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Laboratório: apenas superbactérias KPC expostas a ozônio tornaram-se inativas
SAÚDE
Gás ozônio é capaz de matar
superbactéria
Estudo revela que bactéria KPC, que causou centenas de mortes no país, pode
ser inativada de forma simples. Testes em humanos começam em dois meses
Publicado em 18/12/2010 | ISADORA RUPP
Um estudo concluído pelo Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo conseguiu inativar a
chamada superbactéria KPC (klebsiella, produtora de carbapenemase) utilizando gás ozônio.
Hospitais de todo o país enfrentaram um surto da bactéria neste ano. A unidade da federação
mais afetada foi o Distrito Federal, com 25 mortes. A técnica, testada apenas em laboratório,
por enquanto, consegue destruir a camada de gordura e inativar a bactéria. A KPC é chamada
de multirresistente porque não responde a antibióticos da classe dos carbapenêmicos (que
são a maioria dos medicamentos disponíveis). Segundo o coordenador do estudo, Glacus de
Souza Brito, da Divisão de Imunologia Clínica e Alergia do HC, os testes em humanos devem
começar em 60 dias.
Dez bactérias foram analisadas e divididas em três grupos. O primeiro teve exposição ao
ozônio por cinco minutos. O segundo, ao oxigênio e o terceiro não recebeu nenhum
tratamento. Depois de um dia, as bactérias se multiplicaram nos últimos dois vidros, e as do
primeiro morreram. A eficácia do ozônio, segundo Brito, se dá por causa da oxidação do gás.
“O ozônio é uma das substâncias mais oxidantes que existe. Por isso, na hora que encontra a
bactéria, é possível destruir rapidamente, em poucos minutos”.
O ozônio tem um nível de oxidação três vezes maior do que o cloro, por exemplo. O
pesquisador afirma que, além da KPC, outras bactérias resistentes podem ser combatidas
com a mesma técnica. O ozônio, lembra ele, já é amplamente usado para tratamento de
infecções em países da Europa. “Para curar uma ferida infeccionada com a bactéria, por
exemplo, é possível envolver o local com um saco plástico e fazer vaporização com o gás”, diz
Brito.
Em humanos, o ozônio pode ser aplicado em pacientes com infiltração no local onde a
bactéria está presente, ou com injeções, em casos de infecção interna. O ozônio, ressalta o
pesquisador, é uma boa alternativa para os sistemas de saúde, pois é barato e pode diminuir
os custos de internação e de compra de antibióticos. Na próxima etapa, o estudo vai investigar
se a vaporização do ozônio no ambiente hospitalar é eficaz para eliminação de bactérias.
Casos
De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Brasil tinha 330 casos
de KPC no final de novembro. Porém, como a notificação pelas secretárias de Saúde não é
obrigatória, o número está desatualizado. Só o último boletim da Secretaria de Saúde do
Distrito Federal, divulgado no dia 10 de dezembro, registra 334 casos acumulados de janeiro à
dezembro de 2010, sendo 25 mortes.
São Paulo teve cerca de 70 casos no HC. Segundo a Secretaria de Saúde, porém, os
números são antigos e o estado hoje não tem surto. No Espírito Santo, seis casos foram
confirmados entre abril e outubro deste ano, sendo três óbitos, sem relação direta de causa
com a KPC.
No Paraná, foram 257 casos, segundo o superintendente de Vigilância em Saúde da
Secretaria de Estado de Saúde (Sesa), José Lúcio dos Santos. Nos próximos dias, será
publicada a Resolução nº674/2010, que estabelece a obrigatoriedade de notificação pelos
hospitais no estado, centraliza as ocorrências na secretaria estadual e organiza as
informações. “Assim, poderemos acionar as medidas de contenção mais rapidamente”,
enfatiza.
Em Curitiba, foram confirmados três casos no Hospital de Clínicas da UFPR e quatro no
Hospital Evangélico, sendo um óbito. O Hospital Universitário de Londrina (HU) concentra o
maior número de pacientes com a KPC. São 400, desde 2009, segundo a coordenadora da
Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH), Cláudia Carrilho. Atualmente, 18 pacientes com a KPC continuam internados, em isolamento. “A bactéria já é endêmica e faz
parte do ambiente hospitalar. Conseguimos ter um bom controle, mas alguns casos
persistem”, afirma Cláudia.
Em abril de 2009 e julho deste ano, o HU suspendeu internações na UTI e restringiu
atendimento em quase todo o pronto-socorro, como medida de barreira para infecções. Para
Cláudia, a falta de recursos humanos combinada com a superlotação facilita esse tipo de
surto. “Temos hoje materiais de higiene e medidas de controle de infecção. Porém, nem
sempre há adesão dos funcionários, que reclamam da falta de tempo”.
Lacen
Exame rápido já está disponível
O Laboratório Central do Estado do Paraná (Lacen) implantou, há duas semanas, um teste
rápido para confirmação da presença da superbatéria resistente KPC (klebsiella, produtora de
carbapenemase). O resultado do exame “Easy Q KPC”, da empresa francesa bioMérieux, fica
pronto em aproximadamente duas horas e analisa até 95 amostras de bactéria – o teste
anterior levava quase o dobro do tempo para dar o resultado, com análise de apenas 10
colônias.
De acordo com o diretor-geral do Lacen Paraná, Marcelo Pilonetto, a confirmação mais rápida
ajuda nas medidas de barreira dos hospitais. “Quanto antes o hospital sabe que o paciente
tem a KPC, mais rápido ele pode isolar e evitar a disseminação para outras pessoas
internadas.”
Utilizando tecnologia de biologia molecular, o teste confirma se a bactéria resistente é
produtora da enzima carbapenemase. “Para dizer que a bactéria é KPC, é preciso identificar a
enzima. Podem ter outros mecanismos que levam à resistência”, explica a gerente de produto
da bioMérieux, Catherine Azzariti. O sistema colhe a amostra da colônia bacteriana, prepara
os reagentes, aquece e coloca em um sistema automatizado para detecção.
Segundo Pilonetto, o Paraná é o primeiro estado do país a ter o teste. “Já usávamos um
método caseiro, desenvolvido aqui, mas demorava mais”. De acordo com o diretor, o custo do
teste é acessível (R$ 30 a R$ 40 por amostra) – testes de influenza realizados pelo Lacen no
surto da Gripe H1N1 custavam R$ 100. (IR)
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