2. 3. Argumentar

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Notas pessoais
Competências transversais de carácter mais filosófico
2. 3. Argumentar
A reflexão filosófica integra a argumentação. A aprendizagem filosófica do
aluno e aluna supõe, portanto, aprender a argumentar. As suas intervenções e
os seus escritos não se podem limitar à simples expressão de uma opinião, mas
conduzem muitas vezes a um processo crítico de argumentação.
Quando argumentamos, defendemos o nosso ponto de vista e devemos ser
capazes de o justificar racionalmente. Claro que nem sempre é fácil encontrar
justificações racionais para fundamentar os nossos pontos de vista. O ideal seria
que a disciplina de Filosofia fosse um significativo contributo que ajudasse os
alunos e alunas a serem capazes de se libertar do terreno dos lugares-comuns,
das suas escolhas e preferências muitas vezes irracionais, e muitas vezes ditadas
pelas influências recebidas dos meios de informação que são às vezes os primeiros a abordar acriticamente a maioria dos problemas que tratam.
E como é que isto pode ser feito?
Como é que se pode evitar que as justificações apresentadas não sejam
muitas vezes simples justificações de carácter prático? Como evitar que tais justificações não sejam, muitas vezes, uma mera reprodução das razões apresentadas nos artigos revisteiros, jornalísticos, ou nos programas televisivos?
Para ultrapassar esta dificuldade é fundamental o contacto com os textos
filosóficos e ver como os vários filósofos apresentam os seus argumentos, ou
seja, ver como elaboram os seus textos de carácter argumentativo.
2.3.1. A argumentação na tradição filosófica
A produção de textos argumentativos tem uma larga tradição na História da
Filosofia. Na Grécia Antiga, no século V a. C., a palavra falada e escrita, considerada fundamental numa sociedade democrática, adquiriu uma particular
relevância graças ao papel dos Sofistas que desenvolveram estratégias argumentativas, dando à Retórica11 uma particular atenção. Protágoras, um dos mais
célebres sofistas, consagrou o princípio que funciona como base da Retórica e
11
Na Grécia clássica, a Retórica é entendida como a arte de usar a linguagem como meio de persuasão. É a chamada
arte dos oradores. A democracia ateniense criou boas condições para o aparecimento destes oradores e por isso os
Sofistas foram mestres desta arte. A retórica sofista é criticada por Platão, porque este pensa que ela procura persuadir sem possuir o saber. Platão, numa das suas obras mais conhecidas, o Górgias, defende que a Filosofia se
opõe à Retórica porque, embora não possua o saber, procura incansavelmente a verdade. Aristóteles não partilhará desta concepção de Platão e por isso revalorizará a Retórica considerando-a como a arte de descobrir os
meios de persuasão possíveis relativamente a qualquer argumento. Também os Cépticos contestaram o sentido
pejorativo que Platão atribuía à Retórica considerando que a Filosofia era argumentação e não um saber, pelo que
a Retórica dizia respeito ao bom uso da argumentação. Há períodos da História da Filosofia que desvalorizam
imenso a Retórica. No entanto, esta disciplina, muito valorizada na actualidade, é reabilitada no século XX por C.
Perelmann (1912-1984), que, inspirando-se em Aristóteles, admite a existência de uma razão prática ligada à ética
e à política. Ao reabilitar esta razão prática considera que a reflexão filosófica não pode reduzir-se ao formalismo
demonstrativo mas deve contemplar uma racionalidade argumentativa a que chamou Nova Retórica.
que, portanto, subjaz a todo o texto de carácter argumentativo: O que não
pensa como nós, engana-se. Se aceitamos este princípio quais serão as consequências? Obviamente que todo aquele que se encontra em situação de comunicação deve procurar reunir a maior quantidade possível de argumentos (provas) para demonstrar que a sua opinião é a melhor maneira de interpretar
determinado problema sobre a realidade.
Além deste princípio, os retóricos clássicos foram ainda capazes de estabelecer outros que também são fundamentais na situação de produção de discurso
argumentativo. Assim, por exemplo, defenderam que a eficácia do orador ou
do argumentador é tanto maior quanto este conhece o auditório a quem se
dirige. Daí que tenha mais probabilidade de êxito se conhecer algumas das
características desse auditório, se conhecer, por exemplo, as suas crenças, os
seus valores, ou os seus sentimentos.
2.3.2. A importância da argumentação:
das questões do quotidiano às grandes questões filosóficas
De acordo com uma definição muito sumária, podemos dizer que argumentar é defender uma ideia, uma opinião, apresentando um conjunto de razões
que justifiquem essa tomada de posição.
A argumentação tem uma enorme importância na vida do dia-a-dia, onde
somos muitas vezes obrigados, pelas circunstâncias, a apresentar as nossas
razões, as justificações dos nossos comportamentos e das nossas tomadas de
posição. Claro que há situações nas quais não precisamos de argumentar ou
até em que seria uma pura perda de tempo. Imaginemos, por exemplo, que
pretendo fazer ver a alguém que esta sala onde escrevo neste momento tem
quatro janelas, quando uma simples observação mostra que ela tem apenas
uma. Ou que pretendo provar a alguém que um quadrado é uma figura geométrica de 5 lados. Nestas duas situações não há argumentação séria possível!
O mesmo, contudo, já não se passa noutras situações. E são essas que verdadeiramente importam à Filosofia enquanto exercício de discurso argumentativo.
No caso dos exemplos anteriores, a situação tem resposta directa facilmente
comprovada. Mas, quando se trata de argumentar relativamente às grandes
questões que preocupam os seres humanos, a situação é diferente, uma vez que
elas, na maior parte dos casos, recebem respostas possíveis, razoáveis é certo,
mas sempre discutíveis. Questões do tipo: Devemos ou não permitir a clonagem
de seres humanos?; Devemos ou não autorizar o aborto?; Devemos aceitar que
existem raças superiores e raças inferiores? são, entre outras, questões relativamente às quais podemos apresentar um razoável conjunto de argumentos, a
favor ou contra, uma vez que se trata de questões relativamente às quais ninguém pode ter certezas absolutas. É fundamental que cada um de nós compreenda que um ensaio argumentativo é sempre susceptível de discussão.
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