Globalização Financeira, Energia e Petróleo

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Revista e Agora
16/02/2011
Economia
Online
Globalização Financeira, Energia e Petróleo
O Professor Carlos Lessa aborda temas como a ofensiva das ideias liberais na economia a
partir dos anos 90, a rápida obsolescência dos bens de consumo, o ocaso da economia
intensiva em carbono e o debate em torno da extração do Pré-Sal. Como de costume,
Lessa defende teses controversas como a de que o Banco Central brasileiro deveria
compor suas reservas em petróleo.
GLOBALIZAÇÃO: VITÓRIA DO LIBERALISMO?
Os ideais nacional-desenvolvimentistas foram solapados pela globalização?
Isso é uma conversa. Vamos colocar da seguinte maneira, quase que brincando: Fora do
Estado não há salvação, mas não quer dizer que o Estado seja a salvação. Enquanto o
sistema funciona bem, segundo seus termos, ele é suficientemente arrogante para
insistir nas suas teses, mas quando se enfrenta uma crise sai correndo e chama pelo
Estado. A verdade é que a globalização já demonstrou os limites de um processo que
vive de acumulação financeira fora dos controles do Estado.
Mas como o Estado Nacional pode agir, com autonomia, num mundo em que
PIB financeiro suplanta em 5:1 o PIB real?
Eu não sei se o PIB financeiro suplanta de 5 para 1 o PIB real, mas o que eu posso
afirmar é que sobre um solo firme – a produção – onde o crédito a tornar possível o
funcionamento desta produção é indispensável, e isso é um território firme, a
humanidade construiu um castelo de cartas absolutamente colossal e chamou essa
riqueza mobiliária de “acumulação financeira”, mas ela é pó. Ela vira pó com uma
velocidade brutal. Aliás, o que as bolhas mostram é que ela pode virar pó. Essa é
exatamente a fragilidade do castelo de cartas, que quanto mais alto, mais fácil é cair um
pedaço dele. A situação no mundo hoje é que, mais ou menos, estão defendidas algumas
economias que conseguiram utilizar seu Estado para se defender, mas não para abrir
novos caminhos. A questão é a seguinte: eu não sei se o PIB financeiro tem essa
proporção em relação ao PIB real, que você falou. Na minha opinião não tem, mas o que
eu sei é que a riqueza financeira – ou a riqueza financeirizada - supera em muito os
ativos reais produzidos. Quanto a isso não há dúvida. Agora, eu não sei se esta é apenas
um disfunção da globalização ou é, de certa forma, a explicitação de que o modelo
segundo a qual a economia internacional está organizada chegou ao seu limite e que vai
ser necessário o equivalente a uma nova revolução industrial. Eu tô cada vez mais
inclinado a acreditar que o mundo chegou a uma hipótese de crescimento próximo a
zero, por uma razão extremamente simples: mantida a liberdade de preços, mantida a
liberdade de movimento de capitais, mantida a liberdade cambial lato sensu, mantidos os
pilares de uma visão globalizante não há como impedir que haja especulação com os
ativos reais. E nesse contexto o ativo real mais importante de todos chama-se petróleo.
Qualquer retomada do crescimento da economia mundial empurra o preço do petróleo
acima dos 100 dólares por barril. Não dá para crescer com uma inflação desta nos
custos.
“Quando as Alemanhas se unificaram, a Alemanha Ocidental fechou uma fábrica de
lâmpadas, do lado comunista, que duravam anos a fio. Por que foi fechada a fábrica?
Porque a lógica é converter o durável em não-durável.”
ECONOMIA VERDE E “NOVA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL”
Essa nova revolução industrial seria a economia de baixo carbono?
Pois é...a economia de baixo carbono seria a resposta, mas esta economia de baixo
carbono precisa estar acompanhada da ideia de economizar. Contudo, esta ideia de
economizar, de não desperdiçar vai contra todo o modo pela qual a tecnologia se
desenvolve e é incorporada. Um exemplo: quando as Alemanhas se unificaram, a
Alemanha Ocidental fechou uma fábrica de lâmpadas, do lado comunista, que duravam
anos a fio. Por que foi fechada a fábrica? Porque a lógica é converter o durável em nãodurável. As tecnologias que são incorporadas pelas empresas na Segunda Revolução
Industrial são as tecnologias que cancelam a durabilidade das coisas, e como se cancela?
Quer pela escolha da rota tecnológica de produtos e processos, quer pelo manejo
psicológico das pessoas, fazendo com que elas considerem que tudo que é antigo em
princípio é ruim, que tudo que foi usado está contaminado porque foi usado. Vou contar
uma história que eu acho muito relevante: o rico do século XIX era colecionador. Era
colecionador no sentido de que não jogava fora as coisas. Ele poderia, perfeitamente, ter
um guarda-roupa com trezentos ternos e lá estava provavelmente o primeiro terno da
vida dele. Ele não jogava fora e tinha muito mais ternos do que o outro que só tinha um
ou mesmo nenhum. Hoje, o suprasumo de ser rico é poder usar a roupa uma vez, jogá-la
fora e substituir por outra. Aliás, é o que a televisão tenta ensinar com os caras de
sucesso vestindo paletós diferentes em cada programa. A ideia do colecionador foi
substituída pela do consumidor estuprador do objeto. Ele violenta a embalagem e estréia
a coisa. Essa estréia é tão importante que o automóvel que sai da agência, parado na
frente dela com anuncio colocado para vendê-lo tem um deságio de 20%, porque não é
mais “zero quilômetro”. Alguém virou a chave antes, estuprando o objeto. Já é de
segunda mão. A ideia de trocas modelos, a ideia de introduzir tecnologias que permitam
produzir obsolescência do equipamento já vendido, que em informática é a técnica de
comercialização. A ciência pesquisa os princípios básicos, enquanto a tecnologia, que é o
modo de fazer, se orienta em busca do desperdício. A tecnologia atual traz incorporada
uma tecnologia baseada em alto consumo de carbono porque as coisas são jogadas fora.
O que vai contra isso é o movimento de reciclagem.
Mas a escala desse movimento é ainda baixa se comparada com o resto do
mercado...
Para uma economia de baixo consumo de carbono seria necessário ter empresas
disputando umas com as outras a preferência do comprador pela durabilidade do objeto,
só que com essa ideia o que aconteceria com os mercados?
É uma mudança tectônica.
É tectônica, mas essa mudança virá inexoravelmente porque tanto petróleo, quanto
carvão, estão com seus dias contados...
O mercado de crédito de carbono vai ser o carro-chefe dessa mudança?
Vamos com calma…como se organiza uma favela? A favela é a adaptação de uma
residência, construída precariamente em uma topografia que é, em princípio, hostil e foi
deixado livre, por isso ali constrói-se a residência. Todos os problemas que ali surgem
são resolvidos com soluções “tipo favela”, por exemplo: Suponhamos uma favela em
terra alagadiça, ela vai ser construída sobre pilotis. Suponha que as crianças caiam
dentro d`água. O povo dessa favela, então, começa a colocar tábuas entre as casas para
as crianças não caírem. É tipicamente uma solução de favela, então crédito de carbono é
a mesma coisa pois está dentro dessa vasta gama de soluções precárias. No Brasil, 98%
das latinhas são recicladas, porque há uma quantidade enorme de mão-de-obra
miserável, que sobrevive fazendo uma rendazinha catando latinha. Há aí, então, um
comportamento que vai contra a tendência dominante de incentivo ao desperdício.
Certamente se reduz o consumo de energia elétrica. Porém, é relevante esse
movimento? O que eu quero dizer é que esses movimentos são indicações que se coloca
como necessária uma transformação profunda da maneira de se produzir e organizar a
distribuição, mas que a humanidade não está preparada para fazer.
“Agora, com o petróleo escasseando, onde qualquer recuperação da economia
internacional empurra o preço do barril para as alturas, ter petróleo é melhor do que
ouro.”
ENERGIA E PETRÓLEO
Como o senhor vê o Brasil posicionado neste novo momento? Como o senhor vê
o programa de biocombustível? É mais marketing do governo ou estamos, de
fato, no centro do tabuleiro internacional?
O Brasil é propaganda...isso é chave. A minha geração quando começou a se preocupar
com desenvolvimento, queria a urbanização, queria a industrialização porque achava que
o modo mais prático que o Estado tinha de “empurrar para a frente” as coisas, era
investir em infra-estrutura e proteger a indústria nascente. Essa ideia de proteção da
industria nascente não é latino-americana, é de um romeno chamado Romanescu, que
foi ministro e disse o seguinte: “a empresa nasce como uma planta débil e por isso tem
de ser protegida, do contrário as outras empresas, já maduras destroem aquela empresa
no nascedouro.” Esse argumento da indústria nascente justificava também o argumento
do sistema industrial nascente e de certa forma, o sonho da industrialização brasileira,
de1930 a 1980, obsecionou os brasileiros – um projeto de modernização nacional, e a
política era toda para o sistema industrial nascente, com exageros, desvios de conduta, o
que não invalida o projeto. Agora, falando da infra-estrutura brasileira, temos que falar
que o Brasil tem a melhor matriz energética dos grandes países do mundo. Nós somos o
país com a percentagem mais alta de uso de energia renovável. Todos os padrões de
energia se convertem em toneladas equivalentes de petróleo e depois se verifica a
distribuição. Pois bem, no Brasil quase 50% da energia consumida é renovável porque
nós temos uma grande produção hidrelétrica. Nós temos, ainda, uma produção
importante de bioenergia, que é o velho complexo sucroalcooleiro do país e também o
fato de que a população usa muita lenha ainda. Em tese, as florestas são reconstituíveis,
pelo menos em tese porque aqui isso não vem se provando verdadeiro. Nós estamos sim
perdendo área florestal com essa história de ser exportador primário, celeiro do mundo,
mas em princípio o uso da lenha é compatível com a preservação da mata. Quando se
soma tudo isso – as hidrelétricas, a produção a partir de açúcar e derivados e a lenha –
nós apresentamos a melhor matriz do planeta, mas nós temos uma disponibilidade de
energia por habitante que é ridiculamente baixa. Traduzindo, mais ou menos, em
números, e aqui a memória pode falhar, a disponibilidade de energia no Brasil é de 1,06
toneladas de petróleo/ano, enquanto que no primeiro mundo é quatro vezes isso. Na
OCDE, o país que possui mais energia per capita é os Estados Unidos, com 4,64
toneladas de petróleo/ano por habitante. Faz toda a diferença a disponibilidade de
energia, pode-se até mesmo pensar a história da humanidade e das forças produtivas
pela disponibilidade de energia crescente pelo homem. O homem quando domestica o
animal multiplica a energia à sua disposição. Quando desenvolve a roda consegue tirar o
máximo de energia à partir da força do animal e daí adiante, até penetrarmos na
intimidade da matéria com a descoberta da energia atômica. Um detalhe quanto a isso: a
nossa ótima matriz está sendo degradada porque nós estamos crescendo muito o uso de
termoeletricidade. Há uns vinte anos, a termoeletricidade tinha participação muito
pequena, de cerca de 4% no total de energia do país. Hoje já está em 24% e isso é
péssimo. O nordeste, especialmente, está se desenvolvendo baseado em energia
termoelétrica, que é poluente e caro. Por isso que, às vezes, eu não entendo por que o
movimento ecológico não se mobiliza contra isso. Entretanto, a mão de Deus nos deu um
território que pode mais que dobrar a produção de energia hídrica, com os rios estudados
da Bacia Amazônica e ainda nem foram estudados a capacidade de aproveitamento dos
rios da área setentrional. Apenas estudou-se os da área meridional da Amazônia. Isto é a
mão de Deus, que agora se apresentou uma vez mais e nos deu o Pré-sal, que é a única
grande reserva de petróleo descoberta no mundo nos últimos quinze ou vinte anos. Me
preocupa, inclusive, o fato de que as estimativas, cada vez que aparecem, são maiores.
Preferia que fosse bem menores porque acho péssima a ideia de o Brasil exportar
petróleo cru. A quantidade de petróleo é brutal. Eu conheço alguns geógrafos que me
dizem que não há nada de surpreendente se o Brasil passar a ter a terceira maior
reserva internacional.
A mudança do marco regulatório, segundo o governo, visa a exatamente evitar
que o Brasil se torne exportador do produto primário.
O que a mudança de marco regulatório pretende fazer é aumentar o poder brasileiro
sobre as reservas, mas há implícita a ideia de o Brasil exportar petróleo, porque cada
companhia que fura passa a ser dona do petróleo extraído, e o governo tem preferência
para comprar esse petróleo, mas se extraírem muito petróleo podem vender para quem
quiser. O que deveria ser feito é parar imediatamente com os leilões de petróleo. Aliás,
eu acho que a mocidade brasileira não fez com o Pré-sal o que nós fizemos na campanha
“O Petróleo é Nosso”, quando nem havia petróleo na costa do Brasil. Vocês deviam ter
feito “O Petróleo tem que ser Nosso”.
Em setembro de 2009, a revista Carta Capital trazia a seguinte chamada de
capa sobre o debate em torno da regulamentação do pré-sal: “Tudo igual 56
anos depois”. Os lados do debate são os mesmos de meio século atrás?
São muito parecidos, se bem que está desmoralizado um pedaço do argumento à favor
da entrega do petróleo brasileiro. O argumento principal deles é que a economia do
petróleo é algo para o primeiro mundo, requer empresas sofisticadas, exige uma
administração muito complexa e o Brasil não teria recursos tecnológicos ou de pessoal,
nem recursos gerencial ou financeiro, nem capacidade industrial, tecnológica ou científica
para possuir uma empresa de petróleo. A Petrobras, enfim, quebrou todas essas
barreiras porque ela foi financiada pelos brasileiros, e foi financiada pelos brasileiros
porque o mercado interno ficou reservado para ela. A Petrobras virou uma das
grandes players do petróleo mundial e, assim, a universidade brasileira financiada pôde
responder com pesquisa de ponta e acabou por desenvolver o que era a tese da Geologia
de que o petróleo existia no Brasil debaixo do mar. A questão é que quando se tirava
petróleo da areia saudita a cinqüenta centavos de dólar/barril, não adiantava ter petróleo
debaixo do mar, mas agora, com o petróleo escasseando, onde qualquer recuperação da
economia internacional empurra o preço do barril para as alturas, ter petróleo é melhor
do que ouro. Eu defendo a tese de que nós devíamos organizar nossas reservas
internacionais a partir do petróleo e não de títulos do tesouro americano, que pagam
menos que a valorização que se tem do petróleo. Os americanos lastreavam o dólar
com inform notes. Pegavam ouro do mundo inteiro e sepultavam. Nós deveríamos,
simplesmente ter uma enorme reserva de petróleo e eu acho que as reservas do Banco
Central deveriam ser usadas para comprar as ações da Petrobras, mesmo porque dá
mais dividendos.
Carlos Lessa é professor titular de Economia Brasileira do Instituto de Economia da
UFRJ e ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
(BNDES) (endereço eletrônico: [email protected]). Esta entrevista foi publicada no
dia 16 de fevereiro de 2011 na Revista e Agora .
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