o circuito espacial de produção agroindustrial de mandioca no Rio

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O CIRCUITO ESPACIAL DE PRODUÇÃO AGROINDUSTRIAL DE MANDIOCA
NO RIO GRANDE DO NORTE
CIRCUIT OF SPATIAL CASSAVA AGROINDUSTRIAL PRODUCTION IN RIO
GRANDE DO NORTE
Raquel Silva dos Anjos1
[email protected]
Francisco Fransualdo de Azevedo
Prof. Dr. da Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN
[email protected]
RESUMO
As discussões sobre os circuitos espaciais de produção são essenciais no entendimento da centralidade
da circulação bem como no encadeamento das diversas etapas produtivas. Nesse sentido, a circulação
ganha destaque, demonstrando o caráter essencial dos fluxos para a realização da produção. Desse
modo, o objetivo deste artigo é discutir como o circuito espacial de produção agroindustrial de
mandioca tem se configurado no território norte-rio-grandense, a partir do uso que faz deste no atual
período. Os procedimentos metodológicos contemplam levantamento bibliográfico e documental, bem
como coleta e sistematização de dados secundários, através de órgãos como IBGE, SEBRAE-RN e
FIERN. Evidencia-se que o circuito espacial de produção agroindustrial de mandioca no Rio Grande
do Norte está inserido em um processo de transformações técnicas e organizacionais ainda recentes,
revelando assim, um conjunto de complexidades e relações que permeiam o referido circuito
produtivo.
Palavras-chave: Agroindústria de mandioca. Circuito espacial de produção. Território.
ABSTRACT
Discussions about the spatial production circuits are essential in understanding the centrality of
movement as well in linking the various production stages. In this sense, the movement is highlighted,
demonstrating the essential character of the flows for the realization of production. Thus, the purpose
of this article is to discuss how the space circuit agroindustrial production of cassava has been set in
the north of Rio Grande territory from the use it makes of this in the current period. The
methodological procedures include literature review and documentary survey and collection and
systematization of secondary data, through bodies such as IBGE, SEBRAE-RN and FIERN. It is
evident that the space circuit cassava agro-industrial production in Rio Grande do Norte is part of a
process of technical and organizational changes still fresh, thus revealing a set of complexities and
relationships that permeate said production circuit.
Key words: Agribusiness of cassava. Spatialcircuitproduction. Territory.
INTRODUÇÃO
O presente trabalho está relacionado à pesquisa de mestrado intitulada “O circuito
espacial de produção agroindustrial de mandioca no Rio Grande do Norte”, em andamento no
Programa de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande
do Norte (PPGe-UFRN)2. Com base em autores como Barrios (1978), Moraes (1985), Santos
e Silveira (2001), Arroyo (2008/2010),Castillo e Frederico (2010), entre outros, entende-se
que as discussões acerca dos circuitos espaciais de produção são essenciais na compreensão
da centralidade da circulação e no encadeamento das diversas etapas da produção, denotando,
assim, sua importância conceitual e sua operacionalidade na ciência geográfica.
Para melhor entendimento, é válido esclarecer que a utilização do termo
“agroindustrial” justifica-se por se tratar da transformação de uma matéria-prima, no caso a
mandioca, que é proveniente da agricultura. O beneficiamento da referida raiz no período
atual está diretamente associado à intensificação das relações estabelecidas entre a agricultura
e a indústria, embora ainda com pouca expressividade, considerando a realidade do Rio
Grande do Norte. O processo de reestruturação produtiva que atingiu determinados segmentos
da agricultura, conforme Hespanhol et.al (2012), também está articulado com essa maior
interação com a indústria.
Com o processo de reestruturação produtiva3e diante da atual conjuntura econômica
do Rio Grande do Norte, tendo em vista os rebatimentos dos processos econômicos no
território, pode-se afirmar que ocorreram mudanças, sobretudo de caráter técnico e
organizacional, no setor mandioqueiro do estado, compreendendo assim, a reestruturação do
circuito espacial de produçãode mandioca propriamente dito. Tal processo deu-se de modo
difuso, com permanências e coexistências de práticas e relações sociais de produção; mas
tambémde redefinição do uso do território pelo referido circuito espacial produtivo, a partir do
papel que passou a ter a mecanização, sobretudo no que se refere ao beneficiamento da
matéria-prima.
Desse modo, este trabalho visa discutir como o circuito espacial de produção
agroindustrial de mandioca tem se configurado no território norte-rio-grandense, a partir do
uso que faz deste no atual período. Para tanto, adotou-se como procedimentos metodológicos
a realização de levantamentos bibliográficos e documentais, coleta e sistematização de dados
secundários, através de órgãos como o Instituto Brasileiro de Geografiae Estatística (IBGE), o
Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Rio Grande do Norte
(SEBRAE-RN), e a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (FIERN);
fontes e procedimentos esses de fundamental importância para análise e elaboração das
ilustrações contidas no então artigo.
CIRCULARIDADE DA PRODUÇÃO, USO E ORGANIZAÇÃO DO TERRITÓRIO
O conceito de circuito espacial de produção enfatiza a um só tempo a circulação, os
fluxos que permitem a produção (circuito); o espaço geográfico enquanto instância social que
se impõe a tudo e a todos (espacial); e a atividade produtiva dominante, devendo-se levar em
consideração os agentes e, sobretudo, as firmas (produtivo). Sendo assim, o mais adequado é
buscar compreender o movimento que é próprio do território, este se caracterizando tanto
como o resultado do processo histórico quanto à base material e social das novas ações
humanas (CASTILLO E FREDERICO, 2010).
Segundo Mónica Arroyo (2008), a escala geográfica de ação dos diferentes circuitos
constitui um princípio de organização espacial, criando um tecido cuja forma, extensão e
complexidade estão mudando permanentemente. Mesmo que as fases ou momentos
produtivos se desenvolvam de forma geograficamente dispersa, inclusive para além das
fronteiras nacionais, haverá sempre uma unidade do movimento que permite indicar como
cada fração do território é interdependente das demais.
Nessa perspectiva, é importante considerar que, para o entendimento de um circuito
espacial de produção, além da atividade produtiva dominante, a logística, os agentes
envolvidos e seus círculos de cooperação, se deve analisar o uso e a organização do território.
Por meio desta análise pode-se perceber a distribuição, a densidade, o nível técnico e o arranjo
dos sistemas de objetos envolvidos na circulação da produção, bem como em todo o circuito
espacial de produção (CASTILLO e FREDERICO, 2010). Em outras palavras, os autores
enfatizam que
De maneira geral, o uso e a organização territorial referemse à quantidade, à qualidade, à distribuição e ao arranjo
espacial dos sistemas de objetos envolvidos na circularidade
da produção, e a maneira como são usados, possibilitando
verificar, a um só tempo, a organização interna dos
subespaços, o uso seletivo dos sistemas técnicos e a forma
como são estabelecidas as relações com outros subespaços.
(CASTILLO e FREDERICO, 2010, p. 465-466).
No atual período, a definição no que concerne à localização das atividades produtivas
dominantes é resultado, sobremaneira, de decisões corporativas sobre os atributos materiais e
normativos dispostos nos lugares; sendo tarefa do pesquisador tentar entender o sentido dessa
localização. Para Santos (1996), a identificação da hierarquia entre os lugares também faz
parte desse procedimento analítico, distinguindo os lugares que produzem massa e abrigam o
comando técnico da produção dos lugares que produzem fluxos e detém o comando político
da produção.
Cada lugar abriga, ao mesmo tempo, diferentes etapas de diversos circuitos
produtivos, permitindo: confrontar a configuração territorial pretérita com os novos arranjos
espaciais produtivos; avaliar o papel das densidades normativas, inclusive as solidariedades
institucionais e as relações de conflito e cooperação entre as diversas escalas do poder
público; e identificar a hierarquia entre os lugares e as diversas temporalidades coexistentes
(CASTILLO e Frederico, 2010).
Portanto, busca-se, nesse sentido, apreender a constituição do território a partir dos
seus usos, do seu movimento conjunto e de suas partes, reconhecendo as respectivas
complementaridades. Desse modo, é discutida a divisão territorial do trabalho e os círculos de
cooperação, o que, ao mesmo tempo, permite pensar o território como ator e não apenas como
um palco, isto é, o território no seu papel ativo (SANTOS e SILVEIRA, 2001).
Em outras palavras, a divisão do trabalho em determinados territórios e a
especialização dos trabalhadores em determinadas atividades têm suas relações aprofundadas
no período atual. Como tentativa de apreender o movimento desse conjunto de novos eventos,
ou seja, dessa nova situação geográfica, Santos (1986), assim como Santos e Silveira (2001)
propõem levar em consideração os circuitos espaciais da produção, e nesse contexto, insere-se
o circuito espacial de produção agroindustrial de mandioca no Rio Grande do Norte.
Mas, antes de enfatizar o circuito espacial produtivo mencionado, tem-se a
importância de uma abordagem a respeito da mandiocultura no Brasil, considerando sua
relevância na compreensão e no resgate, de forma literal, das raízes do processo de formação
territorial de muitas cidades e estados brasileiros.
Nessa perspectiva, sobre a procedência da mandioca o autor Bruno Zétola (2007),
afirma que, ao contrário do inhame, cuja origem é africana, a mandioca tem suas raízes no
Brasil, no sudoeste da bacia amazônica, e foi entre os indígenas da costa leste da América do
Sul que se tornou elemento indispensável e constitutivo da vida social. Acrescenta-se a isso
que a mandioca foi a principal base alimentar utilizada durante todo o período de
colonizaçãobrasileira, uma vez que os portugueses tiveram que se adaptar à alimentação
nativa para garantir a sobrevivência.
No século XIX, a rudimentar técnica utilizada para o plantio da mandioca era
praticamente a mesma que fora herdada dos povos indígenas, o que só era possível em virtude
da imensidão de terras disponíveis no Brasil. Mais tarde, com a tentativa de “modernização”
do país, houve uma significativa transformação na estrutura agroalimentar nacional, pois
inaugurava uma nova forma de propriedade (a pequena produção), nova unidade econômica
(a família), novo tipo de relação de produção (o campesinato autônomo e o Estado) e o novo
padrão de produção, por meio de técnicas trazidas pelos imigrantes estrangeiros (ZÉTOLA,
2007).
Em 1970,o Brasil foi considerado o maior produtor mundial de mandioca, quando
atingiu 30 milhões de toneladas. No território brasileiro, a produção de mandioca havia se
estabilizado em torno de 25 milhões de toneladas, porém na safra de 2012/13 a redução foi
acentuada devido à forte seca nos estados do Nordeste. Em função dessa redução, a produção
brasileira em 2013 alcançou apenas 21 milhões de toneladas, significando a menor produção
dos últimos 10 anos (DERAL, 2015).
Dados da lavoura temporária de mandioca, do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística – IBGE, ano 2014, revelam que os três estados brasileiros que mais produziram
mandioca foram o Pará, com 4.914.831 toneladas, em seguida, o Paraná, com uma produção
de 3.958.798 toneladas, e a Bahia, com 2.131.473 toneladas. O estado do Rio Grande do
Norte, objeto espacial-empírico de investigação desse trabalho, ocupou o 22º lugar entre os
estados brasileiros, com uma produção de 160.286 toneladas de mandioca no ano de 2014.
Todavia, em razão da fácil adaptação às diversas condições edafoclimáticas, o cultivo
de mandioca está presente em todos os estados brasileiros, distinguindo-se assim, de outras
culturas como o trigo e o café, mais restritas à determinadas regiões. Nesse viés, é válido
destacar que, apesar de abranger todo o território nacional, existem algumas diferenciações
condizentes aos aspectos produtivos bem como as relações de trabalho.
A região Sudeste destaca-se como a principal em termos de pesquisa no que se refere à
mandioca.Ademais, possui a maior produtividade agrícola e o principal polo de
comercialização, localizado no estado de São Paulo. O referido estado além de grande
consumidor, possui modernas indústrias de fécula e farinha, contribuindo, excepcionalmente,
com o abastecimento do mercado nordestino quando afetado pelos períodos de seca (DERAL,
2015).
Em contrapartida, nas regiões Norte e Nordeste, a produção é voltada para abastecer
principalmente o mercado interno. Além disso, ambas regiões possuem grande quantidade de
indústrias de farinha e outros derivados da mandioca, geralmente de pequeno porte, com
poucos instrumentos técnicos e predominando ainda a utilização de mão de obra no processo
produtivo. O circuito espacial de produção agroindustrial de mandioca no estado do Rio
Grande do Norte possui muito dessas particularidades, que serão discutidas a seguir.
PRODUÇÃO E MOVIMENTO NO RIO GRANDE DO NORTE: DISCUTINDO O
CIRCUITO ESPACIAL DE PRODUÇÃO AGROINDUSTRIAL DE MANDIOCA
Os circuitos espaciais produtivos mantêm relação direta com o território quando nele
se instalam e dele fazem usos diversos. Quanto ao uso do território, trata-se de uma proposta
totalmente empiricizável (Santos e Silveira, 2001), e, nessa seção, a discussão será voltada
parao circuito espacial de produção agroindustrial de mandioca no uso do território, tendo
como recorte espacial o Rio Grande do Norte. Espera-se apresentar um panorama das etapas
do referido circuito, e como este tem intensificado as dinâmicas territoriais do estado do Rio
Grande do Norte.
De antemão, é interessante ressaltar que o circuito espacial de produção agroindustrial
de mandioca no Rio Grande do Norte abrange uma complexidade de fatores e relações, a
começar pela própria “matéria-prima” do referido circuito que é a mandioca, na maioria das
vezes, negligenciada pelas ações do Estado e no contexto da modernização da agricultura
brasileira. Em segundo lugar, existem os interesses antagônicos que o permeiam,
representados pelos diferentes agentes envolvidos na circularidade da produção. Além disso, o
circuito espacial de produção agroindustrial de mandioca no Rio Grande do Norte está
inserido em um processo de transformações técnicas e organizacionais ainda recentes, que
tiveram seu desenvolvimento, sobretudo, a partir da década de 1980.
Em relação à cultura de mandioca, é sabido que esta apresenta significativa relevância
na formação territorial norte-rio-grandense, e que, atualmente, é cultivada em praticamente
todo o estado, mas de modo mais intenso nos municípios que compõem a Microrregião
Agreste Potiguar. A referida Microrregião responde em mais de 47% da produção estadual de
mandioca, segundo IBGE/2014.
Em 2014, a produção de mandioca no estado aumentou satisfatoriamente,
comparando-se ao ano de 20134. Foram quase 80 mil toneladas produzidas a mais em relação
ao ano anterior. A seguir, tem-se uma tabela com os municípios que mais produziram
mandioca no estado do Rio Grande do Norte no ano de 2014.
PRINCIPAIS MUNICÍPIOS PRODUTORES DE MANDIOCA
NO RIO GRANDE DO NORTE (2014)
Município
Produção (t)
1º Januário Cicco (Boa Saúde)
40.600
2º Touros
18.500
3º Pureza
18.000
4º Lagoa d´Anta
7.500
5º Senador Elói de Souza
7.200
6º Tenente Laurentino Cruz
5.400
7º Ceará-Mirim
5.000
8º Passa e Fica
4.800
9º Bom Jesus
4.200
10º Taipu
3.600
Fonte: IBGE. Produção Agrícola Municipal, 2014.
Como se pode observar na tabela anterior, os dados são bastante reveladores no
contexto geral da discussão empírica do presente trabalho. Desse modo, infere-se que a
representatividade dos municípios de Boa Saúde, Touros e Pureza no que concerne à
produção de mandioca no estado do Rio Grande do Norte, está relacionada possivelmente à
presença de assentamentos rurais nesses municípios.
O município de Touros, localizado na região do Mato Grande, concentra uma
quantidade significativa de assentamentos, nos quais há o desenvolvimento de algumas
culturas, como a mandioca. Em Pureza, por exemplo, existe a “Associação dos Familiares do
Assentamento Bernardo Marinho”, cuja principal atividade é o cultivo de mandioca. Boa
Saúde, localizado na Região Agreste, também não escapa dessa lógica, uma vez que também
possui assentamentos rurais, e ano após ano, tem se observado tanto o aumento da área
plantada (ha) quanto da própria produção em toneladas de mandioca no referido município.
Associado a esse aspecto, há que se considerar que a mandioca é fortemente cultivada
por pequenos produtores familiares, geralmente em consórcio com outras culturas, como o
feijão. O cultivo dá-se em pequenas propriedades, com área de menos de 10 e até 30 hectares,
caracterizando a presença incisiva do minifúndio.
As condições edafoclimáticas também podem explicar a maior produção nos
municípios mencionados. A mandioca possui uma peculiaridade de adaptação às mais
diversas condições de clima e solo, pelo seu caráter resistente. Segundo o Idema (2008), os
municípios de Boa Saúde, Touros e Pureza possuem temperaturas máximas em torno de 32ºC,
o que torna viável a produção.
Tratando-se do processo de beneficiamento de mandioca no Rio Grande do Norte, a
partir dos anos 1980, passam a ocorrer mudanças que vão interferir diretamente na produção e
nas relações de trabalho. Nesse contexto, é válido destacar a transformação, embora que
gradual, das casas de farinha em indústrias de farinha e outros derivados da mandioca, estas
sendo cada vez mais marcadas por instrumentos técnicos movidos à eletricidade, diminuindo
a necessidade de mão de obra e do trabalho braçal.
O modelo de transformação das casas de farinha em indústrias de farinha e outros
derivados da mandioca está de acordo com a portaria número 326 da Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (ANVISA), e consultoria especializada do Sebrae, Emater e Emparn,
somado ao fornecimento de crédito para a atividade proveniente do Banco do Nordeste e do
Banco do Brasil. Salvador (2010) compreende esse processo de transformação como
“modernização da atividade mandioqueira”5.
A modernização da atividade mandioqueira trouxe mudanças que incrementaram a
produção desde o plantio da raiz, mas o beneficiamento da mandioca foi o que mais sofreu
interferência no processo. Apesar de ainda conservar principalmente mulheres no tratamento
da matéria-prima, isto é, na raspagem manual da raiz, a produção de farinha é feita de forma
industrial. Nesse viés, destaca-se a agroindústria de Farinha dos Anjos, localizada no distrito
de Cobé, município de Vera Cruz, dentre outras localizadas no Agreste Potiguar.
Na referida agroindústria, que já foi considerada modelo de modernização das casas de
farinha no país, houve a substituição de todos os equipamentos, como por exemplo, os antigos
tanques de madeira utilizados para a lavagem da mandioca que foram trocados por tanques de
fibra de vidro. Outro exemplo, também a partir da fibra de vidro, foi a inserção de um
depósito de friagem, onde é colocado o produto antes de seguir para a embalagem, conferindo
assim, mais higiene e boa conservação do produto.
Sobre as indústrias de farinha, que no presente trabalho optou-se por utilizar a
denominação “agroindústria”, é interessante evidenciar que estas se concentram
principalmente nos municípios de Vera Cruz e Brejinho; mas também estão localizadas nos
municípios de Serrinha, São Gonçalo do Amarante, Macaíba e no município de São Vicente,
de acordo com os dados do Sistema da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do
Norte (FIERN). De acordo com a entidade, o Rio Grande do Norte apresenta um total de 15
(quinze) agroindústrias cadastradas, responsáveis pela “fabricação de mandioca e derivados”
(CNAE 2.0). Vale destacar que, a maioria desses estabelecimentos, encontra-se na zona rural
dos municípios anteriormente mencionados. O mapa a seguir, mostra a distribuição das
agroindústrias e o número de empregos gerados diretamente na produção de farinha no estado
do Rio Grande do Norte, reafirmando o que foi citado.
Distribuição das agroindústrias e empregos na produção de farinha no Rio Grande do Norte
(2015)
Conforme os dados do Cadastro Industrial, realizado pela Federação das Indústrias do
Rio Grande do Norte (FIERN), as agroindústrias de farinha situadas no estado empregam
diretamente um total de 73 funcionários. A maior parte destes postos de trabalho está no
município de Vera Cruz6, onde se localizam cinco unidades de beneficiamento de mandioca;
seguido do município de Brejinho com quatro unidades cadastradas (FIERN, 2015). Todavia,
atenta-se que, em face de um circuito espacial produtivo em vias modernização, onde as
tradicionais casas de farinha ainda coexistem, e que não estão consequentemente cadastradas,
há o emprego de mão de obra familiar, muito mais expressivo e representativo, assim como a
existência de empregos não formalizados, representando um déficit na organização produtiva,
na qual boa parte dos sujeitos encontra-se marginalizada no âmbito deste circuito espacial
produtivo, submetidos, às vezes, ao trabalho precário e de baixo retorno econômico.
Dos produtos gerados nas agroindústrias do setor mandioqueiro, a maior parte é
destinada para abastecer o próprio estado, mas a produção de farinha também abastece
mercados nos estados de Pernambuco e Ceará. A mandioca de mesa, conhecida no Nordeste
como macaxeira, é comercializada em feiras livres e distribuída em supermercados e
restaurantes, sobretudo na capital do Estado. Os produtos também são vendidos através do
Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) – Compra Direta, ação do Governo Federal cujo
principal objetivo é o fortalecimento da agricultura familiar.
Um caso bem peculiar de produção agroindustrial por sua expressividade no território
potiguar apoia-se na indústria considerada referência na produção de alimentos derivados da
mandioca, a “Primícias do Brasil”, localizada em Macaíba-RN. A referida indústria atende
toda a região Nordeste, além do Pará e Brasília. O estabelecimento já atendeu demandas
internacionais, vindas de alguns países europeus e dos Estados Unidos. Seus produtos, com
certificação de qualidade BPF-PAS7, encontram-se disponíveis nas principais redes e lojas de
atacado e varejo em toda a Região Nordeste, a citar: Carrefour, Bom Preço, Maxxi Atacado,
Hiper
Queiroz,
Supermercado
Nordestão,
Atacadão,
Assaí
Atacadista,
Rebouças
Supermercados, entre outras. A produção é automatizada, e a empresa destaca-se por ser a
única no Brasil que atesta produzir goma com água mineral.
No que se refere à etapa do consumo, é importante que se tenha a compreensão de que
o consumo não é o “fim” do encadeamento produtivo, ou seja, que só existe consumo no
momento em que o produto chega ao consumidor propriamente dito, mas ao contrário, é esta a
instância que retroalimenta o circuito espacial de produção, não se tratando, pois, de um ciclo,
mas de um espiral, de um acúmulo de funções e relações.
Dessa forma, o consumo está presente em todas as etapas dos circuitos espaciais de
produção, e no circuito em discussão não é diferente, uma vez que há consumo quando os
meios de produção destinados ao processo de beneficiamento da raiz são utilizados. Do
mesmo modo que há “consumo” das diversas frações da circulação e da distribuição como
estradas, condutos, vias e meios de comunicação que são utilizadas para permitir que os
produtos oriundos das agroindústrias de mandioca existentes no Rio Grande do Norte
circulem e cheguem até os consumidores. Numa relação inversa, a troca também pode ser
realizada com fins meramente de consumo.
Na análise do circuito espacial de produção agroindustrial de mandioca, deve-se
conjuntamente, atentar-se para o conjunto de fluxos imateriais relacionados que se
configuram e se consubstanciam nos círculos de cooperação. Nesse sentido, destaca-se o
Serviço de Apoio às Pequenas e Grandes Empresas do Rio Grande do Norte (SEBRAE-RN)
como um órgão de apoio técnico para a própria transformação e funcionamento de muitas
indústrias de farinha, inclusive, como fornecedor de licença ambiental, autorizada pelo
Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte
(IDEMA-RN).
Vale ressaltar que, antes de receberem a licença ambiental, as indústrias de farinha
precisam, primeiramente, de um alvará sanitário, como requisito para assim serem atestadas
pelo referido órgão. O Sebrae-RN é responsável também por alguns projetos que tiveram e
têm como objetivo desenvolver técnicas de manejo sanitário e cultivo da mandioca.
Além do Sebrae-RN, verifica-se também a presença de outros órgãos constitutivos dos
círculos de cooperação do circuito espacial de produção agroindustrial de mandioca, como por
exemplo a Secretaria de Estado da Agricultura, da Pecuária e da Pesca do Rio Grande do
Norte (SAPE-RN), as instituições de ensino e pesquisa como o Instituto Federal de Educação,
Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN) e a própria Universidade Federal do
Rio Grande do Norte (UFRN).
Outra importante instituição, não de ensino e pesquisa, mas financeira que compõe os
círculos de cooperação no espaço é o Banco do Brasil S/A que, por intermédio do Instituto de
Assistência Técnica e Extensão Rural do Rio Grande do Norte (EMATER-RN), é o
responsável pelo financiamento de projetos de custeio relacionados ao setor mandioqueiro,
através das linhas de crédito do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA).
O circuito espacial de produção agroindustrial de mandioca faz uso do território em
diversas etapas do processo em si, e no caso do Rio Grande do Norte isso se revela a partir
das dinâmicas que dele são provenientes e inerentes. Os círculos de cooperação são
importantes por conectar as etapas que estão espacialmente dispersas, facilitando o
entendimento da circularidade da produção.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir do que foi apresentado, depreende-se que o circuito espacial de produção
agroindustrial de mandioca tem se reestruturado no espaço geográfico potiguar, denotando
também um processo de reestruturação produtiva e reestruturação do território, contribuindo,
assim, de forma significativa nas dinâmicas territoriais do estado do Rio Grande do Norte,
embora envolva um conjunto de relações e particularidades que estão presentes desde a
primeira etapa da produção.
Isso se explica especialmente porque, embora possua uma importância significativa na
formação territorial do Brasil e do referido estado do Rio Grande do Norte, enquanto
economia de subsistência ou de autoconsumo, a mandiocultura não se constituiu numa
atividade tão valorizada no contexto da modernização agrícola, em comparação com outras
como a sojicultora e a produção de grãos em geral, por exemplo. Tampouco é interessante
para a agroindústria de grande porte, até porque o mercado capitalista de larga escala ainda
não considera uma cultura altamente promissora na geração de lucros, especialmente porque é
trabalhosa, em suas diferentes etapas de produção, beneficiamento e distribuição, do mesmo
modo que ainda não dispõe de consumo também em escala.
A produção in natura ou de derivados, como a farinha e a goma que serve de matériaprima para fazer tapioca, é destinada para atender principalmente o mercado interno, e quando
a atenção é voltada para a realidade do Rio Grande do Norte, o cenário torna-se bem mais
estreito, em virtude do recente processo de transformação das tradicionais casas de farinha em
agroindústrias, onde é realizado o beneficiamento da mandioca.
No caso da goma como derivado da mandioca que serve à culinária regional como
matéria-prima para a geração da iguaria conhecida como tapioca, observa-se a forte relação
desta com o consumo verificado no cotidiano da população local e regional, mas também no
contexto da atividade turística, pois em geral a tapioca faz parte do cardápio do setor de
alimentos e bebidas vinculado ao turismo, portanto, faz parte do menu de alimentos da
maioria dos hotéis, restaurantes e lanchonetes do estado e da região Nordeste.
Em segundo lugar, considerando o território norte-rio-grandense, a partir da produção
agroindustrial de mandioca, reconhece-se que há diferenciações não somente em relação à
presença da técnica e/ou de objetos técnicos, mas também no que se refere à própria
produtividade do setor mandioqueiro. A própria localização das agroindústrias reflete tais
proposições quando se observa a concentração destas em contrapartida dos principais
municípios produtores de mandioca, como é o caso de Vera Cruz que atualmente possui o
maior número de indústrias beneficiadoras, mas não é o município que possui maior produção
da raiz no estado, mas outros, como já explicitado anteriormente.
Em relação aos círculos de cooperação, fundamentais na análise da circularidade da
produção, entende-se que o Serviço de Apoio às Pequenas e Grandes Empresas do Rio
Grande do Norte (SEBRAE-RN) é o principal órgão responsável por prestar assistência
técnica para o funcionamento de muitas agroindústrias de farinha, sobretudo de caráter
familiar, desempenhando assim, um papel relevante nesse sentido.
Ademais, atenta-se para a ausência e/ou ineficácia de políticas públicas destinadas à
agricultura familiar, especialmente para o universo de produtores vinculados a este circuito de
produção, bem como se observa fragilidades e limites nas ações que poderiam fomentar o
fortalecimento e a própria dinamização do circuito espacial de produção agroindustrial de
mandioca no Rio Grande do Norte. No geral, o Estado brasileiro tem negligenciado suas
ações no contexto desse circuito produtivo, sendo muitas vezes até omisso quando se trata da
cultura de mandioca e do seu beneficiamento, mantendo as fortes desigualdades com os
produtos que possuem um maior envolvimento com a agroindústria.
NOTAS
1 Discente de mestrado do Programa de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia da Universidade Federal do
Rio Grande do Norte.
2 A dissertação está sendo desenvolvida sob a orientação do Prof. Dr. Fransualdo Azevedo (UFRN).
3 O processo de reestruturação produtiva, que ocorre, sobretudo, a partir dos anos 1980, foi marcado no Rio
Grande do Norte, dentre outros aspectos, pela falência de determinadas atividades econômicas, redefinição e
reestruturação de outras, mas, sobretudo, pelo surgimento de atividades até então inexistentes no território
potiguar (AZEVEDO, 2013).
4 O ano de 2013 é marcadamente o pior em termos de produção de mandioca no estado desde a década de 1990.
Tal fato é explicado pela seca que ocorreu no referido ano e que afetou bastante a produção de mandioca,
rareando a oferta e elevando o preço da raiz, a matéria-prima. Na ocasião, algumas indústrias de farinha foram
fechadas, outras, mantiveram suas atividades de forma intermitente, isto é, apenas quando aparecia a matériaprima.
5 Entende-se por atividade mandioqueira o cultivo da mandioca com a transformação dessa em farinha e em
outros derivados (SALVADOR, 2010).
6 É interessante ressaltar com base nos dados da FIERN (2015) que, embora Vera Cruz detenha o maior número
de agroindústrias de farinha, não é o município que possui a maior produção atual de mandioca no Rio Grande
do Norte. No ano de 2014, o referido município atingiu uma produção de 1.500 toneladas, de acordo com o
IBGE.
7 BPF: Boas práticas de fabricação / PAS: Programa Alimentos Seguros.
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