ode descontínua e remota para flauta e oboé, de ariana para

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REMOTA PARA FLAUTA E OBOÉ, DE ARIANA PARA DIONÍSIO” DE
HILDA HILST POR ZECA BALEIRO
Danielly Pereira dos Santos1
Maria Angélica Fernandes Rocha2
Ricardo Tupiniquim Ramos3
RESUMO: O presente estudo tem por objetivo entender a relação entre a literatura e a
EDIÇÃO. DEZEMBRO 2016.
FLAUTA E OBOÉ, DE ARIANA PARA DIONÍSIO” DE HILDA HILST POR ZECA BALEIRO. REVISTA DISCENTIS. 5ª
SANTOS, Danielly Pereira dos. LITERATURA E MÚSICA: LEITURAS DE “ODE DESCONTÍNUA E REMOTA PARA
LITERATURA E MÚSICA: LEITURAS DE “ODE DESCONTÍNUA E
música, relação essa cada vez mais comum na atualidade pela atuação dos músicos
contemporâneos que encontraram na poesia uma fonte inesgotável de inspiração artística.
Desse modo, propomo-nos a analisar a “Ode descontínua e remota para flauta e oboé, de
Ariana para Dionísio” de Hilda Hilst, publicada em 1974, e o álbum homônimo musicado por
Zeca Baleiro em 2005, a fim de compreender o entrelaçamento dessas duas artes a partir da
reconstrução histórica do tempo em que literatura e música eram uma única arte. Para isso
fundamentamo-nos nas teorias de Zumthor (1993), Oliveira (2003), Monteiro (2010) etc., que
colaboram – direta ou indiretamente – para o reconhecimento da importância e do caráter
histórico da simbiose entre as duas artes em questão. Por tudo isso, essa investigação pretende
contribuir com a construção do conhecimento e com o enriquecimento do método
interdisciplinar ao estabelecer a relação direta entre literatura e música.
PALAVRAS-CHAVE: Literatura e Música. Hilda Hilst. Zeca Baleiro. Linguagem.
INTRODUÇÃO
Mescla do campo poético com o campo musical, a palavra cantada é uma
expressão artística híbrida do âmbito social de comunicação e interação que vem
cativando cada vez mais adeptos. Essa mescla ocorre de forma simultânea, não
sobressaindo uma linguagem sobre a outra, mas coexistindo ambas com igual
importância. Para entendermos com mais propriedade esta e outras características da
palavra cantada – termo cunhado por Carlos Rennó (apud OLIVEIRA, et al, 2003) para
denominar a poesia produzida especificamente para o suporte musical –, necessário se
1
Graduanda do IV semestre do curso de Licenciatura em Letras – Língua Portuguesa e Literaturas pelo
DCH da Universidade do Estado da Bahia, campus VI. Pesquisadora de IC/PICIN. Endereço eletrônico:
[email protected].
2
Orientadora. Mestre em Estudos Literários na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS, 2014).
3
Coorientador. Doutor em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia (UFBA, 2008).
53
literatura e música.
Assim, a presente produção textual tem por objetivo investigar a estreita
relação entre literatura e música, tão em voga na atualidade com as versões musicadas
de poemas de grandes artistas, a fim de entender o porquê de duas artes, aparentemente
distintas, encontrarem um ponto de intercessão, no qual se unem e formam uma só
expressão artística. É sabido que vastos são os estudos que buscam a relação
interdisciplinar entre as duas linguagens, mas não se tem registros de nenhum que toma
o poema “Ode descontínua e remota para flauta e oboé, de Ariana para Dionísio” como
objeto de análise. Portanto, nesse estudo de cunho qualitativo-descritivo, objetivamos
analisar o dito poema de Hilda Hilst publicado em 1974, sob as asas da ditadura, no
livro Júbilo, memória, nocividade da paixão, e o álbum homônimo com as versões
musicadas dessa obra, lançado por Zeca Baleiro em 2005.
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faz que entendamos todo o percurso histórico dessa parceria indissociável entre
Para tanto, baseamo-nos em uma bibliografia pertinente que conta com teorias
como as expostas por Oliveira et al. (2003), Zumthor (1993), Moura (2009), Monteiro
(2010), Assis (2007) e por outros teóricos que discutem o tema proposto sob vertentes
cruciais para os fins deste artigo.
O método adotado para a execução dessa pesquisa foi inicialmente de cunho
bibliográfico, no qual se buscou historicizar o entrelaçamento das duas artes em
questão, entender a razão dessa ligação e o porquê deste ser um assunto tão discutido na
atualidade. Em seguida, adotamos a estratégia analítica, pela qual se buscou vislumbrar
onde literatura e música se encontram no poema de Hilst e nas adaptações de Baleiro, a
fim de compreender os intuitos semânticos das obras a partir da escolha de vocábulos,
da fala do eu-lírico genuinamente feminino, do instrumental que acompanha o canto etc.
A escolha das obras se justifica por serem as canções de Zeca Baleiro
relativamente novas em comparação com a ode de Hilst. Com isso queremos mostrar
quão comum vem se tornando as adaptações musicais de textos literários, geralmente de
autores conhecidos, fugindo Hilst dessa regra. Cantor contemporâneo e razoavelmente
jovem, Zeca Baleiro é um nome de peso da nova geração da Música Popular Brasileira.
Sua participação do campo músico-literário é exemplo desse movimento que volta aos
poucos ao auge na pós-modernidade.
Sendo tanto a ode de Hilst quanto as canções de Baleiro considerados textos,
esse estudo se propõe a analisá-los sob a perspectiva semiótica, ciência piloto de todas
as linguagens. Segundo Trindade (2005, p.8), “o Texto é, literalmente falando, ‘um
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e a glória”. Assim, essa investigação alvitra por dois mundos diferentes, apesar de
intimamente ligados, para observar as semelhanças, os distanciamentos e as diversas
significações ativadas pelos recursos linguísticos que cada linguagem – verbal e sonora
– dispõe.
1. O CARÁTER HISTÓRICO DA RELAÇÃO ENTRE LITERATURA E
MÚSICA
A relação entre a música e a poesia surge num passado longínquo. Segundo a
mitologia grega, Hermes teria roubado a vara de porcos de seu irmão Apolo, deus do
sol, para, em seguida, esticar as tripas de um deles em um casco de tartaruga, criando,
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mundo’, ou antes um outro mundo de que é necessário, sem sair dele, narrar o esplendor
assim, a lira. Encantado com o som do instrumento, Apolo teria trocado os porcos pelo
objeto de som envolvente. O termo “lírico”, conhecido e utilizado até hoje para designar
a composição poética feita para o canto, é oriundo dessa afinidade entre os versos
poéticos e a lira, o instrumento musical.
A partir desse momento, a poesia passa a ser acompanhada pelo som
melodioso do instrumento, principalmente pelos helenos na Antiguidade. Para Zumthor
(1993, p.71),
A palavra poética vocalmente transmitida dessa forma, reatualizada,
reescutada, mais e melhor do que teria podido a escrita, favorece a
migração de mitos, de temas narrativos, de formas de linguagem, de
estilos, de moda, sobre áreas as vezes imensas, afetando
profundamente a sensibilidade e as capacidades inventivas de
populações que, de outro modo, nada teria aproximado.
A melodia tinha, portanto, a função de separar os versos para facilitar a
memorização das histórias orais daqueles povos para que as futuras gerações as
conhecessem e, assim, não as perdessem no tempo.
A Idade Média é um momento de suma importância na história da poesia, uma
vez que os “poetas do povo” – trovadores, menestréis, etc. – expressavam por meio do
recurso vocal a sua poesia. No entanto, segundo Forin Jr. (2012, p.6), “a mudança mais
radical sobre os valores da oralidade se dá com o renascimento das cidades europeias e
com o surgimento da imprensa em meados do séc. XV”. É a partir desse momento que
55
Classicismo e o progresso das noções musicais. Surge, assim, a Era da leitura e da
escrita.
Oliveira et al. (2003) afirmam serem o romantismo e o simbolismo momentos
cruciais para o entrelaçamento da poesia com a música. Nesse cenário, as discussões
acerca da poesia se intensificam sob novas perspectivas, como o rompimento das
fronteiras entre a poesia e as outras artes, a exemplo da arquitetura, da pintura, da
música etc. Desse modo, segundo a autora, nascem termos metafóricos como “música
verbal”, “pintura tonal” ou “orquestração de cores”. Apesar dessa relação de
interdisciplinaridade entre a música e as diversas artes, nota-se que a intensidade entre
ela e a poesia foi e ainda é maior, pois “as qualidades acústicas de sílabas, palavras e
frases, as propriedades sonoras de locuções verbais passam a ser cada vez mais
apreciadas como fenômenos essencialmente musicais” (OLIVEIRA et al., 2003, p.20).
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SANTOS, Danielly Pereira dos. LITERATURA E MÚSICA: LEITURAS DE “ODE DESCONTÍNUA E REMOTA PARA
ocorre a segregação da poesia e da música por inúmeros fatores, como o surgimento do
A exploração dos recursos fônicos e acústicos tem mais ênfase no movimento
simbolista, apesar de tal objetivo estar presente na poesia desde sempre.
Tal mutabilidade no âmbito poético ainda se observa hoje, quando a poesia tem
caráter introspectivo, consequência do crescimento dos centros urbanos, das múltiplas
opções de lazer e do individualismo, o que impossibilita a relação direta entre poeta e
público, como com frequência ocorria na Antiguidade. Para Zumthor (1993, p.63)
A disseminação do uso da escrita e (de maneira mais inexorável) o
lento desmoronamento das estruturas feudais arruinaram, a longo
prazo, o prestígio dos recitadores, cantores, contadores profissionais
de histórias; a impressa os fez cair numa espécie de subproletariado da
cultura.
Assim, a poesia perde seu caráter de oralidade e passa a ser genuinamente uma
arte de leitura silenciosa. É apenas partir do século XX que se começa a questionar a
utilização desmedida da palavra escrita. Artistas de vanguarda repensaram a questão até
chegar ao entendimento de que a escrita, até então tratada de forma engessada, não dava
conta da arte poética como um todo e tentaram devolver à voz seu lugar de devir,
mesmo não ignorando a importância gritante da palavra escrita. Surge, então, a poesia
sonora, que busca a sonoridade pura das palavras e na década de 50 se amplifica com o
surgimento do gravador.
Desse momento em diante, a oralidade volta a ter destaque cultural sob os
formatos e suportes característicos do século atual. Pelo cenário cada vez mais propício
56
canção – palavra originada do termo canzone, que significa produção poética dos
trovadores – volta a ter seu merecido destaque com uma nova roupagem, pois é produto
de novos tempos, novos cenários, novos contextos e, sobretudo, novos sujeitos.
Segundo Assis (2007, p.4), a literatura “incorporou, por exemplo, nomes como
leimotivo, anacruse, dissonância, melodia, harmonia, polifonia [...]. Nomes estes
oriundos da música”. Por outro lado, a música herdou da literatura termos como elegia,
censura, cadências, ritmo, metro, timbre, período, entonação etc. Assim, é notável que
ambas, de modo geral, têm como base material a sonoridade e quando juntas – canção –
são indissociáveis, uma espécie de complemento do sentido que, se separadas, perdem
parte da vitalidade. Teóricos como Finnegan (2008) afirmam ser a canção um fenômeno
tão apreciado no mundo todo e em todas as épocas, que pode ser considerado um dos
elementos universais da vida humana, pois mescla música, texto e performance em um
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para performances musicais advindas de textos literários, poder-se-ia afirmar que a
só momento.
2. O ENCONTRO DA LITERATURA E DA MÚSICA EM HILST E BALEIRO
No Brasil, é grande a lista de músicos que descobriram na relação entre poesia
e música uma fonte inesgotável de inspiração, criação e produção musical. Exemplo
disso é o cantor e compositor Zeca Baleiro que, motivado por seu amor de fã, envia para
Hilda Hilst seu primeiro CD, sem grandes expectativas. Dias depois, este recebe uma
ligação da poetiza, propondo-lhe uma parceria, pois, segundo ela, “literatura não dá
camisa a ninguém”. Semanas depois, Baleiro recebe um disquete com inúmeros textos
da escritora e se apaixona pela profundidade e peso da “Ode descontínua e remota para
flauta e oboé, de Ariana para Dionísio”, conjunto de dez estrofes de eu-lírico
genuinamente feminino que conta/canta um amor impossível.
Com o consentimento e apoio de Hilst, Baleiro começa a gravar o álbum
homônimo em 2003 e conta com a participação de grandes nomes da MPB, como Rita
Ribeiro, Verônica Sabino, Maria Bethânia, Jussara Silveira, Ângela Rô Rô, Ná Ozzetti,
Zélia Duncan, Olívia Byington, Mônica Salmaso e Ângela Maria: dez mulheres para
dez canções, dez vozes para dez estrofes.
Pelo estilo altamente melodioso do poema e pelo arranjo musical – violino,
arpa, oboé e fagote – que serve de cenário para uma poesia de teor medieval – esta que
57
afirmado pela própria Hilst –, é que nos propomos a analisar a poesia hilstiana sob o
olhar de Baleiro. O curto espaço que nos cede o formato deste trabalho impossibilita
uma análise das dez canções; assim, optamos por entender a poesia e a musicalidade das
obras sob o recorte de duas delas, a II e a V, por julgarmos que contêm todos os
elementos necessários para se entender essa relação que se estende por anos. Em
complemento, utilizaremos toda a obra para contextualizar e explicar as canções
analisadas.
3. ANÁLISE DO CORPUS
Inicialmente, vale entender em quais circunstâncias se encontra a voz que fala,
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metaforiza uma história autobiográfica sob elementos da mitologia grega, como foi
o eu-lírico, que se denomina Ariana. Segundo a mitologia grega, após ter sido
abandonada na ilha de Naxos por Teseu depois da vitória deste sobre o Minotauro,
Ariana – também conhecida como Ariadne – se encontrava em uma profunda tristeza.
Vendo o sofrimento de Ariana, Afrodite (ou Vênus) compadeceu-se dela e lhe prometeu
um amante imortal. Dionísio, também conhecido como Baco, deus do vinho, das festas
e do prazer, encontrou-a, consolou-a e a desposou. (BULFINCH, 2002, p.202-203).
A partir desse ponto, o destino de Ariana é incerto, pois existem as mais
variadas histórias sobre o fim que esta tomou. Uma delas é a de que Dionísio, assim
como Teseu, abandonou-a. Aparentemente, é essa a variante do mito escolhido por
Hilda Hilst para contextualizar sua ode: trata-se de um canto de amor, onde Ariana,
louca de saudade, celebra seu amor ardente por Dionísio que, como dito no canto VI, há
“três luas” se encontra ausente. O que pode ser observado em todas as dez estrofes é a
procura incessante da moça por Dionísio, a incompletude que sente e a necessidade
irremediável do corpo do amado.
Para Moura (2009), essa procura desesperada pelo Outro é consequência do
castigo dado ao ser andrógeno e primitivo que, orgulhoso de seu estado de completude,
duplicidade e totalidade, incita a ira dos deuses. Por essa razão, Zeus o divide ao meio,
inventando a procriação por acasalamento. Assim, um anda pelo mundo a procura da
parte que perdera, na expectativa de tornar-se completo novamente, uma vez que se
sente preso ao “signo de mutilação e da carência”.
58
de procura, convite e ausência, mas pode ser especialmente observada nos versos a
seguir, em que o corpo aclamado é metonímia da energia emanada pelo Outro, pelo
pedaço que falta no Eu que fala e que se auto-intitula poeta. Importante notar, ao
ler/ouvir todas as dez estrofes-canções, que a inspiração poética de Ariana só existe pela
falta do parceiro, como é bastante visível no primeiro canto, quando já nos últimos
versos o eu-lirico diz “[...] E o verso a cada noite/ se fazendo de tua sábia ausência”. A
paixão dionisíaca de Ariana é transposta em verso para suprir a lacuna deixada pela
ausência de Dionísio. O canto, sem dúvida, é produto de uma dor genuinamente poética:
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Hilst explora essa vertente do mito da criação em todos os poemas pelo canto
II
Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu
Ainda que tu me vejas extrema e suplicante
Quando amanhece e me dizes adeus.
(HILST, 2001, p. 60)
Esse poema verte-se em voz pelo intermédio de Verônica Sabino, cantora e
compositora do Rio de Janeiro que lança seu primeiro disco de sucesso em 1986. Com
voz extremamente límpida, delicada e harmoniosa, Verônica faz jus ao sentimento
profundo e genuinamente feminino do eu-lírico. A melodia composta por Zeca Baleiro,
como dito, possui características pouco comuns aos moldes da música contemporânea:
os instrumentos pouco convencionais – flauta, oboé, arpa e fagote – foram
estrategicamente escolhidos com a finalidade imprimir tanto nesta, como nas outras
nove canções do disco, um reflexo da identidade do período medieval, no qual a poesia
era transmitida oralmente pelos poetas através do canto.
A semi ou total inexistência da métrica na ode de Hilst é característica da
contemporaneidade, na qual a poesia tem verso livre, diferentemente do que ocorria na
época da poesia declamada, quando os versos eram produzidos a partir das convenções
métricas; mas, apesar da métrica inconstante, é notável a presença de rimas que
auxiliam e guiam o ritmo da leitura e, consequentemente, da música: secreta/poeta,
59
repetido a fim de que a canção tenha a sonoridade desejada. Assim, o que no poema era
[...] E que o teu corpo existe porque o meu
sempre existiu cantando.
Meu corpo, Dionísio
é que move o grande corpo teu (HILST, 2001, p.60)
, na canção, torna-se
E que o teu corpo existe porque o meu
sempre existiu cantando
sempre existiu...
meu corpo, Dionísio
é que move o grande corpo teu. (BALEIRO, 2005 – grifos nossos)
Desse modo, na canção, três versos poéticos, para que fossem cantados,
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amando/cantando, meu/teu/adeus. Com a adição da música, parte de um verso foi
careceram de se transformar em cinco.
Semelhante situação ocorre com no canto V que ganha um brilho ímpar com a
interpretação de Ângela Rô Rô – cantora, compositora e pianista brasileira, que recebe
esse apelido pela voz e pela risada grave e rouca, que se opõe à delicadeza do timbre de
Verônica Sabino. Com isso, nota-se que a intenção de Baleiro era, além de produzir um
álbum músico-literário para fazer ouvir o discurso de um eu-lírico delirante de amor,
fazer com que as digitais das dez artistas convidadas para dar voz a esse eu-lírico sejam
visíveis e gerem um sentido a mais: a ideia de que a paixão dionisíaca, forte e
avassaladora, pode ser vivida por qualquer um. Isso é metaforizado pela multiplicidade
de vozes, algumas tão graves como a de Maria Bethânia na canção III, outras agudas
como a de Jussara Silveira na canção IV, outras ainda empostadas, como a de Ângela
Maria na canção X.
Como dito, apesar de não conter métrica determinada, a ode de Hilst contem
ritmo e melodia. São versos escritos para serem lidos em voz alta, declamados,
cantados. Algo perceptível não só na leitura do léxico, como na interpretação semântica
do texto. Observemos os versos a seguir:
V
Quando Beatriz e Caiana te perguntarem, Dionísio,
Se me amas, podes dizer que não. Pouco me importa
Ser nada à tua volta, sombra, coisa esgarçada
No entendimento de tua mãe e irmã. A mim me importa,
60
E no meu quarto se faz verbo de amor. (HILST, 2001, p.63)
Entendida por Ariana como amor, a procura pelo Outro tem um teor levemente
erótico, característico da poesia hilstiana. Nos últimos versos, por exemplo, podemos
observar não só a eroticidade da paixão corpórea, como a intencionalidade de Ariana de
criar uma poesia propícia ao canto: “E o que dizes nem pode ser cantado/ porque é
palavra de luta e despudor”. Quanto às rimas, nota-se a repetição do verbo “importa” em
dois versos, bem como a combinação de deitado/cantado, despudor/amor.
Nesta canção, o som grave de Ângela Rô Rô ilustra o eu-lírico de uma mulher
forte que transita entre o desapego social (Pouco me importa/ ser nada à tua volta,
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Dionísio, o que dizes deitado, ao meu ouvido
E o que tu dizes nem pode ser cantado
Porque é palavra de luta e despudor
E no meu verso se faria injúria
sombra, coisa esgarçada/ No entendimento de tua mãe e irmã) e a preocupação poética
de não soar obscena em seu canto (E o que tu dizes nem pode ser cantado/ Porque é
palavra de luta e despudor/ E no meu verso se faria injúria), uma vez que toda cultura
enxerga a música como objeto público e com isso não nos remetemos à questão de
autoria. Diferentemente da primeira canção analisada, nesta, não houve necessidade de
modificação da estrutura do texto na tradução de literatura para música.
Por tratarem de um único tema sob perspectivas diferentes, os dez textos
possuem também forças diferentes, o que foi captado por Zeca Baleiro e muito bem
trabalhado nas performances das cantoras: nos cantos I, II, IV, VI e VIII Ariana exalta
Dionísio ao passo que diminui seu próprio grau de importância. Na obra de Baleiro,
mulheres de vozes delicadas, agudas e melodiosas – Rita Ribeiro, Verônica Sabino,
Jussara Silveira, Ná Ozzetti e Olívia Byington – interpretaram as canções resultantes
desses cantos. Já as canções III, V, VII, IX e X, nas quais Ariana se entende como
mulher e se impõe ao reconhecer sua importância, foram interpretadas por Maria
Bethânia, Ângela Rô Rô, Zélia Duncan, Mônica Salmaso e Ângela Maria, mulheres de
vozes mais graves e solenes. A canção VII, cantada por Duncan, tem tanto na letra
quanto no dedilhar da melodia, um leve tom humorístico e irônico, pois se trata do
ciúme e da “vingança” de Ariana:
VII
É lícito me dizes, que Manan, tua mulher
Virá à minha Casa, para aprender comigo
61
Nota-se tanto nesta quanto nos outros cantos que Ariana, embora
extremamente sensível e feminina, se opõe aos valores de sua época ao viver à
“margem” dela. Não é domesticada e, apesar de se render por amor, não se rende ao
machismo ainda hoje imperante: opta pelos próprios prazeres, em viver a vida como lhe
convém. Ariana é a amante que vive na obscuridade, é mal vista e não se importa,
exceto quando se trata de sua produção poética, como já ventilado. A voz grave de Zélia
Duncan, seu tom irônico e o ritmo dedilhado e ativo do instrumento de cordas da
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SANTOS, Danielly Pereira dos. LITERATURA E MÚSICA: LEITURAS DE “ODE DESCONTÍNUA E REMOTA PARA
Minha extensa e difícil dialética lírica?
Canção e liberdade não se aprendem.
Mas posso encantada, se quiseres,
Deitar-me com o amigo que escolheres
E ensinar à mulher e a ti, Dionísio,
A eloquência da boca nos prazeres
E plantar no teu peito, prodigiosa,
Um ciúme venenoso e derradeiro. (HILST, 2001, p.65)
melodia anula parte do sentimentalismo e tristeza exacerbada da canção anterior,
interpretada por Ná Ozzetti. Muda-se o tom, ritmo, voz, o texto. Todo o sentido é
modificado, mas o tema ainda é o mesmo.
A intencionalidade da autora de escrever um poema relacionado ao gênero
épico com todos os elementos a que este tem direito – divisão em cantos, presença de
uma heroína, analogias com a mitologia, atemporalidade, presença de um
narrador/protagonista etc. – foi mantido por Baleiro na escolha do instrumental, das
melodias e das vozes. Não restam dúvidas de que esta seria a obra escolhida pelo
compositor dentre as tantas contidas naquele pequeno disquete enviado por Hilst: há
referências à musicalidade em toda a ode, desde o título – “Ode descontínua e remota
para flauta e oboé, de Ariana para Dionísio” – até a presença direta dentro do discurso
do eu-lírico, a exemplo do canto IX:
Que se a mim não deram
Esplêndida beleza
Deram-me a garganta
Esplandecida: palavra de ouro
A canção imantada
O sumarento gozo de cantar
Iluminada, ungira. (HILST, 2001, p.67)
A riqueza estética e de conteúdo da Ode de Hilst é incontestável. Por remontar
tempos antigos, perceptível através da marcação do tempo por elementos naturais, como
62
corpo por uma paixão bruta e carnal. A Ode de Hilst é um canto de amor, vista por
alguns como um retrato desfalcado de uma cantiga de amigo, na qual um eu-lírico
feminino aclama uma paixão não correspondida ou impossibilitada.
Na composição das melodias, Zeca Baleiro levou tudo isso em conta,
mantendo o caráter poético das letras, de modo que é evidente a alma literária do
discurso cantado pelas dez artistas. A falta de métrica específica não prejudicou a
sonoridade das canções, uma vez que o texto hilstiano em si já era carregado desse
traço. A “Ode descontínua e remota para flauta e oboé – de Ariana para Dionísio”
definitivamente esperou por muito tempo, impressa, em Júbilo, memória, nocividade da
paixão, ser musicada e vertida em voz.
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a passagem das luas, a autora propõe uma heroína ao avesso, que desnuda a alma e o
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Muito mais popular que o literário, o cenário musical pode possibilitar que os
escritos da poetiza paulista sejam mais conhecidos e, assim, valorizados. Mesmo
sabendo que “Ode descontínua e remota para flauta e oboé, de Ariana para Dionísio”
não seria um disco vendável, Zeca Baleiro investiu dois anos de carreira na sua
construção para realizar-se pessoalmente, ciente de que produzia uma arte pura que
remonta, através dos elementos mencionados, a historicidade da relação íntima entre
literatura e música.
Por tudo isso, acreditamos que a intersemioticidade dessas duas instâncias
artísticas podem produzir frutos que embebedem os olhos pelo léxico, a alma pelo
sentido e os ouvidos pela voz. Inicialmente de pretensões pequenas, a parceria de Hilst e
Baleiro é o comprovante da qualidade dos artistas nacionais; a pouca visibilidade
midiática da obra resultante dessa parceria, por outro lado, é a infeliz constatação da
desvalorização da literatura, da música e, sobretudo, da arte que se encontra na
intercessão entre as duas. No entanto, apesar dos obstáculos do caminho, música e
poesia continuam a andar juntas no percurso espaço-temporal da arte, da história e das
relações humanas.
63
ASSIS, Jamille de. Literatura e música: diálogos da crítica. Disponível em:
<http://www.cult.ufba.br/enecult2007/JamilledeAssis.pdf>. Acesso em 02 set. 2015.
BALEIRO, Zeca. Ode descontínua e remota para flauta e oboé, de Ariana para
Dionísio. São Paulo: Saravá Discos, 2005. 1CD.
BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: histórias de deus e heróis. 26.ed.
Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.
FINNEGAN, Ruth. “O que vem primeiro: o texto, a música ou a performance?”. In:
MATOS, Cláudia Neiva de et al (Org.). Palavra cantada: ensaios sobre poesia, música
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EDIÇÃO. DEZEMBRO 2016.
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