filosofia - UNIPVirtual

Propaganda
FILOSOFIA 1. A CONDIÇÃO HUMANA Cassirer, Ernst (1874­1945) Fonte: http://www.consciencia.org/imagens/banco/thumbnails 48.html O que é o ser humano? Pode­se dizer que existe uma natureza humana universal? Afinal, qual a melhor forma de definir o ser humano e ao mesmo tempo o diferenciar dos outros seres vivos? É provável que muitos de vocês já se tenham feito essas perguntas. A necessidade de responder a essas questões deve se ao fato de as repostas servirem como pressupostos os quais servirão de embasamento a análises posteriores. Há muito tempo que o ser humano depara com esses questionamentos e as respostas, embora não divergentes, têm apontado enfoques diferentes. Platão buscou responder com base na relação entre o gênero próximo ao ser humano – bípede – e sua diferença específica – sem penas . Dessa forma, chegou à definição do ser humano como um bípede implume. Com base na mesma analogia, mais conhecida e utilizada se tornou a definição de Aristóteles, ao conceber que o homem é um animal racional, ou ainda que o homem é um animal político, ênfase dada nos seus escritos sobre política. Marx e Engels em Ideologia Alemã, caracterizam o homem como um homo faber, homem fabricante, homem construtor de coisas. Ernst Cassirer no seu Ensaio sobre o homem defende a tese de que é mais adequado definir o homem como um animal symbolicum, um ser que se relaciona com o mundo através de um sistema simbólico, como a linguagem. Momento de reflexão E você, como define o ser humano? Qual a característica mais fundamental, na sua opinião, que distingue o ser humano dos outros seres vivos? 1.1 A CONSCIÊNCIA MÍTICA Antes de abordarmos a reflexão filosófica propriamente dita, falaremos um pouco do pensamento mítico. Mas por que abordar o pensamento mítico? Porque o pensamento mítico é anterior à filosofia. Quando a filosofia surge, na Grécia antiga, ela se depara com
um mundo povoado por concepções míticas. Um mundo “povoado” por deuses, deusas, heróis e monstros. Afinal o que vem a ser mito? O que, em geral, as pessoas entendem por mito? Muitas pessoas definem os mitos como histórias desconexas, como fantasias criadas sem qualquer relação com a realidade ou como um conjunto caótico de superstições. Mas será que os mitos se limitam a essas definições? Vamos tomar como exemplo um mito grego sobre o rapto de Cora. Personagens que aparecem nesse mito: Deméter: deusa das colheitas Cora: filha de Deméter Hades: deus do subterrâneo Zeus: deus dos deuses Hermes: mensageiro dos deuses Cora, filha da deusa das colheitas, Deméter, brinca pelos campos verdejantes da Grécia. Cora é uma adolescente cheia de vida. Ela corre, pula, brinca com as flores e com as borboletas. Mas Cora não sabe que está sendo observada. Perto dali, Hades, deus do subterrâneo, observa Cora brincar e pensa: que bela adolescente essa Cora! Hades então resolve raptar a doce Cora. Ele coloca em movimento sua carruagem puxada por dez fortes cavalos e parte em sua direção. Cora, ao perceber o que se passa, corre, mas em vão. Hades toma Cora em seus braços e a leva. No mesmo momento se abre no chão uma grande fenda e a carruagem desce para o centro da terra. Ao cair da noite, a mãe de Cora, Deméter, sente sua falta e sai a sua procura. Dois camponeses que presenciaram a cena contam­lhe o que aconteceu. Deméter fica louca de dor e, desconsolada, proíbe que as plantas, o capim, as árvores, as frutas e os cereais cresçam. Os camponeses ficam preocupados e tristes, pois sem o crescimento das plantas eles irão perecer. Eles imploram aos deuses para que o verde retorne. Os deuses pedem para Deméter deixar a vegetação crescer, mas ela está irredutível: nada crescerá ou voltará a florescer enquanto Cora não voltar.
Zeus resolve intervir. Manda o mensageiro Hermes ao inferno falar com Hades para trazer Cora de volta. Mas ela só poderá voltar, se não tiver comido nenhuma comida do reino dos mortos. O jardineiro informa a Hermes que ela havia comido sete sementes de romã. Dessa forma, Cora não poderia voltar. Mas Deméter não volta atrás de sua decisão e não permite que nada floresça. Zeus então estuda o problema e propõe uma possível solução para o impasse: como ela comeu apenas sete sementes de romã, durante seis meses Cora ficará morando com Hades no subterrâneo, será sua esposa e se chamará Perséfone (aquela que causa destruição). Durante os outros seis meses, Cora voltará e passará em companhia de sua mãe Deméter. Quando Cora está com sua mãe esta fica muito feliz. Nesse período, a natureza reflete a felicidade de Deméter: a terra está coberta de verde com flores e frutos. Quando vai se aproximando o momento de Cora partir, sua mãe vai ficando triste e a vegetação também começa a mudar. Quando Cora retorna ao subterrâneo com Hades, as folhas começam a secar e a cair. As plantas e os frutos cessam de crescer e nada mais floresce. Até o sol não brilha com a mesma intensidade de antes. Quando novamente se aproxima o momento de Cora voltar, sua mãe vai ficando alegre e a natureza começa a florescer novamente. E assim sucessivamente. Momento de reflexão ­ Qual o significado desse mito? ­ Como a ciência explica o mesmo fenômeno abordado nesse mito? 1.2 FUNÇÕES DO MITO A palavra mito tem sua origem etimológica em mythos, que significa “palavra”, “o que se fala”. Quem era o “falador” desses mitos na Grécia antiga? De um modo geral, os mitos faziam parte da cultura e eram contados pelos pais, pelas amas de leite, pelas pessoas em geral, pelos aedos ( poetas cantores). Estes últimos, os poetas, tinham um papel de destaque na narrativa mítica, uma vez que eram considerados escolhidos pelos deuses para narrar poeticamente os acontecimentos divinos. Em uma cultura oral, esses poetas vão pelas praças, contando as histórias que envolvem os deuses e, dessa forma, ajudam a manter viva a memória do seu povo.
Desse modo, o mito é uma forma de explicar o mundo, de atribuir sentido ao existente e assim tranqüilizar o ser humano. Trata­se de uma verdade intuída, cuja autoria se perde no tempo, em geral considerada como uma produção anônima e coletiva. Os dois poemas épicos mais importantes da literatura grega (e também da literatura ocidental), Ilíada e Odisséia têm como possível autoria o poeta Homero. Por outro lado, há intérpretes que consideram que essas duas obras não foram escritas por um único poeta, mas sim por vários. A Ilíada aborda a guerra que aconteceu em Tróia (em grego Ílion) envolvendo gregos e troianos. E a Odisséia narra o retorno a Tróia de um de seus principais guerreiros, Ulisses (em grego Odisseu), para sua pátria, Ítaca. Mas os mitos não foram produzidos apenas na Grécia antiga. Diferentes povos em diferentes épocas produziram seus próprios mitos, como, por exemplo, os mitos produzidos por tribos indígenas da floresta amazônica. O ponto comum entre as diferentes concepções míticas é a busca de dar sentido ao mundo, de dar uma explicação para os fenômenos desconhecidos. Dessa forma, “pode­se dizer que o problema sobre o conhecimento sempre preocupou o ser humano, mesmo quando ele não tinha isso claramente explicitado. Encontramos no mito a primeira tentativa de se ‘conhecer’ o mundo, ou de pelo menos de lhe atribuir um sentido. O homem primitivo diante de um mundo desconhecido, cheio de mistérios como o nascimento, a morte, a sucessão alternada entre dias e noites, as mudanças climáticas etc, tinha necessidade de entender esse mundo. Essa necessidade é própria da condição humana, já que o ser humano, diante do medo e do desconforto produzido pelo desconhecido, precisa dar­lhe sentido. O caos necessita ser ordenado pela cosmogonia mítica, para o ser humano encontrar o seu lugar. Da mesma forma que o ser humano teve de construir suas armas, ferramentas, roupas, moradia etc, teve também de construir uma linguagem, dar nome às coisas, atribuir sentido ao existente. Quando o ser humano chega ao mundo, não existe um livro que contenha as respostas para suas inquietações. Precisa elaborar tanto o livro, quanto as respostas e as próprias perguntas. No pensamento mítico, a força da tradição e do coletivo é muito intensa para que se desconfie de suas próprias concepções, mas, no decorrer do processo dialético da história, chega­se a um momento em que se começa a desconfiar desse saber mítico. Devido à contribuição de uma série de fatores, o saber mítico vai ser questionado por aqueles que seriam conhecidos como os primeiros filósofos, como os pré­socráticos. Esses filósofos desconfiam das explicações míticas e acham que podem
dar uma outra explicação para o existente”. (FERNANDES, Vladimir. Extraído de: www.poetizando.v10.com.br). 2. DO MITO À RAZÃO: O NASCIMENTO DA FILOSOFIA Conforme foi abordado no item anterior, o mito é a primeira forma que o ser humano utilizou para dar sentido ao mundo. Ele é um tipo de saber afetivo, coletivo e dogmático. Mas chega um momento, no decorrer do processo histórico, que a explicação mítica passa a ser questionada por aqueles que seriam conhecidos como os primeiros filósofos, pelos pré­ socráticos, preocupados em buscar a arché, o princípio fundamental das coisas. Estes, agora, buscam dar uma explicação sustentada em argumentos racionais para o existente. Mas como foi possível o surgimento dessa busca de explicação racional para o existente em oposição ao pensamento mítico? Essa transição foi um processo lento e gradativo e não significou o desaparecimento das concepções míticas. Segundo Jean Pierre Vernant, em As origens do pensamento grego, esse pensamento racional denominado de Filosofia foi propiciado pelas formas de organização social, política e econômica da cidade­estado. Assim, pode­se afirmar que a filosofia é filha da polis grega. O aparecimento da polis constitui, na história do pensamento grego, um acontecimento decisivo. Certamente, no plano intelectual como no domínio das instituições, só no fim alcançara todas as suas conseqüências; a polis conhecera etapas múltiplas e formas variadas. Entretanto, desde o seu advento, que se pode situar entre os séculos VIII e VII, marca um começo, uma verdadeira invenção; por ela, a vida social e as relações entre os homens tomam uma forma nova, cuja originalidade será plenamente sentida pelos gregos. (VERNANT, J. P. As origens do pensamento grego. 10ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998, p.41) O palco principal da cidade grega era a Ágora, a praça pública, o lugar em que se faz a autonomia da palavra. A palavra era tão valorizada que os gregos a transformaram numa divindade, Pheitó, que representa a força, a capacidade da persuasão. Não mais a palavra de ordem do rei divino, mas a palavra humana buscando através do conflito, da discussão, um sentido e o convencimento pela persuasão. A palavra não é mais uma forma justa a priori, mas está exposta à contestação. A polêmica, a discussão, a argumentação são as regras do jogo intelectual e político que é praticado à luz do sol, na Ágora, e que tem como juiz o público, os cidadãos. Os conhecimentos, os conteúdos da cultura não ficam mais
restritos ao palácio; são agora expostos em praça pública para apreciação de todos, possuem um caráter de publicidade e passam a ser objeto de análise e de interpretação. Dessa forma, pode­se concluir com Vernant, que as várias transformações que culminaram com a polis grega trouxeram em seu bojo a possibilidade de emergência do pensamento racional filosófico, ou seja, que a filosofia é filha da polis. Mas o que vem a ser Filosofia? Do ponto de vista etimológico, a palavra é composta de philia, que significa união, amizade, amor fraterno, e Sophia, que deriva de sophos, sábio e significa sabedoria. Assim a Filosofia significa busca amorosa pela sabedoria, amizade ao saber. Segundo a tradição, foi Pitágoras de Samos que cunhou a palavra Filosofia. Para ele, a sabedoria era atributo dos deuses e não dos seres humanos, mas estes poderiam desejá­ la, poderiam buscar amorosamente a sabedoria, transformando­se em filósofos (Cf. CHAUI, 1997, p. 19 e 20). Conforme foi exposto, o pensamento filosófico é filho da polis. O ponto de partida para a filosofia grega foram as poesias cosmogônicas2. Essas poesias explicavam o surgimento do mundo por meio de interpretações míticas. A passagem do pensamento cosmogônico para o pensamento cosmológico3 não se deu mediante um salto nem substitui por completo o anterior. Foi um processo lento e gradativo em que uma série de fatores, como o nascimento da cidade­estado, a invenção da escrita, das leis escritas, a invenção da moeda, contribuíram para que, assim como o poder e a organização da vida social, os mitos também fossem questionados. Os aedos (poeta­cantor) são cultores da memória. Eles possuem a força da palavra e revelam a vida e a origem dos seres e do mundo. As concepções míticas são mantidas vivas pela tradição oral. Com a invenção e uso da escrita essas concepções passam a ser registradas. O rigor daquele que escreve é diferente do rigor daquele que fala e, as palavras, uma vez escritas, estão fixas, permitindo maior exame e reflexão posterior. Portanto, o uso da escrita tem uma contribuição fundamental para o questionamento das interpretações míticas. Enquanto o pensamento mítico não questiona o seu conteúdo, o pensamento filosófico caracteriza­se pelo questionamento, pela investigação e argumentação racional para explicação da realidade. Embora o conteúdo da explicação desses primeiros filósofos tenha muita semelhança com o mito, a forma de explicar é diferente, ou seja, é uma forma investigativa racional.
Momento de reflexão ­ Qual a relação entre a invenção da escrita e o questionamento das concepções míticas? ­ O que significa dizer que o mito é um tipo de saber afetivo, coletivo e dogmático? 2.1 A REFLEXÃO FILOSÓFICA Afinal, o que vem a ser filosofia? Será que a filosofia é uma disciplina “com a qual ou sem a qual o mundo continua tal e qual”? Será que é um emaranhado de questões que nunca chega a uma conclusão consensual? Será que é um conjunto de conceitos complexos que só interessa a estudiosos do assunto? A filosofia muitas vezes é taxada de “inútil”, de subversiva, de perturbadora da ordem etc. Mas por que será que a “mãe” de todas as ciências costuma ser tão maltratada? Pode­se começar questionando: o que leva o ser humano a filosofar? Platão afirmou que a origem do filosofar encontra­se no assombro. Já Aristóteles coloca na admiração o impulso que leva o homem a filosofar. Mas assombro e admiração em relação a quê? Assombro e admiração em face de um mundo carregado de interrogações, cujas explicações por vezes não satisfazem ou não oferecem respostas. Aí, então, diante de interrogações que se configuram como problemas inicialmente sem solução, experimenta­se um misto de assombro e admiração. Assombro diante do próprio espetáculo da natureza, da multiplicidade de coisas existentes, de fatos surpreendentes, das diferentes formas de vida, dos astros que brilham e que deslizam na abóbada celeste; admiração, por suscitar um sentimento de estranhamento por algo que se apresenta como não óbvio, não comum, que oculta alguma possível conexão lógica. Para Saviani (2000),o que leva o ser humano a filosofar são os problemas com que ele se defronta no decorrer da sua vida. “Eis, pois, o objeto da filosofia, aquilo de que trata a filosofia, aquilo que leva o homem a filosofar: são os problemas que o homem enfrenta no transcurso da sua existência” (2000, p. 10). Dessa forma, se podemos dizer que são problemas que levam o homem a filosofar o que devemos entender, então, por “problemas”? Segundo Saviani, em geral, considera­se problema como sinônimo de questão, mas isso não é suficiente para caracterizar um problema. Por um lado, as questões lidam com respostas já conhecidas e, por outro, mesmo que as respostas sejam desconhecidas, esse fato, por si só não é suficiente para caracterizar um problema. As pessoas podem desconhecer muitas coisas e mesmo assim isso pode não constituir um problema. Exemplo:
Quantas vezes uma pulga precisa saltar o comprimento de suas próprias pernas para atravessar a muralha da China? A questão pode despertar alguma curiosidade, mas ainda que não se saiba a resposta, não se configura como problemática para a filosofia. Segundo Saviani, é necessário resgatar a “problematicidade do problema”, isto é, resgatar a essência que revela sua verdadeira concreticidade. Segundo ele, a essência do problema encontra se na necessidade. O ser humano ao produzir continuamente sua própria existência enfrenta o iniludível: problemas, configurados como necessidades que não podem ser ignorados, pois a resolução desses problemas é de vital importância para a existência humana. (Extraído de: FERNANDES, Vladimir. Filosofia, ética e educação na perspectiva de Ernst Cassirer, 2006. Cap. 4.) Momento para reflexão ­ Por que segundo Saviani são os problemas que levam o ser humano a filosofar? O que são problemas? 3. LÓGICA FORMAL No nosso dia­a­dia, freqüentemente utilizamos a expressão “é lógico” ou “isso é lógico”. Por exemplo: “É lógico que meu time será campeão este ano”. “É lógico que gosto de pizza”, “É lógico que vou assistir à aula de filosofia hoje”. Nesses casos, a expressão “é lógico” é utilizada como algo que parece ser evidente, em que não há nenhuma dúvida. No nosso cotidiano, conversamos com as pessoas e nem sempre concordamos com suas opiniões sobre determinados assuntos. Daí, argumentar para defender o nosso ponto de vista. Ora, o que significa argumentar? Significa que procuramos concatenar idéias de forma coerente para persuadir nosso interlocutor da validade das nossas idéias. A lógica pode ajudar nos nessa tarefa. A lógica formal foi desenvolvida por Aristóteles no século IV a.C. e tem como objetivo analisar as formas do correto pensar. Vamos ver como as autoras ARANHA e MARTINS (2003)1 explicam alguns dos conceitos dessa lógica: “Etimologicamente, a palavra lógica vem do grego logos, que significa ‘palavra’, ‘expressão’, ‘pensamento’, ‘conceito’, ‘discurso’, ‘razão’. Podemos defini­la como o estudo dos métodos e princípios de argumentação. Ou, então, como a investigação das condições em que a
conclusão de um argumento se segue de suas premissas.” (ARANHA e MARTINS, 2003, p. 101) . Vamos ver um exemplo: a) Todo paulista é brasileiro b) João é paulista c) Logo, João é brasileiro “O argumento é um discurso em que encadeamos proposições de maneira a chegar a uma conclusão. A proposição é tudo o que pode ser afirmado ou negado.” (ARANHA e MARTINS, 2003, p. 101); por exemplo: “Sócrates é mortal”, “o fogo é quente”. As duas primeiras proposições do nosso exemplo (a e b) são também chamadas de premissas, que significa “o que vem antes” da conclusão. A partir delas, extraímos uma conclusão (c): “A passagem das premissas para a conclusão corresponde à inferência (do latim inferre, ‘levar para’). A inferência é um processo de pensamento pelo qual, a partir de certas proposições, chegamos a uma conclusão. Cabe ao lógico examinar a forma da inferência, a concatenação existente entre os diversos enunciados, a fim de verificar se é válido chegar a determinada conclusão. Em outras palavras, a lógica examina se a estrutura da inferência é válida ou inválida.” (ARANHA e MARTINS, 2003, p. 102) “Podemos dizer das proposições que elas são verdadeiras ou falsas. Mas quando se trata de argumentos, dizemos que são válidos ou inválidos. Uma proposição é verdadeira quando corresponde ao fato que expressa. Um argumento é válido quando sua conclusão é conseqüência lógica de suas premissas.” (ARANHA e MARTINS, 2003, p. 102) Argumento dedutivo “Em um argumento dedutivo correto a conclusão é inferida necessariamente das premissas. Ou seja, o que está dito na conclusão é extraído das premissas, pois na verdade já está implícito nelas. Na dedução lógica, o enunciado da conclusão não excede o conteúdo das premissas, isto é, não se diz mais nada na conclusão do que já foi dito” (ARANHA e MARTINS, 2003, p. 103). Exemplo: Todo homem é mortal. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal.
Argumento indutivo “A indução por enumeração é uma argumentação pela qual, a partir de diversos dados singulares constatados, chegamos a proposições universais. Nesse tipo de argumento ocorre uma generalização indutiva. Enquanto na dedução a conclusão deriva de proposições universais já conhecidas, a indução, ao contrário, chega à conclusão a partir de evidências parciais.” (ARANHA e MARTINS, 2003, p. 104). Exemplo: O cobre, o ferro, o zinco dilatam com o calor. Logo, todo metal dilata com o calor Argumento por analogia “Analogia (ou raciocínio por semelhança) é uma indução parcial ou imperfeita, na qual passamos de um ou de alguns fatos singulares não a uma conclusão universal, mas a uma outra enunciação singular ou particular, inferida em virtude da comparação entre objetos que, embora diferentes, apresentam pontos de semelhança: Paulo sarou de suas dores de cabeça com este remédio. Logo, João há de sarar de suas dores de cabeça com este mesmo remédio.” (ARANHA e MARTINS, 2003, p. 104) Falácias A falácia é uma forma de raciocínio que parece correto, mas, quando examinado melhor, revela­se incorreto. “Muitas falácias decorrem do fato de algumas premissas serem irrelevantes para a aceitação da conclusão, mas são usadas com a função psicológica de convencer, mobilizando emoções como medo, entusiasmo, hostilidade ou reverência.” (ARANHA e MARTINS, 2003, p. 105) Vamos ver agora alguns, entre os vários tipos de falácias:
Argumento contra o homem. Nesse tipo de falácia, ataca­se a pessoa e não o seu argumento. Exemplo: “Ele costuma ir ao bar, logo tudo o que ele diz é mentira”. Ou “Ele não freqüenta a igreja, portanto não é um bom aluno”. Argumento de autoridade. Quando se utiliza o prestígio de uma pessoa para defender algo que não é da sua competência. Exemplo: “Esse remédio para emagrecer é ótimo, pois quem fez a propaganda foi a Hebe”. Ou “Vou votar nesse candidato, pois meu cantor favorito está apoiando ele”. Falácia de acidente. Quando se extrai uma conclusão de algo que é acidental. Exemplo: “Ele nunca estudou e se deu bem. Logo, o estudo não serve para nada”. Ou “A primeira vez que meu tio foi ao hospital não voltou mais. Logo, toda medicina é inútil”. Momento de reflexão ­ A lógica foi denominada como uma disciplina propedêutica, isto é, preparatória ou instrumental para se fazer filosofia. Você concorda? Comente. 4. A TEORIA DO CONHECIMENTO NA ANTIGÜIDADE 4.1 Pré­socráticos Como foi abordado na unidade anterior, o problema sobre o conhecimento sempre preocupou o ser humano, mesmo quando ele não tinha plena consciência dessa atividade. Encontramos no pensamento mítico a primeira tentativa de ordenar o caos, de dar uma explicação para o mundo. Os filósofos, posteriormente conhecidos como pré­socráticos, partem do pressuposto básico que todo o existente deriva de uma matéria primeira já existente e não questionam a origem dessa matéria primeira, justamente para não caírem num circulus vitiosus sem fim. Cada qual ao seu modo busca dar uma explicação racional para o existente. A cosmogonia mítica vai sendo, aos poucos, substituída por uma cosmologia racional. O problema que unifica todo o período que ficou conhecido como cosmológico é a busca de explicar de onde vêm todas as coisas, ou seja, qual é a matéria primordial, a arché, que dá origem a todas as outras coisas existentes: pedra, flor, madeira, animal ? De onde vem tudo isso? Os primeiros filósofos viveram por volta dos séculos VII e VI a.C. Grande parte da obra desses filósofos pré­socráticos se perdeu no tempo e o que chegou à posteridade foram fragmentos e comentários que outros filósofos fizeram sobre eles. O problema que esses filósofos buscam responder é: qual é a arché, o princípio ou fundamento das coisas existentes? Tales de Mileto, que é considerado o primeiro filósofo, defende que o princípio ou fundamento de todas as coisas é a água. Para Anaxímenes esse princípio primeiro é o ar. Já Demócrito defende que é o átomo. Para Heráclito o princípio primordial é o devir (mudança) representado pelo fogo. Empédocles entende que tudo se origina da combinação dos quatro elementos básicos: ar, fogo, água e ar.
Momento de reflexão ­ O que diferencia a explicação dos pré­socráticos das explicações míticas para a origem das coisas? ­ Heráclito afirma: “Nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio”. Você concorda com essa afirmação? Comente. 4.2 Sócrates Sócrates, considerado o patrono da Filosofia, não deixou nada escrito, ou melhor, não ditou nada para outro escrever, como era comum na época. Conhecemos Sócrates por meio de seus discípulos, principalmente pelos diálogos de Platão. Devido a este fato, é difícil separar o pensamento de Platão do pensamento de Sócrates. Por exemplo, para Aristóteles, Sócrates não era adepto da teoria platônica sobre o mundo das idéias. Para Cortella, a principal preocupação de Sócrates é em relação ao seguinte problema: “como estabelecer verdades que sejam válidas para todas as pessoas?” (2002, p.74) Segundo Sócrates, os conhecimentos chegam até nós pela via dos sentidos e da razão. Mas eles são confiáveis? A resposta é não, já que os sentidos podem nos enganar e os discursos e debates da Ágora também. No templo de Apolo, situado em Delfos, havia várias inscrições gravadas. Sócrates elege uma delas como lema: “Conhece­te a ti mesmo!” Assim, com Sócrates, a problemática será deslocada do âmbito cosmológico para o antropológico. Sócrates coloca o ser humano no centro da problemática e preocupa­se em buscar verdades que pudessem ser válidas para todos. O “conhece­te a ti mesmo”, que ele pega emprestado do oráculo de Delfos e toma como lema, é a tentativa de buscar extrair de cada um (particular) uma verdade universal. Através da maiêutica, seu método de perguntas e respostas, busca dar à luz verdades gerais, tarefa nem sempre fácil, já que muitos diálogos que chegaram até nós, relatados por Platão, são aporéticos. Como se sabe, Sócrates foi condenado à morte, ou mais especificamente ao suicídio, já que foi condenado a beber cicuta. A acusação: corromper a juventude e não acreditar nos deuses da cidade. Vejamos um trecho da defesa de Sócrates perante o tribunal que o acusou, conforme revela Platão em seu diálogo Apologia de Sócrates: 4.3 Apologia de Sócrates “E sabeis também como era Xenofonte, veemente em tudo aquilo que empreendesse. Uma vez, de fato, indo a Delfos, ousou interrogar o oráculo a respeito disso e – não façais rumor, por isso que digo ­ perguntou­lhe, pois, se havia alguém mais sábio que eu. Ora, a pitonisa respondeu que não havia ninguém mais sábio. E a testemunha disso é seu irmão, que aqui está. Considerai bem a razão por que digo isso: estou para demonstrarvos de onde nasceu a calúnia. Em verdade, ouvindo isso, pensei: que queria dizer o deus e qual é o sentido de suas palavras obscuras? Sei bem que não sou sábio, nem muito nem pouco: o que quer dizer, pois, afirmando que sou o mais sábio? Certo não mente, não é possível. E fiquei por muito tempo em dúvida sobre o que pudesse dizer; depois de grande fadiga resolvi buscar a significação do seguinte modo: Fui a um daqueles detentores da sabedoria, com a intenção de refutar, por meio dele, sem dúvida, o oráculo, e, com tais provas, opor­lhe a minha resposta: Este é mais sábio que eu, enquanto tu dizias que eu sou o mais sábio. Examinando esse tal: ­ não importa o nome, mas era, cidadãos atenienses, um dos políticos, este de quem eu experimentava essa impressão. ­ e falando com ele, afigurou­se­ me que esse homem parecia sábio a muitos outros e principalmente a si mesmo, mas não
era sábio. Procurei demonstrar­lhe que ele parecia sábio sem o ser. Daí me veio o ódio dele e de muitos dos presentes. Então, pus­me a considerar, de mim para mim, que eu sou mais sábio do que esse homem, pois que, ao contrário, nenhum de nós sabe nada de belo e bom, mas aquele homem acredita saber alguma coisa, sem sabê­la, enquanto eu, como não sei nada, também estou certo de não saber. Parece, pois, que eu seja mais sábio do que ele, nisso ­ ainda que seja pouca coisa: não acredito saber aquilo que não sei. Depois desse, fui a outro daqueles que possuem ainda mais sabedoria que esse, e me pareceu que todos são a mesma coisa. Daí veio o ódio também deste e de muitos outros. Depois prossegui sem mais me deter. embora vendo, amargurado e temeroso, que estava incorrendo em ódio; mas também me parecia dever fazer mais caso da resposta do deus. Para procurar, pois o que queria dizer o oráculo, eu devia ir a todos aqueles que diziam saber qualquer coisa. E então, cidadãos atenienses, já que é preciso dizer a verdade, me aconteceu o seguinte: procurando, segundo o dedo do deus, pareceu­me que os mais estimados eram quase privados do melhor, e que, ao contrário, os outros, reputados ineptos, eram homens mais capazes, quando à sabedoria.(...) Por isso, ainda agora procuro e investigo segundo a vontade do deus, se algum dos cidadãos e dos forasteiros me parece sábio; e quando não, indo em auxílio do deus, demonstro­lhe que não é sábio. E, ocupado em tal investigação, não tenho tido tempo de fazer nada de nada de apreciável, nem nos negócios públicos, nem nos privados, mas encontro­me em extrema pobreza, por causa do serviço do deus. Além disso, os jovens ociosos, os filhos dos ricos, seguindo­me espontaneamente, gostam de ouvir­me examinar os homens, e muitas vezes me imitam,por sua própria conta, e empreendem examinar os outros; e então, encontram grande quantidade daqueles que acreditam saber alguma coisa, mas, pouco ou nada sabem. Daí, aqueles que são examinados por eles encolerizam­se comigo assim como com eles, e dizem que há um tal Sócrates, perfidíssimo, que corrompe os jovens.” PLATÃO. Apologia de Sócrates. Tradução de Maria Lacerda de Souza. Extraído de: http://www.domíniopúblico.org http://www.consciencia.org/ Momento de reflexão ­ Por que Sócrates tornou­se odiado por algumas pessoas? ­ Qual o significado da expressão utilizada por socrátices: “Só sei que nada sei”? 5.1 Platão Para Platão, a definição das coisas está condicionada ao princípio de identidade e permanência. Ou seja, uma coisa é aquilo que é e não outra e deve ser sempre do mesmo modo. No mundo sensível, isso não é possível, já que ele é múltiplo e em constante mutação. Na visão de Platão, este é o mundo das aparências, das sombras, mera cópia do mundo das idéias, do mundo real. A verdade encontra­se no mundo das idéias, idêntico e permanente, regido pelo conhecimento. Para atingir esse mundo das idéias é necessário depurar os sentidos dos enganos e erros e, por meio do exercício filosófico, ir ascendendo até a verdade.
Assim, para Platão, o mundo sensível, é o nosso mundo material de cópias, de aparências, um mundo imperfeito, em constante mutação. Já o mundo inteligível é o mundo imaterial das idéias. Este é perfeito e imutável. Vejamos agora um texto que ilustra a concepção platônica sobre o processo do conhecimento. Trata­se da Alegoria ou mito da caverna que se encontra no seu livro A República. A passagem a seguir foi recontada por Marilena Chauí. O mito da caverna “Imaginemos uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração após geração, seres humanos estão aprisionados. Suas pernas e seus pescoços estão algemados de tal modo que são forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas para frente, não podendo girar a cabeça nem para trás nem para os lados. A entrada da caverna permite que alguma luz exterior ali penetre, de modo que se possa, na semi­obscuridade, enxergar o que se passa no interior. A luz que ali entra provém de uma imensa e alta fogueira externa. Entre ela e os prisioneiros no exterior, portanto há um caminho ascendente ao longo do qual foi erguida uma mureta, como se fosse a parte fronteira de um palco de marionetes. Ao longo dessa mureta­palco, homens transportam estatuetas de todo tipo, com figuras de seres humanos, animais e todas as coisas. Por causa da luz da fogueira e da posição ocupada por ela, os prisioneiros enxergam na parede do fundo da caverna as sombras das estatuetas transportadas, mas sem poderem ver as próprias estatuetas, nem os homens que as transportam. Como jamais viram outra coisa, os prisioneiros imaginam que as sombras vistas são as próprias coisas. Ou seja, não podem saber que são sombras, nem podem saber que são imagens (estatuetas de coisas), nem que há outros seres humanos reais fora da caverna. Também não podem saber que enxergam porque há a fogueira e a luz no exterior e imaginam que toda luminosidade possível é a que reina na caverna. Que aconteceria, indaga Platão, se alguém libertasse os prisioneiros? Que faria um prisioneiro libertado? Em primeiro lugar, olharia toda a caverna, veria os outros seres humanos, a mureta, as estatuetas e a fogueira. Embora dolorido pelos anos de imobilidade, começaria a caminhar, dirigindo­se à entrada da caverna e, deparando com o caminho ascendente, nele adentraria. Num primeiro momento, ficaria completamente cego, pois a fogueira na verdade é a luz do sol e ele ficaria inteiramente ofuscado por ela. Depois, acostumando­se com a claridade, veria os homens que transportam as estatuetas e, prosseguindo no caminho,
enxergaria as próprias coisas, descobrindo que, durante toda sua vida, não vira senão sombras de imagens (as sombras das estatuetas projetadas no fundo da caverna) e que somente agora está contemplando a própria realidade. Libertado e conhecedor do mundo, o prisioneiro regressaria à caverna, ficaria desnorteado pela escuridão, contaria aos outros o que viu e tentaria libertá­los. Que lhe aconteceria nesse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, não acreditariam em suas palavras e, se não conseguissem silenciá­lo com suas caçoadas, tentariam fazê­lo espancando­o e, se mesmo assim, ele teimasse em afirmar o que viu e os convidasse a sair da caverna, certamente acabariam por matá­lo. Mas, quem sabe, alguns poderiam ouvi­lo e, contra a vontade dos demais, também decidissem sair da caverna rumo à realidade. O que é a caverna? O mundo em que vivemos. Que são as sombras das estatuetas? As coisas materiais e sensoriais que percebemos. Quem é o prisioneiro que se liberta e sai da caverna? O filósofo. O que é a luz exterior do sol? A luz da verdade. O que é o mundo exterior? O mundo das idéias verdadeiras ou da verdadeira realidade. Qual o instrumento que liberta o filósofo e com o qual ele deseja libertar os outros prisioneiros? A dialética. O que é a visão do mundo real iluminado? A Filosofia. Por que os prisioneiros zombam, espancam e matam o filósofo (Platão está se referindo à condenação de Sócrates à morte pela assembléia ateniense)? Porque imaginam que o mundo sensível é o mundo real e o único verdadeiro”. (CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1997, p. 40) Momento de reflexão ­ Por que aquele que sai da caverna pode ser chamado de filósofo? Comente. 5.2 Aristóteles Já Aristóteles, que foi discípulo de Platão, posteriormenteirá criticar seu mestre em relação ao processo de conhecimento. Aristóteles não concorda com o dualismo platônico e reabilita a importância dos sentidos no processo de conhecimento. Vamos ver um trecho da sua obra Metafísica: Por natureza, todos os homens desejam o conhecimento. Uma indicação disso é o valor que damos aos sentidos; pois, além de sua utilidade, são valorizados por si mesmos e, acima de tudo, o da visão. Não apenas com vistas à ação, mas mesmo quando não se pretende ação alguma, preferimos a visão, em geral, a todos os outros sentidos. A razão disso é que a visão é, de todos eles, o que mais nos ajuda a conhecer as coisas, revelando muitas diferenças. É pela memória que os homens adquirem experiência, porque as inúmeras lembranças da mesma coisa produzem finalmente o efeito de uma experiência única. A experiência parece muito semelhante à ciência e à arte, mas na verdade é pela experiência que os homens adquirem ciência e arte; pois, como diz Pólo com razão, “a
experiência produz arte, mas a inexperiência produz o acaso”. A arte se produz quando, a partir de muitas noções da experiência, se forma um juízo universal a respeito de objetos semelhante. (MARCONDES, Danilo. Textos Básicos de Filosofia: dos Pré­socráticos a Wittgenstein. 2ª ed. Rio de Janeiro: JorgeZahar Editor, 2000, p.46) Dessa forma, Aristóteles concebe o conhecimento como um processo linear e cumulativo, que tem inicio com as impressões sensíveis e pode se desenvolver até o conhecimento abstrato mais geral. O conhecimento tem inicio com a experiência sensível e esta, unida à memória, produz um conhecimento de experiência, ou seja, um conhecimento do tipo “saber fazer”. Acima deste, está a arte (técnica), um conhecimento das regras, ou seja, sabe­se o “porquê das coisas”. Depois deste, temos o conhecimento da teoria (ciência).É um conhecimento mais abstrato e genérico, desvinculado da prática, conhece as leis da natureza e os princípios gerais. E, acima deste, ainda temos a sabedoria (filosofia), que é o conhecimento mais abrangente e global, é o conhecimento das causas primeiras e universais. Momento de reflexão ­ Qual a relação entre o conhecimento de experiência e a memória? 6. A FILOSOFIA MEDIEVAL: PATRÍSTICA E ESCOLÁSTICA A Idade Média abrange o período entre o século V (queda do Império romano do ocidente) e o século XV (queda do Império Romano do oriente, quando Constantinopla foi tomada pelos turcos). A igreja católica nasce dentro do Império Romano e a princípio é proibida e perseguida, mas paulatinamente vai se fortalecendo até se tornar a religião oficial do Império. Com a crise do Império Romano, a igreja católica emerge como a principal força aglutinadora em um mundo fragmentado pelas invasões bárbaras. A igreja desponta como a grande herdeira do patrimônio cultural da antigüidade clássica. Ela é detentora da escrita e do conhecimento e nos mosteiros encontram­se abrigadas as grandes bibliotecas. Dessa forma, a igreja católica se torna a detentora da força espiritual e política do período. Uma das principais questões discutidas nesse tempo é a relação entre teologia e filosofia, ou seja, entre fé e razão. “No período de decadência do Império Romano, quando o cristianismo se expande, a partir do século II – portanto, ainda na Antigüidade – surge a filosofia dos Padres da Igreja, conhecida também como patrística. No esforço de converter os pagãos, combater as heresias (doutrinas que se opõem aos dogmas da Igreja) e justificar a fé, desenvolvem a apologética, elaborando textos de defesa do cristianismo. A aliança entre fé e razão
estende­se por toda Idade Média: a razão é auxiliar da fé e a ela subordinada. Daí a expressão agostiniana ‘Credo ut intelligam’, que significa ‘Creio para que possa entender’. Os padres recorrem inicialmente à filosofia platônica por intermédio do neoplatonismo de Plotino (204­270) e realizam uma grande síntese com a doutrina cristã, adaptando o pensamento pagão. O principal nome da patrística é Santo Agostinho (354­ 430), bispo de Hipona, cidade do norte da África. Agostinho retoma a dicotomia platônica ‘mundo sensível e mundo das idéias’, mas substitui este último pelas idéias divinas. Segundo a teoria da iluminação, recebemos de Deus o conhecimento das verdades eternas. Tal como o Sol, Deus ilumina a razão e torna possível o pensar correto. A partir do século IX, desenvolve­se a escolástica, filosofia cristã que atinge seu apogeu no século XIII, com Santo Tomás de Aquino. Nesse período, continua a aliança entre razão e fé, em que a razão é sempre considerada a ‘serva da teologia’. Santo Tomás de Aquino (1225­1274) utiliza traduções de Aristóteles feitas diretamente do grego e faz a síntese mais fecunda da escolástica, que será conhecida como filosofia aristótelico­tomista. Embora continuasse a valorizar a fé como instrumento do conhecimento, Tomás de Aquino, devido à influência aristotélica, nem por isso desconsidera a importância do conhecimento natural. Se a razão não pode conhecer, por exemplo, a essência de Deus, pode, no entanto, demonstrar sua existência ou a criação divina do mundo. Além disso,tal como Aristóteles, Aquino reconhece a participação dos sentidos e do intelecto: o conhecimento começa pelo contato com as coisas concretas, passa pelos sentidos internos da fantasia ou da imaginação até a apreensão de formas abstratas. Dessa forma, o conhecimento processa um salto qualitativo ao partir da apreensão da imagem, que é concreta e particular, até a elaboração da idéia, que é abstrata e universal”. (ARANHA, Maria Lúcia de Arruda & MARTINS, Maria Helena P. Martins. Filosofando: Introdução à Filosofia. 3ª ed. São Paulo: Moderna, 2003, p. 126) Momento de reflexão ­ Por que, durante a Idade Média, a filosofia se torna serva da teologia? 7. A TEORIA DO CONHECIMENTO NA IDADE MODERNA: RACIONALISMO E EMPIRISMO
Mas, afinal, o que vem a ser o conhecimento? O processo de conhecimento pressupõe um sujeito que deseja conhecer e um objeto a ser conhecido. Mas existe um objeto independente do sujeito? O sujeito é ativo nesse processo ou o sujeito é passivo? Se na Idade Antiga e Média se têm diferentes explicações para o conhecimento, não se tem como problema, como dúvida, a capacidade humana em conhecer. As transformações trazidas no bojo do Renascimento – antropocentrismo, heliocentrismo, tendência a laicização do saber, individualismo – levarão pensadores do século XVII a questionar a própria capacidade humana de conhecer. Qual o método adequado para adquirir conhecimento? Como garantir que o conhecimento obtido é de fato verdadeiro? Se a preocupação anterior era uma preocupação metafísica do conhecimento do ser enquanto ser, agora há uma preocupação epistemológica de como se processa o conhecimento do ser. O problema deixa de ser o existente em si, para se colocar no sujeito cognoscente que conhece o existente. As principais correntes, que na Idade Moderna buscam explicar o processo de conhecimento na relação sujeito e objeto, são a do racionalismo e a do empirismo. Os racionalistas, que têm seu grande representante em Descartes, de um modo geral priorizam a razão no processo de conhecimento e aceitam a existência de idéias inatas, independentes da experiência. Já os empiristas, entre eles Bacon, Locke, Hume, enfatizam o importante papel da experiência sensível para aquisição do conhecimento. Não aceitam a tese das idéias inatas ou de um conhecimento independente ou anterior à experiência. Vejamos dois representantes dessas correntes, René Descartes e John Locke. 7.1 O racionalismo O filósofo René Descartes relata, no seu Discurso do método, que após o término de seus estudos no renomado colégio europeu, La Fleche, concluiu decepcionado que não foi possível adquirir um “conhecimento claro e seguro” das coisas necessárias para a vida. Apesar do contato com excelentes mestres e do acesso a todo conhecimento científico produzido até então, Descartes julgava que se encontrava ainda envolvido por muitas dúvidas e erros. Dessa forma, como o objetivo de René Descartes era obter um conhecimento verdadeiro, do qual não restasse nenhuma possibilidade de incerteza, passa a utilizar a dúvida como método, levando esta às últimas conseqüências. Duvidou do senso comum, dos sentidos que às vezes enganam, dos raciocínios, dos pensamentos, enfim, de tudo o que havia entrado no seu espírito até então. Mas por mais que duvidasse de tudo, não podia duvidar que ele, que duvidava, não fosse alguma coisa, ou seja, no mínimo algo que duvida, algo que pensa.
E, notando que esta verdade eu penso, logo existo, era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de a abalar, julguei que podia aceitá­la, sem escrúpulo, como o primeiro princípio da Filosofia que procurava.(DESCARTES, René. Textos Selecionados. 3ª ed. São Paulo: Abril cultural, 1983, p. 46. Coleção Os Pensadores) Descartes estabelece, assim, o primeiro princípio de sua filosofia, a certeza de sua existência, de que é um ser que pensa e não uma mera ilusão. Também conclui que, por duvidar, é um ser imperfeito, enquanto que o conhecimento é um atributo de maior perfeição, donde só poderia ter aprendido a pensar de algo mais perfeito, ou seja, de Deus. Deus é a causa para explicar a existência de um ser menos perfeito, pois a criação não é superior ao criador, e aquela traz sempre impressa a marca deste. Mas qual a garantia de que esse ser pensante vê o mundo tal qual como é? Que os objetos das idéias claras e distintas são de fato reais? Que os pensamentos que temos, quando sonhamos, são menos verdadeiros que aqueles que temos em vigília? Para Descartes, a resposta para essas questões encontra­se em Deus. Deus, sendo perfeito, tem como atributo a existência e a bondade, por isso não engana. Daí, segue que tudo que concebemos clara e distintamente é verdadeiro. Portanto, a razão pode conhecer o mundo, por meio de um método de pensamento que contenha idéias claras e distintas. E Deus, sendo perfeito e bom, logo, não enganador, dá a garantia de que essas idéias são verdadeiras. Assim, o racionalismo cartesiano apóia­se na prova ontológica de Deus, na existência de um Deus bom, não enganador. Descartes na suas Meditações, retoma essa questão e afirma que Deus também é a garantia de que algumas idéias que temos são verdadeiras. “Ora, destas idéias, umas me parecem ter nascido comigo, outras ser estranhas e vir de fora, e outras ser feitas e inventadas por mim mesmo.” (1983, p.102) As idéias inatas são aquelas que já nascem com a pessoa. Elas não resultam de uma experiência sensorial com as coisas, ou seja, não tiveram origem fora do indivíduo, nem tampouco resultam da própria fantasia e imaginação, pois também não foram compostas por idéias vindas da experiência. As idéias matemáticas, idéias geométricas, idéia de infinito etc são exemplos, para Descartes, de idéias inatas. Essas idéias têm origem em Deus, ou seja, é o criador que coloca essas idéias nos seres racionais. Dessa forma, são inatas e verdadeiras. 7.2 O empirismo Jonh Locke no seu Ensaio acerca do entendimento humano, critica a teoria das idéias inatas de Descartes. Ele concebe que a alma é como uma lousa sem inscrições,
como uma lousa em branco e, dessa forma, o processo de conhecimento só se inicia na relação com os objetos, na experiência sensível. Vamos ver um trecho de um texto do próprio Locke sobre esse assunto: “Suponhamos que a mente é, como dissemos, um papel em branco, desprovida de todos os caracteres, sem quaisquer idéias; como será suprida? De onde lhe provém este vasto estoque, que a ativa e que a ilimitada fantasia do homem pintou nela com uma variedade quase infinita? De onde apreende todos os materiais da razão e do conhecimento? A isso respondo, numa palavra, da experiência. Todo o nosso conhecimento está nela fundado, e dela deriva fundamentalmente o próprio conhecimento. Empregada tanto nos objetos sensíveis externos como nas operações internas de nossas mentes, que são por nós mesmos percebidas e refletidas, nossa observação supre nossos entendimentos com todos os materiais do pensamento. Dessas duas fontes de conhecimento jorram todas as nossas idéias, ou as que possivelmente teremos.” (LOCKE, John. Ensaio acerca do entendimento humano. São Paulo: Abril cultural, 1973, p. 165. Coleção Os Pensadores) Para Locke, a experiência sensível, a experiência com o mundo material exerce um papel fundamental na aquisição do conhecimento. Enquanto Descartes enfatiza o papel do sujeito no processo de conhecimento, Locke enfatiza o papel da experiência sensível nesse processo.
7.3 O criticismo kantiano O filósofo Immanuel Kant afirma ter realizado uma espécie de “inversão copernicana” com o conhecimento. E o que isso significa? Por “inversão copernicana” deve­se entender a transformação realizada por Kant na epistemologia, semelhante à transformação realizada por Nicolau Copérnico na concepção do universo. A concepção de universo aceita até Copérnico era a geocêntrica. Essa concepção defendia a tese de que a Terra encontrava­se no centro do universo e que o Sol, a Lua e os demais planetas giravam ao seu redor. A teoria proposta por Copérnico no século XVI provoca uma verdadeira revolução no modelo tradicional geocêntrico aceito até então. Na teoria heliocêntrica de Copérnico, a Terra perde seu lugar privilegiado na hierarquia do sistema, e o Sol passa a ocupar o seu lugar. Kant autodenominou que realizou uma espécie de “inversão icopernicana” no campo epistemológico. O problema sobre a origem do conhecimento era respondido até o século XVIII por duas principais teorias: a do racionalismo e a do empirismo. Conforme vimos, os racionalistas, de um modo geral, priorizam a razão no processo do conhecimento e aceitam a existência de idéias inatas, independentes da experiência. Já os empiristas, de um modo geral, enfatizam o papel da experiência sensível para aquisição do conhecimento. O conhecimento depende e resulta da soma e associação das sensações exteriores na
percepção, ou seja, o sujeito na aquisição do conhecimento tem uma relação passiva com o mundo. Porém, segundo Kant, as investigações sobre o conhecimento não devem partir dos objetos do conhecimento, mas sim da própria razão que produz o conhecimento. Assim como Copérnico colocou o Sol no centro do sistema, Kant coloca a razão no centro das investigações, para que primeiro fosse examinado como se processa e se fundamenta o conhecimento e o que é possível conhecer. Kant irá concluir nos seus estudos que não são os sujeitos que se conformam aos objetos, mas sim que são os objetos que se conformam às faculdades do sujeito. Para ele, o conhecimento é constituído de forma e matéria. A forma do conhecimento é dada pela razão, que é uma estrutura a priori, isto é, anterior à experiência e independente dela. Já os seus conteúdos são empíricos, ou seja, a matéria do conhecimento depende da experiência que temos com os objetos. Dessa forma, enquanto os racionalistas privilegiam a razão no processo de conhecimento e os empiristas a experiência sensível, Kant realiza uma espécie de síntese entre as duas concepções. Para ele, o conteúdo do conhecimento vem de fora, isto é, do mundo exterior, mas esse conteúdo adapta­se a nossa forma de conhecer, isto é, a nossa estrutura racional interior. (Extraído de: FERNANDES, Vladimir. Filosofia, ética e educação na perspectiva de Ernst Cassirer, 2006, Cap. 1.) Momento de reflexão ­ Diferencie as três concepções de conhecimento: racionalismo, empirismo e criticismo kantiano.
Download