o esporte na educação física escolar: uma compreensão da

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UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO
GRANDE DO SUL
DHE – DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO
CURSO DE EDUCAÇÃO FÍSICA
O ESPORTE NA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR: UMA COMPREENSÃO
DA PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO
JULIANO DA ROSA DE MOURA
Ijuí – RS
2012
1
JULIANO DA ROSA DE MOURA
O ESPORTE NA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR: UMA COMPREENSÃO
DA PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado
ao Curso de Licenciatura em Educação Física,
da Universidade Regional do Noroeste do
Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí), como
requisito parcial à obtenção do grau de
Licenciatura em Educação Física.
Orientador: Prof. Dr. Paulo Carlan
Ijuí – RS
2012
2
A Banca Examinadora abaixo-assinada aprova a Monografia:
O ESPORTE NA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR: UMA COMPREENSÃO
DA PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO
Elaborada por
JULIANO DA ROSA DE MOURA
como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciado
em Educação Física.
BANCA EXAMINADORA
__________________________________________
Prof. Dr. Paulo Carlan
Orientador
__________________________________________
Prof. Esp. Mauro Bertollo
Examinador
Ijuí (RS), dezembro de 2012
3
Aos meus pais, Ilse da Rosa e Paulo Roberto Alves
da Rosa, que sempre estavam por perto quando
precisei, e me deram incentivo para estudar desde
minha infância. E a minha esposa, Fabiélli
Foguesato, que é a pessoa que me enche de
esperança em crescer na vida e quem amo muito.
A eles meu muito obrigado!
4
AGRADECIMENTOS
Aos meus pais, pelas palavras de incentivo que
estiveram presentes em todos os momentos de
minha vida. E principalmente pelos exemplos que
são e que com toda certeza me fazem seguir no
caminho certo.
A minha esposa, pelas horas de apoio e
preocupação com minhas incertezas de vários
momentos de minha vida, e por estar sempre junto,
tanto nos momentos ruins como bons.
Aos demais familiares, que próximos ou distantes,
fazem diferença para mim e que de uma forma ou de
outra me estimulam a pensar em um futuro melhor.
A todos os amigos e colegas, que se encontram em
minha vida de diferentes maneiras, e que fazem dela
algo melhor e mais agradável.
A todos os professores que transmitiram
conhecimento em todas as etapas de meus estudos
e que mostraram o quanto o conhecimento acerca
das coisas é importante para sermos sujeitos
melhores e mais conscientes.
Ao meu orientador, professor Dr. Paulo Carlan, pelas
palavras sábias e amigas dirigidas a mim durante
toda construção deste trabalho. E pelas horas que
sempre esteve presente quando eu precisava,
obrigado pelo seu apoio.
5
“Aquilo que você mais sabe ensinar, é o que você
mais precisa aprender...”
Richard Bach
6
RESUMO
O estudo a seguir trata do esporte como conteúdo da Educação Física escolar,
sendo este um fenômeno social que é abrangente em todas as relações sociais da
população. O trabalho tem como objetivo analisar propostas de ensino dos autores
Elenor Kunz e Sávio Assis com as propostas do Referencial Curricular Lições do Rio
Grande, através das categorias de análise: objetivo da Educação Física Escolar,
críticas ao esporte, conceito do esporte, objetivo do esporte na escola e metodologia
de ensino dos esportes. Logo, realizar um diálogo com a produção do conhecimento
com base nas categorias levantadas pelas bibliografias. Primeiramente, é levantado
um pequeno histórico da produção do conhecimento em Educação Física e esporte.
Segue com as abordagens pedagógicas da Educação Física escolar, trazendo
também um pouco da disciplina ao longo do século XX, e como ela se apresenta na
escola, através do esporte de alta competição e de rendimento, mostrando o esporte
e suas representações sociais e o porquê do esporte ser escolarizado. Em seguida é
feito o diálogo com as obras dos autores e o Referencial Curricular através das
categorias de análise, concluindo com o levantamento da relação dos trabalhos
expostos, para que o leitor “visualize” a importância e a perspectiva de associar
propostas de ensino dos esportes de diferentes formas possíveis, com fim de
adequá-lo à realidade de cada comunidade participante do fenômeno esportivo
juntamente com a escola.
Palavras chave: Educação Física. Esporte. Ensino. Conhecimento.
7
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 – Mapa de competências e conteúdos – esportes ....................................... 56
8
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 – Metodologia: trabalho interação e linguagem ........................................... 36
Tabela 2 – Programa de trabalho: unidades e temas................................................. 46
Tabela 3 – Distribuição do porcentual: separando o esporte dos outros temas
estruturadores da Educação Física ............................................................................ 51
9
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 11
CAPÍTULO I ESTRUTURA ORGANIZACIONAL E METODOLÓGICA DA
PESQUISA ................................................................................................................. 13
1.1 PROBLEMA DE PESQUISA ................................................................................ 13
1.2 OBJETIVO GERAL .............................................................................................. 13
1.3 OBJETIVOS ESPECÍFICOS ................................................................................ 13
1.4 TIPO DE PESQUISA ............................................................................................ 13
1.5 OBJETO DE ANÁLISE ......................................................................................... 14
1.6 PROCEDIMENTOS .............................................................................................. 14
CAPÍTULO II A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO NA EDUCAÇÃO FÍSICA
BRASILEIRA ............................................................................................................. 15
2.1 A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO EM EDUCAÇÃO FÍSICA
E NO ESPORTE ........................................................................................................ 15
2.2 PENSAMENTO RENOVADOR PEDAGÓGICO DA EDUCAÇÃO FÍSICA
BRASILEIRA .............................................................................................................. 16
2.3 ALGUMAS ABORDAGENS PEDAGÓGICAS ...................................................... 17
2.3.1 Abordagem Desenvolvimentista .................................................................... 17
2.3.2 Abordagem Construtivista ............................................................................. 18
2.3.3 Abordagem Crítico-Superadora ..................................................................... 18
2.3.4 Abordagem Crítico-Emancipatória ................................................................ 19
2.3.5 Abordagem da Psicomotricidade .................................................................. 19
2.4 EDUCAÇÃO FÍSICA COMO COMPONENTE CURRICULAR NA EDUCAÇÃO
BÁSICA ...................................................................................................................... 20
2.5 O ESPORTE DE ALTA COMPETIÇÃO OU DE RENDIMENTO NAS AULAS
DE EDUCAÇÃO FÍSICA ............................................................................................ 22
CAPÍTULO III DIALOGANDO COM AS OBRAS DE ELENOR KUNZ E SÁVIO
ASSIS ........................................................................................................................ 27
3.1 TRANSFORMAÇÃO DIDÁTICO-PEDAGÓGICA DO ESPORTE – ELENOR
KUNZ ......................................................................................................................... 27
3.1.1 Objetivos da EF Escolar ................................................................................. 27
3.1.2 Críticas ao Esporte .......................................................................................... 28
3.1.3 Conceito de Esporte........................................................................................ 33
3.1.4 Objetivo do Esporte na Escola ....................................................................... 33
10
3.1.5 Metodologia de Ensino dos Esportes............................................................ 35
3.2 REINVENTANDO O ESPORTE. POSSIBILIDADES DA PRÁTICA
PEDAGÓGICA – SÁVIO ASSIS ................................................................................. 39
3.2.1 Objetivo da Educação Física Escolar ............................................................ 39
3.2.2 Críticas ao Esporte .......................................................................................... 40
3.2.3 Conceito de Esporte........................................................................................ 42
3.2.4 Objetivo do Esporte na Escola ....................................................................... 43
3.2.5 Metodologia do Ensino dos Esportes ........................................................... 45
CAPÍTULO IV ANÁLISE DO DOCUMENTO REFERENCIAL CURRICULAR –
LIÇÕES DO RIO GRANDE ........................................................................................ 48
CAPÍTULO V DIÁLOGO DA PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO DA OBRA DE
ELENOR KUNZ E SÁVIO ASSIS COM O REFERENCIAL CURRICULAR
LIÇÕES DO RIO GRANDE ........................................................................................ 57
5.1 OBJETIVO DA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR .................................................. 57
5.2 CRÍTICAS AO ESPORTE .................................................................................... 58
5.3 CONCEITO DE ESPORTE .................................................................................. 60
5.4 OBJETIVO DO ESPORTE NA ESCOLA .............................................................. 61
5.5 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES ................................................ 62
CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................... 64
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .......................................................................... 66
11
INTRODUÇÃO
O esporte está em foco nos dias atuais, isso acarreta uma vivência “enorme”
por meio da população, quase todo mundo pratica ou pelo menos tem vontade de
apreciar o fenômeno esportivo de diferentes formas, seja pela mídia, pelas
representações socioculturais ou praticando-o. Com isso, está clara a importância ou
pertinência do esporte ser tematizado nas aulas de Educação Física.
A escolha pelo esporte como tema desse trabalho se deu principalmente
pela sua holística inserção na sociedade. O esporte gera um “movimento” intenso
onde ele é manifestado, por isso, deve ser pensado e repensado dentro da escola,
de modo que leve o aluno a vivenciá-lo e integrá-lo no decorrer de sua vida.
A produção científica nas propostas de ensino dos esportes poderia estar
mais articulada, ou seja, o esporte ocupa praticamente 50% das aulas de Educação
Física, sempre quando se fala em Educação Física é relacionado o esporte. Com
isso, deve-se investir mais em trabalhos científicos que abordem a produção do
conhecimento, das mais variadas formas de envolvimento da população com esse
fenômeno cultural que é abrangente na sociedade contemporânea.
Na primeira parte do trabalho foi realizada uma análise dos pensamentos
renovadores da Educação Física brasileira, e são levantadas as abordagens
pedagógicas que contribuem para o desenvolvimento da disciplina dentro do âmbito
escolar. Logo, é abordada uma pequena reflexão sobre a produção do
conhecimento, que traz o positivismo como um fator importante na constituição da
pesquisa voltada para o entendimento histórico-social, esboçando assim a
contribuição da ciência do esporte no desenvolvimento do mesmo.
12
Após essa reflexão, é tratado sobre a Educação Física como componente
curricular na educação básica, que procura esclarecer o porquê da Educação Física
estar incluído no currículo da escola, qual o seu sentido? O que é a Educação Física
quando abordada dentro da escola? Que conhecimento deve ser tratado na
disciplina?
Em seguida é apresentado como o esporte de alto nível ou de rendimento é
manifestado nas aulas de Educação Física, levanta as formas de envolvimento dos
alunos com o esporte, e deixa claro o quanto o esporte abrange a maioria do espaço
das aulas da disciplina. Relaciona, também, como o esporte vem se manifestando
dentro da sociedade, através da mídia e das relações sociais das pessoas que o
praticam.
No terceiro capítulo é levantada a análise das obras através das categorias:
objetivo da Educação Física escolar; críticas ao esporte; conceito de esporte;
objetivo do esporte da escola e metodologia do ensino dos esportes. De duas obras
“Transformação
didático-pedagógica
do
esporte”
Elenor
Kunz
(2004)
e,
“Reinventando o esporte” Sávio Assis (2001), em seguida é levantada a análise do
Referencial Curricular Lições do Rio Grande (2009).
Após realizar esses levantamentos das categorias de análise, é feito análise
final através de um diálogo relacionando as duas obras de Kunz (2004) e Assis
(2001) com o Referencial Curricular, para dar um entendimento da produção do
conhecimento transmitida através das propostas de ensino dos esportes dos
autores.
13
CAPÍTULO
I
ESTRUTURA
ORGANIZACIONAL
E
METODOLÓGICA
DA
PESQUISA
1.1 PROBLEMA DE PESQUISA
Com base nas análises feitas da produção do conhecimento do fenômeno
esportivo tratado nas aulas de Educação Física escolar. Como a bibliografia está
contribuindo com o desenvolvimento de propostas para o ensino dos esportes na
aprendizagem do educando e constituição do cidadão?
1.2 OBJETIVO GERAL
Analisar a produção do conhecimento para o fenômeno esportivo tratado nas
aulas de Educação Física escolar, levantando e observando as propostas de ensino
das referidas bibliografias no processo de ensino aprendizagem do educando e na
constituição do cidadão.
1.3 OBJETIVOS ESPECÍFICOS
- Identificar as metodologias de ensino.
- Analisar se os autores apresentam uma proposta de intervenção do
ensino dos esportes na Educação Física escolar.
- Relacionar as abordagens teóricas que embasam as obras dos autores
analisados.
- Abordar a concepção de Educação Física escolar dos autores em análise.
1.4 TIPO DE PESQUISA
De acordo com Gil (2002) por ser uma pesquisa elaborada com base em
material já publicado, se trata de uma pesquisa bibliográfica, do tipo qualitativa. Pois,
discute um tema que autores debatem e trazem questionamentos sobre o mesmo.
Trata-se também de ser uma pesquisa de natureza exploratória, pelo fato de ter
levantamento bibliográfico.
14
1.5 OBJETO DE ANÁLISE
Análise do assunto e compreensão das ideias dos principais autores, Elenor
Kunz (Transformação didático-pedagógica do esporte), Sávio Assis (Reinventando o
esporte), Fernando Jaime Gonzáles e Alex Branco Fraga (Referencial Curricular
Lições do Rio Grande) e outros autores que são citados para darem apoio
bibliográfico à obra.
1.6 PROCEDIMENTOS
A pesquisa será desenvolvida através de leitura aprofundada sobre o
assunto. Logo depois de várias leituras preliminares foi feita a elaboração do
problema de pesquisa, objetivos e justificativas, refazendo uma revisão da literatura
estudada bem mais aprofundada, a revisão de literatura uma vez que os dados são
encontrados em livros que já fizeram uma análise do assunto.
Organizando as informações de acordo com a pesquisa do tipo descritiva,
pois tem principal objetivo a descrição da variável (a produção do conhecimento na
proposta de ensino dos esportes na Educação Física escolar).
15
CAPÍTULO II A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO NA EDUCAÇÃO FÍSICA
BRASILEIRA
2.1 A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO EM EDUCAÇÃO FÍSICA E
NO ESPORTE
Um fator que contribui na história da produção do conhecimento foi o
positivismo, que foi marcado pela sua [...] “corrente filosófica, fundada na França por
Augusto Comte, que objetivava estabelecer uma racionalidade científica na
condução do processo histórico-social, ou seja, organizar cientificamente a
humanidade a partir de paradigmas das ciências da natureza” (GUIMARÃES, 1978,
apud, FARINATTI, JUNIOR, 1992, p. 69).
No Brasil o positivismo se alargou, pois chegou em uma época que o país
estava em profunda desorganização. Com o embasamento cientificista, no campo
político, educacional, social e no religioso, o positivismo visava a reorganização
social do país através da ciência.
Na Educação Física o positivismo englobava a ginástica, pelo fato de
envolver o desenvolvimento do corpo. Também, o corpo fisicamente preparado
contribuía para a sociedade industrial e moral, contudo a Educação Física dentro
desse contexto pretendia-se objetivos direcionados à ludicidade, solidariedade e
organização dos trabalhadores.
Os profissionais da área sentiram a necessidade de repensar a Educação
Física na concepção crítica, na busca de melhorar o condicionamento físico e a
inclusão da população nos esportes (FARINATTI, JUNIOR, 1992).
A produção científica da Educação Física ao longo da história se deu pelas
tendências que a área iria desenvolver. As primeiras publicações foram os métodos
de ginástica (alemã e sueca), jogos de Educação Física militar (esgrima, lições de
arma, etc), atividades físicas vinculadas à área médica (FARINATTI, JUNIOR, 1992).
No que a literatura se apoiava era na melhoria da educação rígida de jovens
e crianças com a necessidade de defender a bandeira, isso ocorreu com a inserção
da escola de Educação Física no exército. Logo, as maiores publicações foram a de
artigo que desvendavam a enorme organização dos desportos da Educação Física
nos países desenvolvidos. No início da década de 80, começou surgir a produção
científica voltada para “temas ligados à formação do professor, à prática da
16
Educação Física nos sistemas formais e não formais de ensino, à análises de
documentos oficiais que regem a prática da Educação Física a nível nacional, a
utilização do desporto como meio de despolitização social (FARINATTI, JUNIOR,
1992, p. 89).
Com relação à pesquisa no esporte, devemos primeiramente entende-lo,
todos sabemos que o esporte está situado dentro da sociedade com diferentes
manifestações. O esporte é abrangente em qualquer lugar do mundo e representado
culturalmente. Com isso, dentro da ciência do esporte, encontra-se o treinamento
esportivo, que leva o ser humano a adquirir melhor performance esportiva. Porém,
para conseguirmos o maior desempenho no esporte é investido em pesquisas, ou
seja, no conhecimento científico, com ideologias relacionadas à fisiologia do
exercício e a psicologia do esporte.
Hoje a Educação Física sente a necessidade de a comunidade científica
investir mais em propostas de ensino para o fenômeno esportivo, quando tratado
dentro da escola. Poucos autores investem seu tempo em propostas de ensino de
um esporte que traga suas características de formação educativa, um esporte que
contemple a perspectiva de formar um cidadão reprodutor do mesmo, enfim, um
esporte da escola. Porém, para a pesquisa de treinamento esportivo de alto nível ou
de rendimento, percebemos um alto investimento, tanto econômico como
bibliográfico.
2.2 PENSAMENTO RENOVADOR PEDAGÓGICO DA EDUCAÇÃO FÍSICA
BRASILEIRA
No período em que os governos militares assumiram o poder do país, em
março de 1964, investiram pesado no esporte para garantir êxito nas competições
de alto nível. Entretanto, a influência do esporte no sistema de ensino educativo é
tão forte que acaba não sendo o esporte da escola e sim o esporte na escola, e
assim o professor-instrutor passando a ser professor-treinador (COLETIVO DE
AUTORES, 1992).
Esse modelo acabou sendo muito criticado na década de 80 pelos meios
acadêmicos. Porém, a Educação Física foi muito valorizada pelos conhecimentos
produzidos pela ciência, voltados para a motricidade humana.
17
A pesquisa científica está sendo vista como uma possibilidade de romper a
estagnação e provocar mudanças, ao introduzir informações novas para os
profissionais atuarem de forma que a Educação Física esteja articulada a uma
tematização regulamentada pela escola.
Com base em algumas abordagens pedagógicas que foram sendo,
discutidas e aprimoradas ao longo da história da Educação Física escolar por vários
autores da literatura da área, pode-se perceber o propósito “real” da Educação
Física dentro da escola na contribuição da constituição do individuo.
2.3 ALGUMAS ABORDAGENS PEDAGÓGICAS
2.3.1 Abordagem Desenvolvimentista
Essa abordagem é direcionada para crianças de quatro a quatorze anos, na
perspectiva de desenvolver a progressão normal do crescimento físico, do
desenvolvimento fisiológico, motor, cognitivo e afetivo-social. A abordagem
desenvolvimentista defende “a ideia que o movimento é o principal meio e fim da
Educação Física, propugnando a especificidade de seu projeto” (DARIDO, 2011, p.
4).
Para Darido (2011) a Educação Física através dessa abordagem “deve
privilegiar a aprendizagem do movimento, embora possam estar ocorrendo outras
aprendizagens em decorrência das práticas das habilidades motoras” (p. 4).
A aprendizagem do movimento é relacionada ao conceito de habilidade
motora, que é contemplado uma área de conhecimento de Educação Física, ou seja,
o desenvolvimento motor da vida do ser humano.
A abordagem desenvolvimentista é o desenvolvimento do movimento do ser
humano através das habilidades motoras, e na Educação Física escolar deve-se
adequar essa abordagem nos níveis de crescimento da criança, para que ela possa
“corresponder o nível de desenvolvimento motor à idade em que o comportamento
deve aparecer” (DARIDO, 2011, p. 5).
18
2.3.2 Abordagem Construtivista
De acordo com Darido (2011), essa abordagem é apresentada em oposição
à característica de rendimento máximo, sem considerar as diferenças individuais que
tem o objetivo de selecionar os melhores, visando participar em competições de alto
nível. Pelo contrário, a abordagem construtivista é orientada para a construção do
conhecimento e “uma maior interação com uma proposta pedagógica ampla e
integrada da Educação Física” (DARIDO, 2011, p. 6).
Nesse enfoque essa abordagem visa a participação total do aluno nos
conteúdos e na prática do movimento, porém sem considerar a especificidade do
objeto. De acordo com Darido (2011), o jogo tem papel privilegiado, enquanto
conteúdo/estratégia. Pois, é considerado o principal modo de ensinar, é um
instrumento pedagógico, um meio de ensino, pois a criança aprende enquanto joga.
2.3.3 Abordagem Crítico-Superadora
Essa abordagem também segue a oposição ao desempenho máximo do
aluno, ou seja, ao modelo mecanicista. Considera que o aluno entenda como é
adquirido o conhecimento e como ele pode ser transmitido. Aborda a metodologia de
resgate de aspectos sócio-históricos para que o aluno compreenda a produção da
humanidade nas diversas fases em que houve mudanças ao longo do tempo
(DARIDO, 2011).
A pedagogia crítico-superadora tem características específicas. Ela é
diagnosticada porque pretende ler os dados da realidade, interpretá-los e
emitir um juízo de valor [...]. É judicativa porque julga os elementos da
sociedade a partir de uma ética que representa os interesses de uma
determinada classe social. Esta pedagogia é também considerada
teológica, pois busca uma direção, dependendo da perspectiva de classe de
quem reflete. [...] Esta reflexão pedagógica é comprometida como sendo um
projeto político-pedagógico. Político porque encaminha proposta de
intervenção em determinada direção e pedagógico no sentido de que
possibilita uma reflexão sobre a ação dos homens na realidade, explicitando
suas determinações (COLETIVO DE AUTORES, 1992, apud, DARIDO,
2011, p. 8).
A autora diz ser importante ressaltar na concepção dessa abordagem em
relação aos conteúdos para as aulas de Educação Física, a relevância social, sua
contemporaneidade e sua adequação às características sócio-cognitivas dos alunos,
19
para que ele comporte os conhecimentos do senso comum com o conhecimento
científico.
2.3.4 Abordagem Crítico-Emancipatória
Esta abordagem esta focada em superar as desigualdades sociais, em uma
Educação Física crítica que estaria atrelada às transformações sociais, econômicas
e políticas. Na tentativa de romper o modelo hegemônico do esporte nas aulas de
Educação Física escolar.
O ensino escolar deve basear-se numa concepção crítica, que deve ser um
ensino de libertação de falsas ilusões, de falsos interesses e desejos, criados e
construídos nos alunos para a visão de mundo que apresentam a partir do
conhecimento. No ensino crítico os alunos passam a compreender a estrutura
autoritária dos processos institucionalizados da sociedade e que formam as falsas
convicções, interesses e desejos. Assim, a tarefa da educação crítica é promover
condições para que estas estruturas autoritárias sejam suspensas, e o ensino
encaminha no sentido de uma emancipação, possibilitado pelo uso da linguagem
(KUNZ, 2004).
2.3.5 Abordagem da Psicomotricidade
O envolvimento da Educação Física com a psicomotricidade é direcionada à
criança através dos “processos cognitivos, afetivos e psicomotores, ou seja, buscava
atingir a formação integral do aluno” (SOARES, 1996, apud, DARIDO, 2011, p. 13).
Esse processo surge a partir da década de 70 e “advoga por uma ação educativa,
que deva ocorrer a partir dos movimentos espontâneos da criança e das atividades
corporais, favorecendo a gênese da imagem do corpo, núcleo central da
personalidade” (Le BOUCH, 1986, apud, DARIDO, 2011, p. 14).
O principal objetivo da abordagem psicomotora é levar:
[...] a criança a tomar consciência de seu corpo, da lateralidade, a situar-se
no espaço, a dominar o tempo, a adquirir habilmente a coordenação de
seus gestos e movimentos. A educação psicomotora deve ser praticada
desde a mais tenra idade; conduzida com perseverança, permite prevenir
inadaptações, difíceis de corrigir quando já estruturadas... O amigo horário
20
refletia uma concepção intelectualista que dava prioridade à matéria
ensinada... (Le BOUCH, 1986, p. 25).
2.4 EDUCAÇÃO FÍSICA COMO COMPONENTE CURRICULAR NA EDUCAÇÃO
BÁSICA
A Educação Física na escola como componente curricular na educação
básica, sempre foi muito questionada. Perguntas e questionamentos de temas
relacionados à cultura corporal de movimento que Fensterseifer e González (2010,
p. 11) abordam serão analisadas:
- Não teríamos atividade física sem educação física na escola?
- Não nos exercitaríamos sem educação física na escola?
- Não nos socializaríamos sem educação física na escola?
- Não haveria lazer sem educação física na escola?
- Não teríamos aptidão física sem educação física na escola?
- Não teríamos esporte, ginástica, dança, lutas, jogos... sem educação
física na escola?
- Não teríamos saúde sem educação física na escola?
Sabemos que as respostas para essas perguntas seriam todas afirmativas.
Mas o que surge agora através de um raciocínio relevante do fazer da Educação
Física é de entender como ela trata os conteúdos e temas que já existem na escola.
Os alunos na hora do intervalo praticam jogos, esportes, exercícios físicos, e quando
estão indo para a escola ou indo pra suas casas, estão praticando atividade física e
socializando com seus colegas. Então qual o sentido da Educação Física na escola?
Algumas respostas carecem de uma teorização mais ampla sobre os
fundamentos da Educação Física escolar, como por exemplo: a) Educação
Física é educação por meio das atividades corporais; b) Educação Física é
educação pelo movimento; c) Educação Física é esporte de rendimento; d)
Educação Física é educação do movimento; e) Educação Física é educação
sobre o movimento [...] a Educação Física é uma prática pedagógica que,
no âmbito escolar, tematiza formas de atividades expressivas corporais
como: jogo, esporte, dança, ginástica, formas estas que configuram uma
área de conhecimento que podemos chamar de cultura corporal
(COLETIVO DE AUTORES, 1992, p. 50).
Nesse enfoque, podemos perceber o que realmente se trata nas aulas de
Educação Física no âmbito escolar. Através da cultura corporal abordada (conteúdos
21
e temas trabalhados na disciplina), existem formas e metodologias utilizadas e
construídas para melhor entender essas manifestações, que visam aprender a
expressão corporal como linguagem, com o intuito de desenvolver habilidades e
competências que usufruem daquilo que a Educação Física tem a oferecer.
A escola traz em sua metodologia os planos de ensino, que por sua vez
requerem ser pensados:
- o plano de estudo deve ser pensado com e para a escola;
- o plano de estudo requer justificativas explícitas sobre a escolha das
competências a serem ensinadas e a organização do conhecimento a ser
percorrida pelos alunos no trajeto escolar;
- o plano de estudo permite a articulação do trabalho coletivo, entre os
professores de uma mesma instituição, ao longo dos anos escolares.
No segundo conceito o escrito “organização do conhecimento”, nos da o
alicerce para entender a finalidade da Educação Física enquanto disciplina da escola
na preparação do aluno para seu desenvolvimento dentro da sociedade.
O esporte, as ginásticas, a dança, as lutas e as práticas de aptidão física
tornam-se, cada vez mais, produtos de consumo e objetos de conhecimento
e informações amplamente divulgadas para a população (grande público).
Jornais, revistas, videogames, rádio e televisão difundem ideias sobre a
CCM. [...] Nesse novo contexto, a concepção de EF deve assumir a
responsabilidade de formar o cidadão capaz de posicionar-se criticamente
diante de novas formas de cultura corporal, como o esporte de rendimento
(esporte espetáculo), dos meios de comunicação, as atividades de
academia, práticas alternativas, etc. [...] A EF é uma área de conhecimento
e prática que são indissociáveis em nosso entendimento e são relativos à
CCM. (BETTI, 1998, p. 17).
Betti (1998) destaca também, como tarefa da Educação Física preparar o
aluno para ser um praticante lúdico e ativo, que introduza e integre-o na Cultura
Corporal de Movimento, formando o cidadão que vai produzi-la, reproduzi-la e
transformá-la, para o aluno usufruir do jogo, do esporte, da dança e das ginásticas
em benefício de sua qualidade de vida. E o professor de Educação Física deve
auxiliar o aluno a compreender seu sentir relacionar-se à Cultura Corporal de
Movimento.
Conforme Bracht (2000, p. 15) a Educação Física já esteve ameaçada em
seu meio escolar, pelo seu próprio sistema esportivo. Pois, [...] “as escolinhas
esportivas substituem com vantagens a Educação Física”. O autor levanta essa
22
questão, pelo fato de que o governo vem investindo nas ciências do esporte e,
consequentemente nos centros de excelência (escolinhas esportivas), com fim de
detectar novos talentos esportivos. Com isso, podemos observar que o esporte sem
dúvida é um fenômeno de forte influência para que a Educação Física permaneça na
escola como disciplina obrigatória.
2.5 O ESPORTE DE ALTA COMPETIÇÃO OU DE RENDIMENTO NAS AULAS DE
EDUCAÇÃO FÍSICA
O esporte surgiu no século XVIII na Europa, através de jogos populares que
prevaleceram na Inglaterra nas escolas públicas que foram sendo regulamentadas
tendo características e formas de esportes que conhecemos hoje, por exemplo: o
futebol, o basquetebol, voleibol, atletismo, etc. No seu desenvolvimento o esporte
adquiriu características básicas como competição e alto rendimento através de
treinamento físico-técnico (BRACHT, 2003).
O fenômeno esportivo mobiliza a população mundial, através de sentimentos
e emoções ao praticar uma determinada modalidade. O ato de praticar esportes
tanto no rendimento como no lazer, desenvolvem no ser humano um sentimento de
realização pessoal e comodidade do praticante, seja ela individual, coletiva, de
esforço físico ou mental.
De acordo com Stigger (2001, p. 68):
[...] o esporte é identificado como elemento da cultura que encontra a sua
orientação numa dimensão mais ampla da sociedade, a qual, de forma
consensual, é fator determinante das suas características. Dessa maneira, o
esporte passaria a desempenhar uma ou várias funções na sociedade, e
seria um elemento de reprodução dessa mesma realidade.
Cada vez mais o esporte se torna parte de nosso mundo social. Ele se
relaciona com a vida familiar, com a educação, política, economia, artes e religião.
Com maior entendimento é possível mudá-lo de forma que mais pessoas se
beneficiem das coisas positivas que ele tem a oferecer (BARBANTI, 2003).
Kunz (2000, p. 28) reflete que “o esporte constitui-se hoje, sem dúvida
nenhuma, num dos mais importantes objetos de análise, não apenas das ciências do
esporte, mas de múltiplas abordagens literárias”. Com isso, torna-se imprescindível
questioná-lo quanto ao seu valor educativo no meio escolar.
23
Bracht (2000) levanta que o Instituto Nacional do Desenvolvimento do
Esporte (INDESP), entendia que a forma de que o país crescesse em relação ao
ganho de medalhas olímpicas era de investir na pesquisa de ciências do esporte, e
consequentemente no esporte de rendimento. Desde já, a Educação Física escolar
deveria “recuperar a dignidade pedagógica” do esporte de rendimento como tema de
ensino.
Hoje em dia várias escolas adotam o esporte como principal conteúdo/objeto
de ensino da Educação Física. Para que o aluno entenda o propósito de estudar o
esporte de rendimento no ambiente escolar, torna-se imprescindível trazer para o
chão da escola uma discussão sobre a metodologia a ser utilizada.
Nesse enfoque, a Educação Física como disciplina da escola deve se pautar
no ensino de conteúdos que respeite as potencialidades, necessidades do aluno em
todo o seu contexto. Desta forma, este componente curricular tem como propósito
principal desenvolver junto aos alunos a vivência em grupo, de socialização, de
vivências práticas individuais e coletivas, de superação de limites e da manifestação
da Cultura Corporal de Movimento.
No meio escolar, o princípio de ter o fenômeno esportivo como principal
conteúdo predominante na Educação Física, sem dúvida é de como ele vem sendo
manifestado dentro da sociedade. Com isso, o esporte de rendimento sendo uma
manifestação “visível” em todos os lugares do mundo, ou seja, que envolve os
sentimentos da maioria dos praticantes, acarreta uma vivência de aspecto formativo
para que o aluno tente chegar ao maior desempenho possível, através de
ensino/aprendizagem para o educando. Porém, dentro da escola o esporte deve ser
entendido além de suas estruturas competitivas, também como forma de lazer, de
promoção à saúde e de forte influenciador em seu valor educativo, cultural e de
inclusão social (BETTI, 1998).
Concordo plenamente com o autor, nessa perspectiva de tratar o esporte em
seu meio escolar, mas quando se trata de competição esportiva (que é reproduzida
no sistema do esporte de rendimento) sem dúvida é tematizado o esporte de
rendimento em sua concepção de prática ou teórica, ou seja, podemos trabalhá-lo
de forma que o aluno entenda sua estrutura de diferentes formas possíveis.
Dessa forma, devemos entender também, que:
24
[...] não faz parte do mundo real das práticas esportivas de rendimento
tamanha dimensão ou obsessão pela vitória, ainda mais se tratamos do
esporte de crianças e jovens. Qualquer pai, mãe, professor, treinador,
dirigente, atleta que tenha convivência em alguma comunidade esportiva
sabe que o esporte de rendimento é uma escola de vida. Se apenas a
vitória fosse objetivo final certamente não teríamos tantas crianças e jovens
participando, pois é evidente que os vencedores constituem a minoria entre
o universo dos atletas jovens (GAYA, 2000, p. 9).
O esporte de rendimento quando estudado dentro da escola, não teria como
objetivo central formar/criar atletas, pois sabemos que para isso existem as
“escolinhas” e instituições específicas.
Sendo uma produção histórico-cultural, o esporte subordina-se aos códigos
e significados que lhe imprime a sociedade capitalista e, por isso, não pode
ser afastado das condições a ela inerentes, especialmente no momento em
que se lhe atribuem valores educativos para justificá-lo no currículo escolar.
No entanto, as características com que se reveste - exigência de um
máximo rendimento atlético, norma de comparação do rendimento que
idealiza o princípio de sobrepujar, regulamentação rígida (aceita no nível da
competição máxima, as olimpíadas) e racionalização dos meios e técnicas –
revelam que o processo educativo por ele provocado reproduz,
inevitavelmente, as desigualdades sociais. Por essa razão, pode ser
considerado uma forma de controle social, pela adaptação do praticante aos
valores e normas dominantes defendidos para a “funcionalidade” e
desenvolvimento da sociedade. [...] Na escola, é preciso resgatar os valores
que privilegiam o coletivo sobre o individual, defendem o compromisso da
solidariedade e respeito humano, a compreensão de que jogo se faz “a
dois”, e de que é diferente jogar “com” o companheiro e jogar “contra” o
adversário (COLETIVO DE AUTORES, 1992, p. 70-71).
Não podemos deixar de lado a questão da reprodução do esporte de
rendimento com fator de exclusão social do aluno. O ensino dos esportes só se torna
educativo quando for trabalhado com igualdade entre as condições dos praticantes,
para que todos tenham um entendimento de como o esporte é vivenciado nas
relações sociais da população. Contudo, uma das formas que podemos trabalhar o
esporte de rendimento nas aulas de Educação Física seria especificando-o como
manifestação cultural do esporte, ou seja, da cultura corporal de movimento.
Vários autores debatem para que o ensino dos esportes dentro da escola
seja reformulado. Gaya (2000) diz não concordar com a ideia de que o esporte
quando tratado dentro da escola seja reformulado, principalmente em suas
características centrais, como o rendimento e a competição. Sendo assim, pode-se
dizer que o autor concorda em transportar as manifestações (características) do
esporte para dentro das aulas de Educação Física, e tratá-las da mesma forma
25
como elas se apresentam na sociedade. Porém, a Educação Física escolar deveria
encontrar formas de aprendizagem adequadas ao ensino dos alunos.
Bracht (2000, p. 18) aponta a questão “porque o esporte foi escolarizado?
[...] um dos interesses foi a do próprio sistema esportivo com o objetivo de socializar
consumidores e produzir futuros e potenciais atletas”. Com isso, pode-se dizer que o
autor concorda com o tema esporte de rendimento inserido nos conteúdos da
Educação Física escolar como forma de estudo.
Nós, profissionais da área devemos entender o princípio do ensino dos
esportes dentro da escola, para saber seu valor educativo. Devemos entender que
esse fenômeno está presente no mundo todo, com diferentes formas de
envolvimento da população.
As manifestações do esporte dentro da sociedade podem ser divididas em
esporte de alto rendimento (espetáculo) como competição e alcance de resultados,
sendo que o praticante faz do mesmo o seu meio de trabalho e sobrevivência,
aprimorando e ampliando seu desenvolvimento físico corporal. E o esporte enquanto
atividade de lazer, que por sua vez a prática é ligada à saúde, o prazer de jogar e a
sociabilidade (BRACHT, 2003).
Outra forma de tratar/estudar, ou seja, especificar o esporte de rendimento
nas aulas de Educação Física, seria diferenciá-lo com o esporte praticado para o
lazer, de modo que o aluno entenda a prática de cada uma dessas manifestações
representadas dentro da sociedade. Vários são as metodologias que os educadores
de Educação Física podem utilizar para tematizar essas manifestações, tanto
práticas como teóricas.
O
esporte
como
fenômeno
cultural
destaca
na
sociedade
suas
manifestações. Portanto, o esporte de rendimento sendo uma das manifestações
hegemônicas com forte influência da mídia, pode ser tematizado dentro da escola se
comprometendo com um ensino de como ele se destaca como fenômeno de nossa
cultura (BRACHT, 2007). Mas ainda o autor complementa, [...] “o esporte enquanto
prática corporal deveria ser mais o esporte praticado a partir do sentido do prazer, da
cooperação e da saúde” (BRACHT, 2009, p. 176).
Sendo assim, compreende-se que o esporte de rendimento é um tema de
estudo da EF escolar, que não pode ter caráter principal de formação de atletas,
mas que os alunos entendam e conheçam-no dentro da sociedade, vivenciando-o e
interagindo com o seu propósito (GONZÁLEZ; FRAGA, 2009).
26
Para Santin (1994, p. 35; 41; 52):
O rendimento não é um fenômeno que possa ser isolado de um contexto
maior onde encontra suporte a apoio. O rendimento encontra suas raízes
filosóficas e ideológicas na própria dinâmica interna das ciências e da
técnica; ele faz parte da imensa paisagem construída pelos homens da
sociedade industrial. Portanto, o esporte de rendimento não pode ser
entendido apenas como uma ação esportiva, mas como uma manifestação
total da criatividade humana e, mais, em todas as suas implicações culturais
possíveis”. "O que se deve levar em consideração não é o rendimento, mas
o valor simbólico que a ele é atribuído pelas diferentes culturas". "[...] é bom
lembrar que toda a ação humana não elimina em nenhum momento a
perspectiva de rendimento. O que deve ser observado é o significado ou a
valor que ele adquire no desenvolver a atividade.
Acredito que nos profissionais da área não devemos ignorar esses fatores
ou características que o esporte de alta competição e de rendimento tem em
comum. Pelo fato de o esporte ser um fenômeno que tem várias características tanto
para sua inclusão social como para um interesse tecnológico e de rendimento, isso
voltado para a ciência que esta à sua disposição.
27
CAPÍTULO III DIALOGANDO COM AS OBRAS DE ELENOR KUNZ E SÁVIO
ASSIS
Em seguida são levantadas as categorias de análise das obras dos autores
Elenor Kunz (2004) e Sávio Assis (2001), para refletir sobre o ensino do esporte na
Educação Física escolar. O objetivo não é realizar uma relação entre os dois
autores, pois isso ocorrerá no próximo capítulo com o Referencial Curricular Lições
do Rio Grande (2009). O que realmente será exposto é um levantamento das
categorias de análise de cada obra.
3.1 TRANSFORMAÇÃO DIDÁTICO-PEDAGÓGICA DO ESPORTE – ELENOR
KUNZ
3.1.1 Objetivos da EF Escolar
Kunz (2004) traz em sua obra a apresentação de uma proposta didáticopedagógica para a Educação Física escolar, voltada para o ensino dos esportes.
Entende que a Educação Física brasileira nos últimos anos, vem crescendo
gradativamente em relação a sua prática. Porém, ainda não apresenta propostas
teórico-práticas adequadas ao desenvolvimento do aluno dentro do âmbito escolar, e
consequentemente acaba ficando “fraca” sua importância na contribuição da
formação do cidadão, e quando exercida como componente curricular da escola.
Com a proibição da introdução do aluno às metodologias de ensino voltadas
para o esporte de alta competição emitida pelo MEC (1980) antes da quinta série ou
dos dez anos de idade, a Educação Física escolar teve de abolir um modelo
metodológico diferente de ensino. Consequentemente, se descobriu um modelo no
exterior de como ensinar a Educação Física nas séries iniciais, onde desenvolvesse
as habilidades motoras básicas sem que direcionasse somente a uma modalidade
esportiva.
Foi assim que a psicomotricidade efetivou-se por alguns anos nos planos de
estudos dos professores de Educação Física das séries iniciais, fazendo com que o
movimento faça parte do processo educacional do individuo “completo”, ou seja,
integral. Mas que ainda não consagrou a comunidade crítica do esporte e da
Educação Física brasileira.
28
Kunz (2004) diz que o professor deve usar de seu poder, que acima de tudo
é o poder do esclarecimento, de quem é adulto e sério, de quem está ali para ajudar
e ensinar e sempre sabe mais. Porém, esse poder deve ser usado para dar alegria
ao aluno, para ter prazer em aprender a realizar as atividades propostas pelo
professor, efetivando assim o trabalho, interação e linguagem na metodologia de
ensino da Educação Física.
[...] O professor deve constantemente desafiar o aluno ao diálogo, deve
constantemente perguntar e esperar uma resposta individual ou coletiva.
Como vocês aprenderam isso? O que foi útil para que as dificuldades
pudessem ser superadas? Como vocês podem me descrever isso? Como
se poderia chegar a outras soluções? Essas são as questões que
constantemente devem surgir e desafiar os alunos. Devem haver perguntas,
também, em que as respostas devem ser alcançadas através de uma
pesquisa por parte dos alunos e apresentadas e discutidas em aula. Sobre
a expressão verbal, o professor deve orientar os alunos sobre o que falar,
ajudá-los a preparar uma situação de fala (KUNZ, 2004, p. 144).
Como podemos perceber, o autor diz ser muito importante o diálogo sobre o
conteúdo tematizado nas aulas, perguntas individuais e coletivas, com debates e
discussões sobre o que esta sendo tratado. Enfim, cabe ao professor mediar a
corrente da transformação do aluno em um sujeito que organiza suas ideias.
3.1.2 Críticas ao Esporte
O autor tem vários apoios teóricos para a execução de sua obra. Destaca a
obra “Ensino & Mudanças”, que publicou em 1991, e que também foi um dos
alicerces para a execução desse trabalho. Nesse livro (Ensino & Mudanças), Kunz
(2004)
defende
a
necessidade
de
introduzir
uma
nova
metodologia
de
desenvolvimento da Educação Física na escola, e em especial dos esportes. Pelo
fato de existir problemas, polêmicas, discussões e divergências que envolvem o
esporte de alta competição ou de rendimento em suas características internas.
Outro modelo de crítica é direcionado ao ensino dos esportes no processo
de aprendizagem no âmbito escolar, questiona a precocidade do ensino de
modalidades esportivas para as crianças das séries iniciais. Kunz (2004) relaciona
essa crítica com a obrigatoriedade de ter profissionais de Educação Física
qualificados na área para atuarem nas séries iniciais. Esses profissionais tinham
formação concentrada nos ensinos dos esportes de alta competição, e assim
29
acabava não “ensinando” a Educação Física das diversas práticas corporais, e sim
ensinando a especificidade do fenômeno esportivo com evolução no rendimento.
Em 1991, foram aprofundadas as pesquisas voltadas ao ensino dos
esportes. Com isso, o esporte começa a passar por uma transformação didáticopedagógico, para atender a todos os participantes de todos os diferentes níveis de
habilidades motoras. Nesse momento, Kunz (2004) realiza análise de obras
realizadas no inicio da década de 90, que colaboraram de certa forma para as
propostas metodológicas de ensino da Educação Física, e em especial dos esportes
que abrange o seu maior campo.
Não vou levantar aqui todas as obras que o autor citou em seu livro, porém
algumas carecem ser de fundamental apoio para esse trabalho. A principal trata-se
do livro Metodologia do Ensino da Educação Física, organizado por um coletivo de
autores (1992).
Entretanto, trago aqui o levantamento e análise que Kunz (2004) realiza
perante esse trabalho.
A preocupação desse trabalho é com as questões epistemológicas e
metodológicas da Educação Física, ou seja, que conhecimento deve
compor o conteúdo e como transmiti-lo? Nesse sentido propõe os autores
que o conteúdo da Educação Física é o conhecimento de uma área que
denominamos de “Cultura Corporal”, onde se incluem entre outras práticas,
o jogo, a ginástica e a dança (COLETIVO DE AUTORES, 1992, p, 61-62,
apud KUNZ, 2004, p.19).
Na análise introdutória do livro quando Kunz (2004) analisa a questão
referida acima “que conhecimento deve compor o conteúdo e como transmiti-lo”?
Creio que essa questão é o suporte para entender a importância do ensino dos
esportes na Educação Física escolar. Deve-se relacionar o conhecimento tratado
com o objetivo do conteúdo proposto, ou seja, do esporte.
Analisa ainda:
O esporte é para esses autores, uma prática social de origem históricocultural definida e que precisa ser questionada como conteúdo pedagógico,
especialmente em relação às “suas normas, suas condições de adaptação à
realidade social e cultural da comunidade que o pratica, cria e recria” (p. 71).
[...] Para tanto é necessário no contexto escolar “desmitifica-lo”, através de
conhecimentos que permitam aos alunos, “criticá-lo dentro de um
determinado contexto sócio-econômico-político-cultural”. O mesmo
conhecimento deverá, também, capacitar os alunos para a compreensão
“de que prática esportiva deve ter significado de valores e normas que
assegurem o direito à prática do esporte” (p.72) (KUNZ, 2004, p.20).
30
Kunz (2004) diz que para formar um aluno capaz de “criticar o esporte para
poder compreendê-lo” (p. 21) o conteúdo deve ser transmitido de forma que traga
informações a respeito do referido trabalho. Por exemplo, no atletismo encontram-se
as habilidades motoras de correr, saltar e arremessar/lançar. Em uma proposta
metodológica crítica, deve-se aprimorar o conhecimento em relação a essas
habilidades para que o aluno sinta a necessidade de estudá-las, conhecê-las e
criticá-las de acordo com sua execução prática.
Por outro lado, o autor traz questionamentos em relação aos problemas que
o esporte de alta competição, ou de rendimento apresenta em suas características,
ou seja, a comparação objetiva entre os alunos, “quem é melhor que o outro”;
seleção dos que tem mais capacidade motora, individualismo, entre outros. Fatores
esses que normatizam e padronizam cada vez mais o movimento pelo esporte, e
impede assim que um horizonte de outras possibilidades práticas de movimentos
possam ser realizadas.
Em relação à ciência para o esporte para o rendimento.
Essa ciência torna os indivíduos praticantes desse esporte como objetos de
manipulação, objetos à sua disposição, para “trabalhá-los” de forma externa
a eles próprios, ou seja, sem a sua participação efetiva na busca de
soluções para o aperfeiçoamento físico-técnico. A participação subjetiva dos
praticantes do esporte de alta performance física cada vez mais reduzidos
aos atletas de elite, conforme a dinâmica das “fábricas de campeões”, que
são os modernos centros de treinamento esportivo (KUNZ, 2004, p. 23).
O que o autor traz em sua obra nesse momento é os questionamentos em
relação às características que a ciência do esporte repercute na prática do esporte
de alto rendimento, ou seja, “o homem torna-se ele próprio uma máquina de
rendimento” (KUNZ, 2004, p. 24). Entretanto, sem poder criar possibilidades
criativas, ficando assim instrumentalizado.
Completa Kunz (2004, p. 25)
Assim os aspectos que devem ser criticamente questionados no esporte
atualmente, são: o rendimento (para qual rendimento?), a representação
(institucional [clube, escola], nacional, estadual), o esporte de tempo livre
(as influências que vem sofrendo) e o comércio e consumo no esporte e
seus efeitos [...] Chegar enfim ao questionamento sob quais condições e de
que forma o esporte deve e pode ser praticado na escola?
31
Apesar disso, os profissionais de Educação Física ainda estão “iludidos” com
a “falsa consciência” que o esporte de rendimento ou de alta competição traz em sua
metodologia de ensino, ou seja, [...] “o esporte, para ser praticado nos padrões e nos
princípios de alto rendimento, requer exigências de que cada vez menos pessoas
conseguem dar conta, mesmo assim ele é o modelo que todos querem seguir”
(KUNZ, 2004, p. 34).
Em um momento de sua obra, Kunz (2004) levanta dois problemas sociais
que englobam o Esporte de Rendimento: o treinamento esportivo precoce e o
doping. O autor trata o esporte de rendimento como “um tipo de esporte que é
sistematicamente treinado com o objetivo de participar periodicamente em
competições esportivas” (KUNZ, 2004, p. 48).
Das várias críticas que Kunz (2004) engloba sobre o esporte de rendimento
destaca a principal, onde crianças e jovens sacrificam sua infância para se
dedicarem a uma possível possibilidade de se tornar um atleta “aceito” na
sociedade, ou seja, que absorva as características do esporte de rendimento (maior
desempenho, resultados significantes, conquistas, medalhas, entre outros).
Kunz (2004) acredita em vantagens sobre esse tipo de esporte, pois os
resultados aparecem de certa forma, o “sacrifício” vale a pena. Porém, pensando na
humanização da constituição da vida do ser humano, não se pode sacrificar a
infância especialmente nesse sentido, criando ai um debate infinito de questões.
Pelo fato do esporte de rendimento trazer em sua estrutura interna,
características inumanas referentes à sua prática (treinamento precoce e doping)
corre o risco de levar “à sua autodestruição, bem como a de seus participantes”
(KUNZ, 2004, p. 48).
Kunz (2004, p. 50) aborda em sua obra os maiores problemas que um
treinamento esportivo precoce provoca sobre a vida de uma criança.
- Formação escolar deficiente, devido à grande exigência em acompanhar
com a carreira esportiva; - a unilaterização de um desenvolvimento que
deveria ser plural; - reduzida participação em atividades, brincadeiras e
jogos do mundo infantil, indispensáveis para o desenvolvimento da
personalidade na infância. Em dias que a criança treina, pode-se, grosso
modo, dividir o plano de atividades da seguinte forma: de manhã das 8h as
12h, escola, a tarde das 13h30min as 15h30min estudo e tarefas escolares
e das 16h as 18 h treinamento.
32
O autor diz que dessa forma acarreta uma carga de trabalho de 8h diárias,
[...] “naturalmente, também, a própria saúde física e psíquica são atingidas num
treinamento especializado precoce” (KUNZ, 2004, p. 50).
Outra crítica ao treinamento esportivo precoce é a causa do problema de
ordem psíquica. Que seria a “derrota” em uma certa modalidade esportiva praticada
pelo atleta, ou seja, tanto esforço e sacrifício para no fim dar em nada. Isso acarreta
em desamino por parte da criança/atleta, que [...] “se sente excluído do mundo
esportivo” (KUNZ, 2004, p. 51).
Conclui o autor baseando-se nos aspectos positivos e negativos que o
treinamento esportivo precoce engloba, que, [...] “os que buscam mostrar com
veemência os aspectos positivos da prática desse esporte para crianças na verdade
concentram seus esforços mais no sentido de salvar o esporte do que a criança que
o pratica” (KUNZ, 2004, p. 54).
Kunz (2004, p. 61) ainda lança a questão em relação ao talento esportivo na
escola: [...] “é pedagogicamente correto, ou melhor, qual é a responsabilidade sóciocultural no encaminhamento de atletas (talentos encontrados na Educação Física
Escolar) para a prática do Esporte de Rendimento?”.
A escola não pode preparar os alunos para a função de se aperfeiçoar em
uma modalidade esportiva, ou seja, isso leva o aluno a um trabalho intenso que por
sua vez obriga o aluno a renunciar sua vida social normal. “O máximo que a
Educação Física pode fazer, é tematizar criticamente os problemas inerentes ao
esporte de alto rendimento, seus princípios e sua comercialização” (KUNZ, 2004, p.
71).
Na Educação Física Escolar não é só o desenvolvimento das ações do
esporte, deve-se propiciar e compreender criticamente as diferentes formas de
envolvimento com o esporte, ou seja, seus interesses e seus problemas
sociopolíticos, isso de forma teórica. E na prática desenvolver somente aquilo que é
relevante, observando assim o sujeito, o mundo do movimento esportivo, as
diferentes modalidades esportivas e o sentido/significado dos esportes.
Voltando para a tematização do esporte nas aulas de Educação Física nas
escolas, e esse quando é ensinado como cópia irrefletida do esporte de competição
e de rendimento, Kunz (2004, p. 125) diz que [...] “só pode fomentar vivências de
sucesso para a minoria e o fracasso ou a vivência de insucesso para a maioria”, diz
também ser uma “irresponsabilidade pedagógica por parte de um profissional
33
formado para ser professor”. Que pedagogia de ensino é essa que visa seguir os
princípios básicos da “sobrepujança” e das “comparações objetivas” que o esporte
de rendimento segue?
A transformação didático-pedagógica do esporte se dá inicialmente pela
identificação do significado de um determinado movimento de cada modalidade
esportiva. Se trabalharmos apenas o movimento executado, não estaríamos
trabalhando a modalidade, e sim o se-movimentar do individuo, mas mesmo assim
estaríamos envolvendo uma metodologia de ensino adequada ao desenvolvimento
do/s aluno/s.
3.1.3 Conceito de Esporte
O esporte está em todo o lugar se apresenta de diferentes formas e se
manifesta com toda sua representação, mesmo sem praticá-lo nos envolvemos com
ele. Kunz (2004, p. 22) acredita que pelo fato do “Brasil fazer parte da elite mundial
do futebol, do voleibol, do basquete, do judô e de certas modalidades do atletismo e
da natação”, influência nos conteúdos que podem ser trabalhados quando estudado
o fenômeno esportivo na Educação Física escolar.
3.1.4 Objetivo do Esporte na Escola
O esporte tematizado na Educação Física escolar poderia ser voltado para o
desenvolvimento do aluno em relação a determinadas liberdades, ou seja, que o
sujeito seja autônomo e participe integralmente nas diferentes formas de execução
de uma determinada modalidade.
Kunz (2004, p. 36) quando trata do esporte:
[...] numa concepção crítico-emancipatória, deverão ser incluídos conteúdos
de caráter teórico-prático que além de tornar o fenômeno esportivo
transparente, permite aos alunos melhor organizar a sua realidade do
esporte, movimentos e jogos de acordo com suas possibilidades e
necessidades.
A discussão de como o sujeito deve compreender o esporte nesta mesma
dimensão abrange também
34
[...] 1. Ter a capacidade de saber se colocar na situação de outros
participantes no esporte, especialmente daqueles que não possuem
aquelas “devidas” competências ou habilidades para a modalidade em
questão; 2. Ser capaz de visualizar componentes sociais que influenciam
todas as ações socioculturais no campo esportivo (a mercantilização do
esporte, por exemplo); 3. Saber questionar o verdadeiro sentido do esporte
e por intermédio dessa visão crítica poder avaliá-lo (TREBELS, 1979, apud,
KUNZ, 2004, p.29).
Com certeza todo esse processo de formação é amplamente importante
para a constituição de um individuo que possa intervir na sociedade crítica do
esporte. Com isso, através desse envolvimento com o conhecimento, o indivíduo se
relaciona, também, com o mundo social, político, econômico e cultural.
Em relação ao resgate dos aspectos positivos do treinamento infantil,
deixando de lado o “fanatismo” pela conquista do melhor resultado e imediato, Kunz
(2004) levanta em sua obra a elaboração de um “documento de esclarecimento” feito
em 1983 pela confederação alemã de esportes que visava o rumo do
desenvolvimento do esporte no país.
E para quem treina de maneira correta são lentados os seguintes aspectos:
1. O fenômeno ao desenvolvimento corporal, psíquico e social.
2. A transmissão de experiências e meios que fomentam a auto-valoração
e o reconhecimento das capacidades individuais próprias, assim como, a
influência positiva sobre sua auto-imagem e sua concepção de vida.
3. Permitir vivências coletivas e estimular a atuação social.
4. Ampliar o horizonte de vivências e experiências enquanto atividades de
tempo livre (BENTO, 1989, apud, KUNZ, 2004, p. 52).
O esporte analisado em uma perspectiva pedagógica para um ensino críticoemancipatório, deve tematizar conteúdos que compreendam amplamente o
fenômeno sócio-cultural e histórico, ou seja, Kunz (2004) diz que o esporte sendo
tematizado com esses aspectos darão suporte para um maior entendimento do
surgimento das diferentes modalidades esportivas.
Completa Kunz (2004), como objeto da pedagogia da Educação Física e dos
esportes, dessa forma:
[...] se entende ao se movimentar do homem, o que não implica num
homem abstrato, mas ao homem que tem história, que tem contexto, que
tem vida, que tem classe social, enfim, um homem com inerente
necessidade de se-movimentar (p. 67). [...] Nesse sentido, a pedagogia que
estuda os esportes para a Educação Física deve estudar o homem que se
movimenta, relacionando a todas as formas de manifestação deste semovimentar, tanto no campo dos esportes sistematizados, como no mundo
35
do movimento, do mundo vivido, que não abrange o sistema esportivo (p.
68)
Deve-se ensinar o esporte para o aluno de forma atrativa, ou seja, para que
o aluno inclua a sua efetivação no decorrer de sua vida. Nesse enfoque, pode-se
perceber que Kunz (2004) acredita que o principal objetivo do esporte na escola é
que todos tenham condições de vivenciarem e entrarem no mundo esportivo, de
forma integral, ou seja, praticando-o, criticando-o, recriando-o, transformando-o e
outros. Enfim, fazendo que o esporte faça parte de sua vida. Essa seria a
transformação didático-pedagógico do esporte para a sua tematização escolar [...]
em vez de copiar as possibilidades preestabelecidas do movimento nos esportes,
professores e alunos são desafiados a transformar didático-pedagogicamente o
esporte” (KUNZ, 2004, p. 129).
Como exemplo da transformação didático-pedagógica do esporte, Kunz
(2004, p. 129) diz:
Para o atletismo, mais uma vez, vale para o professor oportunizar
experiências práticas do correr, do saltar, e do lançar, ou arremessar. Isso
não tem nada a ver com o ensino técnico desses elementos na forma
requerida em competições de atletismo. Não se perde, no entanto, a atração
e o estímulo na realização prática dessas atividades. Porém, a
compreensão do sentido e a descoberta de novos sentidos no esporte não
pode ser alcançado pelo simples “fazer”, ou pela experiência prática dessa
atividade. Deve ser oportunizada a reflexão e o diálogo sobre essas práticas
para conduzir a uma verdadeira superação do ensino tradicional pelas
destrezas técnicas.
O que torna o esporte tão atrativo e que deve permanecer em seu ensino é
que [...] “todos os alunos, independente de cada um, terão possibilidades de
atualizar experiências em movimentos esportivos que somente um “expert”
consegue realizar” (TREBELS, 1989, apud, KUNZ, 2004, p. 128). E isso se
consegue com os arranjos matérias, que auxiliam muito na pratica esportiva.
3.1.5 Metodologia de Ensino dos Esportes
Kunz (2004, p, 36), diz que ao invés de tratar o esporte direcionando para o
“simples desenvolvimento de habilidades e técnicas do esporte, numa concepção
crítico-emancipatória, deverão ser incluídos conteúdos de caráter teórico prático”.
36
Com certeza a teoria se relaciona com a prática de forma geral, ou seja, trabalha o
fenômeno esportivo de uma forma que permita aos alunos melhor organizarem a sua
vivência e capacidade de conhecer, estudar e entender as modalidades esportivas,
movimentos e jogos de acordo com suas possibilidades e necessidades.
Nesse mesmo enfoque, Kunz (2004) traz uma adaptação das possibilidades
metodológicas de ensino, voltadas para o trabalho produtivo de treinar habilidades e
técnicas:
[...] interação social que acontece em todo o processo coletivo de ensinar e
aprender, mas que deve ser tematizado enquanto objetivo educacional que
valoriza o trabalho coletivo de forma responsável, cooperativa e
participativa. [...] outro aspecto importante a ser considerado é a própria
linguagem. Na Educação Física a tematização da linguagem, enquanto
categoria de ensino, ganha importância maior, pois não só a linguagem
verbal ganha expressão, mas todo o “ser corporal” do sujeito se torna
linguagem, a linguagem do “se movimentar-se” enquanto diálogo com o
mundo (p. 37).
Essa adaptação é relacionada “na constituição de um processo de ensino,
com conteúdos, métodos e objetivos do ensino” (KUNZ, 2004, p. 38).
Tabela 1 – Metodologia: trabalho interação e linguagem
Aspecto dos
conteúdos
Aspectos do métodos
Aspecto dos objetivos
Trabalho
Ter acesso a
conhecimentos e
informações de
relevância e sentido
para a aquisição de
habilidades ao esporte
de acordo com o
contexto.
Possibilitar o acesso a
estratégias de
aprendizagem, técnica,
habilidades específicas
e capacidades físicas.
Capacitar para o
mundo dos esportes,
movimentos e jogos de
forma efetiva e
autônoma com vistas à
vida futura relacionada
ao lazer e ao tempo
livre.
Objetiva
Competência
Fonte: Elenor Kunz (2004).
Interação
Ter acesso a relação
esportivo-culturais,
vinculadas à cultura do
movimento do contexto
social.
Linguagem
Ter acesso a
conteúdos simbólicos e
linguísticos que
transcendem o
contexto esportivo.
Capacitação para
assumir
conscientemente
papéis sócias e
possibilidade de
reconhecer a inerente
possibilidade de semovimentar
Capacitar para um agir
solidário, cooperativo e
participativo.
Aperfeiçoamento das
relações de
entendimento de forma
racional e organizada.
Social
Comunicativa
Desenvolver
capacidades criativas,
explorativas, além da
capacidade de
discernir e julgar de
forma crítica.
37
Baseando-se nesse modelo metodológico de ensino que Kunz (2004)
constituiu, com apoio teórico de Mayer (1987) e Habermas (1981), conclui:
Vê-se assim, que o conteúdo para o ensino dos esportes na Educação
Física não pode ser apenas prático. A realidade do esporte deve
constantemente ser problematizada para tornar transparente o que ela é e
saber decidir sobre o que ela poderia ser. Por isso, além de análises críticas
do esporte, deve ser oferecida a oportunidade de tematizar o esporte de
diferentes formas, através de programas e outros cursos específicos. Isso,
naturalmente, traz exigências novas. O ensino aqui pretendido não é um
ensino “fechado” que se concentra na aprendizagem de destrezas técnicas
para o rendimento esportivo e nem ensino “aberto” para atender, na maior
parte, os interesses do aluno – que são reais. [...] Esse deve ser um ensino
que se movimenta constantemente em um “abrir” e “fechar” de suas
relações metodológicas (p. 39).
Kunz (2004), diz ser muito importante observação da linguagem nas aulas
de Educação Física, tanto a linguagem do movimento (expressão corporal), quanto à
linguagem comunicativa verbal. “O uso da linguagem no processo de ensino deve
ser orientada para que o aluno aprenda a passar do nível de “fala comum”, para o
nível do discurso” (KUNZ, 2004, p. 42).
E no discurso “[...] devem ser partilhadas as chances de participação nas
ações de fala, onde todos têm as mesmas chances de expressar suas ideias, suas
intenções e seus sentimentos” (HABERMAS, apud, KUNZ, 2004, p. 42).
Quando Kunz (2004) aborda a competência comunicativa, diz que através
da linguagem o aluno vai entender, interpretar e criticar o fenômeno esportivo, que
se insere na sociedade de maneira aberta à possibilidades de inserção do individuo
no meio social.
Em uma concepção de problematização de ensino voltado para a Educação
Física escolar, Kunz (2004, p. 74) destaca quais aspectos devem ser observados:
1. Evidenciar e esclarecer o problema básico na encenação do esporte;
2. Destacar a importância das situações de encenação e seu significado
individual e coletivo;
3. Favorecer a responsabilidade individual e coletiva no processo de
encenação do esporte;
4. Aceitar diferentes soluções para as diferentes situações de encenação;
5. Orientar-se nas vivências e experiências subjetivas dos participantes,
para problematizar sempre novas situações.
38
Abordando esses aspectos, Kunz (2004) acredita que numa concepção
crítico-emancipatória, a Educação Física brasileira esta sendo mais bem estruturada
em um sentido de problematização. E assim, a prática educacional do esporte
voltado não apenas para um saber-fazer, mas sim também, para um saber-pensar e
um saber-sentir.
Mas agora, em um sentido amplo, Kunz (2004) tenta trazer o que realmente
acontece nas aulas de Educação Física escolar.
O que o autor observa é a execução dos alunos vivenciarem [...] “os
movimentos do esporte enquanto realizações de perfeições técnicas, de gestos
estereotipados, de melhoria de força, na velocidade e na resistência” (KUNZ, 2004,
p. 120).
Kunz (2004) diz que devem existir condições de possibilidade que permitam
uma livre e espontânea forma de se expressar. E é na tematização da dança e a
atividade lúdica que a expressão da natureza sensível, comunicativa, alegre e
prazerosa do aluno é possibilitada nas aulas de Educação Física escolar.
Através disso o ensino escolar deve se basear numa concepção crítica, ou
seja:
Tarefa da educação crítica é desenvolver as condições para que as
estruturas autoritárias e a imposição de uma “comunicação distorcida”
possam ser suspensas e encaminhadas no sentido de uma emancipação
que corresponda à realidade. isso significa que o professor deverá promover
o “agir comunicativo” entre seus alunos, possibilitado pelo uso da
linguagem, para expressar entendimentos do mundo social, subjetivo e
objetivo, da interação para que todos possam participar em todas as
instâncias de decisão, na formulação de interesses e preferências, agir de
acordo com as situações e as condições do grupo em que está inserido e
do trabalho no esforço de conhecer, desenvolver e apropriar-se de cultura
(KUNZ, 2004, p. 122).
O autor diz que o professor deve permitir e incentivar para
-
-
-
Que os alunos descubram, pela própria experiência manipulativa, as
formas e os meios para uma participação bem-sucedida em atividades
de movimentos e jogos;
Que os alunos sejam capazes de manifestar pela linguagem ou pela
representação cênica, o que experimentaram e o que aprenderam, numa
forma de exposição que todos possam aprender;
Por último, que os alunos aprendam a perguntar e questionar sobre suas
aprendizagens e descobertas, com a finalidade de entender o significado
cultural dessa aprendizagem, seu valor prático e descobrir, também, o
que ainda não sabem ou aprenderam (KUNZ, 2004, p. 124).
39
Para que ocorra a transformação didático-pedagógica do esporte, Kunz
(2004) da exemplos em sua obra de “Situações de Ensino”, onde usa arranjos
materiais para executar modalidades esportivas (atletismo). Na visão do autor o
aluno não estará disputando com o adversário, cronômetro ou tempo, mas sim, com
sigo mesmo ou contra seu próprio resultado com o material.
Kunz (2004) diz ser muito importante a elaboração de um formulário para
realizar as devidas observações práticas dos alunos. As observações devem ser
feitas no ponto de vista técnico e no ponto de vista da vivência subjetiva.
No registro de aspectos técnicos o professor sugere e os alunos observam,
no companheiro, os erros na execução de uma atividade, que os
professores de Educação Física conhecem tão bem, mas que normalmente
passam ao aluno em forma de grito ou advertência: “Não flexiona tanto o
joelho na hora do salto!”, etc. No registro dos aspectos subjetivos o
praticante deve observar suas dificuldades do ponto de vista do medo, da
insegurança e do nervosismo. No final dessas atividades em grupo o
professor se reúne com o grupo inteiro, ou nos pequenos grupos, e discute
com eles essas observações (KUNZ, 2004, p.145).
3.2
REINVENTANDO
O
ESPORTE.
POSSIBILIDADES
DA
PRÁTICA
PEDAGÓGICA – SÁVIO ASSIS
3.2.1 Objetivo da Educação Física Escolar
Assis (2001), quando terminou seu curso de graduação acreditava que a
Educação Física escolar deveria ser menos centrada especificamente no ensino dos
esportes. Para que o mesmo não seja [...] “o único organizador das aulas e também
não ser a Educação Física instrumento da instituição esportiva” (ASSIS, 2001, p. 8).
Porém, qual é o objetivo de estudo da Educação Física escolar?
Assis (2001, p.11) traz o Coletivo de Autores (1992, p. 50) que define
Educação Física como: [...] “uma prática pedagógica que, no âmbito escolar,
tematiza formas de atividades expressivas corporais como: jogo, esporte, dança,
ginástica, formas estas que configuram uma área de conhecimento que podemos
chamar de cultura corporal”.
Completa Assis (2001, p. 12) dando sua definição, na mesma perspectiva do
Coletivo de Autores:
40
[...] a Educação Física é uma disciplina que trata pedagogicamente, na
escola, do conhecimento da cultura corporal, tendo como objeto de estudo a
expressão corporal como linguagem e o jogo, a dança, a ginástica, o
esporte, o malabarismo, a mímica, entre outros, como “temas” ou “formas”
da cultura corporal que constituem o seu conteúdo.
O autor chega a essa definição com o apoio teórico de Bracht e Caparroz
que trazem reflexões das definições de Educação Física abordada como
componente curricular da escola. Também levanta em sua tese o que Betti
apresenta como objetivo da Educação Física escolar, incluindo o esporte como um
dos seus principais conteúdos.
[...] introduzir o aluno no universo cultural das atividades físicas, de modo a
prepará-lo para delas usufruir durante toda sua vida [...]. Devem-se ensinar
o basquetebol, o voleibol (a dança, a ginástica, o jogo...) visando não
apenas o aluno presente, mas o cidadão futuro, que vai partilhar, produzir,
reproduzir e transformar as formas culturais de atividade física . Por isso, na
educação física escolar, o esporte não deve restringir-se a um “fazer”
mecânico, visando um rendimento exterior ao individuo, mas tornar-se um
“compreender”, um “incorporar”, um “aprender” atitudes, habilidades e
conhecimentos, que levem o aluno a dominar os valores e padrões da
cultura esportiva (BETTI, 1991, apud ASSIS, 2001, p. 114).
Em seguida, Assis (2001) cita Bracht (1997b) que diz, o que leva o esporte
como conteúdo central da Educação Física escolar, ou seja, da cultura corporal
tratada na escola, é a forte ligação da educação e saúde. Porém, [...] “esse discurso,
já bastante criticado, não é prioritário no atual momento, graças principalmente, à
importância econômica do esporte de alto rendimento” (ASSIS, 2001, p. 115).
3.2.2 Críticas ao Esporte
Pergunta Assis (2001, p. 09) “o esporte, forma cultural que ritualiza
elementos fundamentais da sociedade capitalista como competição, a concorrência
e o rendimento, pode participar de um projeto político-pedagógico emancipatório?
Pode? Como pode?”.
Através dessa pergunta que Assis (2001) realiza em sua tese, me pergunto:
se o fenômeno cultural esportivo, que é contemplado e manifestado dentro da
sociedade de forma “visível” a todas as classes sociais, for banido da Educação
Física escolar, pelas dúvidas e críticas se ela participa ou não de um projeto-político-
41
pedagógico emancipatório. Qual seria a função ou fundamentação da Educação
Física estar presente na escola?
Assis (2001) separa as críticas feitas ao esporte em duas dimensões, uma é
a relação de exclusividade (sem espaço para outros temas). A outra dimensão esta
voltada para a função do esporte na escola, “na ideia de que o esporte que acontece
na escola esta a serviço da instituição esportiva, na revelação de atletas” (ASSIS,
2001, p. 16). Também por outro lado, como função do esporte, servindo como
crítica, a dimensão axiológica, que são os valores e sentidos que o esporte
transmite, constrói, cria e recria.
Assis (2001) relaciona essas duas dimensões com a constituição de debates
que configuram uma contraposição do esporte na escola e o esporte da escola, uma
vez que a primeira dimensão crítica estaria a serviço das instituições educacional,
através de seus valores educativos.
O autor afirma através de referência bibliográfica que o “esporte na escola”
educa.
Precisamos entender que as atitudes normas e valores que o individuo
assume através do processo de socialização através do esporte estão
relacionados como sistemas de significados e valores mais amplos, que se
entendem para além da situação imediata do esporte. [...] assim, como
vimos, realmente o esporte educa. Mas, educação aqui significa levar o
individuo a internalizar valores, normas de comportamento, que lhe
possibilitarão se adaptar à sociedade capitalista. Em suma, é uma educação
que leva ao acomodamento e não ao questionamento. Uma educação que
ofusca, ou lança uma cortina de fumaça sobre as contradições da
sociedade capitalista (BRACHT, 1986, apud ASSIS, 2001, p. 17).
A partir dai Assis (2001) expõe a questão “abandonar ou reinventar o
esporte?”. O autor entende que existe uma impossibilidade de não considerar o
esporte como tema da Educação Física escolar. Pois, o esporte em uma abordagem
crítico-superadora e “aceito como fenômeno social, é preciso ser questionado em
suas normas, suas condições de adaptação à realidade social e cultural da
comunidade que o pratica, cria e recria” (ASSIS, 2001, p. 27). E que a prática do
esporte seja adquirida pela população como um direito de um bem social, para que
possam usufruir dele.
Assis (2001) retraça a gênese do esporte, destacando a importância da
sociologia/história estarem associado a um entendimento da prática esportiva. O
42
autor traz em sua tese nesse entendimento as dificuldades da sociologia do esporte
que:
[...] desenhada pelos sociólogos, ela é desprezada pelos esportistas. [...] a
lógica da divisão social do trabalho tende a se reproduzir na divisão do
trabalho científico. Assim, de um lado existem pessoas que conhecem muito
bem o esporte na forma prática, mas que não sabem falar dele, e, de outro,
pessoas que conhecem muito mal o esporte na prática e que poderiam falar
dele, mas não se dignam a fazê-lo, ou o fazem a torto e direito (BOURDIEU,
1190, apud ASSIS, 2001, p.72).
Nesse enfoque, está clara a importância da sociologia do esporte ter vínculo
com a historicidade do fenômeno, podendo assim articular vivências das pessoas,
tanto prática como teórica.
Assis (2001) concorda com Kunz (2004), quando menciona que a literatura
sempre esteve assente nas propostas teórico-práticas ao nível de desenvolvimento
concreto da realidade da escola, que por fim, tem a finalidade de contribuir para o
avanço das reflexões/produções didático-pedagógico do esporte e da Educação
Física.
3.2.3 Conceito de Esporte
O esporte para Assis (2001) está presente em toda a sociedade. No Brasil é
difícil dizer que alguém não tenha uma ideia comum de falar sobre o fenômeno
esportivo ou entendê-lo. Mesmo quem diz não gostar do esporte, é atingido pela
grande mobilização que o país realiza, através dos meios de comunicação de
massa, nas transmissões das enormes competições nacionais e internacionais que o
país participa, e em especial a copa do mundo de futebol.
O autor diz que o esporte está sendo manifestado, fortemente na sociedade,
ou seja, nas ruas, nas praças, nos estádios, nos parques, nos clubes, enfim. Porém,
não é na escola que o esporte estabelece uma relação especial, pois [...] “é ali que o
conhecimento produzido pelo homem é pedagogizado e tratado metodologicamente
para que o aluno venha aprendê-lo ou apreendê-lo” (ASSIS, 2001, p. 06).
Nesse enfoque o termo esporte:
[...] refere-se a uma atividade corporal de movimento com caráter
competitivo surgida no âmbito da cultura européia por volta do século XVIII,
43
e que com esta, expandiu-se para todos os cantos do planeta. No seu
desenvolvimento consequente no interior desta cultura, assumiu o esporte
suas características básicas, que podem ser sumariamente resumidas em:
competição, rendimento físico-técnico, record, racionalização e cientifização
do treinamento (BRACHT, 1989c, apud ASSIS, 2001, p. 18).
Porém para Assis (2001), responder a pergunta “o que é esporte?” em uma
concepção reflexiva de tratamento do mesmo dentro da escola, seria abordar
explicações e entendimentos para a compreensão do esporte. Assim respondendo,
[...] “não o que é/mas como foi, como está e o que pode vir a ser” (ASSIS, 2001, p.
71) o esporte da escola.
Para um entendimento maior do surgimento do esporte moderno, Assis
(2001, p, 75-76) levanta alguns pontos consensuais que são verificados nos diversos
textos da bibliografia do esporte:
-
o esporte moderno surge na Inglaterra a partir do século XVIII;
surge da transformação de alguns jogos populares;
as public schools têm um papel fundamental nesse processo, e
da Inglaterra, o esporte se espalha por todo o mundo e torna-se a
principal expressão da cultura corporal e das ocupações de lazer.
Para um detalhamento das características do esporte, Assis (2001, p. 84)
cita Bracht (1991) que por sua vez escreve:
1) desenvolvimento de um treinamento racionalizado com métodos
baseados na experiência em conhecimentos sistemáticos e científicos; 2)
regulamentação das formas de movimento e aparelhos; 3) sistematização
dos exercícios; 4) tecnificação na mensuração dos rendimentos, no
desenvolvimento dos locais de prática, no desenvolvimento de
comportamentos considerados corretos/eficientes; 5) especialização das
atividades; 6) organização de competições; 7) mensuração precisa e
quantificação para a objetivação dos rendimentos (principalmente para
comparar rendimentos para além dos locais concretos, independentemente
de tempo e local) e 8) crescente orientação no rendimento e na competição
(crescente valorização de rendimentos individuais; almejar ser campeão,
bater recorde; os rendimentos são divulgados compondo um ranking).
3.2.4 Objetivo do Esporte na Escola
Em sua tese, Assis (2001) levanta elementos que relacionam o esporte na
abordagem crítico-superadora, onde destaca o seguinte:
44
3) a necessidade de transformá-lo na escola com algumas indicações de
ordem geral: a) na escola, é preciso resgatar os valores que
verdadeiramente socializa, privilegiam o coletivo sobre o individual,
garantem a solidariedade e o respeito humano e levam à compreensão de
que o jogo se faz com o outro e não contra o outro; b) o programa de
esportes deve ser desenvolvido no entendimento da evolução dos jogos,
desde o jogo com regras implícitas, do ato criativo espontâneo, até o jogo
institucionalizado com regras específicas (COLETIVO DE AUTORES, 1992,
p. 71); c) a organização do conhecimento sobre o esporte deve evidenciar o
sentido e o significado dos valores que inculca e as normas que o
regulamentam dentro do nosso contexto sócioistórico; d) a organização do
conhecimento não deve desconsiderar o domínio dos elementos técnicos e
táticos, desde que não sejam exclusivos e únicos conteúdos da
aprendizagem (COLETIVO DE AUTORES, 1992, p. 41); d) o ensino do
esporte deve possibilitar o seu entendimento como uma prática social
construída historicamente, que pode ser criticamente assistida e alteradas,
criativamente ensinada, exercitada e inclusive exercida na sua dimensão
profissional (SOARES, TAFFAREL & ESCOBAR, 1992, p. 220, apud,
ASSIS, 2001, p. 28).
Pode-se perceber que o autor tem muito apoio bibliográfico, principalmente
da obra Metodologia do Ensino da Educação Física, porém, tratando do
desenvolvimento do esporte, Assis (2001), traz uma série de aspectos que podem
ser pensados e repensados dentro da escola e da sociedade contemporânea.
- A proliferação do esporte em outras camadas sociais, em função do
surgimento de novas escolas para as classes médias e da redução da
jornada de trabalho para as classes trabalhadoras; - a formação de clubes
esportivos por pessoas interessadas como espectadoras ou executantes; - a
uniformização de regras, necessidade de regulamentação para além do
nível local, gerada pelo estabelecimento das “trocas” esportivas entre
instituições escolares, regiões, clubes, etc.; - a criação de clubes regionais a
partir de clubes locais e , depois, a criação das associações nacionais; - a
eficiência dos esporte no direcionamento da violência, funcionando como
um meio extremamente econômico para a mobilização, a ocupação e o
controle dos adolescentes; - a universalização da instituição esportiva, por
meio dos jogos olímpicos, veiculando a ideia do esporte como promotor do
internacionalismo e da paz; - a ideia de igualdade de chances de vitória na
rivalidade entre indivíduos, princípio fundamental do liberalismo (ASSIS,
2001, p. 82).
Nessas concepções, claramente podemos observar que é a própria
sociedade que “ganha” com essa forma de vivência do fenômeno esportivo.
Fazendo com que ele seja valorizado em suas relações sociais. Assis (2001) analisa
o esporte na escola com base nas articulações feitas por Kunz, Filho e Vago, que
dão suporte para a compreensão geral do esporte tematizado na escola.
45
3.2.5 Metodologia do Ensino dos Esportes
Assis (2004) levanta através de observação feita da proposta de Kunz
(2004), que a correta prioridade ao significado e à alteração de sentido individual e
coletivo numa perspectiva crítica de ensino dos esportes, não pode deixar de fora a
abordagem da técnica, como também das regras e das táticas. Pelo contrário, a
técnica e a tática e, com algumas diferenças, também as regras precisam
igualmente ser preservadas em seus significados centrais e alteradas em seu
sentido individual e coletivo. Uma coisa é certa: esses conhecimentos não podem
ser sonegados aos alunos.
[...] A técnica pode ser tratada na perspectiva da resolução de problemas
colocados para os alunos, incentivando a descoberta e a pesquisa, no
sentido de buscar a melhor maneira de fazer algo. Pode, ainda, ser tratada
como elemento do jogo e não algo de fora para dentro, razão pela qual
precisa ser aprendida, descoberta e praticada no próprio jogo ou em
situações que, mesmo parciais, preservem o significado do jogo e a própria
condição de jogo, fugindo à monotonia de exercícios fragmentados e
maçantes. Mas esse processo também deve garantir ao aluno o
conhecimento e a reflexão a respeito do desenvolvimento das técnicas em
função do esporte de alto rendimento ou espetáculo. Do contrário, a
abordagem crítica fica a meio caminho, quase crítica ou semicrítica (ASSIS,
2001, p. 126).
Já no conhecimento tático
[...] também precisa ser liberado da mera aplicação de esquemas prévios.
Como está mais relacionada à dinâmica de jogo, a tática pode não só ser
trabalhada na perspectiva da resolução de problemas concretos como se
configurar em processo desafiador de entendimento e análise de como se
desenvolve um jogo, das razões de ter-se configurado um determinado
resultado e não outro, enfim, um conhecimento que, de fato, extrapola o
saber-fazer. Também em relação à tática, devem ser garantidos o
conhecimento e a reflexão sobre os esquemas utilizados nas diferentes
modalidades e por diferentes “escolas esportivas” (ASSIS, 2001, p. 127).
E na abordagem das regras
[...] Deve ser desmitificada a ideia de que são as regras que definem o jogo
por si só. O significado central do jogo não é explicado pelas regras, embora
esteja contido nelas. O significado é, ao mesmo tempo, algo mais simples e
mais amplo. As regras isto sim, dirigem, regulam e modelam o andamento
do jogo. E quando se quer modificar o andamento do jogo, a sua direção,
regulação e modelagem, alteram-se as regras. Não esquecendo, porém,
que, mesmo trabalhando com regras alteradas, as regras oficiais das
modalidades também precisam ser conhecidas pelos alunos, podendo,
46
inclusive, ser apresentadas e experimentadas para que, daí, sejam geradas
as mudanças. Um aprendizado importante nesse aspecto é quanto ao fato
de que as regras mais respeitadas são justamente as que são (re)
elaboradas e definidas pelos próprios participantes (ASSIS, 2001, p.127).
Completa Assis (2001) com a análise dessas três dimensões (da técnica, da
tática e das regras), que todas devem ser interligadas, para que o aluno busque a
compreensão e entenda o que cada uma exige na prática do jogo, ou seja, “uma
técnica permite uma tática que, por sua vez, é facilitada ou dificultada por uma regra
etc.” (ASSIS, 2001, p. 127).
Assis (2001, p. 149) em sua tese levanta possíveis documentos que
abordam “um programa de trabalho com o tema gerador “ecologia (harmonia)”,
dividido em quatro unidades, cada um com um tema, um “tema integrador”,
conteúdos e atividades, conforme o esquema abaixo”:
Tabela 2 – Programa de trabalho: unidades e temas
Unidade
I
II
III
IV
Fonte: Sávio Assis (2001).
Tema
Ginástica
Dança
Jogos
Jogos e Esportes
Tema Integrador
Sentir
O Corpo Sente
O Grupo Sente
A Vida em Harmonia
E no “Programa de Educação Física” o planejamento é composto de
apresentação; referenciais teóricos; referenciais metodológicos; temas/conteúdos de
ensino, consideração sobre avaliação e bibliografia.
[...] no programa o conhecimento aparece mediando as relações entre o
aluno e o professor. [...] o programa segue explicando um pouco mais a
Educação Física na escola e promotora ao acesso à cultura corporal,
sistematizando as diferentes manifestações expressivas da área. [...] sobre
a postura do professor o documento considera-o mediador, orientador,
organizador e facilitador (ASSIS, 2001, p. 151).
Assis (2001) deixa claro como a competição exerce sua função na formação
social do aluno crítico.
Utiliza-se da competição como elemento educativo, meio de ensino, capaz
de assegurar valores humanos que levam à cooperação, solidariedade,
participação, regionalismo, emancipação e totalidade priorizando o diálogo
educativo, as relações professor x conhecimento x aluno, as relações sócias
(FREITAS, 1995, apud ASSIS, 2001, p. 152).
47
Nesse documento que Assis (2001) analisa, as referências metodológicas
são baseadas no Coletivo de Autores (1992) que tende a levar o aluno a um
conhecimento científico e um saber popular, e conclui. Com isso, o documento em
relação à metodologia expressa a seguinte posição:
Pretende-se desenvolver a capacidade judicativa, a emissão de juízos de
valor que possibilitem ao aluno ler a realidade com sensibilidade,
consciência diante da vida privilegiando valores tais como: diálogo, respeito
mútuo, coletivismo, cooperação, solidariedade, sensibilidade, autoestima
corporal [...] (COLETIVO DE AUTORES, 1992, apud ASSIS, 2001, p.153).
48
CAPÍTULO IV ANÁLISE DO DOCUMENTO REFERENCIAL CURRICULAR –
LIÇÕES DO RIO GRANDE
O referencial curricular de Educação Física do Rio Grande do Sul (2009)
sistematiza um conjunto de competências e conteúdos que esse componente
curricular de ensino deve tratar dentro da escola. Levanta as devidas metodologias
utilizadas para um conhecimento amplo na concepção teórico-prática abordado no
interior da disciplina. O referencial desafia o leitor a refletir sobre o que realmente
deve ser ensinado na Educação Física escolar.
No auge da ditadura militar em 1971, a Educação Física escolar passava por
uma mera prática passiva de desenvolvimento da aptidão física. A Lei de Diretrizes e
Bases da Educação Nacional (LDB nº 9394/96) juntamente com os Parâmetros
Curriculares Nacionais (PCN) contribuíram para a efetivação da Educação Física
como componente curricular de ensino da escola. Nesses documentos fica clara a
intenção de “levar os estudantes a experimentarem, conhecerem e apreciarem
diferentes práticas corporais sistematizadas, compreendendo-as como produções
culturais dinâmicas, diversificadas e contraditórias” (GONZÁLEZ; FRAGA, 2009, p.
113).
A Educação Física escolar tem como principal objetivo a educação do corpo,
que, por sua vez, envolve todas as áreas do conhecimento. Na escola a forma de
sentar, a forma de se movimentar e se expressar com o corpo dentro da sala de aula
e no pátio, os regulamentos, os conteúdos e metodologias de ensino, eventos
comemorativos, as filas, são exemplos de maneiras de como educar os corpos na
Educação Física.
A Educação Física é um componente curricular responsável pela
tematização da cultura corporal de movimento, que tem por finalidade
potencializar o aluno para intervir de forma autônoma, crítica e criativa
nessa dimensão social [...], tematize a pluralidade do rico patrimônio de
práticas corporais sistematizadas e as representações a elas atreladas [...]
deve possibilitar a releitura e a apropriação crítica dos conhecimentos da
cultura corporal de movimento (GONZÁLEZ; FRAGA, 2009, p. 117-118).
As
competências
específicas
da
Educação
Física
servem
como
entendimento do objetivo da disciplina no currículo escolar, onde as principais são
(GONZÁLEZ; FRAGA, 2009, p. 115-116):
49
-
-
-
-
-
compreender a origem e a dinâmica de transformação das
representações e práticas sociais que constituem a cultura corporal de
movimento, seus vínculos com a organização da vida coletiva e
individual, e com os agentes sociais envolvidos com sua em sua
produção (estado, mercado, mídia, instituições esportivas, organizações
sociais, etc.);
conhecer, apreciar e desfrutar da pluralidade das práticas corporais
sistematizadas, compreendendo suas caraterísticas e a diversidade de
significados vinculados à origem e à inserção em diferentes épocas e
contextos socioculturais;
conhecer e usar algumas práticas corporais sistematizadas, de forma
proficiente e autônoma, para potencializar o envolvimento em atividades
recreativas no contexto do lazer e a ampliação das redes de
sociabilidade;
utilizar a linguagem corporal para produzir e expressar ideias, atribuindo
significados às diferentes intenções e situações de comunicação, e para
interpretar e usufruir as produções culturais com base no movimento
expressivo;
interferir na dinâmica de produção da cultura corporal de movimento
local em favor da fruição coletiva, bem como reivindicar condições
adequadas para a promoção das práticas de lazer, reconhecendo-as
como uma necessidade básica do ser humano e um direto do cidadão.
A Educação Física esta orientada de acordo com o Referencial Curricular
(GONZÁLEZ; FRAGA, 2009, p. 116-117) para:
-
-
-
-
-
participar das práticas corporais de movimento, estabelecendo relações
equilibradas e construtivas com os outros, reconhecendo e respeitando o
nível de conhecimento, as habilidades físicas e os limites de
desempenho de si mesmo e dos outros;
evitar qualquer tipo de discriminação quanto à condição socioeconômica,
à deficiência física, ao gênero, à idade, à nacionalidade/regionalidade, à
raça/cor/etnia, ao tipo de corpo, etc.;
repudiar qualquer espécie de violência, adotando atitudes de respeito
mútuo, dignidade e solidariedade nas práticas corporais de movimento;
argumentar de maneira civilizada perante colegas, funcionários,
professores, equipe diretiva, pais, especialmente quando se deparar com
situações de conflito geradas por divergências de ideias, de credo, de
posição política, sobre preferencia estética, sexual, partidária ou
clubística;
contribuir de maneira solidaria no desenvolvimento de tarefas coletivas
(práticas ou teóricas) previstas para serem realizadas pela turma;
reconhecer e valorizar a aplicação dos procedimentos votados à prática
segura em diferentes situações de aprendizagem nas aulas de Educação
Física;
saber lidar com as críticas construtivas feitas por colegas, pais e
percebê-las como oportunidade de aprimoramento pessoal e do convívio
em comunidade.
Na escola o ensino dos esportes (conforme o referencial curricular) deve ser
mais voltado para os subeixos dos “esportes para saber praticar” do que para os
“esportes para conhecer”, devido às características que a prática corporal domina na
questão do tempo utilizável nas aulas, e assim as práticas específicas do esporte
50
sejam previstas no plano de estudos da escola no subeixo “esportes para saber
praticar”.
No referencial curricular em Educação Física Lições do Rio Grande, o tema
estruturador esporte é pensado em dois eixos, “saberes corporais” e “saberes
conceituais”,
dentro
de
cada
um
desses
eixos
são
identificados
mais
detalhadamente dois subeixos relacionados aos saberes corporais “esportes para
saber praticar” que:
[...] tem como propósito desenvolver durante as aulas um tipo de saber
prático que leve à apropriação dos elementos necessários para participar,
de forma proficiente e autônoma, de práticas corporais recreativas. Trata-se
de um conjunto de conhecimentos que permite ao aluno “se virar” fora da
escola em atividades ensinadas nas aulas de Educação Física: “dar para o
gasto” em um joguinho entre amigos, saber fazer aquecimento e
alongamento, entrar e sair de uma roda de capoeira, dar alguns passos de
dança, entre tantos outros exemplos. Este subeixo explicita os
conhecimentos necessários para “saber praticar” algumas das
manifestações da cultura corporal de movimento (p. 120).
E “esportes para conhecer” que:
[...] evidencia os conhecimentos sobre as diferentes práticas corporais que
também são acessíveis pela via da experimentação. São conhecimentos de
“carne e osso” que não podem ser assimilados sem passar pela vivência
corporal, sem “senti-los na pele”. São da mesma natureza do “saber
praticar”, mas deles se diferenciam em função do nível proficiência
almejado. Por exemplo, uma determinada arte marcial pode ser escolhida
pelo professor como objeto de estudo de uma das unidades didáticas que
tratam das lutas. Tal escolha implicará a proposição de um fazer corporal
em aula que leve os alunos a conhecerem tal prática, mas sem a pretensão
de investir em um nível de apropriação que lhes permita praticar, fora da
escola, a arte marcial estudada (p. 120-121).
Já no eixo “saberes conceituais”, os subeixos são divididos em dois,
“conhecimentos técnicos que,
[...] articula conceitos necessários para o entendimento das características e
do funcionamento das práticas corporais em uma dimensão mais operacional. Aqui pode ser estudado, por exemplo, como se classificam os
esportes de acordo com os princípios táticos, o efeito de determinado
exercício físico no desenvolvimento de uma capacidade motora (p. 121).
E os “conhecimentos críticos” que:
51
[...] trata do processo de inserção destas mesmas práticas corporais em
determinados contextos socioculturais. Em linhas gerais, esse subeixo lida
com temas que permitem aos alunos analisarem as manifestações da
cultura corporal em relação às dimensões éticas e estéticas, à época e à
sociedade que as gerou, às razões da sua produção e transformação, à
vinculação local, nacional e global. Além disso, este subeixo contempla a
reflexão sobre as possibilidades que os alunos têm (ou não) de acessar
uma determinada prática no lugar onde moram, os recursos disponíveis
(públicos e privados) para tal, os agentes envolvidos com o seu
desenvolvimento, entre outros aspectos (p. 122).
No referencial curricular é organizado o tempo de cada tema estruturador
para cada ciclo escolar, e no esporte o tempo é organizado da seguinte forma (p.
125):
Tabela 3 – Distribuição do porcentual: separando o esporte dos outros temas
estruturadores da Educação Física
CICLO
TEMA ESTRUTURADOR
ESPORTE
5ª e 6ª
50%
7ª e 8ª
44%
1º
44%
2º e 3º
40%
Fonte: Referencial Curricular – Lições do Rio Grande (2009).
OUTROS TEMAS
ESTRUTURADORES
(ginástica, jogo motor, lutas,
práticas corporais expressivas,
práticas corporais junto à
natureza, atividades aquáticas,
práticas corporais e
sociedade/saúde).
50%
56%
56%
60%
Mas para isso o professor deve observar o tempo disponível e o tempo
necessário para que o aluno aprenda. É preciso contemplar a diversidade do mundo
esportivo, mesmo sua diversidade sendo ampla, e cada escola deve explicitar, em
seu plano de estudo, o tempo previsto para cada tema estruturador.
A abordagem das competências e conteúdos do tema estruturador esporte é
elaborada no referencial para os ciclos de uma forma muito bem estruturada, com
claras e objetivas metodologias de ensino, usando estratégias e uma ampla
diversidade de formas de tratar os “saberes corporais” e os “saberes conceituais”.
A proposta é organizada nos subeixos (esportes para saber praticar,
esportes para conhecer, conhecimentos técnicos e conhecimentos críticos), onde
são organizados as competências e os conteúdos de acordo com o ciclo, para que o
professor tematize as referidas modalidades de acordo com o contexto da escola.
52
Segue abaixo o modelo do referencial:
53
54
55
56
Figura 1 – Mapa de competências e conteúdos – esportes
Fonte: Referencial Curricular – Educação Física (RIO GRANDE DO SUL, 2009, p. 123).
57
CAPÍTULO V DIÁLOGO DA PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO DA OBRA DE
ELENOR KUNZ E SÁVIO ASSIS COM O REFERENCIAL CURRICULAR LIÇÕES
DO RIO GRANDE
Para realizar uma análise, estabelecendo uma relação entre os autores
Elenor Kunz (2004) e Sávio Assis (2001) com o Referencial Curricular Lições do Rio
Grande (2009), é preciso entender claramente suas propostas de ensino dos
esportes na Educação Física escolar. Com muita leitura aprofundada e exaustiva
das bibliografias, característica central da pesquisa bibliográfica conforme Gil (2002),
será relacionado a seguir as referidas categorias de análise.
Até agora foram levantadas as categorias: objetivo da Educação Física na
escola; as críticas do esporte; o conceito e esporte; o objetivo do esporte na escola e
a metodologia de ensino dos esportes na escola. Adiante serão novamente
relacionadas uma a uma para possibilitar ao leitor uma “visão” sobre essas reflexões
críticas e reflexivas.
5.1 OBJETIVO DA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR
Conforme o Referencial Curricular Lições do Rio Grande, a inserção da
Educação Física na área de linguagens e códigos, se deu pelo objetivo de [...] “levar
os estudantes a experimentarem, conhecerem e apreciarem diferentes práticas
corporais sistematizadas, compreendendo-as como produções culturais dinâmicas,
diversificadas e contraditórias” (p.113).
Observando a reflexão de Kunz (2004), o mesmo entende que a Educação
Física e esporte crescem gradativamente em relação à sua prática, porém a
disciplina não apresenta, ainda, uma proposta teórico-prática adequada ao
desenvolvimento do aluno dentro da escola, podemos perceber já nesse momento
que o autor entende que à necessidade de uma nova proposta de ensino. Já
podemos levantar aqui o que Assis (2001) pensa, diz que a Educação Física deveria
ser menos centrada especificamente no ensino dos esportes.
E para esclarecer essa dinâmica, podemos levantar o que o Referencial
Curricular (2009, 114-118) coloca, como justificativa de sua criação.
58
[...] Esse documento foi concebido para funcionar como um guia de estudos
e não como um manual de instruções, portanto, não é o fim da linha, e sim o
ponto de partida de uma série de discussões sobre o que deve ser ensinado
em Educação Física na escola [...] não foi pensado como um currículo
“padrão” a ser desenvolvido em toda a rede pública estadual de ensino. [...]
o Referencial Curricular é uma referencia para auxiliar na articulação entre
os planos de estudos da disciplina e os projetos escolares específicos, por
isso, precisa estar articulado à realidade local.
Com esse levantamento, pretendo chegar a um entendimento que, as
propostas e objetivos da Educação Física e esportes quando tratada dento da
escola, deverão sempre estar em um constante aperfeiçoamento, ou seja, devemos
sempre “incrementar” o currículo da educação Física com, novas propostas,
objetivos, metodologias, concepções e conteúdos aos planos de estudos.
Entretanto, esses aspectos devem estar relacionados à realidade sociocultural do
contexto da escola. Pois, a Educação Física necessita ser acompanhada em suas
mudanças e transformações.
Ambos os autores entendem que a Educação Física escolar se apoia nos
temas estruturantes que o Referencial Curricular se baseia: esporte, ginástica, jogo
motor, lutas, práticas corporais expressivas (dança), atividades da natureza,
atividades aquáticas, práticas corporais e sociedade e práticas corporais e saúde.
Mas é no esporte que centram suas reflexões, onde iremos relacionar mais
especificadamente adiante.
Nessa mesma dimensão Kunz e Assis levantam através do apoio
bibliográfico de suas obras que, o objetivo central da Educação Física é formar um
aluno que vá produzir, reproduzir, explorar e transformar as atividades da cultura
corporal de movimento, constituindo assim um sujeito crítico e reflexivo para ter
possibilidade de intervir de forma autônoma na sociedade. Objetivo este que tem
relação com o Referencial Curricular.
5.2 CRÍTICAS AO ESPORTE
Kunz, defende a necessidade de introduzir um nova metodologia de ensino
dos esportes devido as polêmicas e discussões que o esporte de alta competição e
de rendimento repercutem dentro da escola.
Na
sociedade
contemporânea
o
esporte esta sendo totalmente visto como “espetáculo”, ou seja, é inevitável ignorar
suas características dentro da escola. Porém, pelo fato do esporte de rendimento
59
apresentar os princípios de sobrepujança e de comparações entre os praticantes
“foge” de uma concepção emancipatória.
Na análise da tese de Assis (2001), levanto uma pergunta: se o fenômeno
cultural esportivo, que é contemplado e manifestado dentro da sociedade de forma
“visível” a todas as classes sociais, for banido da Educação Física escolar, pelas
dúvidas e críticas se ela participa ou não de um projeto-político-pedagógico
emancipatório. Qual seria a função ou fundamentação de a Educação Física estar
presente na escola?
Pergunto isso, pelo simples fato das características do esporte estar
fortemente apresentadas nas relações sociais da sociedade contemporânea.
Concordo que o esporte deve ter caráter de concepção emancipatória quando
tratado dentro das aulas de Educação Física, porém, não devem abandonar suas
características centrais e internas, e sim transformá-las em educativas para um
saber-pensar sobre o esporte e suas representações.
Uma forte relação entre Assis (2001) e Kunz (2004) é a ideia de que o
esporte que acontece na escola está a serviço da instituição esportiva. Pois, a forma
que o esporte é praticado desenvolve as características do esporte de rendimento.
Para Kunz (2004) a obrigatoriedade de ter profissionais trabalhando somente
treinamento esportivo nas séries iniciais, eleva o índice do problema do treinamento
precoce, que por sua vez, tira toda a infância da criança. Com certeza deve haver as
vivências práticas dos fundamentos das modalidades esportivas nas séries iniciais.
Porém, deve-se trabalhar de forma que haja uma certa tolerância em seus objetivos,
ou seja, para saber praticar sem pensar em priorizar determinada prática.
A prática esportiva deve ser pensada de forma que leve o aluno a entendê-la
nos seus dois princípios básicos: para o rendimento e para a participação. Gonzalez
e Fraga (2009) esboçam claramente a prática do esporte para o rendimento e o para
a simples participação:
- o esporte de rendimento tem como principal característica a preocupação
com o resultado da disputa esportiva, e funciona com base na melhoria
constante do desempenho comprado entre atletas ou equipes, ou seja, o
individuo o pratica com fim de obter resultado exemplo: medalhas, fama,
dinheiro, troféus, enfim, ganhar a vida com o esporte;
- esporte de participação é uma pratica realizada no tempo livre da
população em geral, sem nenhum tipo de retorno econômico pelo
60
desempenho alcançado. É praticado pelo simples fato da pessoa se
satisfazer, estar alegre com a satisfação de conseguir algo, exemplo:
fazer gol ou ponto, ter um estilo de vida que traga uma boa qualidade de
vida.
Esses dois princípios de prática (esporte de rendimento e de participação), já
tiveram no centro das atenções da comunidade crítica da Educação Física. Assis
(2001) e Kunz (2004) levantam as críticas sobre essas duas manifestações do
esporte, principalmente direcionando ao esporte de rendimento quando tratado nas
aulas de Educação Física Pois, sua prática leva aos alunos a uma incansável
disputa pelos seus ideais, causando assim comparações entre os praticantes,
fracasso para muitos, sucesso para poucos, entre outros problemas e divergências
que levam a uma polêmica discussão.
Pode-se perceber que o RC tem uma profunda preocupação em tematizar
essas duas manifestações do esporte relacionando-as, para que o aluno saiba se
posicionar diante sua capacidade de se incluir no esporte. Com isso, pode-se
envolver o aluno tanto no processo de aprendizagem do esporte de rendimento
como no esporte de participação. Porém, devem ser tematizados com propostas de
ensino educativas, adaptando-os a uma concepção emancipatória na formação do
aluno.
Assis (2001) e Kunz (2004) questionam que a literatura esteve ausente na
elaboração das propostas teórico-práticas para o desenvolvimento da Educação
Física escolar. O RC é um dos poucos documentos que desenvolve uma proposta
de ensino integral da Educação Física e esportes.
Nesse enfoque, devemos nos se conscientizar que a Educação Física
precisa ser pensada, refletida e principalmente reorganizada, juntamente com a
realidade da escola. Com isso, propostas e estratégias de ensino devem ser
construídas para que a Educação Física mostre o porque e a sua importância de
estar no currículo escolar. Assis (2001), Kunz (2004) e o RC, já fizeram e fazem
suas contribuições em suas propostas de ensino.
5.3 CONCEITO DE ESPORTE
Nas análises feitas das obras de Kunz (2004) e Assis (2001), esta
claramente “visível” a relação de conceito de esporte para ambos os autores. Porém,
61
Assis (2001), revela fatos que ocorreram na história do esporte na sociedade.
Entendem que o esporte está presente em todo o lugar, com uma variedade imensa
de representações manifestações. Não há quem não pare para pensar ou olhar para
algum evento esportivo que acontece. Temos como exemplo a copa do mundo que,
por sua vez quando acontece, envolve toda a população.
Kunz (2004), não da um conceito claro de esporte, sua obra se direciona
mais para uma proposta de ensino e a transformação didático-pedagógica que a
tematização do esporte engloba. O autor busca apresentar uma reflexão sobre as
possibilidades de ensinar os esportes pela sua transformação didático-pedagógica,
de tal modo que a Educação Física contribua para a reflexão crítica-emancipatória
das crianças e jovens.
Já Assis (2001), se apoia no conceito de Valter Bracht (1989c). Os
pensadores da Educação Física devem esclarecer o fenômeno esportivo a partir do
que ele foi, como está e o que pode vir a ser o esporte da escola. E por isso, cabe
aqui levantar novamente a importância de construir novas propostas de ensino.
O RC entende que a diversidade sociocultural do esporte é holística, é por
isso, deve contemplar a maior parte das aulas de Educação Física. Pois, o esporte é
privilegiado pela abordagem de várias modalidades esportivas, possibilitando assim
adequar o ensino de acordo com a realidade esportiva da comunidade onde se
encontra a escola.
5.4 OBJETIVO DO ESPORTE NA ESCOLA
O esporte quando desenvolvido pensando na formação do aluno, o individuo
deve ter uma certa liberdade nas diferentes formas de como ele vai executar a
modalidade ensinada. O aluno deve pensar individual e coletivamente, para
aprimorar suas habilidades e vivências do esporte em questão. Essa forma de
praticar o esporte é levantada por Kunz (2004), que acredita que o envolvimento do
aluno com o fenômeno esportivo, vai despertar o interesse em vivenciar outras
modalidades.
Dessa forma, Kunz (2004) acredita que ira formar um cidadão crítico numa
concepção emancipatória. Já Assis (2001), pensa como objetivo central do esporte,
formar um cidadão que vá praticá-lo, criá-lo e transformá-lo de acordo com sua
prática.
62
No RC através das competências e dos conteúdos (metodologias), pode-se
perceber que o objetivo do ensino dos esportes é a sua efetivação prática no
decorrer da vida do aluno. Entretanto, para que o aluno faça do esporte parte de sua
vida, vivenciando-o com o objetivo de socialização em suas relações sociais, ou
seja, que o aluno saiba “se virar” na execução de uma modalidade esportiva. Cabe
aqui levantar a “visão” de Kunz (2004), que o principal objetivo do esporte na escola
é que todos tenham condições de vivenciarem e entrarem-no mundo esportivo.
5.5 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES
Kunz (2004) se direciona para uma metodologia de ensino dos esportes,
baseando-se na transformação didático-pedagógica através de um ensino críticoemancipatório, a importância de incluir conteúdos teórico-práticos é fundamental e
esta fortemente relacionada as metodologias de ensino do RC onde é levantado,
tanto no aspecto de desenvolvimento de habilidades técnicas, como conteúdos de
aspecto teórico e prático.
A abordagem da técnica, da tática, e das regras levantada por Assis (2001)
em sua tese, também tem forte relação com a forma que o RC tem como proposta
de ensino dos esportes. O RC quando separa os esporte nos subeixos “esportes
para saber praticar”, “esportes para conhecer”, “conhecimentos técnicos” e os
“conhecimentos críticos”, levantam claramente nas competências e conteúdos a
relação com as propostas dos autores, onde podem ser observados na figura 1
desse trabalho.
Quando Kunz (2004) diz através das categorias trabalho, interação e
linguagem, representadas por Mayer (1987), que o ensino dos esportes na
Educação Física não pode ser apenas prático, novamente esta relacionado com a
proposta do RC, pois a concepção teórico-prático é contemplada nas competências
e conteúdos abordados nos RC.
A competência comunicativa que Kunz (2004) tematiza através da
linguagem, torna-se importante na execução dos conteúdos e competências do RC,
pois a interpretação crítica do esporte abre possibilidades de criação e
transformação do mesmo.
63
O que não pode ficar de “fora” é os exemplos que Kunz (2004) relaciona em
sua obra de “situações de ensino”. Onde sua forma de tematização/execução serve
de exemplo para a reflexão da área, também como incentivo para nos desfiarmos
em criar possibilidades e propostas de ensino da Educação Física.
O ensino do conteúdo esporte relacionado pelas obras de Kunz (2004),
Assis (2001) e o Referencial Curricular Lições do Rio Grande (2009), estabelecem
possibilidades de ensino que são relevantes para a Educação Física escolar. Na
concepção crítico-emancipatória, os conteúdos de esportes desenvolvem uma certa
liberdade no aluno, ou seja, ele se sente capaz de vivenciar ou executar as
habilidades motoras. E isso, tanto nos saberes corporais como nos saberes
conceituais está abordado essa abordagem com conteúdos de caráter teóricoprático.
64
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nesse trabalho foram levantadas as possíveis discussões sobre o esporte
como prática pedagógica dentro da escola. Podemos observar várias posições dos
autores sobre esse fenômeno contemporâneo abrangente. Porém, a conclusão
dessa pesquisa foi desvendar como as propostas de ensino da Educação Física, em
especial dos esportes, estão contribuindo para a prática pedagógica de ensino
aprendizagem dos alunos.
O esporte como já foi dito, adquiriu uma hegemonia dominante na área da
Educação Física. Podemos constatar esse significado pela transmissão de
conhecimento que a bibliografia específica realizou até o momento. Porém, ainda
deixa a “desejar”, pois nós professores estamos ensinando esporte como uma
“cópia”, ou seja, modelo da representação do esporte da sociedade contemporânea.
O esporte da escola deveria ter seu próprio processo de ensinoaprendizagem. Deveriam existir propostas de ensino que são adequadas às
vivências dos alunos em suas relações sociais, ou seja, utilizar a realidade esportiva
que se apresenta na sociedade transformando-a para a realidade da comunidade
escolar como forma de ensino.
Para transformar o esporte da escola a se tornar um conteúdo de Educação
Física “apto” à perspectiva emancipatória de ensino, é preciso criticá-lo de forma que
traga perspectiva para o aprendizado prático, assim formando um sujeito crítico
capaz de transformar o esporte em seu contexto social.
Kunz (2004) diz que a estrutura básica para o ensino dos esportes apoiamse em dois aspectos teóricos, o aspecto da teoria crítica e o aspecto da teoria
instrumental. Entende que [...] “a teoria tem a capacidade de antecipar ações
práticas” (p. 30).
65
Nesse enfoque, concordo plenamente com o autor. A teoria tanto crítica
como instrumental, são de suma importância para o desenvolvimento do
conhecimento do aluno no ensino dos esportes. A teoria ou aula teórica possibilita
ao educando, ter uma visão “direta”, com um raciocínio mais adequado ao que se
está sendo tematizado ou ensinado. Com isso, deve-se interagir a teoria com a
prática para ambas se interligarem, de forma que ajude o educando a se constituir e
entender a modalidade esportiva tematizada.
O ensino dos esportes deve ser de forma que leve o aluno a conhecê-lo,
interpretá-lo e vivenciá-lo para nele intervier de modo a questioná-lo, criá-lo e
transformá-lo para que mais pessoas possam usufruir desse fenômeno sociocultural.
O aluno deve adquirir conhecimento e esclarecimentos, para entender suas relações
sociais no meio em que vive. E o esporte da escola deve formar um cidadão capaz
de identificar as diferentes expectativas da sociedade contemporânea, e
possibilidades trabalhando assim nas aulas de Educação Física de forma educativa.
Como por exemplo, o problema da discriminação dos sexos, onde os alunos formam
turmas masculinas e turmas femininas.
Também podemos observar a diversidade de práticas corporais que o
esporte tem privilégio de oferecer aos alunos, formas estas que compõe um campo
enorme de conteúdos e temas que estão englobados nas representações culturais
do esporte.
Esta na hora de se preocuparmos em aprimorar o ensino da Educação
Física escolar voltada para o esporte, e construir mais referenciais e livros didáticos,
que tenham propostas adequadas à realidade do esporte que está inserido na
sociedade contemporânea.
Conclui Kunz (2004, p. 61):
O fim de tudo certamente só alcançaremos quando conseguirmos ensinar
um esporte de tal forma que as nossas crianças possam crescer,
desenvolver e tornar-se adultas através dele e, quando isso acontecer,
quando se tornarem adultas, possam praticar esportes, movimentos e jogos
como crianças.
66
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