virtualizando o virtual

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VIRTUALIZANDO O VIRTUAL
Cleci Maraschin 1
Jacqueline La Rosa de Mesquita 2
O objetivo principal do trabalho é fazer operar a idéia de virtual como nó
problematizador com efeitos de desterritorialização e de desconstrução de
conceitos, práticas e idéias, possibilitando diferentes modos de pensar e
experimentar aquilo que chamamos de realidade. Discute-se a implicação deste
potencial desestabilizador no campo da psicologia em relação a percepção e as
noções de identidade e de autoria.
1) Virtual como devir
A palavra virtual já faz parte da nossa linguagem cotidiana. Tal fato pode
causar mal estar ou estranhamento pois geralmente virtual é significado como
falso, irreal. Mas se formos buscar sua origem latina, virtual significa o que existe
potencialmente no real. A idéia de virtual visa dar conta de um real que se define
como duração, como acontecimento que, ao ser atravessado por um analisador ou
tecnologia cultural, pode existir de uma forma atual. Virtual seria uma forma de
realidade em potência e não uma experiência imaginária de algo inexistente na
realidade, como uma espécie de ilusão; cópia deformada de uma realidade
independente do sujeito. Virtual e atual são dois modos de existir: a codificação
numérica da informação a virtualiza,
tornando-a indiferente ao dispositivo de
saída. Teoricamente, é possível atualizar qualquer seqüência de bites em uma
música, imagem, texto, escultura holográfica... dependendo das interfaces já
criadas.
Todo nosso desassossego com o crescente processo de digitalização social
mostra que as tecnologias anteriores já foram tão naturalizadas que parecem ter
1
Professora do Instituto de Psicologia, atua no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e
Institucional (PPGPSI) e no Programa de Pós-Graduação em Informática na Educação (PGIE) da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
2
Bacharel em Ciências Econômicas (UFRGS), aluna do Instituto de Psicologia (UFRGS).
perdido seu potencial virtualizador de outrora. Virtualizar não significa desrealizar,
significa vivenciar o real em seu modo acontecimento, vivência que produz
sensação de estranhamento, de desestabilização, podendo levar à tomada de
consciência de que aquilo que definimos como real também resulta de uma
espécie de atualização.
2) Percepção e Realidade
A virtualidade como uma potência do real também opera no processo
perceptivo. Nas pesquisas sobre percepção, principalmente aquelas vinculadas à
Psicologia, vê-se uma determinada idéia de percepção como captação de
estímulos externos através dos orgãos sensoriais. Após essa captação, o
processamento mental elaboraria representações, ou esquemas, destes estímulos
que transformariam a mente numa espécie de espelho da realidade. Nesta
concepção as imagens mentais teriam um referente último na realidade (o que
sustentaria seu caráter de verdade), caso contrário, são classificadas como
ilusões, alucinações. Nesta concepção não há virtualidade, somente possibilidade,
,já que partimos de uma realidade independente e teríamos, então, a possibilidade
de construir imagens de acordo com os referentes pré-existentes que nos
estimulam. Alguns experimentos mostram a insustentabilidade de pensarmos a
imagem mental como uma cópia de um referente externo independente da ação
do sujeito 3. Desde as pesquisas de Jean Piaget, aprendemos que os objetos - e
as suas relações - que povoam aquilo que chamamos de realidade, são
construídos a partir dos esquemas sensório-motores. Também dessa forma pensa
o biólogo Humberto Maturana, para o qual a percepção é advinda do que chama
de configuração condutual dos objetos 4. Por configuração podemos entender que
algo se forma, se estrutura, ou seja não está dado antes de ser capturado. A
3
Penso aqui no experimento relatado em MATURANA, Humberto R. La realidad: objetiva o
construida? México: Anthropos, 1995, onde o globo ocular de uma rã foi rotado em 180°.
4
MATURANA, Humberto R. El sentido de lo humano. Santiago: Dolmen Ediciones, 1994.
conduta é determinada pelo organismo que percebe, pois este em interação com
estímulos externos a ele é que constrói os objetos. A idéia de algo externo agindo
sobre o organismo só é possível por que há um ponto de vista, de um observador,
que vê, através do comportamento de determinado organismo, que este
respondeu a algo que estava em seu campo perceptivo. Mas, para o organismo
que interage o que temos são acoplamentos estruturais. Determinado orgão
sensorial sendo afetado, perturbado por algum objeto externo a ele, mas este que
concebemos como externo, está inserido nestes processos mesmos, já que as
mudanças físico-químicas, como a liberação de neuro-transmissores na fenda
sináptica, é determinada pelo funcionamento do organismo que percebe.
A idéia de realidade é resultante então de um processo de construção, de
criação de uma forma, a partir de uma rede de configuração heterogênea que
inclui a estrutura do sistema nervoso, dos órgãos sensoriais, a história de
acoplamentos, a linguagem, as tecnologias, as instituições sociais. Desta forma,
possuímos
tantos
espaços
perceptivos
quanto
classes
de
correlações
sensório-motoras possamos realizar a partir da interação com as diversas
configurações da rede mencionada. Esta última constatação faz com que sejamos
incapazes de distinguir ilusão e percepção, somente a recorrência, que constitui a
configuração condutual, permite a diferenciação.
3) Imagem como experiência
Se nosso processo perceptivo pode ser conceituado como uma atividade de
perceber e os objetos percebidos resultantes de uma configuração condutual, a
imagem pode ser pensada como uma experiência e não mais como uma
modalidade de representação da experiência. Com isto, estamos sustentando que
imaginar poderia ser semelhante a virtualizar e que a imagem resultante poderia
ser pensada como uma atualização. Caso nossa proposição seja válida,
estaríamos supondo uma transformação nas imagens decorrentes da interação
com as imagens computacionais, que são novos objetos condutuais.
Quando Piaget trata do problema metodológico para o estudo das imagens
mentais no livro L’image mentale chez l’enfant 5 discute que o acesso a essas só
pode ser atingido por imagens não necessariamente mentais (verbais, gráficas,
gestuais). Essa peculiaridade implica, além de um problema metodológico, um
problema de interpretação teórica, ou seja, o de como estabelecer as relações
entre estas imagens e a imagem mental. Segundo sua proposição, a imagem
mental é uma imitação ativa e interiorizada (p. 13), existiria um parentesco mais ou
menos estreito entre imagem mental (interiorizada), o gesto imitativo que é
também reprodutivo (imagem não interiorizada) e a imagem gráfica, que é uma
nova imagem (mas não mais interiorizada) e que difere da imitação simples pois
se separa do próprio corpo para uma concretização supondo uma técnica
particular sem, no entanto, perder a condição de imitação. Em síntese, as imagens
mentais e sua tradução em outro tipo de imagem podem estar em níveis diferentes
mas mantêm o mesmo mecanismo formador. Essa suposição da existência de
imagens, separadas do corpo e atualizáveis a partir da tecnologia e que
conservariam o mesmo princípio formador das imagens mentais abre caminho
para se pensar as imagens computacionais. Um problema interessante de análise
é discutir a relação das imagens computacionais com as imagens mentais.
Propomos uma nova categoria de classificação: a de imagem-simulação
que poderia conter as categorias definidas pelo autor mas que introduz uma
condição nova, tributária dos progressos da formalização operativa do
conhecimento e da tecnologia: a imagem-simulação é apenas uma atualização
provisória de um conjunto de leis simuladoras de um “mundo” possível. A
imagem-simulação resulta do processo de atualização do chamado “objeto”
informático que só existe em forma numérica (digitalizado), para visualizá-lo,
precisa-se convertê-lo em imagem, donde é necessário uma simulação. A partir do
momento que o objeto computacional digitalizado é traduzido a um suporte
bidimensional sua imagem depende das limitações de um observador.
Sofisticados modelos matemáticos são utilizados para simular as condições de
observação. A simulação consiste então numa experimentação simbólica, o que
5
Piaget, Jean. L’image mentale chez l’enfant. Paris: PUF, 1966.
não deixa de ser uma imitação ativa mas de modelos. A imagem-simulação é
construída a partir de parâmetros fornecidos pelo próprio sistema físico estudado.
Para Machado 6 ao simular um objeto ou fenômeno nós não visamos mais
simplesmente “copiar” a sua aparência visual, mas sobretudo atribuir ao signo
(parte das) propriedades e/ou capacidades do modelo real” (p. 117).
4) Mundos virtuais
A discussão sobre a imagem se transporta aos ambientes de Realidade
Virtual onde, dentro de uma concepção de imagem-representação, poderíamos
pensar que a simulação deveria corresponder a cópias fiéis do mundo real. E
assim, as simulações mais bem sucedidas seriam aquelas que, sendo
tecnicamente mais desenvolvidas, provocariam sensações de identidade entre o
vivido nestes ambientes e o experienciado no real.
No entanto, se pensarmos em imagem-simulação, basta navegarmos em
alguns ambientes para percebermos como somos lançados na imersão, desde
que
estes
ambientes
contenham
alguns
elementos
que
propiciem
os
acoplamentos estruturais, ou seja, as recorrências condutuais.
É certo que a maioria dos ambientes virtuais possuem algumas das
características visuais das quais estamos familiarizados em nosso cotidiano. O
bom uso da perspectiva é um exemplo disto de que estamos falando. Mas o
elemento surpresa é outro dos atrativos destes ambientes. Poder ver um objeto
através de inúmeros pontos de vista não é algo que façamos concretamente no
real e é fascinante poder revirar uma cadeira e observá-la de um ponto de vista
que dificilmente seria possível para determinado tamanho de cadeira e
determinado tamanho de nosso corpo.
Aqui é necessário esclarecer que falamos de ambientes virtuais em um
sentido muito amplo, incluindo aqueles ambientes em que a interação se dá
através de inúmeros equipamentos como: luvas, capacetes, óculos, etc, em que a
imersão é completa e as sensações são experimentadas em um nível tátil, visual
6
Machado, Arlindo.Máquina e Imaginário.São Paulo: Edusp, 1996.
e cinestésico, bem como os ambientes construídos para a interação através de
interfaces mais simples, como os teclados de um computador.
Isso explicaria porque, após um período de adaptação inicial,
nos
sintamos imersos em mundos virtuais capazes de instaurar um outro tipo de
vivência e de congruências sensório-motoras extremamente ricas e decisivas,
produzindo inusitados efeitos de realidade: nós habitamos um corpo neste mundo
novo e fazemos realmente a experiência de traspassar muros, voar ....
A conseqüência da multiplicação de experiências imersivas consiste em
vivenciar a realidade no plural. Cada vez mais mundos virtuais podem estar ativos
em mundos materiais. Realidades que podem ser experenciadas em contiguidade
cada vez mais tênue: passa-se de uma realidade a outra hibridizando-as.
5) Virtual como desterritorialização conceitual
Além de produzir efeitos na sensibilidade sensório-motora o processo
desestabilizador das certezas é intensificado, produz-se o que poderia ser definido
como uma inversão epistemológica do problema: ao invés de problematizarmos a
adolescência “plugada” normatizando-a, questiona-se a exclusão das tecnologias
das práticas escolares. No pensamento psicológico, essa inversão potencializa a
produção de verdadeiras “revoluções conceituais”. Só para citar dois exemplos,
poderíamos pensar no conceito de representação na psicologia cognitiva e no de
identidade na psicologia da personalidade.
As experiências com mundos virtuais questionam a idéia de cognição como
representação de uma realidade dada. O que chamamos de realidade, no sentido
do senso-comum, não pré-existe aos nossos próprios modos de compreendê-la.
Pensa-se em realidades no plural. A imagem passa a ser uma nova experiência
(acontecimento) e não uma modalidade de representação da experiência.
Quebra-se a noção de verossimilhança, mimese, questionando-se muitas teorias
que fundamentam seus enunciados sobre esses conceitos.
O estudo da imersão em realidades virtuais sociais explicitam modos de
experimentação da própria identidade, questionando a idéia de sua unidade. Os
modos de ser e de interagir atualizam-se de uma forma heterogênea, múltipla e
mestiçada. A grande utilização de chats pelos sujeitos, longe de se constituir numa
mentira socialmente compartilhada, implica uma atualização de modos de existir
virtuais até então não passíveis de experienciação social. Os personagens virtuais
revelam outros modos de ser do sujeito, e que poderiam se constituir em
objetos-para-se-pensar-com, para ampliar a tomada de consciência dessa
heterogeneidade.
Para além de uma reconfiguração das práticas profissionais, os processos
de virtualização produzem a necessidade de reconfigurações teórico-conceituais,
para que sejamos capazes de pensar a subjetividade contemporânea, sem
patologizá-la, mas, ao mesmo tempo, sem desconsiderar as implicações éticas daí
advindas.
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