as relações socioespaciais entre o urbano e o consumo - Unifal-MG

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AS RELAÇÕES SOCIOESPACIAIS ENTRE O URBANO E O
CONSUMO: CONSERTAR O VELHO OU COMPRAR UM NOVO?
Taís Gonçalves Neto Costa
[email protected]
Ciências Socioambientais, Universidade Federal de Minas Gerais
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Resumo
A sociedade moderna, seu modo de apropriação e reprodução espacial reflete hábitos
e comportamentos, que por sua vez estão relacionados à própria configuração
espacial em que esta sociedade está inserida. Atualmente, com um enorme
contingente populacional concentrado em cidades, o mundo urbano, mais do que um
espaço físico, interfere na vida das pessoas que o habitam como “um modo de vida”.
Este modo de vida prega o imediatismo, o novo, o moderno, estabelecendo uma
relação direta entre o urbano e o consumo, objeto central deste trabalho. A prática de
se consertar um bem que apresentou algum tipo de defeito deu lugar à aquisição de
novos bens, condizendo melhor com o “modo de vida” urbano. A industrialização, por
sua vez, intimamente ligada ao processo de urbanização/metropolização acelera o
consumo ao introduzir técnicas como a obsolescência programada, reduzindo a vida
útil dos produtos, tais quais os aparelhos eletroeletrônicos. Contudo, o “modo de vida”
urbano e seus padrões de consumo proporcionam consequências socioambientais
cada vez maiores, sendo necessário repensá-los para que não corroborem cada vez
mais na promoção da insustentabilidade urbana.
Palavras-chave: urbano; consumo; modo de vida urbano; obsolescência programada;
insustentabilidade urbana.
Eixo de inscrição: Eixo 8 - Geografia Urbana
Introdução
Podemos caracterizar o ambiente urbano enquanto espaço físico que se
modifica através da ação social, mas também como agente de mudança do
comportamento da população que o habita, ou seja, o urbano como um modo de vida.
A industrialização transformou a paisagem e propiciou o processo de
urbanização/metropolização. Sposito (2000) logo afirma que “a industrialização dá o
“tom” da urbanização contemporânea”. (SPOSITO, 2000, p. 9). São processos que
estão intrinsecamente relacionados gerando uma dinâmica socioeconômica peculiar.
O morador da cidade assume um papel de consumidor ávido embarcado pela lógica
do imediatismo presente no espaço produzido socialmente, lugar do novo e do agora.
A industrialização aliada às novas tecnologias estabelecidas nos grandes
centros urbanos modificou o padrão de consumo das pessoas. Se um produto
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apresenta defeito ele é iminentemente substituído por outro, novo, mais moderno e
que em muitos casos vai possuir uma vida útil menor do que o produto a que
substituiu. A vida útil reduzida está relacionada não somente ao comportamento do
consumidor, mas também a obsolescência programada, uma prática industrial que
determina a duração de um produto. Sendo assim, o consumidor atual, em especial o
que vive em ambiente urbano, não somente é incentivado a consumir, através de
mídias, facilitação de acesso ao crédito, dentre outras políticas econômicas; como se
vê diante de bens que duram cada vez menos e geralmente tomam a decisão de optar
pela compra de um produto novo, uma vez que a prática de se consertar o que
estragou está cada vez mais em desuso no espaço urbano.
Percebe-se, portanto, que há uma forma bastante representativa nas cidades
de um bem se tornar obsoleto: a necessidade criada, seja pelo consumidor
influenciado pelos fatores já mencionados ou pela indústria, através da obsolescência
programada. Os aparelhos eletroeletrônicos são um exemplo sólido de bens que se
tornam obsoletos com cada vez menos tempo de uso, seja por quaisquer dos motivos
mencionados acima, sendo, portanto, uma opção viável para coleta de informações
sobre hábitos e padrões de consumo populacional.
Objetivos
O objetivo deste trabalho é analisar como a configuração espacial urbanometropolitana atrelada ao modelo econômico vigente, influencia no padrão de
consumo populacional, se tornando um “modo de vida”, de forma que práticas como o
conserto de bens eletroeletrônicos que apresentaram algum defeito, comprometendo
seu bom funcionamento, vêm decaindo ligeiramente nos grandes centros urbanos,
adotando-se então o hábito de substituir um bem “velho” por um bem novo. Pretendese também, avaliar a percepção social sobre a prática industrial de obsolescência
programada, contribuindo para o aumento do consumo em geral e especificamente
sobre eletroeletrônicos, corroborando com a insustentabilidade do ambiente urbano.
Fundamentação Teórica
A urbanização e as transformações socioespaciais advindas com ela atingem
escala mundial, sendo que as maiorias das pessoas, atualmente, estão concentradas
nas cidades. Segundo Sposito
(2000),
“a cidade
recebeu diretamente
as
consequências do rápido crescimento populacional imprimido pela Revolução
Industrial, e sofreu, em nível de estruturação de seu espaço interno, muitas
transformações”. (SPOSITO, 2000, p.70).
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Na medida em que a sociedade produz o espaço, o espaço reflete os hábitos e
práticas sociais, criando um “modo de vida”. Lefebvre (1991), salienta que “ não é
apenas a sociedade que se torna o lugar da reprodução, mas o próprio espaço”. No
espaço urbano este modo de vida está centrado na produção e no consumo. Segundo
Ortigoza (2010):
A sociedade de consumo tem sua base no modo de vida
urbano e está apoiada num sistema capitalista produtor de
mercadorias. O espetáculo, o efêmero, a moda e a
obsolescência impõem novas e consecutivas necessidades.
Vivemos um tempo em que a produção de mercadorias não só
visa atender à demanda, mas também criar a necessidade.
(ORTIGOZA, 2010, p. 22).
O consumo em meio urbano está ligado também à obsolescência programada,
prática industrial comum nos dias de hoje que reduz a vida últil dos bens de consumo.
Vega (2012) reflete sobre o consumo sem escalas e a obsolescência programada
relacionando-os:
“[...] o comportamento consumista potencializado na sociedade
atual, tem sido aproveitado mediante a implementação de
estratégias associadas à obsolescência programada, de
maneira que produtos e serviços tornam-se altamente
perecíveis enquanto funcionalmente possam ter maior vida
útil.(VEGA, 2012, p. 56, tradução minha).
Propor soluções para o consumo no mundo urbano é uma tarefa árdua, pois
influencia no modo de vida pessoal e em toda a estrutura organizacional em que a
sociedade se contextualiza. No entanto, em busca de um espaço mais sustentável,
Brakel (1999) propõe que “é necessário termos a habilidade de buscar o equilíbrio
entre o que é ecologicamente necessário, socialmente desejável e politicamente
atingível”. (BRAKEL, 1999).
Metodologia
Como um mecanismo de apurar os hábitos da população urbana em relação ao
procedimento que adotam sobre aparelhos eletroeletrônicos, serão aplicados
questionários semi-estruturados na região metropolitana de Belo Horizonte, no mês de
abril deste ano, com a maior diversidade possível de pessoas em relação à idade,
escolaridade e renda familiar mensal, abordando aspectos sobre a atitude adotada
quanto a aparelhos que apresentam defeito, opinião sobre vida últil de aparelhos
eletroeletrônicos na atualidade e há vinte ou trinta anos atrás e um tópico especial
sobre os telefones celulares, aparelhos que atualmente são muito utilizados e
descartados com facilidade, especialmente mediante a ascensão de novas tecnologias
que tornam o aparelho obsoleto rapidamente. Ao final do questionário, será
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perguntado sobre a disposição pessoal de se pagar um valor mais caro por um
aparelho considerado social e ambientalmente justo, considerando fatores como não
exploração desenfreada do meio ambiente e da mão de obra humana, e qual
porcentagem essa pessoa estaria disposta a pagar a mais, esta última questão, sendo
indicadora da relação pessoal com a sustentabilidade do espaço urbano.
Resultados Esperados
Presume-se que os dados apurados através da aplicação dos questionários
apresente resultados que corroborem com a afirmação de que existe um “modo de
vida urbano” e que ele está diretamente relacionado ao padrão de consumo
populacional, sendo este padrão insustentável do ponto de vista socioambiental. Há
uma expectativa de que algumas pessoas tendam a omitir ou não responder
condizentemente com suas atitudes cotidianas, tendo em vista que serão expostas a
questões que indagam sobre comportamentos “não sustentáveis”. Entretanto e
justamente por este fato, espera-se que as pessoas submetidas ao questionário
possam refletir seu próprio padrão de consumo, avaliando e repensando suas
necessidades e buscando se orientar sobre hábitos que contribuam com a
sustentabilidade do lugar onde vivem.
Considerações Finais
Essa lógica predominante no mundo hoje acelera o processo de degradação
ambiental quando, ou também, não utiliza da exploração sem proporções de mão de
obra humana. O “modo de vida” urbano que alia necessidades criadas pelo
consumidor e práticas industriais como a de obsolescência programada, é um fator
alarmante, uma vez que a maioria da população se encontra distribuída em grandes
cidades. Poucos consomem a maioria, e as desigualdades se acentuam, aumentando
a dificuldade de se alcançar uma equidade socioambiental.
Referências Bibliográficas
BRAKEL, M. V. Os desafios das políticas de consumo sustentável. Cadernos de
Debate Projeto Brasil Sustentável Democrático, n.2. Rio de Janeiro, FASE, 1999.
LEFÈBVREVE, H. A vida cotidiana no mundo moderno. São Paulo: Ática, 1991.
ORTIGOZA, S. A. G.. Da produção ao consumo: dinâmicas urbanas para um
mercado mundial. In: Silvia Ap Guarnieri Ortigoza;Ana Teresa Caceres Cortez.
(Org.). Da produção ao consumo: Impactos Sócio-Ambientais no Espaço Urbano. São
Paulo: Cultura Acadêmica, 2010, v. , p. 1-20.
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SPOSITO, M. E. B. Capitalismo e Urbanização. In Repensando a Geografia. 10ª Ed.
São Paulo, Contexto, 2000.
VEGA, O. A. Efectos Colaterales de la obsolescencia tecnológica. Revista
Facultad de Ingeniería, UPTC, Enero-Junio de 2012, Vol. 21, No. 32, pp.55-62.
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