- Laboratório de Desempenho Logístico

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Artigo publicado
na edição 05
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julho/agosto de 2008
www.revistamundologistica.com.br
a
: : Artigos
O Efeito Chicote na Cadeia
de Abastecimentos
O que é o Efeito Chicote e como reduzir seus efeitos
sobre sua cadeia de suprimentos
Atender a todos os pedidos no prazo e correr
o risco de ter muitos produtos em estoque? Ou
manter um baixo nível de estoque e correr o risco
de perder vendas? Essas decisões, se considerada
a empresa isoladamente, pode influenciar o
surgimento do Efeito Chicote. O que ele é e
quais os impactos que ele gera nas empresas é
o que buscam responder os pesquisadores da
Universidade Federal de Santa Catarina.
Leandro Callegari Coelho
([email protected]): é formado em Engenharia
de Produção Elétrica, possui especialização em
Administração e cursa mestrado em Engenharia de
Produção na área de Logística e Transportes, ambos pela
UFSC. Atua na área de Estratégia Logística e estatística
aplicada, especialmente modelos de previsão, controle
estatístico e redução de estoques.
Neimar Follmann
([email protected]): é formado em Administração
e possui especialização em Métodos de Melhoria da
Produtividade pela UTFPR. Possui experiência na gestão
de frota em empresas de transporte de cargas e logística
industrial, no ramo moveleiro. Cursa mestrado em
Engenharia de Produção na UFSC, com concentração
em Logística e Transporte, onde pesquisa a aplicação
da Teoria das Restrições na gestão de empresas de
transporte de cargas fracionadas.
desempenho logístico tem, atualmente, forte influência sobre o desempenho financeiro de empresas industriais e comerciais. Com o seu desenvolvimento, em conjunto com o advento da Tecnologia da Informação – TI, dentre
outros fatores, surge a possibilidade de uma cadeia de suprimentos gerenciada ou, como é
chamada no contexto atual, Supply Chain Management – SCM.
Uma das dificuldades enfrentadas pelas empresas é conseguir alinhar a oferta à demanda. Isso decorre de uma expectativa de demanda ou oferta que não se realiza, por diversos
motivos, entre eles, a incapacidade de prever a demanda dos clientes. Esta incapacidade
se propaga por todas as empresas da cadeia, influenciando os níveis de estoques, os tama-
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Carlos Manuel Taboada Rodríguez
([email protected]): ) é engenheiro Industrial pela
Universidad de La Habana, Cuba, doutor Ökonomikae,
pela Techsnische Universität Dresden, Alemanha, pósdoutorado em Logística, pela Universidad Politécnica
de Madrid, Espanha. É professor na área de Logística e
Transportes do Departamento de Engenharia de Produção
e Sistemas da UFSC, lecionando nos cursos de mestrado e
doutorado várias disciplinas de Logística. Acumula 36 anos
de experiência no Ensino Superior.
nhos dos pedidos e a produtividade. Este
fenômeno é comum a todos os elementos
de uma cadeia e é chamado de Efeito Chicote, e já vem, há algum tempo, sendo estudado por autores como Forrester (1958),
Hau Lee (1997) e Svensson (2005).
Para que seja possível alcançar alta
eficiência na cadeia de suprimentos é necessário que sejam identificadas as forças e
Artigo • O Efeito Chicote na Cadeia de Abastecimentos
fatores que modelam o comportamento das empresas e suas interações com os
Informações desencontradas
participantes de sua cadeia. Uma vez que a falta de harmonia na cadeia é um dos
sobre
a real demanda impactam
responsáveis pelo surgimento do efeito chicote, é necessário desenvolver ações
negativamente
nos níveis de estoques
que reduzam ou eliminem seus reflexos.
– e assim o fluxo de caixa e o nível
Neste texto, pretende-se explicar o efeito chicote: suas causas, as formas
de atendimento ao consumidor.
como ele se apresenta e os meios para combatê-lo. Imagine uma indústria que
Este efeito é ampliado para os
recebe encomendas de um distribuidor, que por sua vez faz suas vendas a um vafornecedores, criando o indesejado
rejista. O varejista acompanha a demanda do consumidor e faz seus pedidos ao
efeito chicote
distribuidor, incluindo uma margem de segurança. Já o distribuidor, com a mesma preocupação de se proteger contra possíveis faltas, faz um pedido à indústria
para atender o varejista e mais certa quantidade para sua própria segurança. A indústria,
O efeito chicote é resultado da discrepor sua vez, precisa atender a este volume de pedidos, que inclui além da demanda real, as pância entre a demanda real e a prevista
duas quantidades de segurança de cada um dos elos subseqüentes. O que aconteceria se unida à intenção das empresas alinharem
os consumidores comprassem menos do que o varejista previu?
sua oferta a essa demanda, sem deixar de
Como essa demanda prevista muitas vezes não se concretiza, tanto por estar acima ou atendê-la. Desta forma, as empresas, por
abaixo do previsto, as empresas acabam com um volume inadequado de produtos em es- não possuírem a informação correta de
toque, o que as leva, por exemplo, a reduzirem suas compras, como forma de proteger seu seus clientes, buscam se proteger e gafluxo de caixa. Essas situações criam aos fornecedores uma falsa impressão de demanda rantir o nível de atendimento por meio do
real. Independentemente da situação, esse reflexo vai sendo passado de cliente para for- aumento do nível de estoques para uma
necedor, até o final da cadeia, estabelecendo o efeito chicote. Este reflexo será tanto maior possível variação nesta demanda.
quanto mais distante do consumidor final estiver o elo da cadeia de suprimentos
Em recente pesquisa realizada por
Para demonstrar esse contexto será, inicialmente, apresentado um cenário possível em
Hau Lee, juntamente com executivos da
que os componentes de uma cadeia procuram alinhar sua oferta à demanda. Identificada
Procter & Gamble, mostrou-se que em
a influência do efeito chicote, este poderá ser reduzido e as funções de produção, compras
um produto com pequena variação de
e estoques das empresas serão beneficiadas com mais estabilidade, previsibilidade e liberavendas no varejo ocorria uma grande vação de capital.
riação nos pedidos feitos aos fornecedores. Essa variação podia ser causada por
Conhecendo o Efeito Chicote
vários fatores, mas logo constataram que
Inicialmente considerado um mal necessário, ainda é difícil saber se o conceito de SCM não era devido à variação de consumo no
tem como um de seus objetivos combater esse fenômeno ou se foi por meio do SCM que mercado. Outras pesquisas indicam que a
ele foi identificado e que suas causas começaram a ser estudadas, há 50 anos por Forrester variabilidade no nível de estoques tende
(daí o efeito chicote também ser chamado de Efeito Forrester). O que é importante é o fato a ser maior ao se afastar do ponto de conde que esse efeito causa prejuízos às empresas, uma vez que ocorre sobre a expectativa de sumo, tendo como causas o compartilhamento de informações deficientes, dados
demanda, o que influencia toda a estrutura das empresas de uma cadeia.
Mês
Fornecedor
Montadora
Distribuidor
Produção E.inicial E.Final Produção E.inicial E.Final Compra
1
100
100
2
20
100
3
4
5
6
7
8
196
60
0
128
62
62
236
62
149
0
149
46
134
46
101
115
18
108
207
63
9
10
Fonte: adaptado de Slack et al 1999.
100
100
100
60
60
100
128
128
80
100
Varejista
E.inicial E.Final Compra
Mercado
E.inicial E.Final Demanda
100
100
100
100
100
100
100
80
80
100
90
90
100
95
95
104
104
90
97
97
95
96
96
97
90
90
96
93
93
104
83
83
149
83
116
116
90
103
103
93
98
98
46
116
81
81
103
92
92
98
95
95
115
115
81
98
98
92
95
95
95
95
95
108
108
98
103
103
95
99
99
95
97
97
63
63
103
83
83
99
91
91
97
94
94
135
135
83
109
109
91
100
100
94
97
97
Tabela 1. Ilustração do efeito chicote numa rede de suprimentos fictícia.
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Artigo publicado
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Artigo • O Efeito Chicote na Cadeia de Abastecimentos
em relação ao efeito chide mercado escassos, o que gera previsões incorretas.
Quanto
mais
cote.
Como forma de representar o efeito chicote, foi desenvolvida a
fatores influenciarem a
O desequilíbrio entabela 1, que está dividida em dez períodos. Em cada período, dada
demanda, mais difícil
tre os níveis de estoques
a demanda do mercado, o varejista, com sua política de equilibrar
será prevê-la.
das empresas da cadeia
seu estoque com a demanda, compra o número de unidades que
de suprimentos pode
completam a demanda atual. E assim o distribuidor, a montadora e o
fornecedor fazem o mesmo, ou seja, todos mantêm em estoque uma quantidade igual ser causado pelo método de agregação de
à demanda atual, imaginando ser esta a segurança necessária para o próximo período. valor nos diferentes elos. Cabe aqui ressaltar
que todos os processos de uma empresa
Leva-se em consideração, ainda, que a compra feita é recebida no mesmo período.
A proposta desta representação é mostrar que uma pequena variação de demanda do têm a função de agregar o maior valor ao
mercado pode causar uma grande variação no fornecedor inicial. A idéia representada é produto, aos olhos do cliente; aqueles ponque o fornecedor tentará equilibrar o estoque final com a demanda do período, pois ele tos que não fazem parte do core business,
está no meio da cadeia e não possui a informação do mercado final, funcionando, assim, que não consigam atender à necessidade
como uma espécie de previsão. Logicamente, nas organizações, existem mais fatores que de agregar valor e ser reconhecido por isso
atuam como restrições, que é o caso da capacidade de produção, que neste modelo foi con- estão, na maioria das vezes, numa marcha
siderada ilimitada ou suficiente para atender à demanda imediatamente, sem lead times. muito forte de terceirização (vide exemplo
Ainda, na grande maioria das empresas, existe a sazonalidade nas vendas, que este modelo das antigas fábricas de automóveis, que denão contemplou, tendo sido verificada uma variação máxima no consumo de 7% nos 10 tinham produção de quase todas as peças,
períodos apresentados. Esta variação é fruto da simulação realizada, e pode ser considerada e hoje grande parte delas apenas monta
pequena frente a todas as variáveis a que uma cadeia de suprimentos está sujeita. Destaca- peças que são produzidas externamente).
De fato, uma forma de se agregar valor
se ainda que quanto maior a variação no ponto de consumo, aqui representada por apenas
ao produto é manter a sua disponibilidade.
7%, mais será sentido o efeito ao longo da cadeia, até chegar ao fornecedor.
A figura 1 é resultado dessa variação na demanda. Por exemplo, se for observada a co- Por exemplo, a manutenção de produtos
luna referente à demanda do mercado, na tabela 1, é possível perceber que ela varia muito em estoque ou nas prateleiras de um superpouco, o que pode ser visualizado no gráfico. Porém, conforme os pedidos foram sendo mercado, como forma de garantir ao cliente
efetuados entre as empresas, distanciando-se do ponto de consumo, a variação foi aumen- que ele sempre encontre os produtos desejados, quando ele os quiser, é uma forma de
tando, o que representa o efeito chicote.
agregar valor por meio da disponibilidade.
250
Porém, isso tem um custo, que pode repre200
Fornecedor
sentar até 40% do preço do produto. É um
Montadora
150
montante extremamente alto e que pode
Distribuidor
100
ser revertido em lucros para as empresas.
Varejista
Os custos de estocagem ocasionados
50
Mercado
pelo efeito, em determinados períodos, e
0
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
a falta de estoques para atender à deman-50
da, em outros, são distribuídos por toda a
Figura 1. Ilustração gráfica do efeito chicote numa cadeia de abastecimentos fictícia.
cadeia, podendo até tornar um produto
Fonte: adaptado de Slack (1999).
O que foi observado em outras situações semelhantes a esta é o fato de que se acres- não-competitivo. A visão de conjunto, de
centadas mais variáveis, como as citadas anteriormente, o efeito continua, porém os pontos compartilhamento de informações inerende pico e declive se deslocam de suas posições. Isso pode, por exemplo, gerar momentos te ao conceito da SCM é oportuna para a eliem que a demanda está em alta, mas a produção em baixa. Acrescentando-se essas outras minação do efeito chicote, o que será visto
restrições, a variação e a incerteza aumentariam. Isso provavelmente causaria maiores im- no próximo item.
pactos na cadeia. Como resultado, quanto mais fatores influenciarem a demanda, mais difícil será prevê-la. De maneira geral, as empresas mantêm estoques por diversos motivos. Por
exemplo, existem estoques em trânsito para produtos sendo transportados; estoques em
processo para aqueles lotes ainda não finalizados; estoques sazonais para cobrir períodos
com maior demanda já conhecida historicamente; e estoque de segurança para incertezas
quanto a entregas e variações na demanda. É em função deste último tipo de estoques,
especialmente sobre as incertezas causadas por variações na demanda, que se propõe agir
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As causas e propostas de
solução
Visto o alto custo incorrido para as empresas devido aos estoques, e sendo o efeito chicote um dos propulsores da variação
dos mesmos, busca-se identificar as causas
Artigo • O Efeito Chicote na Cadeia de Abastecimentos
deste efeito. Pesquisas realizadas por Hau Lee em 2004 encontraram quatro causas principais para o efeito chicote, como segue:
• processamento da previsão de demanda;
• jogo da escassez ou racionamento;
• acúmulo de pedidos;
• flutuações de preços.
Cada um desses fatores tem o poder de causar o efeito chicote. Porém, podem atuar em
efeito combinado, o que é muito provável, como será explicado a seguir.
Processamento da previsão de demanda
A previsão da demanda é um fator fundamental para definição da estratégia de
estocagem e de produção, esta mais importante para empresas industriais e aquela
para empresas de distribuição e comerciais. Assim, quanto mais precisos forem os dados menores serão as possibilidades de erro na previsão e maiores as possibilidades
de um bom desempenho financeiro. É importante ressaltar que a precisão dos dados
não elimina totalmente a possibilidade de erros na previsão, dependendo também do
tratamento dos mesmos. Normalmente, a coleta de dados pode acontecer de várias
maneiras. Uma delas é trabalhar com base na demanda passada. Outra pode ser por
meio da tentativa de captar os sinais de demanda vindos do mercado. Porém, o risco de utilizar qualquer um dos dois meios é muito grande, e é uma das causas fundamentais do desenvolvimento do efeito chicote na cadeia. A única forma de conseguir
precisão nesses dados é conseguindo-os do ponto de consumo, ou que a previsão do
cliente seja com base nestes dados. No entanto, para que isso seja possível, é necessá-
rio que exista um nível de informação e
colaboração muito grande, além da confiança necessária entre os participantes
da cadeia. Percebe-se que existem, aqui,
aspectos ligados ao conceito de SCM.
Porém, o simples fato de compartilhar a
informação de demanda não é suficiente,
pois cada componente da cadeia pode
ter diferentes métodos de previsão. Essa
diferença pode ser devido às estratégias
da empresa e às técnicas de previsão, por
exemplo. É necessário, então, que: ou todos pratiquem o mesmo modelo, ou que
uma única empresa faça a previsão para
todas as outras. Aqui há a necessidade de
uso de potentes softwares de gestão e
compartilhamento de dados.
Lead time longos contribuem para
que ocorra o efeito chicote. É necessário,
então, que esses ciclos de pedidos sejam
reduzidos, de forma que o cliente possa
se sentir mais seguro em relação à programação efetuada, evitando a sensação de
falta de proteção quanto aos estoques.
Artigo • O Efeito Chicote na Cadeia de Abastecimentos
O jogo da escassez ou racionamento
Se um varejista considerar a possibilidade de que irá acontecer uma escassez nos produtos de determinada empresa, é muito provável que ele irá aumentar o tamanho de seus
pedidos, como forma de garantir para si uma boa parcela da produção do fabricante. Isso
fará com que o fabricante necessite tomar cuidado no momento de fazer a alocação de sua
produção. Seja por necessidade ou por estratégia, o racionamento de produtos para o mercado influencia no hábito de como as empresas efetuam o pedido. Ou seja, se for percebida
uma demanda superior a oferta é bem provável que as empresas irão se prevenir, fazendo
pedidos maiores. Porém, esses pedidos serão atendidos e elevarão os estoques dos clientes,
que por sua vez não farão novos pedidos. Dessa forma, a indústria, que desta vez estará
prevenida, ficará com seus estoques acima do estabelecido. É importante, portanto, que o
fabricante se previna desse jogo, sendo necessário alertar os clientes de uma ilusória falta de
produtos. Para isso, sugere-se que a informação sobre os níveis de produção e estocagem
sejam compartilhados. Da mesma forma que os clientes compartilhem a previsão sobre a
demanda. Apesar de que isso não irá resolver o problema como um todo, pois em muitos
casos os produtos são realmente escassos.
Para este último caso, é possível utilizar contratos que garantam a entrega da produção.
Considerando-se a possibilidade de mudança nos tamanhos dos pedidos, apenas em um
determinado volume.
O tamanho do pedido
A política de preços
utilizada por uma empresa
influencia muito na forma
como os clientes se
comportam com relação
aos pedidos.
O tamanho do pedido é influenciado por dois
fatores: o processo de revisão periódica e o custo de
processamento de um pedido. O processo de revisão
periódica pode ser melhorado com o acesso aos dados do ponto-de-venda. Uma vez que devido à falta
de certeza do que ocorre no final da cadeia, o fabricante muitas vezes acaba por revisar o
tamanho do lote a ser produzido ou os produtos nele contidos. Esse compartilhamento
pode determinar uma agenda de produção coerente com as necessidades do mercado.
Já o custo de processamento de um pedido influencia os clientes a tentarem reduzir
ao máximo o número de compras, o que traz bastante variação ao nível de produção.
Isso é resultado da tentativa de diminuir os esforços com tratamento da informação e levantamento de dados. Ao reduzir o número de pedidos e conseqüentemente o custo de
processamento e de transporte, devido a um número menor de viagens, consegue-se a
economia de escala. O que pode ser feito neste caso é o uso de transportadoras de cargas
fracionadas ou operadores logísticos que, por serem especializados no serviço de distribuição, podem trabalhar com custos menores. Dessa forma, o cliente não seria obrigado
a comprar grandes lotes para ratear os custos de transporte. Quanto ao desconto sobre
vendas, ele pode ser oferecido com base no histórico de compras, facilmente apurado
com os softwares atualmente utilizados. Assim, o cliente pode continuar tendo direito aos
mesmos descontos, com um custo de transporte também idêntico, mas com um nível
de serviço superior. Os reflexos serão lotes menores, com o lote de produção sofrendo
menos variações e a empresa se tornando mais sensível às informações recebidas dos
clientes. Isso porque os lotes serão mais constantes, ao contrário do que eram antes.
Flutuações de preços
A política de preços utilizada por uma empresa influencia muito na forma como os
clientes se comportam com relação aos pedidos. Se, por exemplo, existirem épocas em que
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ocorrem promoções, é possível que muitos
pedidos sejam realizados neste período. O
que faz com que os estoques esvaziem e
a produção fique com uma programação
superior a sua capacidade, causando maiores custos de produção. Neste caso, tem-se,
além da redução da margem devido aos
descontos, um aumento de custos para
atender a toda demanda.
Uma solução seria o uso de uma política de preços com menos variações, na qual
se beneficie o cliente que mantiver uma
freqüência de compras, em vez do uso de
promoções. Isso seria possível se a empresa fizesse um preço especial para o cliente,
baseado no seu potencial de compra e não
no seu volume. Isso se reflete na política de
produção e exige sinergia entre as equipes
de venda com a industrial ou de
operações.
Análise e soluções
A tabela 2 apresenta um resumo das quatro forças que causam
o efeito chicote e a forma de agir
sobre elas.
A solução para o efeito chicote pode
estar baseada em duas ações: compartilhar
a informação e alinhar as estratégias. Estão
disponíveis no mercado diversos sistemas
capazes de gerenciar os dados disponíveis
e convertê-los em informações úteis para
todos os componentes da cadeia de suprimentos, com segurança e agilidade. Com
comunicação padronizada e sistemas de
previsão eficiente compartilhado, garantese que todos na cadeia “falem a mesma
língua”. Quanto à estratégia, é necessário
que as empresas pensem na cadeia como
um todo, e para isso é preciso que os objetivos sejam comuns para todos. Este objetivo
comum é obter lucro, sendo que para isso
é necessário que os elos da cadeia estejam
cientes do seu papel e sua contribuição.
De uma forma geral, muito já foi estudado sobre o assunto. A seguir, apresenta-se
um resumo, conforme tabela 3, com a solução sugerida por três autores, entre eles, Forrester e Lee, citados ao longo deste trabalho.
Artigo • O Efeito Chicote na Cadeia de Abastecimentos
Dias (2003) propõe três ações para a eliminavalor do cliente, faz-se neA
solução
para
o
efeito
chicote
ção das causas do efeito chicote já identificadas.
cessário, uma vez que ele
passa pelo compartilhamento
As três ações estão baseadas na melhoria do
possibilitará o uso da próde informações e alinhamento
processo logístico, compartilhamento de inforpria TI, anteriormente code estratégias: comunicação
mações e redução do efeito de políticas comermentada. Esta atitude só se
padronizada, objetivos comuns
ciais. Pode-se considerar que essas ações são
torna viável se a governança
e cooperação na cadeia de
também necessárias para o bom funcionamenda cadeia de abastecimento
suprimentos podem trazer
to de uma SCM. A cooperação e a coordenação
se mostrar forte o suficiente
resultados surpreendentes.
entre as operações das empresas são necessápara alinhar as percepções
rias para evitar ou minimizar a variabilidade do
de todos os seus atores para
nível de estoque nas cadeias de suprimentos. Essa afirmação é muito real quando analio mesmo objetivo. Por exemplo, se uma
sadas empresas montadoras de carros, por exemplo. Elas e seus parceiros trabalham num
empresa possuir uma visão voltada para a
modelo Supply Chain Management, o que contribui efetivamente para a redução dos
diferenciação e um de seus fornecedores
níveis de estoques e a sua variabilidade, tornando o sistema mais ágil e flexível.
tiver uma visão muito voltada para cusAgindo sobre os quatro fatores descritos neste texto, identificados como vilões cautos, provavelmente haverá conflitos, pois
sadores do efeito chicote, é possível conseguir resultados promissores. A solução passa
o desejo de reduzir custos de um não é
por apenas duas ações: uso de TI e alinhamento estratégico.
compatível com a necessidade de oferecer
produtos diferenciados do outro. É, portanCausas
Fatores que contribuem
Medidas de contenção
to, visível que o problema do efeito chicote
- Falta de visibilidade da
- Compartilhar acesso às
Processamento
não será sanado com uma única ação. O
demanda final.
informações sobre demanda.
da previsão de
- Múltiplas previsões.
- Planejamento único.
desenvolvimento de competências por todemanda
- Ciclos de pedidos longos.
- Redução do tempo de ciclo.
dos os elos da cadeia é que irá desencadear
- Dividir a produção com base no
o sucesso sinérgico. É necessário que todos
- Forma de racionamento
histórico de vendas.
proporcional.
- Compartilhamento de
estejam comprometidos em compartilhar
- Ignorar as condições de
informações sobre capacidade e
informações, dispostos a gerenciar e seO jogo da escassez suprimento.
suprimentos.
- Pedidos irrestritos sem
- Limitar a flexibilidade a partir de
rem gerenciados, dentro do conceito de
restrições de devolução.
um determinado prazo, e reservar
capacidade.
SCM. Percebe-se que as ações ligadas com
- Alto custo de pedido.
- Uso adequado de TI.
a gestão da cadeia de abastecimento têm
O tamanho do
- Economia de escala (cargas
- Negociação de descontos para
pedido
servido como antídoto para muitos parafechadas).
cargas fracionadas.
- Alta e baixa de preços.
digmas existentes na empresa. Neste caso
Flutuações de
- Preço baixo todo dia.
- Distribuição e compras nãopreços
- Contratos de fornecimento.
específico, foi tratado sobre o efeito chicosincronizadas.
te, identificadas suas causas e propostas
Fonte: adaptado de Lee et al (2004).
as possíveis soluções, pôde ser visto que a
Tabela 2. As causas e as medidas de contenção para o efeito chicote.
integração entre empresas fornecedoras e
clientes até os extremos da cadeia pode ser
Forrester (1958)
Lee et al. (1997)
Simchi-Levi et al. (2000)
útil e necessário.
- Formação de lotes
- Agilização do
Evolução do
pensamento logístico
Compartilhamento
de informações
Redução do efeito de
políticas comerciais
processamento de
(para compra e
compra e venda
produção)
- Melhoria na qualidade
dos dados
- Ajuste dos estoques
(sem consideração)
- Redução de lead times
: : Referências
- Formação de parcerias
- Identificação dos
padrões de demanda
estratégicas
•
- Redução da incerteza
- Variações de preço
- Redução da
- Racionamento
variabilidade
•
Fonte: adaptado de Dias (2003).
•
Tabela 3. Indicações para redução do efeito chicote.
•
Considerações finais
O uso da TI utilizada como ferramenta de troca de dados pode reduzir o impacto do
efeito chicote. É necessário, porém, que esta ferramenta venha alinhada com as estratégias
das empresas e de toda cadeia. O alinhamento das estratégias, com base na percepção de
•
•
BALLOU, R. Business Logistics Management: planning, organizing, and controlling the supply chain. 4ª ed. Londes: Prentice
Hall, 1998.
DIAS, G. P. P. Gestão dos estoques numa cadeia de distribuição
com sistema de reposição automática e ambiente colaborativo.
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SLACK, N., CHAMBER, S.; HARDLAND, C.; HARRISON, A. JOHNSTON, R. Administração da Produção. São Paulo: Atlas, 1999.
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Logistics Management. Nº. 35, Setembro/Outubro 2005.
Ano 1 • edição 5
25
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