Fisiologia I Modulo 2 Nota prévia A utilização da transcrição da aula de Fisiologia I do dia 9 de Outubro de 2002 encontrada abaixo, como meio de estudo, pressupõe por parte do estudante a sua presença na referida aula, bem como o anexo Carvalho, S. ,”Fisiologia I – Biomédica Módulos 1 e 2”, Secção de Folhas AEIST, 2002., e alguma imaginação sob pena de não serem claros todos os pronomes demonstrativos, tais como “aquele”, “isto”, “este”, etc. A transcrição é integral, não obstante, houve pequenas correcções e omissões de repetições desnecessárias. Pode, no entanto, dada a extensão do texto, terem passado alguns erros de índole ortográfica ou gramatical, pelo que desde já apresento as minhas desculpas. Quaisquer comentários no sentido da correcção e melhoramento da actual escrita serão bem vindos. O documento abaixo carece de uma edição personalizada, de modo a satisfazer as necessidades de cada um. Cristiano Tavares Lisboa, 12 de Janeiro de 2003 Prof. Carvalho, S. - Olá bom dia, bom dia fitas. Eu, no primeiro modulo, procurei darvos uma ideia de como é que o sistema nervoso aparecia na evolução, como é que depois essa evolução filogenética, ou evolução ao longo do filo, ou evolução ao longo do desenvolvimento é depois resumida na evolução embrionária, ou seja no desenvolvimento ontogenético. Procurei também dar-vos uma ideia de quais eram as principais funções do sistema nervoso na perspectiva de um sistema de controlo rápido. Vou-lhes apresentar agora um caso, que vocês vão obviamente já perceber e serem capazes de explicar. Os outros à medida que formos falando dos vários assuntos do sistema nervoso vão ver que serão capazes de os explicar. 1º Caso Clínico O primeiro é evidente, é um individuo de 18 anos que quando saía da escola, levou um tiro na coxa esquerda. Quando o levaram para a urgência verificaram que ele tinha uma perda de força de contracção desse lado, quer dos músculos flectores quer dos músculos extensores. E que além da perda de força, que vocês já devem saber nesta altura avaliar, perdas de sensibilidade, que vocês vão avaliar noutra aula pratica ulterior. Naturalmente o individuo foi para a cirurgia, fizeram-lhe a exposição do nervo ciático e verificaram que havia uma lesão desse nervo. Nestas situações o que se faz é procurar, lembram-se que o nervo cresce se tiver um caminho, fazer um caminho com tecido de maneira a que o nervo quando regenera tente ir ter com o mesmo músculo. Foi isso que fizeram, e várias semanas depois o indivíduo foi novamente observado. Ele ainda tinha uma diminuição marcada da força naquela perna e além disso tinha uma atrofia muscular. Fez-se uma electromiografia, lembram-se no ano passado se ter falado de leve em alguma coisa sobre electromiografia: registo de actividade nos músculos, que pode ser com eléctrodos de superfície ou com agulhas, e o que se verificava era que o indivíduo não tinha potenciais normais nesses músculos. Durante um ano de recuperação o individuo foi começando a recuperar a sua força muscular, primeiro nos músculos proximais, proximal é sempre o que está mais perto do tronco e distal o que esta mais afastado, e com algum tempo foi recuperando a força nos distais, mas ficou sempre com alguma fraqueza residual, i. e., aquela perna não irá recuperar completamente, embora recupere fundamentalmente o movimento. E a propósito deste quadro clínico poderiam surgir perguntas. Porque é que o individuo tem perdas de sensibilidade e perdas de força muscular? Porque é que o músculo atrofia? Porque é que o músculo não tem potenciais normais? Porque é que ele vai recuperando? Porque é que a recuperação é primeiro proximal e depois distal? Tudo isto só com aquelas coisas simples que nós falamos na aula anterior vocês são capazes de responder. Assim, o individuo tem perda porque o nervo deixou de enervar os músculos que contraem, há atrofia porque não há factores tróficos para o músculo, tem perda de sensibilidade porque os nervos que conduzem as sensações ao sistema nervoso central estão lesados, tem perda de motilidade porque os nervos que conduzem a vontade de contrair à periferia estão lesados neste caso o nervo ciático, a recuperação dá-se porque há crescimento do nervo através daquele graft que fizeram no nervo, e há recuperação primeiro proximal porque é a parte proximal que vai crescendo primeiro e depois só depois uma recuperação distal. À medida que as ramificações vão sendo mais finas há alguns nervos que acabam por não recuperar e que explicam a fraqueza residual. É um pouco este tipo de perguntas que se poderiam depois fazer à custa de todos estes quadros, e eu deixo-vos estes quadros e vocês leiam-nos de vez em quando e vão ver que da mesma maneira que este é muito fácil de seguir por vocês já no final desta aula, este outro vai ser também fácil de seguir mais tarde. 2º Caso Clínico É um indivíduo de 35 anos que vem ao médico porque a sua aparência começou a mudar, as suas mãos e os pés começaram a crescer. Quando se faz o exame ao indivíduo e se pesquisa os campos visuais, e vocês vão ter uma aula para saber como se pesquisa um campo visual de uma forma qualitativa e como é que se faz essa pesquisa com um campímetro, a verdade é que o indivíduo tem uma diminuição dos campos visuais. O campo visual, basicamente é isto: quando eu fixo um determinado ponto do espaço sem mexer o olho, há uma zona do espaço que eu vejo e outra que não vejo, i, e., se eu fechar o olho e olhar para um determinado ponto e movimentar este dedo lado, eu não o vejo, mas a partir de certa altura eu começo a ver o dedo mesmo sem mexer o olho. Nós podemos desenhar com uma série de testes o campo visual e o campo visual normal. Ora este indivíduo tinha deficiências do campo visual normal. Mandaram-no ao oftalmologista e ele mostrou que nos dois campos temporais ele não via e por isso foi mandado para um neurocirurgião. Isto é um quadro muito típico de uma patologia tumoral em que há alterações da hipófise. A hipófise é uma glândula que está dentro da cabeça na zona de cruzamento das fibras ópticas, e portanto quando há tumores há compressão de fibras ópticas, e a compressão como é na parte central provoca um tipo particular de perda de visão. Fraga, F. – Já agora, qual é que é a causa das mãos e dos pés ficarem grandes? Prof. Silva Carvalho - É que o tumor é produtor de hormonas de crescimento. Se isto fosse numa criança provocava um gigante, no indivíduo adulto a única coisa que cresce são os sítios onde ainda existe cartilagem e que são possíveis modificar. Outra coisa que também acontece, é o individuo ficar com a cara ligeiramente alongada, portanto muda o aspecto de um individuo. 3º Caso Clínico Um outro caso é o de uma senhora de 52 anos que começou a perder a visão nos dois olhos e isto acompanhada de terríveis dores de cabeça. Quando se espreita para o fundo do olho verifica-se que o disco óptico, a zona onde entra o nervo óptico, está borrada, coberta de nevua, não se vê nitidamente, está esbatida, e aparece também na retina algumas hemorragias. A doente alem de ficar cega deixou de reconhecer odores, i. e., começou a confundir os cheiros, davam-lhe uma coisa para cheirar e ela classificava de uma maneira completamente diferente, e isto acontecia só do lado direito, do lado esquerdo estava tudo bem. Este aqui é outro caso que em duas aulas vocês vão ser capazes de seguir. Este é um quadro relativamente frequente, muitos de vocês já contactaram com situações semelhantes. 4º Caso Clínico Um rapaz de 28 anos que foi encontrado na berma do passeio inconsciente com o seu fato cheio de lama, de sangue e urina, tinha-se cortado numa sobrancelha, tinha escoriações nas pernas e nos braços, não se lembrava de ter caído, no entanto isto já lhe tinha acontecido frequentemente no passado, desde que tinha 11 anos de idade. Viram que ele antes de cair tinha começado a virar os olhos para a direita, começou a mexer a mão direita e depois caiu. Bateu com a cabeça, ficou azulado, começou com convulsões e no fim disto, urinou. Depois relaxou ficou inconsciente e foi nessa altura que o levaram para o hospital. O electroencefalograma neste indivíduo não mostrou nada que pudesse localizar ou determinar o problema. Foi lhe dado uma droga anticonvulciovante para evitar novas convulsões nas horas seguintes e ficou internado por causa dos seus problemas na cabeça. Isto é um quadro que está relacionado com epilepsia, e naturalmente numa fase destas, o electroencefalograma, já depois de passada a crise, pode não revelar absolutamente nada. Reflexos Vamos hoje falar de reflexos. Quando nós falamos de reflexos é preciso definirmos exactamente o que é um reflexo, vou definir reflexo como: Reflexo - um acto involuntário que resulta da aplicação de um estímulo num receptor dando origem a uma resposta que percorre um arco reflexo. Arco reflexo - é constituído sempre por um receptor, uma via aferente, um centro, uma via eferente e o efector. Sempre que houver um receptor para um estímulo, uma via aferente até um centro, tratamento de informação no centro, uma via eferente, e um efector eu tenho autorização para dizer que estou perante um reflexo. E portanto pode haver reflexos que têm como efector o músculo esquelético, que é aquele que vocês vão ver hoje, e pode haver reflexos que têm como efector o coração, por exemplo, se eu carregar com força no meu pescoço e estiver a palpar o pulso, o pulso começa a diminuir passado um bocadinho de eu ter carregado no pescoço, isto é um reflexo. É um reflexo que tem como receptor, um receptor carotídeo, tem como via aferente um nervo que vai até um centro, tem um centro que está no bolbo, tem uma via eferente que é o nervo vago e tem um efector, o coração. Normalmente nós podemos separar os reflexos que nos importam no sistema nervoso em dois grandes grupos: os que tem como efector o músculoesquelético e os que têm como efector o coração, o músculo liso ou as glândulas. Nós hoje vamo-nos ocupar do primeiro grupo, e o segundo grupo vai ser o assunto do sistema nervoso autómato ou do sistema nervoso simpático e parassimpático. Se vocês esticarem o músculo estimulam uma série de receptores do músculo, chamado receptor de estiramento, fuso muscular ou ainda fuso neuromuscular, tudo a mesma coisa, são os receptores. Aferente é a via ou o nervo que vai levar a informação ao centro, o centro é a medula e portanto o cordão que está dentro da coluna é formado por tecido nervoso. Depois têm nesse centro a via que contacta a via aferente com a via eferente, pode contactar com um neurónio no meio ou pode contactar directamente. Pode haver só uma sinapse, e nesse caso diz-se que o reflexo é mono-sinático ou pode haver mais do que uma sinapse e o reflexo é poli-sinático. Os reflexos que vocês vão procurar pesquisar uns nos outros são reflexos mono-sináticos. Na sinapse perde-se tempo e por isso o reflexo mono-sinático é muito mais rápido que um reflexo poli-sinático. O reflexo de estiramento, ou seja, o reflexo provocado pelo estiramento do músculo é um reflexo rápido. Via eferente é o nervo que sai da medula e que vai até ao músculo, efector é o músculo, portanto se nós distendermos o tendão de inserção do quadricípite, batendo com o martelo de reflexos abaixo do joelho, no tendão de inserção do músculo do joelho, a resposta, é a contracção do músculo. Isso faz com que batendo no joelho do indivíduo este levante a perna. Da mesma maneira no bicípede, no tricípede, em todos os músculos que quiserem pesquisar a resposta à distensão de um músculo, é a sua contracção rápida, isto é o reflexo miotáctico ou reflexo de estiramento. Reflexo miotáctico ou de estiramento é um reflexo rápido de contracção resultante da distensão rápida de um músculo. O seu receptor é o fuso muscular, a sua via aferente é um nervo sensitivo, o seu centro é a medula, a sua via eferente é um nervo motor, o seu efector é o músculoesquelético. Estes reflexos estão organizados por segmentos medulares, cada zona do braço corresponde a um determinado segmento, portanto eu sou capaz de sabendo quais os músculos que estou a estimular, e sabendo qual o arco reflexo, testar a integridade de todo este segmento. Basta uma lesão a qualquer nível deste arco para não haver reflexo. Quando eu testo este reflexo respeitante, por exemplo, ao músculo tricípede, e verifico que esse reflexo está a funcionar bem, significa que o arco reflexo correspondente ao segmento medular d12 está a funcionar, se for para o quadricípede na perna corresponde outro segmento. Com uma tabela posso fazer uma pesquisa dos vários segmentos medulares. Na aula pratica anterior vocês tinham um possível doente ao qual queriam avaliar a integridade do seu sistema nervoso. Começaram por ver que estava consciente, estava localizado, etc. A força muscular, como é que está? A força muscular já lhes permitia dizer se havia uma lesão, mas podia ser uma lesão desde a origem do comando do movimento, portanto, desde o encéfalo, até ao próprio músculo. Ficavam com uma ideia, se haveria alguma lesão algures por aqui. Agora vamos testar a integridade destes segmentos e isto já não depende da vontade, mas sim da integridade da medula. Têm um segmento da medula que recebe ordens do encéfalo para provocar a contracção de um músculo e têm um reflexo cuja estimulação provoca também a contracção desse músculo. Ao pesquisarem a força muscular estão a pesquisar a via desde o encéfalo até ao receptor, ao pesquisarem o reflexo estão a pesquisar o arco reflexo, só com estas duas coisas vocês ficam com uma parte importante de todo o controlo nervoso desde lá de cima. Se em vez deste músculo, pesquisarem outro cá em baixo, ficam com a ideia de outro segmento mais abaixo. Vocês podem com apenas a força muscular e com os reflexos ir pesquisando vias nervosas que controlam a motilidade e segmentos medulares. Pesquisam ainda outra coisa no tempo, se vocês virem que o individuo tem depois de um traumatismo, uma diminuição da força muscular com diminuição dos reflexos, e passado algum tempo começa a recuperar os reflexos sem recuperar a força muscular, inclusive com exagero dos reflexos, isso é muitas vezes indicativo de uma secção grave a este nível por isto: estes segmentos estão organizados a nível de segmentos e portanto, mesmo que não exista comunicação com o sistema nervoso central aqui em cima, desde que este arco reflexo esteja integro, este reflexo vai-se manter. Pode na altura do traumatismo não se manter o reflexo, durante a fase de choque traumático há um certo compromisso e todo o reflexo pode estar diminuído, mas passado esse estado, e mesmo que não exista motilidade, pode haver reflexo. E porquê este exagero de reflexo? Porque aquilo que vem de cima do encéfalo tem também um certo efeito inibitório sobre o que está para baixo. O sistema nervoso está muito organizado assim, está organizado por andares e cada andar inibe um bocadinho do que está abaixo. É por isso que quando se dá álcool a um indivíduo, há uma desinibição do indivíduo. Porquê? Porque normalmente há uma inibição permanente do sistema nervoso central dos andares superiores em relação ao que está abaixo, mas se derem mais álcool aquilo vai desinibindo progressivamente, e nós funcionamos em inibições de inibições de inibições, isto obvio, dentro de certos limites Fraga, F. – Ou seja, se dermos uma pequena quantidade de álcool a uma pessoa esta fica com os reflexos melhorados? Deixam de ser inibidos? Prof. Carvalho, S. – Não, aí não por um motivo, porque as zonas que são mais desinibidas são as zonas que estão a controlar fundamentalmente as emoções. Quando se entra na zona que poderia teoricamente desinibir os reflexos já existe uma intoxicação suficiente para inibir os reflexos directamente, portanto é um mau desinibidor dos reflexos, é se quiser, um bom desinibidor emocional. Se quiser organizar as funções hierarquicamente, as funções de controlo da respiração, circulação são primitivas, o controlo do equilíbrio já é uma coisa mais organizada, da sensibilidade e da motilidade, ainda mais. Quanto mais organizada ou superior é a função, mais fácil é a sua destruição, e a intoxicação começa por afectar primeiro essas, só depois a motilidade, e só depois as profundas. Desta maneira os indivíduos começam primeiro por ter desinibições emocionais, tornam-se indivíduos muito alegres, comunicativos, depois tornam-se incoordenadores motores às quais se seguem perturbações do equilíbrio e, em situações mais graves, começam com respirações muito mais lentas que o normal, com perturbações na termo-regulação, com perturbações inclusive do sistema nervoso autómato, e com perturbações profundas que podem levar a paragens respiratórias, vasodilatações em que o individuo tem uma sensação de calor, fica ao frio e morre por hipotermia, etc. Voltando aos nossos reflexos, reparem que a maior parte dos centros são medulares, eu gostava que ficassem com a ideia, fundamentalmente, para vocês eu julgo que esta é a parte em que no futuro haverá um maior investimento a nível de situações terapêuticas sobre o sistema nervoso, que é na substituição de circuitos que possam substituir a forma de tratamento de sinal que se faz a nível do sistema nervoso central. Como lhes disse atrás nós temos uma via aferente que entra num centro, e há tratamento da informação. O tratamento de informação que vocês vão ver é só uma sinapse que contacta directamente com a via eferente, mas normalmente o tratamento de informação no sistema nervoso central é muito mais complicado e apesar disso nós podemos dividilo nestes quatro tipos de circuito fundamentais: podemos ter um circuito divergente, um circuito convergente, um circuito recorrente e um circuito inversor de sinal. Basicamente é assim que a informação é tratada, pela associação destes circuitos a nível do sistema nervoso central. Eu aqui pus um nervo a ramificar em três, por exemplo no cerebelo esta ramificação não é de um para três mas de um para mil ou um para dez mil, e a convergência não são três neurónios num, muitas vezes são mil só num, de qualquer maneira o básico está aqui exemplificado. (Ver fig. A Pag. 7) Lembram-se que um potencial de acção é um fenómeno que gasta energia e tem sempre a mesma intensidade e é característico de cada nervo. Se um potencial de acção entrar num nervo e o nervo se ramificar vão aparecer três potenciais de acção que têm a mesma intensidade do que este potencial de acção, significa que se gasta mais energia a nível da membrana, mas o potencial de acção é igual, ou seja, com um único potencial deram-se origem a três potenciais. Estes circuitos divergentes são, como é óbvio, à custa de um gasto de energia, uma maneira simples de se amplificar um sinal. Da mesma maneira vocês têm aqui três neurónios que vão ter a este, se a informação chegar ao mesmo tempo aqui, os três estímulos em conjunto fazem com que o potencial de membrana chegue ao limiar de excitação, tanto faz que passe muito para cima ou pouco, desde que atinja provoca-se um potencial de acção, ou seja, três potenciais de acção aqui fazem com que apareça apenas um potencial de acção aqui. Um circuito convergente é um circuito de diminuição de sinal. Esta é uma maneira de tratar no espaço o sinal. Agora têm aqui outro circuito, (Ver fig. B Pag. 7) esta é uma maneira de tratar o sinal no tempo. Estes são os circuitos recorrentes. Um potencial de acção vai estimular esta sinapse e provocar um potencial de acção, só que este nervo emite um colateral. Este colateral toca outro neurónio, e este neurónio volta a tocar este. É claro que aqui este deu origem a um potencial de acção, e este potencial de acção excitou este que deu origem a outro potencial de acção. Reparem que um único potencial ao entrar aqui, deu origem por este circuito recorrente a outro potencial que vai aparecer aqui, e enquanto houver algum intermediário químico aqui, este circuito pode-se manter durante algum tempo. Portanto com um único potencial, eu posso ter três, quatro, cinco ou seis potenciais à saída. É uma maneira não de amplificar ou diminuir o sinal mas de prolongar no tempo o sinal. É um caso de tratar o sinal, isto no caso deste neurónio ser um neurónio escitatório, pois em vez de ser escitatório pode ser inibitório. Suponham que eu ponho aqui dois estímulos, um estímulo e passado um bocado outro estímulo. O primeiro estímulo passou, mas ao chegar aqui estímulou este neurónio, e este neurónio em vez de ter aqui um + tem aqui um -, e inibe esta célula, quando o segundo estímulo chega aqui encontra esta célula fortemente inibida, não passa, e portanto eu fiz com que com 2 ou 3 potenciais à entrada provocassem apenas um potencial à saída. Portanto é uma forma de prolongar ou encurtar um sinal. Finalmente têm aqui um exemplo que vos vai aparecer no fim desta aula, (Ver fig. C Pag. 7) que é um circuito inversor de sinal. Temos um potencial a estimular duas células, estas duas células vão tocar noutras duas, só que um destes neurónios é um excitatório e o outro inibitório. Resultado, com um único estímulo, por este lado eu provoquei uma excitação e por este uma inibição. O que é que isto significa? Muitas vezes, como vocês vão ver, isto acontece muito porque estes circuitos inversores de sinal estão ligados a músculos antagónicos. Normalmente quando eu excito um músculo extensor do braço, eu inibo o músculo flector do braço e vice-versa. O que é que isto faz? Faz com que o movimento do braço seja facilitado pelos músculos flectores ao não estarem a contrair. Se os dois músculos, o flector e o extensor estivessem contraídos, é obvio que eu teria mais dificuldade em contrair o braço, do que tendo o flexor a contrair e o extensor relaxado. E se quiser estender o braço eu tenho uma situação em que quero que o extensor esteja contraído e o flexor esteja relaxado, aí eu consigo isso apenas com uma única ordem vindo cá de cima ou de um reflexo que vai estimular o neurónio, sendo o neurónio aferente este, o neurónio eferente contacta com dois eferentes, um que é estimulado e outro que é inibido por um circuito inversor de sinal. As duas outras maneiras que nós temos no sistema nervoso central de tratar sinal estão aqui resumidas (Ver fig. A Pag. 8). Vocês têm aqui um músculo, este músculo recebe um nervo, neste nervo existem algumas fibras que estão a transmitir informação neste sentido e outra que está a transmitir informação neste sentido, portanto isto é o que chamamos um nervo misto. Este nervo tem umas fibras que entram pelo corno posterior da medula e contactam com outras fibras no corno anterior da medula que vão para o mesmo músculo, ou seja, isto é a parte eferente do reflexo e esta é a parte aferente do reflexo que estão um bocadinho misturadas a este nível. Aqui temos um estimulador eléctrico, estes são dois aparelhos de registo da actividade. Ao aplicar um estímulo, este é transmitido e conduzido, aqui vejo que há condução na fia aferente na via eferente não me aparece nada. Aumento o estímulo e começa a aparecer alguma resposta na via eferente, aumento mais o estímulo e aparecem-me cada vez mais fibras nervosas a responderem na via eferente, a partir de certa altura, por mais que aumente o estímulo, não consigo provocar mais resposta. Vamos amplificar este bocadinho aqui para vos explicar porque é que isso acontece, cada neurónio que entra na via aferente vai provocar a excitação de alguns neurónios directamente, mas vai criar à sua volta uma zona, chamada zona subliminar, nesta zona a excitação destes neurónios não fez com que os neurónios chegassem ao limiar de excitação, mas despolarizou-os um bocadinho, e à medida que aumentamos a intensidade, cada vez vai sendo maior o numero de neurónios que atinge o limiar de excitação, ou seja, à medida que aumentamos o estímulo vamos recrutar mais neurónios. Eu nesta situação apenas conseguia excitar 2, se eu aumentasse a intensidade de excitação eu ia conseguir excitar 4 ou 5 neurónios, a isto se chama o recrutamento. É pelo variar desta franja subliminar que eu vou provocar o recrutamento e a graduação da resposta. É isto que também me explica dois fenómenos que são muito importantes, o fenómeno da oclusão e da facilitação. (Ver fig. B e C Pag. 8) Vamos repetir a experiência que está aqui em cima mas agora vamos a este nervo. Vamos separa-lo em dois e vamos por aqui dois eléctrodos de estimulação. Vamos primeiro excitar só este neurónio, e vamos ter aqui uma coisa a responder e vamos verificar que respondem, por exemplo, dois neurónios. Paro a estimulação e estímulo apenas esta parte da via aferente, respondem mais dois neurónios. Agora estímulo os dois ao mesmo tempo, e não respondem quatro neurónios mas sim sete neurónios. Porquê? Por isto que aqui está, estimulei este neurónio, dois respondem e à volta deles há uma franja subliminar. Estimulei o outro, dois respondem e à volta deles há uma franja subliminar só que as duas franjas dos dois neurónios estão parcialmente sobrepostas e portanto há três neurónios que estão aqui no meio que são excitados pelas duas franjas subliminares. Cada uma sozinha não é capaz de provocar uma despolarização a nível do limiar de excitação, mas os dois em conjunto, são. Portanto quando eu excito este neurónio tenho dois mais uma franja subliminar de três ou muito mais, dois mais uma franja subliminar de vários, mas em que três são comuns às duas franjas subliminares, as duas somam-se e o que é que acontece? Excitam-se não só dois mais dois neurónios mas também aqueles três que são comuns. Isto diz-se que este neurónio alem de provocar a excitação daqueles neurónios que lhe são específicos, teve a facilitar a acção deste neurónio. Se eu fizer a mesma experiência mas agora usando uma intensidade de estimulação muito grande, portanto, em que já recrutei tudo o que havia para recrutar na franja subliminar este neurónio excita, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete. Parei a estimulação e estímulo este, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete. Mas agora quando estímulo os dois não tenho catorze neurónios a responder, mas sim apenas doze a responder. Porquê? Porque dois destes neurónios eram comuns, sofriam influência de cada um destes neurónios eferentes. Reparem que o que eu tenho aqui é sete neurónios a responder a este, sete a responder a este, mas dois são comuns, sete mais sete menos dois que são comuns e portanto eu tenho uma resposta. Neste caso eu estou a dizer que este neurónio alem de excitar os neurónios que lhe são específicos, está a ocluir o efeito deste neurónio. Quer dizer que ao provocar a estimulação de sete neurónios, dois já estão excitados, portanto há um fenómeno de oclusão. Martins, R. - Isso acontece só quando os neurónios têm estímulos contrários? Prof. Carvalho, S. – Não, só quando os neurónios estão a ser estimulados com estímulos muito intensos. Repare, quando eu tenho uma estimulação de fraca intensidade só estímulo dois neurónios, e os que estão à volta ficam parcialmente excitados. Se eu aumentar muito a intensidade de estimulação, todos esses neurónios que estão dentro desse tracinho vão ser excitados. Se eu fizer a experiência com uma intensidade intermediária, portanto em que excito só dois e tenho uma franja subliminar, eu tenho um fenómeno de facilitação só de um neurónio comum. Se eu quiser repetir a experiência mas agora com uma intensidade de estimulação muito maior, portanto em que excitei todos os neurónios que podia excitar com prolongamentos de entrada, é que eu tenho o fenómeno da oclusão. Ou seja eu posso ter um fenómeno de oclusão ou facilitação com os mesmos neurónios, dependendo apenas da intensidade com que estou a estimular os neurónios aferentes, portanto aí sim aquilo que se refere nos livros como facilitação e oclusão, na realidade tem apenas a mesma base estrutural, são neurónios que têm campos de influência comum, mais nada. Ora finalmente, vamos ver como é que se dá, a nível do receptor, o reflexo miotáctico, o tal reflexo de estiramento. Isto aqui pretende ser um músculo-esquelético que tem fibras estriadas. (pag. 9) No interior do músculo-esquelético existem umas estruturas que são chamados fusos musculares, que também se encontram referidos como sensores de estiramento, ou também fusos neuromusculares. No entanto eu vou-lhes chamar fuso muscular. Este fuso muscular, estruturas muito pequenas têm uma inserção em paralelo, cada fibra muscular estriada é relativamente comprida, este fuso é fino mas com prolongamentos tendinosos, com prolongamentos conjuntivos compridos, de tal maneira que nós podemos admitir que no músculo, o fuso muscular está inserido em paralelo com as fibras estriadas, ou seja, se eu esticar o músculo, estico as fibras estriadas e também estico o fuso. Isto é fundamental para perceberem o resto, se perceberam isto percebem tudo. Portanto vocês tem este músculo que está inserido neste osso aqui e está inserido aqui em cima no osso. Isto aqui pretende ser uma parte do osso e isto pretende ser outro, e quando o músculo contrai, o que faz é aproximar estas duas coisas e o braço mexe. Se eu esticar estes tendões, as fibras musculares distendem, no interior das fibras, existe esta estrutura que é o fuso muscular, é muito pequena mas tem prolongamentos conjuntivos de tal maneira, que nós podemos dizer que o fuso muscular está inserido em paralelo com as fibras estriadas, e portanto se eu esticar estas fibras estico também o fuso. Se vocês amplificarem muito o fuso, este é constituído por umas fibras em que os núcleos estão num saco na parte média da célula, e por isso se chamam fibras de núcleo em saco ou fibras de núcleo em cadeia, que são outras fibras, portanto dentro de cada fibra vocês têm duas a quatro destas, e quatro a oito destas. E depois têm uma série de fibras nervosas a contactar este fuso. Têm umas fibras, talvez não se lembrem mas no ano passado quando falamos de fibras, dissemos que as fibras podem ser mielinicas ou amielinicas e que a velocidade de condução dependia de ter mielina ou não e não da grossura, e que as fibras mais rápidas eram as mais grossas com mielina e havendo uma escala. Nós podemos ter fibras 1 que são as mais rápidas que depois se dividem em 1A e 1B, 2 são as mais lentas 3 a seguir, e as 4 que eram as amielínicas. Isto tem uma correspondência em termos de letras A fibras B fibras, etc. Ora bem vocês têm aqui fibras 1A e fibras 2, são fibras que saem do fuso e vão para o sistema nervoso central, estas fibras são as fibras eferentes do arco reflexo. Lembram-se que no arco havia um receptor que é o fuso, uma via eferente que são estas tais fibras 1A e fibras 2, as 1A são as mais rápidas, Depois têm um centro que é a medula e têm fibras eferentes que são fibras que saem da medula e vão terminar, não em cima do fuso mas em cima da placa muscular, em cima do próprio músculo. Em resumo vocês têm aqui no meio um fuso, as fibras saem do fuso, fibras 1A entram na medula, contactam com o neurónio do corno anterior da medula com uma única sinapse e vão até à placa muscular libertar acetilcolina, o que é que isto significa? Quando eu distendo o fuso, vão se dar uma série de coisas que nós vamos ver, aparecem potenciais de acção, que vão excitar este neurónio, este neurónio vai excitar o músculo, e o músculo vai contrair. Fundamentalmente é isto que acontece no reflexo de estiramento, ou seja, há uma distensão, há uma excitação do fuso e quando há distensão do fuso há potenciais que percorrem a via aferente. Quando há potenciais, estes vão excitar o motoneurónio e este motoneurónio vai provocar a contracção do músculo. Há sistemas que tentam lidar com indivíduos que têm próteses e que naturalmente são cada vez mais perfeitas e que tentam imitar o movimento da articulação e inclusive permitem a indivíduos que têm apenas uma parte conservada, por exemplo, da perna, utilizar a força muscular daquele resto, para movimentar a prótese de uma maneira o mais natural possível. Para isso, existem pequenos sistemas de processamento de informação que permitem avaliar a força que a prótese está a fazer no chão e compara-la com a força que aquele músculo esta a fazer. Estes sistemas todos, na realidade o que estão a fazer é imitar arcos reflexos em que uma informação é tratada e é transformada numa força de contracção. E foi nesses sistemas que nós conseguimos fazer a descrição do tipo de aferências que nós encontramos no fuso muscular. Eu disse-lhes que havia dois tipos de fibras que iam do fuso para o centro, reparem que há umas fibras mais rápidas que estão à volta da parte média do fuso e há outras fibras mais lentas, a verdade é que há dois tipos de resposta no fuso há uma resposta que é estática, conforme o comprimento do fuso, se eu tiver o músculo contraído, o fuso está a disparar de uma determinada maneira, se eu distender o fuso ele passa a responder com uma resposta mais rápida, depende apenas do comprimento do fuso. Mas há outra resposta que se dá ao nível dos receptores primários que é uma resposta dinâmica. Reparem que este fuso responde mais rapidamente durante a variação do movimento e não com o comprimento. Há um informador dinâmico e existe, se quiserem, um informador estático. É da junção do informador dinâmico ou do estático que a informação vai permitir a contracção deste músculo. Existe um sistema que quando nós distendemos um músculo, nem sempre a resposta é uma contracção muscular. Se distendermos muito o músculo a resposta vai ser um relaxamento ainda maior. Porquê? Eu disse-lhes que nós temos o nosso fuso muscular inserido em paralelo com as fibras estriadas, mas no próprio tendão inserido em série com o músculo estriado existe outro receptor que é o órgão tendinoso de Golgi. Quando eu contraio o músculo, o fuso não está a distender, pelo contrario os seus extremos estão-se a aproximar, mas se eu tiver algo inserido em série, quando eu contraio o músculo estou a distender essa coisa que está inserida em série. Quando ele dispara, ele envia também informações para o sistema nervoso central e contacta também com o motoneurónio que vai para o músculo, só que não contacta directamente, contacta através de um neurónio inibitório e este neurónio inibitório vai impedir a contracção do músculo, portanto reparem, eu tenho o músculo a contrair e se o estímulo for suficientemente intenso desencadeia um reflexo que vai inibir a contracção. O limiar de excitação deste órgão é muito mais elevado do que o do fuso, e portanto admite-se que o órgão tendinoso de Golgi funcione como um sistema de protecção contra contracções demasiado fortes. Isto é, eu tenho uma contracção que se for suficientemente forte, vai estimular o órgão de Golgi e parar essa contracção. É mais um sistema de retroalimentação que nos permite, se quiserem, fixar a contracção máxima dentro de um determinado limite. Nem todos os reflexos são reflexos monosinápticos, muitos dos reflexos são reflexos polisinápticos. Se vocês picarem a mão a um indivíduo este retira a mão, quer o indivíduo esteja acordado, com um movimento voluntário, quer muitas vezes em perda de consciência, i. e., estímulos dolorosos levam muitas vezes à retirada do braço. Se vocês fizerem isto numa situação em que há descerebração, i. e., destruição do cérebro, este reflexo de contracção da mão é muitas vezes acompanhado do movimento de extensão do outro lado. E se num animal inferior, por exemplo um gato, com secção medular em que não há comunicação nenhuma com o encéfalo, picarem a pata anterior, este vai encolher a pata, esticar a outra e nas patas posteriores faz o movimento oposto. De tal maneira que com estímulos sucessivos é possível fazer com que um gato descerebrado ande! Estes reflexos poli-sináticos, que na forma mais simples se chamam reflexos de flexão e extensão cruzada, têm na sua base os tais circuitos de inversão de sinal. Reparem nisto, vocês aqui vão provocar um estímulo neste músculo, ou num receptor relacionado com este músculo, normalmente estes estímulos não são do reflexo miotáctico, são estímulos mais superficiais, estímulos dolorosos. Reparem que a via aferente contacta com um neurónio aferente que vai provocar a contracção deste músculo, só que além disso ele vai contactar com o neurónio intermediário inibitório que vai inibir o músculo extensor e portanto estimulação do flexor e inibição do extensor. Resultado, estimularam este membro e ele vai flectir o outro. Mas o estímulo não fica deste lado da medula emite um colateral, colateral esse que tem um tipo de circuitos completamente diferentes. De um lado o neurónio intermediário e inibitório vai provocar a inibição do flexor, não há neurónio inibitório para o extensor, portanto com um único estímulo deste lado vocês provocaram uma contracção deste flexor, a inibição deste extensor, uma inibição deste flexor e uma contracção deste extensor, apenas com um único estímulo. Isto é uma forma de com um único estímulo e uma série de circuitos nós termos uma informação que poupa energia e que permite normalmente uma resposta adequada. Isto são reflexos relativamente primitivos, que permitem sem um grande controlo cortical a saída ou a fuga a um estímulo. ---FIM--- Aula de Fisiologia de Sistemas I – Prof. Silva Carvalho Módulo 3 – Sensações – 16 de Outubro de 2002 Nota: A transcrição que se segue é fornecida as is, sem que isso implique que o texto seja um reflexo literal do discurso. Os conceitos, noções e conhecimentos, porém, estão patentes no texto o mais fielmente que o “desgravador” conseguiu. O facto de o HSM ter sido sobrevoado nada menos que 7 vezes no decurso da aula também não facilitou a compreensão precisa do discurso... Filipe Fraga L.S.C: “Quando falamos de sensações e sentidos, falamos de estímulo aplicado a um receptor, que o transforma num potencial ou conjunto de potenciais. Já vimos no 1º módulo que o sistema nervoso é um modulador de frequência, portanto se o estímulo for muito intenso aparecem vários potenciais muito frequentes mas sempre com a mesma intensidade que vão recebidos numa zona do SNC e interpretado como uma sensação (dor, tacto, pressão, etc.).” Ver texto de Proust, módulo 3. “Pequeninos estímulos, positivos ou negativos, têm uma enorme resposta afectiva. Há uma série de associações, uma série de zonas que são estimuladas e que estão relacionadas com as emoções, e que têm a ver com esta modificação completa das nossas sensações, do que é agradável ou desagradável apenas por uma determinada sensação. Existem várias sensações que valem não só por elas mas por tudo o que têm associado, particularmente pela carga emocional ou afectiva a que estão associadas. Estes sentidos, estas sensações que têm carga emocional acentuada são tais que se vocês se lembrarem das vossas experiências lembram-se que um dos sentidos que mais facilmente desperta estas emoções e localizações no tempo e no espaço é o olfacto: a visão pode trazer-nos a memória de uma pessoa ou um sítio, mas o olfacto desperta memórias de há muito tempo, juntamente com o que sentimos de uma forma emocionalmente muito mais intensa do que com os outros sentidos. Isto tem a ver com a evolução filogenética. O olfacto está muito ligado à emoção, e uma parte do sistema olfactivo está associada ao sistema límbico, sistema das emoções. Antes de mais, distinguir sentidos e sensações: nós chamamos sensação à percepção consciente de um estímulo, isto é, quando nós percebemos um estímulo e o tornamos consciente dizemos que temos uma sensação. Os sentidos são simplesmente sensações dadas por órgãos mais diferenciados: sensações visuais, gustativas, olfactivas, auditivas e de equilíbrio. Em termos de Fisiologia a mecânica básica é a mesma. De qualquer maneira sensações poderão ser o tacto, pressão, vibração, dor, frio, calor, enquanto que nos sentidos estamos a falar de sensações dadas por órgãos específicos. Para haver sensação é necessário haver o seguinte: SNC (encéfalo e medula) e sistema nervoso periférico (nervos, prolongamento do SNC). Ora os nervos tanto conduzem informação dos centros para a periferia (p. ex. ordem de movimento, vai da cabeça através dos nervos) como transportam as sensações no sentido inverso: nós temos receptores que quando estimulados geram potenciais de acção que vão percorrer este caminho até ao encéfalo e é preciso que as coisas cheguem ao SNC, em particular cheguem às partes superiores do cérebro, para que qualquer estímulo se torne consciente. Para ter uma sensação, nós precisamos sempre de ter um estímulo que seja percebido por um receptor onde ocorrem uma série de fenómenos e é preciso que estejam envolvidos o tálamo (onde sofre tratamento) e o córtex. O circuito pode ser modulado e isso acontece através de um conjunto de fibras que estão dispersas através do SNC e que constituem a formação reticular (muito relacionado com as emoções, bem-estar, mal-estar, adição a fármacos, etc.). A formação reticular envia informação para o tálamo e é capaz de modificar o output que vai para o córtex. A importância relativa do tálamo e do córtex e do tálamos é diferente conforme a espécie. À medida que vamos evoluindo a nível de espécies, a percepção é cada vez mais dependente do córtex. Se o ser humano sofrer lesões alguma zona do córtex occipital, responsável pela visão, perde progressivamente a capacidade de organizar a informação visual... na parte de trás da nuca não conseguimos ver, um pouco mais à frente não conseguimos interpretar o que vemos, um pouco mais à frente não conseguimos adaptar a nossa actuação... Se um pássaro perder o córtex occipital é perfeiteitamente capaz de organizar a sua vida, motilidade e actuação em função dos estímulos visuais. O ser humano tem restos dessa organização sub-cortical das sensações. Ninguém vos vai pedir que identifiquem os receptores mas a verdade é que estão descritos milhares de receptores espalhados pelo nosso corpo e descobriu-se que estão separados em receptores específicos que geram sensações, terminações nervosas livres ou com botões na ponta, pêlos, corpúsculos de Pacini (terminação nervosa envolvida em camadas formadas por tecido conjuntivo, como se fosse uma cebola), corpúsculos de Meissner, corpúsculo de Proust, etc... Mas isto não interessa que vocês saibam! Tem sido muito difícil atribuir função a todas as terminações nervosas livres, e neste momento não há acordo entre os fisiologistas e histologistas acerca dessas correspondências. A nossa classificação será funcional e consiste no seguinte: 1. Mecanoreceptores – aqueles que sentem ou percebem modificações mecânicas: tacto, sensações vibratórias, equilíbrio, audição. São mecanoreceptores todos aqueles que recebem um estímulo mecânico e em consequência despoletam um potencial que nos transmite a sensação 2. Termoreceptores – são estimulados pelas modificações térmicas, e existem receptores distintos para o calor e o frio 3. Receptores Nociceptivos (Nociceptores) – receptores para os estímulos que provocam dano, e portanto estão relacionados com a percepção da dor 4. Receptores Electromagnéticos – relacionados com a visão Esta é talvez a classificação clássica e funcionalmente a mais adequada, em função do estímulo recebido. As sensações têm uma certa especificidade, p. ex. a luz é quase exclusivamente recebida pelos electroreceptores da retina. Esta especificidade é, no entanto, relativa: quando falamos em especificidade de um receptor para um determinado tipo de energia (calor, deslocamento, luz) queremos dizer apenas que aquele receptor tem para o tipo de energia correspondente um limiar de excitação mais baixo. Isso não implica que um estímulo mecânico não consegue excitar um receptor electromagnético: se eu der um soco com força suficiente no olho de um indivíduo e tiver uma pressão suficiente na retina, consigo despolarizar células da retina e a pessoa vê luzes! O que acontece é que para isto acontecer é necessário um estímulo mecânico de alta intensidade, enquanto que com um fotão apenas é possível provocar alterações num grande número de células da retina. A outra questão associada à especificidade tem a ver com as fibras nervosas. No nosso córtex as coisas estão organizadas por funções, não só em termos somatotópicos (isto é, uma parte do corpo corresponde a uma parte do córtex) mas também em termos de funções. P. ex., há um córtex sensitivo (onde chegam as sensações), um córtex visual (onde chegam as sensações visuais) e um córtex auditivo (onde chegam as sensações auditivas). Isto passa-se porque há nervos que vão da periferia para essas zonas. Estimulando electricamente um nervo que vai para uma zona da visão, mesmo que esse estímulo não seja visual, a sensação obtida será de natureza visual, apenas porque os potenciais vão chegar a uma zona que está habituada a interpretar estímulos visuais. Em resumo, as sensações são específicas porque os receptores são parcialmente específicos no sentido de terem um limiar mais baixo para uma determinada forma de energia, mas também porque existe uma especificidade nas vias nervosas que vão para o SNC. Isto coloca alguns problemas a nível das tácticas de recuperação do sistema nervoso. Reparem que uma secção medular pode ser regenerada, mas é estatisticamente impossível que cada um dos nervos da medula vá ter contacto com exactamente a mesma fibra, reconstituindo o estado anterior à lesão (são fibras muito cruzadas). Assim, é muito provável que muitas dessas fibras vão estar em contacto com zonas com que não estavam previamente, isto é o SNC vai começar a receber e enviar estímulos com que não contactava especificamente antes da lesão. Isto pode provocar dificuldades de organização que tornam difícil o planeamento de uma estratégia de recuperação.” F.S.F.: “Isso quer dizer que é possível que um indivíduo pretenda mexer um músculo e mexa outro?” L.S.C.: “Sim, é possível.” L.F.M.C.: “Então, o SNC deverá tentar corrigir esse problema... realizar uma nova aprendizagem no sentido de readquirir a coordenação...” L.S.C.: “Isso é parcialmente corrigível mas não completamente. A plasticidade e o controlo motor não são absolutos: recuperar o nervo não significa recuperar a função!” F.S.F.: “Portanto... o problema principal a nível da organização será a contradição de impulsos recebidos no SNC e os respectivos mecanismos de feedback: o córtex consciente “diz” que um músculo se está a contrair mas esse músculo “diz” que não, assim como os proprioceptores das articulações.” L.S.C.: “Exactamente! O esquema geral da sensação pode constituir, na forma mais simples, um baroreceptor... e isto forma um paradigma experimental da sensação! O tal corpúsculo de Pacini, na parte profunda da pele, tem uma série de cápsulas e tem no seu interior uma terminação nervosa. A forma do diagrama (fig. 46-1), em “salsicha”, significa que o nervo é mielinizado com nódulos de Ranvier. O corpo celular entra na medula e sobe até ao cortéx, deixando algumas respostas locais na medula. Todas as sensações têm sensivelmente esta forma de organização. Acerca da velocidade de condução das fibras, podemos classificá-las como rápidas ou lentas, mielinizadas ou não-mielinizadas. As fibras A, as mais rápidas, têm os sub-grupos a e ß. As fibras d e fibras C são não-mielinizadas. Os receptores da dor transmitem a sua informação por fibras Ad (as mais lentas entre as mielinizadas) e as fibras C. A condução da dor é muito lenta em relação à condução da pressão, e por isso aparece no fim.... se se fizer um estímulo mecânico que vai influenciar receptores mecânicos e de dor, o indivíduo vai receber a percepção mecânica antes da percepção da dor, o que é essencial na prevenção de dor e danos corporais por pressões exageradas ou temperaturas exageradas. Como é que aparece a sensação? A nível de receptor, é no corpúsculo de Pacini (que parece uma casca de cebola e é formado por tecido conjuntivo) que existe, interiormente, a terminação não-mielinizada de uma fibra nervosa. À saída do corpúsculo já são visíveis as bainhas de mielina. Se se fizer pressão na pele, altera-se estas capas e essa pressão é transmitida ao nervo. Alguns receptores de membrana são sensíveis à deformação da mesma e abrem quando ela é deformada – isto conduz à abertura de canais permeáveis principalmente a sódio, entrada de sódio, e despolarização. Se a pressão for maior o número de canais abertos (e consequentemente a despolarização) é superior, e a certa altura atinge-se o limiar de excitação do nervo. Surge o potencial de acção, este percorre o nervo sempre com a mesma intensidade e provoca gasto de energia. A capa do corpúsculo de Pacini apenas optimiza as condições mecânicas de deformação, porque o nervo é capaz, sozinho, de provocar este fenómeno. A destruição (ou inutilização, p. ex. por anestesia) do nervo, porém, já impede os potenciais locais de despolarizar o nervo a montante por potencial de acção – é esse o mecanismo de actuação da anestesia. Comparando este potencial de acção com o potencial receptor (potencial local que não é transmitido) à medida que se aumenta a pressão aplicada, observa-se que a intensidade do potencial receptor aumenta. O potencial de acção, por seu lado, sofre um aumento na sua frequência. Isto traduz a capacidade do sistema nervoso de modelar uma fenómeno: o o potencial receptor é reflexo da intensidade do estímulo mas aquilo que é transmitido ao nervo é a frequência dos potenciais de acção repetidos: o valor máximo (intensidade) do potencial de acção é sempre o mesmo. As figuras 46-2 a 46-4 evidenciam esta questão. É de notar, na figura 46-4, a zona de saturação do potencial receptor para estímulos mecânicos intensos: a este nível as alterações no estímulo já não conduzem a alterações na intensidade do potencial receptor. Por outro lado, é muito diferente ter um estímulo mecânico de 10% ou um de 40%. Que é que isto significa? 1. Estes receptores têm saturação; 2. Ao nível mais baixo é fácil discriminar entre dois estímulos diferentes, ao nível mais elevado é muito difícil discriminar entre dois estímulos diferentes; A organização dos receptores não é sempre a mesma, nem sempre temos um corpúsculo a conduzir a um nervo e daí para o Sistema Nervoso. Na mão, por exemplo, cada nervo pode ter várias ramificações e em cada ramificação pode haver um corpúsculo. Assim, a toda a zona da pele que transmite informação através do mesmo nervo dá-se o nome de campo receptor do nervo. Cada nervo tem o seu campo receptor, e os campos adjacentes são parcialmente sobrepostos. Em cada nervo existem muitas vezes fibras que se dirigem aos nervos vizinhos e que são de tipo inibitório. Se se excitar um determinado campo, é possível provocar inibições nos campos ao lado. Isto facilita imenso a discriminação espacial dos locais onde é dado o estímulo: na prático aquilo que é recebido é uma zona estimulada com todas as adjacentes inibidas e o SNC não tem qualquer problema em identificar o local de estimulação. Este facto foi comprovado experimentalmente fazendo indentações sucessivamente mais profundas na pele (ver fig. 5) e observando, em resposta, o número de potenciais por segundo. O outro gráfico demonstra que existe uma correlação aproximadamente linear entre a intensidade do estímulo e a amplitude da resposta em termos de potenciais. Quando se correlaciona a amplitude da resposta local ao estímulo ou a frequência dos disparos com a intensidade da sensação que estamos a perceber, chega-se também a uma boa correlação: a percepção subjectiva é tal que uma pessoa pode atribuir uma escala às sensações que vai experimentando e esta escala está em muito bom acordo com os potenciais medidos no nervo. O facto de a intensidade do estímulo estar relacionada com o número de potenciais não quer dizer que esses potenciais se mantenham no tempo! Caso um estímulo seja aplicado continuamente (p. ex. uma depressão de 1mm na pele) ao fim de algum tempo o número de potenciais começa a decrescer sem que haja diminuição do estímulo (ver fig. 46-5). Chama-se isto adaptação e os corpúsculos de Pacini são os receptores que se adaptam mais rapidamente: um casaco que é colocado por cima do corpo deixa de ser percebido após poucos segundos. Por outro lado, enquanto se mantiver um braço levantado os receptores posicionais das articulações (proprioceptores) indicam que isso se passa. Estes receptores são de adaptação lenta. A medula, que vai ter ao encéfalo, recebe os nervos a vários níveis. Desta forma, nós estamos organizados em várias zonas, é como se estivéssemos cortados às fatias. Estas fatias correspondem ao modo como as fibras vão entrando na medula. Assim, e porque cada zona da medula recebe informação sobre uma determinada zona, se se lesar uma zona da medula perde-se a informação sobre essa zona. Os dermatomas (ver fig. 47-14) correspondem às várias zonas que estão organizadas conjuntamente na medula. Quando o estímulo é provocado no receptor que o transforma em potenciais de acção que entram na medula, começa logo a sofrer tratamento. A medula não é, de forma alguma, apenas um canal de condução! (Ver fig. 7-1) Os mecanoreceptores, por exemplo, entram na medula e imediatamente sobem na medula. Os sinais deste tipo de receptores são transmitidos por fibras Aß, muito rápidas. Esta informação que não fica na medula, pois imediatamente sobe, corresponde à informação táctil. O tacto pode ser dividido em duas partes: tacto epicrítico (aquele que permite descrever a forma de um objecto) e tacto protopático (Não tenho a certeza se é este o termo... N. do “D.”), que transporta a informação sobre se o toque é agradável ou não. Esta forma discriminativa, fina, do tacto entra pela medula e sobe logo no cordão posterior. A sensação dolorosa, térmica, etc., fica em grande parte na medula. Como a medula está a este nível organizada em camadas, e apesar de haver alguma sobreposição, os nociceptores estão fundamentalmente nas camadas 1 e 2; os mecanoreceptores nas camadas 3 e 4. (Ver fig. 7-3) A figura anterior era uma ampliação da zona superior direita desta. A zona branca da medula é formada por fibras nervosas, ao passo que a zona cinzenta é constituída por corpos celulares. Pode observar-se que o toque, pressão, vibração e posição das articulações vai começar a subir na medula imediatamente através do cordão posterior, sem cruzar, até chegar ao bulbo. Só no bulbo é que termina o primeiro neurónio. Este contacta com outro, cruza para o outro lado e vai terminar no tálamo, de onde vai para o córtex crebral. A dor, por sua vez, entra na medula, termina no corno posterior e depois o segundo neurónio começa logo de seguida, cruza para o outro lado e sobe até ao tálamo através dos cordões anterolaterais. Se esta organização existe a nível da medula, estas interacções entre as várias sensações são já muito tratadas a nível do tálamo. O tálamo é que vai determinar quantas células do córtex é que vão ser influenciadas pelas fibras nervosas do tacto, é ele que determina qual a sensibilidade para os vários tipos de sinais provenientes do mesmo estímulo (tacto, dor, temperatura). Isto é muito importante para o diagnóstico porque surgem muitas vezes indivíduos que, a nível de um determinado dermatoma, tem perda da sensibilidade dolorosa e da sensibilidade térmica mas não tem perda da sensibilidade táctil. Isto significa que a lesão deste indivíduo é provavelmente uma lesão dos cordões anteriores e não dos posteriores. Jogando com este conceito de dermatoma quando se pesquisa a sensibilidade (estudo da pressão, tacto, temperatura e a posição das articulações) é possível dizer qual a zona e nível da medula em que está a lesão. Há quem classifique as sensações de outra forma: não em função dos receptores mas em função do local em que tem origem o estímulo. Se o estímulo está fora do corpo é uma sensação extroceptiva (visão, audição), se está dentro do corpo é introceptiva (dor) e se disser respeito às articulações e músculos é proprioceptiva (posição do corpo, força muscular). Como é que está organizado o córtex? (Ver fig. 7-4 e 7-5) Há vários sulcos que dividem a superfície cortical em circunvoluções (Não tenho a certeza se é este o termo... N. do “D.”), e podemos classificar e sub-dividir as circunvoluções de acordo com a análise histológica. A carta de Broadman (Não tenho a certeza se é este o nome... N. do “D.”) permite verificar que existem múltiplas áreas. Verificou-se que a sensibilidade está organizada na circunvolução parietal ascendente, nas zonas 1, 2, e 3. A zona SI é primária e a zona SII é secundária. Tal como no controlo motor, a sensibilidade está distribuída pelo córtex segundo o modelo do “homúnculo sensorial invertido e contralateral (os lados do corpo estão trocados no córtex)”, que foi comprovado medindo potenciais após estimulação. Outro método para classificar estas zonas é perguntar a um doente que está em cirurgia aquilo que sente quando é estimulado directamente no córtex. A cara, conjuntamente com a boca e mãos, ocupa uma zona enorme no córtex cerebral. Aquilo que está representado no córtex são os campos sensoriais, e portanto as zonas que têm muitos campos sensoriais (grande poder discriminativo, muitas fibras nervosas) têm grandes dimensões. A título de exemplo, os lábios têm tantos campos sensoriais como o braço todo. A DOR Todas as sensações estão associadas a um tónus afectivo: podem ser agradáveis ou desagradáveis. As sensações dolorosas têm a característica de ter um tónus desagradável e estão associadas a lesão dos tecidos real ou potencial (um estímulo que possa provocar lesão de tecidos pode conduzir a uma dor). Assim, a dor tem um carácter de urgência a nível da rapidez do estímulo e tem uma função protectora (ver fig. 10). A dor aguda instala-se rapidamente e pode ser persistente, resulta da activação dos receptores ou do nervo que a eles está ligado. Se os receptores (nociceptores) são directamente activados trata-se de dor nociceptiva e se existe lesão de nervos periféricos ou de zonas do SNC (como por ex. uma inflamação) trata-se de dor neuropática. A dor crónica é um reflexo de um problema do corpo que não é tratado e continua a alertar para a sua urgência (p. ex. dores reumatóides)... não pára quando devia parar de nos aborrecer! A dor fantasma é o nome que se dá quando o indivíduo recebe impulsos de um local que já não faz parte do seu corpo, como por exemplo uma perna amputada. Esta dor tem a ver com a especificidade das zonas: no local em que fica a cicatriz há tendência para os nervos crescerem e ficarem com terminações que são irritadas pela cicatrização. Esta irritação provoca potenciais na zona que transmitia a dor na perna ao SNC e assim o indivíduo sente dor. Quando há lesão existem uma libertação de substâncias para os tecidos, em particular serotonina, prostoglandinas e bradiquininas e ao mesmo tempo aparecem Mast Cells que libertam histamina. Todas estas substâncias e mesmo o Potássio que se liberta das células quando são destruídas estimulam as terminações nervosas livres e geram potenciais de acção que são conduzidos até à medula, entram no corno superior da medula, cruzam para o outro lado e sobem pelos cordões anterolaterais até chegarem ao tálamo (Vias espinhotalâmicas). Outros potenciais ficam nos núcleos reticulares que se referiu acima e que são importantes para a percepção da sensação (Vias espinhoreticulares). Outros ainda nem sequer entram no córtex e ficam no mesencéfalo. São necessários todos estes impulsos para se ter dor. A dor pode ser rápida ou lenta. Quando, por ex., se sofre uma martelada no dedo surge uma dor aguda muito forte. Passado um pouco aparece uma dor mais persistente, uma sensação de ardor que demora muito mais tempo a passar. Este tipo de dor está relacionado com os dois tipos de terminações nervosas que são afectadas quando se liberta os transmissores referidos acima na zona lesada: terminações de fibras C (condução lenta) e terminações de fibras Ad (condução rápida). Assim, a informação da dor é repartida por dois impulsos. Por outro lado, existe a tendência de abanar ou fazer pressão no dedo quando acontece algo do tipo descrito acima. Esta reacção activa o sistema de inibição do neurónio de projecção (ver fig. 24-10, pág 10) que consiste na actuação de diversas fibras provenientes de diversos mecanoreceptores. Estas fibras estão associadas ao neurónio de projecção e inibem-no quando são estimuladas, mas também há fibras excitatórias. Quando se dá a inibição, diz-se que se fecha um portão da dor: fecha-se a possibilidade da célula ser excitada. Neste caso a dor diminui, há menos neurónios a transmitir a dor. Assim, a estimulação mecânica de uma determinada zona pode impedir ou diminuir a transmissão de dor a partir dessa zona. É esse princípio que é usado na Acupunctura, em que são inseridas fnas agulhas no corpo na tentativa de inibir os centros de dor. Esta questão é um pouco mais complicada do que aquilo que se disse até aqui: há várias níveis onde a transmissão é feita por receptores (a maior parte deles receptores excitatórios tipo glutamato). Aquilo que se passa é que nessas sinapses intermédias há outros tipos de receptores que podem modificar a sensibilidade para essa transmissão: é sabido há muito tempo que a injecção de morfina provoca uma diminuição da dor. Isto sucede porque este fármaco liga-se a qualquer coisa, uma vez que ele não é produzido naturalmente no organismo. A verdade é que o organismo sintetiza substâncias que ocupam os mesmos receptores da morfina e que se chamam endorfinas. Existem, portanto, receptores opióides (µ, ? e d) a que se ligam a morfina e as várias endorfinas (ver tabela 4-5 na pág. 12). Estas substâncias fornecem, portanto, um efeito analgésico, tal como a morfina. Há múltiplos opióides, e nesta altura já é possível sintetizar estas substâncias. As dinorfinas (actuam em ?, µ e d mas principalmente em µ), as endorfinas (principalmente no µ), as ß-endorfinas e as encefalinas. Todos estes receptores são produzidos em diversas zonas do SNC e diminuem a sensibilidade da estimulação. Localizam-se no tálamo, córtex e nas camadas respectivas da medula, o que nos permite modelar a dor. Um indivíduo que pratique desporto está a produzir endorfinas e estas são capazes de aumentar muito o seu limiar de tolerência à dor. Pode sofrer uma lesão grave sem que se dê conta e só quando pára a actividade sente uma dor muito intensa que está relacionada com o baixar do nível de endorfinas. Por outro lado, a estimulação repetida destes receptores (com morfina) provoca habituação e comça-se a pensar que as endorfinas também. Assim, um indivíduo pode ter fenómenos aditivos com a prática desportiva.” A.R.M.B.: “A morfina consegue ligar-se a qualquer dos receptores opióides?” L.S.C.: “Ela liga-se a vários receptores opióides, mas foi descoberto um receptor opioidlike (que foi clonado) que é ocupado por uma substância chamada nociceptina. A nociceptina tinha função e local de ligação desconhecidos, mas recentemente foi descoberto o receptor referido em zonas relacionadas com a dor. A nociceptina, porém, e contrariamente às outras substâncias do grupo provoca hiperalgesia em vez de diminuir a dor. Assim, conduz a um abaixamento considerável do limiar para a dor e estímulos que não são dolorosos podem provocar dor. Pensa-se que algumas das patologias dolorosas que apresentam hiperalgesias possam ter a ver com a exteriorização desse tipo de receptores ou com o aparecimento de receptores anormais particularmente sensíveis às nociceptina. A dor referida é uma dor que é sentida não no órgão que a está a provocar mas noutra zona. Tem sido explicada por duas teorias. Na Teoria da Convergência (ver fig. 78 na pág. 12). Por exemplo, um indivíduo que está a ter um ataque do miocárdio pode sentir dor num braço porque nunca, no decurso da nossa vida prévia, o coração doeu. Dessa forma, o SNC não está habituado a que o coração doa. O que se passa é que as zonas normais, que podem doer (braços, etc.), estão a enviar estímulos para zonas muito próximas da medula, onde as vias se tornam comuns e chegam ao SNC. Quando há uma dor qualquer, o córtex indica uma dor no local em causa. A certa altura, o córtex alerta para uma dor num braço mas o que se passa é que há um coágulo que se formou na coronária e está a ser libertado potássio, histamina, as Mast Cells estão em actividade, e todos os receptores nociceptivos estão a ser estimulados. O estímulo chega ao local e depois tem uma via comum. O córtex percebe que a via está a ser estimulada, mas o impulso não vem dali mas sim do coração. Assim, o indivíduo sente dor no braço, invade o tórax e muitas vezes o indivíduo começa o enfarte do miocárdio apenas com uma “impressão” no bordo externo do braço, mas que se vai transformar naquela que é a dor mais mais intensa descrita em Patologia. Há outra teoria, a Teoria da Facilitação, que afirma que para além da convergência há sempre estímulos que estão actuar e que normalmente não são suficientemente intensos para serem conduzidos ao SNC. Porém, se houver aqui um estímulo nociceptivo há uma sobreposição de campos que conduz a uma facilitação deste neurónio e o estímulo vai ser conduzido. Se se perder uma determinada zona do córtex, (p. ex. devido a um coágulo que fechou a irrigação dessa zona) o local do organismo correspondente à área destruída do córtex perde a sensibilidade. Passado algum tempo, essa sensibilidade começa a ser recuperada. O que se passa é que as zonas circundantes cumprem a função que correspondia à zona morta. Por outro lado, se o indivíduo perder uma parte do organismo (p. ex. um dedo), passado algum tempo e consoante os dedos forem utilizados para as funções realizadas pelo dedo perdido, essa zona vai ser invadida pelas zonas correspondentes aos outros dedos. Aquela localização não é somatotópica no sentido mecanicista, existe uma enorme plasticidade do SNC no sentido de substituir a função e no sentido de suplementar a função de órgãos que foram perdidos.” A.R.M.B.: “Então a dor fantasma tem tendência a desaparecer?” L.S.C.: “Sim, após poucos dias. O mais provável, porém, é que ao fim de algum tempo a dor já é localizada no local em que realmente é sentida: o coto. O problema é que é muito normal uma pessoa acordar de uma cirurgia de amputação de emergência e tentar mexer um membro que não está lá. Isto também tem implicações psicológicas que têm que ser tratadas.” Modulo 4 Fisiologia dos sistemas de controlo Nos vimos o que era o sistema nervoso no primeiro modulo, como é que evoluiu, como é que é controlado automaticamente através dos reflexos, e depois como é que se dava a percepção e a transmissão da sensibilidade e da dor. E este grupo vai terminar hoje com reflexo em que o efector, lembram-se que eu tinha dito que para haver um reflexo era preciso que houvesse um receptor, uma via aferente que fosse para um centro, um centro, uma via eferente, que viesse do centro e um efector, e disse isto dos reflexos que nós tínhamos estudado que eram os miotáticos, aquele das pancadinhas que vocês estiveram a estudar, era um reflexo que tinha como efector o musculo esquelético. Hoje vamos olhar para um tipo de reflexos e para um controlo em que o efector não é o musculo esquelético, em que os efectores são glândulas, vasos, o coração, o musculo liso e os vários órgãos. Nos mais uma vez vamos manter aquela perspectiva de: estímulo, tratamento da informação, resposta adequada. (Referência ao encontro de estudantes de biomédica que se realizou na semana seguinte, e no qual houve uma intervenção sobre neurocardiologia em que se repetiu alguns dos assuntos tratados nesta aula.). O sistema nervoso autónomo e a sua avaliação são talvez dos assuntos onde o tratamento e interpretação de sinais pode dar mais informação, quer em termos de investigação, quer em termos clínicos, e aquilo a que se chegou é muito pouco comparativamente àquilo onde se poderia chegar, talvez por ignorância daqueles que começaram a tentar este tipo de abordagens. É claramente uma zona de fronteira como nós vamos ver também nesse encontro, mas fundamentalmente vamos ver hoje. Ora bem, o sistema nervoso autónomo ( SNA ), quando se ouve falar de SNA , está-se sempre a ouvir falar de SNA , ou sistema vegetativo, ou outra nomenclatura qualquer, o que se está a falar é de um conjunto de nervos, talvez se lembrem de eu ter falado de sistema nervoso central e periférico, e dividimos o periférico em sistema nervoso autónomo e somático. Portanto, é uma parte do sistema nervoso periférico que está a enervar órgãos que têm normalmente uma característica; qualquer destes órgãos mesmo na ausência da enervação é capaz de actividade própria, ou seja, o coração é comandado pelo simpático e pelo parassimpático, mas se eu desenervar o coração, se cortar as fibras simpáticas e parassimpáticas para o coração, o coração continua a bater. Se eu cortar do plexo entérico, que vai para o intestino, o intestino continua a ter movimentos, continua a ter despolarizações lentas. Se eu estiver a medir potenciais na bexiga, o facto de eu desenervar a bexiga não faz com que esses potenciais desapareçam, eu continuo a ter potenciais e contracções na bexiga. O facto dos órgãos que eram enervados por esta parte do sistema nervoso serem capazes de uma actividade autónoma foi uma das causas que levou a chamar a este sistema nervoso, sistema nervoso autónomo, alem disso há outra razão, (referência a acetato) isto é uma representação esquemática do SNA em que vocês têm aqui os centros superiores, portanto aqui se quiserem seria o encéfalo, isto aqui será a protuberância e o bulbo , e por aqui temos a medula, portanto, encéfalo e medula, isto é o sistema nervoso central. Como viram logo na primeira aula daqui saem múltiplos nervos que constituem o sistema nervoso periférico, alguns vão para os músculos esqueléticos fazer com que nós façamos a contracção e o movimento voluntário, mas outros vão terminar como vêm, nos olhos, nas glândulas, no coração, nos pulmões, no trato gastro intestinal, no ureter, na bexiga, nos órgãos genitais, e reparem que todos estes sistemas têm aqui fora do sistema nervoso central células que são a sua origem, isto são fibras que vão para o olho, são fibras que vão para as glândulas, são fibras que vão para o coração. Reparem que estas fibras que foram as primeiras que foram seguidas pelos investigadores, pelos anatomistas a partir do olho e das glândulas. Eles seguiam as fibras até chegar à origem dessas fibras, então diziam: a origem destas fibras está fora do sistema nervoso central, e portanto isto é um sistema periférico mas autónomo porque tem verdadeiros centros, tem gânglios . A verdade é que essa autonomia do SNA é apenas convencional porque estas células que existem e que comunicam com o olho com as glândulas e com o coração por sua vez são impressionadas por fibras que vêm do sistema nervoso central, e nós podemos falar quer para o sistema nervoso simpático quer para o parassimpático em fibras pré-ganglionares , as que vão do sistema nervoso central até ao gânglio e, no gânglio nascem as fibras pós-ganglionares que vão para o olho, para as glândulas, para o coração, etc... Normalmente eu costumo fazer a divisão do SNA em dois grupos: um sistema parassimpático e um sistema simpático. O simpático tem origem; as suas fibras préganglionares têm origem na medula torácica e lombar, as fibras parassimpáticas pré-ganglionares têm origem na região craniana, portanto, saem de dentro da cabeça, do encéfalo, em particular da protuberância e do bulbo, e da região sacral . E reparem que a maior parte dos órgãos é enervada pelas duas divisões, simpática e parassimpática. Por exemplo, uma estimulação parassimpática diminui a frequência do batimento cardíaco, uma estimulação simpática aumenta a frequência de batimento. Uma estimulação do parassimpático aumenta as contracções intestinais, do simpático diminui as contracções intestinais. Normalmente eles têm uma acção antagónica, mas existem diferenças, as principais diferenças são estas: primeiro as fibras, como eu lhes disse pré-gânglionares craneo-sagradas para o parassimpático, toraco-lombares para o simpático, segundo, e com um significado funcional maior: quando nós activamos o simpático isto dá uma descarga generalizada de actividade por todo o corpo. O coração bate mais depressa, os vasos contraem, a pressão sobe, respiramos mais, paramos os intestinos e começamonos a preparar para a acção. O simpático dá descargas muito generalizadas, já vamos ver porquê. É um sistema de controlo muito interessante e de uma forma geral que nos prepara para gastar energia e para a acção. O parassimpático dá descargas muito mais localizadas, descargas por exemplo apenas nos intestinos, apenas no coração, portanto são descargas muito mais pequenas. Por outro lado as fibras pré-ganglionares do sistema nervoso parassimpático são fibras compridas, e as fibras pós-ganglionares são fibras curtas. No sistema nervoso simpático as fibras pré-ganglionares são fibras curtas, e as fibras pós-ganglionares são fibras longas. Intermediários químicos , lembram-se quando falámos sobre sinapse, quando existe transmissão de informação de uma fibra para outra fibra, existe libertação de um intermediário químico , esse intermediário químico nas fibras pré-ganglionares quer seja do parassimpático, quer seja do simpático é sempre a acetilcolina . Nas fibras pósganglionares parassimpáticas continua a ser a acetilcolina , nas fibras pós-ganglionares simpáticas são catecolaminas, em particular a adrenalina e a noradrenalina . Em resumo: o simpático gasta energia, descargas generalizadas. o parassimpático poupa energia, descargas localizadas. o simpático tem fibras pré-ganglionares curtas, pós-ganglionares longas. o parassimpático tem fibras pré-ganglionares longas, pós-ganglionares curtas, O intermediário químico é a acetilcolina nas fibras pré-ganglionares dos dois sistemas, a acetilcolina é o intermediário químico das fibras pós-ganglionares do parassimpático, e nas fibras pós-ganglionares do simpático é a noradrenalina e a adrenalina em particular a noradrenalina Ora bem, vocês têm aqui a maneira como funciona uma sinapse colinérgica . Os farmacologistas preferem dividir o S.N.A . pelo tipo de intermediários, porque há algumas fibras simpáticas, por exemplo, as que enervam as glândulas sudoriperas que também libertam acetilcolina, as fibras pós-ganglionares . Os farmacologistas preferem chamar sistema colinérgico a tudo o que liberta acetilcolina e sistema adrenérgico a tudo o que liberta catecolaminas . De qualquer maneira, sob o ponto de vista funcional dános mais jeito continuar a fazer a separação entre simpático e parassimpático. Vocês têm aqui uma terminação de uma fibra pré-ganglionar que liberta acetilcolina , reparem que a acetilcolina existe dentro de umas vesículas, e quando há estimulo eléctrico, há uma migração destas vesículas para a membrana, uma fusão de membranas e depois uma libertação da acetilcolina que se vai unir a um receptor, parte da acetilcolina naturalmente é degradada, é reincorporada para ser reaproveitada e ressintetisada , mas quando se dá uma ligação de acetilcolina ao seu receptor, vão-se dar alterações de canais de membrana, lembram-se que falamos nisso o ano passado, que existem vários canais, uns canais activados electricamente, outros canais activados por substâncias químicas. Estes receptores que nós aqui temos são receptores activados pela acetilcolina , a acetilcolina liga-se ao receptor e abre imediatamente o receptor, este receptor de abertura rápida actuado pela acetilcolina é naturalmente um canal de resposta muito rápida e aparece num determinado grupo de receptores para a acetilcolina . O que eu tinha para falar de seguida é: quando nós falamos que a acetilcolina é um intermediário químico pré e pós-ganglionar parassimpático não quer dizer que as suas acções sejam as mesmas nas fibras pré-ganglionares e pós-ganglionares, foi possível estudar, imitar se quiserem a acção da acetilcolina de duas maneiras diferentes, vocês podem injectar um animal e ter múltiplas acções no animal, naturalmente a frequência cardíaca do animal diminui, o intestino do animal anda depressa, há constrição pupilar, uma série de fenómenos. Algumas reacções podem ser imitadas pela nicotina e impedidas pelo curare. Há um veneno que é utilizado pelos índios da Amazónia que consiste numa substância que entrando em circulação paralisa a vítima, paralisa o animal, esta substância é o curare, e o curare o que faz é actuar sobre um dos receptores que existem para a acetilcolina , exactamente os receptores que existem no musculo esquelético, o nervo actua no musculo esquelético libertando acetilcolina , a acetilcolina une-se a um receptor deste tipo, portanto um receptor tipo nicotínico, e esse receptor nicotínico é um receptor ionotrópico , portanto actua directamente no canal e abre o canal, sendo a resposta muito rápida. No entanto há algumas acções da acetilcolina que não são antagonizadas pelo curare e imitadas pela nicotina, essas são imitadas por uma substância que existe num cogumelo, (...) muscaris , são bem conhecidas as intoxicações e os efeitos gastrointestinais das intoxicações por cogumelos, são situações dramáticas, muitas vezes mortais, em que, no caso do muscaris o que existe é uma imitação das estimulações do parassimpático à periferia, portanto a acção é sobre um determinado tipo de receptores para a acetilcolina, os receptores que existem no coração, nos intestinos, nos olhos, etc...O individuo tem uma enorme taquicardia, diminuição da frequência cardíaca, com quedas de pressão as vezes acentuadas, com aumento do trânsito intestinal, diarreias e vómitos que podem ser incontroláveis pouco há a fazer senão ir mantendo o individuo vivo até o veneno ser eliminado. Ora também há antagonistas para isto, há a tropina , (...avião...). Portanto em resumo nós temos receptores de acetilcolina para a muscarina e para a nicotina, os da nicotina são os que existem no musculo esquelético, existem nos gânglios, fazem a comunicação entre fibras pré-ganglionares e pós-ganglionares e são antagonizadas pelo curare, os receptores muscarínicos são os que existem nas comunicações pós-ganglionares e a sua acção é imitada pela muscarina e antagonizada pela tropina . A demonstração de que isto é assim é uma demonstração clássica, é uma experiência clássica feita num peixe que tem uma característica muito interessante, normalmente as nossas vísceras, nossas as dos mamíferos são constituídas apenas por um tipo de musculo, o musculo liso, e o musculo liso tem apenas uma enervação do sistema nervoso autónomo. Há um tipo de peixe que tem não só musculo liso no seu intestino, mas também musculo esquelético, isto é, por fora é um musculo semelhante ao nosso musculo de controlo voluntário, aos músculos que nós temos no bícep , no trícep , etc..., por dentro é musculo liso, o interessante é que quando se estimula o vago deste animal obtém-se uma resposta complicada, uma estimulação rápida, ou uma contracção rápida seguida de uma contracção lenta. Se repetirem a preparação depois de por um coralizante, ora o coralizante é o tal que inibe a acção da nicotina, e se estimularem o vago, o que é que têm, têm apenas a resposta lenta. Isto significa que o componente rápido pode ser antagonizado pelo curare e portanto é de receptores nicotínicos, e realmente essa resposta rápida é o tipo de resposta que nós observamos no musculo esquelético, quer no intestino do peixe, quer no nosso musculo esquelético. Outra preparação em que voltamos a estimular o vago, temos esta contracção, e depois vamos dar a tropina , que é uma substancia capaz de impedir as acções da muscarina , o que é que acontece, fica apenas o componente rápido, desaparece o componente lento, ora o componente lento é o característico do musculo liso, tanto do peixinho como do nosso, e se na preparação puserem a tropina e curare, naturalmente que estimulam o vago e não têm resposta nenhuma. Eu devo dizer-vos que este raciocínio em que se dizia: acetilcolina actua em dois receptores, nicotínicos e muscarínicos e quando estimulamos o sistema nervoso parassimpático o que fazemos é libertar acetilcolina , e a acetilcolina actua só em dois receptores, é claro que se foi descobrindo que os nicotínicos se podem dividir em dois grupos, os muscarínicos em m1 , m2 , mas mais importante do que isso, e um conceito que se quiserem à cinco anos não era um conceito confortável, começava-se a suspeitar, é que uma terminação nervosa quando está a libertar acetilcolina , nunca liberta só acetilcolina , ou seja, quando estimulamos uma fibra para ela libertar acetilcolina , se tentarmos depois imitar o efeito da estimulação com a mesma dose de acetilcolina que se libertou da célula nunca conseguimos, porque normalmente juntamente com a acetilcolina ou com outro neurotransmissor qualquer liberta-se uma quantidade de uma pequena substancia, muitas vezes é um neuropéptido, ou seja é um péptido que existe dentro do sistema nervoso, há múltiplos neuropéptidos, muitos deles só por si não são capazes de provocar acção nenhuma, mas são precisos para a acetilcolina ou outra substância provocar acção. Estas substâncias que são necessárias para a acção de um neurotransmissor são, se quiserem, numa nomenclatura muito utilizada, os neuromoduladores . O neuromodulador é portanto uma substância que se liberta, e que é capaz de modular a capacidade de intervenção do neurotransmissor . Há quem faça distinção entre neuromodulador e co-transmissor, porque há algumas substâncias que quando se libertam são capazes de actuar também em receptores do outro lado da membrana, por exemplo se vocês tiverem a estimulação de uma fibra adrenérgica, liberta noradrenalina, como nós vamos ver actua em alguns tipos de receptores a; ou ß, mas liberta-se também uma determinada quantidade de ATP , ora ATP tem os seus receptores próprios, se nós fizermos libertar só ATP, esse ATP é capaz de provocar algum efeito de despolarização ou hiperpolarização, portanto quando as duas substâncias cada uma por si é capaz de provocar uma acção, mas elas interferem, nós estamos a dizer que há uma cotransmissão, quando uma substância existe em muito maior quantidade do que a outra, e a outra, normalmente um neuropéptido serve apenas para modificar a resposta ao transmissor principal, chama-se neuromodulador . Ora este conceito da neuromodulação e co-transmissão foi um conceito difícil de provar porque não havia as técnicas suficientemente finas para fazer diagnósticos ou quantificações de quantidades tão pequeninas de neurotransmissor, e realmente o que se fazia era métodos indirectos de dosear a acetilcolina pelos seus efeitos biológicos ou a adrenalina, e foi preciso muita insistência para se provar que havia outros transmissores, e o sítio onde isso se tornou mais paradigmático, mais importante, foi no aparelho digestivo. O aparelho digestivo como nós vamos ver mais à frente no segundo semestre, tem uma série de fibras concêntricas com várias camadas. Existem múltiplos nervos entre essas camadas, com múltiplos gânglios, e a verdade é que esses gânglios estão sempre a receber informação quer de fibras simpáticas, quer parassimpáticas, mas se nós cortarmos essas fibras simpáticas e parassimpáticas, mesmo assim aquele plexo de nervos é suficiente para manter actividade, provocar respostas, provocar reflexos, etc. E mais interessante é que o grande neurotransmissor a esse nível não é a acetilcolina , nem a noradrenalina , é o ATP . Ora bem, a verdade é que o ATP também foi descrito como co-transmissor ou neuromodulador em várias sinapses que tinham, por exemplo, noradrenalina , portanto dá impressão que aquela distinção entre sinapses adrenérgicas ou polinérgicas as que libertam ATP, ou coliénergicas, as que libertam acetilcolina e outras pequenas quantidades de neurotransmissor não era uma coisa tão nítida, tão clara, e que nós podíamos chamar noradrenérgica ou colinérgica ou polinérgica a uma terminação apenas porque aquele é o transmissor em maior quantidade, e é por isso que em muito livros modernos vocês ouvem falar em sistema simpático e parassimpático e sistema entérico ou sistema digestivo, e em farmacologia ouve-se falar em sistema polinérgico, colinérgico e adrenárgico . Para nós isso não faz muito sentido porque ao que se chama sistema polinérgico também recebe influência do simpático e parassimpático, e nós continuamos a falar em simpático e parassimpático. Por outro lado há outro conceito, que é importante que vocês fiquem porque destruiu nos últimos anos a maior parte dos conceitos clássicos de neurotransmissão, felizmente, porque permitiu explicar uma série de coisas. É que as sinapses e os neurotransmissores no sistema nervoso autónomo conversam uns com os outros, isto é, se eu tiver a acetilcolina a libertar-se de uma terminação num ambiente onde haja muita noradrenalina o efeito não é o mesmo que se eu fizer isto num ambiente onde há pouca noradrenalina, porquê ?, porque há receptores nas próprias fibras colinérgicas para a noradrenalina, em pequena quantidade, que servem para modular a libertação de acetilcolina . Por exemplo um efeito que durante muito tempo se estudou e ainda hoje não está completamente resolvido era: o vago quando nós o estimulamos diminuía força de contracção do coração, muita gente estudava isto e achava que não diminuía. No entanto se estimulassem primeiro o simpático e portanto mantivessem o coração mais acelerado, e nessa fase fizessem a estimulação com ecetilcolina, notavam perfeitamente uma diminuição da força de contracção, isso tem a ver com, por um lado com interferência ao nível do coração, mas provavelmente também com interferências a este nível. Finalmente, esta conversa não é só da noradrenalina para a acetilcolina, há também conversa da acetilcolina para a noradrenalina e conversa da acetilcolina para os próprias zonas que estão a libertar acetilcolina, portanto se eu libertar muita acetilcolina há um sistema de retroalimentação negativa que é capaz de parar o excesso de libertação de acetilcolina . Ora da mesma maneira que foram descobertos os receptores para a acetilcolina começou-se também a estudar os efeitos da estimulação do simpático, portanto a acetilcolina era o sistema colinérgico, e portanto correspondia ao sistema parassimpático, no sistema nervoso adrenérgico ou simpático, começou-se também a verificar que havia substâncias que nós podíamos sintetizar, algumas, outras isolar no sangue e que tinham acções diferentes, ou pelo menos quantitativamente diferentes, por exemplo verificou-se que havia umas substâncias que actuavam muito sobre uns receptores e actuavam pouco sobre outros receptores. Começou-se a isolar substâncias, as substâncias que se isolaram foi a adrenalina, a noradrenalina e sintetizou-se outra que se chama isoprenalina, e verificou-se que a noradrenalina é capaz de estimular muito os receptores a, por exemplo nos vasos e praticamente não estimulava os receptores ß, que a isoprenalina estimulava os ß e praticamente não estimulava os a, e a adrenalina estimulava os dois o a e o ß com uma potência intermediaria entre os dois outros fármacos. Ora esta primeira experiência que foi feita em vasos rapidamente apareceu alguém que fez a mesma experiência no coração e chegou a uma conclusão estranha, é que a noradrenalina que estimulava realmente os vasos, a verdade é que era capaz de estimular num determinado sítio receptores que também eram estimulados pela isoprenalina, portanto a noradrenalina que se estava a dizer que era só o a; era capaz de estimular os receptores ß e apenas numa zona que era o coração, bom o que é que se fez?, muito facilmente dividiu-se os receptores ß em ß 1 e ß 2 e passou-se a dizer que a isoprenalina estimulava os ß 1 e os ß 2, que a noradrenalina estimulava os a e os ß 1, e que a adrenalina estimulava os a, os ß 1 e os ß 2, e ficou-se com esta nomenclatura durante muitos anos e foram-se tentando encontrar bloqueadores mais ou menos específicos. A utilidade de nós sabermos isto, fundamentalmente é isto, vocês suponham que têm uma droga que querem que seja um bloqueador ß, porque estão a preparar um fármaco que querem que actue numa situação particular que é a taquicardia ou a arritmia, portanto um individuo com o batimento cardíaco muito acelerado, como vocês vão ver também tem uma hipertensão, muitas vezes por causa disso, é preciso diminuirlhe a frequência. É preciso então desenhar uma molécula que seja capaz de parar aqueles receptores ß no coração, só que se eu parar os ß todos do corpo, paro os ß 1 e os ß 2, ora, os ß 2 são os responsáveis pelo relaxamento dos brônquios, portanto se eu lhe der um bloqueador ß puro o individuo diminui realmente a frequência cardíaca, mas os brônquios contraem e o individuo pode ter uma crise de asma que lhe vai fazer muito pior do que a arritmia que tinha. Portanto o estudo dos vários receptores e o seu local de acção e a selectividade das drogas desenhadas para cada um dos receptores é muito importante.(avião ... huumm ... airbus , começo a ficar pro nisto!!!) Ora muito mais recentemente, em relação a estes primeiros trabalhos que são de 1920, verificou-se que uma das drogas que se dava para o tratamento da hipertensão chamada clonidina, davam a clonidina e a pressão baixava, bom se baixa a pressão é porque há vasodilatação, se há vasodilatação e os receptores a são os responsáveis pela vasoconstrição, a clonidina deve ser um bloqueador a. Depois de investigar a clonidina chegaram à conclusão que era um estimulador a;, não um bloqueador, mas um estimulador a. O que é que a clonidina fazia? A clonidina tinha uma característica interessante, dados os elementos pré e pós sinápticos, normalmente a noradrenalina liberta-se do elemento pré-sinaptico para o pós-sináptico para actuar em receptores que podem ser a e ß1, agora, a clonidina actuava no elemento pré-sinaptico, em receptores de outra forma muito semelhantes aos a e quando se ligava a clonidina havia uma diminuição da libertação da própria noradrenalina, então passou-se a dividir os receptores a em a 1 que eram os pós-sinapticos e a 2 que eram os pré-sinapticos e a ligação a um receptor pré-sinaptico impede a libertação de mais noradrenalina . ( hhuummm ... Boeing !!) Não esperamos muito tempo, alias, esperou-se um anos e pouco apenas até ser anunciado que também havia receptores (...) (estranha falha) e que o que estes receptores faziam, se ligássemos qualquer coisa a um receptor ß2, aumentava a libertação de noradrenalina , ou seja, o próprio elemento pré-sináptico era capaz de detectar os níveis de catecolaminas, adrenalina e noradrenalina circulantes e através do balanço entre receptores a; e ß determinar para uma determinada intensidade de estimulo no nervo qual era a quantidade de noradrenalina que se iria libertar. Reparem que têm aqui o tal sistema, que é um sistema lento e de modelação de amplitude, que é o sistema endócrino a libertar mais ou menos adrenalina para a circulação e esse sinal de quantidade a ir interferir com o outro sistema, que é um sistema de resposta rápida e de modelação por frequência. Portanto este é um dos múltiplos casos em que a relação entre os nossos sistemas de regulação é evidente, embora nós não saibamos ainda muito bem como toda esta interacção é feita. É claro que isto foi-se complicando porque as catecolaminas, adrenalina e noradrenalina têm como precursor uma substância que é a dopamina que circula em pequenas quantidades também existe como receptor, receptor B1 , receptor B2 , há também o B3 e o B4 e a verdade é que estes receptores são também capazes de ser influenciados pelas catecolaminas sem grandes doses, e a dopamina em grandes doses é capaz de se ligar a receptores a. A especificidade é sempre uma coisa muito relativa. A explosão do conhecimento dos neuropéptidos foi na década de 80, e reparem que dois anos antes não havia praticamente descrição de péptidos capazes de actuar no sistema nervoso, em 80 há já toda esta panóplia de neuropéptidos, e reparem que aquilo que até 80 se dizia: existem transmissões pela acetilcolina, noradrenalina, dopamina e serotonina, bom, quando se liberta acetilcolina é raro não se estar também a libertar um péptido vaso-intestinal, quando se liberta noraepinefrina é raro não se estar a libertar somatostatina, encefalina e noratencina, dopamina é sempre libertada com (...)(nome em ingles que está nas folhas) Cholecystokinin. Portanto as interferências são muito maiores do que as que nós sonhávamos em 1980 e têm algumas consequências, por exemplo: durante muito tempo dizia-se que o sistema nervoso autónomo não influenciava ou influenciava pouco a circulação ocular e em particular o vago tinha-se a ideia de que não influenciava, era difícil perceber como é que ele fazia a vasodilatação, realmente bloqueando os receptores da acetilcolina modificávamos pouco a circulação no olho, quando se descobriu isto começou-se a dar antagonistas do (f...tou farto da m... dos aviões!), as fibras vagais no olho praticamente não libertam acetilcolina , e muita quantidade de (...), há uma estratégia qualquer que é geneticamente determinada para nós irmos em cada sinapse ter a proporção mais ou menos certa de neurotransmissores, um exemplo final disto é o gato, se vocês olharem para o intestino do gado, o gato é um animal em termos de simpático, sempre com um tonus simpático elevadíssimo, sempre preparado para a fuga ou para a luta e é um animal em que todas as zonas de estimulação do simpático têm respostas muito boas com libertações apreciáveis de adrenalina, este animal tem também riqueza grande no intestino, liberta noradrenalina e acetilcolina, no entanto num gato recém nascido a quantidade de acetilcolina no intestino é muito maior que a quantidade de noradrenalina, e no feto do gato só existe acetilcolina, ou seja aquela sinapse vai progressivamente perdendo a capacidade de produzir acetilcolina, e aumentando a produção de noradrenalina, mas as duas capacidades existem na sinapse e a verdade é que aquela noradrenalina que depois se liberta é capaz de modular a libertação de acetilcolina e vice-versa. Falando sobre o sistema nervoso autónomo, dizendo que ele é autónomo, tem os seus próprios intermediários químicos, etc , a verdade é que toda esta actividade e todas estas células pré-ganglionares é controlada por uma zona muito pequenina que existe no bulbo, há uma pequena zona no bulbo que envia as informações para todas estas células, portanto controla o simpático, e há outra zona que envia para as células parassimpáticas. Apesar de chamar-mos a isto sistema nervoso autónomo temos uma regulação de duas zonas muito específicas que estão permanentemente a receber informação e que estão a oscilar e a dar-nos o balanço entre o simpático e o parassimpático, e o saber como é que esse balanço há-de ser ajustado é dos aspectos mais importantes que existem em vários campos da cardiologia, como a neurocardiologia, da neurologia, como o estudo das (...), da diabetes, da poli neuropatia, da hipertensão, passa-se tudo na descoberta de como funciona aquela pequena zona. Quando à pouco vos disse que o sistema lento é capaz de influenciar atreves de receptores o sistema rápido, claro que o sistema rápido também é capaz de influenciar o tipo de substância libertada, quando eu à pouco vos dizia que a noradrenalina quando se libertava se libertava com outras substâncias, liberta-se com ATP, ou liberta-se com neuropéptido ?, a verdade é que liberta-se um ou outro co-transmissor conforme a frequência de estimulação, para frequências de estimulação baixas liberta-se o ATP, para altas liberta-se o neuropéptido, e esta maneira de funcionar do sistema nervoso é muito generalizada, isto é, o co-transmissor que vai ser libertado e modular a acção do intermediário químico principal depende da frequência com que o estimulo é disparado no nervo, e depois só para não ficarem com a ideia de que isto é tão linear como eu posso ter transmitido, se tiverem acetilcolina ela despolariza esta célula pós-ganglionar e aparece um potencial de acção, a verdade é que quando se mede o potencial de acção nesta célula, se isto for um gânglio, portanto isto é uma fibra pré-ganglionar que vem do sistema nervoso, comunica ao nível do gânglio com uma fibra pós-ganglionar que vai por exemplo para intestino, para o olho, etc, se vocês medirem o potencial aqui, o potencial normalmente não tem este aspecto de potencial rápido, tem primeiro um potencial rápido, depois tem uma hiperpolarização, depois uma despolarização mais lenta e depois outra ainda mais lenta, portanto sempre que ouvirem uma descrição de despolarização, normalmente são simplificações em relação à observação de múltiplas interferências que se dão ao nível da sinapse. Aquilo que nós dizíamos à uns anos que a sinapse é a comunicação apenas entre um neurónio e outra célula nervosa, é a comunicação mas já com um tratamento muito apreciável do sinal, não é uma transmissão passiva, há tratamento do sinal, há modificação do sinal conforme o ambiente hormonal e nervoso que aquele sinal quer encontrar, se isto é verdade para os nervos à periferia, muito mais é para o seu controlo central, como eu lhes disse existe uns centros, centros esses que fundamentalmente são centros bulbares e centros da protuberância que comandam todas estas células que ao longo da coluna são as fibras pré-ganglionares simpáticas e parassimpáticas. Se nós nos detivermos um bocadinho nessa zona, há uma pequena zona designada RVL, onde têm origem a maior parte dos neurónios que vão influenciar o sistema nervoso simpático, a maior parte dos neurónios que vão influenciar o coração através do parassimpático, que vão influenciar o intestino, o estômago, etc têm origem nestes núcleos, portanto núcleo dorsal motor do vago e núcleo ambíguo, e o sistema nervoso periférico está permanentemente a receber informação, a pressão está alta?, a respiração é adequada?, os níveis de oxigénio são adequados?, essa informação está permanentemente a ser mandada para um pequeno núcleo que existe no bulbo, que é o núcleo de tractos solitário, portanto a informação chega aqui é integrada aqui e é distribuída para o vago e para o simpático tudo numa numa estrutura que tem dois milímetros de comprimento. Portanto tudo aquilo que seja o sistema nervoso, se quiserem o controlo central do sistema nervoso autónomo passa-se naquela zona, recepção dorsal de informação, tratamento de informação e emissão ventral de informação para o simpático e para o parassimpático, e o tratamento da informação pode ser tão simples como isto: se baixar a quantidade de oxigénio no sangue, há um receptor periférico que diz que está baixo o oxigénio no sangue e começa a disparar sinais para este núcleo de tractus solitário, e este núcleo vai dizer a umas células que comandam a respiração e que também estão nas proximidades, respirem mais frequentemente, e os músculos contraem mais frequentemente, imediatamente começa a baixar o nível de CO2 há (...) centrais que me dizem: o nível de CO2 está a baixar, não é preciso respirar tanto, e essas células começam-se a calar, começam a falar outras que mandam calar aquelas. Ora a maneira de estudar directamente estes sistemas, que são sistemas muito localizados no espaço são experiências deste tipo, em que está um micro eléctrodo espetado na face dorsal do bulbo, no tal núcleo de tractus solitário, está uma carótida à mostra fundida com um liquido e podemos alterar a perfusão do liquido, e podemos inclusive dilatar a carótida à nossa vontade, o animal está vivo obviamente, e temos vários nervos a serem estimulados, se nós estivermos a registar a actividade de uma célula no núcleo de tractus solitário e estamos a dar vários estímulos a vários nervos, alguns desses estímulos podem chegar àquela célula, quando chegam à célula a célula responde com potenciais de acção, esta respondia ao estimulo do nervo carotideo e não respondia ao vago, e que estimulo será, químico ou mecânico? Dilatava-se o balão e a carótida, e a célula não respondia, injectava-se um pouco de cianeto na carótida do animal e o animal respondia rapidamente, é claro que fazendo muitas experiências destas começamos a ter um panorama de como é que estas células do núcleo de tractus solitário se organizavam em termos de aferências, e havia uma ideia de que elas se organizavam somatotopicamente, isto é, a cada parte do corpo corresponde uma determinada zona no córtex, ora a organização no núcleo de tractus solitário não parece somatotópica, parece funcional, isto é, tudo o que sejam receptores químicos, quer sejam receptores no coração, nos pulmões, nas artérias enviam para as mesmas células, os que são receptores mecânicos enviam para outros grupos de células, e a verdade é que a maior parte dos estímulos mecânicos é oposto em muitos casos ao estimulo químico. Depois a parte seguinte de um estudo desses é sempre ver que intermediários químicos é que estão envolvidos na transmissão, isto vê-se injectando substâncias e bloqueando os transmissores, têm aqui representado a actividade de uma célula que responde a um estímulo químico no coração, a um estímulo químico na artéria, a um estímulo químico no pulmão, não responde a estímulos mecânicos e há outras células que respondem apenas aos estímulos mecânicos, depois que neurotransmissor é que esta célula usa? Muitas vezes isso faz-se injectando no núcleo de tractus solitário, por exemplo queremos saber se o receptor que lá está é um receptor adrenérgico, injectamos um bloqueador adrenérgico, um paradigma de estimulação, um padrão de estimulação, e depois comparamos esse padrão com o ensaio feito com o (...) a, se houver alguma modificação temos uma indicação que está lá um receptor a, e sucessivamente fomos tendo uma ideia de que esta zona é uma zona extremamente rica em receptores de angiotensina, é extremamente útil , por exemplo num individuo hipertenso, nós termos uma ideia se o que está a acontecer é uma constrição dos seus vasos periféricos ou se é um problema central dos seus receptores de angiotensina que estão desregulados, a atitude terapêutica é completamente diferente. Num animal para nós é muito fácil com um sistema de medida enfiar um eléctrodo na cabeça do animal e baixar a pressão pelo método central, mas depois não recuperamos o animal, não é exactamente isso que se pretende num doente. Ora, portanto o que se teve foi que inventar maneiras de ter ideia de como é que o sistema nervoso autónomo estava a funcionar sem interferir directamente no sistema nervoso autónomo, uma maneira: por exemplo se eu estou deitado, se me puser em pé o sangue não aflui com a mesma pressão às zonas altas, à carótida, esta tem um baroreceptor que começa a dizer: há pouca pressão, informa o núcleo de tractus solitário, e este diz ao (...,avião...), e ao coração, o parassimpático diz: bate mais depressa, o coração bate mais depressa, os vasos contraem e a pressão sobe. Há pessoas que têm desregulações disto, põem-se em pé e desmaiam por perda de irrigação cerebral, acontece em múltiplas situações, e um ou dois episódios ao longo da vida é comum a quase todas as pessoas. Agora por exemplo uma pessoa que não está habituada ao calor e faz um movimento de levantar rápido numa situação de vasodilatação propicia esta situação, mas há indivíduos que fazem isto diariamente, principalmente indivíduos que eram hipertensos, começou-se a dar um medicamento para a hipertensão e o individuo deixou de conseguir pôr-se em pé, já não está hipertenso, o que é difícil é explicar ao doente que a hipertensão não dá sintomas senão quando dá complicações, portanto pode haver um individuo que era perfeitamente normal, ele sentia-se perfeitamente bem, medemlhe a pressão e dizem: o senhor é hipertenso isso faz muito mal, tome esta pastilha; e o individuo que andava bem passa a desmaiar cada vez que se levanta, e toda a gente lhe diz, agora é que você está mal! Mas há múltiplos reflexos que se podem desencadear para estimular o simpático e o parassimpático, mergulhar a mão em água fria estimula o simpático, a força isométrica controlada também, o aumento do simpático é feito pondo o individuo a respirar lentamente e amplamente com um (...), portanto tudo isto são maneiras de aumentar o simpático e o parassimpático e clinicamente medir, mas o ideal era nós medirmos isto sem provocar (...) E é sobre este assunto que eu vos quero só dizer isto: tenho esperança que alguns de vocês se venham a interessar por áreas destas, são realmente áreas de ponta em termos de investigação clínica. À muitos anos o conceito que nos transmitiam na faculdade, e que o coração deve ter um batimento regular, havia uma arritmia, que era durante a inspiração ele bate um pouco mais depressa, mas isso é próprio das crianças ou das pessoas que ficaram com o desenvolvimento do sistema nervoso autónomo próximo das crianças, e portanto quando respiram fundo têm uma taquicardia muito acelerada, isto existe em todas as pessoas mas normalmente num adulto não se percebe isto, numa criança percebe-se perfeitamente. Ora e entre estas variações admitia-se que o coração tinha um ritmo regular, e quanto mais regular mais fisiológico . Os obstetras que fazem muita ocultação na barriga da mãe para ouvir o coração do feto verificaram uma coisa muito interessante, é que os corações mais regulares eram os que tinham mais complicações nos partos, portanto aqueles que tinham o coração sempre igual muitas vezes morriam, e os corações irregulares tinham uma sobrevida muito melhor, os obstetras chamaram a atenção para isto e é interessante que simultaneamente começam os transplantes cardíacos e os cardiologistas percebem rapidamente que o coração depois de transplantado tinha um ritmo perfeitamente certinho, e que se o ritmo continuasse certinho durante umas semanas o coração era rejeitado e o individuo morria, mas se o coração a certa altura se começar a tornar-se irregular e a ter flutuações na sua frequência é porque aquilo estava a pegar (comentário do Fraga a esta expressão profundamente clínica: “pegou” !! ). Ora baseado nisto muitos cardiologistas, em particular um grupo da Alemanha resolveu fazer isto: eles fizeram com a pressão e depois fizeram com a frequência cardíaca, por exemplo se vocês tiverem um ECG e medirem o intervalo entre este ECG , chama-se intervalo RR , se vocês ao longo do tempo colocarem esse intervalo RR num gráfico obtêm uma curva toda espiculada , o que quer dizer que no coração não há dois intervalos iguais, estão sempre a variar, ora isto é um fenómeno que embora abusivamente pode-se considerar um fenómeno estacionário durante três ou quatro minutos, e portanto o que resolveram foi procurar fenómenos periódicos com uma transformada rápida de Fourrier, e portanto é possível descobrir as várias harmónicas que compõem aquela linha e para cada uma delas determinar uma amplitude e a frequência correspondente e construir nessa base um espectro, chamado espectro de potência da variabilidade cardíaca, e o que acontece é que em todos os espectros aparece sempre uma onda de muito baixa frequência, outra de baixa frequência e outra de alta frequência, como vocês têm aqui amplificado, há portanto três faixas, VLF , LF e HF , e a relação entre o LF e o HF costumava-se dizer que é um bom indicador da relação entre o sistema nervoso simpático e parassimpático, portanto estudou-se muita gente com a relação LF, HF da frequência cardíaca, depois verificou-se que isto não era tão simples e começou-se a tentar analisar o mesmo aspecto para a pressão arterial e verificou-se que também havia lá um espectro, e que se calhar o espectro de baixas frequências da pressão era melhor indicador do simpático do que o do coração, e que o das altas frequências do coração era melhor indicador do parassimpático que o da pressão, e começou-se a utilizar por convenção a relação LF , HF da frequência cardíaca com a pressão arterial, ou seja andam completamente a navegar! Basicamente andam a navegar e a tentar encontrar aquilo que um clínico adora que é: ligar o doente a uma máquina e sai o traçado com a relação LF, HF e ele sabe que aquela relação corresponde a uma desregulação do sistema nervoso autónomo, só que a vida não é assim tão simples e é preciso pensar um pouco nesses resultados porque esta relação LF, HF, ao contrario daquilo que se pensava que o HF representa apenas o parassimpático e o LF representa o simpático, não é verdade. Nós bloqueamos o simpático e não desaparece só isto, desaparece também parte das altas frequências, e se bloquearmos o parassimpático não desaparece só as altas frequências, desaparece grande parte do espectro. Portanto há muito trabalho fundamentalmente a fazer em termos da aquisição, em termos do tratamento da forma, isto é uma transformada rápida de Fourrier que depois não teve nenhum tratamento em termos de correcção da curva que se pode fazer para não ter este aspecto horrivelmente espiculado, e muita gente o faz. A maneira de chegar a estes espectros, há múltiplas maneiras, transformadas rápidas de Fourrier, derivadas rápidas de Fourrier, wave ..., tudo isso está a ser utilizado em analise de sinal, com resultados por vezes conflituais e se calhar por gente que não está suficientemente esclarecida nem é capaz de fazer a ligação entre o que está e fazer no tratamento matemático e o que está a ver no modelo experimental, portanto isto para mim é óbvio e uma área importante, a outra área é que se vocês em vez deste tipo de analise puserem o intervalo RR num gráfico, em que têm nas ordenadas o intervalo RR correspondente do ciclo anterior, ou de 12, ou de 14 ciclos atrás, vão obter figuras diferentes, com o gráfico da anterior vão obter uma curva deste tipo, ora uma coisa que relaciona N com N +1 com uma forma geométrica começa-nos a dar algumas indicações quanto ao seu significado, e há muita gente que utilizando este tipo de abordagem de correlação de fase está a tentar descobrir qual é a entropia do sistema, isto é se calhar nós somos capazes de ter à nossa mão e por ignorância não somos capazes de num exame apenas olhando para três ou quatro ondas do ECG dizer: este individuo vai ter uma crise de arritmia, ou este individuo após enfarte tem uma variação do seu estado base de entropia diferente de um individuo normal. Isto é algo que eu julgo que a partir do momento em que se desenvolva esta área suficientemente, vai entrar no quotidiano do cardiologista e não só, porque esta analise não está feita para a respiração, este tipo de analise não está feita para a maior parte das variáveis biológicas e é um campo completamente aberto à exploração. E calculam que seria muito útil nós com um pequeno ensaio, fazendo a variabilidade, pondo o individuo em pé, dizermos: este individuo tem uma alteração da adaptação ao (..terá sido mais um....avião!!....) por diminuição do simpático cardíaco, mas sem repercussão no simpático vascular, é algo que neste momento fazemos nos modelos animais e que não fazemos directamente com um simples exame. E portanto queria só tentar dar-lhes a ideia da importância deste tema. Ficam com a ideia de que é uma área em que se algum de vocês quiser fazer um trabalho de estágio, são muito bem vindos!! 6/11/2002 - 5ª Aula (Notas: Sempre que me refiro a páginas, correspondem às fotocópias dos acetatos mostrados na aula, que estão disponíveis na secção de folhas. Esta aula está organizada de uma forma um pouco diferente da transcrita pelo Fraga. Uma vez que este trabalho ao longo do semestre vai ser feito por diferentes pessoas, é possível que cada aula seja um pouco personalizada aos métodos de estudo e trabalho de cada um. Espero que sinceramente isso não seja uma desvantagem e que a maneira como organizei a aula seja útil para o estudo de todos. Caso tenham algum tipo de crítica a fazer a este texto informem-me. Caso queiram estudar pelo Berne&Levy, esta parte da matéria encontra-se no capítulo 14.). TEMA: Controlo do Movimento Objectivo: Explicar, de forma simplificada, como a partir do momento em que se quer fazer um movimento, se transforma essa intenção no próprio movimento, bem como o número de circuitos envolvidos nessa acção e a plasticidade/modificação instantânea dos mesmos (que é muito grande). A ordem primária para um dado movimento é sempre modulada por diferentes mecanismos que tornam o movimento preciso. Quando os sistemas de modulação falham, os movimentos são alterados. → INTRODUÇÃO/ EVOLUÇÃO HISTÓRICA Desde o século XVIII, que se observavam indivíduos com perturbações cerebrais, tentando associá-las às suas alterações de movimentos. Destaca-se o nome de Jackson, que estudou doentes epilépticos, fotografando as suas crises, de modo a decompor os seus movimentos e identificar o início e desenvolvimento de cada crise. Este estudo permitiu concluir/intuir que eram zonas sucessivas que eram abrangidas pela crise epiléptica. Havia uma zona que comandava o braço, outra a mão e assim sucessivamente para as diferentes partes do corpo. Todas estas zonas eram excitadas sucessivamente para se desencadear a crise epiléptica. Posteriormente outros cientistas também desenvolveram outros estudos. Trabalho realizado por Frisch e Hitzig Experiência: Estimulação de zonas limitadas do córtex de animais (cão, coelho) com “microeléctrodos”. Observações: Cada estimulação provocava um dado movimento → começou-se assim a identificar diferentes zonas de controlo no córtex para dados movimentos. Estes resultados não são totalmente extrapoláveis para o humano, uma vez que, à medida que se sobe na escala animal, encontram-se cada vez zonas mais pequenas a comandar zonas cada vez mais limitadas, ou seja, a diferenciação das zonas que comandam o movimento é cada vez maior. Quando se avança na escala animal, a percepção das sensações é cada vez mais dependente do córtex. Este estudo apresentava uma falha, uma vez que, só permitia identificar zonas de controlo de grandes dimensões que actuavam para movimentos massivos. . Na altura, as opiniões dividiam-se em duas teorias: → teoria das localizações - a cada zona do córtex corresponde uma pequena função → teoria olística - todo o córtex tem toda a função e exerce-a de uma forma global As experiências anteriores foram repetidas no macaco por David Ferrier. Encontraram-se múltiplas zonas que correspondiam já de forma determinada a diferentes zonas para diferentes partes do corpo. Descreveu-se pela 1ª vez uma pequena zona que correspondia a um determinado grupo muscular (controlo do bíceps). Posteriormente, Fedor Krause tentou fazer o estudo em humanos, nomeadamente através de neurocirurgias em que o doente estava consciente. Fez-se então o mapa de localizações cerebrais e descobriu-se que certas zonas quando estimuladas provocam sensações (córtex receptor sensorial), outras próximas provocam movimentos (córtex motor) e existem ainda outras que não provocam nem sensações nem movimento (córtex associativo* ). * Tem como função associar informação do córtex sensorial e outras zonas do tronco cerebral, transportando-a para as zonas motoras de modo a que tenhamos uma resposta motora adequada no geral. Ocupa quase 80% do córtex e aumenta à medida que se evolui na escala animal. Ao contrário do que se diz, não usamos apenas 20% do nosso cérebro, pois sem o córtex de associação a nossa capacidade de vida de relação desaparece quase completamente. O humano é mais aperfeiçoado, não devido à maneira como recebe a informação, mas sim à forma como a trata e isso deve-se ao facto do seu córtex associativo ser o maior de todos os animais. → PLANIFICAÇÃO/CONTROLO DO MOVIMENTO (figura 12-1 da pág. 3). Não sabemos em que parte do cérebro surge a ideia para um dado movimento (pode aparecer em diferentes zonas). Ao surgir, a ideia manifesta-se por actividade eléctrica em zonas de associação que excitam córtex motor e também os gânglios/núcleos da base e a parte lateral do cerebelo. Estas duas últimas estruturas recebem e comparam os potenciais que vêm das zonas de associação e do córtex motor e enviam estímulos excitatórios ou inibitório para o último, consoante a acção que este vai desencadear seja adequada ou não ao movimento representado pela ideia inicial. Parte lateral do cerebelo - relacionada com a aprendizagem/condicionamento dos movimentos baseada na memória, ou seja, ao longo da vida aprendemos que para um dado movimento, temos de fazer uma dada força. Gânglios da base - relacionados com o controlo dos músculos em repouso. Os músculos estão sempre a receber informação para que mantenham um dado nível de contracção, para que, mesmo em repouso, se mantenha uma dada posição. Lesões quer no cerebelo, quer nos gânglios da base conduzem a uma planificação do movimento mal feita, ou seja, a ordem que sai do córtex motor é exagerada ou diminuída. Exemplos: - doentes com lesões no cerebelo: O indivíduo faz movimentos exagerados quando tenta agarrar um objecto e treme quando se aproxima deste - tremor de intenção (não existe quando o indivíduo está em repouso, mas sim apenas quando este tenta executar movimento). - doentes com lesões nos gânglios da base: O indivíduo também apresenta tremores em repouso, quando inicia movimento este é lento e, muitas vezes, perde a expressão facial (embora continue a ter sensações), uma vez que os músculos da face não recebem informação, não podendo assim manifestar emoções - caso da doença de Parkinson. A organização/planificação do movimento em Fisiologia chama-se “organização do Engrama”. → VIAS NERVOSAS Para que da ordem se chegue ao movimento, a informação tem de ir do córtex cerebral para os músculos. Existem diferentes vias para uma ordem que nasce no córtex chegar aos músculos. Via nervosa - todo o conjunto de neurónios que põe em comunicação uma zona do sistema nervoso com a periferia e vice-versa. Vias motoras - nascem no córtex frontal, descem dentro do sistema nervoso e passam no bulbo. Nomenclatura usada em anatomia: via piramidal, via extrapiramidal, neurónio superior e neurónio inferior. (esquema - pág. 4) Via piramidal - cruza através de um conjunto de fibras que têm um aspecto de duas pirâmides que se aproximam no bulbo (nome deve-se apenas ao aspecto anatómico, não estando relacionado com função). No caso de lesão do neurónio periférico (junto ao músculo), o músculo atrofia e perde uma série de características. No caso de lesão do neurónio superior (por exemplo, devido a um AVC), o músculo não atrofia, podendo até contrair com mais força, mas incoordenadamente. Os neurologistas distinguem assim diferentes tipos de lesão consoante o neurónio que está a ser afectado. Existem vias cortico-espinhais (vão do córtex até medula) e vias acessórias. (Estudaremos apenas as primeiras). As fibras do córtex até à periferia podem ser laterais ou ventrais (designação devida à forma como descem na medula). (pág. 6) → Laterais - fibras que saem do córtex e cruzam logo no bulbo, descendo pela parte lateral da medula. São responsáveis pelos movimentos mais finos (enervam mãos, dedos, pés, boca, etc.). Correspondem a 80% das fibras do córtex. → Ventrais/ventro-mediais - descem do mesmo lado que as anteriores, só muito perto do músculo é que cruzam, entram na medula e fazem uma sinapse. Ao cruzarem para outro lado, ficam na zona ventral. São responsáveis pela contracção de músculos proximais e pelo controlo de grandes massas musculares, sendo também importantes para manter posição/postura. Isto é também importante em termos de patologias, uma vez que a destruição dos cordões anteriores (ventro-medias) provoca perturbações na postura e perda da posição sem que haja perda de movimentos finos. Pode também haver perda de movimentos finos, mantendo-se uma postura em repouso perfeitamente organizada. Existem outros feixes (representados na figura 14.2- pág.4), embora só tenhamos falado do cortico-espinhal e dos ventro-mediais (que são principais vias). Isto significa que existem estruturas abaixo do córtex que recebem informação deste, tratam-na parcialmente e enviam-na “para baixo”. Movimentos comandados pelo córtex são assim parcialmente modificados pelas estruturas mencionadas. Esquema da pág. 7: Esquema geral das vias que comunicam o córtex (córtex comunica através da medula com músculo). Estas vias antes de entrarem na medula comunicam com muitas outras estruturas como, por exemplo, os núcleos vestibulares e reticulares que serão estudados em próximas aulas. (Via do meio → descrição das vias laterais). No entanto, vamos apenas considerar a existência do córtex motor a enviar ordens para medula e através desta para o músculo. Temos assim uma via lateral relacionada com movimentos finos e outra ventro-medial relacionada com parte proximal e postura. A existência das outras vias, explica diferentes alterações do movimento em diferentes situações (ver tabela de níveis de integração - da pág. 5). As diferentes funções do sistema nervoso estão relacionadas com níveis de integração. Em Fisiologia, fala-se muito de níveis de integração, em vez de zonas de comando, pois admite-se que o que existe é tratamento de informação a vários níveis. A título de exemplo: - descorticação - indivíduo perde capacidade de iniciar o movimento - descerebrização (perda de substância cinzenta e branca) - indivíduo perde praticamente todas as funções, mas os reflexos antigravitacionais são acentuados. Isto deve-se ao facto destes estarem relacionados com o equilíbrio, ou seja, com informação que sai do ouvido e dos proprioceptores (presentes nas articulações) e vai para os núcleos vestibulares,que se encontram abaixo da zona que é cortada. Os núcleos vestibulares enviam informação para o córtex e cerebelo, sendo o primeiro inibitório para estes núcleos, ou seja, quando se retira o córtex, perde-se esta capacidade de inibição. (Nota: Existe uma regra, não absoluta, que diz que cada zona do sistema nervoso está hierarquicamente organizada para inibir as zonas que se encontram abaixo. Muitas vezes, em Fisiologia, quando se fala de excitação referimo-nos à perda de inibição e não propriamente a uma excitação.) - secção medular - indivíduo perde todas as funções, excepto reflexos espinais. O indivíduo, ao cortarem-lhe uma secção da medula, entra em choque medular, fica com falta de tonus/força muscular, bem como de reflexos (não se sabe explicar bem porquê). Posteriormente, recupera reflexos (estes podem mesmo ser exagerados), mas o perde o controlo do movimento voluntário. → ORGANIZAÇÃO DAS ZONAS MOTORAS AO NÍVEL DO CÓRTEX (figura da pág. 8e9). - Áreas 1, 2 e 3 - zona do córtex parietal que recebe informação sensorial → construção do homúnculo sensorial (visto numa aula anterior). - Área 4 - zona motora primária, denominada córtex pré-motor, acima desta encontra-se córtex suplementar motor (zona 6). Ordens para o movimento saem da zona 4 e nesta há a representação do homúnculo motor (análogo ao homúnculo sensorial - existe grande representação da cara e da mão → capacidade de movimentos finos nestas zonas do corpo que não são possíveis noutras como ,por exemplo, o tronco). Destruição desta área → indivíduo fica paralítico, perdendo motilidade do lado oposto do corpo ao da zona danificada, porque vias são cruzadas. Tal como a nível sensorial existe uma enorme plasticidade do córtex, ou seja, as zonas que estão ao lado de uma pequena zona danificada adquirem, após algum tempo, função para comandá-la. Esta zona prepara posição para se organizar movimento. - Área 6 - comanda a sequência pela qual o movimento vai ser feito. É uma área particularmente activa em indivíduos que treinam uma sequência de movimentos. As várias áreas que provocam o movimento são sempre activadas de forma sequencial. → GÂNGLIOS DA BASE/CEREBELO - CONTROLO DA PLANIFICAÇÃO E DA EXECUÇÃO Em Fisiologia, muitas vezes sabemos alguma coisa do sistema não pelo seu funcionamento, mas sim pela sua desregulação. Controlo da planificação: gânglios/núcleos da base e cerebelo lateral. Controlo da execução: parte média do cerebelo. GÂNGLIOS DA BASE - (fig. 12.9 - pág. 10) Nomenclatura mais usada para a constituição dos gânglios da base (tabela 12-3 pág. 11): - Estriato - Núcleo lenticular (constituído pelo Putamen e Globus Pallidus) - Núcleos subtalâmicos ou corpo de Lewis - Substância negra Problemas: → Núcleos subtalâmicos fazem parte do tálamo, que por sua vez tem muitas outras funções, quer a nível motor, quer a nível sensorial. Estudo do tálamo é um pouco confuso, devido às suas inúmeras funções. Anteriormente pensou-se que esta estrutura era apenas um centro de passagem de informação, mas hoje sabe-se que tem uma extrema importância no tratamento de informação. → Anteriormente, disse-se que a informação para o movimento nascia na área 4 (área motora), no entanto, estudos de mapeamento de fibras, que comandam o movimento, permitiram ver que apenas 30% destas vem daí, havendo 20% que vêm de zonas acessórias e 40% provenientes da zona sensorial (áreas 1,2 e3). Designam-se assim as áreas 1,2,3 e 4 por córtex sensorio-motor. A junção de informação ascendente e descendente dá-se no tálamo. Intermediários químicos dos núcleos da base (fig.12.10-pág.11): - GABA (inibitório) - Glutamato (excitatório) Efeitos das alterações funcionais dos núcleos da base: → Hipocinéticos (ausência de movimentos) - Acinésia - ausência de movimento - Bradicinésia - movimentos lentos → Hipercinéticos (exagero de movimentos) - Coreia - movimentos rápidos involuntários (tipo de movimentos de dança). - Atetose - movimentos lentos - Balismo - movimentos dos músculos das articulações muito rápidos Exemplos: → Tipo particular de hipercinésia: Coreia de Huntington - deve-se a uma deficiência nos receptores GABA (deficiência genética). → Doença de Parkinson - A Dopamina é outro intermediário químico. Na doença de Parkinson, há deficiência na produção desta substância pelos núcleos da base existindo acinésia (dificuldade em iniciar movimento) e hipercinésia (tremor involuntário). Se numa fase inicial for dado ao doente dopamina ou precursores, este recupera excepcionalmente porque ainda tem receptores. No entanto, a longo prazo, ocorre a destruição dos receptores para a dopamina, juntamente com perda de tecido nervoso. (ver figuras A e B - pág.12) Em suma, na doença de Parkinson estão envolvidos receptores dopaminérgicos e na Coreia de Huntington receptores gabaérgicos. Curiosidade: Actualmente há uma nova visão acerca da doença da Parkinson: as células estão doentes, nomeadamente nos seus receptores, e por isso suicidam-se, uma vez que a sua permanência anormal seria mais prejudicial na vida do indivíduo. CEREBELO - (fig. 12.15 - pág. 13) Esta estrutura intervém ao nível do controlo da planificação do movimento (cerebelo lateral) e também na sua execução (cerebelo intermédio), mas também está relacionada com o equilíbrio, pois envia informação para núcleos vestibulares (estudaremos posteriormente). Existe também a representação de um homúnculo para o cerebelo. Quando se pretende executar um movimento, a parte lateral do cerebelo recebe a informação que é enviada pelas zonas corticais para o córtex motor e, por sua vez, recebe também informação proveniente desta última estrutura (esta informação reflecte a acção que se pretende executar para desencadear o movimento). O cerebelo compara assim as informações, actuando como inibitório/excitatório consoante a correlação entre ambas seja ou não adequada - controlo da planificação. Da mesma forma, as ordens que saem para os músculos, vão também para a parte intermédia do cerebelo. Quando começa a haver movimento, ou seja, quando o músculo contrai e sai informação do fuso muscular, esta vai para o cerebelo intermédio onde se faz a comparação entre a ordem que o cérebro está a enviar e a eficácia do que está a acontecer controlo da execução. Durante um movimento, ocorre assim um sistema de “feedback” constante ao nível do cerebelo, uma vez que este está permanentemente a comparar as ordens enviadas pelo cérebro com as respectivas acções desencadeadas, actuando quer de forma excitatória, quer de forma inibitória no controlo da planificação e da execução do movimento. Sabe-se que este controlo ocorre devido à existência de várias camadas e vários tipos celulares no cerebelo. Análise Histológica do Cerebelo (fig. 12.17 - pág. 14) Existem os seguintes tipos celulares: - Células estreladas - Células em forma de cesto - Células granulares - Células de Golgi - Células de Purkinje A forma de orientação das células conduz a circuitos organizados sempre da mesma maneira. A informação entra no cerebelo fundamentalmente através de fibras musgosas e fibras trepadoras. Estas últimas terminam sempre em cima de células de Purkinje, através das quais sai a informação do cerebelo, que normalmente não sai de forma directa. O cerebelo possui um núcleo designado núcleo fastigial. Toda a informação vai para células de Purkinje que comunicam com o núcleo fastigial. As células do núcleo recebem a informação do cerebelo e a informação aferente, ou seja, informação proveniente de fibras trepadoras e fibras musgosas (fig. 12.16 - pág. 14). A informação que vem do cérebro e da periferia chega às fibras e parte desta chega também às células de Purkinje. Tem-se assim via de entrada que vem, por exemplo, do cérebro e outra via de entrada que vem, por exemplo, da periferia que chegam ao núcleo fastigial. Esta informação imediata que aqui chega é logo comparada/integrada. Contudo, esta estrutura também recebe a informação proveniente das células de Purkinje que ao entrar nestas é tratada por outro tipo de células que recebem informação elas mesmas de múltiplas zonas. Nas células do núcleo fastigial, tem-se assim vias de entrada provenientes do cérebro e da periferia (ocorrendo logo uma comparação da informação proveniente de ambas), bem como recepção de informação tratada, recebida através de células de Purkinje, indo o “output” resultante para o córtex provocar estímulo excitatório/inibitório. Ao contrário dos núcleos da base, existe mais informação sobre o modo de actuação do cerebelo, pois este é mais fácil de estudar. Através do uso de microeléctrodos, fazem-se estimulações bem padronizadas em zonas de entrada neste tipo de células e observam-se as modificações de padrão à saída das mesmas. Resumo (pontos que convém estudar/perceber): 1) - Zona do cérebro onde nasce a informação para haver movimento; vias principais; este sistema, só por si, é insuficiente para o movimento controlado. 2) - Sistemas de controlo do planeamento do movimento: núcleos da base e cerebelo • Núcleos da base - não se conhece bem o seu funcionamento, sabe-se apenas que existem intermediários químicos excitatórios/inibitórios e que a ausência destes provoca patologias (Coreia, Doença de Parkinson). • Outra estrutura importante na construção do engrama é o cerebelo lateral. 3) - Sistemas de controlo na execução do movimento: o controlo é feito pelo cerebelo através de circuitos que envolvem de células de Purkinje e células do núcleo fastigial. MÓDULO 6 1. BASES NEURONAIS DO COMPORTAMENTO INSTINTIVO E DAS EMOÇÕES Nós hoje vamos falar de dois assuntos que são muito interessantes em termos de fisiologia e têm multiplas ligações por um lado, como vão ver, com alguns assuntos de que nós falámos (como o sistema nervoso autónomo) e por outro lado têm muitas ligações e são tratados por abordagens multidisciplinares. Aquilo que nós vamos falar hoje é tratado também pela psicologia, é tratado por várias áreas: pela psiquiatria, pela psicologia, pela neuroquímica. O próximo módulo vai ser a visão, não vai ser dado por mim (vocês vão ser ver livres de mim durante uma semana), vai ser dado por um assistente de fisiologia que é também oftalmologista e tem trabalho pessoal nessa área e é uma aula muito interessante. Na aula de hoje vamos falar de dois assuntos: na primeira parte vamos falar das fases neuronais do comportamento instintivo e das emoções. E na segunda parte vamos falar de memória e de aprendizagem. Quando nós sentimos ou temos uma emoção, há vários aspectos que estão envolvidos na percepção e manisfestação dessa emoção. Há um aspecto cógnitivo, que é o conhecimento da situação e das circunstâncias dessa emoção. Há um aspecto afectivo que nos permite dizer se a emoção é agradável ou desagradável, muito agradável ou muito desagradável. Há um aspecto volitivo, ou seja, de vontade, que tem a ver com a nossa vontade na resposta à situação que provoca a emoção, e existem alterações físicas, que são muitas delas mediadas pelo sistema nervoso autónomo, como por exemplo a palidez do indíviduo quando tem uma emoção forte, a respiração, e o aumento da frequência cardíaca e a paragem do trânsito intestinal (às vezes um indíviduo numa emoção forte tem vómitos), etc. Resumindo há os aspectos: - cognitivo - afectivo - volitivo, ou da vontade e alterações autonómicas ou físicas Esta capacidade de sentir emoções em fisiologia é muito anterior na evolução à capacidade de organizar comportamentos. Ou seja, os animais menos inferiores têm comportamentos baseados nas emoções. Porque são comportamentos baseados nas emoções permitem o animal procurar um parceiro sexual e ter relações com fertilidade, permite ao animal aproximar-se dos estimulos que lhe dão prazer e afastar-se dos estímulos que são nociceptivos ou que são lhe são prejudiciais e permite também manifestar reacções de ira. A ira é um conjunto de manifestações somáticas e afectivas que um animal, por exemplo quando tem invasão por outro animal da mesma espécie no seu território, manifesta. Num gato isso é muito evidente, aliás é um animal que foi muito estudado porque tem um tónus emocional fortíssimo e uma actividade simpática das mais importantes. O gato e não só: o tigre, o leão, etc embora estes animais, como é óbvio, não sejam os animais de eleição para o estudo. Ter um gato numa jaula com uma manifestação de ira é uma coisa. Ter um tigre é, como calculam, outra muito diferente. Portanto quando eu estou a falar do gato, estou a falar de um forma, felino. Aquilo que eles têm: as dilatações da pupila, os pelos levantam-se, o animal arranha, o coração do animal bate às vezes duas vezes mais depressa e a pressão areterial, que num gato pode andar pelos 120, 130, sobe às vezes para os 200. Aquele animal é capaz de reacções muito mais rápidas do que numa situação de flacidez. Nós opomos, em fisiologia, a ira à flacidez. Isto levou os interessados por fisiologia comparada a admitir que o sistema nervoso se desenvolvia em camadas (ver figuras 9-136, 9-137, 15-1 no acetato 1): isto é, que no córtex cerebral existe uma parte mais interna que corresponde ao chamado alocórtex ou córtex antigo, depois uma parte mais recente que é o juxtalocórtex, e uma parte ainda mais externa, o neocórtex. Seria na parte intermédia que se traduziriam, ou que apareceriam, as emoções. Utilizando este conceito compararam vários animais e reparem nós temos aqui um estudo do que corresponde à zona do sistema relacionado com as emoções. Reparem que no rato ele ocupa quase todo o córtex (ver figura 15-1 no acetato 1). O rato tem praticamente tudo relacionado com as emoções e apenas uma pequena parte não relacionada com as emoções. O gato já tem o neo-córtex muito mais formado, e o macaco e nós temos o neo-córtex muito formado. Podiamos pensar que isto significa que à medida que nós evoluimos na escala animal, isto é, os animais evoluem filogeneticamente, seria mais fácil controlar racionalmente a manifestação das emoções. O que acontece na maior parte da evolução e dos circuitos é que nós vamos criando sistemas hierarquicamente superiores que inibem, como vimos no outro dia, funções inferiores. Mas a verdade é que existe uma característica muito interessante entre esta parte do córtex e o córtex novo. Eles têm pouquissima comunicação um com o outro (ver figura 15-2 no acetato 2). Isto é, existem algumas comunicações daqui para o lobo temporal, que nos permitem ter consciência dos estados emocionais, para o lobo frontal, mas há muito poucas comunicações: há poucos neurónios que vão de um lado para o outro. Em compensação, aquelas zonas, que talvez alguns de vocês se recordem que eu dizia que controlavam o sistema nervoso autónomo, como o hipotálamo lateral que provocava aquelas reacções com a subida de pressão, etc., a formação reticular, que é uma série de fibras que comunicam no interior do encéfalo com vários núcleos, têm uma enorme riqueza de comunicações com esta zona (ver figura VI, 3 no acetato 2). Isto significa, e tem a ver com o facto de realmente não ser possível de uma forma racional nós controlarmos a emoção. Nós podemos controlar o aspecto volitivo da resposta emocional, mas a emoção em si, no seu aspecto afectivo, realmente nós não a controlamos racionalmente. O que significa que uma enorme série de comportamentos na nossa vida têm mais a ver com a emoção do que com a razão. O que para alguns é mau, para outros, naturalmente dependendo da perspectiva que têm da vida é uma vantagem. Então qual é esta parte que está relacionada com as emoções? (ver figura 16-2 no acetato 3) Em alguns livros vocês vão encontrar esta zona como sendo designada por rinencéfalo. Rinencéfalo é algo que está relacionado com o olfacto. E realmente uma parte desta zona relacionada com as emoções está também relacionada com o olfacto. O bulbo olfactivo, que vamos ver no módulo em que falarmos de sentidos químicos, recebe informação olfactiva, mas a informação olfactiva corresponde apenas a informação aqui, que depois vai para outras zonas do córtex, mas que tem comunicação com múltiplas outras áreas deste pequeno sistema de controlo das emoções. Pensou-se numa primeira fase que toda esta zona estaria envolvida na percepção do olfacto. Não é verdade, apenas uma pequena parte da frente está envolvida mas o nome rinencéfalo ficou durante muito tempo. Hoje em dia nós preferimos chamar a este sistema o sistema límbico. O sistema límbico é então constituído por uma série de estruturas que são: - a amígdala (que é um conjunto de núcleos) - hipocampo - parte anterior do tálamo e alguns núcleos do talâmicos - alguns núcleos do hipotálamo e depois o interessante é que todas estas estruturas comunicam umas com as outras. Existe portanto um circuito de neurónios que faz comunicar intimamente e reciprocamente todas estas zonas. Este circuito chama-se circuito de Papez . Isto é a parte mais interna do sistema límbico. Por fora existe outra zona, outra fatia do sistema límbico, que se chama a circunvolução límbica. Esta já está mais relacionada com o córtex mas é mais interna. Portanto podemos dizer que o sistema límbico é constituído por duas camadas: - uma mais interna: hipocampo, amígdala, núcleos do tálamo, e a sua comunicação com o hipotálamo - uma mais externa Tudo isto comunica por fibras. Portanto a comunicação neste circuito é extremamente rica. Estas zonas, em particular do hipotálamo, comunicam com o sistema nervoso autónomo. Portanto é natural que qualquer estímulo que percorra este circuito se traduza em manifestações a nível do sistema nervoso auntónomo. Outra característica deste circuito, ao contrário dos circuitos do córtex, que são circuitos muito limitados no tempo. Isto é, se vocês provocarem uma sensação táctil, essa sensação táctil dá origem a uma série de potenciais e esses potenciais vão para a região parietal. Durante um bocadinho há descargas na região parietal. Vocês tiram a pressão e desaparece a sensação de pressão (às vezes até antes, porque há fenómenos adaptivos). Os circuitos das emoções têm uma característica diferente. Se vocês fizerem um estimulo que de qualquer modo provoque a estimulação deste circuito, mesmo que o estímulo seja de curta duração, a descarga neste circuito ocorre durante vários minutos. Um pequeno estímulo é capaz de provocar descargas muito prolongadas no tempo. Portanto a descarga longa em resposta a um estímulo curto é muito característico deste circuito. Isto tem a ver, por exemplo, com a percepção experimental que todos nós já tivemos: pequenos estímulos que desaparecem no tempo são capazes de deixar emoções muito prolongadas. Por outro lado há outra característica, como nós vamos ver na segunda parte deste módulo, do hipocampo, que é uma zona que está envolvida neste circuito, é uma zona que está também envolvida na memória. O hipocampo, sim, tem comunicações com outras zonas do córtex relacionadas especificamente com a visão, com o olfacto e com a audição. Portanto é também fácil perceber porquê que nós somos capazes de, a partir de uma memória, isto é, uma memória desencadeada pelo ouvido, desencadeada pela visão, desencadeada pelo olfacto, que algures nos seus circuitos vai passar pelo hipocampo, vai provocar muitas vezes emoções, e emoções prolongadas. Porquê? Porque temos uma zona comum que faz tratamento da informação relacionada com a memória e está ela também profundamente envolvida na percepção da emoção. Outro aspecto importante deste circuito é esta relação que eu ao bocadinho apresentei com o olfacto. Apesar de apenas uma pequena parte deste circuito estar relacionada com o olfacto, a verdade é que as fibras que estão relacionadas com o olfacto estão metidas, se quiserem, neste circuito de Papez. Portanto não admira que o olfacto seja dos sentidos que mais facilmente nos desperta uma emoção, e em particular emoções relacionadas com a memória. Todos nós temos memórias que nos são dadas pela visão: olhar para uma pessoa e não nos lembrarmos onde é que a vimos, ou quem é parecido com ela, ficarmos a olhar para ela e irmos buscar à nossa memória essa... ou um som tentarmos lembrar onde ouvimos a música, tentarmos identificar o compositor, ou a interpretação... No entanto, vocês devem ter tido a já a ideia ou a experiência de um simples cheiro nos transportar meses, anos atrás relacionando-se com uma pessoa, ou com alguma situação, com uma intensidade emocional que os outros sentidos muitas vezes não dão. Isto tem a ver com esta íntima relação do olfacto com o sistema límbico. O que vocês podem perguntar é porquê que o olfacto é tão priviligiado em termos da sua relação com o sistema límbico. É muito simples. Ao olharem para a mucosa olfactiva, além da mucosa olfactiva normal, há uma pequena zona na mucosa olfactiva que tem um aspecto mais amarelado. É muito pequena no homem, muito maior proporcionalmente no rato e no gato nos outros mamíferos e nos outros animais. Este orgãozinho que está relacionado, ou que é impressionado da mesma forma que o olfacto chama-se orgão vémero-nasal. Localiza-se na parte superior das fossas nasais correspondendo a uma superfícies de menos de 2mm, 3mm quadrados. As fibras que vêm daí não terminam directamente nos bulbos olfactivos, vão entrar e distribuir-se para a amígdala, para o hipotálamo e para o hipocampo. Têm a ver com a detecção não de um cheiro mas têm a ver com a detecção das feromonas. Portanto de, se quiserem, cheiros produzidos, ou de substâncias produzidas por um animal da mesma espécie do sexo oposto capazes de desencadear estímulos de ordem sexual. Isto é muito evidente nos animais que têm, como o rato, muito do seu comportamento sexual baseado nas feromonas. Mas nós temos o nosso comportamento mais baseado em feromonas do que percebemos. As sincronizações de ciclos menstruais em raparigas que vivem nas mesmas casas tem ás vezes muito a ver com as feromonas. Isto que vocês aqui têm, (ver figura 13.11 no acetato 3.5) tudo isto é o encéfalo, tudo isto é córtex e vocês têm aqui o sistema límbico: a parte interna, o hipocampo, a amígdala, os núcleos do tálamo, hipocampo anterior, as suas relações com o hipotálamo e os tais circuitos de papez que formam aquelas duas camadas. Este sistema tem a ver com o comportamento sexual, com a ira, e com outros comportamentos instintivos. Em relação ao comportamento sexual eu precisava de dizer mais umas coisas para por um lado vos dizer como é que connhecamos estas relações do comportamento sexual, mas por outro lado para desfazer algumas coisas que se ouvem com assustador facilidade em relação à relação entre hormonas e comportamento sexual. Vocês têm aqui (ver figura II, 30 no acetato 4) os circuitos relacionados com a erecção e com a ejaculação. Têm vários receptores: um no pénis, na mulher no clitoris, a entrarem pela medula ao nível sagral, portanto S1 a S3, e a sairem depois pelo flexo, flexo esse que tem como efector a via parasimpática (parasimpático liberta acetilcolina). Estas fibras, para além de acetilcolina, libertam óxido nítrico. Há uma enorme importância do óxido nítrico na erecção. É por isso que substâncias que aumentem a produção do óxido nítrico e impeçam a sua inibição são capazes de excitar a erecção. Esta zona está permanentemente sob a influência de estímulos que vêm de cima. Podem ser estímulos excitatórios ou podem ser estímulos inibitórios. São predominantemente estímulos inibitórios. Além disto, a repetição de estímulos provoca uma somação temporal de estímulos, a um nível superior. Ao nível L1, L3 há outro sistema aferente, que se junta ao primeiro, e que é responsável pela ejaculação. Durante a ejaculação existe uma transmissão muito rápida e intensa de aferências sensoriais que vão ter às zonas de detecção da sensação portanto que se tornam conscientes, por um lado, e que têm um tónus afectivo, por outro, portanto envolvendo o sistema límbico. São acompanhados também, naturalmente, por manifestações do sistema nervoso autónomo. Portanto são circuitos locais mas que estão permanentemente a ser influenciados por estímulos que vêm de cima. Uma memória pode, naturalmente, excitar estes circuitos e há múltiplas situações em que este reflexo normalmente está inibido pela existência de outros estímulos que estejam a chegar às zonas sensoriais. Uma técnica muito utilizada em fisiologia quando se está a estudar um circuito é ou estimular o circuito e ver o que acontece, ou destruir parte do circuito e ver o que é que desapareceu ou aconteceu. Há uma experiência clássica em que se destrói a amígdala lateral de um gato (a amígdala não é a amígdala da garganta: é um dos núcleos cerebrais que está perto do hipocampo). O gato torna-se um animal muito calmo, pouco agressivo excepto num aspecto: tem uma hipersexualidade exagerada (ver figura 90/4 no acetato 4). Tenta ter relações com um gato do sexo oposto mas também uma tartaruga um macaco, qualquer coisa serve a este gato quando se tira a amígdala. Por outro lado, se se estimular uma parte do hipotálamo, provoca-se também uma excitação sexual. O que se pensou foi que a amígdala e o hipotálamo estão relacionados com o comportamento sexual: e estão. E é verdade que a excitação do hipotálamo é necessária para esta manifestação sexual, que a destruição da amígdala também aumenta. A relação entre o hipotálamo e a amígdala tem a ver com o comportamento sexual. Só que o desenvolvimento dos circuitos do hipotálamo e da amígdala, em particular do hipotálamo, são muito precocemente influenciados por níveis hormonais. Ou seja, aquilo que vai determinar num animal o comportamento sexual masculino ou feminino tem a ver com esta diferenciação de circuitos, pelo menos nos animais (é preciso de ter muito cuidado na extrapolação para os humanos). Há experiências em que ratos fêmeas recebem, nas primeiras fases do seu desenvolvimento, hormonas sexuais masculinas injectadas no hipotálamo. Estes animais desenvolvem um comportamento sexual do tipo masculino. Da mesma maneira um animal do sexo masculino em que se antagoniza as suas hormonas sexuais masculinas, tem um comportamento feminino. No entanto, um animal do sexo masculino a quem se dá hormonas sexuais femininas mas que se mantém as masculinas, tem um comportamento masculino. Isto é, parece que o que determina o tipo de comportamento é a presência ou ausência de hormonas sexuais masculinas e não a presença ou ausência de hormonas sexuais femininas. Os níveis que são precisos de hormonas são extremamente baixos. Isto é, são precisos apenas a presença em pequena quantidade das hormonas para fazerem, ou se quiserem para permitirem, esta diferenciação no comportamento. Não tem rigorosamente nada a ver com o que acontece, por exemplo, no adulto em que se fez a remoção dos testículos. Portanto, desaparecem as hormonas sexuais masculinas e a pessoa ou o animal deixa de procurar um parceiro sexual para ter relações, mas se injectarem neste animal hormonas sexuais masculinas, mas também femininas, o animal volta a ter um comportamento do tipo masculino. Ele já está diferenciado e tanto faz serem hormonas masculinas ou femininas que ele vai desenvolver um comportamento já pré-determinado. Eu digo-vos isto porque houve, há anos, uma série de discussões em que se tentou relacionar comportamentos hetero ou homossexuais com níveis hormonais. E isto levou a uma série conclusões que ainda hoje continuamos a ouvir falar com a maior das à vontades. Não se transforma um homossexual num heterossexual modificando os níveis hormonais. Se derem a um homossexual hormonas, ou masculinas ou femininas, a única coisa que conseguem é aumentar a actividade sexual previamente definida. Da mesma maneira se derem a um heterossexual hormonas femininas, não o vão transformar num homossexual, obviamente. O que vão transformar é num heterossexual com uma anormalidade endócrina. Ou seja, a determinação desse comportamento, a nível animal pelo menos, é feita em fases extremamente precoces do desenvolvimento. E portanto é preciso de ter muito cuidado quando nós estamos a tentar fazer, ou quando se ouve alguns discursos, tendendo a relacionar comportamentos sexuais com níveis hormonais. Por outro lado, se quiserem de uma forma muito esquemática, nós podemos dizer que o comportamento sexual organizado pode ser depois influenciado quantitativamente e qualitativamente pelos níveis hormonais mas não é determinado pelos níveis hormonais. Se não, talvez numa fase muito precoce. A outra coisa que deu conclusões é que há muito anos nos EUA um indíviduo foi preso por violações sucessivas de raparigas e foi condenado à morte e foi executado. E quando se fez a autópsia verificou-se que o indivíduo tinha um tumor da amígdala. Portanto tinha uma destruição parcial desta. E então começou-se a dizer que o indivíduo tinha este comportamento porque tinha um tumor da amígdala. É verdade que isto provavelmente tinha a ver com o comportamento dele. Mas isto não quer dizer que todos os violadores tenham um tumor da amígdala. Nem se pode pensar que comportamentos sexuais desviados tenham exclusivamente origem em coisas deste tipo. Os determinantes, aquilo que vocês estão a ver hoje, é apenas a base neuronal do comportamento. Em cima dessa base neuronal e hormonal depois há uma série de factores relacionados com a interacção social, etc. que vão influenciar também estes circuitos. Portanto nós não podemos fazer estas extrapolações lineares. Também não podemos dizer, porque nem sempre é assim, que qualquer indivíduo que tenha um tumor da amígdala se vai transformar num perigo sexual. Isto é um dos aspectos do sistema límbico e comportamento sexual. O outro tem a ver com aquelas zonas que estão relacionadas com aquelas zonas que estão relacionadas com o comportamento em cima do hipotálamo. Numa experiência fizeram-se várias esimulações do hipotálamo (ver figura 1 no acetato 5). À medida que o eléctrodo ia descendo, cada vez que se fazia a estimulação a elevação de pressão era maior. Até que quando se estava na área de defesa hipotalâmica, ou hipotálamo inferior, tinha-se uma dada elevação de pressão. Esta é a elevação de pressão que um gato tem durante um dos seus ataques de defesa territorial, de agressividade. A pressão passa dos 90 para os 180. Isto prepara o animal e irriga o território do animal para uma acção muito rápida. Um outro aspecto em que o sistema límbico é importante tem a ver com a ira, como eu lhes disse. Há muitos anos fez-se uma experiência em que removia parte do córtex de um animal, ou removia mesmo o córtex, fazendo secções em que partia as relações do córtex com o resto do sistema nervoso. Esses animais tinham uma característica: reagiam a qualquer estímulo com agressividade. Mesmo o tocar no gato para lhe fazer uma festa provocava uma reacção de agressividade no animal. Chamou-se a isto falsa ira porque se dizia se ele não tem córtex não percebe... Mas não se deve chamar falsa ira porque, como nós sabemos, a emoção tem a ver não com o neo-córtex mas com o sistema límbico, que estava conservado, e o animal tinha era uma não inibição do seu comportamento volitivo, ou do componente volitivo da sua emoção. Mas mantinha a emoção, o tónus afectivo, e agredia aquilo que julgava emocionalmente que o estava a atacar. Isto também tem contrapartidas nas pessoas. Algumas zonas, ou algumas destruições, ou afecções do lobo temporal que têm a ver com percepção ou do lobo frontal que têm a ver com percepção consciente da emoção, traduzem-se também em comportamentos emocionalmente desequilibrados. Isto não quer dizer, mais uma vez, que qualquer indivíduo que tenha um comportamento emocional desequilibrado tenha uma lesão orgânica do sistema nervoso. Finalmente nós temos no nosso sistema nervoso um tronco cerebral que tem várias zonas centrais e algumas zonas periféricas, uma de cada lado destas zonas centrais. Uma experiência muito interessante feita há muitos anos consistia no seguinte: tinha-se um ratinho numa caixa, este ratinho tinha um eléctrodo na cabeça e tinha um fio que ia para um estimulador (ver figura 90/5 e 90/6 no acetato 6). Quando o ratinho tocava numa alavanca, o ratinho recebia um choque na cabeça. Quando o eléctrodo estava colocado na parte medial do tronco cerebral, mesmo por baixo do sistema límbico, o animal tocava uma vez e voltava imediatamente para trás e ficava a tocar na alavanca sem comer até morrer. Mas gostava tanto daquilo que ficava a tocar na alavanca. Se vocês, em vez de porem o eléctrodo nesta parte central, o animal toca uma vez na alavanca e nunca mais lá toca. Passou-se a chamar a isto os centros de recompensa e aos outros os centros de castigo (ver figura 15-5 no acetato 6). O interessante é que estes centros de recompensa são centros em que existem receptores de dopamina. Durante a sua estimulação há libertação de dopamina. E parece que um motivo ainda mais forte para o animal do que a alimentação é o comportamento sexual. Aliás acredita-se que, quando nós fazemos qualquer actividade que nos recompense emocionalmente, acabamos por estimular estes centros libertando dopamina. Ora, há várias substâncias que são ingeridas que libertam dopamina. E muitas dessas substâncias são substâncias que provocam o chamado comportamento aditivo. Provavelmente porque quanto mais dopamina se libertar, os receptores na parede das células que têm dopamina começam a interiorizar-se, começa a haver cada vez menos receptores à superfície. Portanto cada vez é preciso de mais dopamina para excitar esses receptores. Por outro lado, há uma coisa muito desagradável: é que se suspenderem a libertação de dopamina não é só a estimulação destes que pára. Há reciprocidade entre estes e os que estão ao lado que começam a ser estimulados anormalmente. Portanto a suspensão de dopamina é acompanhada não só pela perda da recompensa mas pela comissão, ou pela estimulação exagerada do centros de castigo. Isto faz com que muitas drogas possam provocar comportamentos aditivos desta maneira. Isto é, por libertação de dopamina. Vocês têm várias substâncias capazes de provocar estes comportamentos. Não é só a dopamina que actua nestas zonas do sistema nervoso (ver figura 15-6 no acetato 7). Para terminar esta parte, sem que haja preocupação de vocês fixarem isto (para vocês não tem muito interesse), para ficarem só com a ideia de que naquela zona existem multiplos circuitos uns de dopamina, que correspondem àquele que eu estive a falar. Mas há circuitos para a noradrenalina, há circuitos que libertam histamina... Cada um deles relacionados provavelmente com uma determinada função ou modelação de função. Eu gostava de chamar à atenção de que nós temos muito mais centros de recompensa do que centros de castigo. Portanto não faz, sob o ponto de vista da neurofisiologia, muito sentido procurar condicionar um comportamento através do castigo. Apenas se esse é muito intenso. Se quiserem é muito mais fácil, teoricamente ou baseado nesta pequena neuroquímica, conseguir um bom comportamento duma criança pela recompensa do que pelo castigo. O que é estranho se nós pensarmos que toda a educação está muito mais preparada para o castigo quando há fuga ao normal do que para a recompensa em relação a um padrão de originalidade. 2. MEMÓRIA E APRENDIZAGEM Nesta segunda parte deste módulo nós vamos falar de memória e aprendizagem. É claro que há muita coisa que falar, e também é abordado por várias disciplinas. Portanto tomem isto como uma introdução, apenas à memória e à aprendizagem. Há muitas maneiras de estudar a memória e a aprendizagem. Uma das abordagens que é feita e que tem dado bons resultados. Naturalmente alguns dos aspectos da memória e da aprendizagem não podem ser ensaiados ou estudados em animais. A linguagem, obviamente, não pode ser estudada num animal. E portanto os estudos em humanos têm limitações que os estudos em animais não têm. Tem sido muito utilizada a Tomografia de Emissão de Positrões (PET) (ver figura 16-1 no acetato 1) que nos permite ter uma ideia da actividade de determinadas zonas do sistema nervoso. Portanto é possível, quando se está a fazer um exame de exercício, por exemplo por um indivíduo a olhar para palavras e ver se há determinadas zonas que ficam mais activas, ouvir palavras há outras, falar há outras, pensar em palavras há muitas outras. Quando nós falamos em aprendizagem (ver acetato 2) estamos a falar na aquisição de informação de maneira a alterar o comportamento baseado em experiências anteriores. Portanto sempre que qualquer coisa, que eu fiz ou reconheci, me permite alterar o meu comportamento, eu devo dizer que estou a utilizar ou fazer a aprendizagem. E dentro disto uma das formas de aprendizagem é a memória, chamando memória de uma forma muito lata á detenção e armazenamento da informação. A memória pode ser considerada de muitas maneiras: - explícita (lembra-se de acontecimentos) - declarativa - memória de reconhecimento - memória em que eu sou capaz de conscientemente me lembrar de episódios, de coisas que se passaram - semântica (lembra-se de palavras ou de regras de comportamento) Mas além desta memória explícita, em que nós pensamos quando estamos a falar de memória, existe uma memória que não é explícita. Se quiserem, que não está ao nível do consciente e que nós podemos chamar memória implícita. É uma memória reflexa, uma memória não consciente ou, pelo menos, que não necessita de consciência, e que nós podemos considerar de dois tipos: 1. não-associativa: não depende da evolução dos estímulos aferentes. Por exemplo, uma célula nervosa, a que eu provoco um esímulo, se eu provocar um mesmo estímulo várias vezes, essa célula pode no segundo, ou no terceiro, ou no quarto estímulo, começar a responder menos do que ao primeiro estímulo. Apesar de se passar ao nível de uma célula, ou de uma sinapse, por exemplo, eu devo dizer que aquela sinapse tem uma memória não-associativa e que se está a habituar ao estímulo. 2. associativa: outras células, noutras circunstâncias se eu der um, dois, três estímulos respondem mais ao segundo e ao terceiro do que ao primeiro. Ou seja, a verdade é que baseado numa resposta anterior ela modificou a resposta ao estímulo: é uma aprendizagem. É verdade que alguma coisa aconteceu para ela reter informação desse primeiro estímulo: é uma memória. Não é consciente nem explícita, não representa a associação dos dois estímulos, portanto eu classifico-a, apesar de tudo, como uma memória não associativa. Habituação se há perda da resposta, sensibilização se há um aumento na resposta. Porquê que existe a habituação e a sensibilização? Sem entrarmos muito nisto parece que tem a ver com o que se dá a nível da sinapse onde se verifica que pode haver, em algumas circunstâncias, aumento, por repetição do estímulo, da libertação do intermediário químico. Noutras circunstâncias, há diminuição da libertação do intermediário químico. Quando isto foi conhecido começou-se a procurar o quê que ligava a repetição do estímulo à libertação (ou não) do intermediário químico. Verificou-se que isso era sempre prosseguido por variações na permeabilidade ao cálcio. E portanto admitiu-se que era o aumento ou a diminuição na facilidade dos movimentos do cálcio através da membrana que era capaz de dar o aumento ou a diminuição na libertação do intermediário químico. Então admitimos hoje que muito da memória implícita não-associativa tem a ver com a modificação de canais de cálcio a nível da membrana. O problema é que algumas experiências recentes retiram o cálcio do meio ambiente, e apesar disso a célula contínua a manifestar, não de uma forma tão intensa, mas contínua a manifestar alguma sensibilização. Outro tipo diferente de memória reflexa é o condicionamento. O quê que eu chamo condicionamento? Têm aqui o exemplo típico dum condicionamento (ver acetato 4). Têm um animal, isto passa-se com um coelho. Tanto um coelho como um gato têm uma membrana que tapa o olho reflexamente, quando se toca lá. Faço um som e dou um jacto de água para o olho do coelho, e a membrana fecha-se. Vou repitindo várias vezes, tendo sempre a mesma distância temporal entre o som e o jacto de água. A certa altura, eu toco apenas o som e o animal contrai a membrana que se fecha. Nós temos estes reflexos condicionados que são os reflexos condicionados clássicos e temos outros reflexos condicionados em que se condiciona o animal com um estímulo a fazer uma operação. Por exemplo, em que se mostrarem a um macaco numa jaula que mexendo numa alavanca cai uma banana do tecto, e se precederem isso por um som a certa altura vocês têm um animal a quem, se apresentam o som, vai tocar a alavanca. Se ele puxar a alavanca quando não há o som não cai a banana. Isto chama-se um comportamento condicionado de primeira ordem. O macaco pode ser condicionado para depois de ouvir o som, puxar uma alavanca, cair uma coisa do tecto que ele tem de puxar para cair a banana. É um comportamento condicionado operativo de segunda ordem. Ou de terceira ordem: o macaco pode ir à sexta, sétima ordem. Portanto a partir de um som ou qualquer coisa, o animal é condicionado a fezer uma série sucessiva de gestos, ás vezes bastante complicados, para obter o alimento. Foi isto que levou alguns fisiologistas a tentar inteirar a fisiologia toda do sistema como um reflexo. Isto é, se calhar o que nós estamos a fazer quando estamos a falar é responder a reflexos de centésima ordem. Há qualquer estímulo que condiciona, que condiciona, que condiciona e que condiciona. Isto é muito forçado mas de qualquer maneira... O condicionamento clássico mais conhecido é o de Pavlov. Pavlov era um fisiologista ilustre, foi ele que descreveu o reflexo condicionado. O que ele fazia era tocar uma campainha antes de soprar um pó de carne para as narinas de um animal, e verificar que o animal salivava. Há um estímulo pré-determinado, é um estímulo que acontece sempre, para além do pó de carne o animal salivava. E há um estímulo condicionado, que é a campaínha. E então foi associando os dois estímulos: se tocava a campaínha o animal salivava. Pavlov resolveu fazer esta demonstração a uma sociedade ciêntifica. E levou os seus cãezinhos para a sociedade ciêntifica. O que não correu bem. Havia muito barulho na sala e Pavlov tocou a campaínha e os cães não salivaram nada. Voltou para o laboratório muito desmoralizado... Tocou a campaínha no laboratório e os animais salivaram. Para além atrasar muito a publicação de Pavlov, que ficou vários anos sem poder voltar para a sociedade ciêntifica com os seus câezinhos, isto levou Pavlov a perceber que o reflexo condicionado se pode extinguir. Pode-se extinguir por factores externos ou internos. Externos era este. O simples barulho e a mudança de ambiente dos cãezinhos de onde tinha sido feito o condicionamento era suficiente para extinguir o reflexo. E verificou depois também o factor interno. Isto é, toca a campaínha, dá o pó de carne, o animal saliva, toca a campaínha, dá o pó de carne, o animal saliva. Algum tempo depois toca à campaínha, o animal saliva, toca à campaínha, o animal saliva. Se fizer isto seis, sete vezes sem pó de carne o animal deixa de salivar. Chama-se extinção interna do reflexo condicionado. Voltando à memória, nós temos uma memória implícita e uma memória explícita, mas podemos dividir a memória de outra maneira. Nós temos uma memória de curta duração e uma memória de longa duração. A memória de curta duração é, como o nome diz, uma memória que dura pouco tempo. Serve-me para realizar uma determinada operação. Por exemplo, eu, durante a aula, lembro-me de onde está este papel. Provavelmente daqui a dois dias se me perguntarem em que sítio da mesa estava o papel ou qual era a posição dele não me lembro. Há uma memória imediata operativa, que eu necessito para realizar uma função. Esta memória operativa, aliás como todas as memórias implícitas, tem muito a ver com o hipocampo, por um lado, e tem a ver com o córtex: frontal e temporal, em particular. Mas esta é uma memória que se perde com muita facilidade. Se um indivíduo tiver um desastre de automóvel em que tenha um traumatismo craniano violento, há perda muito frequente da memória dos momentos que precedem e sucedem o desastre. Isto é a perda da memória de curta duração. Muitas vezes o indivíduo lembra-se de como começou o dia mas não se lembra de quando se meteu no carro, do acidente, de nada. A verdade é que há qualquer coisa que faz com que uma memória de curta duração passe a uma memória de longa duração, e que possa às vezes ser recordada anos depois. Nós admitimos que a memória se passa em três fases (ver figura 9-147 no acetato 3). Primeiro, não sei se se lembram de quando falei do sistema nervoso e de reflexos, ter mostrado um circuito com um neurónio que voltava para trás na medula. São circuitos deste tipo (ver figura 47-13 no acetato 3). Vocês reparem, entra aqui uma informação que toca neste neurónio, que passa a informação para este, e a informação sai por este lado. Mas este tem um colateral que toca neste, e vai para este. Portanto um estímulo que entre sai, mas também fica a circular durante algum tempo. Nós podemos dizer que a memória operativa é enquanto isto está a circular a informação. Mas que passado algum tempo começa a haver alterações iónicas: alterações na permeabilidade da célula, provavelmente ao cálcio e ao potássio, se se repetir estímulos muito frequentemente na célula. E durante essa fase tem-se provavelmente uma retenção temporária da informação. Reparem, algo inicial que dura poucos minutos, se vai transformando numa que dura mais tempo. Mas depois, se eu durante muito tempo, ou muito repetidamente tiver essas alterações iónicas dentro de uma célula, isso vai-se transmitir, vai provocar a alteração de algumas proteínas ou da síntese de algumas proteínas. Ou seja, vai-se transmitir a nível molecular em modificação da célula. A partir do momento em que existe essa modificação molecular nós podemos dizer que a memória se está a transformar numa memória permanente. Nestas memórias imediatas, ou nestes circuitos de memória, desempenham um papel importante circuitos que libertam acetilcolina. A falha desses circuitos de acetilcolina em determinadas zonas do córtex está relacionada com patologias designadas por demências. Há algumas demências senis, e uma das mais faladas actualmente é a doença de Alzheimer. A doença de Alzheimer ataca uma parte muito importante da população. Acima dos oitenta anos uma percentagem muito importante de pessoas têm demências mais ou menos graves senis, isto é, afecções da memória e, mesmo que não sejam Alzheimer, são aquilo que designamos actualmente por Alzheimer-like situations (situações semelhantes ao Alzhemer). No entanto o Alzheimer é uma perda de circuitos colinérgicos relacionados com a memória e que se traduzem numa primeira fase pela perda da memória operativa e depois pela perda de todas as outras memórias. Reparem no horror que deve ser um indivíduo saír da porta e não se lembrar onde é que está, ou onde é que esteve. São coisas tão básicas como isto. A pessoa perde a sua memória operativa. E portanto é incapaz de efectuar as coisas mais básicas do quotidiano que são baseadas na memória operativa. Eu gostava de lhes dar uma ideia das estruturas que estão envolvidas, ou dos tipos de circuitos que estão envolvidos, numa memória dita declarativa. É aquela tal memória, duma memória explícita que eu vos falei ao bocadinho. Para uma memória é preciso estar envolvido não só toda a zona do hipocampo, o hipocampo parece desempenhar um papel essencial em todas as memórias, quando se tornam conscientes. E reparem que neste bonequinho (ver figura 16-4 no acetato 5) aquilo que sai é que independentemente da memória.... vocês têm aqui várias zonas que estão relacionadas com funções diferentes do sistema nervoso. Aqui atrás no córtex cerebral cervical é proque quando nós dizemos que o hipocampo, ou que estes circuitos, estão envolvidos na memória nós estamos a apresentar um esquema. Se a memória é uma memória visual, alguma coisa tem de haver a nível do córtex visual, ou relacionado com a visão, para nós termos essa memória da visão. Se é com a audição também tem alguma coisa com o córtex da audição. Portanto a memória, embora o tratamento crucial da informação possa ser e é feita a nível do hipocampo, há sempre um contacto com outras zonas, em particular zonas do córtex, que estão relacionadas com o tipo de sensação que nós estamos a recordar. Isto é, nós não activamos as mesmas zonas (o hipocampo sim) se tivermos a ter uma memória visual ou se tivermos a ter uma memória auditiva ou uma memória sensorial de outro tipo. Finalmente eu gostaria de falar um bocadinho sobre a linguagem e sobre a dominância do córtex, outro assunto sobre o qual se diz muitos disparates. Isto aqui são as zonas do córtex relacionadas com a linguagem (ver figura 16-5 no acetato 6). Vocês têm uma zona que é a zona de Broca, e outra zona que é a zona de Wernicke. Isto aqui em baixo é um corte transversal (ver figura 16-6 no acetato 6). Vocês têm aqui a parte frontal, têm aqui a parte occipital, isto é o lado esquerdo e isto é o lado direito. A compreensão de palavras é fundamentalmente activada a nível da área de Wernicke. Esta área de Wernicke, para ser activada, para nos relacionarmos com a linguagem, tem de ser activada a partir de outras zonas. Isto é, se a palavra que eu estou a compreender é uma palavra falada, o estímulo nasce no córtex auditivo. Se for um texto que eu estou a ler, a informação tem de chegar ao córtex visual e depois à área de Wernicke. E depois, da área de Wernicke, se eu quiser falar para responder, tem de ir a uma área, mais anterior, que é a área de Broca, e depois daí é que vai para o córtex motor relacionado com os movimentos da boca. Isto significa que quando um indivíduo tem uma destruição da área de Wernicke, o indivíduo teoricamente é capaz de falar. E fala. Fala, mas uma fala que é completamente incoordenada e com um significado muito difícil de perceber para as pessoas que estão a ouvir. Um indivíduo que conserve a área de Wernicke mas tem uma destruição da área de Broca, consegue compreender aquilo que ouve mas tem uma enorme dificuldade em falar. Portanto estas são as zonas relacionadas com a linguagem. Um assunto que é importante também ouvirem falar é acerca do córtex e do hemisfério dominante ou hemisfério não-dominante. Dizer que um indivíduo escreve com a mão direita, o seu hemisfério dominante é o esquerdo. A verdade é que este conceito não é exactamente assim. Há muita gente que escreve com a mão esquerda e tem também o hemisfério dominante o esquerdo. Nós podemos dizer que os nossos hemisférios, mais do que ser um dominante e o outro não servir para nada, o que nós podemos dizer é que temos hemisférios cerebrais especializados. Isto é, podemos dizer que temos um hemisfério esquerdo que está mais relacionado com a linguagem, que está mais relacionado com a compreensão da palavra, e é esse normalmente dizemos que é o hemisfério dominante. Mas temos outro hemisfério do outro lado que está muito relacionado com a percepção das relações temporais e espaciais. Isto é, se nós precisamos de um hemisfério para falar e organizar a palavra, nós para percebermos a localização e a relação do espaço entre objectos nós precisamos do nosso hemisfério direito. Há quem tenha os hemisférios cotados nesta percepção, mas é uma percentagem mais pequena do que os indivíduos que são canhotos. Portanto não quer dizer que um indivíduo só porque é canhoto tem uma distribuição diferente entre o hemisfério das categorias, da linguagem, ou o hemisfério das relações, o hemisfério da direita. Por outro lado, existem diferenças, naturalmente, entre um indivíduo com hemisfério dominante do lado direito, que corresponde ao facto de ser naturalmente canhoto a algumas modificações que têm sido estudadas nas apetências, principalmente nos indivíduos a que corresponde uma alteração na dominância do hemisfério esquerdo e direito. É que um indivíduo que tem estas alterações de hemisfério tem apetências, se quiserem, profissionais diferentes, capacidades diferente. Nós encontramos uma enorme percentagem de canhotos em indivíduos que são músicos, artistas e matemáticos. Encontramos uma enorme percentagem de canhotos em relação à população normal. O quê que isto significa? Significa provavelmente que a parte do hemisfério das relações tem muito mais importância nestes indivíduos. A outra coisa que não se sabe muito bem é porquê que estes indivíduos morrem significativamente mais cedo do que os indivíduos que não são canhotos. Portanto eu gostava que ficassem com a ideia de que o conceito que há um hemisfério dominante, que há um hemisfério que não serve para nada é completamente disparatado. Temos hemisférios especializados, o que significa que um está preocupado com categorias, com a linguagem, e o outro está preocupado com as relações, e que existe uma ampla comunicação entre os dois hemisférios. Temos uma parte importante do sistema nervoso central, o corpo caloso, que apenas serve para a comunicação entre os dois hemisférios. Portanto, se eu tapar um olho a um gato, e condicionar o gato com imagens que lhe mostro no olho esquerdo. Depois, destapar o olho direito, tapar o olho esquerdo e mostrar a imagem ao olho direito do gato, o gato vai continuar condicionado. Podem-me dizer que a informação se cruza a nível das aferências visuais. Mas há maneiras de evitar esse cruzamento destruíndo algumas fibras do cruzamento e mesmo assim o animal contínua a responder. Porque a informação, depois de tratada, volta para o outro hemisfério. Portanto há uma enorme complementariedade dos hemisférios. Só cortando completamente ao meio o corpo caloso e as fibras de comunicação visual é que eu consigo impedir o condicionamento visual feito a um gato no olho esquerdo se traduza depois se eu lhe mostrar a imagem no lado direito. De qualquer maneira isto é apenas uma primeira abordagem à aprendizagem e à memória. Ouvido A nossa vida de relação é fundamentalmente baseada nos órgãos dos sentidos, entre os quais a audição. Muita da nossa actividade diária depende daquilo que ouvimos e fazemos ouvir (comunicação). Além disso o ouvido tem uma outra função fundamental que é a da coordenação em geral. O ouvido é, portanto, essencial à nossa vida de relação. Constituição do ouvido O ouvido é constituído por 3 partes: -ouvido externo (visível). É constituído por duas partes: pavilhão auricular externo (orelha) e canal auditivo externo. .O pavilhão auricular tem, em certos animais (como é o caso dos cães), o papel de direccionamento para captação do som, funciona como uma antena. Para determinar qual a importância do pavilhão auricular no ser humano, realizaram-se estudos em que taparam todas aquelas anfractuosidades do pavilhão auricular externo com cera. Depois fizeram-se audiogramas subsequentes e verificaram que a capacidade de audição estava ligeiramente diminuída para determinadas frequências. Conclusões: 1- o pavilhão auricular tem um papel relativamente pequeno (uma pessoa sem pavilhão auricular externo também ouve bem); 2- parece que algumas frequências são melhor captadas por aquelas anfractuosidades do pavilhão auricular, permitindo uma melhor audição em determinadas circunstâncias. .O canal auditivo externo continua a cavidade do pavilhão auricular, estendendo-se desta esta até ao ouvido médio. O facto de este canal ter pêlos e de ter glândulas que secretam cerume (produto semelhante à cera) possibilita a filtragem do ar. Um pouco à semelhança do que acontece no nariz relativamente ao ar que respiramos, o canal auditivo, apesar de ter uma menor dimensão, tem capacidade de filtrar algumas impurezas, de aquecer o ar e de algum modo condicionar o ar que chega de modo a que não seja tão agreste como poderia ser. -ouvido médio. É uma cavidade estreita e de forma irregular, separada do ouvido externo pela membrana do tímpano. Está alojada no osso temporal, comunicando directamente com a nasofaringe (permite a comunicação do ouvido médio com o exterior) mediante a trompa de Eustáquio. O ouvido médio tem por isso um papel fundamental na equalização das pressões: pressão ambiente e pressão sentida no ouvido. Se a trompa de Eustáquio estiver entupida a passagem de ar fica dificultada, não é feita a equalização de pressões podendo originar a ruptura do tímpano O ouvido médio, também conhecido por caixa do tímpano, contém três ossículos (martelo, bigorna e estribo) articulados uns a seguir aos outros formando a cadeia ossicular do ouvido. A membrana do tímpano, quando é atingida pela onda sonora, vibra. Agarrado à membrana está o primeiro dos ossículos do ouvido médio que é o martelo que se articula com a bigorna, e esta, por sua vez, articula-se com um terceiro ossículo que é o estribo. O estribo já está ligado ao início do ouvido interno que é a janela oval. O martelo tem o seu cabo aderente à membrana do tímpano e é a vibração desta membrana que vai fazer articular a cabeça do martelo propagando assim a vibração a toda a cadeia de ossículos. No fundo todo este conjunto constitui um sistema de amplificação. Existem dois sistemas de amplificação: 1- a diferença de tamanho entre a membrana do tímpano e a janela oval; 2- o sistema de amplificação mecânico através da cadeia de ossículos. -ouvido interno é uma cavidade no interior do osso temporal que contém a cóclea e o aparelho vestibular. .Cóclea (caracol porque se enrola sobre si própria dando quase 3voltas). A cóclea é formada por elementos dos labirintos ósseo e membranoso. É formada pela subdivisão do labirinto ósseo em dois compartimentos: 1-rampa vestibular (que está ligada com a janela oval); 2-rampa timpânica (que está ligada com a janela redonda que contacta com o ouvido médio). A separação destes dois compartimentos é feita por uma componente do labirinto membranoso – rampa média ou ducto coclear. É na rampa média que vai ficar o órgão de corti que é o verdadeiro receptor, é o órgão sensorial da audição. Há que entender o ouvido como um transdutor: transforma ondas mecânicas que nos chegam (ondas de pressão) em energia química ou eléctrica que é transmitida ao cérebro. É este órgão de corti que vai fazer essa transmudação de tipo de energia. .Aparelho vestibular. à canais semicirculares ósseos: frontal, posterior e horizontal; à vestíbulo membranoso: o urículo (onde desembocam os canais semicirculares) e o sáculo (onde se inicia a parte membranosa da cóclea). Transdução do som O ouvido tem a capacidade de detectar sons, é essa uma das suas funções. O ouvido recebe sons que são ondas sinusoidais (mais ou menos complicadas, com mais ou menos frequências incluídas) e essas permitem-nos ouvir coisas diferentes. Dependendo da frequência própria do sinal vamos ouvir sons de baixa frequência (graves) ou de alta frequência (agudos). Dependendo da amplitude da onda que é recebida vamos ter sons de maior ou menor intensidade. Dependendo da composição desse mesmo som vamos conseguir distinguir sons diferentes, por exemplo o violino do piano. A nossa capacidade auditiva vai dos 20 Hz aos 20000Hz. Mas o nosso limiar de audição não é igual para todas a frequências: é menor para frequências mais baixas (abaixo dos 20hz é preciso sons muito intensos para que nós os consigamos percepcionar); a capacidade de audição é maior à volta dos 1000 e 3000Hz (nestas frequências o limiar é, por definição, 0dB), intensidades pequenas são facilmente percepcionadas; existe um limiar de intensidade a partir do qual nós já não conseguimos detectar o que estamos a ouvir. Sabemos que estamos a ouvir um som, mas a certa altura começa-se a degradar a capacidade de discriminação do som pela sua excessiva intensidade (a partir dos 120decibéis pode haver danos do ouvido e a partir dos 140decibéis provoca dor devido à elevada intensidade). existe uma vibração acústica que é propagada num meio elástico que é o ar vai ser captada pelo ouvido externo, pelo pavilhão auricular conducto auditivo externo até à membrana do tímpano (o conducto auditivo funciona como um filtro só deixando passar frequências entre os 20 e os 20000Hz) a onda sonora atinge a membrana do tímpano, fazendo-a vibrar através do sistema de ossículos chega até à janela oval da janela oval o sinal é transmitido ao vestíbulo e depois à cóclea Cada frequência é recepcionada num local diferente da cóclea: a nível da base, no início da cóclea, vamos ter 20000Hz (frequência mais alta que somos capazes de ouvir) e no ápex vamos ter a frequência mais baixa que somos capazes de ouvir. A cóclea é que o verdadeiro diferenciador de frequências. Nas duas rampas ósseas, vestibular e timpânica, existe perilinfa. Dependendo da frequência, o som tem capacidade para impulsionar o líquido (perilinfa) mais ou menos longe: se for uma alta frequência, os movimentos dos líquidos dentro destes dois canais acabam logo no início da cóclea; se for uma baixa frequência o som tem capacidade para fazer mexer o líquido até quase à janela que faz a ligação entre as duas rampas que é o helicotrema. Na rampa vestibular os movimentos da perilinfa vão fazer vibrar a membrana de Reissner, dão a volta fazendo também vibrar a membrana basilar antes de chegar à janela redonda. Lá dentro existe a membrana tectória que vai empurrar uma série de células ciliadas (externas e internas). Ao haver o deslocamento da membrana de Reissner e da membrana tectória e ao haver a subida da membrana basilar, os cílios que estão na parte superior das células são desviados. Este desvio vai provocar quer a despolarização quer a hiperpolarização das células. A despolarização das células provoca o envio de sinal, através dos nervos, para o cérebro. Quando há despolarização há o envio de muitos sinais, quando há hiperpolarização há o desaparecimento do envio de sinais. O órgão de Corti (estrutura que faz parte da cóclea) consiste em células ciliadas e em vários tipo de células de sustentação. Os estereocílios das células ciliadas fazem contacto com a membrana tectórica. Á medida que a membrana basilar oscila estes estereocílios inclinam-se: àem direcção aos cílios mais compridos – ocorre despolarização da célula ciliada; àem direcção aos cílios mais curtos – ocorre hiperpolarização da célula. Há cerca de 15000 células externas e 350 células internas. Apesar de haver muito menos células internas, são elas que recebem cerca de 90% dos feixes nervosos do nervo auditivo. As células internas têm um papel fundamental na recepção do sinal, enquanto que as células externas têm um papel principalmente modelador. Ou seja, enquanto que as células internas são, possivelmente, principalmente aferentes, as células externas têm um papel mais eferente, mais regulador do sistema através dos sinais que vêm do cérebro. A membrana basilar do ouvido consegue fazer uma análise de Forrier dos fenómenos complexos periódicos, decompondo o som em ondas simples. Assim, as amplitudes das várias frequências do sinal que é introduzido vão ser mais intensas consoante o sítio onde são recebidas (cóclea – diferenciador de frequências). Nesse sítio vai haver um feixe nervoso que recebe aquela frequência e que vai transmitir ao cérebro que foi recebida aquela frequência. É o nosso cérebro que vai, depois de recepcionados os sinais das várias frequências, reconstituir a ideia de que o sinal é o conjunto de todas as frequências. A transmissão do sinal: O gânglio espiral (contém os corpos celulares das fibras aferentes primárias. As células do gânglio espiral são neurónios bipolares cujos prolongamentos atingem as células ciliadas) vai recepcionar os sinais vindos da cóclea através das células internas do órgão de corti. O gânglio espiral transmite depois o sinal a nível do bulbo, aos núcleos cocleares dorsal e ventral. A este nível há uma série de interacções com o lado oposto e há o cruzamento através do mesencéfalo, hipotálamo e córtice. O sinal é enviado bilateralmente. Qual a importância do sinal ser enviado bilateralmente? Possibilita-nos saber de onde vem um determinado som: aqueles milisegundos que diferenciam a chegada do som ao ouvido direito e ao ouvido esquerdo são fundamentais para a localização do som, assim como a intensidade com que o som chega a um lado e ao outro. Se chegar com maior intensidade a um dos lados, vai haver um mecanismo excitatório/inibitório a nível de um daqueles núcleos da base, que faz com que a excitação ao córtex seja feita mais por um dos lados do que pelo outro. Outras funções do ouvido Outra função do ouvido é o equilíbrio, a coordenação. O ouvido interno, aparelho vestibular, tem um papel fundamental na coordenação. O ouvido interno tem uma série de sistemas de localização dos movimentos da cabeça que estão ligados a todo o sistema de coordenação do nosso corpo: -os canais semicirculares que nos vão dar a orientação espacial dos movimentos angulares (rotação da cabeça anterior/posterior); é um sistema em 3D, ou seja, que vai captar o movimento nas três dimensões do espaço. -um sistema que são os otolitos que vão ter a função principal de transmitir ao nosso cérebro a informação das acelerações lineares. O aparelho vestibular contém três pares de canais semicirculares em cada lado: .os canais frontais que detectam o movimento para a frente e para trás; .os canais posteriores que detectam os movimentos de lateralização da cabeça; .os canais horizontais que detectam o virar da cabeça para a esquerda e direita. Cada canal semicircular possui uma dilatação denominada ampola. No interior da ampola existe um epitélio sensorial. Esta tem células ciliadas; os cílios entram em contacto com uma substância gelatinosa, a cúpula, que se estende através da ampola. Os cílios são assim desviados para um lado e para o outro, consoante o movimento da endolinfa, que se move por inércia aquando de movimentos da cabeça. Se movermos a cabeça para a frente, a endolinfa, por inércia, fica para trás empurrando a cúpula no sentido oposto. Os cílios são desviados dando origem a uma despolarização (se o desvio for no sentido dos estereocílios) ou a uma hiperpolarização (se for para o lado do cílio mais pequeno - cinocílio). Enquanto que os canais semicirculares nos dão a orientação da cabeça nos movimentos rotacionais: .o sáculo dá-nos o sinal de acelerações lineares- movimentos verticais. .o urículo dá-nos o sinal de acelerações lineares- movimentos horizontais. Dentro do sáculo há células ciliadas e há uma matriz cheia de grão de cálcio: são os otolitos. Nas acelerações lineares é mais difícil a inércia dar o desvio dos estereocílios. O que acontece então, é que são precisas estruturas com densidade maior para provocarem uma inércia maior que consiga desviar os estereocílios. Os otolitos ficam para trás empurrando os estereocílios na direcção oposta a que estamos a acelerar. O urículo funciona da mesma forma. Qualquer destes sistemas, canais semicirculares, sáculo e urículo, só detecta acelerações (aceleração angular e linear). Nota: Dentro do ouvido interno, tal como na cóclea, existe perilinfa e endolinfa. Perilinfa que anda à volta dos sistemas de detecção e endolinfa que anda mesmo dentro dos canais semicirculares, tal como andava dentro da rampa média (onde está o órgão de corti). A composição destes dois líquidos é completamente diferente: àperilinfa - muito rica em sódio, tem uma composição parecida com o líquido do cefalorraquidiano. àendolinfa- tem uma composição extraordinariamente rica em potássio e com muito pouco sódio, parecida com o líquido intracelular. O potencial da endolinfa anda à volta dos +/-80mv, o que juntando aos -60mv do potencial intracelular das células ciliadas, faz com que haja como que uma hiperpolarização daquelas células. Torna-se então necessário haver estímulos muito intensos para haver uma despolarização. Ou seja, pequenos movimentos dos cílios não despolarizam, são precisos movimentos com uma certa amplitude para que haja despolarização e a consequente transmissão de sinal. Exemplos curiosos: à Temos um vestíbulo no ouvido direito e outro no ouvido esquerdo. Este sistema está coordenado de maneira a que quando há hiperpolarização de um dos lados há despolarização do outro. O nosso cérebro já está habituado a que quando se faz um movimento há despolarização de um lado e hiperpolarização do outro. Esse estímulo é mandado para o córtex, para o cerebelo (que é o “computador”) que vai fazer a aferência desses sinais recebidos com os sinais da visão e outros. É a partir desta aferência de sinais que surge a nossa coordenação. Se tirarmos um dos ouvidos (a parte do ouvido interno) a um gato ele rebola sobre si próprio continuamente para o lado em que lhe tiraram o ouvido. Imaginando que um indivíduo tem uma doença em que se tem que lhe retirar um dos ouvidos: o indivíduo fica com tonturas, sem posição de alívio. Porquê? Se ele estiver quieto não lhe acontece nada, mas cada movimento que o indivíduo fizer o seu cérebro de um lado é despolarizado, mas do outro lado não recebe nada. Este caso nem seria muito preocupante, mas suceder o contrário, ou seja, se o cérebro recebe um hiperpolarização e fica à espera da despolarização do outro lado, o que não acontece, vai provocar no indivíduo tonturas terríveis. Isto tem ligação com o sistema de movimento dos olhos (nós estamos feitos para rodar a cabeça e continuarmos a olhar para a frente, é um método de defesa). No caso de ser retirado o ouvido interno essa ligação perde-se, vai haver uma descoordenação que provoca movimentos descoordenados dos olhos. Retirar o ouvido vai provocar falta de equilíbrio, vómitos, falta de coordenação (movimentos por esticões). No entanto, no ser humano, ao fim de cerca de dois meses o cérebro consegue apreender que realmente aquele sistema é diferente. Faz uma aprendizagem deste novo sistema em que há a inexistência de sinais de um dos lados e ao fim de algum tempo (meses) a pessoa consegue reequilibrar-se, reaprender a viver só com o estímulo de um dos lados. Mas todo este processo é doloroso e difícil. à Se um indivíduo tiver que retirar o ouvido interno (por exemplo por causa de um tumor), não pode fazer mergulho. Isto porque ao retirar o ouvido interno fica sem vestíbulo, ou seja, deixa de receber o sinal das acelerações e da pressão. Uma pessoa dita normal, quando mergulha tem a noção da direcção da superfície porque recebe o sinal das acelerações e da pressão tendo assim a sensação exacta de que a pressão menor está para cima e a maior para baixo. Quando está escuro ou a visibilidade é má não dispomos de outro sensor para nos dar essa informação. Um indivíduo sem vestíbulo pode optar pela direcção errada. à Teste de Romberg. Colocamos um indivíduo de pés juntos e verificamos se ele se desequilibra. Se isso acontecer pode haver desvio de um dos lados. Depois mandamos a pessoa fechar os olhos. Por vezes é só nesta altura que o indivíduo se desequilibra. O facto de ele, de olhos abertos se conseguir equilibrar, mas quando fecha os olhos perder o equilíbrio, significa que o cerebelo recebe os sinais ”proprioceptivos” do sistema vestibular sobre a posição do corpo, e em particular da cabeça, recebe os sinais da visão e coordena todo este sistema. Quando a pessoa tem um problema no cerebelo ou no sistema central de coordenação em si, com os olhos abertos a pessoa desequilibra-se. Mas se o problema for um defeito do vestíbulo, provavelmente está a receber os sinais proprioceptivos, sabe que os pés estão juntos, que está em pé e direita e está a ver a parede e as cadeiras direitas e consegue com pequenos movimentos corrigir os ligeiros desequilíbrios. Quando fecha os olhos perde o sinal da visão e desequilibra-se. É um teste simples que permite saber se a descoordenação resulta de um problema no cerebelo ou no vestíbulo. àRelativamente à cóclea há um fenómeno muito importante: por exemplo, quem trabalha com um martelo pneumático e está sujeito aquela frequência completamente irritante durante várias horas, dias a fio. O que vai muito provavelmente acontecer é que os órgãos de detecção daquela frequência vão ficar lesados. Poderá ainda a nível futuro surgir a incapacidade de ouvir aquelas frequências. O mesmo acontece com os jovens nas discotecas, em que as frequências baixas têm uma intensidade muito elevada. Disc-jockeys e trabalhadores de discotecas perdem muitas vezes a capacidade de audição de certas frequências porque a elevada intensidade e repetição do estímulo leva à perda de capacidade. Isto também acontece às pessoas mais idosas, neste caso por um processo de envelhecimento, perdem a capacidade de audição das frequências mais altas. à Qual é a frequência mínima para a qual nós conseguimos distinguir que um som é constituído por duas frequências diferentes? A discriminação é variável de pessoa para pessoa, há músicos com ouvido fantástico que têm discriminações fortíssimas, na ordem do décimo de nota musical, o comum dos mortais fica-se por quase dois meios tons. Olfacto e Gosto – Sentidos Químicos Os sentidos químicos incluem o paladar e o olfacto. São sentidos que permitem a detecção de substâncias químicas nos alimentos, na água e na atmosfera. Também a detecção da composição química do sangue, por ser uma detecção química, é muitas vezes incluída nos sentidos químicos. Isto porque temos uma série de orgãos espalhados pelo nosso corpo, em particular nas ramificações de algumas artérias como o corpo carotídeo, os corpos aórticos, que nos permitem detectar se temos níveis de oxigénio demasiados baixos ou altos no sangue e, em função disso, começarmos a respirar mais depressa para repor os níveis de oxigénio. No entanto a sensibilização ou sensorização dos níveis de oxigénio não é consciente, ou seja, se eu estiver num ambiente com menos oxigénio começo a respirar mais depressa, mas não tenho consciência do nível existente no meu sangue. Portanto esta quimio-recepção interna escapa à definição de sentido. Assim quando falamos de sentidos químicos consideramos apenas o gosto e o olfacto. Sobre o gosto e o olfacto existe ainda, e apesar de toda a investigação, uma informação relativamente escassa. Gosto e olfacto são sentidos químicos. Apesar de os englobarmos no mesmo grupo de sentidos, a verdade é que eles têm diferenças fundamentais. Têm diferenças quanto à anatomia, quanto à génese do sinal… à o estímulo para o olfacto, ou seja, o produtor da sensação olfactiva gera-se por algo que pode existir à distância. É um “tele-sentido” (assim como a visão). à para que o paladar aconteça é preciso que o estímulo esteja em contacto directo com a língua. Em termos moleculares isto já não acontece: à é preciso que as moléculas atinjam os nossos órgãos sensoriais olfactivos e gustativos, mesmo em pequena concentração, para termos a percepção do olfacto e do paladar. Falar do olfacto e do gosto apenas no sentido químico é limitativo: à a verdade é que quando temos uma sensação gustativa esta sensação excede em muito a parte da reacção química e da percepção de uma molécula. É diferente comer uma mesma comida quente ou fria. É natural que se juntarmos uma substância inerte (sem sabor) a uma comida e essa substância lhe uma consistência dura e rugosa, apesar de a comida poder estar à mesma temperatura e ter a mesma composição química, a verdade é que a sensação subjectiva que nós temos não é a mesma. Portanto quando falamos do sentido do gosto temos de perceber que há uma parte química, mas há também uma série de sensações tácteis e térmicas que têm a ver com a sua percepção. à da mesma maneira o olfacto não é apenas a substância química que vai interferir nos receptores do olfacto. A sensação é ajudada por outros receptores que estão junto dos receptores olfactivos (alguns do tipo térmico). Curiosamente durante a sensação olfactiva há estimulação de receptores relacionados com a percepção da dor. Se estes receptores forem retirados a percepção do olfacto modifica-se. Estes sentidos têm também alguma interferência entre si: à quando estamos constipados e comemos uma comido tendo o nariz entupido (não há percepção olfactiva) a percepção gustativa altera-se. Há, portanto, a nível subjectivo uma percepção reforçada do gosto feito pela percepção simultânea do olfacto. Olfacto Os animais, relativamente à capacidade olfactiva, são divididos em dois grandes grupos: .animas micrósmicos (sentido do olfacto pouco desenvolvido). Têm uma mucosa olfactiva pequena .animais macrósmicos (sentido do olfacto muito desenvolvido). Têm uma extensa mucosa nasal rica em receptores olfactivos. O ser humano é considerado um animal micrósmico. Isto porque as suas mucosas olfactivas, que se situam na parte superior das fossas nasais, ocupam uma área aproximada de 5cm2, o que é, relativamente ao total das fossas nasais, muito pequeno. É uma percentagem muito menor do que aquela que encontramos num animal como o cão e, em especial, num animal como o tigre (o animal que levou mais longe a evolução da percepção olfactiva). Seja o animal macrósmico ou micrósmico a concentração que é necessária a substância atingir no ar que chega às fossas nasais, para ser detectada, é na ordem dos picomoles/litro. Portanto, apesar de sermos micrósmicos, temos uma capacidade de detecção de concentrações muito baixas das moléculas que são capazes de provocar a sensação odorífera. Olfacto e a vida de relação. Estas diferenças entre animais macrósmicos e micrósmicos têm repercussões na vida de relação. Temos a ideia de que se perdermos o olfacto a nossa vida de relação é pouco afectada. Realmente se mantivermos a audição, a visão e perdermos o olfacto não é por isso que morremos, que nos deixamos de deslocar, que deixamos de comer, que deixamos de ter a nossa vida de relação. No entanto o olfacto faz-nos muito mais falta do que pensamos, principalmente em termos da nossa vida emocional. Se retirarmos o olfacto a um animal macrósmico, o animal perde, em grande parte, a capacidade de se relacionar com o meio. E isto tem a ver com o facto da grande riqueza de receptores em animais macrósmicos estar relacionada com uma grande representação também a nível cortical e com uma grande riqueza de associação das zonas cerebrais com as zonas que são responsáveis pelo movimento, pela percepção de outras sensações. De tal maneira que se admite que os animais macrósmicos são capazes de organizar memórias do seu olfacto da mesma maneira que nós organizamos as nossas memórias visuais. Nós conseguimos deslocarmo-nos no meio a partir da visão e de memórias visuais que temos. Parece que um animal macrósmico, no seu meio, cego e com uma grande diminuição da capacidade auditiva, é capaz de se mexer numa paisagem olfactiva. Podemos portanto pensar nos animais macrósmicos como organizando-se dentro de uma paisagem olfactiva, à qual juntam a visão e a audição, enquanto que nós, animais micrósmicos, organizamos uma paisagem na base da visão à qual associamos a audição e o olfacto. Isto é uma forma comportamental que a fisiologia comportamental usa para distinguir a importância relativa dos sentidos químicos e não químicos na vida de relação. Por outro lado, apesar de nós termos um número pequeno de receptores para o olfacto comparado com os animais macrósmicos, a verdade é que o olfacto desempenha um papel importante na nossa vida, em particular, na nossa vida emocional. É muito fácil uma memória de tipo afectivo ser desencadeada por um cheiro, um perfume, qualquer coisa que nos transporta rapidamente para o passado e com uma intensidade emocional que raramente uma memória visual ou auditiva provoca. Antigamente utilizava-se o termo sistema límbico em igualdade de termos com rinencéfalo, quer dizer, encéfalo relacionado com olfacto. Isto acontecia porque realmente a parte anterior do sistema límbico, aquilo que se chamava rinencéfalo, está relacionado com o olfacto. Há várias comunicações entre o olfacto, a recepção olfactiva e amígdala que faz parte do sistema límbico e que tem uma importância enorme no comportamento, em particular no comportamento sexual. Estabelece relações com o hipocampo que tem uma enorme importância sobre a memória. É portanto natural que um cheiro nos transporte rápida e intensamente ao passado. Qual é, então, o sentido filogenético ou de evolução de uma ligação tão rica dos receptores olfactivos? A verdade é que nesta zona das fossas nasais, onde existe a mucosa olfactiva, há um zona ainda mais pequena que se distingue por uma coloração mais amarelada: é o vomeronasal. Este órgão, que em nós está pouco desenvolvido, percepciona estímulos enviando-os à amígdala, particularmente à zona da amígdala relacionada com o comportamento sexual. É esta zona que é responsável pela detecção de substâncias produzidas por animais da mesma espécie e transmitidas à distância, ou seja, pelas feromonas. Provavelmente esta enorme riqueza que existe de ligações ao sistema límbico relacionado com as emoções do olfacto têm a ver com o facto de o olfacto ou o orgão do olfacto não detectar apenas odores, mas detectar também, numa das suas partes, feromonas. Outra característica que é extremamente importante quando nós falamos de olfacto, e que nos vai dar uma ideia da dificuldade de estudar este sentido, é a existência de inúmeros receptores do olfacto. Existem entre trezentos e cinquenta a setecentos receptores diferentes. Isto implica que uma parte muito significativa do nosso genoma (mais de 20%) se destina a codificar receptores do olfacto. Isto apenas faz sentido em termos de evolução filogenética por existir esta relação de detecção de odores e feromonas no comportamento sexual e emocional. Por outro lado, se há mais de 300 receptores, é difícil nós estudarmos o funcionamento de todos eles com a certeza de poder fazer generalizações. Se há especificidade de 300 ou 400 receptores torna-se difícil fazer uma classificação dos odores, dos cheiros da mesma maneira como fazemos por exemplo dos gostos ou uma classificação das cores ou dos sons. No homem, as fossas nasais, não são propriamente uma zona de fácil acesso para estudos electrofisiológicos. É possível, com base em simulações e modelos das fossas nasais, estudar o movimento de ar que é inspirado, ver o trajecto desse ar e ver também se nesse ar de entrada existe uma determinada concentração de uma substância; essa concentração, como a distribuição do ar não é homogénea, não é uniforme. Nas fossas nasais vai ser diferente em cada ponto e a zona de menor concentração vai ser exactamente a zona olfactiva. Ou seja, o ar que entra, só muito perifericamente, é que vai para esta zona. Contudo isto é mais do que suficiente para provocar sensações olfactivas. Este mecanismo é, por um lado, um sistema de defesa contra odores demasiado fortes, por outro lado, dá-nos uma forma de muito facilmente aumentarmos a concentração de substâncias no ar junto da mucosa olfactiva. Como? - Utilizando aquilo que em fisiologia se designa por snifar, que é o forçar da entrada de ar de maneira a que o ar bata forçadamente na parte superior das fossas nasais. Então: Ponto 1: temos uma enorme codificação de receptores; Ponto 2: fazemos a detecção de odores de concentrações muito pequenas; Ponto 3: a percepção olfactiva pode ser treinada e é coadjuvada por outros orgãos dos sentidos. Como se dá afinal uma percepção olfactiva? De uma forma geral dá-se assim: o ar entra pelas fossas nasais, toca na mucosa olfactiva – é preciso que as substâncias se dissolvam naquele muco que existe na mucosa olfactiva para atingir o receptor. Efectuou-se um estudo a pessoas que tinham uma capacidade olfactiva muito pequena; as biópsias do tecido nasal permitiram dividir essas pessoas em dois grupos distintos: um em que as biópsias eram normais e outro em que se detectou um número bastante menor de receptores e células olfactivas. Era esperado que as biópsias apresentassem um menor número de células olfactivas e receptores, como aconteceu no 2º grupo. Esta perda de células pode acontece naturalmente com o avanço da idade, por exemplo. O inesperado foi que indivíduos com capacidade olfactiva reduzida apresentavam biópsias perfeitamente normais e portanto com células e receptores olfactivos normais. Então qual o porquê da capacidade olfactiva reduzida? Comparando com pessoas “normais” quanto à percepção olfactiva o que lhes faltava era uma “olfactive biding protein”, isto é, uma proteína que é produzida e existe no muco e que aumenta o fixamento de partículas odoríferas de forma a aumentar a concentração das partículas perto dos receptores. O ar entra nas fossas nasais, as partículas que o ar contêm fixam-se no muco, ligando-se a olfactive biding proteins, e só depois disso é que vão ter aos receptores. Não se sabe exactamente como actuam os receptores. Quando há partículas olfactivas que tocam na mucosa sabemos que acontecem duas coisas: 1. Por um lado há o aumento de uma proteína, chamada proteína G. Esta proteína activa adenilciclase, portanto interfere na produção de ANP5. 2. Em consequência disso existe um aumento da entrada de cálcio e sódio para dentro da célula. A partir deste aumento existe uma despolarização da célula. Isto é o que sabemos quanto ao mecanismo de recepção. As células que fazem a detecção do olfacto estão muito próximas do cérebro (parte orbitofrontal). Estas células vão ser excitadas e depois vão-se distribuir por duas vias: via mediana e uma via lateral. A via lateral vai principalmente para o córtex temporal, distribuindo-se depois para o sistema nervoso (encéfalo), enquanto que as vias medianas vão fundamentalmente para a amígdala, e da amígdala começam a contactar para o hipotálamo (contactam o sistema límbico e aquele sistema que é o hipotálamo que vai permitir ao sistema límbico influenciar todo o sistema nervoso autónomo). É um sistema muito rápido de transmissão de informação. Este sistema, em particular as estrias medianas olfactivas, está, provavelmente, relacionado com a percepção de feromonas e com um comportamento sexual muito rápido motivado pelo olfacto. Na mucosa nasal… Se a despolarização atingir um valor limiar vai-se dar um potencial de acção que se propaga fazendo sinapse nas células mitrais. A zona onde se faz a articulação da célula olfactiva coma célula mitral chama-se glomérulo olfactivo. A partir daqui vai haver um potencial de acção que percorre a célula mitral, o seu axónio, e isto é que vai constituir o tal nervo olfactivo, as tais estria médias e laterais. A informação que chega a uma célula mitral vai-se propagar porque esta célula contacta com as células ditas glomérulares. As células glomérulares, ao contrário as mitrais que são de carácter excitatório, são inibitórias e que provocam a inibição de outra célula mitral que estivesse ao lado. O que é que isto significa? Que se um estímulo, por esta via, vai provocar uma excitação, provoca a inibição de outra que estivesse ao lado. A consequência fisiológica disto é que, admitindo que existe especificidade de receptores, um determinado cheiro ou determinada molécula actuando neste receptor é capaz de excitar uma via, mas inibir as que estão ao lado. Torna portanto maior o nosso poder de discriminação de odores. Paladar: A mucosa da língua tem um epitélio constituído por camadas de células- epitélio estratificado. Na superfície da língua existem poros, pequenos orifícios, que normalmente estão dispostos nas rugosidades (papilas) da língua. É este orifício de entrada para esta estrutura que constitui o corpúsculo gustativo. Corpúsculo gustativo é um conjunto de células dispostas concentricamente. Estas células têm nos extremos vilosidades e contactam intimamente com fibras nervosas que vão para o sistema nervoso central. Quando temos uma substância que se dissolve na saliva, essa substância é capaz de impulsionar os corpúsculos gustativos, ou melhor, detectores gustativos que estão nas células gustativas. Também aqui estas partículas são capazes de provocar a entrada de cálcio e sódio na célula através de um mecanismo muito semelhante ao que acontecia no olfacto. O que acontece aqui também é que, se as células forem despolarizadas com uma intensidade suficiente dão origem a potenciais de acção no nervo que vão impulsionar o sistema nervoso central. Estas células estão constantemente a ser destruídas e constantemente a ser formadas. Isto é, as células do meio estão constantemente a morrer e a ser substituídas pelas periféricas do epitélio estratificado que se vão diferenciando até adquirirem um aspecto semelhante às do centro. Há uma produção e regeneração frequentes dos receptores gustativos. Temos um nível de produção que é muito grande no recémnascido e que estabiliza por volta dos 16anos e que se vai manter (com algumas variações) até aos 55/60 anos, começa depois a decair. Daí haver uma perda acentuada, cada vez mais rápida, da capacidade gustativa nos indivíduos de idade. As várias fibras nervosas vão sair dos corpúsculos gustativos, vão percorrer nervos, mas todos eles vão terminar numa zona denominada núcleo do feixe solitário, que está na face dorsal do bulbo. Este núcleo foi apresentado aquando do sistema nervoso autónomo porque era uma zona que estava constantemente a receber informação de receptores químicos periféricos, e outros, enviando os seus estímulos para a face ventral do bulbo de onde nascia o tónus para-simpático. Estatisticamente podemos dizer que a parte anterior do núcleo de feixe solitário está mais relacionada com a percepção do gosto e outras informações viscerais e que a parte caudal está mais relacionada com o controlo cardiovascular. A informação depois cruza para o lado oposto, vai ao tálamo. Enquanto que o olfacto terminava no sistema límbico, o gosto vai até ao neocórtex, primeiro para o tálamo e depois para a zona parietal. Na zona parietal vai terminar exactamente nas mesmas zonas onda termina a informação sensorial que vem da cara e da língua, portanto quer informação térmica, quer informação da pressão, do tacto. È mais um ciclo onde existe mistura de informação, uma a nível do tálamo (que recebe também a informação que vem da pressão e da temperatura e recebe também a informação que vem do gosto), e outra a nível do encéfalo, neo-córtex que corresponde à circulação parietal ascendente. A língua tem vários nervos que conduzem esta informação: nervo glossofaríngeo na sua parte média , a córnea do tímpano que corresponde ao terço anterior e para a parte posterior e para a nargofaringe temo o nervo de vago. A verdade é que estes nervos além de conduzirem a informação gustativa, conduzem também informação térmica e de pressão e portanto é mais uma zona de sobreposição. 4 sabores fundamentais: A nossa língua não tem a mesma sensibilidade a todos os sabores. Temos 4 sabores fundamentais: amargo, ácido, salgado e doce. Uma substância para ser ácida precisa de libertar hidrogeniões, para ser salgada precisa de sofrer uma dissociação electrolítica, para ser doce ou amarga tem de ser, geralmente, uma substância orgânica (são substâncias orgânicas quimicamente aparentadas, basta mudar muito pouco uma substância amarga para ela se tornar doce e vice-versa). A ponta da língua é mais sensível ao doce e a sua base ao amargo, a parte dorsal é mais sensível ao salgado e a parte lateral é muito sensível ao ácido. Ou seja, as células da ponta língua são mais sensíveis aos sabores doces, as da base da língua mais sensíveis aos sabores amargos, etc. No entanto também podemos ter células que respondem mais aos sabores doces na zona do amargo. No entanto, estatisticamente, isso é menos provável. Quando aplicamos uma qualquer substância o que acontece é que há uma despolarização local da célula (não propagada) e que portanto corresponde a um potencial receptor. Se atinge um valor suficiente surge um potencial de acção no nervo que está ligado a esse receptor. Quanto maior o potencial maior a frequência de potenciais no nervo, portanto quanto maior a concentração da substância maior o potencial e maior a frequência de estímulos. Estudos de percepção gustativa O que se faz é utilizar como referência algumas substâncias. Por exemplo, uma concentração de 0.1molar de NaCl é uma concentração de referência para o estudo do salgado. Portanto quando queremos estudar a potência relativa de uma substância o que fazemos é comparar uma mesma concentração dessa substância com o NaCl a 0.1molar. É possível com isto ir fazendo escalas de sustâncias que sejam mais ou menos salgadas. E a mesma coisa para os restantes 3 sabores fundamentais. A referência para o ácido é o HCl e para o doce é a glucose. Sistemas de regulação – sistema nervoso e sistema endócrino Nesta cadeira, pretendemos tratar os sistemas de regulação, mais longamente os sistemas rápidos de adaptação ou de regulação – o sistema nervoso. Mas há outro sistema que realiza a adaptação de outra forma – o sistema endócrino. De facto, quanto maior é o sinal, mais frequente é a informação que chega ao sistema nervoso central, o que traduz a modulação por frequência. Todos os sistemas de que temos falado fazem a regulação em termos de modulação por frequência e combinação de sinais, porém o sistema endócrino faz a comunicação de outra maneira. Um sinal fraco liberta pouca hormona, um sinal forte liberta mais hormona e um sinal muito forte liberta ainda mais hormona. Estes dois sistemas são sistemas integrados no seu funcionamento. Por exemplo, em situações de stress em que precisamos de reagir rapidamente, numa primeira fase, que demora segundos, milissegundos, o sistema nervoso começa a actuar e passado algum tempo, estamos a falar de minutos, começa a actuar o sistema endócrino. E esse sistema endócrino vai-nos manter nesse estado de actividade por muito mais tempo, podendo ir de vários minutos a horas. Sistema endócrino – introdução O sistema endócrino inclui o hipotálamo e a hipófise, que no seu conjunto se costumam chamar eixo hipotalamo-hipofisário, que regula todos os outros, por um lado, e por outro lado faz a ligação entre a resposta nervosa e a resposta endócrina. E esta ligação faz-se, fundamentalmente, a nível do hipotálamo. Mas depois temos múltiplos outras glândulas: a tiróide e a paratiróide – a paratiróide regula o metabolismo do cálcio – o timo – relacionado com o sistema imunológico – o pâncreas endócrino – que faz a regulação da glicémia, portanto, da quantidade de glicose no sangue – as glândulas supra-renais – cuja zona externa faz a regulação dos níveis de sódio, de potássio e da quantidade de água, e outra parte, que é extremamente importante na resposta à inflamação, e ainda a parte interna ou medula da suprarenal, que liberta noradrenalina e adrenalina, que são também neurotransmissores, e por isso mais uma ligação entre o sistema nervoso e as glândulas. Também os ovários e os testículos que, na mulher e no homem estão, como calculam, relacionados com a reprodução, são glândulas. Em primeiro lugar é preciso definir o que é uma hormona e uma glândula endócrina. Costuma definir-se hormona como o produto de secreção de uma glândula endócrina. E nós temos múltiplas glândulas – qualquer conjunto de células organizadas que segreguem uma substância pode ser considerado uma glândula. A glândula pode ser um órgão que tenha um tubo e drene o seu produto para o exterior, muitas vezes para uma cavidade. Por exemplo, temos glândulas no estômago que segregam o seu produto através de tubos, para o estômago, ou o pâncreas, através de canais, para o duodeno, temos o fígado a drenar bílis por tubos para a vesícula. Portanto, temos uma multiplicidade de glândulas cujo produto é drenado por um tubo para uma cavidade. A essas podemos chamar glândulas exócrinas. Depois temos outras glândulas, que não têm tubos e lançam o seu produto de secreção directamente para o sangue. E uma glândula que lance o seu produto directamente para o sangue, de modo a exercer a sua acção à distância é uma glândula endócrina. Hoje vamos olhar principalmente para o eixo hipotalamo-hipofisário, e estas são glândulas em que o produto de secreção passa para o sangue e é depois distribuído por ele através de todo o organismo. Além destas, existem outras glândulas, outros conjuntos de células em que o produto de secreção actua em órgãos muito próximos. Por exemplo, o corpo carotídeo – estrutura em que se detecta a falta de oxigénio no sangue – é um conjunto de células que produzem substâncias que actuam em nervos que estão muito perto. Podemos dizer que esse conjunto de células que produzem uma substância que vai actuar num órgão ou num conjunto de fibras que estão perto, chama-se uma glândula parácrina (perto de). Ainda se poderia definir outro conjunto de células ou de moléculas que produzem substâncias que actuam nelas mesmas. Há vários exemplos e essas células são chamadas glândulas autócrinas. Portanto, podemos ter glândulas exócrinas, endócrinas, parácrinas e autócrinas, conforme haja uma drenagem para um canal e para uma cavidade, conforme haja drenagem para o sangue e acção à distância, conforme haja drenagem para o sangue e para um órgão próximo, ou actuando no próprio órgão. Muitas das glândulas são um misto de várias e portanto esta separação é um pouco artificial. O sistema endócrino tem grandes mecanismos de actuação, tem determinadas acções, mas muito da sua fisiologia confunde-se com uma bioquímica fisiológica – os mecanismos, as vias pelas quais são produzidas as hormonas. Portanto, vou procurar depurar o que é essencial saber-se acerca do sistema endócrino como sistema de regulação. A primeiras questões são: - que glândulas endócrinas existem - o que é uma glândula endócrina e uma hormona - qual é a diferença entre o mecanismo de actuação, como adaptador, entre o sistema nervoso e o sistema endócrino. Uma hormona é uma substância que é segregada para o sangue e que influencia órgãos específicos, à distância. Há toda uma separação entre as várias definições. Neurotransmissor era do que falávamos fundamentalmente no sistema nervoso, produzido pelos neurónios, segregado para o espaço intersticial, percorrendo distâncias curtas e influenciando neurónios pós-sinápticos. No entanto, várias substâncias produzidas não actuam como neurotransmissores mas modificam a sua acção: os neuromoduladores. Aparece aqui algo que está “no meio”, uma substância produzida pelos neurónios que funciona como uma hormona. Na realidade, pela definição, não se trata de uma hormona, mas há quem a classifique como neurormona – vão encontrar também este tipo de classificação. E há finalmente as feromonas. A feromona é segregada para o ambiente e modifica a fisiologia e o comportamento de outros indivíduos. Já falámos disso quando falámos de olfacto e de sistema límbico e comportamento sexual. Se quisessem arranjar classificações químicas para as hormonas – tentou-se! – encontrariam muita coisa. Podemos encontrar hormonas que cabem dentro de qualquer destas categorias: proteínas, glicoproteínas e polipéptidos, e isto é o conjunto da maior parte das hormonas de que nós, durante este tempo, vamos falar. Interessa-me realmente que, para cada uma das hormonas, independentemente das categorias que existem, vocês saibam qual é a sua acção fisiológica e quais são os mecanismos pelos quais são controladas. E portanto, a propósito de cada glândula, o que me vai interessar é como é controlada a sua secreção, quais são as hormonas produzidas, onde é que actuam e que acções têm. No entanto, há princípios gerais da actuação das hormonas que, esses sim, interessam saber, porque são mecanismos fisiológicos, mecanismos de retroalimentação positiva ou negativa, que são modelos de actuação relativamente a uma série de estruturas e relativamente a uma série de sistemas fisiológicos. Por exemplo, no ovário, antes da ovulação, produzem-se estrogénios, que são directamente drenados para o sangue e vão actuar à distância, obviamente hormonas, que fazem com que o ovário possa ser designado por uma glândula endócrina. Ora estes estrogénios vão actuar a nível do hipotálamo e da hipófise – é este conjunto hipotálamo-hipófise que vamos ver hoje – e tem um efeito: aumenta a produção de uma hormona, no hipotálamo, que é capaz de aumentar a produção de uma hormona produzida pela hipófise. Vão ver que no hipotálamo, muitas das hormonas são designadas por releasing hormones, porque são hormonas cuja principal acção é provocar a libertação de hormonas por outros órgãos. E a hipófise tem hormonas que, quando entram em circulação no sangue, vão actuar no conjunto de glândulas endócrinas que vimos. Portanto, o sistema aqui é: um estrogénio aumenta a libertação de uma hormona de libertação (ou releasing hormone); esta, chamada hormona de libertação da gonadotropina, faz libertar gonadotropina na adeno-hipófise, e faz libertar também hormona luteinizante (LH). Esta hormona actua no ovário aumentando a produção de estrogénios. Portanto, os estrogénios, ao entrarem no hipotálamo, provocam a libertação de uma hormona da hipófise que vai aumentar ainda mais a libertação de estrogénios. É por isso que este é um sistema de retro-alimentação positiva, ou seja, a libertação de estrogénio vai provocando libertação de cada vez mais estrogénio. A certa altura, essa libertação de estrogénio, ou essa grande acção da hormona luteinizante, provoca a ovulação – o óvulo sai e há umas evoluções que fazem com que o tecido do ovário comece a produzir quantidades maiores de progesterona – a progesterona é outra hormona produzida pelos ovários. Esta entra em circulação e provoca a diminuição da hormona de libertação da gonadotropina, e então dá-se uma diminuição da produção da hormona luteinizante, e uma consequente diminuição da produção de estrogénios no ovário. Assim, antes da ovulação há um sistema de feedback positivo, depois da ovulação há um sistema de feedback negativo. A maior parte das glândulas tem este tipo de controlo, no eixo hipotálamo-hipofisário através de feedback’s negativos ou feedback’s positivos. Isto é quase uma constante, como vamos ver, na regulação das hormonas. Distribuição temporal das hormonas Outro aspecto mais ou menos constante é que um curso temporal de produção de hormonas que se encaixa num destes três tipos: - Existe uma tentativa do organismo de manter uma concentração mais ou menos constante da hormona. Por exemplo, as hormonas que controlam a glicémia, produzidas pelo pâncreas endócrino, o glucagon e a insulina, mantêm, com pequenas oscilações, níveis constantes. Numa situação em que o organismo tenta manter constantes os níveis de uma hormona, trata-se de um controlo ou de uma distribuição temporal crónica, portanto, ao longo do tempo. - Mas há outras hormonas que têm outro tipo de controlo – quando, como resposta a um estímulo se verifica um aumento da hormona, que volta ao normal passado algum tempo, podem ser minutos ou horas. Por exemplo, numa reacção de stress, a produção de adrenalina aumenta e começa depois a diminuir. Não estamos sempre a produzir grandes quantidades de adrenalina, mantemos um certo nível e respondemos a estímulos. Ou seja, na realidade o que nós temos é, em cima de uma manutenção crónica de determinados níveis, estímulos e respostas a estímulos. Isto é verdade para a adrenalina e noradrenalina, mas para aquele exemplo da glicémia também é também verdade. Por outras palavras, eu tento manter níveis constantes de glicémia, logo, níveis constantes de insulina, mas se eu fizer uma carga glicémica comendo uma série de bolos com muito açúcar, estou a provocar um estímulo que, em cima desta manutenção crónica, me vai provocar um grande aumento da insulina, o que me vai fazer baixar a glicémia, regressando aos níveis normais. - Finalmente, o terceiro tipo de distribuição: na ausência de qualquer estímulo, podem haver variações regulares e cíclicas ao longo do dia. Isto acontece com várias hormonas. Portanto, podemos dizer que a produção de uma hormona tem uma manutenção crónica, uma resposta a picos ou uma distribuição diurna. Na realidade, a maior parte das hormonas combina estes três tipos de distribuição temporal. A aldosterona, que regula as concentrações de sódio e a osmolaridade, tem uma distribuição relativamente constante, e apesar disso há flutuações ao longo do dia, em períodos mais ou menos constantes. E se em cima disso se fizesse uma carga, dando grandes quantidades de sódio ao indivíduo, a hormona era capaz de responder. Portanto, misturando estes três conceitos, mais ou menos importantes para cada uma das hormonas, é possível de fazer uma descrição do tipo de modelo em que esta hormona se distribui. É interessante, e eu julgo que, falando num curso de engenharia biomédica, nós podemos criar sistemas de infusão de hormonas. Existem mecanismos ou sistemas para produção de hormonas – há sistemas biológicos de implatação de tecidos produtores de hormonas, há injecções para um indivíduo diabético insulinodependente auto-administrar-se – mas o sistema ideal seria o sistema em que pudéssemos combinar, na administração das hormonas, estes três mecanismos. Como é que podemos fazer isto? A verdade é que se nós tivéssemos um sistema que nos permitisse, a partir de um reservatório, injectar esta substância e conseguíssemos fazer uma descrição deste modelo, ou da combinação deste modelo, seria obviamente mais fácil fazer uma imitação daquilo que se passa no animal ou na pessoa inteira. Agora, como é que se faz uma descrição dum modelo destes? Há várias hipóteses para fazer uma abordagem desse tipo. Eu julgo que, se algum de vocês se lembra de ter falado das análises no domínio da frequência, se olharmos para a distribuição dos níveis hormonais de várias hormonas – e isto não está feito, é assunto de investigação – ao longo de um dia, ou de um conjunto de dias, naturalmente que não vamos encontrar nada destas ondas puras. Vamos provavelmente encontrar uma mistura. Mas se admitirmos que existem variações das hormonas, e se simplificarmos isto dizendo que cada uma destas são ritmos que se sobrepõem ou que se fundem num ritmo final, e se usássemos por exemplo um tipo de análise com decomposição pelas transformadas rápidas de Fourier, não sei se não seria possível encontrar, a partir de um nível diário de distribuição das hormonas, estas três ou mais ondas fundamentais. E, se não for possível controlar de uma forma programada o ritmo final, se calhar é possível controlar separadamente estes três ritmos que, fundidos, podem dar o ritmo final. Isto apenas como um dos problemas que existem na administração suplementar de hormonas. Princípios gerais de actuação das hormonas As hormonas estão permanentemente a ser formadas e postas em circulação. E, se são postas em circulação, vão atravessar os capilares para o espaço intersticial, onde estão as células. Ora, aí não estão apenas as células nas quais as hormonas vão actuar. Por exemplo, há hormonas na hipófise que chegam ao ovário e promovem a secreção de estrogénios. É claro que eles passam para o espaço intersticial não só nos ovários, mas também em muitos outros órgãos. Então o que é que faz com que eles actue nos ovários? Fundamentalmente, o que determina a especificidade da actuação de uma hormona não é a sua distribuição espacial, já vimos que ela se distribui entrando em circulação, por todo o organismo, mas o facto de numa determinada zona encontrar células que têm receptores de membrana ou receptores intracelulares próprios para essa hormona. Portanto, a especificidade de uma hormona tem a ver, não só com a sua estrutura química, mas principalmente com a presença de receptores nas células onde ela fisiologicamente deve actuar. Naturalmente, quando a concentração de hormona é muito grande, pode actuar num número maior de células e ocupar muitos mais receptores do que se estiver em menor concentração, situação em que a sua capacidade de ocupar receptores está diminuída. E é por isso que se trata de uma resposta modulada em amplitude – quanto maior for a quantidade de hormona que se ponha em circulação, maior o número de receptores que vão ser ocupados na célula-alvo, até ao limite em que todos os receptores das células-alvo estejam ocupados. Então, – e isto é o princípio geral da actuação das hormonas – de que é que depende a vida, ou o tempo que uma hormona vai actuar no nosso organismo? A hormona pode ser eliminada pelo rim (pela urina), pode ser eliminada pela bílis, no fígado, portanto, excretada, pode ser metabolizada no rim, no pulmão, em vários órgãos, inclusivamente nos órgãos-alvo. Se o metabolismo é muito rápido, a eliminação da hormona é muito rápida, senão é mais lenta. Algumas hormonas são transportadas activamente para o interior das células e podem ser re-captadas pelas próprias células que as produziram e reutilizadas como hormonas, outras sofrem alterações químicas fundamentalmente a nível do fígado, que faz a sua conjugação com o ácido glutrónico (?) dando origem a metabolitos com muito menos actividade. A excreção, metabolismo, transporte activo e conjugação são os factores que determinam a semi-vida, o tempo de duração de um fármaco que seja injectado por via externa. E portanto, ao injectamos uma substância, um antibiótico, qualquer coisa, muito da sua acção é limitada pelas transformações que ela sofre a nível do fígado. Mas se isto são os mecanismos que limitam a sobrevida, há outros mecanismos que prolongam a vida das hormonas. Algumas hormonas são transportadas, não livres no plasma, mas ligadas a proteínas do plasma, e estas são normalmente mais difíceis de eliminar. Outras são protegidas da acção de enzimas do fígado pela sua própria estrutura. Portanto, reparem que quer pelas características químicas da hormona quer pela sua capacidade de ligação a proteínas do plasma, a hormona pode ter maior ou menor capacidade de eliminação. Mas em resumo, quer aumentando ou limitando a excreção, metabolismo, transporte activo ou conjugação, uma substância pode aumentar ou diminuir o seu tempo de sobrevida. E há maneiras de juntar a uma substância, normalmente não é utilizado em hormonas, mas é possível, na preparação de uma substância, modificá-la de maneira a protegê-la, por exemplo, da conjugação. Isto é verdade em relação a hormonas, e é verdade em relação a intermediários químicos. Por exemplo, a adenosina é uma substância utilizada por vários nervos como transmissor, é rapidamente destruída, mas se lhe juntarmos um grupo metil, criamos a β-metil-adenosina, que por e simplesmente não é metabolizada, fixa-se irreversivelmente aos receptores. E portanto, mexendo na estrutura química da substância, podemos aumentar ou diminuir a sua sobrevida. Já vimos os mecanismos gerais pelos quais é regulada a produção de uma hormona, o mecanismo pelo qual a sua vida é aumentada ou diminuida, vamos ver agora os mecanismos gerais pelos quais ela provoca a sua acção. A acção de uma hormona depende dos receptores que existem na célulaalvo, isto é, é preciso que a hormona se ligue a um receptor. Portanto, poderíamos pensar que quanto maior o número de receptores, maior a acção da hormona, para uma determinada quantidade, o que é verdade. Só que este número de receptores não é, no nosso organismo, felizmente, uma entidade estática. O número de receptores por célula é uma entidade dinâmica. Os receptores podem interiorizar-se ou exteriorizar-se para a membrana. São proteínas, a maior parte deles, que podem ser sintetizadas em maior ou menor quantidade. A tal hormona libertadora da gonadotropina, quando se junta a uma célula, vai provocar uma interiorização dos receptores. E portanto, a segunda dose que chegar aos ovários, desta hormona, vai encontrar um número menor de receptores. Esta regulação do número de receptores em que o seu agente estimulador provoca uma diminuição do número de receptores chama-se regulação por défice ou down regulation. E existe o contrário: outras hormonas regulam os seus receptores com uma up regulation. Por exemplo, se chegar uma pequena quantidade de hormona luteinizante a uma célula, passado algum tempo, o número de receptores desta célula para a hormona está muito aumentado. Depois de se ligar ao receptor, o que é que pode fazer uma hormona? Bom, vou tentar sistematizar esta parte, porque para cada hormona podíamos descrever o mecanismo próprio de actuação nos receptores. Vou tentar ligar isto àquilo que vocês estudaram no ano passado sobre receptores de membrana. Uma hormona, da mesma maneira que um neurotransmissor, pode actuar de várias maneiras. Pode ligar-se a um receptor e imediatamente este conjunto estar ligado ou fazer parte de um canal de membrana: quando se liga ao receptor, abre o canal de membrana. Isto é uma acção directa da hormona num receptor de membrana. Mas a hormona também pode, em vez de estar directamente ligada a um canal, activar a parte interna da proteína que constitui o receptor de maneira, por exemplo, a ter uma acção enzimática, transformar ATP em ADP, libertando energia que pode abrir o canal. Isto é a maneira mais simples de uma hormona actuar: ou actuar num receptor que está ligado a um canal de membrana, ou que faz uma fosforilação que abre o canal de membrana. Porém, a maior parte das hormonas liga-se a um receptor de membrana, que está acoplado, por unidades laterais, a uma proteína – normalmente uma proteína que cabe na designação de proteína G, e esta proteína G é capaz de provocar, quando activada, a abertura directa de um canal de cálcio. Por exemplo, esta hormona, cujo objectivo é favorecer a contracção do músculo liso. O músculo liso, para se contrair, precisa de cálcio ligado a calglobulina. Então, a hormona liga-se ao receptor, esta proteína activa um canal de cálcio, o canal de cálcio abre e entra cálcio, o cálcio une-se à calglobulina e temos a calglobulina activa para provocar a contracção do músculo. Finalmente, estes dois mecanismos – acção directa ou através de uma proteína G – dizem respeito a hormonas que actuam em receptores de membranas. Terceiro e último tipo de actuação: a hormona é uma hormona lipossolúvel, atravessa a membrana celular, entra no núcleo, une-se ao receptor que está dentro do núcleo e que interfere na síntese de RNA mensageiro, que sai para o exterior e vai obviamente participar na síntese de uma proteína é essa proteína que está envolvida na resposta celular. Portanto, em resumo, um receptor pode estar na membrana, ou pode estar dentro da célula. A hormona actua ou na membrana, ou dentro da célula. Os receptores de membrana podem ser directos – aqueles que estão ligados directamente a um canal, ou o activam directamente - ou actuar através de uma proteína G – a proteína G pode activar o canal ou pode dar origem, e aí há variações, a uma cascata de acontecimentos, por exemplo, a transformação de ATP em AMP cíclico e portanto a criação de um segundo mensageiro que actua dentro da célula. É claro que a eficácia e, se quiserem, a velocidade com que a hormona actua vai depender muito disto. Reparem que uma hormona que se liga a um receptor que abre um canal tem uma actuação muito mais rápida do que uma hormona que tem de atravessar a célula, ligar-se a um receptor que altera a síntese de RNA mensageiro que depois vai provocar a síntese proteica e a resposta celular só aparece, neste caso, quando há síntese proteica. Entre os dois casos, têm o de uma hormona que se liga a um receptor de membrana que activa uma proteína G que provoca AMP cíclico e o AMP cíclico entra na célula e actua como segundo mensageiro, que dá origem a uma série de reacções que provocam a resposta. Se ligarem isto a uma aula que nós demos sobre a memória, podemos dizer que um estímulo é capaz de actuar no nosso organismo através do sistema endócrino, provocando alterações de memória das células, ou seja, uma substância, ou toda esta cascata que vá actuar novamente, vai encontrar uma célula, se actuar nas seguintes 6 ou 7 horas, diferente do que era anteriormente, e que aprendeu com determinado estímulo. Portanto, a memória, no sentido lato, é algo que nós não devemos usar só para o sistema nervoso ou para o organismo todo, podemos usar também para o sistema endócrino com particularidades, e obviamente, para o sistema imunitário. Portanto, em resumo, estes são os princípios gerais de acção de uma hormona: - o que é uma hormona - a actuação a nível de receptores - como é que os receptores actuam a nível da membrana ou a nível intracelular - como é que é prolongada ou não a semi-vida - como é que se podem descrever os ritmos temporais de produção de hormonas Isto é o fundamental do esquema geral das hormonas que eu gostava que vocês retivessem. Isto aqui é o cerebelo, isto aqui é córtex, isto é o corpo caloso, isto é o bulbo e aqui a medula (acetatos...). Portanto, tudo isto são estruturas que vocês, durante estas semanas, têm ouvido falar frequentemente. E entre elas, a propósito do controlo das emoções, falei muito do hipotálamo. O hipotálamo é tecido nervoso que foi dado como uma parte importantíssima do sistema nervoso e da relação das emoções com o sistema nervoso autónomo. Mas o hipotálamo, além de ter esta relação com o sistema nervoso, tem outra relação importante com a hipófise. A hipófise é uma glândula de secreção interna que está muito perto do hipotálamo. Na hipófise distinguem-se várias partes: tem uma parte anterior (adeno-hipófise) e uma parte mais posterior, chamada parte nervosa da hipófise ou neuro-hipófise. Esta adeno-hipófise tem várias partes também, tem uma em relação ao hipotálamo, tem a parte tuboralis, que faz um tubo à volta da neuro-hipófise, a parte inermédia, e a parte mais distal em relação ao hipotálamo a que se chama distalis. Esta parte é uma glândula tipicamente endócrina. É aqui que se produzem neurohormonas. É um órgão (neuro-hipófise), se quiserem, neuro-humoral. E é neuro-humoral porquê? Reparem no que acontece: os produtos que estão na neuro-hipófise não são lá produzidos, são produzidos em neurónios que estão fora da hipófise, neurónios hipotalâmicos, que se prolongam até à adeno-hipófise. E portanto, os produtos não são segregados na hipófise, são segregados nas próprias células nervosas, migram e vão-se acumulando nas terminações nervosas. E quando há um estímulo qualquer, o potencial eléctrico faz libertar, a este nível, as tais substâncias. Portanto, esta é a porção neuro-humoral ou a neuro-hipófise. A nível da parte anterior ou da adeno-hipófise, as coisas são ligeiramente diferentes. A este nível há células que vêm do hipotálamo e que são capazes de libertar substâncias, que provocam a estimulação de células que são elas, aqui, capazes de provocar secreção. Ou seja, suponham que têm aqui uma célula que produz determinadas substâncias e as acumula. Estas acumulações e estas substâncias são as hormonas da adeno-hipófise. Como é que é regulada uma hormona da adeno-hipófise? É regulada da seguinte maneira: o hipotálamo deita para a circulação (uma circulação especial de que já lhes vou falar) algumas substâncias – factores de libertação ou de inibição – que atingem as células da adeno-hipófise e informam aquelas células que devem deitar fora o seu produto para o sangue. A regulação é completamente diferente na neuro-hipófise, em que a comunicação é directa e a acumulação é de substâncias produzidas no hipotálamo, enquanto aqui há uma produção de hormonas pela própria adeno-hipófise e o que o hipotálamo faz é, através de factores de libertação, regular a libertação das hormonas hipofisárias. A circulação entre o hipotálamo e a hipófise é uma circulação muito particular. Normalmente, as artérias vão-se ramificando, e depois dão origem a uma rede de capilares. Estes capilares fazem trocas com o espaço intersticial e depois vão-se reunir em veias. Portanto, entre uma artéria e uma veia existe um sistema de capilares. Ou, dito de outra maneira, normalmente, o sistema de capilares que vocês encontram está sempre entre uma artéria e uma veia. Isto é a regra geral. No entanto, a nível do hipotálamo acontece uma coisa interessante: vocês têm uma artéria, a artéria ramifica-se em capilares e estes capilares juntam-se novamente numa artéria – não há praticamente trocas sanguíneas aqui. Existe portanto um sistema-porta hipotálamo-hipofisário e chama-se sistema porta sempre que uma rede de capilares não estiver entre uma artéria e uma veia. Quando um sistema de capilares está entre duas artérias, deve-se chamar um sistema capilar porta. Ou, se estiver entre duas veias, como é o caso do fígado, deve chamar-se também sistema porta. Vocês têm aqui uma série de células nervosas, que a certa altura vão produzir uma neuro-secreção – factor de libertação ou releasing hormone – que entra em circulação mas vai imediatamente ter à hipófise e vai informar as células que devem libertar as suas hormonas para a circulação. Resumindo, na neuro-hipófise temos ligação directa nervosa, produção das hormonas nos nervos e apenas acumulação na hipófise, as ordens nervosas provocam directamente a libertação das neuro-hormonas, enquanto na adeno-hipófise temos a produção de hormonas hipofisárias e a função do hipotálamo é, através de factores de libertação, provocar o aumento e a libertação dessas hormonas hipofisárias. Como é que elas fazem? Fazendo entrar os seus produtos ou factores de libertação em circulação num sistema porta hipotálamo-hipofisário. Isto é a típica actuação da neuro-hipófise, ou seja, estímulos que vêm do sistema nervoso, actuam em núcleos hipotalâmicos, há um feixe nervoso entre o hipotálamo e a hipófise que chega à neuro-hipófise e estes estímulos eléctricos, aumentando a frequência de potenciais, naturalmente vão aumentar a libertação de substâncias que entram em circulação. Estas substâncias que entram em circulação vão actuar no órgão-alvo e provocar lá o seu efeito. O sistema é completamente diferente a nível da adeno-hipófise. Vocês têm estímulos do sistema nervoso, que actuam por exemplo em células do hipotálamo, estas células do hipotálamo libertam hormonas – releasing hormones – que entram em circulação no eixo hipotálamohipofisário, atingem a adeno-hipófise e são as células da adeno-hipófise que vão depois libertar as hormonas que vão actuar ou no tecido-alvo – é o caso da hormona do crescimento – ou, outras hormonas da adeno-hipófise, muitas delas, vão actuar noutras glândulas para provocar a secreção de outras hormonas. É, por exemplo, o caso de actuação da hormona tiroideia. Na produção da hormona tiroideia há um mecanismo em que é libertado um factor de libertação da hormona hipotalâmico, que provoca a libertação de uma hormona na hipófise e esta hormona vai actuar na tiróide que depois vai produzir a hormona que vai actuar nos tecidos-alvo. Hormonas hipofisárias Há umas que são neuro-hormonas, e há outras que são hormonas da adeno-hipófise. As hormonas da adeno-hipófise são aquelas cuja libertação é regulada pelo hipotálamo e que podem actuar directamente nos órgãos-alvo ou actuar fazendo a libertação de hormonas de outras glândulas. Como neuro-hormonas, ou hormonas da neuro-hipófise, ou hormonas do lobo esquerdo da hipófise, existem fundamentalmente duas hormonas: a hormona anti-diurética (ADH) e a ocitocina. Quimicamente, ambas são péptidos pequenos. A ADH tem como alvo o rim, enquanto a ocitocina tem como órgão-alvo o útero e a glândulas mamárias. A hormona anti-diurética, como o nome indica, tem uma acção anti-diurética, ou seja, impede a formação de urina. E impede a formação de urina actuando no rim, aumentando a reabsorção de água. Ora se aumenta a reabsorção, há menor quantidade de líquido a sair pelo túbulo renal, a ser armazenado na bexiga e finalmente a ser urinado. Há várias situações em que a hormona antidiurética é posta em acção, por exemplo, se aumentar a osmolaridade do sangue, existem indicações, a nível do hipotálamo, para a produção de hormona anti-diurética. E portanto, há uma reabsorção de água e diminui a osmolaridade. E há ainda outras situações de relevo, por exemplo, o álcool tem uma acção inibitória sobre a ADH. Assim, é natural que a ingestão de álcool provoque uma diurese, que não em só a ver com o volume de álcool bebido, mas também com a inibição da ADH. Há pessoas que têm receptores extremamente sensíveis para a ADH e para a acção do órgão de acordo com a ADH, e em quem beber uma cerveja provoca uma diurese que nada tem a ver com o volume da cerveja bebida. Depois há a ocitocina, que tem várias acções. Uma, na mulher que amamenta, provoca o aumento da expulsão do leite pelas glândulas mamárias e provoca também um aumento das contracções uterinas em várias circunstâncias. Estas são as duas hormonas da neuro-hipófise. Há várias hormonas na adeno-hipófise: umas actuam directamente nos órgãos-alvo, outras actuam noutras glândulas. No órgão-alvo actua a hormona do crescimento, também chamada somatotrofina. A somatotrofina é produzida por indução de uma substância produzida no hipotálamo e actua na maior parte dos tecidos do corpo humano, provocando várias alterações metabólicas, das quais as mais importantes são o aumento da captação de aminoácidos e síntese proteica, o que, como calculam, é extremamente importante para o crescimento. Além disso, esta hormona tem também importância no aumento das reservas de glicogénio e no metabolismo lipídico na libertação dos ácidos gordos. Estes três processos: síntese proteica, acumulação de glicogénio e libertação de ácidos gordos são fundamentais durante o crescimento. Assim, é natural que um indivíduo que tenha diminuições na hormona do crescimento, e há várias situações patológicas em que isso acontece, tenha um crescimento retardado ou mesmo insuficiente. Da mesma maneira que indivíduos que tenham gigantismo, são indivíduos que têm tumores na hipófise numa fase precoce da sua vida e têm uma grande produção da hormona do crescimento e, consequentemente, um enorme crescimento. Num adulto, um tumor desse género não provoca mais crescimento, mas apesar disso vai sofrer alterações, principalmente nas zonas que podem ser modificadas, como são a cara e as mãos, que aumentam de tamanho – a cara torna-se prolongada (acromegalia). Mas o aumento desta hormona provoca o aumento de outras hormonas que causam outras anomalias importantes. Outras hormonas actuam, não directamente, mas através de outras glândulas. Por exemplo, a hormona tideoestimulante ou tirotrofina, actua, como o nome diz, na tiróide, provocando o aumento de secreção da hormona tiroideia. Mais uma vez, temos um estímulo qualquer a actuar a nível do hipotálamo, a fazê-lo libertar uma releasing hormone que actua na hipófise e neste caso, a hipófise vai libertar uma hormona estimuladora da produção de hormona tiroideia. A resposta é, obviamente, um aumento da produção de hormona tiroideia, que vai actuar em diversos órgãos-alvo. Outro exemplo é a hormona adenocortictrófica ou ACTH ou adrenocorticotrofina. É mais um caso em que uma hormona da adeno-hipófise vai actuar noutra glândula, no córtex supra-renal, aumentando a produção de glucocorticóides. Os glucocorticóides, como vamos ver, são substâncias produzidas numa das camadas do córtex suprar-renal que têm uma relação íntima com a resposta inflamatória. Há mais substâncias que actuam noutros órgãos, a hormona luteinizante (LH) que actua nos ovários – nas mulheres – e nos testículos – nos homens – e que provoca a ovulação e produção de progesterona, e síntese de testosterona e é fundamental na produção de células espermáticas nos testículos. A hormona folículoestimulante é uma substância que actua também no homem e na mulher, na mulher actua nos folículos ováricos, no homem actua nos tubos seminíferos e tem a ver com a maturação dos folículos e com a produção de espermatozóides. Quer a LH, quer a FSH são fundamentais para a maturação sexual e para a vida sexual. Portanto, não é de estranhar que deficiências a nível da hipófise – que está a produzir as substâncias necessárias para a estimulação dos ovários e dos testículos – se traduzam também por perturbações muito importantes da maturação e da vida sexual. Depois há a prolactina, que actua nos ovários e nas glândulas mamárias (na mulher) e que tem a ver, fundamentalmente, com a produção de leite. Portanto, vimos hormonas que actuam directamente – a hormona do crescimento – , hormonas que actuam noutras glândulas – a TSH na tiróide, a ACTH no córtex supra-renal, a LH e a FSH nos ovários e nos testículos. Além disto, existem outras, de descoberta mais recente, as lipotrofinas, que também são produzidas na adeno-hipófise, e que actuam no tecido adiposo, sendo muito importantes na degradação da gordura. Alterações das lipotrofinas podem ter a ver com alguns tipos de adiposidades. Há também as β-endorfinas, que têm várias acções. As endorfinas foram também por nós faladas, quando falámos de centros de recompensa e de centros de castigo. As endorfinas têm a capacidade, conjuntamente, de diminuir a percepção da dor e aumentar o prazer. E existe também a produção de endorfinas ou de substâncias relacionadas, as β-endorfinas, na adeno-hipófise. Têm uma acção fundamentalmente de analgesia mas são também capazes de impedir a secreção da hormona libertadora da gonadotrofina. Queria deter-me um pouco mais na hormona do crescimento, porque esta hormona é a que tem uma actuação directa nos órgãos-alvo e a nível dos órgãos-alvo aumenta a síntese proteica, o crescimento dos tecidos, a degradação de gordura e poupa a utilização de glicose armazenando-a em glicogénio. Ela é regulada através do hipotálamo por dois factores diferentes: um factor estimulador e um factor inibidor. No hipotálamo encontram-se tanto uma hormona libertadora da hormona do crescimento como uma hormona inibidora da hormona do crescimento. E é do balanço que existe, a nível do hipotálamo, entre estas duas, que resulta a informação para a produção de hormona do crescimento. Por outro lado, como eu vos disse, há hormonas que actuam com feedback positico e outras com feedback negativo. A verdade é que níveis muito altos de hormona do crescimento vão inibir a produção da hormona libertadora para a produção da hormona do crescimento. Em resumo, temos como sistemas, sempre na produção de hormonas e como regra geral, o hipotálamo a provocar um factor de libertação ou uma releasing hormone, esta releasing hormone a actuar na hipófise, que por sua vez produz uma hormona de estimulação que actua numa segunda glândula – tiróide, supra-renal, ovários, testículos – para produzir uma hormona que actua no órgão-alvo. Normalmente, cada ciclo está sujeito a um feedback. Esta hormona, libertada pela hipófise, é normalmente capaz de actuar, inibindo, a nível do hipotálamo, a produção de mais factor de libertação. A hormona produzida pela segunda glândula é também capaz de impedir a formação da hormona de estimulação da hipófise. A própria hormona, neste caso a da tiróide, que é capaz de inibir a hipófise para impedir que produza tanta hormona de libertação, é capaz de actuar também a nível do hipotálamo. Ou seja, quando há muita hormona tiroideia, esta tem um feedback negativo sobre a hipófise, impedindo esta hormona estimulante da hipófise, mas é capaz também de actuar a nível do hipotálamo. E portanto, impedir o factor de libertação relacionado com a hormona tiroideia. Impede, assim, que o hipotálamo estimule a hipófise para estimular a tiroideia. Quando há baixa da hormona tiroideia estes circuitos desaparecem e há um aumento da produção deste factor para a hormona tiroideia. E em geral, é nestes circuitos que nós vamos mantendo os vários níveis de produção. Este é um caso diferente (hormona do crescimento), por isso o enfatizei. Porque aqui, o próprio órgão-alvo, quando a hipófise tem ela mesma um órgão-alvo que não é outra glândula, tudo se passa entre a hipófise e o hipotálamo. Ou seja, nestes casos não existe capacidade do órgão-alvo de actuar na hipófise. O que acontece é que, quando existe muita hormona do crescimento, esta é capaz de impedir a libertação do factor de libertação da hormona do crescimento. Neste caso, o loop está fechado entre a hipófise e o hipotálamo. Mas como esse loop muitas vezes não é eficaz, existe acessoriamente um segundo factor que vem do hipotálamo, que, além do factor libertador – que existe para as outras glândulas – no caso da hormona do crescimento, existe também uma hormona inibidora. Esta funciona como um estabilizador, mantendo os níveis praticamente constantes, em cima dos quais se dão as oscilações provocadas pelo circuito de feedback (entre a hormona do crescimento e a sua correspondente releasing hormone). - FIM - Última Aula Hormonas Tiroideias e Paratiroideias Tiróide É uma glândula situada à frente da traqueia formada por dois lóbulos e um Istmo no meio. No inetrior encontram-se estruturas formadas por diversas células que constituem pequenas ilhas. Dentro destas ilhas encontra-se a Hormana que é segregada pela Tiróde para a corrente sanguínea. Atrás da Tiróide No bordo posterior da Tiróide encontram-se glândulas, Paratiroideias, que segregam outras Hormonas ( Algumas responsáveis pela regulação do metabolismo do Cálcio) –Paratiroideia -. Hormonas segregadas pela Tiróide Ø Produzidas nos Folículos ( Hormonas tiroideias ) – triiodotironina - tetraiodotironina -tiroglobulina Ø Fora dos folículos – células parafolículares ( Hormonas parafoliculares ) - calcitonina Hormona paratiroideia É muito importante, não só no desenvolvimento corrente, mas também em todos os processos que dependem das actividades metabólicas. Todas as células, são “orgãos Alvo”, e muitos eles têm receptores ás Hormonas tiroideiras. Estas quando recebem estas hormonas, aumentam a actividade metabólica. Estas Hormonas vão ser responsáveis pela produção do calor e também no desenvolvimento dos tecidos ( e por todos osoutros processos que dependem da actividade metabólica). Um indivíduo sem essa Hormona, Hipotiroideio, é um indivíduo que produz pouco calor e enorme diminuição no metabolismo. Conclui-se então que as Hormonas tiroideiras são responsáveis pelo metabolismo e produção de calor. Nas células parafoliculares É produzida a Hormona calcitonina. Os nossos ossos estão constantemente a serem construídos e a serem destruídos no nosso organismo. A calcitonina é responsável pelo impedimento da destruição reduzindo a quantidade de cálcio no sangue. OU SEJA, Quando o osso vai ser destruído liberta-se cálcio para o sangue. No entanto estes níveis de cálcio têm de ser regulados com muita atenção. Um excesso de cálcio no sangue pode provocar contracções no músculo involutárias e até paragens cardíacas. É da responsabilidade da calcitonina regular os níveis de cálcio, impedir que mais cálcio entre para a circulação. Por outro lado a Hormona paratiroideia é responsável pela destruição dos ossos, ou seja, aumenta a quantidade de cálcio no sangue em vários pontos: Ø Actuando nos rins, fazendo com que o cálcio não seja eliminado mas sim reabsorvido. Ø Actuando no intestino ( já que também precisamos de ingerir alimentos com cálcio que só são absorvidos com Vitamina D que liga-se ao cálcio ) . Aumenta a síntese de vitamina D para que seja mais eficaz a aborsação do cálcio durante a digestão. Ø Aumenta a destruição dos ossos , aumentando assim os níveis de cálco no sangue. Em resumo: A calcitonina e as paratiroideias regulam a actividade de cálcio no sangue Para haver síntese de Hormonas paratiroid é necessário iodo na tiróide. Apesar de ser em pequenas quantidades é necessário os níveis mínimos de iodo senão não há produção de hormonas. Há um transporte activo de iodo para dentro das células. A proteína tiroglobulina fixa o iodo e efectua este transporte. Há ainda duas moléculas de tirosina que se vão juntar à tiroglobulina para formar a triiodotironina e a tetraiodotironina. Portanto a tiroglobulina é uma proteína grande que tem associadas a triiodotironina, a tetraiodotironina e naturalmente o iodo. E é sob essa forma que o iodo vai sendo acomulando em vesículas dentro da Tiróide. Quando há necessidade da Hormona tiroideia há entrada do liquído dos folículos, composto pela tiroglobulina, ( anexada à triioiodotironina, à tetraiodotironina e ao iodo ) dentro das células. Uma vez lá dentro dá-se a separação dos seus constiuíntes que depois entram em circulação. Hipotiroideus e Hipertiroideus apresentam manifestações muito profundas. Ø Quando os sistemas de produção de glândulas tiroideias notam a falta de uma Hormona circulante: Ex. Iodo Há menos produção da triiodotironina e de tetraiodotironna, a Hipófise percebe este défice e “manda” a Tiróide produzir mais hormonas. OU SEJA, para haver tetraiodotironina triiodotironina é necessário tiroglobulina, então a Tiróide aumenta o número de células produtoras da tiroglobulina, esta juntamente com as suas células produtoras vão-se acomulando provocando um aumento da Tiróide. ( patológico-Bócio ) Um indivíduo com Hipotiroidismo apresenta: • • • • • Diminuição da actividade metabólica Diminuição de produção de calor Tendência de acomulação de gordura ( pouco apetite ) Músculos fracos ( dificuldade no movimento ) Vários tipos de lipoproteínas do tecido conjuntivo não são destruídas, a sua acomulação nos espaços intersticiais dá à pele uma aparência seca e inchada, este inchaço é chamado de Msidema(???). Um indivíduo com Hipertiroidismo apresenta: • • • • • • • Aumento da actividade metabólica Perda de peso ( apesar de grande apetite ) Intoleração do calor Ritmo acelarado de movimento ( hiperactivos ) Tensão irregular Insónias Aumento da destruição das lipoproteínas ao contrário do que acontece no Hipotiroidismo • Apresentam também um Bócio, mas funcional que apresenta características contrárias ao Bócio de um Hipotiroideu ( produção em excesso de Hormonas circulantes ) Em resumo: O Hipotiroidismo e o Hipertiroidismo resultam, respectivamente, do défice da secreção das Hormonas e no excesso de secreção das Hormonas, resultando ambos num aumento da Tiróide ( Bócio ). Para além dos exemplos citados existem outras causas para o Hipo e Hipertiroideismo: Hipotiroidismo: -Ausência de iodo -Ausência da Tiróide - Doenças Autoimunes que destróiem as Hormonas Hipertiroidismo: -Aumento de secreção de Hormonas - Tumores funcionais na Tiróide. Glândula suprarrenal: • Funciona muito bem em conjunto com o Sistema Nervoso Autónomo • Localização:por cima do rim direito • Basicamente corresponde a dois Sistemas Endócrinos • Possuí uma parte interna ( Medula Central ) • Possuí uma parte externa ( Cortéx Exterior ) Medula: Produz o Calecólio, este é o intermediário entre a glândula suprarrenal e o sistema nervoso autónomo. Produz também uma pequena quantidade de noradrenalina e uma grande quantidade de adrenalina. Cortéx: Formado por três zonas: -zona glomerulosa -zona fascicular - zona reticular Produz essencialmente glucocorticóides que são principalmente Cortisol e esteróides sexuais. O Cortisol actua na maioria dos tecidos, provocando o aumento de degradação das proteínas e gorduras, o aumento da produção de glicose e inibição de resposta imunitária. Mineralcorticóides, sendo a principal a Aldosterona, vão actuar essencialmente nos rins Esteróides sexuais, os principais são os Androgénios. Regulação dos Glucocorticóides Estímulo ao nível do Hipotálamo irá fazê-lo produzir Hormonas libertadoras de Cortisol ( CRH ), que irá estimular o Sistema Adeno-Hipófise, que por sua vez produz Hormonas Estimulantes ( ACTH ) do Cortisol que vão actuar no Cortéx Fascicular aumentando a produção do Cortisol. Funções do Cortisol • Degradação de gorduras/proteínas • Aumento dos níveis de Glicose no sangue e Acções Inflamatórias • A nível do Hipotálamo – impede a libertação de mais factores libertadores • A nível do Adeno-Hipófise – impede a libertação de estimulantes Produção da Aldosterona Ex: Quando chega ao rim uma solução com pouco sódio, criase um estímulo que faz com que nas células dos glumérulos renais se forme uma substância chamada Renina. A Renina em contacto com o Angiotensinogénio faz com que este se converta em Angiotensina I. Esta entra em circulação e uma vez nos pulmões com a presença de uma Enzima de Conversão transforma-se em Angiotensina II. Esta vai actuar no cortéx suprarrenal produzindo Aldosterona. Função da Aldosterona • Aumenta a reabsoção do Sódio • Aumenta a excreção do Potássio Efeitos: Da falta ou excesso das Hormonas do cortéx Ex: Aldosterona Hiposecreção • • • • Diminuição do Sódio Aumento do Potássio Acomulação de Hidrogenioiões no sangue Diminuição da Pressão Arterial Hiperscreção • • • • Aumento do Sódio Diminuição do Potássio Diminuição de Hidrogenoiões no sangue Aumento da Pressão Arterial Hipoglicémia • Falta de Cortisol • Baixos níveis de Glicose • Depressão do Sistema Imunitário Hiperglicémia • Excesso de Cortisol • Elevados níveis de Glicose no sangue • Depressão do Sistema Imunitário ( Diabetes da Suprarrenal ) Diabetes Mellitus É uma patologia ( hiperglicémia plasmática ) que pode surgir como consequência de uma combinação de diferentes factores : § Factores Ambientais: -Alimentação § Factores Genéticos. Há uns anos classificavam-se as diabetes como sendo: § Insulinodependentes: - Indivíduos muito jovens ( quase sempre antes dos 2O anos), magros, sujeitos à administração de insulina. § Não insulinodependentes: - Indivíduos obesos ( aparece por volta dos 40/50 anos ), não sujeitos à administração de medicamentos, mas sim de outra medicação. No entanto começou-se a notar que geralmente os indivíduos Não insulinodependentes evoluiam para um estágio de Insulinodependentes. Então houve nessecidade de estabelecer outra classificação. o Diabetes Tipo I o Diabetes Tipo II Nesta classificação os indivíduos com Diabetes Tipo I são os anteriormente classificados como Insulinodependentes, assim como os indivíduos com Diabetes Tipo II são os “antigos” Não insulinodependentes. Esta patologia provém de uma deficiência no fabrico de Insulina, ou até mesmo na ausência da mesma. Sendo assim, as Diabetes Tipo I traduzem –se numa aunsência das células Beta ( produtoras de Insulina ) existentes no Pancreas. É uma situação muito grave e muito rápida quando não controlada devidamente. Por outro lado, nas Diabetes Tipo II o que acontece é uma deficiência na produção de insulina ( esta é produzida, mas não nas quantidades necessárias). Desta feita é uma situação mais lenta e menos grave. Diabetes Tipo I Exitem dois tipo de Diabetes Tipo I: § Diabetes Tipo I A : onde são detectados anticorpos anticélulas Beta, que são chamados de autoanticorpos já que são fabricados pelo organismo do doente. Estes anticorpos como o próprio nome indica, vão destruir as células Beta, impedindo a produção de insulina. § Diabetes Tipo I B ( ou Idiopática ): é detectada uma destruição massissa das células do pancreas ( sem a presença de anticorpos ) mas não se conhece a causa ( daí “Idiopatia” Do mesmo modo os indivíduos com Diabetes Tipo I apresentam essa patologia com menos de 20 anos e são magros, os com Tipo II são geralmente obeso que apresentam a doença com idades entre os 40/50 anos. Diabetes Tipo II Nestes indivíduos o que acontece é que os receptores da insulina produzida pelo seu organismo, tornam-se resistentes à insulina. Deste modo, os individuos, ao efectuarem-se análises, os doentes apresentam, ou niveis de insulina normais, ou demasiadamente altos. Então ao decorrer do tempo a quantidade de receptores resistentes vai aumentando, sendo necessário recorrem á administração de uma insulina produzida em laboratório de modo a que esta seja aceite pelos receptores, tornando-se os doentes em indivíduos insulinodependentes. É de longe a forma mais abundante de diabetes causada geralmente por factores ambientais, mais precisamente a alimentação, Existem muitos outros tipos de Diabetes mas esse são os mais relevantes. Há ainda a chamada Pré-diabetes que consiste essencialmente na diminuição de tolerância à glicose ( identificada através de testes) que se não tratada convenientemente pode evoluir para diabetes tipo II. No entanto as grávidas, duramte a gravidez, desenvolvem uma grande intolerância à glicose, mas felizmente após o parto os niveis voltam ao normal. Resumindo os factores de risco ao desenvolviemnto de diabetes são: • Alimentação; • Obesidade; • Idade( superior a 45 anos); • Certas raças; • Intolerância à glicose; • Hipertensão: • Nivéis de colesterol baixos e triglicéricos altos. Em casos extremos o doente pode atingir o Coma diabético que se divide em dois: • Cetocidose Diabética • Coma Hiposmolar ( em que hà um excesso de água a entrar para dentro das células ). Caso o doente não seja tratado com grande urgência pode até falecer.