1 - CRISTOLOGIAO ambiente em que Jesus

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1-CONTEXTO SOCIAL, POLÍTICO E RELIGIOSO DO TEMPO DE JESUS.
O ambiente em que Jesus nasceu, cresceu, viveu e morreu, em torno do ano 33, é o da Palestina (terra
prometida, terra de Canaã, terra de Israel) antes do ano 70 D.C, período marcado pela dominação Romana,
representada por Herodes, o grande(37 a 4 A.C),H. Antipas ( 4 A.C. a 39 D.C.),H. Agripa (41 a 44 D.C).Foi um
período de muita instabilidade social, revoltas, insurreição contra Roma e violência (zelotas). A região era dividida
em três Estados: Galiléia, ao norte onde vivia Jesus; Samaria, ao centro; Judéia, ao sul, onde ficava a cidade de
Jerusalém, capital do País. O povo era vigiado e controlado economicamente pelo Império romano.
1- OS GRUPOS RELIGIOSOS DA ÉPOCA DE JESUS:
No tempo de Jesus existiam vários grupos que se diferenciavam no modo de se relacionarem com a política,
economia e a religião. São eles:
Sumos Sacerdotes: Os sumos sacerdotes detinham o poder religioso. O grupo sacerdotal tem origem no AT.e era
ligado à tribo de Levi. É o grupo responsável pelo culto, pela interpretação das escrituras e lei divina para o povo.
Havia profunda ligação entre o poder temporal e o religioso. Ainda hoje em Israel o poder temporal e religioso
quase se confundem (Teocracia).
Sinédrio (grande conselho): Formado pelos sumos sacerdotes depostos e representantes das famílias mais
importantes e dos escribas. Tinha 70 membros e era um organismo de decisão diante das questões religiosas mais
relevantes. Jesus é interrogado no Sinédrio no processo de sua condenação (Jo 18,13s).
Saduceus: Era a elite dominante da época: proprietários de terras e comerciantes. Desse grupo provinha os anciãos
(os que administravam o tribunal de justiça – Sinédrio) e os sacerdotes. Os saduceus eram detentores do poder
político religioso. Foram os saduceus os principais responsáveis pela morte de Jesus. Eram aliados dos romanos,
por isso, odiados pelos nacionalistas. Era um grupo conservador em relação à religião. Não aceitavam a
ressurreição (Mc. 12,18)
Fariseus (separados): Separam dos Saduceus por divergências. Formado por pessoas de todos os segmentos. Eram
nacionalistas. Contra os romanos. Exerciam uma resistência passiva. Consideravam os pobres malditos, porque não
conheciam a lei. Por isso, não podiam se salvar. Eram rigorosos no cumprimento da lei. Criaram as sinagogas e
oposição aos saduceus que controlavam o templo.
Zelotas (zelo, entusiasmo)- sicários (apunhaladores): era um partido radical nascido na Galiléia. Formado por
pequenos camponeses da camada mais pobre, massacrado por um sistema fiscal impiedoso. Queriam expulsar os
dominadores através da luta armada. Considerados subversivos. Usavam táticas de guerrilhas e terrorismo
(assassinatos de traidores). Queriam instalar na Palestina um reino onde Deus fosse o único Rei. Simão pertencia a
este grupo (Lc 6,15).
Escribas ou Doutores da lei: o grupo de maior prestígio na época. No AT era alto funcionário dos Reis. Além de
cuidar dos arquivos e documentações, fazia a compilações das tradições e crenças do povo das fontes escritas já
existentes. Assim iniciou a escritura do AT. Era o intelectual do judaísmo, com o título de Rabi(mestre). O poder
estava no saber. Eram especialistas na interpretação da escritura, do direito e da educação. Eram influentes no
Sinédrio, sinagoga e escolas. Eram os guias espirituais do povo.
Os Essênios: Em 1947 foram descobertos manuscritos sobre os Essênios. Formavam uma comunidade monástica
em QUNRÃM, junto ao Mar Morto. Havia várias comunidades Essênios espalhadas pelo país. Os essênios viviam
em comunidades com regras e princípios extremamente rígidos. Os essênios separaram e buscaram o isolamento
para evitar qualquer impureza. Segundo alguns estudiosos, João Batista teria conhecido os princípios e regras dos
essênios. Por isso, era muito rigoroso e duro na sua pregação.
2 - PRINCIPAIS FESTAS LITÚRGICAS DO CALENDÁRIO JUDAICO (6 talhas de água- Jo 2,6)
Páscoa: Celebrava a libertação do Egito. Era uma festa nacional (peregrinação). Foi durante esta festa que Jesus
institui a Eucaristia. Era a festa mais importante (Ex 12,1-14).
Pentecostes: Celebrada 50 dias depois da Páscoa. Era a ocasião para a renovação da aliança. Lucas coloca a vinda
do Espírito Santo nessa festa.
Tendas: Era a mais espetacular de todas. Para celebrar cada família construía nos arredores de Jerusalém uma
Cabana de folhagens na qual morava por uma semana, relembrando os seus antepassados que moravam nas cabanas
quando saíram do Egito. Á noite o povo saia em procissão com Tochas, iluminando toda a cidade.
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Tabernáculos: Festa da colheita. Celebrada após a colheita das azeitonas e das uvas.
Pães Ázimos: No princípio da colheita das cevadas. Durante uma semana.
Semana: Depois da colheita do trigo
3- O Mistério (mysterion) de Cristo
Mistério significa um objeto ou verdade conhecida pela de revelação no NT. Assim, toda a vida de Cristo é
mistério: Mistério da encarnação, da redenção, da paixão e morte, mistérios do reino dos céus. A Igreja,
continuadora de Cristo é, também, mistério. Os mistérios, conhecidos pela revelação, se destinam à salvação da
humanidade, realizada por Jesus, através de sua morte e ressurreição. Os mistérios da ação salvadora de Deus são
,também, chamados de “economia da salvação” ou “história da salvação”.
4- Os mistérios da infância e da vida oculta de Jesus
Sobre o longo tempo de Jesus em Nazaré conhecemos muito pouco. Pois, foi a última parte da redação dos
evangelhos. Lc e Mt, selecionam só os elementos essenciais da vida de Jesus. Em Mt domina a figura de José e em
Lc a figura de Maria e outras mulheres. A narrativa de Mt, reveste-se de uma cor de tragédia e dor, ao passo que
em Lc, é permeada de espírito de alegria. O silêncio sobre a Infância e juventude de Jesus em Nazaré, é um silêncio
que fala por si. Talvez para enfatizar a simplicidade, humildade e pobreza de Jesus. Era uma pessoa simples e
comum. Quando pequenino foi educado por Maria e mais tarde por José, que era quem devia introduzi-lo à Tora e
tinha responsabilidade legal sobre ele. Na sinagoga ele ouvia as Escrituras que eram lidas e interpretadas na
pregação. No dia-a-dia, exercia uma profissão, a de carpinteiro. Seus conterrâneos ficam escandalizados e dizem
segundo Mc 6,3: “Não é ele o carpinteiro?”, e segundo Mt 13,55: “Não é ele o filho do carpinteiro?”. Jesus
aprendera esta profissão de José, como mais tarde, no judaísmo rabínico, se pode demonstrar que o Pai tinha o
dever de ensinar um ofício ao filho. Um dito rabínico diz o seguinte: “Quem não ensina um ofício ao filho, o
está ensinando a roubar”. Em Nazaré se constrói a personalidade do Filho de Deus que se fez homem no ventre de
Maria (9 meses no ventre). Jesus recebe de Maria as características físicas e os elementos psicológicos, o caráter e o
temperamento. Recebe de Maria tudo o que uma criança normal recebe de uma mãe. O sim de Maria foi
importante, também, para o menino que desde o seio materno aprendeu a fidelidade a Deus e o amor ao povo, a
disponibilidade total e a entrega da própria vida. Os principais mistérios da Infância de Jesus são: Natal,
Circuncisão, Epifania, fuga para o Egito e apresentação ao templo. A finalidade da narrativa da infância pela Igreja
primitiva era a formação de uma ideia ou conceito popular da pessoa, do caráter e da missão de Jesus, filho de Deus
e messias esperado. Em fim, pouco sabemos da infância de Jesus, entretanto, a vida oculta Jesus é uma etapa
importante da sua obra salvadora.
5- Mistérios da vida pública de Jesus:
Grande parte da vida pública de Jesus não se encontra nos evangelhos. Entretanto, os Sinóticos apresentam um
roteiro comum da vida pública de Jesus. O que foi escrito nos evangelhos foi “para crerdes que Jesus é o Cristo, o
filho de Deus, e para que, crendo, “tenhais a vida em seu nome”(Jo. 20,31). Jesus foi de Nazaré, na Galiléia, para o
Jordão, a fim de ser batizado por João (cf. Mc 1,9). É então que ele ingressa na vida pública de acordo com Lc 1,5;
O mistério do batismo inaugura a missão salvadora de Jesus. Sabemos por Lc 3,23 que Jesus, ao manifestar-se em
público, tinha cerca de 30 anos de idade. Esta última informação possui também uma motivação teológica, porque
deve estar remetendo a 2Sm 5,4: Davi, o protótipo do Messias, também tinha 30 anos quando se tornou rei. Além
disso, no contexto cultural da época, só após os 25 anos(maioridade), as palavras de uma pessoa tinham
credibilidade
6 – Mistério sobre a Identidade de Jesus:
(“E vós quem dizeis que eu sou”-Mc 8,14)
A seguir apresentaremos uma reflexão teológica sobre a identidade de Jesus Cristo, a partir dos evangelhos e
dos documentos da Igreja. Pois, devemos ter uma concepção clara e verdadeira de Jesus Cristo. Conforme a
concepção que temos de Jesus Cristo, nós edificamos nossa vida, nossos projetos pastorais e nossos compromissos
na Igreja e na sociedade.
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Para uma melhor compreensão da identidade de Jesus, iniciamos esclarecendo a relação entre o Cristo da fé
e o Jesus Histórico. Assunto amplamente discutido pela Cristologia moderna. São dois conceitos teológicos:. Jesus
histórico é o Jesus que pode ser reconstituído pela investigação histórica, aquele homem, filho do carpinteiro José e
Maria, que viveu e morreu na palestina (1 séc.). Se refere à prática histórica (ações, palavras, gestos, serviços) da
pessoa de Jesus, antes da ressurreição.Para alguns estudiosos, o Jesus histórico(figura humana), foi sufocado e
transfigurado pela fé da Igreja primitiva. Cristo da fé: É aquele interpretado e anunciado pela Igreja apostólica
depois da Páscoa, o Cristo dos símbolos de fé, das declarações dogmáticas. Na verdade, a fé em J. Cristo não seria
possível sem a ressurreição. A fé dos discípulos antes da ressurreição, era muito embrionária e imperfeita. Na
prática pastoral deve existir uma articulação entre o Jesus histórico e o Cristo da fé. O Novo testamento nunca
separa o Jesus terrestre, o Jesus da etapa do serviço, do Jesus glorificado. Trata-se do mesmo J. Cristo em duas
etapas diversas de sua existência.
6.1-Jesus: verdadeiro Deus e verdadeiro homem
Jesus Cristo se fez verdadeiramente homem permanecendo verdadeiramente Deus. Esta verdade de fé a
Igreja teve que defende-la e clarificá-la nos primeiros séculos diante das heresias ou dos erros Cristológicos que se
multiplicavam. Quais foram as principais heresias ou erros Cristológicos do III e IV séculos.
Arianismo (Arios): Um sacerdote de Alexandria, chamado Ario, propagou que Jesus não era igual a Deus, mas um
intermediário entre Deus e o homem. Alguém que não era realmente Deus, nem realmente homem e era inferior ao
Pai. Ario afirmava que o filho de Deus “veio do nada e era uma substância diferente da do Pai”. Contra essa posição
levantou o povo cristão da época o 1 Concílio de Nicéias (325). O concílio condenou Ario e declarou através do
Credo que o Filho de Deus é “gerado, não criado, consubstancial ao Pai”.
Nestorianismo (Nestório): Nestório, Patriarca de Constantinopla, propagou a distinção “entre Deus filho e homem
Jesus”. Isto é, queria separar o que é homem e o que é Deus. Corria-se o perigo de imaginar dois Jesus paralelos,
um divino outro humano. Contra esta posição levantou o Concílio de Éfeso (431) afirmando: “Jesus é um só”. O
filho de Deus é também, o homem Jesus. E, portanto, Maria é realmente a mãe do filho de Deus. O concílio de
Éfeso insistia que a humanidade de Cristo não é outro sujeito senão a pessoa divina do filho de Deus, que a assumiu
e fez sua desde a sua concepção.
Monofisismo (Eutiques): Um monge chamado Eutiques passou a propagar que a humanidade de Jesus foi
desfigurada ou absorvida por sua união com a divindade. A humanidade de Jesus é esvaziada e diminuída. Jesus
teria se disfarçado de homem. Contra esta posição levantou o concílio de Calcedônia (451) reafirmando a unidade
da pessoa divina do filho de
-3Deus. Assim declara o concílio de Calcedônia: “Um só é mesmo, Senhor, filho único, que devemos reconhecer em
duas naturezas: sem confusão (inconfundível), sem mudanças (imutável), sem divisão (indivisível), sem separação
(inseparável)”. A partir daí a doutrina Cristológica não mudou. A definição teológica dos 06 primeiros concílios
tornou-se a doutrina oficial até hoje. Vamos conferir o Credo mais longo (Niceno-Constatinopolitano).
Portanto, Jesus Cristo, sendo verdadeiro Deus e homem, tem também uma inteligência, uma vontade, uma
alma racional, perfeitamente concordantes e submetidas à vontade divina, que tem em comum com o Pai e o
Espírito Santo (o querer do Pai é o querer de Jesus).
Ainda hoje corremos o risco de repetir os erros passados. Sobretudo, o monofisismo. Às vezes, sem
perceber, esvaziamos a humanidade perfeita de Jesus. É preciso reforçar na evangelização a dimensão humana de
Jesus e sentido dos seus atos humanos, a partir dos evangelhos (alegria, tristeza, emoção, dor, ternura, sensibilidade
etc.)
6.2-Jesus: O revelador (plenitude da revelação)
Depois de nos ter falado de muitos modos, através dos patriarcas e profetas, quando chegou a plenitude
dos tempos, Deus nos envia seu Filho, o Verbo, que nos revela o rosto do Pai. ”Quem e me vê, vê o meu Pai”(Jo
14,9). O Pai o apresenta “Este é o meu filho amado: Ouvi-o (Lc 9,35). O filho de Deus torna-se o nosso irmão
maior. É o homem total no qual todas as pessoas se reconhecem e constituem definitivamente a família dos filhos
de Deus. O homem de Nazaré revela o rosto do Pai. Jesus é o rosto humano de Deus e o rosto divino do homem.
“Jesus, o novo Adão, revela plenamente o homem ao próprio homem e lhe revela sua altíssima vocação. Por
isso, o mistério do homem só se esclarece no mistério do verbo encarnado(G.S, 22)” . Deus se revela de modo
pleno em Jesus Cristo (plenitude da revelação). Jesus é a palavra do Pai no mundo. É o grito ou o eco de Deus Pai
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no mundo. Ele é o evangelho do Pai. Toda a vida de Jesus é revelação do Pai: suas palavras, seus atos, seus
silêncios, seus sofrimentos, sua maneira de ser e de falar
No templo Jesus manifesta especial interesse pelas coisas do Pai. O Pai foi o principal conteúdo do
ensino de Jesus.. Jesus é o “Amém” ou “assim seja” do Pai. Mas esta compreensão não lhe vinha de fora, pois tinha
aprendido de Maria e José dentro da vida escondida e silenciosa de Nazaré. Percebe os desvios da lei e do templo
que deixava de ser a casa do Pai para se tornar covil de ladrões. Jesus não aceita a maneira como os líderes tratavam
os pobres e os pequenos. Para os Judeus letrados, os ignorantes e iletrados que não conhecessem a lei era
considerados malditos, por não cumpri-los e, por isso, atrasavam a chegada do Messias.
Em fim, Jesus, em toda sua vida, mostra-se como modelo. Ele é o homem perfeito. ”Viveu em tudo a
condição, exceto o pecado”. “Tende os mesmos sentimentos de Jesus” (Fl.2,5)
6.3-Jesus: O salvador da humanidade
Jesus é o nosso salvador e mediador entre Deus e os homens (Jo 3,16). O verbo se fez carne para salvarnos e reconciliar-nos com Deus (1Jo 4,10;4,14). Jesus se encarna para tornar-nos participantes da natureza divina.
Portanto, Ele diviniza o homem e o introduz na comunhão trinitária. O ato redentor supremo é sua paixão e morte.
Ele mesmo disse “Eu vim para salvar e não condenar...” (Jo). Jesus é a graça salvadora do mundo.
No mistério da paixão de Jesus, nasce verdadeiramente a fraternidade, pois se aquele que morre na cruz é o
Deus misericordioso que leva como companheiro o paraíso o ladrão crucificado com Ele, então não existe mais
nenhuma separação: “não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos
vós sois um em Cristo”(Gl 3,14). A partir deste gesto supremo, o amor está implantado definitivamente no coração
da humanidade. Na cruz onde o Filho morre, onde o Pai o entrega à humanidade e o Filho entrega o Espírito,
completa-se a obra messiânica. “Foi Deus que nos amou e enviou seu filho como vítima de expiação por nossos
pecados (1Jo4,1-10).
6.4-Jesus: Proclamador do reino de Deus Pai no mundo
Ele é enviado. Procede do Pai. Jesus exerce uma função mediadora: Deus para a humanidade e a
humanidade para Deus. Apresenta-se como ponte de ligação entre o céu e a terra. Veio para anunciar a boa nova da
salvação para os homens. “Completou-se o tempo. Convertei-vos e crede no evangelho” (Mc 1,15). Ele é o
anunciador e realizador do Reino. Constituiu-se o conteúdo mais importante desse reino. Ele é a personificação do
Reino. A atividade missionária de Jesus desenvolveu-se em 4 fases ou etapas de acordo com os evangelhos
sinóticos (Marcos, Mateus e Lucas):
A)Primavera na Galiléia: Esta primeira fase da pregação de Jesus é marcada pelo entusiasmo inicial dos
discípulos e euforia do povo em relação à pessoa de Jesus. Após o batismo Jesus se entrega totalmente à missão de
proclamar o Reino. Convida os discípulos para colaborar na missão. Nesta primeira fase Jesus experimenta
momentos de grande popularidade e influência social. Opera milagres, curas, distribui vinho na festa, multiplica
pães etc. o povo o procura de todo lado. E eles não têm tempo nem para comer. Para rezar tem que se esconder do
povo. Porém, Jesus percebe que as multidões o procuram mais pelas vantagens imediatas ou por interesses do que
para abraçar o seu projeto (Jo 6,26). O povo quer até faze-lo Rei (tentação no deserto).
B)A verdadeira identidade e a crise dos discípulos: Esta segunda fase da pregação, Jesus concentra sua pregação
no seu verdadeiro messianismo ou sua verdadeira identidade. Nesta fase aparece com muito vigor o mistério da
pessoa de Jesus (Mc
-48,29). Esta revelação de Jesus provoca conflitos, desencontros e crise nos seus discípulos. Um sentimento de
frustração, desprezo e rejeição pela pessoa de Jesus e sua mensagem vai crescendo entre os discípulos e a multidão.
Diante disso, Jesus toma consciência do fracasso de sua missão entendida como conversão imediata de Israel e
busca na oração o discernimento da vontade do Pai. E percebe que deve continuar sua missão salvadora. E que isto
lhe custará a vida. A realização plena do Reino passa pela cruz. Ele é o servo sofredor de Javé.
C)Viagem para Jerusalém: Nesta fase a pregação de Jesus muda: insiste menos nas expectativas messiânicas e
sublinha mais o seguimento por parte dos discípulos e a cruz que daí deriva. Concentra sua atenção nos discípulos e
se afasta da multidão. Pois, os discípulos deveriam continuar sua obra salvadora no mundo. Nesta fase Jesus
anuncia abertamente sua paixão, morte e ressurreição. Realiza menos milagres e, por isso, perde popularidade, até
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entre os discípulos. A única referência nesta fase é o Pai. Jesus experimenta, também, a tentação do desânimo. Veja
o que relata o evangelista Lucas 3, 34-35.
D) O mistério da Páscoa: (Paixão, morte e ressurreição e Jesus): Nesta fase se revela o testemunho de entrega
total de Jesus pelos homens. Numa atitude de obediência a fidelidade ao Pai, Jesus se imola (sacrifício) pelos
nossos pecados. O Pai o ressuscita gloriosamente, consolidando definitivamente sua missão salvadora. Para os
discípulos, o aparente fracasso se torna apelo para recomeçar tudo de novo. Os discípulos são confirmados na fé e
revestidos do Espírito Santo para compreenderem tudo que se passou com o divino mestre Jesus. O mistério pascal
da cruz e da ressurreição de Cristo está no centro da boa nova que os Apóstolos e a Igreja, na esteira deles, devem
anunciar ao mundo. Jesus ressuscitado gloriosamente pelo Pai é constituído Senhor do mundo, da história e da
Igreja. A ressurreição é a vitória definitiva sobre a morte e a realização das promessas contidas nas escrituras (Lc
24,5-6; 1Cor 15,3-4). A ressurreição confirma e prova, definitivamente, que Jesus é Deus.”Quando tiverdes elevado
o Filho do Homem, então sabereis que EU SOU”(Jo 8,28). Jesus ressuscitado continua vivo e atuante na sua Igreja:
Eucaristia, Palavra, Ministros, comunidade e nos irmãos.. Enfim Jesus não é uma idéia, não é um fantasma (Mc
6,49), nem uma saudosa memória. É presença viva e real. Ele está no meio de nós. É o que clamamos na celebração
eucarística. Ele nos diz a toda hora: “Coragem! Sou eu! Não tenham medo! (Mc 6,5). A sua presença é tão real e tão
à vontade, que ele tem a coragem de dormir em nosso barco, no meio das tempestades da nossa vida. É Ele que
mantém os barcos de nossas comunidades seguros e no rumo certo. Jesus faz a nós, hoje, a pergunta que fez aos
discípulos medrosos, durante a tempestade: Vocês ainda não têm fé? (Mc 4,40)”. A Páscoa de Jesus deve também se
tornar páscoa de todos nós. Morrer dentro de nós para reviver na fraternidade. Se nosso Deus é assim, precisamos
mergulhar na sua páscoa e a fraternidade também acontecerá entre nós.
A fá na ressurreição tem por objeto um acontecimento ao mesmo tempo historicamente atestado pelos discípulos
que encontraram verdadeiramente o ressuscitado e misteriosamente transcendente, enquanto entrada da
humanidade de Cristo na glória de Deus.
6.4 - Jesus Histórico e o Cristo da fé (o ressuscitado).
Aquele que foi “visto, ouvido, tocado com as mãos”(cfr. 1 Jo 1,1), a figura histórica do filho de Maria, do filho do
carpinteiro, cujos familiares e parentes eram conhecidos em meio ao povo, aquele que morreu na cruz, é inseparável
Daquele que que se manifestou ressuscitado e glorioso, com poder e autoridade divina. O Cristo da fé, de acordo
com os teólogos modernos, não é um conceito Cristológico oposto ao Jesus histórico, mas o integra e o assume em
sua totalidade. Portanto, Jesus não é apenas uma projeção das primeiras comunidades.
6.5-Jesus: o evangelho do Pai (conteúdo da Evangelização)
Jesus, evangelho do Pai é conteúdo principal da nova evangelização. Evangelizar é: “Anunciar o nome,
a doutrina, a vida, as promessas, o reino e o mistério de Jesus de Nazaré, filho de Deus” (EN. 22). A nova
evangelização tem, como ponto de partida, a certeza de que em Cristo há uma “riqueza insondável”(Ef.3,8), e como
objetivo a tarefa de suscitar a adesão pessoal a Jesus Cristo e à Igreja de tantos homens e mulheres batizados, que
vivem sem energia o cristianismo, “tendo perdido o sentido vivo da fé, inclusive já não se reconhecendo como
membros da Igreja e levando uma existência distanciada de Cristo e de seu evangelho” (Rm, 33). Nossa missão é
fazer com que a adorável pessoa de Jesus Cristo sempre presente no coração e nos lábios de todas as pessoas. Para
isso, devemos renovar nossa linguagem e nossos métodos, para que todos se sintam atraídos e tocados pela nossa
mensagem.
6.6-Jesus: O libertador
Jesus veio ao mundo para libertar o homem de todas as suas enfermidades: físicas, psíquicas e
espirituais. Todas as atitudes de Jesus eram atitudes libertadoras do homem. Uma libertação integral da pessoa
humana. Assim afirma o documento de Puebla: “Não podemos desfigurar, parcializar ou ideologizar a pessoa de
Jesus Cristo, nem fazendo dele um político, um líder, um revolucionário ou um simples profeta, nem reduzindo ao
campo do meramente privado aquele que é o Senhor da história” (P. 178) Jesus trava uma dura luta contra as forças
do mal que oprimem e escravizam o homem (demônios). Veio para todos, mas preferencialmente para os pobres e
humildes. Os pobres são os preferidos de Deus. E Jesus nos mostra que eles são o coração do evangelho. A teologia
da libertação surgiu na América Latina para lembrar esta verdade do evangelho: Os pobres constituem o coração do
evangelho. O evangelista Marcos é o evangelho das curas de Jesus.
6.7- Jesus: Sacerdote, Profeta e Rei (tríplice função de Cristo)
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Sacerdote: enquanto sacerdote Jesus é o grande mediador entre Deus e os homens. Se oferece como vítima,
imolado na cruz, para apagar nossos pecados. É o novo, eterno e verdadeiro sacerdote. Toda a vida de Cristo foi
oferenda ao Pai.
Profeta: enquanto profeta Jesus anuncia e denuncia todas as forças do mal que escravizam os homens. É o grande
mensageiro e porta-voz do do Pai no mundo.
Rei (pastor): Enquanto Rei, Jesus é aquele que vem instaurar o reinado de Deus neste mundo. Não um rei político
e dominador, mas servidor dos homens. Como Rei ele ama e conduz o seu povo para Deus. Ele quer reinar em
nossa vida pessoal, na família, na Igreja, na sociedade e no mundo.
6.8- Jesus e sua Igreja
Para a realização do reino, “Jesus instituiu os doze, para que ficassem com ele, para enviá-los a pregar
(Mc 3,18), aos quais revelou os “mistérios” do Pai fazendo deles seus amigos e continuadores de sua missão,
estabelecendo Pedro como fundamento da nova comunidade (Mt16,18). Envia dois a dois ( sentido comunitário da
missão) e funda a sua Igreja sobre a herança de Israel. Por isso, escolhe doze apóstolos (12 tribos-universalidade
do povo de Deus). A Igreja é o novo povo de Deus.
7- OS MILAGRES de JESUS
Os milagres de Jesus fazem parte de sua atividade salvífica. Segundo o evangelista São João, Jesus começa
sua obra salvadora com o milagre das bodas de Caná.
Vamos apresentar o enfoque que cada evangelista dá aos milagres:
1. Marcos: Os milagres aparecem numa perspectiva da luta travada por Jesus, messias e filho de Deus,
contra Satanás ( opositor), o qual, é a personificação de todas as forças. Marcos é o evangelista das curas de Jesus.
Todas as doenças eram atribuídas às forças demoníacas.
2. Mateus: No evangelho de Mateus predomina a palavra de Jesus (os grandes discursos). Os milagres
ocorrem acompanhando a palavra e subordinado a ela.
3. Lucas: Jesus aparece como expressão da misericórdia e bondade de Deus para toda a humanidade,
sobretudo, para com os pobres e pagãos.
4.
João: Para o evangelista João, o importante é entender os milagres de Jesus como sinais (João não usa
a palavra milagre) e aceita-los na fé. Os milagres são sinalizadores de Cristo como revelação do Pai.
OS MILAGRES DE JESUS REVELAM:
1. Domínio ou senhorio (poder) de Jesus, filho de Deus sobre as forças do mal e da natureza (pesca
milagrosa).
2. O amor, a misericórdia e a ternura de Deus para com o ser humano.
3. A sua divindade e seu messianismo. Os milagres provam que Jesus é Deus e age em nome do Pai.
4. A oferta gratuita da salvação para todos os povos (Judeus e Pagãos). Por isso, ,Jesus realiza milagres
para os pagãos (filha de Jairo, samaritana, a Cananéia..)
5-A identidade e missão de Jesus Cristo: salvador e libertador dos homens. Todas as ações de Jesus eram
ações libertadoras do homem.
8 - AS PARÁBOLAS DE JESUS
Jesus, evangelizador do Pai, apresenta sua mensagem e seus ensinamentos revestidos com a roupagem
cultural da sua pátria (mentalidade, costumes, imagens do dia-dia). A parábola era um método muito comum de
instruir, usado pelos mestres em Israel (Rabinos).
A parábola é uma palavra que vem do grego e significa: “comparação”. Aparece 50 vezes no novo
testamento e faz parte da metodologia catequética de Jesus, perfeitamente adaptado a mentalidade do povo
judaico. É, portanto, um gesto de inculturação de Jesus.
Pelo conteúdo, as parábolas podem ser divididas em duas categorias: As de tendências mais doutrinária e as
de tendências mais moralizantes.
As de tendências doutrinárias exprimem mais a natureza e o modo de agir de Deus que Jesus propôs ao
povo. Exemplo: parábolas do semeador, do grão de mostarda, do fermento, do tesouro escondido, do joio e do trigo
e da rede.
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As de tendências moralizantes expressam aquilo que os homens são ou deveriam ser. Exemplo: fariseu e o
publicano, a do amigo inoportuno, do bom samaritano, da ovelha perdida e do filho pródigo.
A finalidade da parábola era instruir doutrinalmente o povo, sobre o reino de Deus (conteúdo mais
importante da pregação de Jesus).
As parábolas apresentam, também, um aspecto enigmático (obscuro), ou seja, uma espécie de provocação
que estimulava a reflexão ou questionamento dos ouvintes (Mc 4,13).
9 - OS TÍTULOS CRISTOLÓGICOS:
Os títulos Cristológicos que aparecem nos evangelhos ajudam na compreensão da verdadeira identidade de
Jesus. Cada nome ou título é uma tentativa de expressar o que Jesus significava para as pessoas. Eis aqui alguns
títulos: Messias, Cristo (ungido), Senhor, Filho amado, Santo de Deus, Nazareno, Filho do Homem, Noivo, filho de
Deus, Filho de Deus Altíssimo, Carpinteiro, Filho de Maria, Profeta, Mestre, bom mestre, Filho de Davi,
bendito o que vem em nome do Senhor, Pastor, Rei dos Judeus, Rei de Israel. Jesus usou o título de Messias com
muita reserva. (segredo messiânico de Mc)
-6Hoje fazemos o mesmo. Nas camisas e vidro de carros muitos nomes e títulos de Jesus aparecem: Paz só
com Jesus, Jesus é o maior, Jesus 100%, a serviço do rei Jesus, não há problema que não se resolva com um bom
papo com Jesus. Você certamente conhece outros...
Entretanto, o mistério da pessoa de Jesus ultrapassa qualquer esquema ou título humano. Porém, há dois
títulos que Jesus teria preferido para si: O filho do homem e o Filho de Deus.
Filho do homem (Dn 7, 1-21): O reino de Deus instaurado na terra por Jesus é um reino com aparência de
gente, reino humano, um reino onde a vida está sempre em primeiro lugar.Este título exalta o valor da pessoa
humana.
Filho de Deus: Marcos inicia e termina o seu evangelho com este título (Mc 15,39). Todas as Palavras e
gestos de Jesus confirmam esta verdade de fé. Declaração feita também, por Pedro “Tu és o Cristo, filho do Deus
vivo” (Mc 8). O conteúdo mais importante da pregação de Jesus é sua filiação divina.
10 - ESTILO PASTORAL DE JESUS: exemplo para os discícpulos
Principais características de Jesus no relacionamento com o povo:
Sensibilidade (Mc 9,13), humana (Lc 19,41; Jo 11,32), valorizava a pessoa humana (Mt 8,5; Lc 17,16; Mc
6,31), compaixão (Mt 9,35; 20,30), acolhimento (Lc 4,10; Mt 11,5; 19,28), espírito de serviço – um ser para os
outros (Mt 20,28; Jo 13,3-5), contemplação e ação – ora trabalha, ora reza (Mc 3,13), amor universal (Mc 3,31).
Novas atitudes inspiradas em Jesus:
1- No relacionamento com os que não são da comunidade, o máximo de abertura: “Quem não é contra nós é
a nosso favor” (Mc 9,38).
2- No relacionamento com os pequenos e os excluídos, o máximo de acolhimento: “Acolher os pequenos
por serem de Cristo, e não ser motivo de escândalo para eles” (Mc 9,41).
3- No relacionamento homem-mulher, o máximo de igualdade: Jesus tira o privilégio que o homem tinha
com relação à mulher e proíbe mandar a mulher embora (Mc 10,1).
4- No relacionamento com as crianças e suas mães, máximo de ternura: Acolher, abraçar, abençoar, sem
medo de contrair alguma impureza (Mc 10,13).
5- No relacionamento com os bens materiais, o máximo de abnegação: “Vai vende tudo o que tens e da aos
pobres” (Mc 10,17).
6- No relacionamento entre os discípulos, o máximo de desprendimento e partilha: “Quem deixar irmão,
irmã, pai, mãe, filhos, terras por causa de Jesus e do Evangelho, terá cem vezes mais” (Mc 10,28).
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11 – ENCONTRO PESSOAL COM JESUS CRISTO
Nosso cristianismo nasce de um encontro pessoal com Jesus Cristo ou não é cristianismo. Ser cristão é ter
encontrado, ou ter sido encontrado por Jesus Cristo e viver um continuo aprofundamento dessa experiência, numa
relação profundamente existencial com Ele. Umas das maiores tentações de hoje é reduzir Jesus a uma idéia, um ser
-8do passado. O cristianismo não é um programa humanístico e a Igreja não é uma ONG. Assim afirmou o
Papa Bento XV: “Não se começa a ser Cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas através do encontro
com um acontecimento, com uma pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação
decisiva”(DCE,12)
Esta linha de pensamento cristão está fundamentada no Evangelho do Jo 1,35-39 (encontro de Jesus com os
discípulos de João); Jo 1, 40-42. (encontro de Jesus com André e Simão), Jo 1, 43 (encontro de Jesus com Filipe),
Jo 1,45-46 (encontro de Jesus com Natanael).
O cristão após conhecer Jesus Cristo deve andar n’Ele (1 Jo. 2,6) e estar com Ele (Mc 3,13 ; Lc 22, 28).
Viver Nele, com Ele e por Ele. Caminhar com “olhar fixo no autor e consumador da nossa fé, Jesus”(Hb12,2). Em
fim cultivar uma espiritualidade “Cristocêntrica”.
A qualidade da nossa ação evangelizadora dependerá da experiência pessoal do encontro com Jesus, o
filho de Deus, aquele que nos dá a verdadeira paz, mas, não nos deixa em paz ”.
“ Quem encontrou Jesus Cristo não pode retê-lo para si(São João Paulo II)”
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Bibliografia para estudo complementar:
1-Catecismoa da Igreja Católica: nº512-662 ( Os mistérios da vida de Cristo)
2-O Redentor do Homem- Carta encíclica de João Paulo II-1990
3 – Caminhamos na estrada de Jesus (evangelho de Marcos)-Paulinas -1996
4-As tentações de Jesus- Ivo Storniolo-Edições Paulinas -1988
5- Jesus e sua missão – Pe. José Comblin-1983
6- Um encontro com J. Cristo vivo-Afonso Garcia Rubio-E. Paulinas-2010
8- Com Jesus na contramão-Frei Carlos Mesters(carmelita)15ªedição-2007
Pe. Deusdédit
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