Um Estudo Lingüístico-Estilístico das Variantes Autorais na Obra

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Um Estudo Lingüístico-Estilístico das Variantes
Autorais na Obra "Poemas do Mar" de Arthur de
Salles
Rosa Borges Santos Carvalho*
RESUMO: O estudo lingüístico-estilístico das variantes autorais que se registram nos
manuscritos da obra “Poemas do Mar” do poeta baiano Arthur de Salles é parte integrante da
Tese de Doutorado “Poemas do Mar de Arthur de Salles: edição crítico-genética e estudo”.
Observa-se a distribuição das classes de palavras, signos léxicos e gramaticais, da estrutura
sintática e dos sinais de pontuação, por meio de uma orientação estatística, em relação às
operações genéticas de substituição, supressão, acréscimo e deslocamento. Pretende-se, desse
modo, mostrar o comportamento do autor ao reelaborar a sua linguagem. A necessidade de
estudar aspectos da linguagem que sejam resultantes da manipulação do texto pelo autor surge
da postura geneticista assumida pelo editor quando diante de documentos autógrafos. Nestes
autógrafos, procura-se conhecer melhor o poeta e sua obra através das marcas de correção
deixadas nos seus textos.
PALAVRAS-CHAVE: Edição crítico-genética, Comportamento do autor, Distribuição de classes
de palavras, Autógrafos.
RESUMEN: El estudio lingüístico-estilístico de las variantes autorales que se registran en los
manuscritos de la obra “Poemas do Mar” Del poeta baiano Arthur de Salles es parte
componente de la Tesis de Doctorado “Poemas do Mar de Arthur de Salles: edição críticogenética e estudo”. Obsérvase la distribución de las categorias de palabras, signos léxicos y
gramaticales, la estructura sintáctica y de las señales de pontuación, por medio de uma
orientación estatística, en relación a las operaciones genéticas de sustitución, supresión,
incremento y desplazamiento. Preténdese, así, exponer el comportamiento del autor al reescribir
su lenguaje. La necesidad de estudiar aspectos de lenguaje que sean resultantes del texto por el
autor nace de la postura geneticista asumida por el editor cuando delante de documentos
autógrafos. En estes autógrafos se busca conocer mejor el poeta y su obra a través de lãs firmas
dejadas en sus textos.
PALABRAS-LLAVE: Edición crítico-genética, Comportamiento del autor, Distribución de
categorias gramaticales, Autógrafos.
*
Professora Adjunta da Universidade Federal da Bahia - UFBA e da Universidade do Estado da Bahia – UNEB.
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INTRODUÇÃO
O poeta baiano Arthur Gonçalves de Salles (1879-1952) é uma das figuras importantes do
movimento parnasiano-simbolista e de grande representatividade na Literatura Baiana. Possui
trabalhos éditos e inéditos de temática variada. Publicou Poesias (1920), Sangue-Mau (1928),
Poemas Regionais (1948) e traduziu o Macbeth (1948), de Shakespeare. Quanto à obra Poemas
do Mar, trata-se de um livro que o poeta pretendeu publicar, mas que, infelizmente, não o fez,
ficando seus poemas dispersos em jornais e revistas da época, além de alguns inéditos.
Procuramos então reunir e editar esses poemas de temática marinha.1
Para empreendermos tal tarefa, buscamos estabelecer critérios confiáveis que pudessem
alicerçar nosso trabalho no momento de definir o texto de base ou as lições representativas do
ânimo autoral, razão pela qual procedemos ao estudo lingüístico-estilístico das variantes autorais.
A partir da leitura dos autógrafos dos Poemas do Mar de Arthur de Salles, notamos que o
poeta deixa marcas lingüísticas que revelam a sua escritura, o modo de construir a sua obra, fato
que o particulariza diante de outros poetas. Fizemos, pois, uma análise interna ou estrutural do
texto, no sentido de verificar os elementos lingüísticos que o autor manipulava quando da sua
elaboração.
1 ESTUDO DAS VARIANTES AUTORAIS
1.1 OS TESTEMUNHOS AUTÓGRAFOS
Os textos apresentam-se com muitas e/ou poucas correções, lingüísticas e estilísticas,
escritos ora numa caligrafia razoável ora numa caligrafia apressada, sobretudo nos testemunhos
de primeiro jato, os rascunhos, em vários tipos de papel: almaço, ofício, de carta, entre outros.
Os manuscritos selecionados trazem características diversas. Os rascunhos revelam que o
autor, ao começar a escrever, ainda não tinha o texto construído em sua cabeça, apresenta idéias
primitivas, sem consistência lingüística, na maioria dos casos. As cópias limpas são ao mesmo
tempo cópias e o espaço onde se manifesta o processo de criação.
1
A realização desse trabalho resultou na Tese de Doutorado intitulada“Poemas do Mar” de Arthur de Salles: edição
crítico-genética e estudo apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras e Lingüística da Universidade
Federal da Bahia em julho de 2001.
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Verificamos que a grafia2 do poeta é irregular e de traço muito rápido; os “borrões”, em
sua caligrafia nervosa, oferecem dificuldades para leitura, registrando-se falta de letras ou
sílabas, palavras e letras ilegíveis, fragmentos de frases, várias tentativas para escrever um
determinado verso ou estrofe. A cópia limpa, no entanto, apresenta-se em letra de boa forma,
traz o título do poema no centro do primeiro fólio, enquanto, nos fólios seguintes, geralmente,
lança-se o título no ângulo superior esquerdo. Esses fólios costumam vir numerados no centro do
papel ou no ângulo superior esquerdo. Neles, notam-se raras correções, quando as tem.
A irregularidade da grafia de Salles é evidenciada tanto nos manuscritos definitivos, como
nos rascunhos, principalmente nesses últimos: grafa-se o por a e vice-versa; o tracejamento do r e
do v é semelhante; o m e o n podem ter duas, três e até quatro pernas; o d, às vezes, assemelha-se
ao a; o ç ora vem com a cedilha ora não; o t não é cortado, na maior parte das vezes; confundemse o ponto ( . ) e a vírgula ( , ); os pontos das reticências ora são dois, três, quatro, cinco ou seis
pontos; os acentos agudo e grave são usados um em lugar do outro, além de um traço vertical; o
til (~), muitas vezes, incide sobre outra vogal.
Registram-se algumas alternâncias, tais como: grafia etimológica versus não etimológica,
preferência pelo uso das consoantes dobradas face às consoantes simples, uso alternado de
formas com s ou c, éo ou éu. Ressaltemos a opção do poeta pelo ditongo ou em lugar de oi,
razão pela qual se conserva, nos textos críticos, ou, conforme usus scribendi.
Arthur de Salles usa sempre as maiúsculas no início dos versos e no nome dos meses, já
as minúsculas são empregadas, com certa regularidade, depois do ponto de exclamação.
Nesses manuscritos, percebemos, além dos aspectos relacionados à grafia do autor, as
marcas de correção. São elas: o uso de um traço cheio horizontal sobre a palavra ou verso que
pretendia suprimir; uma chamada na entrelinha superior, entre palavras, ou à frente, para a lição
nova que deverá substituir aquela riscada; as barras inclinadas usadas para cortar os pontos das
reticências, transformando-as em outro sinal de pontuação ou ainda para eliminar letras; um
grande X para eliminar os versos; um círculo envolvendo as formas que serão substituídas por
uma nova lição. Outras vezes, o autor apenas sublinha a letra, palavra ou verso e assinala, com
2
Sobre a grafia do autor, consultem-se os trabalhos de Célia TAVARES. Alguns aspectos da prosa dispersa e
inédita de Arthur de Salles. Salvador, 1986. p. 35-38; de Rosa B. S. CARVALHO. Os Poemas do Mar de Arthur
de Salles: tentativa de edição crítica. Salvador, 1995. p. 33-36; de Maria Dolores TELES. A obra dispersa de
Arthur de Salles em: Nova Revista, Bahia Ilustrada e A Luva: tentativa de edição crítica, 1998. p. 122-130.
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um, dois e até três X, as correções feitas ali. Essas marcas indicam as intervenções a que o texto
foi submetido.
As passagens dubitadas, questionamentos quanto à manutenção de certos versos ou
possível mudança, são indicadas com um traço cheio, com o uso de parênteses, colchetes, e de
uma linha interrompida, sempre acompanhados de um ponto de interrogação, à margem esquerda
ou direita; em outros casos, um parêntese é aberto, envolvendo alguns versos, ou então uma
palavra ou verso são sublinhados, sem propor uma nova lição; outras vezes, sem eliminar a lição
anterior, oferece-se uma variante alternativa, sem explicitar a sua preferência.
As
correções
lingüísticas e estilísticas, de um modo geral, realizam-se, simultaneamente, nos níveis
paradigmático, quando o autor desenvolve um processo de seleção do material lingüístico de que
dispõe, e sintagmático, quando busca recombinar os elementos com o propósito de atingir uma
melhor distribuição.
Arthur de Salles, numa carta ao amigo e também poeta, Durval de Moraes, ao fazer
referência a alguns versos de um poema de sua autoria, escreve: “<<O tedioso emendar que gela
a veia>> no dizer do / nosso Álvares de Azevedo deve ser substituído pelo / constante polir que
apura a obra cá no meu dizer. (...)”.3 Este trecho justifica o ato de burilar o texto exercido pelo
escritor.
1.2 UM MÉTODO PARA A ANÁLISE DAS VARIANTES
Reunimos os rascunhos, os fragmentos, as cópias limpas, os datiloscritos e os impressos
com emendas autógrafas, e, a partir dos vestígios deixados pelo poeta nesses materiais,
procedemos ao estudo lingüístico-estilístico das variantes autorais, reconstruindo a gênese do
texto literário de Arthur de Salles, e, desse modo, traçamos o percurso das transformações que se
foram operando sobre o texto, para, então, cumprir nosso objetivo maior, fornecer ao leitor
comum ou ao especialista uma edição crítica da obra Poemas do Mar que resulta do tratamento
crítico dado aos materiais utilizados.
Observamos, nesses autógrafos, que o escritor, ao manipular os recursos de sua língua,
escolhe, entre as opções lingüísticas de que dispõe, as palavras, as estruturas frásicas, os sinais de
3
Cf. doc. PR-EP-CO-OM-062:0249-XE:02/JM, f° 1r°, L. 14-16.
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pontuação, o ritmo, e os confronta até encontrar suas combinações preferidas, que melhor irão
designar as representações da realidade e que atenderão aos propósitos de seu fazer poético.
Procuramos então estudar as correções que os testemunhos genéticos traziam.
Para o estudo do processo criativo de Arthur de Salles, procedemos à identificação,
descrição física e análise das variantes, em quatro situações textuais distintas, a saber:
1. Dos manuscritos4 – observamos as transformações genéticas no interior de cada
testemunho autógrafo, seja ele completo, incompleto, cópia limpa ou rascunho,
datiloscrito ou impresso com emendas realizadas pelo autor;
2. De um manuscrito a outro – consideramos o conjunto dos testemunhos autógrafos de
uma obra: manuscritos, datiloscritos, impressos corrigidos pelo autor, incluindo-se
também a versão divulgada em Poesias,5 livro que teve o acompanhamento rigoroso
do poeta em seu preparo;
3. Do manuscrito ao texto impresso em vida – reunimos os manuscritos autógrafos,
apógrafos, quando se justifica a necessidade de tomá-los na comparação, e os
impressos;
4. Do texto impresso ao impresso em vida – tomamos os poemas que revelam um
processo genético através das variantes impressas. Nestes casos, embora não tenhamos
nem manuscritos, nem explicações do autor sobre o seu trabalho, a história da gênese,
mesmo reduzida a história do texto impresso, se evidencia.
Trabalhamos, pois, com dois tipos de variantes: as autorais (cf. 1 e 2), que provêm das
correções realizadas pelo próprio Arthur de Salles, e as da tradição impressa (cf. 3 e 4), somente
aquelas presentes nos testemunhos publicados em vida do autor e que resultam não de erros de
leitura ou de transmissão, mas de modificações que sugerem a intervenção do autor. Nas
situações 3 e 4, não se pode afirmar, com certeza, que essas variantes sejam o resultado da
manipulação do texto pelo autor, porém sua identificação e estudo é de extrema importância para
o estabelecimento crítico dos textos. Além disso, os resultados obtidos em 3 e 4 foram
confirmados quando confrontados com aqueles verificados nas situações 1 e 2 e que, sem dúvida
4
Entenda-se manuscrito em sentido amplo, todo e qualquer testemunho em que se possa perceber “as mãos do
autor”. Segundo Grésillon, manuscrito moderno é o termo reservado aos manuscritos que fazem parte de uma
gênese textual atestada por vários testemunhos sucessivos e que manifestam o trabalho de escrita de um autor. (Cf.
GRÉSILLON, Almuth. Eléments de critique genetique: lire les manuscrits modernes. Paris: PUF, 1994, p. 244).
5
Cf. Arthur de SALLES. Poesias:1901-1905.Bahia:[s.n.], 1920. iv + 252 p. il.
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alguma, expressam o modo particular como esse poeta constrói seu texto. Finalmente, em
qualquer situação, as lições genéticas possibilitam a reconstituição do processo de composição do
texto.
Nesse momento, no entanto, nossa atenção volta-se para as variantes autorais resultantes
das situações 1 e 2. Para estudá-las, optamos pelo método lingüístico 6 aplicado por Luiz
Fagundes Duarte aos autógrafos de A Capital! de Eça de Queiroz, fazendo-lhe os ajustes
necessários de acordo com as características dos autógrafos de Arthur de Salles. Relacionamos os
testemunhos genéticos da obra Poemas do Mar – 9 manuscritos completos, 7 fragmentos, 8
rascunhos –, para estudar-lhes as particularidades, a partir do exame dos lugares de variação
genética, desprezando-se os lugares problemáticos e ilegíveis. Identificamos e marcamos os
níveis7 e momentos8 de todas as transformações textuais. Analisamos poema por poema, para,
somente depois, estabelecer uma matriz estilística. Para cada um deles, apresentamos a descrição
física de seus testemunhos autógrafos, os tipos de correção e a gênese do poema: etapas de
escritura.
Por meio de uma orientação estatística, registramos, em cada testemunho e no conjunto
deles, os percentuais relativos à freqüência e à distribuição das variantes autorais quanto ao tipo
de correção (se em cada testemunho, sete tipos: substituição à frente; substituição na entrelinha
ou à margem; substituição por sobreposição; acrescentamento na entrelinha, à margem;
supressão; adiamento; deslocamento; se no conjunto dos testemunhos, quatro tipos: substituição,
acréscimo, supressão e deslocamento); à classe gramatical, tomando-se os signos léxicos
(substantivo, adjetivo, verbo e o advérbio) e os signos gramaticais (preposição, conjunção,
pronome, artigo); à estrutura sintática, levando-se em conta o sintagma nominal, o sintagma
adjetival, o sintagma verbal, o sintagma adverbial, o sintagma preposicional, a frase, o verso, o
fragmento de frase, parte do verso, e a estrofe; aos traços de suprassegmentalidade – os sinais de
pontuação.
6
Cf. Duarte 1993.
Fase do processo genético.
8
Estado do texto num determinado testemunho do processo genético. De acordo com o método de trabalho do autor,
certas operações (lingüísticas ou estilísticas) tendem a ocorrer num momento específico do processo (Duarte 1997:
83).
7
35
1.3 ALGUMAS DIRETRIZES LINGÜÍSTICO-ESTILÍSTICAS
Nesses autógrafos selecionados, identificamos vários tipos de correção que se manifestam
através de marcas físicas, no interior de cada testemunho, e não-físicas, quando se considera a
evolução de um texto para outro, no conjunto de seus testemunhos. Nos rascunhos,
evidentemente, foi maior o número de intervenção do autor, com destaque para a supressão que
se caracteriza, sobretudo, pela eliminação de frases completas, os versos, dos fragmentos de
frase, parte dos versos, das palavras e letras; a substituição, por sua vez, teve o predomínio entre
os textos passados a limpo e reflete a preocupação do autor em adaptar seu discurso interior às
regras da gramática, fazendo suas escolhas, buscando a forma mais adequada ao contexto. Nos
datiloscritos e impressos, porém, as correções correspondem, em sua maioria, às falhas do
datilógrafo ou do tipógrafo, respectivamente. Somente em um dos datiloscritos, o poeta
manifestou a intenção de modificar o texto, embora não alcançasse, ali, a versão definitiva. Nos
demais, parece que, embora fizesse correção ao texto, alguns desses lapsos cometidos pelo
tipógrafo ou pelo datilógrafo lhe passaram desapercebidos. As características que esses materiais
apresentam, concernentes ao tipo de correção, possibilitam ao editor apresentar hipóteses quanto
à cronologia dos testemunhos de um poema.
Notamos também que o poeta trabalha, preferencialmente, com os signos léxicos, o verbo,
o adjetivo e o substantivo, palavras que têm função básica nas frases e que certamente constituem
um inventário aberto que permite várias possibilidades associativas de combinação. O manuseio
dessas palavras, principalmente dos adjetivos e dos verbos, pelo autor, revela um equilíbrio entre
dois aspectos característicos de sua produção poética, o descritivo e o narrativo. A substituição
entre os signos léxicos acontece, na maioria das vezes, entre palavras que pertencem à mesma
classe gramatical e que têm o mesmo valor referencial. Nesses casos, a modificação prima pela
concisão, pela expressão concentrada em função da imagem e da metáfora que o poeta deseja
construir, valorizando a diferença entre os sinônimos. Em qualquer situação, no entanto, impõese o respeito à estrutura métrica e rimática. A idéia também costuma ser preservada, porém, às
vezes, a preocupação com a forma termina por comprometer o conteúdo, ou seja, ganha-se em
forma e perde-se em conteúdo. Tomemos, como exemplo, o V. 1 do poema Praia em festa nos
testemunhos 0431, manuscrito, e PO (1920), do livro Poesias: <<A praia estremecera ampla e
deserta. A areia>> (ms. 0431) e <<A praia acorda e vibra, ampla e deserta. A areia,>> (PO
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(1920)). Aqui, Salles substituiu um verbo (estremecera) por dois (acorda e vibra), com o mesmo
número de sílabas, preservando o conteúdo, tornando o verso mais expressivo. Em alguns
momentos, essas modificações feitas ao texto parecem querer evitar a repetição da palavra: em O
cão de bordo,V.7, Olhando foi substituído por Mirando: <<Olhando o mar festivo ou de revolto
seio>> (ms. 0259) por <<Mirando o mar revolto ou de múrmuro seio,>> (VA (1946)), talvez
porque o V. 5 comece por Olhando: <<Olhando o céu escuro, ermo de estrelas, vago,>>. Mesmo
que a intenção primitiva tenha sido evitar a repetição da palavra, a mudança realizada no V. 7
valorizou a aliteração. A substituição pode ainda ocorrer para corrigir uma lição equivocada,
como em A Noute, o Mar, os Mortos, quando o autor emenda morte para noute, no título, ou para
desfazer uma incoerência, como no poema Canção de amor, no V. 63, << Vela enfunada porque
o vento é morto>> .
Entre os signos gramaticais, podemos assegurar que o autor manipula, com maior
freqüência, as conjunções, os pronomes e as preposições. A conjunção foi muitas vezes
suprimida, outras vezes, acrescentada, fato que nos confunde quanto ao seu emprego estilístico.
As conjunções mais freqüentes são e, quando e que, todas elas marcam, no discurso, a oralidade,
a história que é contada, daí talvez a dúvida do poeta quanto à ação de mantê-las ou suprimi-las.
A preposição foi, em muitos casos, substituída por outra, buscando-se respeitar à regência de
alguns verbos que, quando alterados, exigiam, portanto, outra preposição. Em se tratando do
pronome, merece destaque a manipulação do demonstrativo este substituído por esse – traço
estilístico importante para estabelecer a relação de antecedência entre os testemunhos de um
poema, este revela o mais antigo, esse, o mais recente.
As alterações concernentes à distribuição dos elementos de natureza sintática mostram-se,
no interior de cada testemunho autógrafo, despretensiosas, dizem respeito, na maioria dos casos,
às várias tentativas para escrever o verso; enquanto, de um testemunho a outro, notamos,
geralmente, uma preocupação estilística, na busca do sentido mais preciso, no que se refere à
estrutura melódica da frase, substituindo um verso por outro, preservando-se a idéia principal,
acrescentando novos versos, suprimindo outros. O que o autor busca, por certo, é a frase perfeita,
dentro da forma apurada, construída com todos os seus ingredientes léxicos, gramaticais e
rítmicos.
Quanto à pontuação, esclarecemos que não se pode entender a aplicação de suas regras
como algo categórico, pois cada autor tem sua maneira particular de pontuar e, além disso, num
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texto poético, existem regras de versificação, que também são uma forma de pontuar: o
cumprimento do verso, a estrofe, a rima é que imprimem o ritmo e a pausa. Assim, a pontuação,
propriamente dita, tende a ser mais sóbria. Entretanto, em se tratando de Arthur de Salles,
podemos dizer que o autor não perdia a oportunidade de pontuar, o que lhe constituía uma
particularidade. A propósito, saliente-se o uso exagerado da vírgula, principalmente, no que
tange ao seu acréscimo, e também a utilização das reticências, do ponto de exclamação e da
interrogação, bem como a combinação desses sinais, que, em seu uso expressivo, seguem
escolhas individuais do escritor e traduzem seus sentimentos, sendo mais significativa no
primeiro momento da elaboração do poema, pois, quando da retomada do texto, a pontuação
mostra-se mais gramatical. Depois da vírgula, o escritor lidou, com uma freqüência maior, com o
ponto e as reticências. Em relação à substituição, é relevante a do ponto por reticências e viceversa.
Do exposto, podemos constatar que, uma vez obtido um discurso eminentemente
estruturado, com base nas regras da Gramática da Língua Portuguesa, o autor passa a ocupar-se
de aspectos de ordem estilística, ou seja, reavalia o léxico-base, reordena esse léxico em novas
estruturas sintáticas, interfere no sistema gramatical, procede à distribuição e reedistribuição dos
sinais gráficos de pontuação, construindo conteúdos que vão além dos aspectos semânticos já
veiculados pelos signos léxicos, de onde emerge uma gramática individual, estilística, a
gramática de Arthur de Salles.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Da análise do material lingüístico envolvido nessas transformações genéticas, podemos
assegurar que essas ocorrências relacionadas à manipulação do texto por Arthur de Salles são
absolutamente normais e dão conta de uma linguagem “bem comportada” de quem se limita a
aceitar as regras da gramática. Seus textos foram submetidos a um novo processo de reordenação
gramatical, com ênfase para a expressividade poética. Trata-se da busca do texto mais elaborado,
quanto às escolhas lexicais, ao ritmo, à versificação, enfim, quanto ao labor estilístico.
No entanto, todas essas alterações genéticas, partindo de sua quantificação, fazem ver o
modo particular como o poeta constrói seu texto. Além do mais, o exame das variantes extraídas
dessas situações textuais fez-se imprescindível para o estabelecimento crítico dos textos,
principalmente no que diz respeito à relação estabelecida entre os testemunhos, numa árvore
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genealógica, à escolha do texto de base e à escolha das lições representativas do ânimo autoral.
Por exemplo, o acréscimo da vírgula e seu uso expressivo e constante pelo poeta fundamentaram
a nossa decisão de interferir na pontuação de alguns versos do poema Anchieta, a substituição de
este por esse ou os tipos de correção nos permitiu apresentar hipóteses quanto à cronologia dos
testemunhos de um poema. Logo, esse estudo das variantes aqui realizado justifica e enquadra o
nosso trabalho editorial.
REFERÊNCIAS
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Letras, Universidade Federal da Bahia, Salvador.
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Dissertação (Mestrado em Letras) - Instituto de Letras, Universidade Federal da Bahia. Orientada
pelo Prof. Dr. Nilton Vasco da Gama.
DUARTE, Luiz Fagundes. Crítica Textual. Lisboa, Universidade Nova de Lisboa, 1997. 106 f.
Relatório apresentado a provas para obtenção do título de Agregado em Estudos Portugueses,
disciplina Crítica Textual.
______. A fábrica dos textos: ensaios de Crítica Textual acerca de Eça de Queiroz. Lisboa:
Cosmos, 1993. 144 p.
______. Para um método lingüístico em crítica textual. In: CONGRESSO INTERNACIONAL
DE LINGÜÍSTICA E FILOLOGIA ROMÁNICAS, 19., 1989, Coruña. Anais... Coruña:
Universidade de Santiago de Compostela, 1989. p. 27-33.
GRÉSILLON, Almuth. Eléments de critique genetique: lire les manuscrits modernes. Paris:
PUF, 1994. 258 p.
TAVARES, Célia Goulart de Freitas. Alguns aspectos da prosa dispersa e inédita de Arthur
de Salles. 1986. 225 f. il. Dissertação (Mestrado em Letras) - Instituto de Letras, Universidade
Federal da Bahia. Orientada pelo Prof. Dr. Nilton Vasco da Gama.
TELES, Maria Dolores. A obra dispersa de Arthur de Salles em: Nova Revista, Bahia
Ilustrada e A Luva: tentativa de edição crítica. 1998. 248 f. il. Dissertação (Mestrado em
Letras) - Instituto de Letras, Universidade Federal da Bahia. Orientada pela Profª. Drª. Célia
Marques Telles.
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