courrier/courrier 10-02-06

Propaganda
d ossiê
Beirute catapultada
para a Idade Média
I
NCRÍVEL! Nunca na tumultuosa História
do Líbano se produziu semelhante agressão, semelhante atentado à paz civil, semelhante intrusão quase medieval e bárbara
no coração do sector cristão de Beirute. Os
que destruíram e saquearam bens de cidadãos
pacatos e aterrorizaram transeuntes, conspurcaram os lugares de culto, cometeram um crime, ainda mais imperdoável do que o perpetrado pelo autor das caricaturas de Maomé.
Molestaram a religião que pretendiam defender, tornaram-se cúmplices dos que blasfemaram contra o Profeta. Prendê-los, julgá-los,
condená-los, não basta. Tomar medidas para
impedir a repetição de tais acontecimentos,
não chega. Contentar-se com sanções administrativas, bodes expiatórios, a demissão do ministro do Interior, condenações lamuriosas da
parte de dirigentes políticos e religiosos, é inaceitável. O que se pede, o que se exige, é a revisão total do discurso político e religioso, portador dos germes do fanatismo, que incita à violência, às «guerras santas» contra os «infiéis».
O verbo mata, incendeia, cria situações
sem retorno. Há que tomar consciência, controlar os antros que destilam ódio e veneno
confessional. Mas há pior: o aparecimento, entre os manifestantes, de provocadores vindos
do outro lado da fronteira, «uma subversão
iniciada em Damasco e exportada para Beirute», citando Saad Hariri [deputado libanês].
Os acontecimentos de sábado em Damasco, onde as embaixadas da Dinamarca e da Noruega foram incendiadas sem que as autoridades interviessem, constituíram um ensaio geral, prelúdio para os incidentes de domingo em
Beirute. Submetida a fortes pressões desde o
assassínio de Rafik Hariri [primeiro-ministro
libanês alegadamente morto por um comando
sírio], a Síria enviou uma dupla mensagem à
comunidade internacional. Em suma: «A movimentação islamita anti-ocidental está presente na Síria e pode tornar-se muito activa; só um poder forte (do Baas, claro) é capaz de controlar a situação e impedir derrapagens. Caso contrário, o caos é garantido
e as chamas estender-se-ão forçosamente
ao Líbano». Foi o aviso que Bashar al-Assad
[Presidente sírio] lançou há três meses.
Desde o assassínio de Rafik Hariri, a Revolução do Cedro e a saída dos sírios, forças mais
ou menos ocultas fazem tudo para paralisar o
funcionamento das instituições: uma brecha é
colmatada aqui e logo outra se abre ali; um incêndio é circunscrito deste lado, outro acende-se e é atiçado de seguida. Assim vai o Líbano, aberto aos ventos que trazem a borrasca do
Irão ao Iraque, passando pela Palestina e pela
Síria. Assim vai o Médio Oriente, balançando
entre aspirações legítimas e pulsões suicidárias, entre regimes corruptos, totalitários, e
movimentos integristas em expansão.
Ontem, os habitantes de Achrafieh, Saifi e
Medawar [bairros cristãos de Beirute] viram-se catapultados, no espaço de um dia, para
a Idade Média. Viram hordas a invadir a sua
tranquilidade e vândalos a assaltar os seus
bens, com toda a impunidade. Mantiveram o sangue-frio, deixaram passar a tempestade e evitaram, assim, ao país uma nova descida aos infernos.
Possa esse civismo, essa exemplaridade
servir de lição, acordar as consciências adormecidas e pôr termo ao aventureirismo de uns e
outros.
Nagib Aun, L'Orient-Le Jour (excertos), Beirute
l Presos e
exonerados
Pouco notados em
2005, os «cartoons»
foram reproduzidos
na Escandinávia em
Janeiro, seguindo-se
a Alemanha,
a Bélgica e a França.
Quando
a contestação
disparou,
reapareceram
em jornais de todo
o mundo. Excepções
significativas foram
os EUA e o Reino
Unido. «Vários
editores foram
exonerados devido à
decisão ou intenção
de reproduzir as
ilustrações», lembra
a enciclopédia digital
Wikipedia
(http://en.wikipedia.org/wiki/Mahomet_cartoons).
O primeiro foi
o director
do «France Soir»,
Jacques Lefranc.
Seguiu-se Momani,
editor do semanário
jordano «Shehane»,
despedido e preso
após ter publicado
três dos «cartoons»,
que surgiram
também no jordano
«Al-Mehwar»,
causando a detenção
do editor Hisham
Khalidi. No Iémen,
o «Al-Hurreya»
foi encerrado
e o seu proprietário
e director,
Abdul-Karim Sabra,
detido. Na Malásia,
Lester Melanyi,
editor do «Sarawak
Tribune», demitiu-se
e foi chamado
ao Ministério
de Segurança
Interna. Na África do
Sul, uma organização
muçulmana
conseguiu que
o Supremo Tribunal
de Joanesburgo
proibisse vários
jornais de reproduzir
os «cartoons»
Î Ilustração
de Simanca, Brasil
É feio cuspir no prato
de quem nos ajudou
S
EREMOS incapazes de defender as nossas
causas de forma civilizada? Mais uma vez,
caímos nos piores exageros e deixámo-nos arrastar para a barbárie. Nos territórios palestinianos libertados pelos acordos de paz de Oslo, foi
queimada a bandeira da Noruega, país amigo
dos árabes e que tanto ajudou os palestinianos,
financeira e politicamente. Foi a Noruega que
lançou as negociações de paz, quando a Fatah e
Arafat estavam isolados na cena internacional,
devido ao estúpido apoio à invasão iraquiana
do Kuwait [1990]. Foi este país que fez Arafat
sair do seu refúgio na Tunísia e do asilo no Iémen, depois do apoio à catastrófica aventura de
Saddam Hussein.
Claro que protestamos com veemência contra as ofensas ao Profeta ou a qualquer convicção espiritual ou religiosa. Mas temos de repudiar as ofensas à identidade dos povos, à sua
dignidade e aos seus símbolos nacionais. Poderíamos ter-nos portado de maneira civilizada,
encarregando um escritório de advogados de
levar o caso aos tribunais. O único efeito das
ameaças proferidas por alguns grupos terroristas foi prestar um serviço ao Governo israelita.
Este queria vingar-se do Executivo norueguês
desde que alguns dos seus membros apelaram
ao boicote aos produtos israelitas, em protesto
contra a situação dos palestinianos. Meu Deus!
Vemo-los cuspir no prato e a ignorância varrer
tudo quanto foi construído. Vamos deixar que,
mais uma vez, a estupidez dite o nosso futuro?
Os palestinianos não aprenderam nada com as
amargas lições do passado. Ainda não estamos
fartos de batalhas à Dom Quixote?
Dawood Al-Basri, Elaph (excertos), Londres
A conspiração contra
o Islão continua
N
ÃO me espanta que cerca de 50 dinamarqueses se tenham convertido ao Islão nos
últimos dias. Basta ver 1500 milhões de muçulmanos cerrar fileiras em torno de Maomé, que
a oração e a salvação estejam com ele, para se
perceber que ele é extraordinário. Na medida
em que penso que a História não é casual e que
há uma conspiração sionista contra árabes e
muçulmanos, cultivo a dúvida — que, segundo
Descartes, conduz à verdade. Duvido que a difusão dos desenhos seja obra do acaso. Julgo
que se inscreve na campanha há muito organizada contra o Islão, que tem retransmissores a
nível oficial, desde que a extrema-direita tomou o poder nos EUA, que Sharon tomou de
assalto a mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, e
que por todo o lado se observa a ascensão dos
extremistas.
Não acredito que tenham sido os muçulmanos a cometer os atentados do 11 de Setembro,
à míngua de provas irrefutáveis. Também não
estou convencido de que tenham cometido os
atentados de Londres, Madrid, no Iraque, em
Amã, etc. Mas a hipótese existe e prejudica a
imagem do Islão; permite aos que procuram
argumentos contra o Islão dizer que esta religião preconiza a violência. Não excluo que
aqueles atentados possam ter sido cometidos
por muçulmanos, mas nem por isso desculpo
os inimigos do Islão, como não excluo que possam ter sido eles a organizá-los, para acusarem
os muçulmanos, justificando as suas agressões.
Riyadh Niâssan Agha, Al-Ittihad (excertos), Abu Dhabi
COURRIER INTERNACIONAL
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EDIÇÃO PORTUGUESA
TODO-O-TERRENO
Fazer o jogo...
ARA mim, ateia, religião é ópio. Poderia ridicularizar crentes, deuses ou profetas de qualquer religião, valendo-me
da liberdade de expressão. Mas não o faço. Porque a tolerância democrática me impõe respeito
por quem não pensa como eu. E por simples bom
ANA GOMES
senso: a História mostra
que a religião incendeia,
porquê atiçar mais conflitualidade?
Marcada, mesmo sem querer, pela matriz judaico-cristã, vivi laicamente na Genebra calvinista, na
Londres anglicana, no shinto-budismo de Tóquio,
na babilónia nova-iorquina e no maior país muçulmano. E foi na Indonésia que mais respeito ganhei
por quem se assumia como crente: percebi como
é muito séria e consequente a devoção, como são
mais apertados os laços familiares e de entreajuda
social prescritos religiosamente. Percebi também
como a ignorância do Islão, a insensibilidade e preconceitos de superioridade ocidentais tinham perversas consequências, transformando em agravos de fé ressentimentos políticos e culturais contra colonizadores e apoios externos de regimes
opressivos. Indignei-me com líderes incapazes de
demarcarem a sua religião de actos terroristas perpetrados em nome dela; e admirei a coragem de
outros que denunciavam o anti-islamismo da AlQaeda e Bin Laden e o seu principal exportador, o
«wahabismo» saudita.
Foi também na Indonésia que apreendi como é
injusto e contraproducente estigmatizar todos os
muçulmanos e o Islão pelas interpretações mais
reaccionárias deste. Por isso, há meses, no Parlamento Europeu, empenhei-me (e consegui, com
apoio socialista) em combater uma tentativa da direita espanhola para incluir num relatório sobre o combate ao terrorismo na UE a noção de «terrorismo islâmico». Que não existe, assim como não existe «terrorismo católico» na Irlanda. Existem, sim, terroristas
que se proclamam defensores de religiões e causas
respeitáveis para perpetrar ignominiosos crimes.
Os «cartoons» publicados num jornal da extrema-direita racista e xenófoba da Dinamarca lembraram-me as caricaturas nazis contra judeus. Arrepiou-me a displicência do Governo de direita daquele país, invocando pretensa neutralidade para
recusar distanciar-se de propósitos insultuosos,
tornando assim cidadãos e empresas alvo da revolta no mundo islâmico (veja-se, em contraste, o
exemplo de demarcacação dos rabinos-chefes de
França e Reino Unido). Uma revolta de que ainda
não conhecemos todas as consequências — e já
está a morrer gente. Porque a Dinamarca se tornou a face duma Europa ultrajante para milhões
de muçulmanos. Muitos europeus desmemoriados (portugueses incluidos), a pretexto da liberdade de expressão e do laicismo, trataram de empolar o insulto generalizado e fazê-lo galgar fronteiras. Em ominosa sinergia com fundamentalistas a
quem, nesta conjuntura política, convem cavalgar
a indignação, extremar a violência e aprestar a próxima vaga de ataques terroristas.
Quem se empenha em concretizar a profecia
do «choque de civilizações», como os fundamentalistas de todos os quadrantes, deita mão à xenofobia e à ofensa de sentimentos religiosos. Quem
o justifica, a qualquer pretexto, inclusive o da liberdade de expressão, faz o jogo dos terroristas.
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