sociologia contemporânea

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Sociologia
Contemporânea
Autora
Maria Clara Ramos Nery
2007
© 2007 – IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor dos
direitos autorais.
N456
Nery, Maria Clara. / Sociologia contemporânea. / Maria Clara
Nery. — Curitiba : IESDE Brasil S.A. , 2007.
104 p.
ISBN: 978-85-7638-730-5
1. Sociologia. 2. Estrutura social. 3. Interação social. I. Título.
CDD 301
Todos os direitos reservados.
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www.iesde.com.br
Sumário
O surgimento da Sociologia como ciência | 9
Augusto Comte (1798-1857): “pai fundador da Sociologia” | 10
Herbert Spencer (1820-1903) | 11
Os teóricos clássicos da Sociologia | 17
Karl Marx (1818-1883) | 17
Relação entre infra e superestrutura social | 20
Alienação em Karl Marx | 21
Os teóricos clássicos da Sociologia II | 27
Émile Durkheim (1858-1917) | 27
Os teóricos clássicos da Sociologia III | 37
Max Weber (1864-1920) | 37
O funcionalismo de Talcott Parsons | 43
Elementos da ação em Parsons | 45
Quem é o agente? | 45
Como se inicia a ação: a situação | 46
A orientação | 47
O sistema de ação | 47
O culturalismo | 53
Norbert Elias (1897-1990) | 53
Pierre Bourdieu | 57
Estrutura e fatos sociais | 63
Pierre Bourdieu | 63
Anthony Giddens | 65
Michel Foucault | 69
Estruturalismo | 73
Estruturalismo funcional: Niklas Luhmann | 73
Pós-Marx | 79
Jürgen Habermas | 79
Texto complementar | 82
História e relações de classe | 85
Alain Touraine | 85
Concepções acerca da sociedade pós-moderna | 91
Zygmunt Bauman | 91
Chaves analíticas fundamentais hoje | 97
Referências | 103
Concepções acerca
da sociedade pós-moderna
Zygmunt Bauman
Autor e sua teoria: conceitos fundamentais e principais pressupostos teóricos
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925) é considerado hoje um dos autores que mais tem
trabalhado com os determinantes de nosso tempo e mesmo da pós-modernidade. Em suas obras,
Bauman traz à tona elementos variados que falam do homem contemporâneo, abalando nossas mais
arraigadas crenças, nossa visão de homem e de mundo. É um questionador de nosso tempo. Podemos
dizer que Bauman questiona todo um “espírito de época”, vendo no homem contemporâneo um
ser desenraizado e com grande dificuldade para estabelecer vínculos consistentes. É o homem que
pertence ao que Bauman vai denominar como modernidade líquida, e assim poderíamos dizer com o
próprio Marx: “tudo que é sólido desmancha no ar”.
Bauman tem uma concepção de Sociologia enquanto uma disciplina que interage com outros
campos do conhecimento, que dialoga com outras áreas, principalmente a Filosofia, a Psicologia social e
elementos da narrativa. Bauman, na atualidade, é um dos principais teóricos das conseqüências do processo
de globalização. Ele a analisa não somente em seu ponto de vista econômico, mas fundamentalmente com
relação aos seus efeitos na vida cotidiana de indivíduos e grupos, como uma mudança de caráter radical
e irreversível. Bauman vê no processo de globalização elementos que geraram profundas transformações
nas estruturas do Estado, nas condições de trabalho, nas relações entre os Estados, na constituição da
própria subjetividade coletiva, na produção cultural e na vida cotidiana, bem como nas relações entre
o eu e o outro. Assim, a globalização pode ser uma modernidade líquida, ou seja, um fenômeno social
que não permite consistências no campo das relações sociais, não permite vínculos sociais consistentes,
enraizamentos e fortes sensações de pertencimento na medida em que a sociedade atual, sob o processo
de globalização, acabou por deixar um marco de incertezas no que concerne às identidades sociais,
culturais e sexuais (VECCHI, 2005).
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Sociologia Contemporânea
A realidade econômica, política e social contemporânea encontra-se drasticamente alterada.
Alterações abruptas para as quais os campos de análise em várias áreas do conhecimento, notadamente
a Sociologia, de certa forma tem que “se apressar” a interpretar, a investigar e a analisar. O modo de
produção capitalista tem apresentado novos contornos, novas configurações, para as quais as questões
de fundo que surgem são:
:: Em que sociedade estamos vivendo?
:: Quais os reais efeitos e conseqüências humanas que estão sendo gerados pelo processo de
globalização?
:: Qual a efetiva prática discursiva a ser adotada para a busca de uma análise interpretativa da
realidade presente?
Bauman é o autor contemporâneo que busca investigar, interpretar e analisar os processos que
estão transformando a realidade e a vida do homem nessa mesma realidade.
No contexto das obras de Bauman, encontramos um ponto central, um fio condutor que nos
permite compreendê-lo: as próprias ameaças implícitas à liberdade individual e a construção de um
sujeito desenraizado, em crise porque não sabe adequadamente qual será o seu lugar nesse mundo
globalizado e marcadamente excludente.
Afirma Bauman (2005, p. 33):
Com os fones de ouvido devidamente ajustados, exibimos nossa indiferença em relação à rua em que
caminhamos, não mais precisando de uma etiqueta rebuscada. Ligados no celular, desligamo-nos da vida. A
proximidade física não se choca mais com a distância espiritual. Com o mundo se movendo em alta velocidade
e em constante aceleração, você não pode mais confiar na pretensa utilidade dessas estruturas de referência
com base na sua suposta durabilidade (para não dizer atemporalidade!). Na verdade, você não confia nelas
nem precisa delas. Essas estruturas não incluem facilmente novos conteúdos. Logo se mostrariam muito
desconfortáveis e incontroláveis para acomodar todas as identidades novas, inexploradas e não-experimentadas
que se encontram tentadoramente ao nosso alcance, cada qual oferecendo benefícios emocionantes, pois
desconhecidos e promissores, pois até agora não-depreciados. Rígidas e pegajosas, também é difícil livrar
essas estruturas dos velhos conteúdos quando chega a sua “data de validade”. No admirável mundo novo
das oportunidades fugazes e das seguranças frágeis, as identidades ao estilo antigo, rígidas e inegociáveis
simplesmente não funcionam.
Nas palavras de Bauman, podemos verificar os elementos que compõem a sua análise crítica de
nossa realidade social vivenciada. Bauman articula vários campos do conhecimento, sempre permitindo
uma análise acurada da realidade. E a partir de agora vamos nos envolver com alguns conceitos e
concepções de Bauman acerca de alguns conceitos fundamentais. Em um primeiro momento, o conceito
de globalização, que se encontra intimamente relacionado com o Estado, no sentido de que o Estado
não possui mais o poder ou o desejo de propiciar uma união, um vínculo sólido com a nação. Em um
segundo momento, veremos o conceito de ambivalência.
Diante da globalização, aos poucos a instituição do Estado deixa de necessitar, como afirma
Bauman, de “suprimentos de fervor patriótico”. Para o autor,
[...] até mesmo o patriotismo, o ativo mais zelosamente preservado pelos Estados-nação modernos, foi
transferido às forças do mercado e por elas remodelado para aumentar os lucros dos promotores do esporte,
do show business, de festividades comemorativas e da indústria memorabilia. (BAUMAN, 2005, p. 34).
Observemos que, em sua concepção da realidade, Bauman vai elaborando elementos que
demonstram os aspectos nos quais estamos a desconstruir a solidez de nossa realidade moderna.
Concepções acerca da sociedade pós-moderna
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Portanto, verificamos que a própria pós-modernidade poderia ser concebida enquanto um processo de
desconstrução da racionalidade instaurada pela modernidade, na qual temos o império da racionalidade
e o predomínio da razão.
Na modernidade, refletida normativamente sobre a sociedade, podemos compreender as suas
tendências totalitárias no sentido de que ela gera-se pelo universalismo, ou melhor, por uma concepção
universalista da realidade. Assim, a ordem a ser construída envolve uma “homogeneidade compulsória”,
fazendo com que o primeiro dano recaia sobre a liberdade individual. O que podemos verificar é que já
no contexto da pós-modernidade a estrutura parece ser inatingível, no sentido de que tudo se encontra
fluído, não estruturado. Nesse contexto de incertezas que caracteriza a pós-modernidade, a busca se faz
pelo encontro da identidade, talvez pelo encontro de identificações que permitam o retorno de uma
“sensação de pertencimento”. Afirma Bauman (2005, p. 41-42):
Levando-se tudo em consideração, as paredes e os pátios das fábricas não parecem mais suficientemente
seguros como ações nas quais se possam investir as esperanças de uma mudança social radical. As estruturas das empresas capitalistas e as rotinas da mão-de-obra empregada, cada vez mais fragmentadas e
voláteis, não parecem mais oferecer uma estrutura comum dentro da qual uma variedade de privações e
injustiças sociais possa (muito menos tenda a) fundir-se, consolidar-se e solidificar-se em um projeto de mudança. Também não servem como campos de treinamento em que seja possível formar e treinar colunas de
combatentes para uma batalha iminente. Não existe um lar óbvio a ser compartilhado pelos descontentes
sociais. Com espectro de uma revolução proletária capitulando e dissipando-se, os ressentimentos sociais
estão órfãos. Perderam a base comum sobre a qual era possível negociar e desenvolver objetivos e estratégias comuns. Cada categoria em desvantagem está agora por sua própria conta, abandonada aos próprios
recursos e à própria engenhosidade.
Na citação acima, Bauman está falando da liquidez que adquirem as relações no campo do
trabalho e da liquidez que adquirem esferas específicas de nossa realidade cotidiana. Estamos vendo,
paulatinamente, nas palavras de Bauman, que em suas análises críticas ele vai demonstrando a
especificidade de nosso contexto pós-moderno, principalmente no que concerne à construção das
identidades.
Afirma Vecchi (2005, p. 11):
A questão da identidade também está ligada ao colapso do Estado de bem-estar social e ao posterior crescimento da sensação de insegurança, com a “corrosão do caráter” que a insegurança e a flexibilidade no
local de trabalho têm provocado na sociedade. Estão criadas as condições para o esvaziamento das instituições democráticas e para a privatização da esfera pública, que parece cada vez mais um talk-show em que
todo mundo vocifera as suas próprias justificativas sem jamais conseguir produzir efeito sobre a injustiça e
a falta de liberdade existentes no mundo moderno.
No contexto da pós-modernidade, o que podemos verificar, seguindo a lógica de Bauman, é que
elementos anteriormente solidificados assumem agora novos contornos, novas configurações que
deixam a marca da insegurança, pois de alguma forma indivíduos e/ou grupos parecem estar dizendo,
no contexto de suas realidades, “não sei quem sou e nem qual é o meu lugar”. Novas identidades estão
a se formar nesse mesmo contexto, mas identidades que não estariam mais a produzir elementos
seguros que estabelecessem elos em práticas discursivas e de ação que possibilitassem uma luta contra
a injustiça e a falta de liberdades consistentes.
E agora vamos trabalhar com o conceito de ambivalência. Bauman não trabalha este conceito, faz-o
a Psicologia, que considera que a ambivalência dá-se quando o indivíduo é habitado por dois sentimentos
opostos. Bauman trabalha a ambivalência enquanto a linguagem que não traduz adequadamente a
realidade e nem mesmo a compreensão adequada da realidade social vivenciada de uma modernidade
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Sociologia Contemporânea
líquida ou de uma pós-modernidade. Quando não podemos traduzir adequadamente a realidade,
significa que não a compreendemos em essência, ou seja, nossa linguagem encontra-se “estreita”
para compreendê-la adequadamente. Se não conseguimos traduzir a realidade, nossa prática social e
discursiva refletirá de igual forma essa inadequação. Dessa maneira, estaríamos reproduzindo em nossas
ações as indeterminações da linguagem e não a realidade. Ao mesmo tempo, Bauman nos fala que nesse
processo de ambivalência encontramos o espaço da liberdade, no sentido do “devir” (tornar-se) que é
sempre possível, pois os caminhos não se encontram fechados, sempre havendo novas possibilidades.
No sentido que lhe dá Bauman, certamente vivemos no universo da ambivalência. Não
conseguimos traduzir perfeitamente nossa realidade, fato este que se reflete em nossas ações em
sentido macro e em sentido micro. Observemos, ainda, que estamos em um contexto social e histórico
que não nos leva à eliminação do aspecto negativo da ambivalência, mas sim a continuidade dessa
ambivalência na medida em que os processos e condições de incerteza pertencentes ao contexto são
internalizados pelos indivíduos e/ou grupos, levando à deslocamentos entre ser e realidade, entre o ser
e o outro, entre o mundo da vida e o sistema, como diz Habermas.
Em sua acurada percepção da realidade, afirma Bauman (2005, p. 20):
Estar total ou parcialmente “descolado” em toda parte, não estar totalmente em lugar algum (ou seja, sem
restrições e embargos, sem que alguns aspectos da pessoa “se sobressaiam” e sejam vistos por outras como
estranhos), pode ser uma experiência desconfortável, por vezes perturbadora. Sempre há alguma coisa
a explicar, desculpar, esconder ou, pelo contrário, corajosamente ostentar, negociar, oferecer e barganhar.
Há diferenças a serem atenuadas ou desculpadas ou, pelo contrário, ressaltadas e tornadas mais claras. As
“identidades” flutuam no ar, algumas de nossa própria escolha, mas outras infladas e lançadas pelas pessoas
em nossa volta, e é preciso estar em alerta constante para defender as primeiras em relação às últimas. Há uma
ampla probabilidade de desentendimento, e o resultado da negociação permanece eternamente pendente.
Quanto mais praticamos e dominamos as difíceis habilidades necessárias para enfrentar essa condição
reconhecidamente ambivalente, menos agudas e dolorosas as arestas ásperas parecem, menos grandiosos os
desafios e menos irritantes os efeitos. Pode-se até começar a sentir-se chez soi, “em casa”, em qualquer lugar,
mas o preço a ser pago é a aceitação de quem em lugar algum se vai estar total e plenamente em casa.
Por certo, podemos pensar que se não conseguimos traduzir adequadamente a realidade na qual
estamos contidos e que nos contém, a sensação é justamente a de estar ao desabrigo da compreensão
desta mesma realidade. Estamos em casa, sem efetivamente nos sentirmos em casa, reflexo de toda
uma realidade marcadamente globalizada, excludente e ambivalente. Vamos conhecer nas palavras do
próprio Bauman o seu conceito de ambivalência:
A situação torna-se ambivalente quando instrumentos lingüísticos de estruturação se mostram inadequados;
ou a situação não pertence a qualquer das classes lingüisticamente discriminadas ou recai em várias classes
ao mesmo tempo. A função nomeadora/classificadora da linguagem tem, de modo ostensivo, a prevenção
da ambivalência com seu propósito. O desempenho é medido pela clareza das divisões entre classes, pela
precisão de suas fronteiras definidoras e a exatidão com que os objetos podem ser separados em classes.
E, no entanto, a aplicação de tais critérios e a própria atividade cujo progresso devem monitorar são as
fontes últimas de ambivalência e as razões pelas quais é improvável que a ambivalência jamais se extinga
realmente, sejam quais forem a quantidade e ardor do esforço estruturação/desordenação. (BAUMAN,
1999, p. 10).
Pelo que podemos observar, a ambivalência, essa inadequação da tradução do real, é intrínseca
ao contexto histórico-social contemporâneo, notadamente em nosso contexto de uma sociedade
globalizada e marcadamente excludente, pois Bauman nos fala de uma característica fundamental da
globalização: ao mesmo tempo em que une, ela desune e exclui.
Concepções acerca da sociedade pós-moderna
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Texto complementar
(BAUMAN, 2005, p. 90-91)
A idéia de que nada na condição humana é de uma vez por todas dado ou imposto, sem direito de
apelo ou reforma – de que primeiro tudo precisa ser “feito” e, uma vez feito, pode ser mudado infinitamente
– acompanha a era moderna desde o início. De fato, a mudança obsessiva e compulsiva (chamada de
várias maneiras: modernização, progresso, aperfeiçoamento, desenvolvimento e atualização) é a essência
do modo moderno de ser. Você deixa de ser “moderno” quando pára de “modernizar-se”, quando abaixa as
mãos e pára de remendar o que você é e o que é o mundo a sua volta.
A história moderna também foi, e ainda é, um esforço contínuo para afastar os limites do
que pode ser mudado à vontade pelos seres humanos e “aperfeiçoado” para melhor se adequar às
necessidades ou desejos destes. Foi também uma busca incessante por ferramentas e know-how que
permitissem que os derradeiros limites fossem cancelados e abolidos completamente. Chegamos a
ponto da esperança de manipular a composição genética dos seres humanos, que até recentemente
era o exemplo perfeito da imutabilidade, da “natureza” a que os seres humanos devem obedecer.
Seria estranho, sem dúvida, se até mesmo as facetas consideradas mais obstinadas da identidade,
como o tamanho e a forma do corpo ou o seu sexo, permanecessem por muito tempo como uma
exceção resistente a essa tendência moderna totalmente abrangente.
Levou alguns séculos para elevar os sonhos de Pico della Mirandola, ou seja, de os seres
humanos se tornarem como o lendário Proteu, que alterava a sua forma de um momento para o outro
e extraía o que quisesse, no mesmo instante, de um recipiente de infinitas possibilidades – em termos
de credo universal. A liberdade de alterar qualquer aspecto e aparência da identidade individual é
algo que a maioria das pessoas hoje considera prontamente acessível, ou pelo menos vê como uma
perspectiva realista para o futuro próximo.
Atividade
1.
Trabalhando com o texto complementar e as citações de Bauman presentes nesta aula, confronte-os
com os elementos de nossa realidade cotidiana, ou seja, um autêntico ato de aliar teoria e prática.
Veja a realidade que passa nos meios de comunicação de massa e analise-a sob a óptica de Bauman.
Registre suas conclusões.
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Sociologia Contemporânea
Dicas de estudo
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
. Amor Líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
. Vida Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007
Essas importantes obras de Bauman têm uma linguagem clara e nos fazem pensar em muitos elementos
de nossa realidade contemporânea.
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