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Propaganda
CharlieHebdo
0 corajoso
jornal francês
que insiste em
satirizaro isLão
ESPECIAL PAGS. 24
E
25
mtVOVOC&ÇÍIO» O jornal francês é perito em polémica. Desde o seu nascimento que
a 'Charlie Hebdo'já brindou muçulmanos, judeus e cristãos com a sua sátira. E também
não deixou escapar políticos e grandes acontecimentos internacionais. A mais recente
edição, com uma biografia do profeta Maomé, voltou a inflamar a opinião pública
'Charlie'
fábrica
ao
ANA FILIPE SILVEIRA
tão colocada sempre que o jornal
semanal francês Charlie Hebdo chega às bancas. Isto é como quem diz
todas as quartas-feiras. Desde o seu
nascimento, há mais de 40 anos,
que a publicação conhecida pela
sua ironia e agressividade tem sido
protagonista no caloroso debate
que quer definir a fronteira entre a
liberdade de expressão e a provocação ofensiva. É o caso da edição veiculada há três dias, composta por
uma biografia em BD do profeta
Maomé, que voltou a incendiar a
opinião pública
e teve consequên-
cias... esperadas.
Apesar de o diretor e ilustrador
Stephane Charbonnier ter afirmado
que este número, com a manchete
"A Vida de Maomé", é um trabalho
educativo feito a partir de uma investigação de um sociólogo francotunisino
"uma biografia autorizada pelo Islão, uma vez que foi editada por muçulmanos" -, o semanário
não se livrou de, mais uma vez, ver
invadida a sua página onlinepor
-
hackers, que sobrecarregaram
o ser-
vidor e impediram os internautas de
aceder à mesma. Mas este não foi o
epílogo mais feroz dos que já envolveram a CharlieHebdo.
Em fevereiro de 2006, o jornal
reproduziu caricaturas de Maomé
sátiras
lslão
no
dinamarquês
Organizações em
França, onde vivem cerca de 4,5
milhões de muçulmanos, levaram
a publicação a tribunal. A Charlie
Hebdo saiu inocente do processo,
que teve François Hollande como
testemunha de defesa.
Já em setembro de 201 1 a revista
publicou Maomé em poses pornográficas, em resposta aos protestos
em países muçulmanos contra o filme norte-americano Innocenceof
Muslims, considerado insultuoso
para o profeta. Nessa altura, além do
szfepirateado, Charbonnier recebeu
ameaças de morte e tem desde então proteção policial.
Mas nesse ano as consequências
foram mais além. Receando represálias, o Quai d'Orsay, Ministério de
Relações Exteriores da França, reforçou o dispositivo de segurança de
embaixadas e escolas francesas fora
do país. Na Tunísia, as aulas foram
mesmo suspensas nos dias seguintes à edição, cuja capa mostrava um
judeu ortodoxo a empurrar uma cadeira de rodas na qual está sentado
um homem de turbante.
Dois meses depois a revista voltava à carga. Inspirados pela vitória do
partido islamitaEnnhada na Tunísia
e pela proclamação da lei islâmica
na Líbia, a capa da revista surge nas
bancas com uma imagem de Mao-
publicadas
Coragem ou loucura? É esta a ques-
de
Jyllands-Posten.
mé e a legenda "Cem chicotadas para quem não morrer de riso". Essa
publicação, chamada de "Charia
Hebdo" {charia é o nome dado à lei
islâmica] resultou num incêndio de
origem criminosa que arrasou as
instalações do jornal em Paris. À
época, o diretor frisou que "não se
admite poder-se falar de tudo em
França menos do Islão".
Foram já várias as vezes que
Charbonnier, tratado por "Charb",
admitiu que as caricaturas podem
gerar polémica, mas defendeu semcriar discuspre asuaposição.Aliás,
são é quase a razão de sobrevivência
da Charlie Hebdo. Apesar das sátiras
ao mundo muçulmano serem as
mais comentadas, o jornal jábrin-
dou o judaísmo e o cristianismo
com as suas brincadeiras, bem como não deixou escapar as principais
figuras políticas francesas nem os
mundiais.
grandes acontecimentos
Como a recente profecia do fim do
mundo, a 2 1 de dezembro, que gerou um "especial apocalipse", ou a
morte de Michael Jackson, que em
julho de 2009 teve direito a capa com
o título "Finalmente branco".
Mesmo sabendo que provocam a
ira, e independemente do "alvo" que
escolhem, o objetivo da Charlie
Hebdo é sempre o mesmo. "Se começamos a questionar o direito de
caricaturar ou não Maomé, se é pe-
rigoso ou não fazê-10, a questão seguinte será se poderemos representar os muçulmanos no jornal. De-
pois vamos perguntar se podemos
mostrar seres humanos, e por aí em
diante. No final, não mostraremos
mais nada. Neste caso, a minoria de
extremistas que agitam o mundo e a
França terão vencido", justificou
Stephane Charbonnier. E acrescentou: "Lamento pelas pessoas que se
sentem chocadas quando lêem o
jornal. Se assim é, que poupem 2,50
euros e não o leiam. É só isso que tenho a dizer", atirou.
Um jornal morreu!
Viva o jornal seguinte!
nascimento Uma catástrofe numa discoteca
e a morte de De Gaulle foram as causas
do aparecimento do jornal mais corrosivo
e provocador
da imprensa francesa
No dia em que pela primeira vez foi publicado, em
1970, Charlie Hebdo trazia sob o título esta frase: "O
jornal que vive da infelicidade dos outros". Os outros
era o Hara-Kiri, o semanário satírico que acabava de
ser proibido... O Hara-Kiri classificava-se
a si próCharlie
Hebdo
como
e
e
o
Mau",
"Estúpido
prio
prometia ainda ser
mais. A substituição
de um por outro é
um dos episódios
mais famosos da cul-
tura under-ground
francesa, mãe e filha
do Maio de 1968.
Tudo começou com
uma tragédia, em novembro de 1970, numa
discoteca em Saint Laurent dv Pont, vilória dos
arredores de Grenoble.
Tinham morrido dezenas de jovens num incêndio, com as portas da
discoteca fechadas para
que ninguém fugisse sem pagar. . . Todos os jornais
franceses dedicaram as suas primeiras páginas à catástrofe e em quase todos, a manchete: "Baile Trágico
em Saint Laurent dv Pont: 146 mortos!" Nessa semana, na aldeia onde morava, Colombey-les-Deux Églises, morreu Charles De Gaulle, general e libertador,
ex- Presidente e pai do regime de então em França. O
Hara-Kirisaiu com uma só frase na primeira página:
"Baile Trágico em Colombey: 1 morto!" O Governo
gaullista vingou- se e proibiu o semanário satírico. E
foi assim, aproveitando a infelicidade do Hara-Kiri,
que o Charlie-Hebdo
fruto da
nasceu,
mesma equipa e do
mesmo espírito corrosivo.
O humor do Hara-Kiri e do Charlie-
Hebdo foi sempre assim, provocador, não
poupando nem os
seus. Quando o mais
cáustico dos seus deReiser,
senhadores,
morreu, os colegas levaram uma coroa ao
enterro. E esta dizia:
"Não se esqueçam, o
jornal já está nos quiosques!"
Este semanário francês também
faz cartoons políticos, mas são os
religiosos que geram mais polémica. A religião exalta sempre mais
os ânimos do que a política?
É uma reação epidérmica. O que se
passa é que há casos de pessoas que
não sabem ler desenhos sobre a re-
ligião e que os interpretam literalmente. Em Portugal aconteceu com
o cartoon do António
[Moreira
Antunes] do Papa João Paulo II com
um preservativo enfiado no nariz.
Alguns católicos viram apenas um
preservativo no nariz do Papa. Isto
é uma interpretação
fraca do que
estava ali e a maioria das pessoas
nem se preocupa em ir mais além.
No caso do jornal francês, a verdade é que o mundo muçulmano está
em polvorosa e não será exatamente por causa de cartoons. Isso é uma
desculpa. Tal como aconteceu com
o
l\
fJVOVOCCIÇCIO permanente feita pelo semanário
'Charlie Hebdo' é para José Bandeira um aviso para questões que
estão por resolver. O cartoonista admite haver limites na sátira,
mas também diz ave, vor vezes, é bom ultrapassá-los
"É preciso arriscar quando
há problemas para resolver"
O Charlie Hebdo publicou na
quarta-feira mais uma sátira religiosa, isto depois de as suas instalações já terem sido incendiadas e
o diretor andar com proteção policial. Chama-se a isto coragem ou
loucura?
A coragem é um bocadinho loucura. O que se passa com o Charlie
Hebdo é que quando se diz que não
é permitido representar o profeta
Maomé, e alguém o faz e ainda por
cima em contexto humorístico, há
provocação, mas esta serve também
para avisar "eu estou a provocar
aeora Dará ave amanhã não venham
vocês a sofrer as consequências
desta mordaça".
Há limite para a sátira?
Os limites existem, mas são autoimpostos em cada momento. Os que
existem às duas da manhã num
canal de televisão por cabo, por
exemplo, não são os mesmos que
são impostos às duas da tarde num
canal generalista. Depois, mesmo
existindo limites, isso não quer dizer
que é mau ultrapassá-los. De vez em
quando há que ir até à zona de ninguém. É preciso arriscar quando há
problemas para resolver, para as pessnas olharem nara essa znna.
dinamarquês
Jyllands-Posten
[2006] , foi uma desculpa. Podia ter
sido com uma peça de teatro, com
uma obra de arte contemporânea.
Quanto mais enraizadas as pessoas
têm as suas convicções religiosas de
uma forma dogmática mais elas reagem a estas coisas.
O José autocensura-se nos seus
cartoons?
Não, mas isso é algo que também
se aprende. A maior parte dos maus
excessos, e digo maus porque também existem os bons, cometem-se
pela falta de experiência. O que me
acontece é que há pessoas, políticos, para as quais já não tenho paciência e sobre as quais já nem
tenho vontade de fazer nada. Mas
não me censuro por medo nem
penso se eles vão sentir-se com isto
ou aquilo.
Já alguma vez foi ameaçado por
ter satirizado uma figura?
Sempre a posteriori, nunca diretamente comigo. Sei que em uma ou
outra ocasião leitores telefonaram
para o DN e para os outros jornais
com os quais trabalhei e queixaram -se. Depois o diretor ligava a dizer-me. Mas isto acontece com pessoas
pouco inteligentes, que não percebem linguagem metafórica.
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