas de punição também.
Não há falha no modo como Jesus foi punido após tão fraco processo legal. Por outro lado, a culpa
deve ser atribuídas àqueles que o puniram injustamente. Uma lição que aprendemos reconsiderando
a vida e a morte de Jesus, como faz A Paixão de Cristo, é que a religião em si não apresenta a mais

N. do T.: Reasonable doubt: grande dúvida (capaz de justificar a absolvição do réu). Dicionário jurídicio – português-inglês,
inglês-português, 7ª edição © 1998 Maria Chaves de Mello – Elfos Editora Ltda.
alta forma de verdade e justiça. A razão, e só a razão, é capaz de corrigir aquelas formas de religião
que necessitam urgentemente de reforma1.
FONTES
CORLETT, J. Angelo. Race, Racism, and Reparations, Ithaca: Cornell University Press, 2003,
_____. Responsibility and Punishment, 2ª ed. Dordrecht: KIuwer, 2004.
FEINBERG, John. Doing and Deserving. Princeton: Princeton
University Press, 1970.
____. Rights, Justice, and the Bounds of Liberty. Princeton: Princeton University Press, 1980.
____. Freedom and Fulfillment. Princeton: Princeton University Press, 1992.
____. Problems at the Roots of Law. Oxford: Oxford University Press, 2003.
PERGUNTAS PARA DISCUSSÃO
1. Qualquer crítica de uma pessoa é racista? O que é racismo?
2. O que realmente é anti-semitismo?
3. Quais direitos devem ser mantidos durante o devido processo legal?
4. Podemos sempre confiar na liderança religiosa e política? Por que sim ou por que não?
5. A imposição da pena de morte pode alguma vez ser a decisão certa do ponto de vista moral?
A paixão de Cristo. Mel Gibson e a Filosofia. São Paulo, Madras, 2004, pp. 135-144.
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Este ensaio é dedicado a meu amigo e mentor, Joel Finberg, que me ensinou a raciocinar de maneira aberta e sem medo de
encontrar a verdade e o erro, onde quer que estejam.
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